Águas de Março – Web Filme

ATENÇÃO: A Cópia e reprodução deste conteúdo fora da plataforma Cyber TV sem autorização prévia da administração, é proibida e viola os direitos legais do autor.

Uma referência às obras do grande Manoel Carlos…

De Charlotte Marx

Apresenta

Atravessando o morro do Pão de Açúcar, eis a cidade maravilhosa. É pau, é pedra, é o fim do caminho, é um resto de toco, é um pouco sozinho, é um caco de vidro, é a vida, é o sol,  é a noite, é a morte, é um laço, é o anzol, é peroba no campo, é o nó da madeira, Caingá Candeia, é o matita Pereira. Os quiosques nas praias começam ser abertos, os primeiros raios do sol despontam no oceano. Coqueiros provocam as primeiras sombras pela caçada. Na avenida Atlântica, algumas pessoas e casais aproveitam a aurora para caminhar, outros preferem a bicicleta. É madeira de vento, tombo da ribanceira, é o mistério profundo, é o queira ou não queira, é o vento ventando, é o fim da ladeira. É a viga, é o vão, festa da ciumeira, é a chuva chovendo, é a conversa ribeira. Gaivotas caçam mariscos onde as ondas caem. Pegadas dos apaixonados formam uma fileira pela sílica.

O cheiro molhado e salgado de maresia invade a esquina da Rua Anchieta, onde no Edifício Mascarenhas, é possível na varanda de um apartamento do sétimo andar, escutar a doce composição de Tom Jobim e Elis Regina no rodar de um disco de vinil. Ao lado, é possível se notar uma espreguiçadeira com um cinzeiro. Nele, ainda sobre sua roupa de banho, Marina acaba de deixar a última bituca de seu Marlboro. Finalmente terminara de rascunhar o desfecho de sua trama folhetinesca. Passarinho na mão, pedra de atiradeira. Uma ave no céu, uma ave no chão, é um regato, é uma fonte, é um pedaço de pão. Retirou a agulha e a vitrola desligou. Despiu-se a caminho do banheiro e ligando o gás, abriu o registro do chuveiro, deixando a água cair sobre seu corpo moreno. 

 

Observação : Todas as falas das personagens encontram-se numa formatação de marcador padrão. 

***

 

  • Mamãe, aquilo é o Mickey? 

Marina já sobre seu jaleco branco, achou graça daquele comentário em relação ao adesivo fosforescente no alto da parede. Era seu décimo paciente aquele dia. Ela era pediatra e simplesmente era apaixonada pela sua profissão. Entrou na curiosidade do menino.

  • Será que é o Mickey? Está mais para a Minnie, não acha? Olha o formato do vestidinho.

 Ele a surpreendeu com a réplica 

  • Mas nada impede que seja um Mickey de uma saia! Não é mesmo? Vai que ele gosta de usar saia e não sabemos!

Marina se encantou com aquela manifestação pró-diversidade, mas resolveu não apoiar, porque a mãe do menino que o acompanhava fez uma cara de desgosto e logo interveio.

  • Deixa de falar asneira, Pedrinho! Homem não usa saias, isso é coisa de mulher, meu filho. Podemos ir logo com a consulta, Doutora?
  • Claro! 

Ela fez uma anamnese bem detalhada e mesmo concluindo ser uma amigdalite rotineira e tomando cuidado para não passar benzetacil afinal poderia traumatizar a criança, além de ser mais indicada em caso de sífilis, encaminhou para um otorrinolaringologista já que dada a frequência dos episódios de infecção, talvez fosse necessário retirar as tonsilas. 

***

Terminou de pesar seu prato no self-services do hospital e foi até a mesa, em que sua amiga e colega de trabalho, pediatra também, Letícia a aguardava.

  • Menina, me conta essa história direito! Como assim a criança esboçou empatia com a diversidade, mesmo a Mãe sendo conservadora?
  • Isso me encheu os olhos de lágrimas, Lê! É por isso que eu te falo, eu acredito nas gerações futuras, nós vamos mudar essa realidade! 

Letícia discorda.

  • Ai amiga, eu queria ter esse seu otimismo! Mas todos nós sabemos que depois daquele impeachment arbitrário da Dilma Rousseff em 2016, as coisas desandaram. Eduardo Bolsonaro já vai para o segundo mandato, depois de oito anos do pai! Doze anos com a extrema direita no poder! Escola sem partido, criminalização do MST, destruição da previdência social pública, anulação do casamento gay, retroação de aborto permitido em caso de estupro! Isso aqui se tornou um circo dos horrores!
  • Impeachment arbitrário coisa alguma! Foi golpe mesmo! Não me conformo como ninguém enxerga nada! Estão totalmente manipulados! Virados contra seus próprios direitos! Outro dia escutei de um varredor de rua perto de casa dizer que tem que flexibilizar as leis mesmos, os pobres mamam demais na teta do estado! Quase virei! E você meu filho, é o quê? Isso é complexo de vira lata ou o quê? É revoltante! 
  • Nem me fale! Obrigada, querido! Não, não! É sem açúcar mesmo, não se preocupe! Agora, vem cá, você pretende contar ao Hector hoje mesmo?

Marina confirma. 

  • Sim! Eu posterguei isso demais! Não tive coragem! Eu amo demais aquele homem! Não quero perdê-lo! Mas diante a minha viagem fica difícil não contar! Só que tem outro lado de mim que tem medo, Lê! Dele não me entender! Será que não é melhor, eu ir fazer essa cirurgia, sem comunicá-lo? 

Letícia é conclusiva

  • Que isso Mari? Ele merece saber da verdade! E o tempo que ficará lá fora? Ele vai desconfiar! É melhor abrir o jogo logo de uma vez! Se ele não te entender, saberás que ele não te ama da mesma forma! O que interessa se você nasceu uma mulher ou se tornou uma depois? Não importa se você é cis ou trans! Você é uma mulher! Uma mulher linda e empoderada! Ele te conheceu assim! Se ele te deixar, ele não merece você! Não merece ser o pai de seus filhos!

***

Hector chega de seu escritório de advocacia, deixando sua pasta em cima do sofá. Ele afrouxa a gravata e retira os sapatos, pegando-o nas mãos e caminhando até o quarto, onde Marina o aguardava fumando. Ele sobe na cama e a rouba um beijo. No entanto, os olhos da mulher não conseguem se entregar ao sentimento como de costume. Quando ele vai ao banheiro, ela dispara.

  • Nós precisamos conversar! – O tom era sério. 

Ele se volta curioso.

  • Aconteceu alguma coisa? 

Ela não se aguenta e começa a chorar.

  • Sim!

Ele se aproxima preocupado e limpa suas lágrimas.

  • Hey! O que está acontecendo?
  • Eu nem sei por onde começar, meu amor!

Hector se preocupa.

  • A situação é grave? Fala para mim, querida! O que houve?

