Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on whatsapp
Share on tumblr
Share on telegram

A visita da jovem senhora – Uma singela homenagem a Jorge Amado e sua obra imortal, “Tieta do Agreste”

“Verdade cada um possui a sua, razão também.”

Jorge Amado

 

 

Fernanda seguia muda, estática, como se fosse uma condenada aguardando a hora da sua execução. Durante todo aquele trajeto, que já durava pouco mais de uma hora, vinha mantendo uma postura ereta, com os braços retesados, esticados para baixo, e as mãos entrelaçadas de maneira quase involuntária por entre as pernas cerradas.

 

Não é fácil você ir pra cama com um homem que nunca viu na vida. Mas é claro que já sabe disso, não é mesmo?Bem, agora que está aqui, aprenda; sempre passo isso para as minhas meninas: depois que a porta do quarto se fechar, prefira os clientes práticos, que pagam, transam e vão embora. Seja simpática e receptiva, porém, tenha em mente que você não é psicanalista pra ficar ouvindo os problemas deles, reclamando de casamento, do sofá novo que a mulher quer comprar pra sala… O bar, aqui embaixo, existe é pra isso.

A propósito, não estou aqui para explorar ninguém. Meus lucros vêm do bar e do aluguel dos quartos para anteder os fregueses. Então, faça-os beber o máximo possível antes de levá-los para cama e o que você cobrar pelos seus serviços, é seu.

Ah! E nada de bebidas. Não para vocês, durante as funções. A não ser que o cliente ofereça. Não admito nenhuma Maria Tequila sob o meu teto.E preservativos. Deve ser um item básico neste trabalho, assim como luvas para um enfermeiro. E não tente me enganar. Uma vez por mês terá de se submeter a exames de sangue e semanalmente a testes ginecológicos. Está claro?

 

Fernanda acaba por relembrar os conselhos e orientações de Madame quando chegou ao lupanar “Cidadela dos Lordes”, no Rio de Janeiro, depois de uma longa jornada perambulando por cidades próximas à Santíssimo, no interior da Bahia, e em seguida por outras tantas cidades, prostituindo-se nas ruas para sobreviver. Estar “sob os cuidados” de Madame naquele lupanar — “casa” muito bem administrada por madame Antoinette, sempre focada em seu vasto e renovado estoque de belas meninas escolhido no capricho para atender os mais exigentes dos clientes —, por mais contraditório que fosse, ainda assim era libertador, pois entre mortos e feridos, ao menos ela, Fernanda, passara a ter um teto para morar, sem precisar ficar refém de algum homem ou ter que se submeter à indiferença da polícia depois de sofrer algum tipo de violência.

Deixando escapar um longo suspiro, um quase assovio fugindo do peito, ato contínuo, como se esta fosse a única opção que restasse na vida, Fernanda move a cabeça para o lado, passando a entrever as paisagens da selva de pedra que desfilam através do vidro fechado da janela do carro.

— É a melhor coisa a se fazer, Nanda.

O comentário disparado pela mulher sentada ao seu lado lhe invade os ouvidos gradualmente, como se aquela voz estivesse a quilômetros de distância; como se um infindável túnel existisse entre ambas e não somente o pequeno espaço proporcionado por um freio de mão…

Nenhum gesto. Nenhuma resposta. Nenhum som. Nada. Fernanda permanece em absoluto silêncio e talvez para demonstrar à sua acompanhante o quão apartada se encontra, inclina-se para o lado, até alcançar, com o ombro, o vidro fechado da janela, onde se apoia, erguendo logo em seguida os olhos para o céu, num movimento hercúleo, como se todas as suas forças a tivessem abandonado, tendo restado apenas e tão somente o desespero, a tristeza, a angústia e, claro, o rancor, aquele rancor que ela sempre duvidava um dia encontrar a cura.

O Pálio branco estaciona em frente a uma agência dos correios localizada num bairro qualquer do subúrbio carioca. Antonieta, a condutora, uma mulher alta, de carnes bem distribuídas, ereta, com uma maquiagem bem definida e trajando um conjunto de roupas escuras, que a torna ainda mais elegante, não demora a descer do veículo, circundando-o até parar ao lado da porta do carona.

