A difícil arte de ser eu, Lucas (temporada 2) episódio 1: “amor e outras confusões”

-Olá querido. A festa está boa?

– Acabamos de chegar – respondo.

-O que houve?

– Pegamos um engarrafamento. Mas na boa, mãe, a senhora não ligou pra saber como a festa está né? – questiono já começando a ficar impaciente.

– É claro que não. Mas não teria mal algum nisso, teria?

Detesto quando dona Lúcia começa a querer me analisar por osmose.

– Mãe, eu só tenho até as duas da madrugada para ficar na festa e a Gabriela está parada em frente ao portão da casa do Rômulo, me encarando. Parecendo um pit bull… – ergo a cabeça e reviro os olhos para minha amiga ao mesmo tempo que soletro, sem emitir qualquer som, a palavra MÃE

– Na verdade, querido, você PRECISA ESTAR em casa às 2h – dona Lúcia me corrige sem titubear, como sempre.

Enquanto Gabriela aponta para o pulso, tensa, minha nobre mãe volta a se manifestar.

– Bom, não vou mais tomar o precioso tempo de vocês – ela reinicia calma, inabalável – Só liguei para pedir que você não assuma nenhum compromisso amanhã durante a tarde…

– Como assim? – me deixo cair sobre o dormente de madeira e azaleias, mas logo me afasto quando sinto as flores sob a minha bunda – O que vai acontecer amanhã à tarde?

– Vamos almoçar com o noivo da sua prima.

– Oi?

– Vamos almoçar com o noivo da sua prima – dona Lúcia repete pausadamente.

– Quem é essa pessoa, mãe? – pergunto não conseguindo conter minha irritação.

Gabriela desce os dois degraus que nos separam e estaca à minha frente, curiosa.

– Essa pessoa é o noivo da sua prima, querido…

– Essa parte eu entendi, mas por que razão nós precisamos almoçar com ele? Não o conhecemos…

– Sua prima acabou de me ligar, aliás, está eufórica, contando os minutos para te receber lá, em Laranjeiras…

Meneio a cabeça e faço o famoso gesto simulando uma arma com os dedos da mão esquerda na direção do meu crânio.

– Prima que eu também já cansei de dizer que não conheço e não faço questão do contrário… Na boa mãe, não tô te entendendo…

– Querido, você mesmo vem reclamando, como acabou de fazer, sobre chegar a Laranjeiras sem conhecer ninguém, e já cansamos de discutir sobre isso… Bem… Acho que começar pelo noivo da sua prima, que por acaso está de passagem aqui no Rio, já quebra esse paradigma de resistência e negação que você está insistindo em manter…

Conto até dez, desmonto o gesto bélico feito com a minha canhota e me jogo literalmente para trás. Fodam-se as azaleias.

– Escuta mãe, vamos conversar melhor em casa, ok? Isso não quer dizer que estou concordando com esse almoço sem sentido com uma pessoa que nunca vimos na vida…

– A sua prima me enviou uma foto dele e o número do celular. Falamos-nos e, aliás, é um príncipe esse rapaz… Quer que eu te mande a foto? Assim ele não será tão estranho quando nos conhecermos ao vivo e a cores…

Reviro os olhos e “conto até mil” para não perder o que me resta de paciência, se é que ainda possuo alguma.

– Não, mãe. Não quero ver a foto desse indivíduo.

– Tudo bem. Um beijo querido e se divirta.

A ligação é encerrada. Respiro fundo, muito fundo enquanto olho para o meu celular e sou tomado por uma vontade desesperadora de atirá-lo longe.

– Posso saber o que está acontecendo e assim ver se consigo evitar o ataque de AVC que o senhor está prestes a ter?

Gabriela pergunta concisa, apoiando um das mãos sobre o meu ombro direito e eu então balanço a cabeça, rápido, e rio de um jeito frenético, beirando o ataque de nervos que há muito já deveria ter me acometido.

– A minha mãe marcou um almoço para amanhã…

– Sim, essa parte eu entendi – Gabriela completa.

O meu celular volta a vibrar e eu não demoro a atender, certo de que é dona Lúcia do outro lado da linha a fim de terminar com o que restou da minha noite.

 

– Que porra foi aquela que você postou seu viadinho de merda?

 

Um calafrio atravessa todo meu corpo quando ouço a voz de David. Conto até dez e daí abaixo o celular rapidamente e arregalo os olhos para Gabriela.

