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A difícil arte de ser eu, Lucas (temporada 2) episódio 6: “só pro meu prazer”

O apartamento para onde Thiago me leva depois que recuso-me a ser deixado na porta do quase ex prédio onde moro, não parece ser tão amplo. Sim. Não conheço esse Thiago e se eu estivesse sóbrio não estaria aqui, agora, mas chegou a hora de deixar pra trás o idiota do Lucas, aquele sonhador que acredita em alma gêmea. Vou ser como os carinhas gays da minha geração e só buscar curtir, sem dramas, sem raízes, dormindo uns com os outros sem compromisso, sem me importar de no dia seguinte dar uma satisfação, retornar uma ligação…

Parado sob o batente da porta eu consigo enxergar a maior parte dos cômodos: a sala de jantar, a de estar e a cozinha são ambientes integrados, sem divisória entre si, e os poucos móveis instalados tem tonalidades queimadas, o que confere ao lugar certo aconchego, contrastando com a praticidade deliberadamente arquitetada; duas largas janelas cobrem a lateral, permitindo, acredito, durante o dia, uma iluminação natural privilegiada, porém, a essa hora da noite (ou madrugada, vai saber), estão ocultas por cortinas de poliéster.

Sem presa, beirando uma gentileza duvidosa, Thiago me encaminha até o sofá sem braço, um dos pouquíssimos móveis existentes no apartamento, onde praticamente me obriga a sentar; nesse instante, enquanto ele termina de me acomodar, jogando o seu blazer azul marinho para o lado, nossos rostos ficam muito, muito próximos e eu, com o coração sobressaltado, acredito piamente que serei abraçado, mas me engano, pois Thiago bate em meu ombro, como quem consola uma criança:

– Amanhã bem cedo te levo pra casa. Sua mãe deve estar preocupada, já que você insiste em não querer que ninguém saiba onde está.

Eu falei pra ele que tinha uma mãe? Não me lembro.

Não respondo e Thiago ainda permanece semi agachado acima de mim. Nossos olhos se cruzam. Ele me fita com um desejo suplicante, posso perceber através de suas pupilas dilatadas.

O que ele está esperando?

Thiago se afasta, ficando de pé.

O que eu estou esperando? Não tenho nada a perder… Amanhã não nos veremos nunca mais, eu sei disso, afinal ele não quis dizer onde vive…

Em questão de segundos levanto e me coloco à sua frente e, cara a cara, sem pensar, até porque se o fizer posso acabar desistindo de tudo, beijo sua boca; graças ao Criador não encontro qualquer sinal de resistência, tão somente Thiago me encara entre surpreso e abalado, com os seus olhos completamente abertos. Sua respiração, nossa respiração, segue entrecortada enquanto nossos lábios continuam se tocando; ele fecha os olhos e eu então me inclino para senti-lo ainda mais perto ao mesmo tempo que estico uma das mãos e a coloco sobre sua cintura…

Thiago permanece imóvel, completamente passivo.

Fecho também os olhos e começo a beijar o seu rosto, depois o seu pescoço, suave, sem pressa… Por fim minhas mãos acabam se encontrando na altura da sua cintura, esbarrando na fivela do cinto que ele está usando…

Inspiro profundamente.

Thiago, numa súbita mudança de postura, segura minhas mãos, impedindo-as que continuem o caminho para sua virilha, resgatando uma delas até levá-la de volta à altura de seu peito, apertando-a forte e então abro os olhos. Ele está me encarando, absorto, amargurado, despojado de qualquer expressão. Fitando-me com um anseio e uma tristeza intrigante, chegando a ponto de me deixar agitado, inquieto, e com isso me motivando a dar um passo para trás, mas ele me impede, apertando minha cintura e mais ainda a minha mão contra o seu peito à medida que aproxima o seu rosto, tornando cada vez menor a distância que ainda existe entre nós dois.

