A Candidata – Episódio 2: Uma fagulha de orgulho

ATENÇÃO: A Cópia e reprodução deste conteúdo fora da plataforma Cyber TV sem autorização prévia da administração, é proibida e viola os direitos legais do autor.

Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on tumblr
Share on telegram

POR: LUNA ARAÚJO

*

A presença fantasmagórica de Salete, com sua mudez, seu corpo esquelético e seu ralo cabelo grisalho enfiado em uma touca, era o sinal de que o universo encontrou um alvo para punir a família por toda a maldade que o Coronel Juca Pinheiro cometera. Pelo menos, é o que Antônia costuma pensar quando vê a mãe caminhar de um lado para o outro da casa, sem objetivo, sem rumo, com um olhar vago e a boca contraída e as mãos entrelaçadas rente ao corpo. Se a memória de Antônia não lhe falha, ela não se lembra de um dia ter conversado com a mãe ou se, ainda criança, as duas tiveram algum laço afetivo. Salete, pobre Salete, o fantasma da casa, só a havia parido. Sequer a amamentou, o leite secou em seus peitos. As memórias de infância de Antônia envolviam Jurema cuidando dela como se fosse a sua bonequinha de porcelana nova e Laurinda, com uma cara carrancuda, sentando-a no colo para lhe fazer comer a papinha que a Velha Geralda, empregada antiga da casa, preparava. Antônia se lembra que chorou muito, aos oito ou nove anos, quando a Velha Geralda deu um grito e espatifou-se no chão, a boca aberta, os olhos arregalados, sem vida. Aquela imagem a perturbou durante anos, ainda hoje a assusta um pouco. Laurinda disse-lhe que fora um aneurisma que explodiu e a levou embora, mas, para a criança Antônia, a Velha Geralda sempre pareceu feliz e cheia de vida.

Antônia endireitou a postura e encostou o ombro no pilar do hall da casa. Puxou seu cigarro do bolso e, quando iria pegar o isqueiro, uma mão lhe estendeu um.

– Também experimentei isso aí na faculdade, não curti muito – disse-lhe o homem, enquanto acendia o seu cigarro. – Não gosto de perder o controle do meu corpo.

Antônia arqueou uma sobrancelha e, depois, sorriu.

– Álvaro Fontes – estendeu a mão para a moça. – Prazer.

Antônia reparou no homem que estava a sua frente. Olhos castanho-mel com órbitas negras, barba feita na medida certa, um óculos estilo aviador que combinava perfeitamente com o formato do seu rosto. Apertou-lhe a mão, com firmeza e delicadeza.

– Antônia.

Álvaro lançou um sorriso de canto, pegou um cigarro no bolso da camisa e acendeu.

– Uma moça como você não deveria estar perdida aqui, no meio do nada.

– Muito menos um moço como você.

Álvaro sorriu.

– Talvez dos nossos dados no jogo da vida tenham caído na mesma posição.

Olavo Gusmão. Em Timbaúba, e nos arredores, esse nome dispensa qualquer apresentação. Nas mesas dos bares e nas conversas na porta de casa, Olavo é sempre lembrado como um homem bom. Setenta e oito anos de idade, quarenta e seis de vida pública. Na memória do povo, o episódio que praticamente se tornou um conto de fadas: numa das grandes secas que assolaram o sertão, o bom Olavo, homem de Deus, assara várias fornadas de pão, com seu próprio dinheiro, e o distribuíra para os necessitados. Hoje, ninguém sabe até que ponto essa história é verdadeira ou se alguma parte dela realmente aconteceu. Mas todos sempre lembram da boa ação de Olavo quando o veem passar, apoiando-se em sua bengala preta, pelas ruas da cidadezinha indo para a sua padaria ou para uma das sessões na Câmara de Vereadores. Timbaúba é a sua casa, a sua terra, a população da cidade é a sua família. Nunca negara um pedido de uma pobre criatura que fosse até a sua porta. Homem de Deus, homem bom, o bom Olavo. Seu nome batiza a Biblioteca Municipal, que, aliás, foi reformada e teve seu acervo ampliado graças às tentativas do bom Olavo. Homem de Deus, homem bom, o bom Olavo dizia aos mais jovens que a escola é um local sagrado e a bíblia da escola são os livros.

O bom Olavo é um dos ancestrais de Timbaúba, mesmo depois da sua morte, ele será lembrado por anos e anos. Quem se atreverá a esquecer o homem que, no meio de uma grande seca, assou fornadas de pão para distribuir aos que morriam de fome?