Marina se levanta, não conseguindo encará-lo.

  • Eu vou fazer uma viagem no fim de semana!

Hector estranha.

  • Uma viagem? Você não me disse nada! É em relação a que? Congresso?

Marina abaixando a cabeça revela.

  • Não! É uma cirurgia que vou fazer! 

Hector não entende nada e a abraça por trás.

  • Uma cirurgia? Como assim? Você está com algum problema de saúde? É isso que tem para me contar? Você vai morrer? Pelo amor de Deus! Não me…

Marina fecha os lábios dele com seus dedos.

  • Não! Meu amor! Minha saúde está boa! Essa cirurgia…como eu vou te falar isso, meu Deus? É cirúrgia de… um transplante de útero!

Ele cai sentado na cama. Ela ainda de costas para ele se apoia num criado mudo, chorava desesperadamente. Ele a questiona.

  • Como assim? Transplante de útero? Seu útero não está…

Ela se vira tomando coragem e braveja.

  • Eu nunca tive útero! Hector! Nunca!

Lágrimas começam a escorrer pelo canto dos olhos dele. 

  • Você…nasceu sem útero por alguma…

Ela senta ao lado dele na cama e pega suas mãos. 

  • O que eu vou te contar, não é nada fácil! Mas você precisa me prometer que vai ser forte e que vai ficar do meu lado! Hector! Você é o homem da minha vida! Sem você! A vida não tem a menor graça! Por favor, você precisa me…

Ele se levanta transtornado, já desconfiava do que podia ser. Contemplou-a por um instante em silêncio. 

  • Não pode ser! Você não aparenta ser! Não pode!

Ela confirma. Entendeu que ele percebera.

  • Mas é! Essa é a mais pura verdade! Eu, Hector! A Marina que você conheceu, é uma mulher trans!

Hector se segura no criado para não cair.

  • Não! Isso não é verdade! Isso não pode ser verdade! 

Marina segurava o choro para poder falar, mas estava difícil.

  • Mas é, meu amor! Mas é! A cirurgia está paga! Foram meses de negociação! Eu…

Hector esmurra o criado.

  • Você é uma aberração! É isso que você é! Como eu pude me deitar com um homem?

Aquelas palavras a provocam uma náusea tão forte que ela o encara incrédula.

  • Como é que você falou?

Hector a enfrenta.

  • É isso mesmo que você ouviu! Você é um homem mutilado! Como você conseguiu me seduzir a esse ponto? Você é um demônio! Eu estou com nojo em ter me esfregado em você durante todos esses anos! Eu só podia estar louco para não ter percebido nada!

Marina se desespera com aquilo.

  • Eu esperava que você não fosse me aceitar! Mas me insultar dessa maneira? Você é um animal, Hector! Um animal! 

Hector ri

  • Eu? O Animal sou eu? Você tem certeza? – E começa a se contorcer de nojo.

Marina abre o guarda-roupa num gesto de repulsa tão grande e começa a jogar as roupas dele no chão.

  • Sai da minha casa! Sai da minha vida! Eu sim me enganei! Como eu pude estar todos esses anos ao lado de uma pessoa e não saber da índole dela, do caráter? 

Ele a puxa pelos braços e a esbofeteia na cara, jogando-a na cama.

  • Quem é você para falar de caráter? Você me enganou todo esse tempo, seu monstro! E não precisa pegar minhas roupas, porque eu mesmo sei o caminho de saída! 

E recolhendo suas vestes, ele sai do quarto. Ela corre até a sala. Ele a olha de cima abaixo com asco.

  • Depois eu passo para pegar os meus móveis! Eu espero nunca mais ter que olhar para sua cara!

Ele sai pela porta do apartamento e ela a bate assim que ele vai embora;

  • Animal! Animal! Seu animal! Animal!

E chorando de soluçar, desliza pela porta.

 

 ***

No aeroporto Riogaleão,  Letícia termina de tomar um café com Marina.

  • Até agora não me conformo com esse tratamento que Hector te deu!

Marina desconversou.

  • Imagina como foi para mim? Mas sabe de uma coisa é página virada! Agora preciso focar nessa viagem!

Letícia a questiona feliz.

  • E você como está? Preparada para cirurgia?
  • Você sabe que sim! É meu sonho de juventude.
  • Sabe que eu sempre soube que você dará uma ótima mãe! E pessoalmente agora, amiga, eu te digo, eu te admiro muito. É muito corajosa!

Marina pega nas mãos da amiga.

  • Obrigada, querida! Eu mal vejo a hora de poder engravidar!

O auto-falante anunciou seu vôo, ela se despediu da amiga com um abraço e sumiu na plataforma.

***

A clínica de Doutor Pernetta ficava no centro de Londres, próximo ao The Langham hotel, em frente a  universidade de Westminster! Era reconhecido internacionalmente por ser um urocirurgião de renome, especializado em cirurgias de mudança de sexo. No entanto, recentemente uma de suas pesquisas de alguns anos havia realmente elaborado um projeto aceito pela sociedade científica: o transplante de útero em trans com aspirações de engravidar. Muitas mulheres já haviam realizado a operação e uma parcela delas já estava em processo de gravidez assistida. Marina sabia que não era fácil sustentar o feto. Muitos abortos espontâneos havia acontecido, mas ela precisava ir até o fim se quisesse realizar esse sonho e assim fez. Recuperou-se inicialmente do transplante e já iniciou as tentativas de fertilização num banco de esperma dali mesmo. 

Estava hospedada no Charlotte Street Hotel a pouco do parque Crabtree Fields, lugar onde resolveu a partir de um aluguel de bicicletas, pedalar um pouco. Estava friozinho naquele outono. As folhas amareladas das árvores revelavam uma verdadeira pilha colorida naquele estreito que se abria. Passando por alguns pinheiros, percebeu que o pneu da bicicleta se esvaziou de uma vez. Uma tachinha! Parou num banco de frente para um campo aberto e observou em silêncio uma família fazendo um piquenique. Desejou naquele instante ser a matriarca de tudo aquilo. Invejou aquela mulher loira que adiante ria com o marido e seu casal de filhos.

Não era muito adepta a ideais perfeccionistas, de família margarina, mas não podia negar o que estava sentindo, ela queria ser uma mulher comum, uma mulher cis, ter nascido dentro da heteronormatividade! Foi um carma tão grande do destino ter lhe dado um corpo de homem, aprisionado-a tanto tempo numa matéria que não era a dela e finalmente quando conseguiu enfrentar isso, enfrentar a moral da sociedade, quando achava que se veria livre dos seus problemas, eis que  a tortura continuou! Será que no fundo não passava de um homem mutilado como Hector mesmo lhe dissera? Uma aberração? Por que ela parecia estar se sentindo culpada pelo seu término. Por quê? Eis que a menininha do piquenique apareceu em sua frente, dando-lhe um susto.

