A Descoberta – Capítulo 12

No dia seguinte, fui bem cedo para a universidade. A cabeça fervilhava e, pior, eu não parava de pensar na morte, na minha morte. Ao mesmo tempo, em alguns raros momentos de calma, refletia sobre a vida, sua complexidade e suas contradições. Os segredos que a natureza acabara de revelar desafiavam a razão, a lógica, mas eu começava a notar certa mudança na forma de pensar. A tal lógica era suplantada pela simples vontade de viver. 

Ao chegar, sobre a mesa havia um recado do reitor. Requisitava a minha presença em sua sala, o que me irritou profundamente. Não queria mais ocupar-me com irrelevâncias. Os mistérios da vida eram mais dignos de atenção do que desavenças e  quiproquós políticos. De qualquer forma, me convenci de que assim que terminasse a reunião, encontraria André para fazermos um balanço do experimento. Sentei um pouco. A fadiga me castigava. Além disso, não havia dormido muito bem na noite anterior, quase uma constante. A voz daquele ser e as estranhas revelações que fizera povoavam meu cérebro. Não dava para pensar em nada além das insólitas informações que caíam sobre mim de forma esmagadora. 

Reuni forças a imaginar o que o reitor iria dizer: “Dr. Naggy, a reputação da universidade está em jogo. O senhor deve fazer algo a respeito…”. Que inferno!

— Dr. Naggy, bom dia. O Dr. Carvalho o aguarda — disse a secretária com aquele sorriso de botox, fingindo que tudo estava bem. Fui, então, conduzido à sua sala. Ele já me aguardava. Estranhei a formalidade. 

— Doutor Naggy, precisava mesmo falar com o senhor. — Ele me cumprimentou reclinado na poltrona de couro, voltada para a janela. Contemplava o campus. Senti frieza no tom de voz: — Ficou sabendo da última? — Respondi que não. Ele continuou: — Corremos o risco de ter a verba de pesquisa cortada. A pressão externa  aumenta. Recebemos muito dinheiro e também conquistamos alto prestígio para as coisas simplesmente terminarem desse jeito. E o senhor não tem fornecido os argumentos necessários para a continuidade das pesquisas com células embrionárias. Acredito que esteja em condições de apresentar os resultados conquistados. Isso sensibilizará nossos detratores. Aliás, devo ressaltar que o senhor, há muito, não tem publicado novas descobertas. — E girou a cadeira para me encarar. 

— Dr. Carvalho, tenho ponderado sobre esta questão. Seria bom reavaliarmos…

— Espere um pouco — interrompeu, pondo-se de pé e com o indicador em riste — Acho que o senhor não entende (e como eu poderia, àquela altura dos acontecimentos?). A universidade recebe anualmente alguns milhares de dólares de várias partes do mundo para o desenvolvimento de pesquisas. Isso porque estamos no ranking como uma das melhores universidades do mundo. Veja bem, o Brasil é um país emergente que tem se destacado em pesquisas científicas pela primeira vez na história.

— Compreendo onde quer chegar, mas antes de qualquer coisa, doutor Carvalho, essas pesquisas se referem a um ser vivo. Não acho ético…

— Ora, ora! Ontem, um grande pesquisador, hoje um crente. O que está acontecendo com o senhor, Dr. Naggy? Virou religioso? Acho que nenhuma religião julgaria ético deixar milhares de pessoas morrerem indignamente. Se temos a cura, por que não usá-la? Além disso, já imaginou o retorno financeiro?

— Já, mas a questão é outra. As circunstâncias me fizeram exergar a vida de forma diferente. Minhas convicções são outras. — O reitor franziu a testa e sentou-se novamente sem dizer nada. Continuei: 

— Talvez a pesquisa não seja exatamente como nós a imaginamos. Seria o mesmo que matar um indivíduo para salvar outro. Isso anularia o bem que estaríamos fazendo. Quem sabe, uma célula, uma única célula, não seja capaz de transmitir informações valiosíssimas, e só porque não a escutamos ou por ser ela pequena demais, simplesmente não acreditamos que isso seja possível… 

— Diz isso porque sua saúde está perfeita. E aquelas pessoas que deixaram de ter sonhos e nem sabem se estarão vivas amanhã? Já pensou nelas?

— Sei muito bem como é, acredite.

— Como pode saber? Sua vida não está em risco.

— Bem; saberia mais cedo ou mais tarde. Descobri recentemente que sou portador de leucemia.

