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Advém d’alma

Advém d'alma

 EXÓRDIO

Na cama fria, sobre os aconchegantes travesseiros e edredons, vislumbrando a paisagem obscura, intensificada pela ausência elétrica, viajando perdidamente na imensidão do consciente, ao menos fugindo do mundo caótico a qual vive. Abruptamente, volta à realidade conflituosa, instigando a paz , todavia, convivendo com a tirânica e inoportuna fragmentação psíquica, dores, dores veladas, não segmentadas, porventura, nesse caso seria minimamente torturante. Prazer, me chamo Chester McCounoughey, sou estudante do Franklin Roosevelt College, situado na cidadezinha da Virgínia, cognominada “Vênus”, no leste dos Estados Unidos da América. Tenho 17 anos, sou um indivíduo aparentemente exótico, porventura, às inquietudes da alma transfigurou-me , atribuindo-me esta caridosa descrição, transtornado, imerso, inconformado e, essencialmente, censurado, ipso facto. Minha vida, um oceano turbulento, cuja necessidade de tranquilidade é nítido, perdido em uma cápsula soturna, almejando luzes, embora tenhas sucumbido ao mártir, a nebulosidade, as brumas perspícuas d'alma. Percepção holística essa, que poder-se-á resultar em sofrimentos, em agonizantes momentos, porventura, desde já amoldado. Consoante, ao excerto do alfarrábio visceral de Cruz e Sousa: Salta, gavroche, salta clown, varado pelo estertor dessa agonia lenta.

PART I – In aurora (D'aurora)

Hoje, é o ano de 2019, segundo vídeos populares do meu YouTube, consequentemente, salvos em minha playlist, o “Ano da Extinção” , claramente não me assusta, estou placidamente deitado na minha cama, imerso em meus lençóis quentes nessa estação de inverno, de acordo com a meteorologia , as condições climáticas não serão agradáveis para a população de Vênus , um nome bastante peculiar para denominar uma cidade. Levanto-me sutilmente e deparo-me com minha querida e evangelista irmã, Charlotte, uma jovem loira de olhos verdeados – uma típica irlandesa- , ela mora em Seattle e está passando uma temporada aqui nesse fim de mundo, a qual vivo, subitamente, ela oferece-me um sanduíche, acabo recusando friamente, não posso configurar meu humor ríspido e cru da aurora. Subsequente, após realizar todos meus afazeres e necessidades ao acordar, vou velozmente tomar um café da manhã, ao lado de minha querida e cuidadosa, à matriarca e ilustríssima mãe, vulgo, Atena, isto mesmo, nome de uma Deusa grega, mas ela é uma Deusa, particularmente, ela é detentora da sabedoria, similar a divindade mítica. Logo após, estou totalmente preparado para minha habitual vida escolar, em meu trajeto para o Franklin Roosevolt College, intrigante, o nome do querido 32° presidente dos Estados Unidos, percursor da bomba atômica, enfim, deslumbro as paisagens estonteantes até o Colégio, repentinamente, uma dor no fundo do peito, como um vulcão adormecido, jorram larvas ardentes em forma de suor, meus pensamentos estão em velocidade total, encosto-me ao tronco de uma árvore próximo ao Ginásio, tento respirar, todavia, as imagens em minha mente estão céleres, turbulentas, tempestuosas, enfraquecendo-me literalmente, começo a ficar trêmulo, dores profundas, que perduram e extingue minha pérfida alma, deleta os resquícios de júbilos e regozijos conspícuos mas, enfim, ela vagarosamente se dispersa, isso acabará matando-me, continuo minha caminhada ,agora, preocupadíssimo com esses eventos martirizantes, quiçá, eclodirem no âmbito escolar, não sei se conseguirei eclipsar tal ocorrência súbita. Na sala de aula, estou a anotar em minha caderneta algumas diretrizes sobre o trabalho escolar , proposto pela benevolente e onisciente docente Katie Salvatore, professora de Francês do meu Colégio, todos a odeiam compulsivamente, lamentável, ela é uma humilde e generosa mulher, observou todos colando na aplicação de seu teste , e não fez absolutamente nada. Por conseguinte, prestes a retornar para casa, meus colegas Dimitri e Emma, perguntam-me se eu necessito de companhia, recuso, isso é tendencioso, volto em sinal de alerta geral, meu psicológico está abatido, à muito tempo, preciso imperiosamente de ajuda, todavia, indivíduos que propaguem atitudes solidárias são ínfimos, fruto este, de uma sociedade não-harmônica, consequentemente, hostil.                                

