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Estação Medicina – Capítulo 02 – O Reencontro

Estação Medicina

Capítulo 02 :  O Reencontro

 

FADE IN

CENA 01/ INT. AEROPORTO DE GUARULHOS/ TARDE

Ligar Instrumental Melodramático  

Goram chega ao saguão principal e contempla a vista de São Paulo ao longe por grande janela de vidro que se estende por uma parede inteira. 

Aumentar temperatura da filmagem, aspecto solar, familiar.  

GORAM (V.O) – Égua. É impossível não sentir techanga desses ares. Parece que nada mudou.É como se a cidade esperasse pelo meu retorno para fechar o seu ciclo.  

Ele se senta em um banco próximo vazio. Nostálgico. Mostrar imagens de pessoas indo e vindo em movimentos rápidos. Os olhos dele as acompanhando até que se perde num ponto fixo. Mostrar ponto fixo: uma garotinha comprando pipoca doce com a mãe. Voltar para o rosto de Goram. Emocionado. 

Ele abre sua mochila e dela retira seu urso de pelúcia sem um botão no olho com o colar de pena azul e o abraça. 

Desligar instrumental Melodramático. 

CENA 02/TARDE/SÃO PAULO/VILA MARIANA/ INT. APARTAMENTO DE RITA/QUARTO DE RITA/TARDE

Rita(39 anos, branca, cabelos pretos encaracolados, neurologista) termina de passar seu jaleco branco. 

CAMPAINHA TOCA. Ela para. 

Cortar para: 

Sala de Estar

Ela abre a porta. 

RITA- Meire, querida. Como você está? (Abraça-a com um beijo no rosto). Estou um pouco atrasada, mãe de uma paciente ligou preocupada, a filha dela teve sepse como agravante de meningite meningocócica. Senta um pouco, fico pronta num minuto. 

Meire(27 anos, branca, cabelos pretos lisos, residente de obstetrícia)  entra e se senta.

MEIRE – Estou bem, professora e a senhora? Fica tranquila, não tenho mais compromissos hoje a noite na Obstetrícia. 

RITA – Ótimo. Ótimo. Acredito que consigamos instruir os presidiários até umas 20h da noite.

E volta para o quarto. 

MEIRE – Sim. Vai dar bom essa palestra, é essencial que eles conheçam os métodos contraceptivos e auxiliem suas parceiras.   

   

Cortar para: 

CENA 03/AEROPORTO DE GUARULHOS/ LANCHONETE/ FIM DA TARDE

Goram termina de tomar um café com leite. Está sentado, mexendo no celular.  

GORAM – Eita porra! Já era para alguém ter aparecido. Sy disse que me viriam buscar no aeroporto. O que será que aconteceu? 

Ele manda mensagem para sua mãe no whats, mas ela não se encontra online. 

Ele se assusta quando uma voz robótica sai de um amplificador do teto bem acima dele: Terminal Portuguesa-Tietê- 17h30! Partindo em dez minutos! 

CENA 04/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ ENFERMARIA de MOLÉSTIAS INFECCIOSAS/FIM DA TARDE

DESESPERO.Adelaide(45anos,indígena,cima do peso)espera Hugo(50 anos, indígena,alto e magro)chegar. 

HUGO – Quadro de Laurinha piorou?

ADELAIDE(Fala atropelada) – Eu não sei…Ela tinha voltado para enfermaria, tava tudo certo para Doutora dar alta entre hoje e amanhã, mas ela começou a passar mal, a enfermeira levou ela para UTI numa maca.Liguei para Doutora Rita, ela disse que evoluiu o quadro dela.Eu estou com medo de perdê-la, Hugo.

O homem a abraça. MEDO. 

HUGO- Ela vai se recuperar, meu amor. Fique calma, os médicos daqui são muito bons. 

ADELAIDE – Eu não quero perder nossa filha, Hugo.

HUGO – Escuta, Themise já está te aguardando no carro, acho melhor vocês irem buscar o garoto no aeroporto, se não vai ficar muito tarde. Precisa dar um tempo de hospital. 

ADELAIDE(preocupada)-É verdade.

(Ela pega a chave do carro com ele). Isso tudo está me deixando num estágio de nervos. Me mantenha informada de qualquer coisa. 

E sai apressada para o estacionamento. 

