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A Candidata: Episódio 4 – Meu teto, minha terra, minhas regras

POR: LUNA ARAÚJO

*

Antônia odiava particularmente as inaugurações que era obrigada a participar. Era como se o seu sobrenome tomasse forma e ficasse o tempo todo ao seu lado, a vista de todos, para quem quisesse vê-lo.

– Meus cidadãos, meu povo de Timbaúba! – Jurema ajeitou a altura do microfone para que ficasse na altura dos seus lábios. – A minha gestão se preocupa com o povo e vocês sabem disso, pois, me deram a oportunidade de ser prefeita da cidade não apenas uma, mas duas vezes.

Um homem puxou aplausos e foi seguido por grande parte do público. O Coronel Juca Ferreira, que estava alguns passos atrás de Jurema no palanque, sorriu.

– E eu sempre vou pensar em cada um de vocês e em toda a nossa cidade: meu dever é o bem-estar e a felicidade do timbaubense! – a voz de Jurema ia aumentando a cada palavra. – Hoje, estamos todos aqui para inaugurar a requalificação da nossa Unidade Hospitalar Edmar Pinheiro, que leva o nome do meu saudoso pai em memória da sua preocupação pela saúde de seu povo!

Fogos de artifícios estouraram no céu azul ensolarado e com poucas nuvens. O público ovacionou a fala de Jurema enquanto um fotógrafo se aproximou do palanque para registrar o momento da prefeita no palanque, os olhos brilhando e um sorriso enorme de felicidade.

Antônia queria desaparecer. Sentia que todo o público, mais ou menos duzentas pessoas, a julgava. Do alto do palanque, ela conseguia reconhecer algumas pessoas presentes: uma colega sua do Ensino Médio, Maria Paula, aparentava ser mais velha do que realmente era e carregava um bebê no colo; um menino com quem ela estudou a sétima e oitava séries, José Pedro, estava muito mais alto e mais forte do que ela imaginava e segurava a mão de uma moça magrinha, provavelmente sua esposa. Os olhos de Antônia percorreram o resto dos presentes, ninguém mais de conhecido.

– A Unidade Hospitalar Edmar Pinheiro é de todos nós! Nossa saúde vai, cada vez mais, se tornar independente de Barreiras! – Jurema finalizou o seu discurso sob aplausos.

Bem no fundo do público, encostado numa das árvores que margeavam a pequena avenida que servia como endereço para a Unidade Hospitalar, Antônia enxergou mais um rosto conhecido. Ela sentiu vontade de descer do palanque e correr até ele. Beijá-lo. Sentir seu corpo contra o dela. Suas mãos segurando suas costas.

Jurema desceu do palanque e caminhou até a porta da Unidade Hospitalar, seguida pelo público. Um homem lhe entregou uma tesoura, que Jurema usou para cortar o pequeno laço vermelho preso na porta. Antônia aproveitou o momento para descer do palanque e caminhar, discretamente, até o rosto conhecido.

– Não sabia que você é apoiador de Jurema Pinheiro – brincou ao se aproximar dele.

– Eu sabia que iria te encontrar aqui.

Antônia o beijou, primeiro lentamente e depois com uma voracidade que até a assustou. Seu corpo se tensionou, ela não tinha noção do quanto precisava de Álvaro. Quando estava com ele, Antônia sentia que os espíritos vingativos que perseguiam a família não se aproximavam dela. Álvaro era seu, só seu. E ela era completamente dele.

– Sabe, a pousada costuma ficar vazia nessa hora da manhã – Álvaro recostou na árvore.

Antônia deu um sorriso inocente e Álvaro lhe beijou no pescoço, fazendo-a estremecer.

– Acho que ninguém vai notar que eu saí – ela respondeu. – Depois da inauguração, minha tia irá oferecer um almoço na Prefeitura.

Antônia adorava a expressão de cafajeste genuína de Álvaro.

– Às vezes eu gosto de conversar com você – Laurinda encostou na pia da cozinha e cruzou os braços. – Esse seu silêncio te dá um ar de sabedoria, de quem tem todas as respostas para as questões essenciais da vida.

Salete se manteve impassível.

– E também sei que você me entende – Laurinda pareceu não se importar com o silêncio da ex-cunhada. – Você sente o mal que vive nessa casa, já experimentou boas doses dele.

A pobre Salete se encolheu.

– Não precisa sentir medo, minha querida – Laurinda pigarreou. – O mal está lá fora agora.

A chaleira apitou e Laurinda se apressou em pegar duas xícaras para enchê-las de chá de camomila. Colocou uma xícara em frente a Salete e bebeu o conteúdo da sua em dois goles.