O bom Olavo, bom e velho Olavo, cumprimenta todos que vê enquanto caminha pelas ruas, que ele mesmo ajudou a asfaltar, com destino certo. Ainda que o percurso seja breve, sua caminhada demora.

– Um empreguinho, seu Olavo. Eu tenho dois moleque pra criar!

– Aquela goteira bem em cima do berço do neném e eu não tenho nem um centavo pra consertar.

– O médico só atende em Feira de Santana, seu Olavo, e a gente não tem como levar a velha até lá.

O bom e velho Olavo ouvia todos os pedidos atentamente. Mesmo aos setenta e oito anos, a sua memória era fresca como na juventude. Providenciaria uma solução para cada um dos problemas, afinal, não era esse o dever do homem do povo?

O rapaz o esperava sentado à mesa da padaria e Quim Gusmão o acompanhava. Quim é o brilho nos olhos do bom e velho Olavo: se a vida não lhe deu um filho que fosse gerado na barriga de Vera, lhe retribuíra colocando a criancinha órfã na porta da padaria em uma noite de chuva, trinta e tantos anos atrás.

– A benção, meu pai.

– Deus te abençoe e te conserve, meu filho.

Mas os olhos de Olavo não se desgrudavam do rapaz. Tantos anos fora, o bom e velho não se lembrava quanto tempo o rapaz levou fora da cidade, mudaram as suas feições. De um garotinho meio abestado a um homem com ar de sabido.

– Quim é uma ótima companhia – disse o bom e velho enquanto sentava-se numa cadeira entre os dois homens. – Se eu pudesse, o carregava para onde eu fosse.

O rapaz nada disse.

– Pai, eu vou lá para dentro – Quim levantou-se. – Acho que a conversa de vocês é particular, até para mim.

O bom e velho Olavo assentiu sem retirar os olhos do rapaz que, a essas alturas, já estava se sentindo uma presa prestes a ser caçado pelo predador.

– Então, meu bom jovem, o falatório da cidade é a sua artimanha lá na Câmara Municipal – o bom e velho pousou a sua bengala no colo, em posição vertical. – Todo mundo achou um absurdo você ter feito aquilo, mas eu considerei um ato de grande coragem e bravura. Ainda mais sabendo de quem você é filho.

O bom e velho Olavo viu uma fagulha de orgulho nos olhos do rapaz.

– E foi por isso que te chamei aqui – ele continuou e começou a tamborilar os dedos na bengala. – Senti que nós dois temos um inimigo em comum.

– O Coronel é inimigo de toda a cidade – disse o rapaz.

– Há quem pense assim. E há quem queira canonizar um assassino, como você muito bem pontuou.

O rapaz esticou a perna e quase gemeu de dor. Ao expulsá-lo da Câmara Municipal, um segurança lhe desferiu um forte chute na coxa que o levou ao chão.

– E, por ser um assassino, você deveria tomar cuidado – alertou o bom e velho. – Fiquei sabendo que um segurança te agrediu no meio da rua. Pode ter certeza que fez isso não porque ele queria, mas porque o povo dessa cidade é cego para o Coronel. Aquele homem tripudia dos nossos concidadãos e se banha no sangue de seus opositores há anos e ninguém teve a coragem de confrontá-lo – Olavo fez uma pausa. – Até você retornar à Timbaúba.

– O povo é cego porque a visão lhes foi arrancada a força, o único culpado dos atos do Coronel é ele próprio.

O bom e velho Olavo se deliciou com as palavras do rapaz.

–  Você tem toda a razão, meu jovem. Todos têm medo do que aquele homem é capaz de fazer, mesmo já estando com o pé no beiral da boca do inferno.

Quim apareceu ao lado do seu pai com uma xícara de café preto e um pão de sal na chapa. O bom e velho o agradeceu e o Quim voltou para a cozinha da padaria. Olavo tomou um gole do café, forte e sem açúcar como ele gosta, e puxou um guardanapo do porta-guardanapos para pegar uma fatia do pão, cortado na horizontal. Ofereceu a outra ao rapaz, que recusou.

– Seu pai deve estar uma fera com você – comentou o bom e velho tentando parecer casual. – O próprio filho, depois de anos e anos fora, invadir a Câmara e ofender o patrão dele deve ter sido um golpe e tanto.

– Nada que ele já não esperasse de mim.