  • A senhora está bem? Já se alimentou hoje?

Marina voltou-se surpresa com aquele comentário.

  • Estou bem sim, querida! Já me alimentei sim! Por que a pergunta?
  • Minha mãe percebeu que está só! Possui um olhar triste! Convidou-te para ir para casa conosco. Faremos um jantar logo mais! É uma estrangeira, não é?

Marina se encantou com aquele gesto. Os britânicos sempre pareceram extremamente práticos e pouco afetivos! Agora aquela família convidava uma estranha para um jantar? A educação a mandava recusar! Mas estava se sentindo só há um tempo! Precisava de um pouco de companhia! Falar com Letícia e outros amigos pelo telefone não era a mesma coisa de tê-los pessoalmente! Por isso que aceitou o convite, apresentando-se a todos em língua estrangeira.

  • Sou Marina Belmont! Uma pediatra brasileira!

O engraçado foi quando seus olhares cruzaram os de Charles. Sentiu levemente seu rosto corar. 

***

Chegaram num sobrado de esquina a uns 700 metros dali. Ao passar pela porta da sala, Marina se encantou com a disposição dos móveis, as estantes amadeiradas bem limpas, os tapetes coloridos, legos a um canto, bonecas do outro, uma cabaninha feita de lençóis antigos e caixas de papelão ao fundo, embaixo da escada. 

  • Querida, vou te mostrar minha cozinha. Particularmente, é o cômodo da casa que eu mais adoro.

No caminho, Meline ouviu o choro de seu bebê e percebeu que ele estava no quarto de baixo.

  • Elisabeth deve tê-lo trazido para cá enquanto preparava o jantar! 

Ao pegar Gregório pelos braços a partir de um berço e começar a brincar provocando risos nele, Marina se emocionou. Como queria estar no lugar dela e ter aquele bebê! Por um momento, uma ideia maluca lhe invadiu a mente. Havia uma vassoura a um canto daquele quarto e se matasse a paulada Meline? E lhe roubasse a criança? Fugindo pela janela? A porta da chave do quarto estava para dentro! Só notariam depois de horas aquele fato! Falsificava uma certidão de nascimento e voltava para o Brasil. O seu visto estava por vencer mesmo!

  • Está tudo bem, Marina?

Ela despertou de seu transe. Já era a quinta vez que Meline a chamava para irem a cozinha. A pediatra pediu desculpas e a acompanhou. Agora entendera por que aquele era o ambiente predileto de Meline! Era extremamente aconchegante! As janelas voltadas para um jardim solar. Havia uma árvore no centro da cozinha e a montagem das paredes seguiam as excentricidades dos galhos. Fora com certeza elaborada por um arquiteto muito talentoso. A anfitriã riu.

  • É belo não é? Percebeu que atrás das luminárias que são dozes, o esboço dos Deuses do Olímpio? Eu e Charles somos viciados em mitologia grega: Ali está Hera, mais adiante Deméter, lá está Apolo, Dionísio e Hermes. Mais a esquerda Afrodite, mais a direita Atena, Ares está bem no fundo junto com Hefesto e Ártemis. Próximo a porta do jardim Poseidon e aqui bem no centro dessa luminária na árvore : Zeus. 
  • É incrível, Meline! 
  • Você não viu o melhor! – Avisou a dona de família.

E batendo palma, a chama do fogão acendeu, duas palmas seguidas apagaram a chama. O fogão possuia mecanoreceptores. 

O Jantar não demorou para ser servido. Bangers and Mash. Basicamente Salsichas de Cumberland acompanhadas de purê batata. Um prato simples, mas que com certos temperos se tornava maravilhosamente apetitoso. As crianças saíram mais cedo e a empregada já dispensada, ficaram apenas os três : Meline, Marina e Charles a mesa. Até que certo momento, Gregório começou a chorar e Meline lembrou-se de amamentá-lo, deixando os dois a sós a mesa. Charles que não parava de trocar olhares com ela, rompeu o silêncio.

  • Espero que tenha gostado! Seja bem vinda a nossa casa, Marina!

Ela corou-se levemente.

  • Obrigada, Charles! 

Ele sorriu para ela meio sem graça.

  • Desculpe a pergunta meio sem contexto aqui! Mas você tem namorado? É casada? Falamos tanto sobre nós! Mas não sabemos nada sobre você.

Marina gostou daquele interesse dele. No entanto, envergonhou-se de si mesma por admitir isso.

  • Eu era noiva de um homem há alguns meses atrás. Mas acabamos brigando. Bom, eu não quero falar sobre isso, se você não se importa!
  • Claro, claro que não! Imagine! Eu que peço desculpas por te perguntar sobre isso! Eu só perguntei mesmo porque você é um mulher tão incrível para ficar sozinha.
  • Que isso! Estar sozinho ou não estar não diz nada sobre ninguém! Eu penso que relacionamentos estão acima do nosso controle, porque depende de ambas as pessoas. É uma entidade própria, resultado do emprego de dois seres ou mais (risos), poliamor está aí para nos dizer isso. O mais importante é você estar com alguém que entenda a sua loucura! Aceite às suas imperfeições! Ou melhor entenda suas escolhas. Nem que não concorde com elas! 

Rapidamente, lembrou-se da discussão com Hector! Como aquilo a fazia mal! Certamente,  havia pego um bode do cara que um dia desejava estar para sempre em sua vida! Chorou muito depois daquela discussão e às vezes tinha uma recaída que a transformava numa perfeita idiota! Como podia se sentir culpada pelo término do relacionamento? Foi ele que a rejeitou! Foi ele que a chamou de aberração! 

Meline voltou para o jantar e aquele momento não se postergou de meia-hora. Quando se deu conta, estavam conversando na varanda da sala. 

  • Que isso, menina! Charles faz questão de te levar!
  • Imagina, Meline! Eu vou a pé! Está tudo iluminado, veja! 
  • Você pode se confundir, querida! Não está há muito tempo aqui.

Pensou em recusar mais uma vez, todavia o ressoar de uma buzina a fez desistir. Charles já estava dentro de sua caminhonete anos 60, segurando o volante do lado direito. Meline riu. Marina aceitou a carona.

  • Falam que aquele conjunto de estrelas formam a constelação ursa menor! Mas eu não consigo definir onde é a cabeça, onde é o corpo! Tudo é muito confuso para mim! 

Ela riu e o explicou enquanto ele dirigia.

  • Aqueles quatro pontos menores formando um retângulo é a cabeça! O resto é o corpo! É díficil mesmo perceber para quem não está acostumado com astronomia! 

Ele a surpreendeu.

  • Que nada! Sou apaixonado por astronomia! Sou formado em engenharia astronáutica! 

Ela se recordou.

  • Nossa! É mesmo! Eu havia me esquecido! Você comentou no jantar! 

Eles ficam em silêncio. Ela decidiu perguntar.