 CENA 05/SÃO PAULO/ CENTRO/ BORDEL BOVARY/NOITE

Não olhe para trás de Capital Inicial começa a tocar

Os aplausos tomam conta daquele hall rodeado por “mulheres da vida”. Marcela(42 anos, alta de vestido e batom vermelho berrante, prostituta) discursa. 

MARCELA – É minha gente,hoje diferente da Marcela de Memórias Póstumas de Brás Cubas, essa Marcela aqui não viverá a vida dando golpe a clientes milionários. Saibam que é um dia histórico para mulheres da nossa profissão. Sim, porque não podemos temer em dizer, prostituição é uma profissão. Amanhã será o dia em que uma prostituta fará matrícula em uma universidade de medicina! 

As outras jovens sorriem emocionadas, ela continua.

MARCELA – Não é porque estou velha, com meus 40 anos nas costas, que desisti do meu sonho de menina e é isso que precisam entender. Às vezes, a vida nos prega peças e acabamos ficando com poucas escolhas. Às vezes ou é a vender o corpo em troca de comida ou é morrer de fome. Mas apesar dessa realidade, não podemos desistir de quem somos, nem para onde vamos. Sempre dá para continuar acreditando. Continuar lutando! Ajudas vão aparecendo! Deus coloca em nossas vidas pessoas certas e quando menos imaginamos, chegamos lá! 

Desligar música.

Bovary(63 anos,baixa e obesa,ruiva,cafetina) se aproxima aplaudindo irônica aquela fala.

BOVARY – Excitante a sua declaração, Marcelinha. Pena que discurso não enche barriga. Eu se fosse vocês, bonequinhas, voltava lá para dentro e iria se arrumar, porque os clientes não tardarão a chegar e não quero ver reclamações de atraso! Possuem tudo de mão beijada aqui dentro, deveriam fazerem jus ao tratamento vip que as condiciono e não dar ouvido ao que essa louca,desvirtuada caindo aos pedaços tem a dizer! 

Marcela retruca

MARCELA – Alto lá, sua velha. Primeiramente não estou caindo aos pedaços, ainda tenho muitos clientes exclusivos, diferente da sua carcaça e dei muito sangue para levantar esse seu bordel de quinta que nos oferece! Velhota ingrata! E que tratamento Vip nos condiciona? É uma piada isso? Chama aquela feijoada requentada de tratamento vip? E ovos mexidos passados todos os dias no café da manhã? 

BOVARY – Tem muita gente nesse país que não tem um prato de comida na mesa. Tirei vocês da miséria absoluta!Da sarjeta! Das relações familiares conturbadas que estavam imersas! Sim! Porque vocês não nasceram para vestir jalequinho branco receitando bulas de remédio ou donas de casa que tomam conta dos filhos. São putas! E como toda puta precisam(ela gesticula o traseiro para ilustrar num tom medonho) mexer bem o traseiro se quiserem se dar bem na vida.

Marcela a esbofeteia. Todas ficam perplexas com a reação da amiga.

MARCELA – Eu tenho nojo de você! 

Bovary se volta esbaforida. 

BOVARY – Tem nojo de mim? Pois então utilize esse nojo para procurar um novo lugar para ficar porque vivendo às minhas custas, debaixo do mesmo teto que eu, você não vive nunca mais! 

MARCELA – Que suas custas, o quê? Minhas custas! Dei o meu suor, paguei com juros e correção monetária essa espelunca aqui! 

Bovary ri

BOVARY – E me agradeça por não te denunciar por agressão ao idoso! Sua Estúpida! Vou te dar 24 horas para juntar suas traças e picar a mula daqui! 

E saiu satisfeita. As meninas se aproximam. 

LARISSA(loira,19 anos) – E agora? O que será de você, Marcela? Onde irá ficar? 

Marcela a abraça e olha carinhosamente para as demais.

MARCELA – Eu darei o meu jeito! Mas é isso que precisam fazer, estão ouvindo? Ninguém! Mas ninguém neste mundo mesmo merece nos tratar com desdém pela nossa profissão! Ninguém! 

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CENA 06/AEROPORTO DE GUARULHOS/ LANCHONETE/NOITE

Mostrar cadeira onde Goram estava sentado vazia. Som de passos ao fundo. 

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CENA 07/SÃO PAULO/TERMINAL PORTUGUESA TIETÊ/NOITE

Close visor do ônibus Portuguesa Tietê-18h. Assentos vazios. Close nas escadas rolantes descendo a todo vapor. Sapatos diversos. Som de vozes ao fundo. Placa que indicava linha azul.