— Vamos Nanda… — ela pede enquanto bate de leve com a ponta dos dedos da mão direita no vidro da janela, que sob os reflexos de nuvens cinzentas que se arrastam sob o céu, eclipsa o rosto da jovem — Não temos muito tempo e a decisão já foi tomada. Não há mais o que ponderar…

Fernanda reage, mas só depois de algum tempo. E obviamente em silêncio, ao mesmo tempo que desce, sem pressa, o vidro da janela até deixar visível o seu semblante marcado por um misto discrepante de aflição e apatia pungentes.

Lado a lado, as duas mulheres acabam por entrar na agência postal e Antonieta, de pronto, após buscar as informações necessárias, se dirige sozinha a um balcão, não muito distante da porta de entrada, deixando Fernanda para trás, de braços cruzados, observando-a com os olhos semicerrados, como uma ave de rapina espreitando a caça.

— Um telegrama?

O atendente atrás do balcão, um homem aparentando seus cinquenta e poucos anos, não consegue conter a surpresa diante da pergunta proferida pela exuberante Antonieta.

A dona do “Cidadela dos Lordes” não se intimida. Está determinada a não se indispor. Não quer e não pode ser dar ao luxo de perder tempo, ainda que compreenda a razão do questionamento retórico que lhe foi dirigido. Às portas do século XX, com tantos aparatos tecnológicos, alguém ainda utilizar-se desse meio de comunicação prosaico, soava um tanto surreal. Mas enfim, era a única maneira disponível para contatar Santíssimo, a cidade natal de Nanda, um lugar que pelo que já tinha ouvido falar, era esquecido por Deus e pelos homens, e de onde sua jovem protegida saíra há doze anos, quando ainda era apenas uma moça simples. Na verdade uma menina que mal completara seus quinze anos, sendo forçada a deixar tudo e todos para trás por ter ousado transgredir a moral e os bons costumes de seus conterrâneos ao ter se permitido conhecer o gosto de homem, na pele de um caixeiro viajante, depois de ter se rebelado de todas as formas possíveis, sem sucesso, contra o casamento arranjado pelo pai com um comerciante três décadas mais velho que ela.

 

Estou voltando para passar um tempo com vocês. Matar saudades. Infelizmente sem o meu marido. Ser embaixador, muitas das vezes, o torna um prisioneiro.

 Espero encontrá-los bem.

Fernanda

 

Antonieta termina de escolher as palavras que preencherão o tal telegrama e de imediato chama Nanda para conferi-las. Não que esteja esperando qualquer opinião ou objeção. Meramente quer que ela visualize aquelas frases que, para o bem ou para o mal, serão de sua autoria.

— Está bom? — Antonieta pergunta um tanto condescendente, levantando as duas sobrancelhas, à medida que tenta sorrir com os lábios fechados, sem deixar de notar a contrariedade estampada no rosto de sua protegida — Tenho certeza que ninguém se dará ao trabalho, naquele fim de mundo, em tentar descobrir quem é o senhor Embaixador, seu digníssimo esposo…

Fernanda, ainda que parecendo exausta, devora num instante as poucas palavras à sua frente enquanto sente as narinas se delatando, o tórax inflando…

— Matar saudades? — dando de ombros, devolve seca, indignada, circunspecta, ao tempo que passa a encarar a mulher parada diante de si com tanta frieza no olhar que é impossível à Antonieta não se sentir partida ao meio.

O destino é realmente irônico. Parece se divertir. Fernanda saíra de Santíssimo, nos recantos da Bahia, determinada a nunca mais voltar àquele pedaço de lugar nenhum após ter sido escorraçada de casa, humilhada perante toda a família e toda a cidade, jogada fora como lixo, e agora…

— Não estamos em posição de ataque, Nanda… — Antonieta recolhe o acanhado sorriso e em seguida o papel da mão um pouco oscilante de sua protegida — E não preciso lembrar que você não se pode dar ao luxo de colocar suas misérias sentimentais à frente do bom senso, ainda mais agora, quando é a sua vida que está em risco.