Ele gargalhou.

  • Se eu conheço? Você pergunta isso para mim, mulher? Não só conheço, como também sou fanático por ela. 

Ela se empolgou.

  • Fala a verdade! É insano pensar que o universo possui 21 dimensões! Das quais apenas temos noção de quatro: três espaciais (largura, profundidade, comprimento) e a quarta o próprio tempo. 

Ele palpitou.

  • Não só acho um barato isso! Como tenho uma teoria para explicar essa doideira toda!

Ela mostrou-se interessada.

  • Ah é? Então me fala! Você parece ter cara daqueles gênios como Stephen Hawking!

Ele riu alto.

  • Até parece! Não sou tudo isso não, moça! Eu penso que essas demais dezessete dimensões estão mocosadas dentro das partículas fundamentais: fóton ( força eletromagnética), gluons( força nuclear forte),  bósons( força nuclear fraca) e os grávitons (a força da gravidade) e se rearranjam conforme a necessidade! 

Ela o apoiou.

  • Faz muito sentido isso! Tanto que a mecânica quântica conseguiu se encaixar matematicamente com as teorias de Einstein quando ela admitiu que tudo é formado por infinitas retas e não pontos como pressupunha. Isso é um forte indicativo,uma vez que, o conceito de reta é infinitos pontos, que há muitas possibilidades de se redimensionar um corpo no espaço e talvez essas dimensões estejam ainda muito além do que os nossos cálculos são capazes de determinar.

Ele gozou daquele relato.

  • Que viagem mais louca e ao mesmo tempo totalmente com sentido! Depois eu que sou nerd? Né? 

Ela riu e abriu a porta do carro. Já haviam chegado no hotel. Ele a agradeceu.

  • Foi muito bom ter te conhecido, Marina! Que possamos ter mais jantares como esse! Saiba que és muito bem vinda em casa! Aparece lá mais vezes!

Ela se despediu com um aceno assertivo enquanto o carro partia. Ao  fechar-se em seu quarto, largou-se deixando escorregar pelo amadeirado da porta. Havia tempos que um homem não conseguia roubar-lhe um sorriso no rosto! Charles era tão espetacular. Estava em chamas por dentro. Literalmente com borboletas no estômago. Acariciou de leve seu braço com sua face e sorriu ao perceber que o perfume dele ficara marcado. 

***

No outro dia pela manhã terminava de fumar mais um cigarro assistindo a um telejornal brasileiro. Finalmente os deputados ultraconservadores assassinos da vereadora Marielle Franco iriam ser presos. Recordou-se do final de 2018, quando uma rua feita em homenagem a socióloga na Alemanha foi inaugurada. Precisava um dia conhecer esse lugar! 

Desceu para tomar café e experimentar um brioche feito com açúcar de beterraba e noz-moscada. Ao lado das mesas do salão, havia um porta-revistas com anúncios de atividades pela capital. Engraçou-se ao descobrir que havia um galpão na região norte de Londres que estaria tendo uma exposição de manifestações artísticas brasileiras. Adorava essa circularidade cultural! Tava aí um bom entretenimento para aquele dia! 

***

Desceu de um ônibus vermelho de dois andares próximo a uma cabine telefônica e virou a esquina de um grande muro branco. Reparou uma conduta interessante. Não havia muitos carros estacionado ali. O comportamento dos britânicos definitivamente era bem diferente! Tinham a noção que ecologicamente falando compensava mais andar de transporte público ao privado, além do mais este último, poderia provocar maiores congestionamentos também. Muita gente adotava uma postura alternativa também como chegar ali a pé ou de bicicleta. 

Não demorou muito para notar que Zeca Pagodinho estava tocando a todo vapor no ambiente. Alegrou-se ao perceber pessoas sambando. Num primeiro momento, pediu uma cervejinha gelada e assim que foi se socializando, decidiu ousar e em meio ao cavaquinho e ao tamborim de Martinho da Vila, descalça, Marina deixou a timidez de lado e se entregou a melodia. 

Para sua surpresa, quando todos bateram palmas ao final, alguém a observava e era ninguém menos que Charles. 

***

Letícia termina finalmente sua grade de plantões. Ao desativar o alarme de seu carro, estacionado a poucos metros de si, Hector a aborda, puxando-a pelo braço.

  • Que que isso, Hector! Solta o meu braço!

Ele larga sem graça.

  • Desculpa Letícia! Eu não queria te assustar! Só estou um pouco desesperado! Não tenho notícias de Marina!

A pediatra ri.

  • Agora José?Não era para menos, né? Hector! Você detonou ela com aquela sua baixeza de comentários! Vou te contar uma coisa, Hector! Até eu me surpreendi! Onde já se viu? Chamá-la de homem mutilado? Que machismo pavoroso é esse? Afinal? Pensava que você fosse mais progressista! Mas creio que estava redondamente enganada! E não somente isso, mas a sua parceria! Você não é confiável!

Hector mostrou-se arrependimento, quando ela entrou e bateu a porta do carro.

  • Sempre fui fiel a quem realmente me importo! Deixei as emoções subirem! Você também não jogou limpo comigo! Sabia de tudo e não me disse nada! Pensei que estivéssemos juntos desde o começo!(Ela pigarreou e olhou um câmera de segurança) E você sabe também que sempre defendi o direito das minorias sociais! Eu não sei o que deu em mim naquele dia para falar aqueles absurdos para Mari! Ela é a mulher da minha vida, foi e sempre será! Afastando dela esses meses, eu pude perceber o quanto sinto falta dela! Por favor! Todo mundo merece uma segunda chance!(Ele a olhou nas entrelinhas). Você não pode me ajudar a encontrá-la?

A mulher já estava ligando o carro, o encarando com ódio, mas acabou cedendo.

  • Eu lá tenho escolhas por acaso? 

***

 

Marina e Charles chegam ao hotel, depois de comerem pipoca caramelizada comprada numa catedral ali perto. 

  • Bom! Está entregue de novo! Senhorita!
  • Obrigada Charles! Mas ainda acho que foi um loucura você me seguir até lá! Você mesmo me contou que não conhecia muito sobre cultura brasileira! Nem era um atrativo para você! 
  • Ah, a gente sempre descobre coisas novas se arriscando. Não me arrependo. Vocês brasileiros são muito alegres e cordiais! É colorido o jeito de vocês se manifestarem. Gosto disso!
  • Até parece! Você fala isso por que não conhece nossa nação. Essa fachada de cordialidade pode se transformar rapidinho quanto o assunto é corrupção. Eles não sabem lidar com esse fato histórico desde os primórdios da colonização! Acham que prendendo alguns integrantes consertam tudo! Não entendem que é um processo que precisa passar por reeducação cultural desde dali, de uma simples sonegação de imposto e um furar de fila de supermercado, não enxergam que muitos utilizam de fake news aliada a um caças-bruxas dantesco feito pelos oligopólios televisivos para prenderem só uma parte dos culpados e curiosamente é a parte que rouba, mas faz. Porque aquela que rouba e não faz nada, tá livre por aí, matando as pessoas e se fazendo de mito! 
  • Nossa, Marina! Você entende mesmo do assunto! É muito inteligente!