– Creio que você deve ter ouvido sobre o filho do Miguel, o que ele fez na Câmara Municipal – Laurinda esperou que Salete assentisse. – Eu tenho certeza que esse garoto vai sofrer muito, coitado. Ele é jovem demais para entender a maldade que existe naquele homem.

Salete tomou um gole do chá e fez uma cara de aprovação. Laurinda sorriu.

– Eu queria ter o poder de protegê-lo, de evitar que ele sentisse o peso e a dor do poder do Coronel – Laurinda pareceu se perder em seus pensamentos, mas logo voltou a si. – Se aquele homem teve coragem de matar o próprio filho…

De repente, Salete atirou a xícara contra a parede e ficou catártica. Seus olhos, arregalados, sua boca aberta como se fosse gritar, as mãos tesas, quase fechadas em punho. Laurinda sentiu pena da pobre alma. Tanto sofrimento se escondia sob aquela pele esquálida, sob aqueles olhos perdidos.

Laurinda sentiu, outra vez, o ímpeto de vingança que movia os seus dias. Dessa vez, não apenas por ela.

“Como eu vou alertar aquele rapaz sobre o perigo que está correndo?”, pensou Camila. A jornalista tentou relaxar o corpo enquanto abaixava a tela do seu notebook. A noite já começava a cair em Timbaúba. Do seu quarto na pousada, ela conseguia ver a lua surgindo no horizonte. Noite de lua cheia. Céu sem nuvens, as estrelas cintilando. Se ela não sentisse a cada momento a responsabilidade que carregava, gostaria de caminhar pela cidade, a brisa balançando seu cabelo, o pio das corujas. Camila crescera em uma cidade tão pequena quanto Timbaúba, na região da Chapada Diamantina. Seu pai, guia turístico aposentado, costumava leva-la nos fins de semana para trilhas na região, que deram a garota um enorme gosto pela natureza e por animais. E, acima de tudo, por locais calmos. Talvez, ela pensou, um dia estabelecesse moradia fixa na Chapada Diamantina, em Lençóis, quem sabe? A agitação de Salvador a incomodava, a atordoava. O trânsito, as pessoas, o sistema de transporte coletivo, a enorme distância entre a universidade e sua casa, entre seu trabalho e sua casa, entre ela e sua vida. Camila se sentia sufocada. Estava com o seu futuro nas mãos (quem diria que seu futuro dependesse de uma cidade que ela nunca tinha ouvido falar?) e, se tudo desse certo, ela iria juntar dinheiro suficiente para comprar uma casa em Lençóis e viver lá, escrevendo periodicamente para uma coluna do jornal. Perto da natureza, perto dos seus pais, livre do trânsito, da distância, perto de si.

“E se o rapaz aparecer morto? Eu também me sentiria culpada?”.

“E se o Coronel descobrir que eu ouvi a conversa? Pior, se ele descobrir que eu tentei ajudar um dos inimigos dele?”

Camila tinha uma noção da capacidade do Coronel Juca Pinheiro em ser uma pessoa ruim.

Ela se levantou da cadeira, descalçou os saltos e se jogou na cama. Sua cabeça martelava, pensava, supunha, mas não chegava a decisão nenhuma. Por um instante, ela chegou a avaliar que seria interessante para a reportagem uma morte ligada a um desafeto do Coronel. Seu sucesso construído em cima de sangue inocente. Dessa maneira, em que ela seria diferente da família Pinheiro?

– Sabe, minha filha, essa cidade não seria nada sem nós.

Antônia se assustou com a presença desumana do seu avô, sentado na poltrona da sala, a meia-luz do anoitecer entrando pela janela e o iluminando. Se conteve para não dar um grito.

– Você pode até pensar que conseguiu ser discreta, mas, imagine o que nosso povo não pensou quando te viu saindo da inauguração com um achego, um homem que ninguém conhece?

Antônia queria enfrenta-lo, mesmo sabendo que ninguém é páreo para a fúria do Coronel Juca Pinheiro. Optou por ficar calada.

– Tudo bem, eu entendo que você está acostumada com a vida na capital, em que as pessoas são tão ocupadas que não tem tempo para cuidar da vida dos outros – disse o Coronel. – Mas aqui em Timbaúba é diferente. A cidade é pequena e a boca das pessoas é grande, os boatos correm rápido e reduzir os danos é complicado.

O Coronel levantou-se para ir em direção a mesa em que ficavam uma garrafa de uísque e alguns copos. Serviu-se com uma dose da bebida.