Fernanda meneia a cabeça. Uma verdadeira batalha entre titãs se desenrola em sua mente à medida que o cérebro entra em ebulição, tomando por completo todos os espaços possíveis, espalhando hipóteses sem qualquer critério por cada uma de suas células nervosas, quase a levando à loucura. Sim. Ela tem vontade de gritar, sair correndo, fugir para qualquer outro lugar que não seja Santíssimo, para longe da proteção de Madame

— Nanda, minha querida… — Antonieta ajeita a longa cabeleira loura que lhe cai sobre os ombros antes de continuar — A diplomacia abre portas. Assim como a deferência e o respeito. Não é hora para orgulho e nem tampouco para remoer mágoas passadas. E não estou dizendo que você deva esquecê-las. Eu mesma não esqueci as minhas, mas precisei seguir em frente…

Fernanda não consegue sustentar o olhar firme de Madame e daí, num átimo, busca o chão como refúgio, permanecendo cabisbaixa, lutando bravamente para não sucumbir ainda mais ao desalento, à insegurança, ao torpor…

— Minha querida… — Antonieta prossegue sem mudar um instante sequer a complacência no tom de sua voz — Para que eu possa te ajudar, preciso que você se permita ser ajudada. Sei muito bem com quem estou lidando, afinal, já se vão seis anos desde que você cruzou a porta do meu castelo, pedindo uma chance para mostrar os seus serviços… Cada uma de minhas meninas, tu sabes muito bem, considero como filha e você, por toda contribuição que tem dado ao Cidadela, se tornou uma das minhas preferidas. Não vou negar…

Um silêncio, pesado, recai sobre as duas. Antonieta sabe muito bem que não há mais nada para ser dito, até porque não estão na hora e sequer num lugar adequado para isso. A passos largos, aprumada, ela se afasta, se dirigindo a um balcão para finalizar o envio do nefasto telegrama ao mesmo tempo que Fernanda, mirando as falhas do chão, balbucia diversos impropérios, amaldiçoando a própria vida.

 

Quantas vezes vou precisar repetir que não tive participação ou qualquer influência sobre o que aquele maluco fez?

Fernanda, sentada num sofá amarelo, tenta mais uma vez se explicar, ao passo que Antonieta caminha de um lado para o outro, nitidamente ansiosa, à beira de um ataque de nervos.

— Ele disse que ia dar um jeito de me fazer voltar para as ruas, para as esquinas. Afirmou que nunca mais eu conseguiria trabalho em nenhum outro lupanar. Disse que ia fechar a casa da senhora, Madame, se eu tentasse pedir sua ajuda…

— Caralho Fernanda, em que mundo você vive, puta que pariu… — Antonieta grita ao tempo que se aproxima de Fernanda tão rápido que a jovem, inevitavelmente, acaba tendo a impressão de que será atropelada — Você sabe muito bem o filho de quem o Carlos matou por sua causa, não sabe? E não vai adiantar juntar todos os motivos possíveis que existem no mundo para tentar justificar esse crime. A vida de quem tem mais peso no final das contas? A do filho de um senador ou de uma puta e seu cliente?

Antonieta segura o queixo de sua protegida, forçando a encará-la.

— Até provar que focinho de porco não é tomada e que o seu amante bêbado, drogado e vagabundo fez o que fez sem a sua participação, o pai do infeliz com a garganta cortada vai querer comer o rabo de alguém. E não pense que só o Carlos vai levar ferro, minha querida…

Fernanda cobre o rosto com as mãos e se deixa cair sobre o encosto do sofá. Sente como se carregasse o peso do mundo sobre os ombros.

— Você não sabe do que essa gente é capaz.

Antonieta volta a caminhar de um lado ao outro da sala com os passos cada vez mais firmes.

— Eu conversei com alguns amigos e fui aconselhada, ao menos até a poeira abaixar, a te enfiar em algum cu de Judas. Algum lugar esquecido no mapa e esquecido por Deus, se é que existe…

 

— Como minha vida pôde mudar de um instante para o outro?

Fernanda sussurra, sentindo os olhos lacrimejarem, mas não de pesar e nem tristeza, mas de raiva. Sim. Sente um ódio profundo de si mesma por ter se permitido agir como agiu; por ter se deixado levar por Carlos. E agora, impotente, tendo que encarar as consequências, precisa fugir para o último lugar da face da terra onde gostaria de estar. Um lugar, que mesmo depois de doze anos passados, ainda deve permanecer infestado de beatas, meninos travessos, políticos cabeça-dura, gente preconceituosa, de mente obtusa e, claro, com uma pitada de interesse na vida alheia…

— Vamos?

