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A Ordem dos Templários de Prata – Parte 1

Parte 1

Como me apaixonei pela morte

 

No decorrer dos séculos, fomos retratados como monstros frios e sem alma, nos escondendo nas sombras para assim aplacar nossa sede. Você já deve saber o que eu sou, afinal não se fala em outra coisa nos dias de hoje: VAMPIROS!

Sim, eu sou uma vampira, eu tenho mais um segredo para te conta, o que você acha que sabe sobre vampiros não passa do básico, e até mesmo o seu básico não é o suficiente para entender como é viver nas trevas. O que você realmente acha que sabe beira a fantasia barata. Criada pela literatura para distrair e enganar os seres humanos, não posso negar que muito da mitologia vampírica que você conhece é verdadeira: Nós não suportamos o alho, ou a luz do sol, entenda de uma vez o sol queima nossa pele e não nos faz brilhar. O sangue frio de um homem morto nos faz paralisar e sofrer dores quase insuportáveis. Essas são nossas fraquezas, e em contrapartida temos agilidade, força e quase a vida eterna além da famosa sede de sangue.

Em suma, não acho que esses sejam detalhes tão importantes assim, mas é importante que vocês saibam que vampiros existem e eles podem estar mais próximos do que vocês imaginam.

Assim como nos existimos existem também aqueles que nos caçam. Estudiosos que usam todo o conhecimento acumulado através dos séculos para combater os seres das sombras, mas nenhum deles se comparam a maior delas, A Ordem dos Templários de Prata. Meu nome é Eurídice Pacheco e hoje eu vou lhes como foi meu encontro com eles. Tenho tantos anos quanto seja possível contar, ou talvez até um pouco mais, mas não revelarei minha idade, pois seria indelicado de minha parte. Minha aparecia jovial o fará pensar que estou na casa dos 30 anos, não mais que isso, ou quem sabe um pouco menos.

Meus gostos são um tanto antiquados, talvez rebuscados demais para esta época, sempre uso uma maquiagem provocante, olhos cor de sangue delineados com sombras escuras e uma maquiagem leve apenas para me dar um pouco de cor nos lugares certos disfarçando minha pele pálida e fria. Ganhei através dessa maldição as formas mais belas que o corpo feminino pode ter no auge da juventude, cintura delineada, quadris largos e seios fartos, aos quais faço questão de ressaltar em meus vestidos longos e vibrantes.

Hoje vivo tranquila, com minha filha, em uma cidadezinha do interior um pouco afastada da civilização o que a faz atrasada tecnologicamente, o que facilita muito as coisas quando se quer ocultar alguns segredos.

No meu caso são cadáveres.

Tive uma infância difícil, nunca fui daquelas garotas certinhas, que sonhavam com o príncipe encantado, ―  sempre vivi entre sapos minha vida toda ―  tive de me virar desde muito cedo para ter o que comer num mundo de cão, onde os homens eram vistos como deuses e as mulheres vermes que estavam na terra apenas para servi― los. Trabalhei desde muito cedo, servindo mesas, limpando o chão, lavando pratos e de quebra ouvindo aquelas velhas cantadas babacas e machistas que me faziam ter vontade de matar qualquer um que se metesse a besta comigo. Afinal eu era uma menina das ruas e sabia me defender muito bem sozinha.

Num dado momento da minha adolescência percebi as mudanças que a puberdade me proporcionava a com elas, os olhares dos homens em mim. Foi ai que me veio o estalo, “eu posso ter o que eu quiser deles.” Assim virei a queridinha de todos os homens, pois, além de servir as mesas, me tornei uma cortesã num lugar imundo, onde os clientes não eram dos melhores, mas me rendiam boas gorjetas, joias e vestidos caros no fim do dia. Não me entenda mal, eu nunca gostei desta vida, apenas lutei em tempos difíceis com as armas que a vida me deu. Meu próprio corpo.

Certa noite, um cliente me chamou num canto, era um homem muito bonito, bem apessoado, alto, rosto esguio cabelos negros e longos, roupas finas, delineavam um corpo forte. Ele certamente vinha de uma família nobre, mas seus atos não foram tão nobres assim, o combinado eram duas bolsas de ouro por uma noite em minha companhia. No fim ele me levou para um quarto, onde mais três homens nos esperavam para uma festinha particular.

Sem entender o que estava para acontecer, tive medo e recusei a proposta, porém os quatro agiram como porcos no cio, revelando-me o lado mais desprezível dos homens. Eu tentei resistir e fugir, mas meus músculos frágeis não foram páreos para os quatro homens. Ao termino do que eles chamaram de “brincadeirinha inocente”, fui escorraçada do quarto a tapas.

Eu me senti a pior das pessoas, suja e enojada pelo que eles haviam feito comigo, machucada, com meu corpo cheio de hematomas, olho roxo além dos lábios embebidos em sangue foram as marcas deixadas por eles. Marcas que eu, como mulher, jamais esquecerei.

Nenhum ser humano por mais desprezível que seja merece passar por isso, independentemente da cor da pele, da opção sexual ou da classe social à qual pertence.

Andei pelas ruas atordoada, indignada pelo que eu havia acabado de deixar que fizessem comigo. Eu poderia ter gritado, fugido ou machucado os quatro, mas o medo da morte silenciou-me e disso eu me arrependo. Um daqueles homens havia mordido minha jugular e enquanto sugava o meu sangue, o outro arrancou um pedaço de seu braço com os dentes afiados e me forçou a beber de seu sangue. Naquele momento eu fui fraca, algo ali me modificou para sempre, aqueles homens haviam me transformado num monstro.