METRÔ

Porta do metrô Sé fecha, Goram puxa a mala e se senta, pondo a mochila em seu colo.Respira aliviado. Um rapaz negro em sua frente lia sério Ângela Davis. 

GORAM(V.O)- Ufa!Finalmente indo para casa de Sy’y Adelaide.

Ele olha para a mensagem que mandou a Iracema, mas a mãe não visualizou. O metrô para em outra estação e entra muita gente. INSEGURANÇA.Goram não consegue mais ver a porta.

Ele não percebe quando alguns rapazes chavosos sentam em seu lado. Suspeitos. 

CENA 08/SÃO PAULO/ MORUMBI/ MANSÃO DOS RAPOZZO/BANHEIRO SOCIAL/NOITE

Úrsula(43 anos,alemã, milionária) desce as escadas e observa Cacau(60 anos, negra, mãe de Fabiana) limpar seu banheiro de visitas

ÚRSULA – Você desde pequena lava privada, Carolina? Faz com tanto afinco essa limpeza! Parece que é sua vocação! 

CACAU – Meu trabalho, Dona Úrsula! Se eu não me dedicar, não tiro o sustento para casa. 

ÚRSULA – Que bom que você sabe seu lugar! Só peço para que da próxima vez comece pelo banheiro para não correr o risco de chegar uma visita ali na sala e verem você… saindo mal-cheirosa, com baldes coloridos por aí,nada de sermos baianos nesta casa. 

Cacau se sente mal com os maus tratos. Mas fica quieta. Eliane, filha única de Úrsula, loira, 21 anos, patricinha, chega em casa animada. 

ELIANE – Fui conhecer o pessoal do basquete da atlética, as meninas são demais! Amanhã vai ter festa depois do primeiro dia da matrícula. Nem acredito, mãe. Depois de tanto tempo lutando no cursinho, consegui. 

CACAU – Passou na faculdade, Eliane? 

ELIANE – Sim! Medicina na Olímpius! 

CACAU – Nossa! Que nem minha filha! 

Úrsula solta um grito incrédulo.

ÚRSULA – Sua filha passou em medicina na Olimpius? Mas esse mundo está perdido mesmo! Minha filha vai frequentar a mesma faculdade que uma símia bípede? Uma queimadinha? Aposto que é culpa desse sistema de cotas petista!

ELIANE – Ai mãe, nem ligue para isso! Bolsonaro há de acabar logo com essa situação deplorável! Agora vamos para meu quarto, quero te contar cada detalhe do nossa quadra de treino. 

ÚRSULA – Vamos! 

A matriarca sai com nariz em pé. Focar no rosto triste de Cacau. Mas isso dura pouco, ela se felicita com a mensagem de sua filha, Fabiana.

“Pedi demissão para Glorinha. Ela chorou, disse que fui a telemarketing mais aplicada da empresa”.

Corta para: 

CENA 09/SÃO PAULO/METRÔ/NOITE

Os garotos chavosos descem junto com uma multidão. Goram se sente sufocado pelo aumento de pessoas que entram no metrô. Ele se levanta para ficar próximo da porta e seu celular escapa da mão, escorregando pelo vão da porta na estação. O mocinho se desespera.

GORAM – aratiri! Meu celular! 

DESESPERO. O jovem negro percebe. Goram se ajoelha para tentar pegar. As pessoas reclamam, chutando-O. Sai da porta, caralho! Goram não consegue, é jogado para trás. A porta se fecha. 

GORAM – ÉGUA NÃO! 

Ele escuta o celular ser triturado nos trilhos, aquilo dá agonia. O rapaz negro se preocupa, era um pouco atlético.  

ANDRÉ – Cara, não acredito que isso aconteceu!

Goram se volta para cima. Sente-se levemente ameaçado. Mas depois percebe a solidariedade do estranho.

GORAM – O que será de che agora? Eu não sei andar pela capital! Não me lembro da ogapy exata de Tia Adelaide! 

Policiais se revelam no metrô. Um homem branco, quarenta anos de farda azul toma a palavra.

DELEGADO FRANÇA – Todos sentados, por favor. Estamos atrás de uns rapazes com drogas, é desconfortável, mas teremos que vistoriar a bolsa, mochila de vocês! 

MEDO. Goram se senta totalmente perdido. Os policiais vistoriam de uma senhora, depois de uma mãe com seu filho, não demora a chegar a Goram e André e ao abrirem suas mochilas e malas, pacotes se revelam. 