O chamado de Antonieta a traz de volta à realidade… à triste e incontestável realidade.

— Ainda precisamos passar no banco, depois comprar algumas roupas, presentes… A volta da filha pródiga a Santíssimo deve causar uma ótima impressão.

Juntas, as duas atravessam a porta da agência dos correios e caminham a passos largos em direção ao Pálio branco estacionado não muito distante, até pararem, enfim, junto ao carro.

— Madame, não faço a mínima questão de impressionar ninguém. E a senhora sabe bem disso — Fernanda retruca depois de abrir a porta do lado do carona para logo em seguida se jogar sobre o estofado.

— Pois deveria — Antonieta responde tão logo se acomoda, fechando sem demora a sua porta — Você sabe, Nanda, que todo cuidado é pouco… Não espere condescendência de pessoas como aquelas que estão lá, na sua cidade natal, mesmo depois desses dozes anos…

— Mas quem disse que estou esperando alguma coisa deles? — Fernanda bate com força a porta ao seu lado ao fechá-la — Só acho um desperdício paparicá-los. Fui desmoralizada, humilhada. Meu pai me botou pra fora de casa abaixo de surra e palavras de baixa calão que, se duvidar, nem mesmo nós usamos… E agora eu vou aparecer como se nada tivesse acontecido? Vão achar que eu não tenho o mínimo de vergonha na cara, ainda que depois de todo esse tempo…

Antonieta termina de colocar o cinto de segurança e então se vira para Fernanda, encarando-a com os olhos semicerrados.

— É o que temos pra hoje. Não preciso ficar te lembrando, Nanda, sobre a sua situação. Neste momento você precisa de Santíssimo e chegar lá, igual a uma qualquer, não vai adiantar de nada. Não vai conseguir nem passar da entrada da cidade.

Madame Antoinette respira fundo, buscando recuperar o fôlego antes de seguir adiante.

— Tenha certeza de que quando baterem o olho em você, a “esposa de um embaixador”, quando tu começares a ajudar a família, a fazer algumas doações, vão te chamar até de santa, apagando de imediato o seu passado, fazendo que mereça respeito. Minha querida, quando o dinheiro entra em cena, as opiniões se modificam de forma vergonhosa. Você vai ver de perto a facilidade com que a hipocrisia social anula a ética para defender os benefícios próprios… Eu sei bem do que estou falando, acredite.

 

*    *    *

 

Arqueando uma das sobrancelhas, o delegado Menezes olha para o relógio no pulso esquerdo. Já havia terminado sua ronda, constata sem demora, e, como sempre, na hora exata. Sem perda de tempo, enche o peito de ar e suspira, aliviado, sentindo o vento ameno que passeia pelas ruas vazias de Santíssimo à medida que se prepara para entrar na viatura estacionada não muito distante de onde se encontra, enquanto vislumbra a volta para casa, onde assistirá a um bom clássico da sétima arte, como sempre faz nas noites de sábado para depois, enfim, dormir. Contudo, o som de um ônibus rugindo e chiando ao longe o faz estacar.

Um passageiro?

Menezes se volta na direção da entrada da cidade para observar a aproximação do veículo, que não demora até parar não muito distante de onde se encontra, lhe jogando sobre o rosto os reluzentes faróis. Depois de um suspiro profundo, fastio e de contar até dez e passar as mãos sobre os ralos cabelos, ele caminha na direção do ônibus, tentando, com uma das mãos, proteger a claridade que invade seus olhos.

A porta do veículo, por fim, se abre, e a luz de seu interior derrama para fora anunciando a silhueta ereta de um corpo feminino, aparentemente perfeito, carregando uma mala em sua mão esquerda conforme Menezes, parado, balança a cabeça, escrutinando a misteriosa passageira enquanto ela desce o último degrau sob a leve neblina que envolve o entorno do ônibus.

Quem está chegando à cidade? E num sábado à noite?

A passageira olha para os dois lados da rua e em seguida na direção do homem, ali, estagnado, não muito longe. Atrás dela, o ônibus já segue distante, os faróis ficando cada vez menores. Menezes percebe que a recém-chegada não se move e num ímpeto decide tomar a dianteira e não mais que três passos são suficientes para reconhecê-la.