Ela notou que havia falado de mais.

  • Desculpe! Você nem é tão ligado a esses assuntos e lá vou eu dizer deles! Muita coisa me revolta! E acabo assustando as pessoas com essa minha postura mais radical! 

Ele sorri.

  • Que nada! Você fica linda de qualquer jeito, sabia?

Quando ele vai investir um passo para tentar um beijo. Eis que Meline aparece.

  • Onde você estava Charles? Você se esqueceu que as crianças irão passar o fim de semana na casa da minha mãe? Avó deles!

Ele se recorda.

  • Meu Deus! Onde eu estava com a cabeça? Desculpa querida, eu estava trazendo Marina em casa! Encontrei com ela na igreja! Já estou indo!

Marina se despede do casal e quando atravessa a rua para entrar. Assusta-se com o olhar fuzilante e colérico que Meline empregava a ela distante. 

***

Acordou-se com estrépito. Estava sem falta de ar. Tivera uma paralisia do sono. Episódios frequentes aconteciam com ela quando criança. Mas depois de adulta, fora a primeira vez que tivera. Pegou a jarra de água num móvel na cabeceira e por um copo, bebeu duas doses de uma só vez, seus lábios estavam secos, estava sedenta. Olhou pela cortina e percebeu que estava geando. O inverno propriamente dito só começaria daqui alguns dias. Foi quando o telefone tocou e ela descobriu que havia uma visita para ela na recepção.

Não acreditou quando desceu e constatou ser Hector. Fazia meses que ela não o via. Ele estava mais magro, pálido, descuidado. Isso recordara o tempo que o conheceu, na época, ele sofria de depressão severa. 

  • O que você está fazendo aqui? Posso saber!
  • Letícia resolveu me ajudar! Peguei o primeiro vôo que pude! Eu precisava te ver! Perdoa-me! Perdoa-me por tudo que te falei!

E correu para abraçá-la. Marina se esquivou. Ele não entendeu.

  • O que foi? Achei que ficaria feliz me ver?

Ela sorriu irônica.

  • Você acha que é fácil assim Hector? Você me chamou de Aberração! Sendo que passamos anos da nossa vida juntos! Eu sinceramente esperava que no começo você não fosse digerir bem a ideia! Pensei até que fossemos separar! Mas jamais que fosse me humilhar daquela maneira! Acha o quê? Que é fácil para mim ser uma transsexual? Que optei por isso? Acordei simplesmente um dia e disse, vou ser contra-maré, por que gosto de sofrer?Sabe! Não! Eu nasci orientada a ser uma mulher e negar isso seria negar ao meu eu! Não me importa que toda a sociedade queira agredir, perseguir e matar! Vamos resistir! E vamos vencer! 

Hector se ajoelhou perante ela. Percebia que seus olhos estavam vermelhos.

  • Me perdoa por ter sido um selvagem! Um animal contigo! Naquele momento, eu não entendi muito bem, fiquei com ódio de ter sido enganado, até com o ego ferido! Só que eu constatei com o passar do tempo que eu havia feito a maior burrada de toda minha vida! Eu te amo Marina! Eu te amo até mais que a minha própria vida! O que preciso fazer para que você me dê uma segunda chance? Eu faço qualquer coisa!

E pegou-lhe a mão, mas ela as retirou das dele.

  • Existem coisas Hector! Que não tem como perdoar! Quando você esmaga uma flor! É impossível que ela volte a florescer! Nem tudo na vida tem volta! Eu entendo que você seja vítima dessa sociedade doente e sexista! E fico contente de você se possibilitar a questionar tudo isso! Mas eu não quero isso para minha vida! O que adianta voltarmos com a nossa relação, comigo todas as noites observando você dormir e me sentindo mal, sentindo-me enojada, com aquele ranço correndo dentro de mim! Está estragado, Hector! Nossa relação acabou! Não sinto mais nada por você a não ser compaixão! 

Ele chorava, quando ela abaixou e tocou seu rosto.

  • Você vai ser feliz! Vai existir uma mulher nesse mundo que vai se encantar por você! 

Ele rebateu carente.

  • Mas eu quero você, Marina! Você!

Ela se levantou e olhou com piedade.

  • Procure ajuda! Cuide de você, por favor! Agora preciso ir, se você não se incomodar.

Hector se levantou e gritou naquele salão. 

  • Me deixe ir com você, por favor Marina!

Ela não conseguiu olhar para trás, quando ele chamou diversas vezes pelo seu nome transtornado. Ela se adentrou em seu quarto e trancou a porta. Abafou o choro em um travesseiro. Seus olhos estavam encharcados.

***

Dia de Luz. Festa de sol. E um barquinho a deslizar no macio azul do mar. Tudo é verão, o amor se faz, num barquinho pela mar que desliza sem parar.  Sem intenção, nossa canção vai saindo desse mar e sol… Vejo o barco e a luz. Dias tão azuis… Marina hidratava com carinho sua pele macia, tocando levemente cada cantinho do seu corpo, cada marquinha que pudesse ter, sentindo-se leve, original, plena. Era tão grandioso parar e pensar que não havia nenhum ser humano como ela em nenhum lugar do mundo. Isso dava uma força interior. O barquinho vai…a tardinha cai…

Folheava o livro Abaixo a família Monogâmica de Sérgio Lessa naquela quarta-feira da semana posterior na praça de alimentação do Westfield Stratford City quando uma ligação que aguardava vingou. Passara numa entrevista de emprego e iria trabalhar num hospital na cidade. Quando saía com algumas sacolas daquela avenida, um caminhão invadiu a calçada que estava e só teve tempo de fechar os olhos…

Segundos depois os abriu. Muitos gritos podiam se ouvir. Uma correria. Um cheiro de fumaça. Mas ela estava salva, no outro lado da rua, nos braços de Charles.

***

Abriu a porta de seu quarto e o ajudou a entrar, ele mancava.

  • Meu Deus, Charles! Você poderia ter se machucado feio ao tentar me salvar! Vou pegar minha caixinha de primeiros-socorros!

O homem se explicou.

  • Eu não podia deixar você ser atropelada! Tive que agir! E foi uma coincidência incrível! Porque Meline havia me mandado há poucos minutos ir comprar fraldas para Gregório! 

Marina voltou, molhando o gaze numa solução alcóolica e limpando o ferimento superficial na testa do britânico. 

  • O que foi aquilo hein? Cheirou-me muito um atentado de xenofobia! Um dos shoppings mais importantes do Reino Unido! Logicamente rodeado por turistas e imigrantes! Um prato cheio para um terrorismo! 