O rapaz tivera uma discussão feia com o pai na noite anterior, depois de chegar em casa mancando e arrastando a mala, que perdeu uma das rodinhas após ser arremessada por um segurança no meio da rua. Os dois trocaram ofensas, por pouco não chegaram as vias de fato, enquanto a sua madrasta ouvia Gal Costa e Novos Baianos no quarto como se, na cozinha, o marido e o enteado não estivessem em uma guerra. Quanto mais as vozes aumentavam, mais a madrasta aumentava o volume da caixa de som do computador, cantarolando as músicas e bordando uma saia para colocar a venda em sua boutique.

– Mesmo assim, eu aposto que ele não deixou passar – disse o bom e velho. – Miguel Sampaio defende o Coronel Juca como se ele fosse o deus da sua religião.

O rapaz se consertou na cadeira de plástico. O bom e velho Olavo deu a mordida final na última fatia do pão e limpou as mãos com outro guardanapo. Encarou o rapaz.

– Já demos rodeios demais, não te chamei aqui para enrolações – começou. – Quando saí do plenário ontem, fui pesquisar a sua vida. Formado na federal, com mestrado, recém-concursado. Com certeza sabe que basta um telefonema do Coronel para você perder sua nomeação.

O rapaz assentiu.

– E é por isso que eu te achei corajoso. Qualquer um em seu lugar não arriscaria a estabilidade de um concurso público e a própria vida – o bom e velho apoiou o braço na mesa. – Só que a sua coragem veio acompanhada de uma imbecilidade juvenil, não me interprete mal, porque se você realmente deseja expor os mandos e desmandos do Coronel, tem que ser sorrateiro, comer o angu pelas beiradas.

O rapaz inclinou o corpo para a frente, um ótimo sinal de interesse para o bom e velho Olavo.

– E eu sou, sem modéstia, um forte aliado para você.

– E o que o senhor ganharia em me ajudar? Ou melhor, por que eu devo ajudar o senhor?

– Com a minha experiência e a sua coragem, nós podemos ir longe.

O rapaz ponderou por um instante.

– Qual a minha garantia de que o senhor não está propondo isso porque estamos em ano de eleição?

– Já estou velho demais para concorrer a uma vaga na Assembleia Legislativa ou no Congresso. Fora isso, Timbaúba precisa de mim.

– E qual é o seu plano?

O bom e velho Olavo sorriu avidamente. Agora foi a sua vez de deixar uma fagulha de orgulho passar por seus olhos.

  

O “A Voz de Timbaúba” era o único jornal impresso em atividade na cidadezinha. Com edições a cada dois dias e um blog em crescimento de visibilidade, fora fundado em 1986 e nunca se atrevera a publicar nem uma nota que manchasse a reputação do Coronel Juca Pinheiro. Muito pelo contrário, o fundador do jornal, falecido nos idos do começo da década de dois mil, era amigo pessoal do Coronel Juca e, em uma de suas gestões como prefeito, ganhou um cargo de secretário como forma de agradecimento pelos “serviços informativos, em nome da moral e dos bons costumes, prestados ao povo timbaubense”. Um dia depois do ocorrido na Câmara de Vereadores, uma foto do rapaz, retirada da internet, estampava a capa do jornal com a manchete:

CONFUSÃO NA CÂMARA DE VEREADORES DEMONSTRA, MAIS UMA VEZ, PORQUE O CORONEL JUCA PINHEIRO É UM HOMEM AMADO PELO SEU POVO.

Os exemplares, cem por edição, se esgotaram antes da hora do almoço. Todos queriam saber quem foi a pessoa que ousou acusar o Coronel de tal crime hediondo. A reportagem, que ocupava duas folhas inteiras, cobria o Excelentíssimo Senhor Presidente da Câmara de elogios e acusava o rapaz de ser um “malfeitor à serviço da oposição para tentar macular a tão ilibada reputação do Coronel, homem que dedicou sua vida à cidade e à felicidade dos moradores de Timbaúba e hoje, depois de tantas benfeitorias, é caluniado por aqueles que não conseguiram, em toda a vida, fazer metade do que o Coronel fez pela sua gente”.

O Coronel Juca Pinheiro recebeu o seu exemplar logo cedo, enquanto tomava o seu café da manhã, pouco depois do nascer do sol. Lá fora, os pássaros começavam a cantar e a neblina que encobriu a cidade na madrugada já estava se dissipando, deixando gotas de orvalho nos gramados e nas folhas das árvores. O Coronel leu a reportagem e depois a releu, satisfeito com o resultado, mas sentiu que só aquilo não era o suficiente. Que tipo de homem ele seria se não cuidasse da sua honra?

– Bom dia, vô! – Jurema lhe deu um beijo na bochecha e sentou-se em sua frente para tomar seu café da manhã.