– Adivinha quem está aqui, no telefone? – a desafio, ofegante.

– Posso estar enganada, mas é o David – ela responde carregada de uma certeza inabalável.

– Eu vou desligar – anuncio sem qualquer sombra de dúvida.

– Melhor não – Gabriela, por cima dos meus ombros, aponta para a rua com o seu queixo – O David está ali, do outro lado.

 

– O que você tá dizendo, Gabriela? – questiono, tomado de sobressalto, ao mesmo tempo que pressiono o meu corpo contra os dormentes de madeira, acabando por massacrar de vez as pobres azaleias e rachando, pelo menos, meia dúzia de vasos de suculentas – O que o David tá fazendo aqui? – termino por sussurrar entre os dentes, estarrecido, apertando o celular contra a perna numa tentativa alucinada de abafar a sua entrada de som.

– Por enquanto, do outro lado da rua…

Gabriela relata com um tom de voz inacreditavelmente sereno e sem desviar o olhar da direção de onde o David provavelmente está, até que se volta para mim, numa composição de movimentos lentos e graciosos, como se fosse a primeira bailarina do Municipal executando com maestria e fluidez um dos atos do Lago dos Cisnes.

– Mas pelos movimentos que acabou de fazer, acho, não vai demorar a vir até aqui.

– O quê! – exclamo, tapando logo em seguida minha boca com a mão esquerda à medida que com os olhos mais que arregalados, encaro minha amiga.

– Desgruda daí, Lucas, e acaba logo com isso – Gabriela ordena, com firmeza, assumindo, de pronto, a delicadeza de um ouriço – Essa é a oportunidade que você queria: ficar frente a frente com o David e jogar na cara dele tudo o que está engasgado na sua garganta; mas caso tenha mudado de ideia, ficar aí, espremido sobre essa madeira, não vai adiantar muita coisa.

– Você poderia fazer o favor de apertar logo a merda dessa campainha? – retiro a mão de cima da boca e lanço minha pergunta carregada de exasperação ao tempo que semicerro os olhos, fuzilando Gabriela.

– Não seja por isso…

Ela se volta, sobe os dois degraus que faltam para alcançar o portão de aço ladeado por um muro (imenso) em concreto aparente, semicoberto por heras, e aperta, por fim, uma, duas, três vezes, a famigerada campainha com o indicador e em seguida acena para a pequena câmera fixada à parede, a uns 3m acima de sua cabeça, até se virar novamente para me encarar.

– Satisfeito, senhor? – minha amiga pergunta com ar de deboche enquanto encosta displicentemente sobre o muro, cruzando os braços.

– Posso saber de qual lado a senhora está? – questiono, voltando a sussurrar.

– Deixa de ser cretino – Gabriela retruca, descruzando os braços, se afastando do muro e dando um passo na minha direção – Só estou tentando acabar logo com esse suplício, ou você realmente achou que o seu ex ia deixar barato aquela postagem difamatória que você postou no Secrets? E pior ainda. Ia ficar com o rabinho entre as pernas depois do passa fora que dei nele pelo celular?

– Falta um pouco menos de quarenta e oito horas para eu ir embora…

– Mais um motivo pra você resolver isso o quanto antes – o tom de voz de Gabriela, agora baixo, mas ainda firme, chega aos meus ouvidos – O David sabe onde você mora, esqueceu? Sua mãe vai adorar ver esse bostinha na portaria do prédio, gritando, colocando pra fora todos os palavrões que conhece…

– Ele não seria capaz disso…

– Eu não pagaria pra ver…

Sinto minha garganta queimar.

– Lucas, meu amigo, você feriu a hombridade dele, não se esqueça – Gabriela me devolve ríspida – O seu ex faz parte de um grupo de gays que busca por uma masculinidade absoluta. Desses que estufam o peito e dizem aos quatro ventos que são gays, sim, mas com uma condição: só curtem “outros machos como eles”, e com isso se consideram superiores aos “veados”…

– Jura que você está fazendo esse discurso? Aqui? Agora? – interrogo com uma dose de ironia, batendo o pé, impotente, e Gabriela me fita como se eu tivesse quatro anos de idade, desprezando sem titubear a minha reação.