INSTRUMENTAL DRAMÁTICO. GORAM SE CHOCA.

DELEGADO FRANÇA – Bingo. Podem parar de vistoriar os passageiros. Aqui tem bem menos drogas, onde está o resto, meu rapaz? 

Goram treme.

GORAM – Ani kuaa, não sei como foram parar aí.

França ri. André se retorce ao ser algemado por outros policiais. 

ANDRÉ – ME SOLTEM! EU NÃO FIZ NADA! 

FRANÇA (irônico) – Todos falam que não sabiam, que não fizeram nada. Mas isso vamos ver na delegacia. Peguem esse aqui também! 

Goram se desespera. Alguns passageiros batem palma para aquela operação. Eles desembarcam na próxima estação. 

CENA 10/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS DAS RODOVIAS DE SÃO PAULO/ NOITE

É mostrada imagens das principais rodovias da capital, indicando o tráfego de automóveis, na Paulista, Ayrton Senna, Marginal Pinheiros, Rodoanel Mário Covas, indicando uma noção de passagem de tempo. 

CENA 11/ INT. AEROPORTO DE GUARULHOS/ NOITE

Adelaide anda preocupada pelo saguão de espera junto com sua filha índigena, de 20 anos, Themise. Takes dela perguntando para seguranças do aeroporto e funcionários de lojas sobre o paradeiro do rapaz. Tudo em VOZ OFF. Desespero quando sentam no mesmo banco que Goram sentou no aeroporto. 

ADELAIDE – Por Maíra e Macunaíma-íra! Onde que esse menino foi se meter? Iracema vai me matar! 

CENA 12/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ HOSPITAL ORLANDO MOÇA / SALA 1 DE PARTO/ NOITE

Caio(25 anos, branco, baixo, residente de obstetrícia) termina de falar com a namorada Meire. Ao passo que ele fala, câmera subjetiva, mostrar corredores do hospital. 

CAIO(0.S)- Vou auxiliar agora na cirúrgia de Monalisa. Sim! Isso mesmo,parto normal, paciente hígida, sem outras comorbidades, 30 anos. Sim! É a mamãe da Simone, que disse que daria esse nome por conta da Simone de Beauvoir, filósofa feminista. (Ele ri). Beijo, te amo, depois me conta mais como está sendo a palestra aí na penitenciária masculina de Santo André.  

Caio entra para fazer o trabalho de parto depois de se higienizar e estar paramentado cirurgicamente com vestimenta adequada. Doutor Liceu (55 anos, cabelos cinzas, narigudo) aguarda-o com outros colegas de equipe. 

LICEU – Você está em horário de plantão e como R3 não pode usar esse período para falar com ninguém. Eu já avisei você sobre isso. Perderá um ponto na prova prática por esse atraso. 

Caio se avermelha, alguns colegas riem discretamente. O jovem disfarça.

CAIO – Paciente parou de ter contrações Braxton Hicks? 

LICEU – Há muito tempo! Já iríamos começar o parto sem você!

Caio disfarça.

CAIO – Vamos fazer Episiotomia? 

Liceu se irrita.

LICEU(bravo) – Alguém tira esse boçal da minha frente! Pedro traga fraldas, para caso a paciente evacue durante. Você assume junto comigo! 

Caio se entristece. 

CENA 13/SANTO ANDRÉ/PENITENCIÁRIA MASCULINA/SALÃO DOS PRESOS/ NOITE

Rita termina de explicar como funciona uma vasectomia, depois de ter falado sobre alguns métodos. Meire conclui.

MEIRE – É isso gente! Vamos ajudar as mulheres e evitar doenças sexualmente transmissíveis, abortos clandestinos e gravidez indesejadas. 

Todos aplaudem. 

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GABINETE DE FRANÇA

Goram senta enquanto André é levado para dentro.

ANDRÉ – ME LARGUEM, EU SOU INOCENTE, EU NÃO FIZ NADA! 

Goram questiona.

GORAM – Telesé.Por que estão levando ahe? Ele não tem a chance de se explicar? 

FRANÇA – Telê, o quê? Você é índio? Seu rosto tá pintado, mas é mais claro. Que explicar o quê? Só de olhar dá para perceber que ele é um bandidinho, meu faro de policial não se engana.

Goram consente. 