O reitor ficou visivelmente abalado. Pigarreou, arrumou a gravata, deslizou a mão pela cabeça calva, tentando se recompor. Prosseguiu com o discurso, procurando conter a emoção. Não conseguiu.

— … Me desculpe. Sinto muito. Espero que o quadro se reverta. Entende agora o que quero dizer? Mentes como a sua poderiam ser salvas. Permita-me só mais um comentário: na vida existem os indivíduos lógicos e os caçadores de borboletas. Para meu espanto, o senhor parece ter optado por caçar borboletas. Mas agora entendo.

O reitor, então, bateu com a palma da mão sobre a mesa e se levantou. Com os lábios apertados e as narinas dilatadas, encerrou a conversa com um comunicado que me pegou de surpresa:

— Bem, acho que devo encarar sozinho essa empreitada. Farei o que estiver ao meu alcance para manter a posição que esta universidade ocupa. Essa é a minha missão. Nem que para isso eu precise afastá-lo, que é o que estou pensando seriamente em fazer. Com grande aperto no coração, pois, desejaria tê-lo ao meu lado por muito mais tempo. A vida continua. Agradeço pela dedicação e pelos serviços prestados. Com seu afastamento, o subsídio para a pesquisa sobre comunicação celular também deverá ser cortado. Tentarei prolongar o financiamento por mais alguns meses. É só o que posso fazer. Sinto muito.

Não esperava por aquilo. Não tive como questionar sua decisão. Levantei-me, dei alguns passos em direção à porta, detive-me para dizer:

— Sabe de uma coisa, Dr. Carvalho? Como já disse e repeti várias vezes, não sou político. Meu compromisso agora é com a vida. Sob este ângulo, algumas coisas ficam claras. Uma delas é que, quando se está no meio acadêmico, tudo é vaidade. Tornamo-nos orgulhosos dos títulos que conquistamos, mas no final, quando se vê a própria vida escoar pelo ralo, os diplomas e os títulos, tudo isso vira um amontoado de papel. Isso sem falar nos resultados científicos adulterados, camuflados e que são publicados só porque o nome de alguém importante deve ser mencionado. A falsidade é elegantemente disfarçada, veja só que ironia. Tudo tão efêmero! Prestígio de papel. Mas uma coisa eu lhe asseguro: nada disso consegue traduzir o que é a vida. Hoje, entendo que a ciência deve se basear na natureza. Jamais deveríamos tentar dominá-la.

Dei as costas e deixei a sala. Só depois de algum tempo é que notei que tudo desabara na minha cabeça de uma só vez. Caminhei lentamente pelo corredor, tentando ordenar os pensamentos. Encontrei André, que de imediato percebeu que havia algo de errado.

— Professor? O senhor está pálido! Está se sentindo bem?

Respondi desanimado: 

— Não, não estou me sentindo bem, André. Acabei de ser afastado.

— Por quê? O que houve? Que injustiça! O senhor é o melhor desta universidade…

— Agora não tenho condições de explicar o que aconteceu. Quero sair daqui. Preciso ir ao médico. Gostaria de conversar com você em casa ainda hoje. Pode ser?

— Claro, professor. Estarei lá.

Da universidade direto ao consultório do Dr. Tiago. Quando cheguei, seu olhar preocupado confirmou minhas piores suspeitas. 

— Como estão os exames, doutor? — perguntei, a me preparar para o pior.

— Depois da segunda dose do quimioterápico, sua imunidade diminuiu e diminuiu também o número de plaquetas. Você precisa ser internado imediatamente.

 “Era só o que faltava” — pensei. 

— Doutor, existe a possibilidade de o exame estar errado?

— Receio que não. Solicitei novos exames. Procederemos imediatamente à reposição de glóbulos vermelhos e plaquetas. Ficará em observação durante dois dias.

— Antes, preciso fazer algumas ligações.

Saí do consultório completamente perdido. Existia, porém, um sentimento que contrapunha o terror que me invadia. Estranho, mas a preocupação maior era prosseguir com o experimento. Isso parecia ter o poder de suavizar o impacto daquela situação. Além do que, a atração pelo desconhecido era a minha força motriz.

Informei André sobre a minha internação. Precisava conversar com ele sobre alguns detalhes do experimento. Por isso, combinei de nos vermos no dia seguinte. Em seguida, informei Lara, que rapidamente providenciou tudo para ficar comigo durante minha permanência lá.

padrao


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