PART II – “Hás-de lutar”

Ao retornar para minha residência, após enfrentar todas as adversidades desta empírica manhã, praticamente congelando, entro em meu quarto obscuro, e deito-me de bruços, ao visualizar meu pôster do mapa de Westeros, nitidamente fã de Game of Thrones. Logo, novamente, uma gotícula lacrimal surgi, inicia-se o desespero e tormento psíquico , é uma preocupação extrema, com tudo, o futuro, o daqui a três minutos, aos circundantes , aos dominantes, aos comandantes desse mundo caótico, começo a chorar inconsolavelmente, temo o abismo, as profundezas, ligeiramente, minha mãe escuta o barulho, disfarço, mas é impossível esconder algo dela, revelo com minha fala trêmula e ainda inquieto do evento. Logo, minha mãe preocupa-se demasiadamente, e urgentemente marcando um psicólogo domiciliar, estarei eu pronto para desvendar a hermética dor a qual sou submetido? Estarei eu apto a corroborar às provisões do especialista?….assim, pego meu pequeno livro de contos viscerais e sanguinários, algo tranquilizante, que enfatiza o recôndito da dor, abro na primeira página do livro e vislumbro o aforismo feérico e genuíno.  “ Há obscuridades na vida e há luzes, você é uma daquelas luzes, a luz de todas as luzes” (Drácula, Bram Stoker)Ao ler, fico imaginando, deverá eu correr atrás da luminosidade, contudo, dispersar-me das volúpias agonias do âmago? Estou pronto para desvendar as profundezas, às zonas abissais do meu íntimo, acalmar o tempestuoso clima interior, atingir o ápex, erradicar os insolentes males. Ínterim, uma frase em meu consciente tangencia: “hás-de lutar, com todas as forças”

