A Candidata: Episódio 3 – Na caverna de Platão

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POR: LUNA ARAÚJO

*

Salete ainda conseguia sentir o hálito quente em sua nuca e o peso do corpo sobre o dela, mesmo depois de vinte e cinco anos.

– Se você ficar calada, não vai demorar – o sussurro dele ecoava em seus ouvidos.

Salete sentia o grito se formar no fundo do seu peito, subir pela garganta, mas morrer em sua boca. A mão calejada e suadas dele apertavam os seus lábios e a outra segurava o seu pescoço.

– Eu sei que você quer isso – ele repetia.

Depois que ele saiu de cima dela, Salete nunca mais conseguiu se sentir limpa. Um vazio se formou em sua alma e a consumia de dentro para fora, todas as suas emoções, sentimentos, lembranças, tudo o que havia de bom e de ruim nela.

Três semanas depois, descobriu que estava esperando um bebê. Salete nunca se casou, tivera até um ou dois namoradinhos na mocidade, mas nada que se tornasse tão sério a ponto de envolver Deus e o Estado. E a lembrança das mãos apertando os seus lábios, da barriga dele encostando em suas costas e da voz dele falando em seu ouvido não permitiam que outro homem, ainda que bem intencionado, se aproximasse dela.

Salete não queria ter o bebê. Sabia que, quando o olhasse, iria ver aquela noite, iria sentir o desespero de ter alguém a controlando, a invadindo. Pensou em fugir, ir até Feira de Santana ou Salvador para se deitar na cama de uma fazedora de anjos e se livrar da lembrança viva do que lhe aconteceu.

– Essa criança vai nascer e não teremos outra discussão sobre isso!

As palavras do seu pai, o Coronel Juca Ferreira, a machucaram tanto quanto o homem naquela noite. Mês após mês a sua barriga crescia, a vida dentro dela tomava forma e Salete desejava tirar a sua própria vida. Queria que a roda dos expostos ainda existisse, que ela pudesse colocar aquele bebê lá, gira-la e seguir em frente. Não sentiria nenhum peso na consciência, muito pelo contrário: Salete não se sentia mãe. Não daquela vida que foi feita de um jeito tão violento, tão doloroso.

Todos pareciam estarem felizes pelo nascimento da criança. O ciclo da vida se renovaria, a Família Pinheiro ganharia mais um herdeiro, haveria missa em agradecimento, a escolha do padrinho e da madrinha, o batizado. Mas o buraco na alma de Salete lhe consumia também as palavras. A pobre moça passou a falar cada vez menos, a dar sempre respostas monossilábicas e a transitar pela casa como se fosse uma alma penada. Não via a hora de expulsar aquela vida de dentro de si. Desejava que o buraco em sua alma consumisse a criança.

Mas o bebê nasceu. Uma menina forte e saudável. Quando o médico, um obstetra famoso na região de Barreiras, foi lhe oferecer a criança, Salete virou o rosto. Não queria vê-la, tocá-la, amamentá-la. Foi diagnosticada com “depressão pós-parto”, logo passaria e Salete criaria a sua filha.

Nunca passou.

O nome Antônia, em homenagem a avô de Salete, foi escolhido pela Velha Geralda. Aliás, a Velha Geralda foi mais mãe para a criança do que a mulher que a carregou no ventre. Quando a Velha Geralda morreu, Jurema passou a cuidar de Antônia.

A essa altura, Salete nem se considerava mais uma pessoa. Na cidade, todos achavam que ela havia enlouquecido, ou, nos piores boatos, que havia feito um pacto com o demônio para ter uma filha e, para tal, cedeu a própria alma para a criança. Estavam todos errados. Salete se sentia sã e era católica, ia à missa todos os domingos e não perdia uma trezena de Santo Antônio. Na verdade, parou de ir quando começou a sentir os olhares curiosos e julgadores que atraía ao colocar os pés para fora de casa, mas, rezava todas as noites.

Só não era mais uma pessoa. Nem ela mesma saberia explicar, até porque acreditava que tinha esquecido como se pronuncia algumas palavras. Tanto tempo calada a provocara reflexões: odiava os homens que haviam se apoderado do corpo dela, o que apareceu na calada da noite e o que a obrigou a parir aquela criança.

Se Salete fosse mais forte, não hesitaria em matá-los.

– Como vai a sua parte do plano?

Camila sentou-se na poltrona em frente a cama de casal do quarto que Álvaro havia alugado na pousada ao lado do seu.