– Já acordada, minha neta?

Jurema pegou um pão de milho, partiu ao meio e começou a passar manteiga.

– O Silvero e o Miguel querem mais uma reunião com a moça que contrataram para gerenciar as minhas redes sociais e o único horário que eu tenho disponível hoje é agora bem cedo.

O Coronel dobrou o jornal e o colocou sobre a mesa.

– Miguel me contou que estava trazendo uma moça da capital para trabalhar em sua campanha. Fiquei surpreso, acreditava que os jovens não viriam para cá nem se fosse para ganhar um prêmio da loteria.

Jurema sorriu.

– A Bahia toda conhece a família Pinheiro, vô. Para uma moça que se formou na faculdade faz pouco tempo, deve ser uma honra trabalhar com a gente.

O Coronel balançou a cabeça em concordância.

– Fiquei sabendo do incidente ontem na Câmara – Jurema encheu uma xícara com leite morno, não era chegada ao café de manhã. – Não se falou em outra coisa ontem. Todo mundo acha que o senhor deveria processar o rapaz.

– Não o fiz em consideração ao Miguel.

– Até o próprio Miguel acha isso, vô – refutou Jurema. – Disse que o filho dele está contaminado com as ideias da universidade e acha que o mundo se resume a bolhinha social em que ele vive.

O Coronel empurrou o jornal para Jurema.

– Por ora, acredito que virar capa d’A Voz de Timbaúba já será uma lição para ele.

– Talvez fosse isso que ele queria: espaço, ser ouvido. Toda moeda tem dois lados e, mesmo o jornal sendo da nossa base, o povo pode se deixar acreditar.

O Coronel pôs dois dedos de café em sua xícara.

– Esse rapaz está fora de Timbaúba há anos e eu sou parte dessa cidade, minha neta. O povo sabe disso, não é à toa que confia em nossa família há tanto tempo para cuidar deles.

Jurema não sabia se concordava ou não com o avô. Os tempos são outros, a geração é outra e a imagem forte de um opositor poderia ser um veneno para a família Pinheiro.

– Vô, nós precisamos tomar cuidado – alertou. – Ontem ele só te acusou, quem sabe o que fará amanhã?

– Se tem uma coisa que eu posso te garantir, Jurema, é que esse rapazinho nada fará amanhã.

 

Antônia mal dormiu durante a noite. Pensou em tomar um calmante, mas, estava decidida a deixar esse tipo de droga de lado, lhe fazia mal. A imagem de Álvaro acendendo o seu cigarro surgia em sua memória a todo momento, entrecortando os seus pensamentos e fazendo-a sentir um calor queimar a espinha. Quando concluiu o curso de Direito e foi obrigada a retornar para Timbaúba, terminou o relacionamento de três anos com um homem que estudava Economia e com quem, no começo do curso, pegou algumas matérias junto. Heitor é o nome dele. Alto, encorpado, com lábios vermelhos e mãos firmes. Foi o seu primeiro homem. Experimentou com ele uma nova vida, novos prazeres, novas ideias. Foi mulher. Foi amante. Pensava que os dois iriam se casar um dia e teriam dois filhos, um menino e uma menina, já tinha até lhes escolhido os nomes: Margot e Eike. Mas, quando soube que seria necessário voltar para a sua cidade, esse sonho também lhe foi dizimado. Heitor prometeu que, quando ela pudesse voltar para Salvador, ele a estaria esperando. E Antônia, por mais que quisesse acreditar, não acreditou. Heitor era jovem, já formado, trainee em uma indústria no Polo Petroquímico de Camaçari e, acima de tudo, muito atraente. Talvez estivesse com outra mulher naquele mesmo instante em sua cama, amando-a como costumava amar Antônia. Pensar nisso a deixou excitada e Álvaro, mais uma vez, surgiu em seus pensamentos. Seu sorriso cafajeste, sua voz grave, seu interesse repentino nela. Mesmo achando Heitor mais bonito, Álvaro era mais sedutor. Algo na voz dele, no jeito como ele tragava seu cigarro e na maneira como olhava para o horizonte enquanto soltava baforadas da fumaça a fez deseja-lo. Ela fechou os olhos e sentiu Álvaro deitado ao seu lado, sua respiração quente e ofegante tocando o seu pescoço arrepiado, sua mão acariciando a sua barriga, seu corpo quase se fundindo ao dela. Nunca sentiu algo assim com Heitor, ainda que ele tivesse feito-a mulher.