— Santo Deus! Fernanda Amado. É você mesmo?

Por alguns instantes Menezes se deixa perder ante a imagem sombreada de Fernanda. A mulher estagnada à sua frente, rija, aparentemente fornida de carnes, em nada lembra a mesma adolescente mirrada que fora forçada a ir embora da cidade há praticamente doze anos… Ele decide, então, avançar mais alguns passos até ficar a poucos centímetros da jovem, da mulher, ao mesmo tempo que acende a lanterna que traz pendurada à cintura para poder constatar o que a luz difusa dos postes apenas insinua.

Onde essa menina esteve durante todo esse tempo? Ele se interroga, emudecido, ao passo que entrevê Fernanda dentro de uma blusa esporte de malha, vermelha, simples e elegante, marcando a firmeza de seios volumosos, sutilmente a mostra através da gola de botões abertos e uma calça jeans azul, colada às coxas…

— O senhor vai me revistar, delegado? O senhor ainda é o delegado, não é mesmo?

Menezes estremece diante do inesperado questionamento e em questão de segundos busca rapidamente se recompor.

— Desculpe… Sim… Sim… Sou o delegado… Ainda — ele pigarreia um pouco antes de prosseguir, devolvendo a lanterna ao seu devido lugar — Você, Fernanda, está tão, tão… — Menezes balança a cabeça lentamente tentando encontrar um adjetivo que não soe insultuoso, obsceno — Você está tão diferente.

Fernanda força um sorriso entre os dentes e pousa, sem pressa, a mala no chão para logo depois voltar a fitar, altiva, o semblante desconcertado do homem à sua frente.

— Obrigada! O senhor passou a receber a todos os recém-chegados dessa forma? Admiradíssimo? Se nada, ou quase nada mudou enquanto estive fora, pensei que só os rapazes, altos, bonitos, recém-saídos de suas fraldas, tivessem esse privilégio.

Menezes recua de súbito dois passos enquanto puxa todo o ar que pode para dentro do peito, ignorando convenientemente aquela observação.

— Você há de convir, Fernanda, que está bem diferente daquela menina…

— Que o senhor ajudou a carregar para fora da cidade arbitrariamente dentro da sua viatura — ela o interrompe sem pestanejar, não se fazendo de rogada em ostentar o cenho cerrado — Apesar das minhas súplicas de que eu precisava voltar para me despedir de madame Argent. Mas não. O senhor fez ouvidos moucos e seguiu viagem até me deixar na casa daquele padre… Seu amigo, não era mesmo?

Menezes baixa os olhos por alguns instantes, parecendo rever aquelas imagens do passado como um filme sendo projetando diante de si.

— Eu não tive escolha — o delegado, por fim, ergue a cabeça e encontra Fernanda terminando de resgatar a mala do chão — Seu pai era o prefeito da cidade e eu não poderia afrontá-lo. E além do mais, ele não estava errado em exigir que a tirassem daquela casa de tolerância…

— O único lugar que me acolheu depois que o digníssimo Antunes me jogou na rua. Para onde mais ele queria que eu fosse, já que todos na cidade só faltavam cuspir na minha cara, medindo-me de cima a baixo como se eu tivesse lepra ou qualquer outra doença infecciosa?

Fernanda deixa escapar um sorriso cínico pelo canto dos lábios.

— Agora você vai me dizer, delegado, que o meu pai estava preocupado com a minha reputação?

Menezes permanece calado.

— Deixa pra lá — Fernanda profere com desdém, dando meia volta e passando a ignorar por completo a presença do outro — Não retornei depois de todos esses anos para ficar discutindo águas passadas, a ainda mais com um pau mandado.

Menezes repira fundo, conta até dez e engole em seco a ofensa recebida.

— Essa não é a direção da casa do seu pai — ele sinaliza depois de perceber o caminho tomado por Fernanda.

— Se nada mudou nessa cidade, e tenho quase certeza disso… — ela se volta rapidamente para medir o delegado de cima a baixo e, ato contínuo, retoma o seu trajeto — Estou no caminho certo da pensão de dona Miranda — ela devolve, sem se virar — Ainda existe uma pensão por lá, não existe?