– Muito bem executada – ele respondeu. – Aposto que a garota não para de pensar em mim.

Camila fez uma expressão de desdém.

– Por mais que você não acredite, Camila, eu sou um exímio conquistador – retorquiu Álvaro.

– Nunca duvidei das suas capacidades de levar uma mulher para a cama, meu caro.

– E a sua parte do plano? – Álvaro deu ênfase ao pronome.

Camila se lembrou imediatamente das investidas do Coronel, do seu olhar nojento e sorriso repugnante, da maneira como tocou o seu colo quando se despediu, uns dias antes, após acompanha-la até a pousada.

– Já devo ter material para uma ótima reportagem jogando pro mundo os atos pervertidos daquele velho asqueroso – respondeu.

– Eu ainda não consigo acreditar que o vovozinho deu em cima de você.

– Juca Pinheiro não deu em cima de mim, Álvaro, ele me assediou! – Camila sentiu um embrulho no estômago ao pôr essas palavras para fora.

– E a Jurema? – contornou o jornalista, temendo que Camila perdesse o controle.

– Na caverna de Platão – ironizou Camila. – Sonhando com o dia em que tomará posse no Congresso Nacional.

– Você duvida disso?

Camila pensou um pouco.

– A fama da família Pinheiro vai de norte a sul da Bahia, mas, eu não acho que só isso seja o suficiente.

Álvaro concordou.

– A fama deles, de qualquer maneira, não é muito boa – completou Camila. – Muita coisa estranha aconteceu com gente ligada ao Juca, é de se suspeitar.

– O povo tem memória curta para político, Camila. Basta ele soltar um dinheirinho que compra voto o suficiente para colocar a neta no Congresso.

– No que depender de mim, a Jurema não conseguirá sequer completar o mandato como prefeita – a voz de Camila assumiu um tom desafiador. – Ainda mais se a minha carreira depender disso.

– E depende – disse Álvaro. – O editor do Diário me ligou hoje querendo saber se já tínhamos algum material.

– O que você disse?

– Que não temos nada ainda, ora. Se eu contasse qualquer coisa, aposto que um dos redatores já estaria escrevendo a manchete principal de amanhã, nos transformando em fontes anônimas.

Camila mordeu o lábio inferior em um sinal de aflição.

– Só que se a gente demorar muito, vamos perder a chance – concluiu a moça. – O Diário não vai dar muito tempo a dois freelancers.

Álvaro suspirou, sabia que Camila tinha razão. A matéria sobre a família Pinheiro seria o xeque-mate, a passagem só de ida para uma carreira promissora dentro do jornalismo baiano e, quiçá, nacional.

– Então, qual será o nosso próximo passo?

Camila olhou para o teto, pensando. Os dois ficaram em silêncio até que Camila tornou a olhar para Álvaro com um sorriso de quem já sabia o que fazer.

Quim Gusmão não conhecia outro pai e outra mãe que não fossem Olavo e Vera. E preferia não conhecer. Cresceu sem entender como uma mãe pode abandonar o filho a própria sorte, sem nem olhar para trás. Mas, em seus quarenta anos de vida, não passou muito tempo questionando as razões de sua mãe biológica porque Olavo e Vera preenchiam o espaço que ela poderia ter ocupado.

Seu pai, o bom e velho Olavo, seu exemplo. Quim lembrava que, quanto ele tinha uns nove ou dez anos, sonhava em ser marinheiro, mas, não sabia nadar e até tinha medo da profundidade do mar. Olavo o levou para uma praia na Estrada do Coco, talvez a Praia do Forte, e tentou durante todo o dia ensiná-lo a nadar e o pequeno Quim não tinha coragem de sair do raso. No entardecer, o sol se pondo no horizonte, Olavo entrou na água e de repente sumiu. O pequeno Quim se desesperou, chorou e, por fim, decidiu entrar no mar para salvar o pai. E, naquele momento, perdeu todo o medo da profundidade do oceano, foi até o pai e descobriu que ele estava escondido, esperando que Quim fosse até ele.

Quim descobriu que não precisava ter medo do mar. E, acima de tudo, Olavo viu no pequeno Quim um homem de coragem. O menininho poderia não ter o sangue dos Gusmão correndo nas veias, porém o seu coração era, com certeza, um Gusmão.