De súbito, ela volta a desviar os olhos para a rua e nesse instante sou tomado pela constatação obvia de que o David está se aproximando e, então, imbuído de uma curiosidade sádica, quase incontrolável, faço menção em acompanhar o olhar de minha amiga, mas desisto diante da avassaladora enxurrada de imagens onde David surge à minha frente, possesso, punho fechado, jogando-se sobre mim como um leão de chácara transbordando testosterona e cólera…

Respiro fundo e afasto-me, um tanto hesitante, dos dormentes de madeira e das azaleias sobre as quais estava caído, porém não consigo dar um passo adiante, voltando a me recolher ao mesmo tempo que esquadrinho com afã o muro da casa de Rômulo, me perguntando por que cargas d’água os pais dele precisavam construir a porra de uma fortaleza de concreto.

– O David tá vindo…

A voz de Gabriela soa um tanto longe, acima de mim, mas chega tão pesada como se fosse uma das sete trombetas anunciando o Apocalipse e eu me seguro para não correr até o portão de aço para tentar colocá-lo abaixo com socos, chutes ou o diabo a quatro. 

Por que ainda não atenderam a campainha? O que houve com o sistema eletrônico do portão? Cadê o Rômulo, caralho, ou quem quer que seja?

Meu cérebro entra em ebulição e o ar me falta.

– Provavelmente o sistema do portão deve estar com algum problema Lucas, e você sabe muito bem da distância da casa até aqui…

Gabriela me repreende, postando-se à minha frente com as mãos na cintura, me encarando, desafiadora e com uma das sobrancelhas arqueadas enquanto volto a me apoiar sobre os dormentes de madeira… Eu não sabia que havia reclamado tão alto a ponto dela ter escutado.

– Quem foi mesmo que disse: “se o David tentar se aproximar de mim, você anota aí Gabriela, vou virar assunto do New York Times, do O Globo, do Le Monde…”?

– Me deixa em paz – devolvo irritadiço – Se for para lembrar quem disse o quê, a senhora me garantiu que ele não ia aparecer por aqui, lembra?

– Eu não dei garantia de nada, meu amigo. Eu disse apenas que ia ser divertido imaginar o seu ex te esperando igual a um dois de paus na frente da Rainbow até perceber que nem você e nem ninguém iria estar por lá.

– Pelo jeito ele não demorou a perceber, não é mesmo?…

– O David pode ser um troglodita, curto de entendimento, duro de cabeça, obtuso, um bobo alegre, mas ele sabe somar dois mais dois, Lucas…

– E somou tão bem que conseguiu descobrir o novo endereço da minha festa. Existe um espião entre nós. Um gato entre os pombos. Alguém postou o endereço da festa no Face, no Insta, na puta que o pariu… – resmungo nervoso com a perspectiva de encarar a realidade ao passo em que me lembro do celular que ainda está ligado, pressionado contra minha perna.

Caralho!

Imediatamente o trago até a altura dos olhos e o desligo, sem pensar duas vezes, guardando-o no bolso da calça jeans e daí, logo em seguida, me sinto sufocar novamente, apesar de não me lembrar do instante em que voltei a ter o ar transitando pelos meus pulmões e no mesmo instante, num gesto brusco, começo a abrir os primeiros botões do colete sob um contínuo olhar de reprimenda por parte de Gabriela e então, de repente, a voz de David invade os meus ouvidos, inabalável, ameaçadora, gritando que finalmente encontrou o viadinho de merda…

Estremeço.

Pesadelo ou realidade?

Ele atravessou a rua?

Ele já está aqui, na escadaria, em frente à casa do Rômulo?

Minha cabeça gira. Busco o semblante de Gabriela, mas ela já está de costas para mim, começando a descer alguns degraus. Fecho os olhos, inspiro com força e em seguida tento me colocar de pé, mas me desequilibro e volto a me amparar sobre os dormentes de madeira, sobre as infelizes azaleias…

Você não tem outra palavra no seu vocabulário para tentar ofender o Lucas que não seja o diminutivo daquele animal quadrúpede ruminante cervídeo de pontas ósseas ramosas?

Reconheço a voz de Gabriela em meio à minha confusão mental, o suficiente para perceber que ela está correndo com tesouras ao debochar do David pelo lado mais fragilizado que ele possui. Quer dizer: diante dos últimos acontecimentos não sei mais se a astúcia é o aspecto mais fraco da sua personalidade.

