A Candidata – Episódio 1: Doce gosto da fúria

12 min


POR: LUNA ARAÚJO

*

– Seis meses, Silvero! Seis meses é o tempo que me separa do primeiro turno das eleições. Eu já deveria ter, no mínimo, um jingle, um slogan. Qualquer coisa!

Jurema Pinheiro sentou-se à sua mesa, que tem poucos enfeites, a não ser um porta-retrato com uma foto do seu avô, o Coronel Juca, debaixo de uma mangueira no sítio da família. Aquela foto evocava em Jurema a memória de dias felizes, de união. Seu pai, Edmar, ainda estava vivo e foi ele mesmo quem tirou aquela foto. Dois coelhos com uma cajadada só: Jurema olhava aquela foto e se sentia dentro da memória do seu pai.

– O Miguel contratou uma jornalista, formada na federal, para gerir as suas redes sociais. Nós dois pensamos em te aproximar do eleitorado mais jovem, entre dezessete e vinte e quatro anos.

– Creio que o meu discurso não encontre coro em adolescentes.

– Você se surpreenderia com a onda crescente de conservadorismo nos adolescentes, Jurema.

A prefeita de Timbaúba soltou o ar que estava preso em seus pulmões e lançou seu corpo sobre a mesa para se aproximar de Silvero.

– Eu, você e o Miguel sabemos que eu não sou conservadora – bradou. – Tenho uma moral, é óbvio, todos têm, mas não propago as ideias absurdas daqueles velhinhos lá de Brasília.

Silvero limpou a garganta.

– Tampouco corrobora com as ideias dos jovens universitários progressistas, Jurema.

Ela arqueou as sobrancelhas.

– Um meio-termo é sempre o melhor. Nem radical demais, nem branda demais. É assim que eu quero ser vista: não como a terceira opção, mas como a melhor delas.

Silvero sorriu. A fibra de Jurema sempre o excitou.

– Vou cuidar disso com o Miguel e a jornalista, Camila, se não me falha, é o nome dela.

– Cuidem dela com cavalheirismo. A última coisa que eu quero são acusações de assédio dentro da minha equipe de campanha.

– O Miguel é casado, Jurema. Ele pode não ser o homem mais fiel do mundo, mas também não trairia a Teodora com qualquer uma – o tom de voz de Silvero diminuiu. – E eu sou apaixonado. Por mais que você não queira, eu não consigo desejar outra mulher que não seja Jurema Pinheiro.

Jurema aquiesce. Sorri. Porém, antes que ela responda Silvero, a porta do gabinete é aberta abruptamente.

– A jornalista está aí embaixo, toda cheia dos não-me-toques, para iniciar o trabalho.

O sorriso de Jurema se desfaz, dando lugar a sua conhecida expressão fechada, séria.

– Miguel, por favor, bata na porta antes de entrar.

– Atrapalhei algo?

Miguel Sampaio, o marqueteiro da campanha política de Jurema Pinheiro e também o Secretário Municipal de Comunicação de Timbaúba.

– Não – Silvero o respondeu.

– Avise-a para subir e me encontrar aqui no gabinete. E, enquanto isso, cumpram o trabalho de vocês e pensem em uma maneira de me eleger.

Os pedidos de Jurema são uma ordem. Poucos minutos depois, uma jovem – com um estranho estereótipo de mulher da cidade, pensou Jurema – entrou no gabinete. Meio tímida, esperou o sinal de Jurema para que pudesse sentar-se a frente da prefeita, que deu um sorriso como forma de cumprimento.

– Eu sempre me alegro quando vejo mulheres tão jovens já formadas e construindo a sua própria vida, sem depender de um homem.

A jovem lhe devolveu o sorriso.

– Uma das minhas pautas enquanto prefeita e futura deputada federal é, justamente, lutar pela inclusão de mulheres na política. Nós precisamos ser representadas por nós mesmas, não pelos homens.

A moça continuou calada, apenas a ouvindo e assentindo, com efervescência, concordando com o posicionamento de Jurema.

– Inclusive, eu pedi pessoalmente ao Silvero, meu assessor, e ao Miguel, meu secretário de comunicação, que formassem uma equipe majoritariamente feminina. Imagina o que meus eleitores – Jurema parou, se corrigiu rapidamente – minhas eleitoras iriam pensar se me vissem rodeada de homens durante toda a campanha?