– Aceita?

Antônia negou com a cabeça.

– Interessante que você não adquiriu o hábito do álcool na capital.

O Coronel bebeu o uísque em um só gole.

– E é bom, aliás. As pessoas nunca perdoariam uma mulher alcoólatra.

Em um rompante, Antônia foi até a mesa, encheu um copo com uísque e bebeu. O álcool desceu queimando pela sua garganta e, quando caiu em seu estômago, Antônia sentiu que fosse vomitar. O Coronel arqueou as sobrancelhas.

– Você me lembra a sua mãe às vezes. Não podia ser diferente, afinal, ela é a sua mãe – o Coronel serviu-se outra dose da bebida. – Mas veja só como ela terminou.

Ele ergueu o copo na direção de Antônia como se fossem brindar e sorriu.

– Enquanto você estiver debaixo desse teto, minha querida, e pisando na minha terra, vai ter que seguir as minhas regras. Espero que tenha entendido o recado.

O Coronel se virou e subiu a escada, assoviando.

Antônia queria ir atrás dele, virá-lo com força, olhar nos olhos dele e afirmar que a vida é dela, ela já é maior de idade e decide o que é bom e ruim. Adiantaria alguma coisa? Não. O Coronel foi claro: ela estava na casa dele, na terra dele, deveria seguir as regras dele. Afinal, veja só como a mãe dela havia terminado.

 …

Quim Gusmão nunca quis ser político. Olavo chegara até a insistir algumas vezes, o convenceu a se filiar ao seu partido, mas, Quim não tinha vocação para político. E nunca quis, de fato, enfrentar o Coronel Juca Pinheiro e seu império. Em partes porque tinha medo da represália, em partes porque se imaginava, um dia, fugindo com Jurema daquela cidade, indo morar em Sergipe – ele tinha um apreço especial por Barra dos Coqueiros – e esquecendo que um dia fizeram parte de Timbaúba.

Sua história com Jurema Pinheiro, que deveria ser sua arqui-inimiga, começou no final do Ensino Médio. Os dois deveriam ter dezessete anos. Trocavam beijinhos, e nada mais do que isso, nos fundos do colégio. Depois, quando Jurema se elegeu e reelegeu como vereadora, eles se afastaram um pouco. Quim começou um romance com a filha de sua vizinha, mas não sentia o mesmo que sentia com Jurema e, além do mais, a moça foi morar com a avó em Juazeiro e nunca mais retornou à Timbaúba.

Um dia, na festa de aniversário da cidade, enquanto Jurema estava em sua campanha para a prefeitura, os dois tiveram o seu reencontro. Uma tempestade. O simples toque na pele de Jurema fazia Quim entrar em chamas. Os dois continuaram se encontrando e reencontrando por um tempo, sem assumir um relacionamento sério, pois Jurema acreditava que isso afastaria eleitores.

Foi quando surgiu Silvero e, junto a ele, os boatos de que ele e Jurema eram amantes. Quim sentiu o seu coração se partir em vários pedaços: sabia que ela não lhe devia fidelidade, não, de maneira nenhuma, os dois tinham apenas um caso, mas, mesmo assim. Quim se sentiu minúsculo, inútil, incapaz de ser amado. Era um rapaz bonito, ele sabia, porque atraía a atenção das mulheres. E a única mulher que lhe atraía a atenção, estava com outro.

Jurema se elegeu e reelegeu prefeita. Quim votara nela nas duas ocasiões, mesmo sabendo que o pai morreria se soubesse disso, e perdera todo contato com a mulher que – ele sabia, tinha certeza – amava.

Bom, até aquele momento.

Ver Jurema deitada em uma cama o esperando deixou Quim extasiado. Ele a queria e queria muito mais a cada momento. Quando enviou aquela mensagem, tentou se conformar que Jurema não o responderia, e foi uma surpresa receber a resposta. Positiva.

– O jeito que você me olha faz com que eu me sinta a mulher mais linda do mundo, Quim.

– E você é.

Cada curva, cada dobra, cada centímetro. Jurema é a mulher mais linda do mundo. E, no que dependesse dele, a mais desejada também. Ele se deitou na cama ao lado dela e não perdeu tempo em beijá-la. Várias vezes. Cada beijo para pagar um dia em que eles não se encontraram. Jurema colocou a mão por debaixo da camisa dele e acariciou o seu peito. Quim a queria muito. Queria que a mão dela tocasse cada parte do seu corpo, há anos ele não sentia esse desejo.