GORAM(V.O) – Eu só estou aqui, porque sou homem branco. Polícia brasileira é racista. Tenho privilégios pela minha sa’y. Nossa! Que nojo desse delegado! 

FRANÇA – Então, me conte melhor, onde você colocou o resto dos pacotes de cocaína?

GORAM – Eu não coloquei em mbovy algum. Já disse sou inocente, assim como aquele rapaz.

FRANÇA – Você pode até ser, mas ele não. Não se lembra de nada esquisito, alguém suspeito que tenha se aproximado de você?

Goram sente uma raiva dentro de si. Punhos fechados.

GORAM – Era para eu estar na casa de minha tia agora, fazendo ko’ero a minha matrícula na universidade Olímpius.

Rita que iria se despedir, para.

RITA – Você disse Olímpius, meu rapaz?

Ele se vira atordoado. Meire tenta dizer algo a Rita, mas não consegue. Hesita, mas fala. 

GORAM – Hee…passei em medicina lá.

Rita sorri, ela nutria um carinho muito forte pelos seus alunos. 

RITA – E o que um futuro estudante de medicina, meu aluno, está fazendo dentro de uma penitenciária este horário da noite? 

Ele se alegra. De alguma forma, trocam olhares poéticos. 

GORAM – Você é professora lá?

RITA – Você só passará comigo no quarto ano, mas sou sim. Chamo-me Rita. E então, você é indígena? O que faz aqui?

GORAM – Eu me mopumbyry Goram. Sou Guajajara sim! 

França responde.

FRANÇA – Porque ele…

O Telefone toca e ele descobre que capturaram os responsáveis por isso, um deles confessou o implante das drogas.

FRANÇA – Obrigado Ariel. 

Cansado. Ele deposita o telefone.

FRANÇA – Você tá livre, meu rapaz. Pegamos os verdadeiros responsáveis.

GORAM(enfrentativo) – Eu e o ava que vocês acabaram de levar para cela por ele simplesmente por ser negro! Dança de rato e sapateado de catita.

França o encara assustado por um minuto e depois liga para o departamento interno. 

CORTAR PARA: 

CENA 14/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS DAS RODOVIAS DE SÃO PAULO/ NOITE

É mostrada imagens das principais rodovias da capital, indicando o tráfego de automóveis, na Paulista, Ayrton Senna, Marginal Pinheiros, Rodoanel Mário Covas, indicando uma noção de passagem de tempo. 

CENA 15/SÃO PAULO/PENHA/ EXT.CASA SIMPLES DE ANDRÉ/NOITE

Goram termina de avisar a mãe pelo celular de Rita que estaciona seu carro em frente a residência de André. 

RITA – Tá entregue, André. 

O rapaz sorri.

ANDRÉ – Nem sei como te agradecer, professora Rita. Obrigado pela carona e Goram, parceiro, sinto muito pelo seu celular.

GORAM – Não se preocupa com isso, o importante é que você está eguahé e longe daquela penitenciária. 

RITA – Sem sombra de dúvidas. Onde já se viu te levarem para cela daquele jeito sem nem direito a interrogatório? Por mais que a operação tenha sido em flagrante, eles precisavam te ouvir, é seu direito se defender. Racismo na lata. Se quiser depois, me procure, entramos com advogado contra França e sua equipe por danos morais e racismo. 

ANDRÉ – Que isso, não precisa não. Está tudo bem agora. Boa noite para vocês, Goram, até amanhã na matrícula.

Goram o cumprimenta com aperto de mão.

GORAM – Até mano. 

Assim que o rapaz entra. Rita parte com o carro. 

RITA – Você viu, Meire? Uma casinha simples num bairro periférico da cidade e ainda existem aqueles que dizem que desigualdade social não está relacionada com raça neste país. 

Pelo retrovisor, Rita percebe que Goram está sorrindo pela sua fala, concordando com a cabeça. 

CENA 16/SÃO PAULO/ JD. AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/SALA DE JANTAR/NOITE

Silêncio. Instrumental melodramático. Mostrar uma mesa vazia com dois pratos postos em cadeiras laterais, porém, frontais entre si sobre uma toalha vermelha. Há taças também. Uma mão puxa a cadeira, vemos que se trata de Mateus com um prato na mão.

MATEUS – Está gostando da comida, mãe? Fiz caponata, seu prato predileto. 

Ele se vira para o outro lado. Close em seus olhos emocionados, adoecidos.

MATEUS- E você pai? Quer vinho para acompanhar? 