Charles discordou enquanto ela cuidava de outras feridas nos braços dele. 

  • Ai! Não! Não é possível! 

Marina rebateu.

  • Claro que é! Em 2016 foi aprovado um referendo da saída do Reino Unido da União Europeia! O que justificaria uma medida tão anencéfala do ponto de vista econômico? Um preconceito solidificado! Spenceriano! Oportunista e ultraconservador, amedrontador das classes desfavorecidas que acreditam que vão perder seus empregos para os estrangeiros, uma balela completa!

Charles segura em sua mão.

  • Se acalma! Eu estou bem! Você está bem e é isso que importa! 

Ela sorri para ele e liga televisão.

  • Vou tomar um banho, rápido! Se você não se incomodar em esperar uns dez minutinhos! Preciso tirar essa inhaca de acidente do meu corpo! 
  • Claro! Espero sim!

Assim que ela entra no banheiro, ele dispara abrindo o zíper da calça.

  • Eu sei que você quer! Nem trancou a porta! É hoje que você não me escapa, sua puta! 

E estampou no rosto, um sorriso amarelo.

Marina terminava de se ensaboar, quando puxou o frasco de shampoo do alto da janela, apertando um pouco na mão e massageando seus longos fios pretos. Depois de um pequeno intervalo de tempo, fechou os olhos e decidiu repassar. Quando os abriu, ficou petrificada ao ver Charles nu na sua frente, do lado de fora do box.

  • O que é isso, Charles? O que você está fa…

A protagonista sentiu uma forte náusea ao vê-lo excitado. Aqueles pêlos enormes formando um verdadeiro tapete em cima do peitoral, braços e pernas daquele sujeito. O mais assustador era o olhar dele. Maníaco. Fora de si. Levemente biruta. Invadiu o chuveiro, fechando o box.

  • Que foi? Eu sei que você quer!

E passou o braço peludo por cima dela num tom feroz. Ela sentiu o odor daquele corpo. Enfrentou-o.

  • Eu não quero nada, contigo! Saia do banheiro, agora! 

Ele riu. 

  • Sabe que…esse seu jeito feministinha te deixa ainda mais atraente! Nada que é fácil vale a pena! Saquei a sua desde aquele dia do parque! Os olhares que trocou comigo e eu troquei contigo! Você estava com fogo na piriquita, não é? Louquinha para dar para mim!

Marina cuspiu em sua cara.

  • Você é doente! Só pode! Me deixa sair do banheiro!

Charles não lhe deu ouvidos e foi logo beijando seu pescoço. Ela tentou chutar as genitálias, mas ele foi mais rápido e prendeu suas mãos e pés. Ela começou a gritar desesperada por socorro, mas ele a esmurrou.

  • Cala a boca! Se não quiser que eu te mato! E nem pense em contar para mais alguém! Porque eu descubro! Agora, relaxe!

E a virando de costas a estuprou. 

***

Acordou no chão, com o barulho da água que escorria para o ralo. O chuveiro estava a todo vapor. Levantou e fechou o registro. Na frente do espelho, constatou pelas marcas e hematomas que ele a deixara. Ela havia sido abusada. Sentiu uma vulnerabilidade em si. Uma fragilidade em não ter impedido tudo aquilo. Meneou e começou a chorar feito criança. Ele era um monstro. Um monstro! Abriu a latrina e vomitou incessantemente. 

 

***

No outro dia pela manhã, ao se levantar, percebeu que na noite anterior havia acabado com os três maços de cigarro que comprara para aquele dia dado o tamanho estado de nervo que se encontrava. Fitava em seu celular o número de Letícia. Era a pessoa que mais confiava naquele momento, mas sentia medo, pavor por se lembrar daquelas palavras de Charles. Quando ela iria imaginar que um homem tão doce num primeiro momento iria ser um maníaco sexual? Mas ela não podia deixar Meline sem saber do marido que possuia! Será que ele fazia o mesmo com a mulher? E se abusasse de seus filhos também?  Precisava enfrentar aquela situação! Esse homem não podia ficar solto por aí! Não podia!Era uma mulher tão forte nas palavras.

Defendia com unhas e dentes o empoderamento feminino, a resistência contra o machismo, a luta por igualdade de gênero e quando a situação acontecia consigo, ela fraquejava? Naquele momento o que precisava fazer era procurar um lugar longe dali para morar. Fugir de vista! Assim poderia se tranquilizar e pensar numa solução melhor para tudo aquilo! Num lugar seguro! Voltaria ao Brasil? E Abandonar o tratamento hormonal de desenvolvimento ovariano e de seu útero, recém implantados? 

Foi quando recebeu uma mensagem de celular e notou ser de Hector! Para sua felicidade ainda estava em Londres! Ainda que estivesse extremamente magoada com tudo que ele lhe dissera e não sentisse mais a mesma coisa por ele, sentia que seria bom ter um conhecido por perto naquelas horas. Respondeu naquele instante e marcaram de se encontrar.

***

 

Marina empurrou a porta da Starbucks localizada na East Block, provocando um cintilar de suaves sinos e subiu as escadas para o segundo pavimento, onde Hector a encontrava numa mesa em um repartimento discreto. Estava muito diferente da última vez que a vira. Bem vestido, portando uma boina. Sorriu quando o viu. 

  • Eu queria te agradecer por ter aceitado meu convite! Você está bem Mari?

Ela fingiu um sorriso, mas ele percebeu.

  • Estou sim! E percebo que você também está! Fico feliz que esteja se encontrando de novo!

Hector a observou.

  • Você sabe que isso é díficil quando ainda amamos uma pessoa. E eu queria te pedir de novo, embora nesse momento seja praticamente impossível você reconsiderar meu pedido. Volta para mim, Mari! 

Ela se emocionou com aquele gesto, mas abaixou a cabeça.

  • Você já decidiu qual bebida você vai querer? Estou com uma vontade de experimentar um capuccino! Ele é feito com gotas de chocolate amargo e…

Foi quando ela avistou pela janela, do outro lado da rua, Charles observando-a sinistramente. Ele percebeu que ela o notara e balançou a cabeça num tom irônico de reprovação. Marina engoliu seco. Estava apavorada. Aquele homem a seguia para todo canto que andava, a assombrava. Começou a chorar. Hector percebeu.

  • O que foi? Porque você está pálida desse jeito? Está chorando?

Ela gritou desesperada.

  • Pelo amor de Deus! Hector! Tira-me daqui! 

Ele a questionou mais vezes, contudo ela acabou o convencendo. Foram para seu hotel que ficava do outro lado da cidade. No caminho, dessa vez, ela atentou-se para o fato de não estar sendo seguida. 

A sós no quarto, ela deu-lhe um abraço apertado e pegando suas mãos, decidiu contar-lhe tudo. 