“A ansiedade é um combustível que alimenta a baixa autoestima. Nem sempre ela é negativa, mas uma pessoa que sofre por antecipação está claramente se sentindo em desvantagem diante de uma situação”.

As palavras ditas por dona Lúcia nas diversas ocasiões em que ela acreditava que eu estava mergulhado em um mar de aflição somado à minha autoestima prestes a alcançar um patamar abaixo de zero (e tinha razão), passeiam pela minha mente como um outdoor de neon piscando, alucinado…

Um barulho de vozes.

Abro os olhos e viro a cabeça na direção de onde elas vêm e consigo enxergar as imagens de Gabriela e David, de início um tanto embaciado, apesar da iluminação eficaz projetada pelos dois postes dispostos em cada lado da escadaria e das três arandelas penduradas estrategicamente sobre a parede do muro de concreto.

Também ouço, bem longe, uma música tocando…

Não consigo identificá-la e nem tampouco de onde está vindo…

Possivelmente de dentro da casa do Rômulo…

Agora o som de um carro passando pela rua…

Pensando bem, será que estou manipulando as palavras de dona Lúcia a fim de criar um mecanismo de autodefesa, uma manutenção emocional para justificar minha reação de total covardia diante da investida do David?

O meu problema é com o seu amiguinho aí, Gabriela. Sai da minha frente…

Ou então o quê, David? Vai me empurrar? Vai me bater? Se isso te fizer bem, vá em frente. É uma ótima maneira de comprovar sua masculinidade…

Parece que os dois, minha amiga e meu ex, estão em uma dimensão diferente da minha…

Semicerro os olhos e vejo David alguns degraus abaixo de onde estou; ele, de frente para mim, sempre com sua boa aparência, alto, ombros retos, abundantes cachos louros sobre a testa branca, está encarando a postura valente, e por que não arrogante, de Gabriela, de mãos na cintura, ereta, gigantesca em seus 1.68m, empedernida, bloqueando sua passagem…

Reagir. Eu Preciso reagir.

Num relance de milésimo de segundos me vejo naquele calçadão, frente a frente com “Thiago”, com seus olhos tom de mel, suas sobrancelhas grossas, seu sorriso largo, a expressão de classe e dignidade perseverando em seu corpo esbelto e ereto e a frase de Gabriel Garcia Marquez, nunca deixes de sorrir, nem mesmo quando estiver triste, porque nunca se sabe quem pode se apaixonar por teu sorriso, sendo declamada por ele sem grandes alardes.

Sinto o ar frio e úmido da noite tocando o meu rosto e então não resisto e sucumbo a uma onda pueril de uma ingenuidade sem precedente (e desespero), lançando ao redor um olhar furtivo na esperança de ser resgatado por “Thiago”, mas não demoro a menear a cabeça com raiva diante da minha imperdoável estupidez, da minha obstinada fascinação e, por conseguinte, do meu desejo frustrado, mas imediatamente, não mais que imediatamente, ouço todo o desprezo da voz de David ao terminar o nosso namoro atravessando o meu cérebro, assim como a imagem estagnada do seu olhar esquivo ao me dar a notícia de que lamentava, mas não podíamos continuar, pois eu o havia ajudado a enxergar que não sentia mais atração por homens… David projetando em mim sua fraqueza. Sua desonestidade. Acusando-me a fim de ocultar seu mau comportamento.

Não. Não.

Eu não deveria estar com medo, afinal de contas o David me enganou. Ele é o vilão nessa história. Concluo, em suma, e ajeito os ombros e com um pequeno esforço me coloco de pé, porém minhas pernas tentam me trair, mas permaneço firme, convicto de que preciso pôr fim a esse conto de fadas macabro…

Rezar. Isso. Fecho os olhos de pronto e tento iniciar uma oração, mas ela não vem. Há quanto tempo não vou a uma igreja?

Sou tomado por um medo abismal.

Talvez o Criador tenha me virado a face devido às minhas numerosas culpas, afinal, desde que eu soube da mudança para Laranjeiras tenho sido um péssimo ser humano transbordando impaciência, arrogância…

Pai nosso que estás no céu, santificado seja o vosso nome, venha a nós o vosso reino…

Ao terminar minha oração sou invadido por uma calorosa onda de gratidão ao Criador, ao mesmo tempo que sinto uma firmeza se expandir por todo o meu peito, buscando dizimar, com brandura, o desespero que me assola ao passo que sinto minhas emoções mais aguçadas e ampliadas.