Um silêncio estranho, mordaz até, toma conta de toda a sala, de todo o espaço que nos rodeia até que Thiago decide quebrá-lo:

– Você é muito mais bonito pessoalmente – ele sussurra. Sua voz denotando desassossego…

Mais bonito pessoalmente? O que ele quis dizer com isso? Conhecemos-nos no final da tarde de hoje, no calçadão, e depois nos encontramos naquele quiosque… É claro. Ele deve ter fuçado o meu facebook, o meu Insta… Não. Ele não sabia o meu nome até pegar minha identidade falsa lá no quiosque e depois disso, até onde me lembro, não o deixei sozinho em nenhum instante…

Volto a me concentrar no semblante de Thiago e me surpreendo ao encontrar lágrimas cintilando dentro de seus olhos, seus lábios se contorcendo num sorriso de uma criança valente que tenta não chorar…

– O que está acontecendo, “Thiago”? – ao chamá-lo pelo nome, pela segunda vez me vem à mente de que não nos apresentamos, não dissemos nossos nomes um ao outro. Mas foi essa a forma como o seu amigo, ou companheiro o chamou, lá, na praia… 

Thiago baixa o olhar até a altura dos meus lábios e em seguida volta a me fitar de um modo atordoante, nada respondendo, ignorando por completo a minha pergunta. 

– A aliança…

Tento dizer qualquer coisa enquanto me esforço para tirar minha mão de cima do seu peito. Não consigo, pois Thiago me empurra de volta para o sofá, onde caímos os dois, lado a lado e suas pernas não demoram a entrelaçar-se às minhas e seu tórax a inclinar-se sobre o meu…

Sou invadido por uma comichão ao mesmo tempo que não consigo controlar um ricto nervoso… O ar está começando a me faltar e daí volto a cerrar os olhos…

Amanhã não nos veremos nunca mais.

Merda. Não posso pensar nisso, pelo menos não dessa forma tão dramática… Preciso…

Sinto a mão te Thiago acariciando o meu rosto, depois minha nuca sendo envolvida…

– O que quer que aconteça depois de hoje, o que quer que você descubra… – Thiago balbucia reticente.

Abro os olhos.

– Do que você está falando? – o desapontamento em minha voz é o mesmo de uma criança que abre um presente belamente embrulhado e o encontra vazio.

Thiago sorri arrependido como quem se desculpa e não me deixa prosseguir, colocando o dedo indicador de sua mão esquerda sobre a minha boca, tocando-a de leve enquanto me encara, nitidamente simulando um ar de autoridade e rigor (semelhante aquele de quando pediu para ver minha identidade) para logo em seguida modificar seu semblante, permitindo que seus lábios sejam cortados por um sorriso terno, mas também malicioso.

– Meu magrinho.

Como?

O rosto de Thiago está vindo em minha direção e não tenho tempo de reagir. Ele substitui o dedo que mantinha sobre minha boca pelos seus lábios e a partir deste instante meu corpo não me obedece mais.

Sem qualquer sinal de resistência, me deixo ser levado até um curto corredor cercado por paredes brancas, nuas, tão somente maculadas pela luz difusa de um abajur que fica na passagem entre este cômodo e a sala de estar. Thiago, que está um passo a frente de mim, se vira num gesto abrupto, sem sequer me encarar, e me encosta à parede, sem aviso prévio, sem perguntas, colocando minhas mãos para o alto, entrelaçando meus pulsos, mantendo-os aprisionados sob sua mão esquerda enquanto com a destra começa a acariciar todo o meu corpo, juntando os seus lábios aos meus, me beijando desesperadamente, invadindo minha boca com tamanha sofreguidão, tirando o meu fôlego.

Sonhador, precipitado, desesperado, não importa, Thiago está me fazendo sentir coisas que jamais experimentei em todos os meses de namoro que tive com o Jonas, com o Thomas ou com o David: um ardor permitindo dois corpos se entrelaçarem de maneira intensa, profunda e perfeita, como se fossem apenas um em uma dança de pura harmonia e beleza, transformando o suor em algo inevitável e revigorante.

Ah, aqueles três, agora, não passam de meros laboratórios, ensaios que me prepararam para o grande espetáculo que é poder sentir-me uma espécie de nobre seletividade na esfera do sexo. 