***

Hector se revoltou com o acontecido. A vontade que tinha era de espancar aquele infeliz! Ela disse que tinha muito medo de voltar ao hotel onde estava porque ele deveria estar rodeando e não podia sequer imaginar que ela contou alguém a verdade, ameaçou-a de morte. Só que ao mesmo tempo ela não podia deixar Meline e as crianças sem assistência. Tinha receio deles esconderem a verdade também por medo. O advogado prometeu ajudá-la no que fosse necessário independente dela estar com ele ou não e afirmou que sempre iria acompanhá-la nas idas à clínica do doutor Pernetta. 

***

Já fazia algumas semanas que não via Charles e aquilo a tranquilizava. Era antevéspera de natal quando recebeu uma notícia inesperada pelo médico.

  • Tenho uma boa e curiosa notícia para você, Senhorita Belmont!

Ela o fitou ansiosa.

  • Não me diga que estou grávida, doutor? É isso?

Ele confirmou.

  • Sim! Vai ser mamãe! 

Ela pulou de alegria no consultório. Era tão incrível imaginar que trans agora poderiam realizar aquele sonho. No entanto, ele completou a frase.

  • E curiosamente, não foi fruto da fertilização de nossos laboratórios!

Ela sentou-se por um instante.

  • Como assim, Doutor? Não foi pela fertilização?

Ele revelou.

  • Foi o seu próprio ovócito secundário que foi fecundado! Ao contrário dos outros casos que tratei, todos se deram pela implantação do embrião no endométrio uterino! O seu caso é inédito e revolucionário para ciência, posto que é legítimo seu, fruto do seu ovário transplantado com um espermatozóide não registrado! 

Ela se curvou.

  • Isso significa que… Espere um momento. Significa que estou grávida dado um ato sexual?

Ele não entendeu.

  • Logicamente que sim! Por quê? Isso lhe soa estranho?

Ela não pode acreditar no que estava acontecendo. Estava grávida do seu próprio estuprador. 

***

Assim quando entra no carro de Hector, ela dispara para o advogado.

  • Estou grávida!

Ele a abraça totalmente encantado.

  • Nosso filho, Marina! Eu…quer dizer, saiba que estou muito feliz por você, minha querida.

Ela agradece num tom melancólico e ele não entende.

  • Você não me parece tão animada quanto eu! Que foi? O que houve? Você queria tanto ter esse filho! 

Ela é conclusiva.

  • Ele é do Charles! 

Deixando Hector sem palavras.

***

Letícia termina sua sessão de Yoga quando recebe um telefonema de Marina. 

  • Olá, querida! Como você está?

Um pouco nervosa, ela decide dar a notícia da gravidez para a melhor amiga, mas não diz quem é o pai, deixando-a crer que fora resultado da fertilização ou inseminação, uma vez que a outra não sabe de toda a história. 

  • Que notícia maravilhosa! As minhas férias estão chegando! Vou dar um pulo aí por causa de negócios e comemoramos! Você merece tanto isso! Ser mãe! Que felicidade! 

Assim que desliga, ela arremessa o celular longe.

  • Que ódio dessa desgraçada! Ela sempre dá um jeito de me fazer me sentir pior do que já me sinto! Sabe que eu não posso engravidar e fica vangloriando na minha cara com essa notícia! Justamente ela! Que não merecia em nenhuma hipótese em receber essa benção divina! Mas algo me conforta nessa história toda! O controle completo dos próximos capítulos desse enredo marino-chorão!

***

Hector acorda e Marina está a folhear um livro de embriologia básica do Moore. 

  • Não é maravilhoso! E pensar que já passei por todas essas fases : fertilização, clivagem, mórula, blastulação, degeneração da camada pelúcida, ligação do blastocisto no epitélio uterino, diferenciação em embrioblasto e trofoblasto, depois o embrioblasto se divide em epiblasto e hipoblasto, trofoblasto em sinciciotrofoblasto e citotrofoblasto. O sincício invade os tecidos epiteliais e ocorre a nidação. Décimo segundo dia ocorre a formação da placenta. 

O advogado a abraça feliz, ele liga o rádio numa estação e uma música do Tom Jobim está tocando. Vou te contar, os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender, fundamental é o mesmo amor, é impossível ser feliz sozinho. 

Marina pega uma garrafa de vidro e faz dela seu microfone, completando a canção já de pé. 

  • O resto é mar, e tudo que não sei contar, são coisas lindas que eu tenho para te dar, vem de mansinha a brisa me diz, é impossível ser feliz sozinho. 

Ele toma a garrafa de sua mão.

  • Dá primeira vez era cidade…

Ela toma de volta.

  • Da segunda o cais e a eternidade! 

E no fim ambos cantam juntos

  • Agora eu já sei, da onda que se ergueu no mar e das estrelas que esquecemos de contar! O amor se deixa surpreender, enquanto a noite vem nos envolver. 

E Marina acaba indo parar no braços de Hector. Ele a rouba um beijo e ela se apoiando em sua nuca, mostra-se recíproca. O clima começa a esquentar e ele a a levanta, encostando-a na parede, beijam-se loucamente. Ela arranha de leve suas costas e segura firme nos fios de cabelo dele, ele a deixa sem ar de tanto beijá-la, virando sua face. Ela se entrega sorrindo e puxa sua camiseta, despindo-o, jogando-o na cama, ela sobe em cima, deixa-o inverter a posição e retirar sua blusa e seu sutiã com a boca. Arrepia-se toda quando ele aproxima os lábios levemente barbados da sua genitália. Os olhos da transsexual reviram-se.

***

Quarenta e cinco dias mais tardes, no aeroporto de heathrow, Marina já com a barriga um pouco crescida corre para abraçar a amiga, por entre os braços dela, Letícia troca olhares macabros com Hector. 

Encontram uma casa do pão de queijo por lá e a protagonista exige saber das novidades brasileiras. Letícia revela.

  • Não há muitas novidades boas! Até porque aquela família tá no poder! Mas conseguimos um pequeno avanço na aprovação de uma lei que estende para uma pena de dez anos, crime contra animais, em regime fechado, inafiançável. 

Marina vibrou.

  • Finalmente a memória de Manchinha, vai ser feita jus! Dezembro verde! Basta em violência contra animais! 

Hector não se recorda.

  • Quem é Manchinha?

Marina fica passada.

  • Como assim, você não se lembra amor, aquele cachorro morto no final de 2018 a pauladas no estacionamento do Carrefour pelo próprio segurança do local?

A história embrulha o estômago do advogado.

  • Ah claro! Como podia me esquecer? Foi tão revoltante! Quando chego a pensar naquele desgraçado…

Letícia impaciente, interrompe a conversa.

  • Então vocês voltaram? Chamou ele de amor?

Marina confirma alegre. Letícia finge felicidade.

  • Eu sabia que vocês tinham sido feitos um para o outro. Disse-te Hector, era só questão de tempo para Mari te perdoar!

