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A um Muro de distância


1961 – BERLIM – ALEMANHA

Poeira! Em alguns instantes pensei na hipótese de estar no lugar errado, em Marrocos, talvez. Nada me agradara aqui! Me sentia longe de mim. Longe do que idealizei. Nada remetia à grande metrópole dos Estados Unidos e isso corroía. Destruía! 

-Estamos chegando. – Disse meu pai, afoito. Essa mudança era o sonho dele, sempre foi desde o fim do holocausto mas jamais me acostumei com essa ideia absurda de deixar os Estados Unidos e me mudar para Berlim, era desigual mas como não me governo sozinho, infelizmente, tive que vim e pior com a incerteza de regressar à meu país.

Na esquina, vi o meu avô sentado em sua cadeira de balanço, um passatempo preferido para um idoso aposentado. Ao nos ver chegando, ele abriu um sorriso forçado mas apesar do meu pai dizer que ele se sentia muito feliz com nossa vinda, tinha a certeza de que ele estava preocupado com os chocolates que estava na dispensa, minha mãe não aguentava vê-los que os devorava como um animal silvestre. Meu vô era mesquinho, nunca me deu uma moeda e olha que nos víamos raramente, grande consideração por seu neto internacional.

-Como está grande esse menino! Daqui uns dias, aparece com as namoradinhas – Disse meu avô, sorrindo. Não suportava esses encontros, me sentia envergonhado em saudar as pessoas, ainda que fossem meus familiares. Ao entrar na sala vi uma jovem gordinha, robusta como diria meu pai, com um vestido amarelo e um cinto laranja, ao vê-la não consegui evitar o riso, acho que ela percebeu e se fechou, séria. -Essa é sua prima, Evelyn, seja educado com ela. – me apresentou o vovô. Após o incidente anterior, me senti envergonhado em abraçá-la e segui em direção à cozinha e pra minha surpresa não encontrei o chocolate belga de que tanto amo, o vovô se precaveu dessa vez, estava esperto demais para um velhote de setenta e tantos anos mas não disse nada, a mamãe me disse que como o vovô estava com fragilidades não podíamos nos afligi com os atos dele, tínhamos que aproveitar cada momento, tentei na medida do possível. – Vamos à padaria do seu tio, deseja ir conosco? -Disse minha mãe, entusiasmada. – Tem guloseimas lá! -Insiste ela, ansiando pelo que ia comer durante a visita. Eu não gostava de apresentações, tampouco, de encontros e reencontros, preferi ficar em casa, lendo uns gibis que trouxe na mala. -A Evelyn ficará contigo, fazendo companhia -Disse minha mãe, dando uma piscadela pra mim, enquanto, se afastava sorrindo. Naquele momento, me senti constrangido mas permaneci sentado lendo o meu gibi, enquanto, a tal Evelyn varria à casa em silêncio. Me esforcei para não ri daquela roupa mas era inevitável, tudo remetia à uma das bolas de Berlim que vendia nos cafés de Nova York, no ápice do meu esforço, ouvi um zunhido do botão do vestido voando longe e como num circo, gargalhei. Ela, constrangida, se escondeu no quarto. Ouvi os soluços. Me senti culpado! Talvez, a culpa era minha mesmo e como todo bom mocinho fui ao encontro dela para me desculpar, porém, a encontrei numa situação delicada, sim, meus caros, ela estava se vestindo, seminua, ainda bem que ela não me viu, se não faria um escândalo ainda maior. Tenho convicção!

No dia seguinte…o tio Brokslov veio ao meu encontro, confesso que fiquei temeroso com sua visita, achei que a gordinha tinha me dedurado, principalmente, quando a vi caminhando atrás dele mas me enganei, ele deu-me um abraço e correu para o quarto, onde estava meu pai. Eu, curioso, corri para a porta para ouvi o que eles diziam, para minha surpresa, Evelyn já estava lá. -O que você faz aí, garota? – Indaguei, intimidando-a. Ela pôs o dedo na boca e fez um shiiiiiiiiiiii, como se estivesse chamando um gato, me senti enraivado com o jeito peculiar dela mas algo pior tomou meu caminho.

Egoísta! -Disse, meu pai furioso.

-Ficas com o nosso pai e eu ficarei do outro lado à espera do fim, tenho um negócio que precisa ser velado. – Responde tio Brokslov, sóbrio.