— Para alguém que anunciou à família que estaria retornando para matar saudades, se hospedar em uma pensão é bem contraditório, não, acha?

 Fernanda estaca de imediato, contudo, permanece de costas para Menezes.

— Então o senhor teve acesso ao meu telegrama, delegado?

— Você mesmo já sugeriu por duas vezes, nestes cinco minutos desde que chegou, que acredita que nada em Santíssimo mudou… — Menezes replica com um sorriso cínico, mas amistoso.

— Não. Claro que não. Seria demais esperar algum progresso ético das pessoas desse fim de mundo. A propósito, mais alguém também conseguiu ler o meu telegrama antes de chegar às mãos da minha família?

As palavras parecem rasgar a garganta de Fernanda tamanha a aversão com que as pronuncia.

— E quem garante que não tenha sido a sua própria família que fez questão de anunciar a sua visita? Aliás, esperávamos você apenas daqui a dois dias…

Fernanda, de súbito, sente a respiração mudar, ficando mais acelerada e mais superficial do que o seu corpo precisa e as costas começar a doer conforme pensamentos desconexos invadem sua mente. Por fim, impassível, se volta, medindo mais uma vez o delegado de cima a baixo, sem pressa, até decidir encará-lo, passando a esquadrinhar seu semblante minuciosamente.

— O restante da minha bagagem vai chegar na terça feira. Se não for muito incômodo, delegado, poderia providenciar para que chegue em minhas mãos… intacta?

Girando nos calcanhares, ela retoma o seu trajeto sem pestanejar.

— Por que você voltou menina? — Menezes não se contém — Depois desses doze anos sem nenhuma notícia sua, você decide aparecer assim, do nada? E completamente na defensiva? E vai saber porquê, retardando o encontro com sua família… Tem certeza de que está aqui para matar saudades?

Fernanda nada responde, ao menos não de pronto, enquanto sente tremores nos antebraços e por pouco não deixa a mala que carrega ir de encontro ao chão.

 

Você sabe Nanda, que todo cuidado é pouco… Não espere condescendência de pessoas como aquelas que estão lá, na sua cidade natal, mesmo depois desses dozes anos… Neste momento você precisa de Santíssimo e chegar lá, igual a uma qualquer, não vai adiantar de nada. Não vai conseguir nem passar da entrada da cidade.

 

Após respirar fundo, bem fundo, Fernanda se vira, modificando habilmente seu semblante de tensa aspereza para um sorriso meio desdenhoso, meio insinuante.

— Desculpe delegado. Estou cansada — ela sorri ainda mais, propositadamente acentuando as covinhas do rosto — Estou viajando já há dois dias… Avião do Rio para Salvador, depois um carro alugado até Esplanada, em seguida o ônibus para cá nessa estrada terrível… Prometo que amanhã, depois de uma boa noite de sono, estarei melhor. E o senhor há de convir que eu não vou conseguir esse descanso, mais que merecido, se eu for, agora, pra casa da minha família, não é mesmo?

Fernanda não espera resposta alguma; acena rápido, serelepe, e se volta, imediato, retomando o trajeto que a levará até a pensão de dona Miranda enquanto seus lábios se contorcem como uma criança valente que tenta não chorar.

— Já que estou no inferno, abraçarei o diabo — a filha pródiga balbucia para si, à medida que segue seu caminho a passos largos.

 

 

“Não importa em que atitude eles o encontrem. Ele atravessou as portas da Morte e conheceu as chamas do inferno.”

Virgínia Woolf, “Orlando, a mulher imortal”

 

 

 

 

 

Zé Ramalho – Chão de Giz   –  fonte: youtube

POSTADO POR

Francisco Siqueira

Francisco Siqueira

COMPARTILHAR

Share on facebook
Share on twitter
Share on google
Share on tumblr
  • Conto maravilhoso. Aí que pena que terminou na melhor parte hahaha. Fiquei na ansiedade de ver o reencontro de Fernanda com todos da cidade além de sua familia e também o desfecho desse caso. Conto perfeito e como sempre uma escrita belíssima s2

    • Ahhhh, Marina K, você sempre carinhosa para com os meus trabalhos. Fico muito, muito feliz que tenha gostado deste conto.

      Um grande abraço.

  • >
    Rolar para o topo