Silêncio. Ninguém responde.

MATEUS – Por que vocês não falam comigo? Eu me importo com vocês. Fiz sem muito sal, sei que vocês preferem.

Continua o silêncio. Mateus maquinalmente faz algumas colheradas.Ele chora. 

MATEUS – Esse silêncio de vocês é de muito mau gosto, eu só queria um obrigado filho. Obrigado por se importar comigo, por colocar Giovane para dormir. Sim, porque eu o coloquei. Até fechei a janela para ele não tomar vento frio, está uma noite bem fria. Mas vocês não está nem aí, nunca tiveram. EU ODEIO VOCÊS POR ISSO! 

E se levanta derrubando os pratos. Bernardo que chegava escutando música do estacionamento da mansão o acode.

BERNARDO – Amor, você tá bem? 

Mateus chorava alto.

MATEUS – Eles não olham para mim. Eles me odeiam, Bernardo. Odeiam. Eu me sinto tão sozinho. Abraça-me, abraça-me forte. Não me deixe aqui com eles, não me deixe. 

Desligar instrumental. 

Bernardo começa a cantar uma canção de ninar. Mateus sofria de transtorno de humor bipolar. 

Ouve-se apenas os barulhos dos grilos no Jardim. Silêncio.

BERNARDO – Nana, neném, que a cuca vem pegar, papai foi na roça, mamãe foi trabalhar…

CORTAR PARA: 

CENA 16/SÃO PAULO/MOOCA/APARTAMENTO DE ADELAIDE/INT. SALA DE ESTAR/NOITE

Adelaide vibra com a notícia de Hugo sobre a melhora do quadro de Laurinha.

ADELAIDE – Não acredito, amor. Ela tá reagindo bem aos antibióticos de amplo espectro! Não está mais com pressão baixa, nem com febre. Que notícia, maravilhosa. 

A campainha toca. Goram entra acompanhado de Meire e Rita.Ele arrastava sua mala.  

ADELAIDE – GORAM! 

GORAM – Pai d’egua! Tia Adelaide! 

Ele vai a seu encontro. Themise aparece. 

ADELAIDE – Como você cresceu. Da última vez que te vi era um gurizinho que batia no meu ombro. Agora tá essa maceta, moço feito! Bonitão! 

O rapaz se avermelha. 

THEMISE – Liga não! Ela adora paparicar os homens da família. 

RITA – Quanto a sua filha mais nova, Adelaide, eu…

ADELAIDE – Sim, eu já sei,ela está reagindo bem. 

RITA(sorri) – Isso. Amanhã passo lá para vê-la. Coincidência ter encontrado seu sobrinho na mesma penitenciária que eu estava palestrando. 

GORAM – Esse mundo é muito pequeno, mesmo, mbo’ehara 

Eles trocam olhares poéticos novamente. Ela cora.

RITA – Bom, preciso ir, ainda vou deixar Meire em seu apartamento. Foi bom te ver Adelaide e sua filha também. Goram, seja bem vindo a Olimpius. 

GORAM(corado) – Obrigado por tudo, professora. 

RITA – Magina. Eu que agradeço a companhia. 

Ele a abraça e fica encantado com seu perfume,tanto que Meire se despede dele e ele nem nota.

MEIRE – Tchau, Goram. Até mais. 

Adelaide as acompanha até a porta, depois a fecha. 

ADELAIDE (se aproxima e o acaricia na gola) – Está com fome, querido? Fome de mulher?  Viajou por horas, praticamente cruzou o país! Fiquei sabendo que terminou com a namoradinha, não deve estar sendo nada fácil suportar a solidão…

THEMISE – Mãe! A senhora não tem vergonha na cara? É uma mulher casada! Deveria se dar o respeito! 

Adelaide a encara entediada

ADELAIDE – Ai, filha! Como você é chata! Foi uma brincadeirinha boba. Cadê seu senso de humor? É por isso que não arruma homem nenhum! É muito séria!

Themise rebate.

THEMISE – Antes estar só, do que mal acompanhada! Não tenho essa necessidade toda em me relacionar! Quando for a hora certa, irá acontecer. Minha vida não depende disso! 

Goram gosta da determinação de sua prima. Adelaide dá de ombros.