– Pelo visto, nós duas temos muito em comum – comentou ligeiramente a moça. – Eu sou Camila Gonçalves, jornalista, contratada para administrar as suas redes sociais durante a campanha. E já vi que terei pouco trabalho, já que acreditamos nas mesmas coisas.

Jurema inclinou a cabeça levemente para o lado.

– Aposto que você chegou aqui pensando que, por ser de uma família tradicional, eu seria uma mulher conservadora, fervorosamente cristã e defensora da moral e dos bons costumes.

– Eu não costumo criar expectativas em relação às pessoas que me contratam – desviou a jornalista.

– Mesmo quando vai se envolver numa campanha política pública? Isso é algo que vai te marcar, criando expectativas ou não. Já vi caso de gente que perdeu todas as oportunidades de emprego por ter se metido em campanha política furada.

Camila deu de ombros, educadamente.

– Sei separar o pessoal do profissional, prefeita.

– Pode me chamar de Jurema. Formalidades são para homens que não se garantem.

Jurema deu uma piscada de olho para Camila e se sentiu um pouco mais próxima do Congresso Nacional.

Timbaúba é uma pequena cidade do interior baiano, vizinha de Barreiras e Luís Eduardo Magalhães, mais próxima do Tocantins do que da capital, Salvador. Sua população não passa dos quinze mil habitantes e sua terra é seca, árida, a chuva só aparece por lá umas duas ou três vezes por ano. Por isso, o timbaubense se especializou na criação de cabras e na plantação de palma: as cabras dão o leite, que se transforma em queijo e é exportado para outros estados; a palma serve como o alimento das cabras e não permite que o rebanho morra de sede ou fome. No entanto, mesmo sabendo driblar a seca e conquistar o alimento de cada dia, o povo de Timbaúba continua preso a uma corrente: a política. Há trinta anos, talvez mais, a cidade é governada por uma linhagem: a família Pinheiro. De grandes latifundiários e políticos, a família não perdeu muito da sua essência – o seu império foi lavado com sangue de opositores ou de qualquer um que ousasse atrapalhar as ambições do Coronel Juca Pinheiro. Prefeito da cidade e atual vereador, Juca Pinheiro se alternou no poder com seu filho, Edmar Pinheiro. Porém, Edmar sofreu um acidente de carro, no caminho para Barreiras, e Juca enterrou seu primogênito debaixo de chuva, que chegou mansinha e de surpresa. Edmar deixou em seu lugar a sua única filha, Jurema Pinheiro, que exerceu seu primeiro mandato como vereadora aos dezoito anos e tem como próximo alvo o Congresso Nacional.

A ambição da família.

Encostado em seu carro, um modelo seminovo comprado em um feirão, Álvaro acende seu terceiro cigarro do dia e observa atentamente a luxuosa casa, em estilo colonial, da família Pinheiro. Álvaro sempre odiou o cheiro da fumaça do cigarro, o mesmo cheiro que a sua mãe tinha quando foi embora com o vizinho e o deixou para ser criado pelo seu pai alcoólatra, mas, sempre gostou de fumar. O primeiro cigarro foi aos quinze anos, nos fundos da escola, enquanto deveria estar assistindo uma longa aula de geografia.

Ele afastou a fumaça e se empertigou para enxergar quem estava saindo pela porta da frente da casa da família Pinheiro. Uma moça alta, esbelta, com longos cabelos negros presos em um coque mal feito. Álvaro quis se aproximar um pouco para observar melhor os detalhes, mas, algo lhe disse que ele precisava agir como uma serpente: silencioso e mortal. Ele puxou um último trago do cigarro e apagou a ponta no capô de seu seminovo. Pôs seu óculos escuro, modelo aviador, presente de uma moça que certamente era apaixonada por ele, e entrou no carro. A moça encostou-se na balaustrada e puxou um cigarro do bolso do penhoar que usava. Acendeu-o com um isqueiro que refletiu a luz do sol.

Álvaro sorriu. A moça soltou uma baforada e pareceu relaxar. Seus ombros, antes tensos e encurvados, se soltaram, como se alguém os tivesse desamarrado. Aquela moça só poderia ser Antônia Pinheiro, a neta do Coronel Juca, recém-chegada de Salvador, após formar-se em Direito pela federal, para ajudar na campanha da tia. Ou, como Álvaro preferia pensar, seu alvo. Tiro ao Álvaro, a música de Elis Regina soava deliciosa aos seus ouvidos.