Enquanto volto a me movimentar para ficar de pé, deixando em paz o que restou das pobres azaleias, visualizo David gesticulando de maneira exagerada, quase caricata, parado a poucos centímetros diante da figura diminuta de Gabriela, e constato, de súbito, que eu nunca passei por isso: rever um ex-namorado, rever alguém que dividiu algumas experiências comigo por um tempo, por mais superficiais que elas possam ter sido.

O Jonas sumiu da face da terra depois daquele post it que largou embaixo do meu celular e o Thomas deve ter voltado oficialmente pra sua vida de pegador, no quinto dos infernos, após eu ter terminado com ele…

Realmente não havia como saber, mas também não sabia o quão libertador poderia ser…

Eu devia estar desolado, devia estar gritando, partindo pra cima do David, culpando-o por ter me deixado, por ter mentido, por te me usado… Ainda hoje pela manhã tudo isso me causava uma dor imensa, mas agora… Nada… Estranhamente não me importo…

De imprevisto minha mente viaja até a noite em que conheci David, há um pouco mais de quatro meses, dentro de uma boate… A imagem do príncipe maduro que ele me parecera, seus cabelos louros brilhando sob as luzes artificiais do ambiente… Agora consigo reconhecer, sem quaisquer resquícios de uma pretensa dúvida que o idealizei dentro do meu desespero em querer encher o enorme vazio das minhas aflições românticas, acreditando que finalmente o destino tinha me reservado o cara perfeito…

Gabriela está certa. O David é uma prova viva da minha fixação desmedida em querer ter um namorado custe o que custar. Que tolo eu venho sendo todo esse tempo.

Tomara que eu tenha aprendido a lição…

Consigo, por fim, me postar de pé, e, de frente para David, tendo apenas três degraus e a Gabriela nos separando, eu o chamo.

– Ora, ora, ora… – o tom de escárnio pontuando sua voz é o que recebo como resposta depois que os nossos olhares se cruzam – Então o boiolinha decidiu virar macho de uma hora para outra? Finalmente resolveu sair debaixo da saia da sua amiguinha?

David sorri torpe enquanto aponta para mim. Ódio e desgosto ardem em seus olhos à medida que rugas impiedosas começam a surgir nos cantos da sua boca.

– Vai embora David – Gabriela ruge, fazendo menção em avançar sobre ele.

– Deixa!

Peço calcado de indecisão, juntando forças para não esmorecer diante do olhar penetrante do meu ex, ao passo que Gabriela se volta para trás e me encara, um tanto confusa.

– O que você quer David?

Questiono tendo cuidado ao pronunciar cada palavra e ele, claro, tenta avançar um degrau, mas minha amiga se volta para frente, de imediato, abrindo os braços, impedindo-o.

– Quero tirar a limpo aquela merda que você postou… – David brada em alto e bom som, gesticulando, demonstrando todo o seu descontrole. Dor e raiva são o que enxergo agora em seu semblante. A raiva do orgulho ferido sobre sua vaidade masculina…

– Não há o que tirar a limpo, cara – replico com certa dificuldade depois que as palavras travam em minha garganta – Não sei do que você está falando…

A cada segundo David se parece cada vez mais com um gato à caça, alerta, tendo a prontidão daqueles com os nervos continuamente tesos e Gabriela vai acabar pagando o pato se continuar tentando me proteger.

– Eu te conheço, Lucas – ele me devolve entre os dentes, sacudindo os braços por cima dos ombros da minha amiga – Eu sei que tu tá mentindo seu bostinha…

Um resquício de medo volta a me assolar diante da constatação de que ele está certo, porém, logo dá lugar a uma crescente irritação, e também decepção por ter me permitido ser tão transparente para alguém que não merecia metade do que lhe dei durante os quatro meses em que ficamos juntos.

– E se por acaso eu fiz isso… – tento argumentar, consternado.

-Por acaso? – David grita ainda mais alto, soltando uma gargalhada carregada de sarcasmo enquanto olha para o lado, sacudindo a cabeça para depois voltar a encarar Gabriela e logo depois a mim, deixando cair um canto da boca, erguendo uma das sobrancelhas – Não sei como te aguentei sabia?

A expressão de desdém permeia essas suas últimas palavras.

Respiro fundo.