E Vera, Quim pensava enquanto sova a massa que viraria pão de milho, sua mãe. Achava-a curiosa, peculiar. Vera guardava, numa gaveta do guarda-roupa, um estoque de incensos com os mais variados aromas: o de lavanda era o preferido de Quim. Mas não eram só os incensos, Vera é fã dos Beatles, dos Rolling Stones, de Legião Urbana e idolatrava Cazuza. Se aventura na astrologia e no tarot. Ninguém olha para ela e lhe dá seus sessenta e sete anos de idade. “São meus cremes, querido, um segredo que vem desde a minha bisavó”, ela costumava falar para aqueles que questionavam a sua pele esticada.

Quim podia não ter saído do ventre de Vera, não ter o sangue de Olavo em seu corpo, mas sabia que herdara deles as mais diversas características. A principal delas: o ódio irremediável contra os Pinheiro. Ódio que Quim não se lembrava do motivo, talvez nunca tivesse descoberto.

E o rapaz não saberia, nunca se propôs a imaginar, qual seria a reação do pai ao descobrir o seu romance com Jurema Pinheiro.

O esquema era simples: Camila entraria na Prefeitura de Timbaúba, através de uma janela quebrada que havia no térreo, no meio da noite e iria até o notebook de Jurema Pinheiro, o que fica em seu gabinete, enquanto Álvaro vigiaria do lado de fora, sentado num dos bancos da pequena pracinha em frente à Prefeitura, se alguém aparecia.

Não foi difícil para Camila entrar e subir os degraus da escada que ligava o térreo ao primeiro andar, onde, no final do corredor, ficava o gabinete de Jurema. Para a sorte da jornalista, os costumes de cidade pequena envolviam não trancar as portas ou utilizar câmeras de segurança. O vigia do prédio, um senhor de óculos e uniforme para fora da calça, dormia profundamente em uma das salas com a televisão ligada.

Camila entrou no gabinete, foi até a mesa de Jurema e sentou-se em sua poltrona. Rapidamente, puxou de sua bolsa um pen-drive e o conectou no notebook. Transferiu arquivos, pastas, prints de e-mails, tudo aquilo que ela considerava importante e possivelmente criminoso. Levou mais de quinze minutos ali, despreocupada.

Quando terminou, desconectou o pen-drive e o jogou na bolsa. Quando ela se levantou para sair, passos no corredor fizeram seu corpo liberar adrenalina e sua visão embaçar.

Aquele rapaz é uma ameaça, nós precisamos calá-lo antes que seja tarde e ele nos cause problemas de verdade.

Era a voz inconfundível do velho Coronel Juca Pinheiro, que não estava sozinho. Ele e a sua companhia entraram em alguma das salas e fecharam a porta, a conversa foi abafada pelo teto de laje e o volume alto da televisão que o vigia deixara ligada.

Camila não sabia o que fazer. Remexeu sua bolsa até encontrar o celular: cinco chamadas perdidas de Álvaro. Não podia pular do primeiro andar, o impacto da queda certamente lhe quebraria um osso ou pior. Precisaria sair por onde entrara e passar pela sala em que o Coronel Juca Pinheiro estava.

E assim a jornalista o fez. Caminhou, pé-ante-pé, até o corredor e depois até a escada, sem sequer tentar prestar atenção na conversa que acontecia em uma das salas. Quando conseguiu, em fim, chegar à janela por onde havia entrado, parou para recuperar o fôlego.

Sua mente foi tomada por um único pensamento: o Coronel se referia ao jovem que o acusara de assassinato na sessão, alguns dias antes.

Henrique não conseguia parar de pensar na proposta de aliança com Olavo. Desde criança, odiava o Coronel. Suas piores lembranças da adolescência envolviam pensamentos homicidas, sobre como, se encontrasse uma oportunidade, teria prazer em ver a vida se esvair do corpo do velho. Mas, crescendo, sabia que sua vida se tornaria um inferno caso fosse responsável pela morte de alguém como o Coronel. E então mudou seus planos. Desejava uma ocasião favorável, uma manobra do destino, que pusesse qualquer confirmação dos crimes cometidos pela família Pinheiro; ao mesmo tempo, desejava obliterar de sua memória aquela sede de vingança que poderia arruinar a sua vida.

Entretanto, ele mesmo se corrigia, o Coronel já arruinara a sua vida muito tempo antes. Um dia quando chegou da escola, encontrou seu pai, Miguel Sampaio, sentado no sofá segurando a cabeça com as mãos. O pai parecia sofrer e seu choro eram como gritos cortando o ar. Henrique se aproximou do pai que, ao notar a presença do filho, o puxou para um forte abraço.