Em questão de dias eu não era mais eu. Meus sentidos se apuraram pouco a pouco, eu era capaz de enxergar além do que qualquer outro, ouvia sussurros longínquos, os odores agora eram diferentes, eu agora sentia a busca por prazer e o medo das pessoas de longe, a comida não tinha mais o mesmo sabor. A luz do sol me queimava a pele. Tudo o que eu consumia era colocado pra fora no mesmo instante. A única coisa que me satisfazia era o sangue, mas não qualquer sangue, e sim o sangue humano.

Uma semana após aquela fatídica noite, a mudança havia se completado. Eu era definitivamente uma assassina. Um dos meus clientes, veio até mim procurando pelo prazer que não encontrava em casa. Combinamos tudo à mesa e fomos para os fundos do bar, ―  trinta moedas de prata por uma hora em minha companhia. ―  O rapaz inexperiente no assunto perecia estar com medo, fazia tudo às pressas, sem apreciar o momento. Ele me apertava contra a parede, me machucando, o que me fez relembrar daquele trágico momento. Me deixei levar pelo ódio, golpeando-o para longe, fazendo-o cair de joelhos no chão de pedra, por causa das calças arreadas.

Furioso, o homem veio em minha direção, pronto para me esbofetear com as mãos tomadas de sangue. Aquele cheiro invadiu minhas narinas de tal modo que eu simplesmente avancei junto a ele mordendo sua jugular em questão de segundos, o sangue daquele homem me tornara mais forte, mais ágil. A partir daquele momento eu tomaria as rédeas da situação.

Nenhum homem me machucaria, ou me faria sofrer novamente.

Eu me tornei uma assassina.  Passei a viver nas sombras, caçando em segredo, homens que de alguma forma machucavam mulheres. Um a um, todos aqueles que me procuravam com segundas intenções acabavam da mesma forma, em um beco escuro, pálidos, sem roupas com marcas no pescoço.

Eu enxergava em cada homem que me procurava os mesmos rostos, o mesmo cheiro e as mesmas atitudes dos quatro homens que me destroçaram como mulher anos atrás. Eles mereciam isso, mereciam pagar pelo que haviam feito comigo.

Usei o mesmo método durante anos, mudando apenas a minha localização, os encontros sempre aconteciam no mesmo lugar: a taberna em que eu trabalhava, o local da desova se modificava a cada noite, pois era divertido ouvir os comentários na noite seguinte. Fui chamada de muitas coisas ao longo dos anos, mas apenas um atiçava o meu ego. Eu havia me tornado uma serial killer, com métodos bem incomuns.

Tenho uma vasta coleção em meu currículo, isso eu não posso negar. Eu amei matar cada um deles. Eu era a dona da vida e da morte eu decidia tudo, cada segundo, cada gota de sangue.

Isso até o dia em que ele apareceu. Orfeu Souza, o mestre templário. Parecia que nós dois estávamos mitologicamente ligados pelo destino. Ele veio até mim, mas não como os outros. Orfeu não buscava os prazeres da carne e sim informações sobre as mortes ocorridas pela região. – as mortes que eu causei.

Ele parecia estar convicto de que alguma criatura espreitava aquela região, uma criatura de hábitos peculiares, diferentes… hábitos oriundos das trevas. Eles estavam ali a mando do próprio papa, para encontrar tal criatura e matá-la. Orfeu estava acompanhado de mais quatro homens usando vestes brancas com a cruz de malta bordada na frente. Segundo ele a cruz revelava a natureza da criatura fazendo― a queimar por dentro.

As coisas haviam começado a ficar interessantes novamente. Um jogo de caça a vampira havia se iniciado e eu estava adorando. Agora eu era a caça e a caçadora ao mesmo tempo. Eu continuava a brincar com os homens e a cada noite os templários de prata chegavam cada vez mais perto. Era magnifico vê-los retornar noite após noite em busca de novas pistas que os levasse ao ser maligno.

Não demorou muito até eles perceberem o obvio, o assassino sempre agia por volta da meia noite e suas vítimas eram homens na casa dos trinta anos. Os cadáveres eram encontrados em locais afastados, propícios aos que procuravam por meretrizes, sempre estavam nus e não tinham mais uma gota de sangue em seus corpos.

Nos meses que se passaram, esse jogo foi se tornando cada vez mais divertido, aqueles homens sempre visitavam a taberna onde eu trabalhava até a meia noite. Orfeu sempre se sentava sozinho em uma mesa próxima a cozinha e pedia uma caneca de vinho diluída em meia caneca de agua, enquanto os amigos enchiam a cara em outra mesa.

Orfeu era um homem metódico, enquanto os amigos enchiam a cara ele aproveitava o ambiente para estudar (o que anos depois eu descobri ser magia). O rapaz sempre me convidava para sentar com ele conversar um pouco. Esse foi o meu erro. Como caça e caçadora, eu não havia contado com uma coisa, eu ter me apaixonado por Orfeu.

Depois de inúmeras tentativas eu acabei cedendo, nós conversamos por horas a fio, naquela noite, e na outra, e na outra, e nas noites que se seguiram depois dela. Ele me contava sobre sua infância, sua juventude, o treinamento para se tornar um templário, e sobre todas as coisas mais banais que existem no universo. Eu estava perdidamente apaixonada por ele, e essa foi a minha verdadeira maldição. Presa e predador agora estavam apaixonados um pelo outro. Foi neste dia em que ele se confessou para mim.

― Eu sei o que você é.” ―  Ele me disse num sussurro, enquanto os outros riam e se divertiam afastados. A partir daquele momento eu entendi finalmente o que estava acontecendo e eu havia caído na armadilha.

Aquela seria a última noite. Eu teria de mata-los ou ser morta por eles.

 

 

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POSTADO POR

Apollo Souza

Apollo Souza

Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudônimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal— RN. Formou— se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú no ano de 2012 na cidade de Santo Antônio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias histórias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância. Decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.
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