Evelyn, tomada pela sensibilidade, saiu chorando. Novamente a segui e num ato precipitado, ela me abraçou, consolando-se em meus ombros. No início, aquilo me incomodou muito mas aos poucos me acostumei e mantive o abraço.

-Vai ficar tudo bem. -Disse confortando-a à minha maneira, apesar de não compreender bem o que estava acontecendo ao meu redor. -Mas me explica o que está acontecendo.

-O princípio das dores! -Responde, aflita. 

-Seja mais especifica.

-Me separarei do vovô e só Deus sabe quando nos veremos outra vez! Um muro de distância separará nós dois.

Aquilo foi como uma flecha indo em direção ao meu coração, desconstruindo ainda mais minha visão sobre aquele lugar e marcando minha vida para sempre. A porta do quarto se abriu, o tio Brokslov apressado puxou Evelyn pelo braço e saiu. O vovô chorou ao vê-los se afastando.

-Para onde caminha a humanidade, meu Deus? – Diz vovô, sofrendo. -Eu ainda estou aqui, pai. – responde meu pai, aflito. 

Passado alguns dias, como numa aventura, Evelyn apareceu sorrateiramente pela manhã, confesso que naquele instante alegrei-me em vê-la. O vovô a abraçou de imediato e num hiato de milésimos, ela sorriu para mim. Havia uma conexão entre nós. Afeto familiar! Em poucos minutos, ela se afastou e foi-se tão sorrateira quanto veio. E assim foi…Dias e dias nesse vai-e-vem às escondidas, como um ladrão sucinto e imprevisível até que desapareceu…Um, dois, três, quatro dias sem a visita da bola de Berlim, sim, a apelidei assim…Bola de Berlim, a mais bela da prateleira do café do tio Brokslov. Já não havia esperanças de vê-la novamente, rumores da construção do muro era verdadeiro, todos tinham noção. Todos! Inclusive eu, mas sou teimoso, a esperança era a última que morria dentro de mim, sempre foi assim e no dia mais improvável, ela apareceu tristonha mas apareceu. A esperança havia regressado. Evelyn finalmente veio. Seria apenas mais uma visita corriqueira mas não me contive e não a deixei ir.

-Meu pai está prestes á ir para casa. Ai de mim se não estiver ao seu aguardo. – Diz ela, preocupada. -Ainda há tempo para mais uma xícara de chá, bola. -Digo, sarcástico, sorridente, num sorriso misto sendo confrontado pelas lágrimas e pela euforia.

Acho que todos perceberam meu entusiasmo com a visita dela e nos deixaram sós por alguns instantes, suficiente para acariciar seu rosto e apertar aquelas bochechas rosadas. E como numa brincadeira de criança, o tempo passou, mais veloz que um cavalo em competição e infelizmente chegou a grande despedida. O muro já estava prestes á fechar a entrada dela, talvez, não nos veríamos nunca mais e num ato precipitado, a abracei tão forte que senti seus músculos estralarem. Era recíproco! E ela se foi novamente…Não a vi no dia seguinte, nem no dia posterior, nem na semana, tampouco, no mês. Não a vi durante muito tempo…O vazio preenchia meu coração e sem consegui preenchê-lo fui até a barreira mas não deixaram-me ultrapassar, sequer ver pela fresta. Sofri calado mas sofri por demasiado. E aos poucos a vida foi tomando outros rumos, novos caminhos e sem que percebesse, o tempo voou…Mas eu sabia de tudo, até a hora do último encontro estava registrado em minha memória e nem o tempo com seu furor conseguiu apagar. Será que era amor? Um simples afeto familiar? Não sei… Dentro de mim havia apenas um ideia vaga de que eu só descobriria o verdadeiro sentimento quando a vesse novamente. E quando seria isso? Como estaria eu? Um velho babão provavelmente! Naquele instante desejei apertar suas bochechas robustas só por um minuto mas não a tinha comigo. Até que tudo mudou.

POSTADO POR

Samuel Brito

Samuel Brito

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  • Olá
    Tarde mas cheguei. Então, adorei o conto e a sensibilidade em tratar de um tema tão sombrio e que marcou uma data tão obscura da humanidade. Fico pensando em quantas milhares de famílias não passaram por uma situação como essa, uma separação triste sem perspectivas de um futuro reencontro. Parabéns por trazer esse tema, só fiquei aguardando a resolução boa para esse rapaz se ele realmente conseguiu rever a prima e como foi. Vale uma continuação. Pense nisso.

    Beijos
    Raquel Machado

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