ADELAIDE – Lá vem você com essas suas desculpinhas cheira peido!  É muito sonhadora!. Acredita que se ficar plantada, o príncipe encantado irá aparecer com uma rosa vermelha na boca, montado no cavalo branco e irá te fazer feliz para sempre. Deixe estar! A vida ainda te mostrará como as coisas funcionam! Bom, vou esquentar o risoto de camarão que Hugo preparou mais cedo. É o melhor que comerá na sua vida! 

CENA 17/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS DAS RODOVIAS DE SÃO PAULO/ MANHÃ

É mostrada imagens da Estação da Sé, Lojas de conveniência na Liberdade. Padarias no bexiga, indicando que o dia começou. 

CENA 18/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ ÁREA EXTERNA/MANHÃ

Suzy, uma sul-asiática, carioca,24 anos, sai da estação de metrô em frente à universidade. Ela faz uma chamada de vídeo para os pais. 

SUZY –  Família! Olha só como é gigante essa universidade! Pelas indicações desse mapa-painel, aquele prédio a direita é a biblioteca, o da esquerda é o teatrão e esse de centro, com o posto do centauro Quíron será onde será ministrada as disciplinas! 

Pela tela, sua mãe Sayuri, 46 anos,fisioterapeuta a responde.

SAYURI – Mas tu é malandra mesma né ? Olha só o gingado desse japa. Toda cheia de pompas ao falar. Enche a gente de orgulho! Só precisa cuidar de perder o sotaque carioca, começar a falar porta com o “r” bem puxado 

SUZY – Se depender de mim não vou perder não, minha mãe. Sou muito mais a cidade maravilhosa! Sabe que por mim continuava na UFRJ, mas está muito violenta a cidade. Sem contar o fundão. Sem recursos. Sucateado. 

SAYURI – Fica por aí mesmo, filha! Tá perigoso andar a pé de noite por aqui! 

Suzy fica encantada ao ver um anúncio em outro painel de música popular brasileira feita por bandas de alunos.

SUZY – Quero participar! Quero cantar! 

Goram passa por ela acompanhado de Themise. 

THEMISE – Sempre quando entro aqui é uma mesma emoção! Não sei se te confidenciei, mas sonho em cursar medicina aqui também. 

GORAM – Vigia o que tu tá fazendo! Por que não se matricula num cursinho preparatório, então? Fiz alguns anos até conseguir.

THEMISE – Estou tentando convencer papai! Mãe é um pouco difícil, ela acha que não tenho condições emocionais e intelectuais para passar. 

Um veterano alto os aborda com uma camiseta da faculdade. Era Vitor, moreno, alto, com a camiseta da azul-esverdeada da atlética da faculdade.27 anos. Jogava vôlei.  

VITOR – Calouros ? 

Goram ri. Themise explica.

THEMISE – Só ele, por enquanto.

VITOR – Estão perdidos? 

GORAM – Sim. Estamos procurando a secretaria para fazer a matrícula presencial! 

VITOR – É lá embaixo no porão pela entrada aqui no prédio principal. Vem que eu te levo lá! 

Ele puxa pelo ombro Goram, o mocinho olha para trás.

GORAM – Eita porra ! Ela não pode ir conosco? 

Vitor para um instante. Faz sinal para ela acompanhá-los.

Cortar para: 

CENA 19 /TARDE/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ PORÃO/ SECRETARIA DA MEDICINA

Goram chega ao solo, outros estudantes estão assinando a matrícula acompanhado de familiares, é levado até um cabine, onde uma garota termina de assinar:  Heloisa, 22 anos, branca sardenta. 

HELOÍSA- Já terminei! Aqui está a caneta. 

Ela sorri para ele ao entregar o objeto. Goram se encanta com o jeito dela meio Nerd. Themise se incomoda um pouco. 

SECRETÁRIA BETH – Olá! Seja muito bem vindo! Como você se chama?

GORAM – Goram Alves Guajajara! 

Vitor acha um barato.

VITOR – Que nome zoado cara. Parece indígena! 

GORAM – Mas é! Fui adotado quando pitanga(criança) por uma família indígena.  

Vitor observa Themise mais de perto e percebe o quanto ela é bonita. 

SECRETÁRIA BETH – Achei! Assine aqui por favor! 

Goram assina. 

GORAM – Tudo certo ?

SECRETARIA BETH – Certinho! Matriculado oficialmente. 

Goram se levanta e percebe que Gustavo (mauricinho malandro, cabelinho na régua, malhadinho, 26 anos)está na sucessão

GUTO – Valeu brother! Bora tocar o terror nessa faculdade moleque. Prazer mano!