Antônia abriu os olhos e, por um momento, achou que Álvaro realmente estivesse deitado ao lado dela. Mas não estava. E ela não sabia se seria certo, não queria arrastar outro inocente para o seu inferno particular.

Unhas enormes arranharam a parede pelo lado de dentro, como se algo lutasse para sair.

Antônia sentou-se na cama, sobressaltada. O barulho, os arranhões, o homem de chapéu, a poça de sangue.

Aquela casa a enlouqueceria. Como fez com a sua mãe.

 

Camila desejou ter ido para a reunião com um vestido mais longo, que lhe cobrisse o corpo até a ponta dos dedos do pé. Aquele olhar nojento a incomoda, faz com que ela se desvie do seu propósito naquela reunião. “Por que ele está aqui?”, pensou. Jurema era suficientemente capaz de conduzir a sua campanha, não precisa da aprovação dele.

– Camila, você está me ouvindo?

A jornalista voltou a si e percebeu que todos no gabinete a encaravam.

– Sim, estou – disse. – Perdão, acabei divagando com minhas ideias para a campanha.

E o velho não parava de olhar para suas pernas, para seus braços, para o colo do seu peito.

– Como eu ia dizendo – Jurema levantou-se e caminhou até o centro do gabinete – pessoas ruins farão coisas ruins para me impedir de ser eleita e, eu andei pesquisando, a internet é um local muito propício para notícias falsas.

– Na minha época – o Coronel finalmente olhou para outra coisa que não fossem as pernas de Camila – as pessoas tinham mais moral, sabiam jogar um bom jogo sem trapaças e, o melhor, sabiam perder.

– Os tempos mudaram, vô.

– Infelizmente nós perdemos o lado bom, a segurança que tínhamos – o Coronel sorriu discretamente para Camila. – Hoje em dia, qualquer comentariozinho já é motivo para justiça, para processo. Às pessoas não sabem mais conviver.

Miguel assentiu.

– Acham que todo mundo é inimigo.

Se estivesse em um lugar diferente, com pessoas diferentes e com um objetivo diferente, Camila se levantaria e faria um breve discurso sobre preconceito e desinformação. Porém, ali ela precisava seguir a onda, deixar que a correnteza a levasse.

– Por isso, nós precisamos ter uma atuação forte nas redes sociais – disse. – Suprimir qualquer boato não com ataques, mas, com atitudes.

– A moça é esperta, esperta – comentou o Coronel. – Atitudes, não ataques, isso faz parte da minha personalidade.

Camila forçou um sorriso natural. Ponto para as aulas de teatro.

A reunião terminou pouco antes das dez horas da manhã. Jurema tinha outros compromissos, Silvero precisava ir à Barreiras para uma consulta odontológica. Camila se despediu rapidamente, queria sair do campo de visão daquele velho o mais rápido possível.

– Uma moça dessas não deveria andar por aí sozinha.

O corpo de Camila retesou quando ela estava com a mão na maçaneta da porta de saída da Prefeitura. Hesitante, ela girou o corpo para trás e não se surpreendeu ao ver o Coronel Juca Pinheiro parado, a olhando como um lobo.

– Estou hospedada na pousada, fica na próxima esquina.

– Ainda assim, meu pai, que Deus o tenha, me ensinou que não devemos deixar uma moça sozinha nem para ir ao banheiro.

– Agradeço a preocupação, mas, eu gosto de ficar sozinha.

O Coronel riu.

– Os tempos mudaram, mas as pessoas não, minha filha. Coração de gente é terra que ninguém anda, e eu me sentiria culpado se alguma coisa acontecesse com você.

Camila se controlou para não rir. Que segurança um velho octogenário lhe ofereceria?

– Eu sei me defender sozinha, Coronel.

Aquele olhar. Olhar nojento. Camila queria gritar, xinga-lo, chamar a polícia. Mas ela estava na cidade dele. Quem iria acreditar na mulher forasteira? Ela engoliu em seco, puxou o vestido para baixo.

– Porém, uma companhia sempre faz bem.

O sorriso do Coronel é tão nojento quanto o seu olhar.

POSTADO POR

Luna Araújo

Luna Araújo

Luna Araújo é um pseudônimo para escrever histórias que misturam mistério e ação, cujo objetivo é - tendo como pano de fundo algum acontecimento marcante - fazer um estudo da condição humana e da existência ou não de limites para nossos atos. É a autora de A CANDIDATA, minissérie exibida aqui na Cyber TV.

COMPARTILHAR

Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on tumblr
>
Rolar para o topo