Seguro o rosto de Thiago para encará-lo. Preciso olhar em seus olhos e ter a certeza de que ele é tudo o que há de mais belo nesse mundo, que tudo isso que está acontecendo é real e que nada e nem ninguém conseguirá me atingir sobre a face da terra… Mesmo um pouco resistente, Thiago cede diante de minha obstinação, erguendo de início as sobrancelhas em descrédito, mas logo me entregando, sobre a face flamejante, um meio sorriso acalentador, carregado de confiança, mas que não dura tanto tempo, pois ele volta novamente aos meus lábios, tornando mais intensa a força de sua mão sobre os meus pulsos e com a outra enlaçando minha cintura, empurrando-a de encontro à sua à medida que começa a sussurrar palavras obscenas ao pé do meu ouvido.

Um arrepio atravessa toda minha coluna vertebral de cima a baixo, na velocidade de um relâmpago ao tempo que um calor quase sufocante me invade o peito, fazendo meu coração bater mais depressa.

A adrenalina e a testosterona dentro desse corredor parecem palpáveis.

Thiago, por fim, libera minhas mãos e em seguida começa a se afastar, caminhando para trás, passos lentos, enquanto vai esquadrinhando todo o meu corpo, parecendo enxergar a nudez por baixo de minhas roupas, avaliando-me de cima a baixo como se eu fosse uma mercadoria prestes a ser adquirida, uma vítima indefesa diante de uma ave de rapina que está disposta a desferir o seu ataque sem qualquer piedade.

Ao alcançar a parede atrás de si, Thiago arranca a camisa branca lisa que está vestindo, jogando-a para algum lugar que não faço a mínima questão de saber, passando a exibir seu tórax timidamente definido, com poucos pelos… Observo-o, bancando o voyeur, lamentando não ser eu a despi-lo, porém me consolo com a visão disposta à minha frente, só pro meu prazer… Thiago é ainda melhor do que eu imaginei debaixo daquele chuveiro… 

Como não me sentir hipnotizado diante dessa perfeição de músculos sem exageros? Como não permitir que a volúpia tome a frente do meu olhar, dos meus gestos?

Thiago retorna para mim da mesma forma, em passos lentos, sem pressa, enquanto nossos olhos voltam a se cruzar. Ao se aproximar, ele segura o meu rosto, quase me obrigando a encará-lo e em seguida desce suas mãos até a minha cintura, novamente, mas dessa vez para levantar minha blusa social xadrez, na altura suficiente para que seus dedos avancem sobre a pele da minha barriga, por cada centímetro, cada canto, ouriçando partes sensíveis do meu corpo que até eu desconhecia. Num gesto irascível, ele arrebenta os botões da minha blusa para poder abri-la, arrancando-a sem demora do meu corpo e no mesmo ímpeto atirando-a para o chão sem qualquer cuidado, ao mesmo tempo que não deixa de me encarar um segundo sequer, me invadindo com um olhar que mais parece estar atravessando minha alma, tentando desesperadamente absorvê-la.

– Valeu a pena esperar cada segundo – Thiago rumoreja num tom de voz extasiado antes de voltar a beijar o meu pescoço, agora rudemente, aproximando o seu peito do meu, roçando seus poucos pelos à minha pele nua.

 De súbito, ele se afasta, e me olhando de um modo impertinente, ergue a mão esquerda e acena, sugerindo que eu o siga enquanto estampa em sua boca de lábios finos um sorriso carregado de um humor cínico e em sua fisionomia uma fria imprudência.

– Vem.

Ele se vira, dando-me as costas por completo, partindo na direção de uma porta semiaberta no fim do curto corredor.

 

 

Leoni – Só Pro Meu Prazer

gif 1.: fonte, https://www.chickensmoothie.com/Forum/viewtopic.php?f=9&t=2378170&start=4380

gif 2.: fonte, https://i1.wp.com/data.whicdn.com/images/81493997/original.gif?zoom=0.8999999761581421&resize=395%2C195&ssl=1

gifs 3 e 4: fontes, https://gayside1.com/2017/03/19/yaoi-boys-love-anime/

POSTADO POR

Francisco Siqueira

Francisco Siqueira

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