Antônia, de repente, jogou o cigarro no chão e o apagou com o pé. A porta da casa foi aberta, agora, para uma mulher idosa, de cabelos grisalhos e pele já começando a se enrugar, sair. A mulher idosa e Antônia trocaram algumas palavras e Álvaro sentiu que havia um muro entre as duas, porque a expressão de Antônia logo se fechou e a moça voltou para dentro da mansão, deixando a mulher idosa sozinha.

– Três semanas, Álvaro, é o tempo que nós temos – a voz rouca de Camila soou em sua cabeça. – Se em três semanas nós não conseguirmos material suficiente, podemos esquecer que um dia nós dois fomos jornalistas.

Ele sorriu. Sempre soube que o cigarro aproximava as pessoas.

Antônia odiava todos segundos que era obrigada a passar naquela casa. Sentia que as paredes daquele sobrado colonial abrigavam espíritos vingativos e sangue inocente. Aliás, ela refletia, o que em sua família não foi construído em cima de vidas inocentes? E odiava ainda mais sentir que devia algo àquela terra e, por isso, ter retornado para Timbaúba. Seu desejo, logo que concluiu o curso de Direito, era ser aprovada no exame da Ordem, pegar a sua carteirinha, conseguir um emprego em um escritório de advocacia e comprar a sua própria casa, um apartamento de dois quartos com vista para o mar de Ondina. Porém, tão rápido como os sonhos surgem, eles são dizimados. Uma ligação do seu avô foi o suficiente para fazê-la arrumar as malas e pegar o primeiro ônibus na rodoviária, às cinco e meia da manhã, com direção à Barreiras e, de lá, pegar outro ônibus para Timbaúba. E, depois que pisou os pés naquela terra árida, foi engolida pelo dever de servir aos propósitos da Família Pinheiro. Que propósitos? Antônia não sabia, ou nunca teve coragem de pensar. Quando ela era mais jovem, talvez na oitava série, ela teve um sonho em que um homem alto, esguio, de chapéu e terno pretos, saía das paredes de seu quarto e lhe puxava pelos pés, fazendo-a cair da cama sobre uma poça de sangue. Antônia acordou sobressaltada, suando frio, e por semanas não apagava a luz para dormir. Acreditou que aquele fora um contato com o sobrenatural, com alguém que desejava contar para ela os horrores que aquelas paredes já presenciaram.

– Seu avô ainda há de sentir o cheiro do que você anda fumando e te expulsar a pontapés dessa casa.

A voz grave e amargurada de Laurinda puxou Antônia de volta para a realidade.

– Ótimo. Assim eu não precisarei passar nem mais um segundo presa nessa casa.

Laurinda ajeitou o xale, que escorria de seus ombros.

– Eu queria ter a sua idade e coragem suficiente para me meter nesse mundo sem nem olhar para trás. Me arrependo de não ter feito isso quando o Edmar morreu naquele acidente.

Sob os olhos de Antônia, Laurinda sempre pareceu uma espécie de morta-viva. Apesar de seu coração bater e seus pulmões funcionarem, Laurinda havia perdido o que lhe mantinha viva, o que lhe fazia humana.

– Eu não estou com ânimo para ouvir as suas lamúrias, Laurinda.

– Vim aqui lhe pedir desculpas pelo que disse lá fora – a senhora segurou a ponta do xale com os dedos para prendê-los em seu corpo. – Daqui a quinze dias, faz treze anos que meu marido faleceu, eu admito que estou um pouco desagradável.

Antônia, mesmo sentindo uma pontada de compaixão pela pobre mulher sem alma que estava a sua frente, não disse nada.

– Enfim, não quero despejar os meus desgostos em quem não os merece.

Laurinda não esperou resposta, apenas virou-se e saiu do quarto, puxando a porta consigo para fechá-la.

Antônia fechou os olhos e puxou todo o ar possível para dentro dos pulmões, segurou a respiração por seis segundos e depois soltou-a, vagarosamente, sentindo o ar se esvair de seus pulmões, percorrer a garganta e sair pelo nariz. Quando ia repetir o processo, ouviu um tombo na parede, como se alguém que lá dentro estivesse, atirasse uma cadeira na esperança de conseguir sair.