– Me prometa que não vai me esquecer outra vez – Quim sussurrou no ouvido dela.

– Nunca mais – ela respondeu em um gemido de paixão.

Na casa da família Gusmão, Vera soube para onde Quim estava indo, ou melhor, com quem se filho iria se encontrar, no exato momento em que notou a expressão no rosto dele. Jurema Pinheiro. Aquele nome era como fel em sua boca, revirando seus olhos e seu estômago. Sempre soube do envolvimento dos dois, desde os beijinhos do colégio, e sempre deixou explicito para Quim que não aprovava. Mas o que ela podia fazer para impedir? Sabia que não deveria contar ao seu marido, era capaz do bom e velho Olavo enfartar se soubesse de tal barbaridade. Seu filho, seu querido Quim, apaixonado pela neta de Juca Pinheiro.

Vera acendeu um incenso com aroma de sândalo e o balançou para que a sua fumaça se espalhasse pela casa. Piece of my heart, de Janis Joplin, tocava em seu rádio. A voz dela acalmava o coração de Vera e o cheiro de sândalo lhe tranquilizava o espírito. Temia, com certeza, o que o Coronel ou Olavo seriam capazes de descobrir o romance à la Montecchio e Capuleto. O que ela poderia fazer? Não tinha força para desafiar a cólera de qualquer um dos dois. Alertar o filho nunca surtiu efeito.

Só podia esperar que o romance entre Quim e Jurema não tivesse um fim semelhante à Romeu e Julieta.

CUIDADO, SUA VIDA CORRE PERIGO!

Aquele bilhete, empurrado por debaixo da porta de sua casa, assustou Henrique.

Não reconhecia a letra. Não conseguiu ver quem deixara aquele pedaço de papel. Ele sentiu que estava entrando em uma zona perigosa, em um jogo do Coronel Juca Pinheiro. Aquele velho deveria ter pagado algum garoto para jogar aquele bilhete e o intimidar, ele pensou. Uma boa saída, ao invés de causar um acidente ou simplesmente mandar dar um tiro em Henrique e desovar seu corpo em algum descampado, ainda mais em ano de eleição. Um bilhete, uma ameaça. O Coronel deveria estar acostumado a calar seus oponentes assim. Se não com a ameaça ou a morte, com dinheiro.

Henrique não se deixaria transformar em um ratinho de laboratório que temia as mãos do cientista maluco. O destino o fizera retornar à Timbaúba para vingar a sua mãe, que morrera em nome da manutenção do poder dos Pinheiro.

O professor encheu seu peito de ar e rasgou o bilhete em inúmeros pedacinhos. Os atirou ao vento, espalhando-os pelo chão da sala. Coragem corria em suas veias. Ele definitivamente não seria calado.

Mas a sua cabeça estava um turbilhão. Ainda não tivera a oportunidade de conversar com Olavo Gusmão e isso o deixara inquieto.

E se aquele bilhete fosse um sinal para ele ir até o bom e velho conversar, acertar os pontos do acordo em benefício mútuo? Pegou um casaco no quarto, a cidade estava começando a ficar fria, e saiu pela noite timbaubense.

O vento frio balançava a copa das árvores e as pessoas, em sua maioria senhoras, estavam à porta de suas casas conversando. Algumas reconheciam Henrique da foto no A Voz de Timbaúba e o encaravam, umas o condenando, outras com certa aprovação mascarada. Ele abraçou o próprio corpo quando uma brisa forte correu pela rua e dobrou a esquina, estava chegando perto da casa de Olavo Gusmão.

Naquele ponto, alguns postes estavam com a luz queimada, deixando a rua um pouco escura, iluminada apenas pela lua cheia que irradiava no céu escuro.

Henrique não percebeu quando um homem se aproximou dele e golpeou sua cabeça com um pedaço de madeira. Percebeu quando o pedaço de madeira lhe atingiu diversas vezes no rosto, no peito, na barriga, nos braços que usara para se proteger e nas pernas.

Não conseguiu ver o rosto do seu agressor. Não conseguiu reagir quando ele cuspiu em seu rosto. Não conseguiu se levantar quando ele se afastou. Na noite fria de Timbaúba, Henrique sentia o beijo quente do Anjo da Morte.

POSTADO POR

Luna Araújo

Luna Araújo

Luna Araújo é um pseudônimo para escrever histórias que misturam mistério e ação, cujo objetivo é - tendo como pano de fundo algum acontecimento marcante - fazer um estudo da condição humana e da existência ou não de limites para nossos atos. É a autora de A CANDIDATA, minissérie exibida aqui na Cyber TV.

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