Ele cumprimenta com um toque na mão Vitor. Quem o trouxera era Zeca, um outro veterano sextoanista de medicina,pardo,28 anos, barbudo. Goram cumprimenta Zeca, mas sente que seus santos não batem muito. 

VITOR – Seguinte Goram! Você é oficialmente Bixo! Vou te entregar o Kit Bixo! Nele você terá todas as instruções dos próximos eventos que irá acontecer na universidade. Tem um mapa dos principais pontos da faculdade! Daqui alguns dias terá o pronunciamento do nosso reitor. Se você quiser, poderá participar do trote, iremos te pintar e irá para o sinal pedir dinheiro. Depois vamos tomar um corote no bar do Esteto, um bar famoso entre os estudantes de med! E a garota pode ir! 

Goram trocou olhares com Themise.

GORAM – Égua! Só se for agora! 

Cortar para: 

CENA 20/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/AVENIDAS E BAR DO ESTETO/TARDE E NOITE

Começa a tocar Vem andar Comigo de Jota Quest

Inicia-se com Goram risonho tomando um banho de tinta vermelha. Themise gargalhando junto com Vitor. Zeca fazendo cabo de guerra com Fabiana. Marcela ensinando as veteranas da medicina como desfilar entre os carros para fazê-los parar. Suzy perguntando para os motoristas se eles poderiam fazer uma contribuição. Heloísa correndo segurando seu vestido encharcada no temporal que começara. Eliane jogando bexigas d’águas em outras calouras e parando para contemplar o corpo sarado de Guto. Outros universitários chegando no Bar do Esteto, um bar famoso dos estudantes de medicina a algumas esquinas dali. Suzy tomando o microfone e cantando Ana Júlia. Marcela botando para quebrar na pista de dança e André aparecendo para aprender com ela. Fabiana controlando o corote e dando uns olhares de canto de olho para Guto que percebe a paquera e quando se aproxima, ela desaparece do local. Eliane entrando bêbada no carro de sua mãe que não para de falar brava em seu ouvido. Goram dando um beijaço em Heloísa num canto e Themise parando estacada enquanto conversava com Vitor num outro canto. 

Fim da música.

CENA 21/ IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/MANHÃ

Imagens aéreas da cidade de São Paulo : Ponte Estaiada. Mercadão Municipal. Terminal Rodoviário Portuguesa-Tietê. Conveniências na Liberdade são mostrados. 

 

Legenda : Alguns dias depois, chega o primeiro dia de aula.  

CENA 22/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ AUDITÓRIO ANCHIETA

Os calouros da turma de 2020 aguardam ansiosos para a fala de boas vindas do Reitor da Universidade. Goram acabou se atrasando ao sair da residência de Adelaide e no momento que se adentra no auditório, é surpreendido por uma fala que o levou de volta para o passado. 

Fade in Instrumental Melodramático

REITOR – É com muita honra que salvo, vocês ! Futuros profissionais da área da saúde. Grandes doutores desses Brasis. Foi uma sábia escolha terem decido ingressarem aqui. Sem sombra de dúvida somos a melhor universidade de medicina do País! É o que atesta todos os indicadores internacionais! Mas saibam nem sempre foi assim. Desde que herdei o hospital-escola dos meus pais batalhei dia e noite para garantir o nome dessa instituição e junto com essa equipe maravilhosa que irão conhecer ao longo dos anos de formação, Olimpius ultrapassou todas as universidades exclusivamente públicas e provou que uma instituição de capital privado pode e muito chegar lá.

DIRETOR DA MEDICINA – Uma salva de palmas para este nosso reitor! Professor Doutor Mateus Pacheco Moça! 

Close nos olhos em chamas de Goram. Estava diante de um demônio em pele de cordeiro. O Grande assassino de seus pais. Instrumental de encerramento.

CONTINUA…

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POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

  • Caraca, que capítulo top este. Muita ação, apresentação de novos núcleos de personagens. E um final esplêndido, um gancho perfeito para o próximo no capítulo. Encantado com a trama!

    • Obrigada. Este capítulo começa a mesclar os núcleos, é mais leve que o anterior e inicia o retrato das vivências universitárias, além de debater racismo(André) e injúria racial(Fabiana) dois assuntos distintos, apesar de próximos na temática.

      No próximo capítulo, Goram iniciará com seu plano de vingança e se aproximará mais de Heloísa. Outros personagens darão as caras também.

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