PART III – O Inefável

Ulteriormente, estou sentado quietamente na mesa de jantar, deglutindo uma pequena e voluptuosa maçã, aguardando tremulamente o psicológico agendado por minha querida mãe. Em seguida, a companhia toca, rapidamente transpiro, estou preparado para emitir todas as adversidades psicológicas, a um mero ser, será um colóquio estupendo. O psicólogo entra sutilmente, cumprimentando e exibindo sua grandiloquência para minha mãe.- Boa tarde, sr. Atena McCounoughey, é um grandioso prazer conhecê-los, anseio inferir seus problemas. – Minha mãe olha perdidamente – Ok, boa tarde, gentileza sua. O problema é com meu querido filho. O especialista observa-me com cautela. Minha mãe norteia-nos até o escritório de meu pai, então inicia-se o diálogo. As oscilações climáticas são mínimas , a qual pergunto-me mentalmente, o quão competente é este profissional. Ele com seu olhar frio, dirige-me a palavra – Então, como você se chama?Minhas pernas rapidamente ficam trêmulas mas, respondo – Prazer, me chamo Chester McCounoughey- Tudo bem, jovem McCounoughey ? Indago, no meu consciente, o quão imbecil e nada eloquente foi esta pergunta, todavia, retorno- Estou ótimo, apenas gravitando na órbita caótica Ele olha para mim, tranquilamente e fala:- Você é sempre poético? – Sim! É uma metodologia pragmática de amenizar os infortúnios da alma.- Quais são esses infortúnios? Poderia emiti-los?- Não queria, mas se é uma das formas consideráveis para solucionar esse óbice, vamos lá… minha vida , tem sido uma linha tênue entre a felicidade e a tristeza exorbitante, estou sempre mergulhado nas águas gélidas e obscuras do medo, contornando a imensidão catastrófica dos temores, perdido na perene aflição, sujeitando-se os estereótipos humanos, à idiossincrásicos jactantes, o futuro? , é atormentador, daqui a três exatos e absolutos minutos, são pavorosos, isso rasga-me como uma folha sulfite, perfura-me com uma ferola, tortura-me. Minha vida não é a mesma, meus olhos frequentemente lacrimejam, meu coração célere e radical, minh‘alma morta, minha onírica paz, estou lutando contra à barbárie aflição, desejando incessantemente uma atitude axiomática. Vivo uma tribulação, as vezes lamento mas, geralmente, tenho sucumbido. A automutilação? Será ela uma alternativa para inibir essa complexa e inefável dor? Não acredito em ninguém, às palavras litúrgicas e os vocábulos amargos estimulam o pavor, a angústia, não queria , mas é verossímil. Eu tento fugir das ciladas da minha mente, porém, ela arquiteta e delineia, produz sensações que me consomem, irradia medos que aterrorizam-me, não como os contos e histórias sobrenaturais e fantasiosas que me desloca desses males. Eu vivo em uma quimérica paz interior, não quero a superficialidade, muito menos, à ingenuidade, anseio buscar aquilo que elimine tais mazelas, essas nódoas internas.Ele olha para mim , com uma visão tranquila e responde:- Tudo isso que você está passando, é fruto de males ou infantis ou nupérrimo, são adversidades proeminentes em jovens, seu quadro é delicado, necessita-se de uma cautela, você está emergido em um oceano de melancolias, tristezas , desesperança e , essencialmente, medo do futuro. Na minha visão de especialista, você está convivendo com um transtorno psicológico atormentador, um mal a qual tem assolado literalmente toda a população, a ansiedade. Mas, um tipo específico.Olho friamente para ele e respondo- Especifico? Qual?- Sim! Você possui Transtorno de ansiedade generalizada.Mentalmente já sabia que eu possuía um transtorno psicológico, isso é normal, marcado pela aquela simples tríade vocabular, despeço-me do psicólogo, direciono-me  a meu quarto, certamente ele já está conversando com minha mãe, sobre meu diagnóstico. Agora, observo minhas escrituras melancólicas em meu caderno, continuo a escrever, isso me faz bem , desprende-me desse universo massacrante, do “se" que percorre-me veementemente, das possíveis perseguições, das inseguranças, inimizades.    

PART IV – Veludosa Voz

Hoje, irei ter mais uma seção com meu psicólogo, após quatros consecutivas crises, após chegar ao ponto de automutilar-se, isso contribuir-se-á para o extermínio efêmero desse paroxismo.Chego no consultório do meu psicólogo, enfrentando uma rua , aparentemente, o Alasca, estamos a -17°C , é intimidador, isso é símil ao frio interior. Entro timidamente na sala, e falo: – Bom Dia!- Bom Dia, jovem McCounoughey, hoje iremos iniciar nossos diálogos benéficos.Eu olho para ele circunspecto e respondo:- Sim! Sento-me no sofá posicionado ao lado de um aquário com peixes lindos, lembro do Nemo, coitados, enfim, inicia-se a conversa, será ela profícua, após exatas 3 horas dialogando, ao sair do consultório, um pânico invade meu ser abruptamente, desespero-me e vou em direção ao banheiro, sento-me no chão gélido, ligo à torneira e tento respirar, amenizar. Olho em direção a uma gilete posicionada no armário, pego-a e, vagarosamente, meu braço torna-se alvo de cortes, o sangue jorra lentamente, a dor implantada no âmago reduz, por enquanto, vejo quando o psicólogo de súbito e trêmulo entra no local, ajudando-me e retirando a lâmina das minhas mãos ensanguentadas , estou aos prantos, estava automutilando-se, uma forma de inibir tal mácula. Alcançarei eu o zênite, suplicarei eu aos Deuses, sucumbirei eu às dores não-ínfimas do interior soturno e hermético, ipsis verbis, advém d'alma. “Então, suas feridas estão á mostra , eu sei que você nunca se sentiu tão sozinho , mas espere, levante a cabeça, seja forte….pegue um anjo pelas asas, implorei agora por mais um dia , porque um anjo pelas asas” (Angel By The Wigs, Sia).

“Vozes Veladas, veludosas vozes, volúpia dos violões, vozes veladas…” (Violões que choram, Cruz e Souza)

Autor: Jacob D'Galilei

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