– Ninguém te obrigou…

– Não mesmo.

A vibração de raiva que emana de si é inconfundível.

– Só te suportei… – David reinicia num tom de voz absurdamente calmo, controlado – Por mera falta de opção. Por que você me suplicava pra não te deixar. Por que, tenho que reconhecer… – agora um ricto nervoso, de triunfo, corta o seu rosto – Você não era tão ruim na cama…

– Sai daqui David – Gabriela ordena, consolidando ainda mais a fortaleza imposta pelos seus braços abertos, mas ele a ignora.

– É isso mesmo – David continua. Seus olhos estão firmes sobre mim – Um putinho. Somente isso. Eu te usei o quanto pude. Era o preço a pagar por aguentar suas crises de imaturidade, seus ciúmes, suas inseguranças…

Penso em revidar, mas não consigo e então me lembro de uma frase dita pela ex-primeira dama dos Estados Unidos, Eleanor Roosevelt: ninguém pode fazer você se sentir inferior sem o seu consentimento. Nesse instante sou surpreendido com a chegada de um homem praticamente surgindo do nada; ele coloca uma das mãos sobre o ombro esquerdo de David, que se vira instantaneamente aos berros, dando a impressão de já saber quem o teria tocado.

– Caralho, Augusto, eu não te falei pra não vir até aqui, porra?

– Vamos embora.

O tal homem responde num tom de voz quase inaudível, mas sem deixar de encarar David em nenhum momento, ao mesmo tempo que lhe toca o braço.

– Você prometeu que não ia fazer escândalo, disse…

– Volta pro carro! – David grita, puxando o braço asperamente – Esse problema é meu, ok? Não se meta.

Mal termina de cuspir suas palavras, ele empurra o tal homem, que com certo esforço se equilibra para não cair e imediatamente se volta para mim, afrontoso, exasperado.

– Você tem razão, David… – lhe devolvo um olhar cansado, transbordando uma piedade ardorosa. A melancolia permeia o meu tom de voz – A minha atração por você foi infantil, e hoje, mais cedo, quando postei aquilo tudo no Secrets

Gabriela se vira para mim e percebo em seus olhos um pedido silencioso de ponderação, mas eles também irradiam um sustentáculo inebriante que me dá forças para seguir adiante… Respiro fundo e me volto para David e não me surpreendo com o seu rosto estreito, mal conseguindo ocultar a fúria diante do início da minha notória confissão.

– Quando postei aquilo tudo no Secrets… – reinício. Sinto minha garganta queimar – Eu estava me portando como uma criança mimada, impedida de ter um brinquedo…

Engulo em seco antes de seguir adiante. Meu coração está doendo, apesar de tudo.

– Você, David, para mim, nunca existiu de verdade. Eu me apaixonei por uma coisa inventada. Confundi amor com passividade, desespero. A minha insistência em tê-lo ao meu lado não foi mais importante que meus desejos em querer todos aqueles posters de filmes famosos dos anos 80 milimetricamente dispostos sobre a parede do meu quarto…

David deixa escapar um urro ensurdecedor e empurra Gabriela, que sem qualquer chance de defesa vai de encontro aos dormentes de madeira, das azaleias, dos vasos de suculentas, do diabo a quatro, enquanto ele parte para cima de mim como um animal ferido. Os três degraus que nos separam se tornam apenas um ante o seu passo gigantesco no intuito febril de me alcançar, ao mesmo tempo que instintivamente recuo e por pouco não me desequilibro. Nesse instante o som de um metal pesado reverbera atrás de mim e daí, sem pestanejar, me volto e após ver o portão de aço ser totalmente aberto, avisto surgir, imponente, Rômulo acompanhado de mais três amigos. 

– Quem diria… Eu não sabia que aqui fora também estava tendo uma festa.

Rômulo se pronuncia mantendo um tom de voz modulado, cortês, porém firme e direto enquanto corre os olhos sobre o pequeno grupo à sua frente, feito uma mamãe pombo que observa as outras aves em busca do corvo que poderia comer seus filhotes. Os três amigos que o acompanham se dispersam, assim como peças em um tabuleiro de xadrez, tomando posições aparentemente estratégicas sobre o patamar no alto da escada de granito rústico.

 

 

SPENDING MY TIME, ROXETTE, fonte: https://www.youtube.com/watch?v=VQOIingbY_8

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padrao


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