A moça pulou da cama. Olhou assustada para a parede. Sua teoria de espíritos vingativos às vezes fazia sentido e Antônia temia acordar com um ser do outro lado apertando o seu pescoço, na tentativa de leva-la consigo.

Talvez isso acontecesse um dia.

– O escopo da campanha será direcionado aos jovens, cujo idealismo típico da idade ainda está aceso.

Camila cruzou as pernas e assentiu.

– Eles querem um novo rosto, alguém disposto a mudar o presente para melhorar o futuro – continuou Jurema. – Aí, uma frase interessante. Anote isso, por favor, Silvero: mudar o presente para melhorar o futuro – seus olhos se encheram de brilho. – É impactante, até poético.

Silvero rabiscou as palavras num bloco de anotação cuja capa era uma foto de Jurema sorridente, aos vinte e poucos anos, em sua campanha para reeleição como vereadora.

– Por isso as redes sociais são importantes, Jurema – Camila apoiou uma mão sobre a coxa. – Todo mundo, ou quase, tem um perfil, está conectado. Ninguém vive sem postar, pelo menos, uma comida diferente que fez ou o lugar para o qual vai viajar nas férias.

Jurema concordou.

– E você precisa alcançar a cidade grande, ter cara de cidade grande, mas alma de zona rural. Essa dualidade vai te servir muito – complementou a jornalista. – O público adora uma história de superação, de mulher valente e destemida.

– Quase uma Maria Bonita? – atalhou o marqueteiro, que estava sentado em uma poltrona no canto da sala, perto da estante com portas de vidro em que Jurema guardava as premiações que recebera ao longo da vida política.

Camila sorriu.

– A imagem de Maria Bonita está, de certa maneira, cada vez mais atual – atalhou. – Uma mulher de garra, líder, dona de si.

Jurema podia se imaginar na noite da eleição, quando os resultados fossem apurados e ela fosse uma das deputadas federais eleitas para a próxima legislatura. O Coronel Juca iria sentir um orgulho que jamais sentiu em sua longa vida.

– E quanto às pessoas que ainda não ouviram falar de Jurema Pinheiro? – questionou Silvero.

– Vão ouvir falar – respondeu Miguel. – Já estou providenciando uma visita do governador em Timbaúba, Jurema Pinheiro vai ser capa e manchete principal de todos os jornais do estado.

Camila disfarçou a surpresa, graças às aulas de teatro em paralelo à faculdade de jornalismo, por saber que os contatos da equipe de Jurema iam tão longe.

– Ótimo, Miguel! – bradou a prefeita. – Ótimo, ótimo.

Miguel se ajeitou na cadeira, feliz pelo reconhecimento. Cinco anos como funcionário público em Salvador tinham lhe rendido ótimos contatos. E ele sabia como usá-los.

Não muito longe da Prefeitura, um ônibus estacionou na única plataforma da rodoviária de Timbaúba, a linha Barreiras/Timbaúba, com vários horários de ida e de volta diários. Um rapaz de barba por fazer e olhos castanhos, com ar de intelectual, mas vestido desajeitadamente com uma camisa três-quartos xadrez e uma calça jeans puída, foi um dos últimos a descer do ônibus e logo entrou na fila dos passageiros para pegar a sua mala no bagageiro do ônibus.

Quando o cobrador lhe entregou a sua mala, única, verde-musgo, o rapaz agradeceu e rumou para a saída com o olhar perdido em pensamentos. Sua vida começara na terra em que ele estava pisando pela primeira vez depois de dez anos. Seu pai decidira, sozinho, manda-lo para um colégio interno no Recôncavo e, quando ele concluiu o Ensino Médio, providenciou-lhe um quarto e sala na Federação e uma mesada razoável para que o rapaz estudasse na universidade federal. Sua madrasta, alheia e submissa ao marido, não pareceu se importar muito com a partida do único enteado.