– A sua mãe se foi, filho.

Como em um estalar de dedos, seu mundo desabou diante dos seus olhos. Sua visão ficou turva e ele perdeu o controle das pernas. Henrique caiu de joelhos no chão e gritou uma única vez, um grito de dor, de saudade, de tristeza, de ódio. Sua mãe. Não, não era a mãe do vizinho ou de um dos seus amigos: era a sua. Morta. Uma parte de Henrique também morreu junto com a sua mãe.

O velório de Ester foi rápido, de caixão fechado. Miguel não permitiu que o filho visse o estado da mãe, mas, Henrique imaginava. Sua mãe era uma mulher alta, de longos cabelos cacheados, olhos com um eterno contorno preto, como se Ester usasse lápis de olho o tempo todo. E um sorriso amável, amigável. E uma voz fina, doce, que amaciava o coração de Henrique quando ela cantava para ele dormir.

Meses depois, Henrique entendeu o que havia acontecido: sua mãe, funcionária da prefeitura, descobriu algo sobre o Coronel Juca Pinheiro e pretendia divulgar para a mídia. Essa era a versão real. A versão oficial foi de que a pobre Ester sofreu um gravíssimo acidente de carro, morreu na hora.

Naquele momento de constatação, Henrique jurou vingança pela morte da mãe. Nem que levasse toda a sua vida caçando os Pinheiro, ele iria conseguir destruí-los.

Pelo bem da sua consciência e em nome da sua mãe, o professor se tornaria aliado de Olavo Gusmão. Ester se orgulharia, onde quer que ela esteja.

Laurinda sentou-se em sua cama segurando uma xícara cheia de chá de erva-cidreira. Não havia ninguém com quem conversar, ninguém com quem compartilhar suas dores e angústias. Seus medos. Sua filha, sua única filha, se iludira com o avô e há muito tempo não falava mais do que o necessário com a mãe. Laurinda não sabia o que a filha sentia, se estava passando por problemas, se precisava de colo. A existência de Jurema era dedicada ao avô e aos planos políticos que os dois comungavam. Vereadora, prefeita e agora deputada federal. Em breve, governadora da Bahia e depois presidenta da República.

Laurinda nunca quis nada disso.

Depois da morte de seu marido, planejou ir embora da cidade e até tentou convencer Jurema a acompanha-la, mas, já era tarde. A sua filha jamais deixaria os braços do avô, nunca o decepcionaria abandonando as expectativas que ele punha nela. Para não ficar longe de Jurema, Laurinda decidiu ficar. E aquela casa, aquelas paredes, lhe comiam a alma.

Ela entendia Salete. Ninguém conseguia ficar são, manter a lucidez, num lugar que evocava crueldade, que exalava ódio, ganância e ambição. E temia o que a filha era capaz de fazer para atingir seus objetivos.

O chá estava doce. Do jeito que ela gostava. Se a vida é amarga, pelo menos seu chá tem mel.

Laurinda levantou a cabeça. Alguém abrira a porta da casa. Pelos passos lentos, era o Coronel Juca Pinheiro. Homem repugnante, que lhe causava repulsa e nós no estômago. Só de pensar nele já sentia ânsia de vômito.

– Velho maldito, um dia o diabo vem te buscar! – cochichou.

Vaso ruim não quebra. Uns anos atrás, o velho teve um infarto. Não morreu. Nem chegou a levar muito tempo no hospital. Devia ter pacto com o capeta. Laurinda quis visita-lo como pretexto para desligar seus aparelhos e fazer um favor ao mundo, queria vingar a morte de seu marido. Ela acreditava, com toda certeza, que Juca se livrou do filho porque Edmar já queria voar sozinho. Queria ir embora de Timbaúba e construir sua própria vida com sua esposa e sua filha. Aquele acidente não foi um acaso, ela era convicta.

– E se o diabo não vier de buscar, eu mesma te levarei até ele!

POSTADO POR

Luna Araújo

Luna Araújo

Luna Araújo é um pseudônimo para escrever histórias que misturam mistério e ação, cujo objetivo é - tendo como pano de fundo algum acontecimento marcante - fazer um estudo da condição humana e da existência ou não de limites para nossos atos. É a autora de A CANDIDATA, minissérie exibida aqui na Cyber TV.

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