Quando o rapaz se formou em História, três anos antes, decidiu permanecer na capital para o mestrado e seu pai não manifestou interesse em tê-lo de volta, o que de certa maneira o agradava, pois tampouco o rapaz ansiava retornar à Timbaúba. Defendeu a dissertação e, logo, começou a se preparar para o concurso do estado. No momento em que se sentou a frente do computador para fazer a inscrição, cogitou optar por uma cidade no Sul, na Costa do Cacau, perto do mar e perto da terra de Jorge Amado. Mas a voz de sua consciência o obrigou a selecionar a região de Barreiras para tentar a sua estabilidade profissional. De certa maneira, ele não se arrependeu: a concorrência era menor para aqueles lados. Independentemente deste fator, o rapaz foi aprovado em primeiro lugar e, alguns meses depois, foi convocado para assumir a sua vaga. O destino, que adora brincar com a vida de qualquer um, levou o rapaz de volta para a sua cidade natal, para a mesma escola em que estudara, para a vaga do seu professor favorito, que havia se aposentado no ano anterior e ido morar com a esposa numa cidadezinha no interior de Minas Gerais, onde tinha família.

A viagem longa da capital para Barreiras e depois de Barreiras para Timbaúba não o cansou. O rapaz se sentia disposto até a pôr a mala pesada na cabeça e correr até a casa dos seus pais, do outro lado da cidade. Seria uma surpresa, ainda não sabia ao certo se boa ou ruim, para a sua madrasta e para o seu pai quando o vissem parado na soleira da porta, de mala e cuia, de volta para casa, dessa vez para ficar. Sua madrasta talvez o abraçasse e derramasse algumas lágrimas, mas o seu pai seria duro, austero, não diria muito além de “bem-vindo”.

Entretanto, o rapaz tinha uma parada antes da casa dos pais. No caminho para Barreiras, enquanto via cidades pequenas e a seca do sertão, ele pensara se deveria fazer o que havia prometido a si mesmo anos antes e como o faria. Não era certo, ponderou, porque ele precisava se manter na linha, afinal seu concurso é recente e basta alguém com os pauzinhos certos para manda-lo a uma cidade no fim do mundo, longe de tudo e de todos.

Por outro lado, ele devia aquilo a si mesmo e a sua memória. Foi pensando nisso que o rapaz encostou a mala num canto da recepção da Câmara de Vereadores de Timbaúba e abriu as portas do Salão Nobre, chamando toda a atenção para si. Os nove vereadores da cidadezinha interromperam a sessão para observá-lo entrar no Salão vazio e sentar-se em uma das cadeiras acolchoadas disponíveis para o público. Sua presença atraiu especialmente o olhar do Presidente da Câmara, um olhar incisivo, ameaçador.

– Dada a interrupção, vamos continuar – o Presidente da Câmara limpou a garganta – a votação do projeto de lei proposto pelo vereador senhor João Moura.

O rapaz se levantou e caminhou até o meio da tribuna a passos calmos e comedidos, provocando o silêncio dos edis.

– Perdão, rapaz – alertou um vereador. – A sessão é pública, estamos em uma democracia, mas, os ouvintes precisam ter um mínimo de bom senso e, porque não dizer, educação.

O rapaz olhou para cada um dos nove vereadores e fixou seu olhar no Presidente da Câmara, sentado imponentemente em uma cadeira com acolchoado vermelho e detalhes em dourado.

– Este senhor, que preside a casa do povo, é um assassino! – o rapaz saboreou a última palavra.

Os vereadores ficaram estupefatos, à única exceção do Presidente da Câmara, que permaneceu impassível, como se outra pessoa e não ele estivesse sendo acusada.

– E já passou da hora do povo dar uma resposta a altura! – vociferou o rapaz, mantendo seu olhar fixo no Presidente da Câmara.

Os seguranças do legislativo o arrancaram com truculência do Salão Nobre, mesmo o rapaz tendo aceitado gentilmente o convite para se retirar.

O Presidente da Câmara se permitiu exibir um sorriso quando o rapaz foi levado pelos seguranças. E pensou que, no momento certo, iria dar a sua resposta.

Ninguém atravessava o seu caminho sem sentir o doce gosto da sua fúria.


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Luna Araújo

Luna Araújo é um pseudônimo para escrever histórias que misturam mistério e ação, cujo objetivo é - tendo como pano de fundo algum acontecimento marcante - fazer um estudo da condição humana e da existência ou não de limites para nossos atos. É a autora de A CANDIDATA, minissérie exibida aqui na Cyber TV.
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