Hector beija o rosto da jovem por trás e sarcástico pisca para Letícia. Eram cúmplices.

***

O advogado percebe que a pediatra está no décimo sono e desce para o estacionamento, onde dentro de seu carro, Letícia o espera no banco do carona.

  • Demorou hein? 

Hector beija a parceira. 

  • Desculpa! Porém a aberração não dormia! 

Letícia o bate no ombro.

  • Toma cuidado para não falar isso perto dela e botar todo nosso plano a perder como da última vez! Essa vaquinha precisa pagar por tudo que nos fez! 

Hector a questiona.

  • Você se esquece que furou comigo também, né? Quando me fez interessar e  noivar de um travecão! 

Letícia justifica.

  • Quem não te conhece, que te compre, Hector. O que adiantaria você saber antes desse detalhe, daí que não aceitaria mesmo! Fiz tudo pensando na gente! Te perdoei por aquele furo que deu quando a humilhou daquele jeito e pôs nosso plano praticamente por água a abaixo!

Hector continua 

  • Tem algo que não entendo nessa história toda, sabia. Se você tinha receio que eu botasse tudo por algo abaixo, porque cargas d’agua você incitou aquele a me contar toda verdade ? Ela me revelou que você  deu a maior força!

 

  • Eu não  inicitei ninguém! Aquilo foi espetáculo  para reforçar minha grande amizade. Botar a tribufu para cima! E você  ia acabar descobrindo de um jeito ou de outro também! Eu tinha uma carta na manga aqui! Não conhecia outra pessoa melhor para domar aquela sonsa sem açúcar. O problema foi a tara dele. É incontrolável! Mas trouxe uma notícia prática e emocionante pelo menos. Quando penso em minha mãe naquele local medonho! Meu pai morto crente que sua indenização iria ser paga!

Hector compartilha daquele sentimento.

  • E eu que depois que meu pai morreu, eu e meus irmãos fomos obrigado a trabalhar no farol para não morrer de fome. Tudo por causa daquela usina de fumos Belmont filha de uma puta! 

Letícia o acalma.

  • Mas a hora dela está chegando! Deixe estar! Agora precisamos encontrar meu irmão! Toca essa bugiganga para o inferno! 

***

Na manhã seguinte, Marina visita uma loja de enxovais para bebê e se encanta quando encontra um conjuntinho cor-de-rosa. Seria menino ou menina? Seu celular toca e ela descobre que precisa ir para o hospital, o diretor pediu para começar as consultas mais cedo. Quando deixa o comércio, avista do outro lado da rua ninguém menos que Charles.

Ela se desespera e começa a procurar pelo carro de Hector que estaria a aguardando por ali mesmo, estacionado. Mas não o encontra. O homem atravessa a rua e se aproxima obcecadamente com seu sorriso amarelo e ela alarga o passo. Para sua surpresa, ele também faz o mesmo e ela desata a correr desesperada pelas quadras de Londres num verdadeiro jogo de gato e rato, até que ela o perde de vista e se escora na parede, cansada.

Do outro lado da rua, Letícia esmurra Charles e Hector que riem da cena.

  • Idiota! Seus imbecís! Daqui a pouco ela perde a criança! Era só para dar um susto! Isso virou uma cena de ação! 

Charles se intriga.

  • Não sei por que toda essa fixação sua? Maninha! Quem vê pensa que se preocupa com essa puta!

Letícia transparece.

  • Não me preocupo não! Mas com a criança sim! Ela não tem nada a ver com isso! Não merece a mãe que tem e é por isso que será minha, somente minha, quando nascer!

Os dois ficam em estado de choque com as palavras da vilã. Ela tinha pretensões de roubar o bebê de Marina também. 

***

Marina chega no apartamento de Hector juntamente com ele e se joga nos braços da melhor amiga que troca olhares enojados com o homem.

  • Eu preciso muito desabafar contigo! Hector me encorajou a te contar tudo! Ele acabou demorando para ir me buscar na loja de enxovais! Estava procurando uma loja de ferramentas na região e ele apareceu.

Letícia finge preocupação.

  • Ele quem? Contar o quê? O que está acontecendo, amiga? Sinto você tão estranha desde que cheguei aqui! Sinto uma energia diferente. Me conta, o que está acontecendo?

A protagonista disparou cansada depois de um dia de atendimento clínico.

  • Fui estuprada!

Letícia olhou segurando o riso para Hector

***

Letícia acalentou o coração revoltado da amiga, demonstrando entender aquela situação, apesar de pedir para ela esquecer aquela história já que ele a ameaçara de morte. Convenceu-a tomar um calmante e assim que jovem caiu no sono, bateu a porta do quarto, saindo a tagarelar com Hector.

Naquele fim de semana mesmo, voltou ao Brasil, deixando o parceiro e o irmão no comando de seu plano diabólico para destruir a vida de Marina. Meses foram se sucedendo e o acompanhamento pré-natal foi importantíssimo para assistir aquela gravidez nas palavras de Doutor Pernetta de risco. Parou definitivamente de fumar. 

Linha primitiva. Notocorda. Três camadas germinativas embrionárias: ectoderme, endoderme e mesoderme. Arquêntero. Blastóporo. Placa Neural. Sulco Neural. Prega Neural. Gota Neural. Tubo Neural. Crista Neural. Cefalização. Saco vitelínico. Âmnio. Alantóide. Vilosidades Coriônicas. Placenta. Coração. Fígado. Somitos. Membros. Ouvidos. Nariz. Olhos. Lanugo. Cabelo. Vernix Caseosa. Dobras orofaríngeas. Sistema Respiratório. 30ª Semana. Era uma menininha. 

Abriu o salão que alugara e recebera as convidadas de braços abertos. Amigas de faculdades. Parentes distantes. Primas. Letícia veio logo fingindo simpatia e trazendo um presente enorme. 

  • Feliz Chá de bebê! Amiga! E ai pronta para receber um banho de tinta? 

Marina riu quando seus olhos foram vendados e ela foi extremamente maquiada. Bolos doces e balões coloridos. Entre as pessoas, Letícia não via a hora de sair dali ainda mais depois de Marina relatar a todos que sentiu Maria Eduarda chutar. O único chute que ela queria dar era naquela barriga! Mas não abriria mão de poder ser mãe!

***

Em uma tarde ensolarada em seu consultório acompanhada da neuropediatra, ela levou uma mãe a lágrimas no seu último dia antes da licença ao fazer uma garotinha de quatro anos vítima de poliomielite recuperar o movimento das pernas. 

  • Minha filha! Lucy! Você está andando? Isso é um milagre de Deus!

As médicas se emocionaram. 

  • Você é uma anja que surgiu em nossas vidas!

Agradeceu a mãe risonha. Marina a abraçou.

  • Mãe! Só me promete que a partir de agora vai vacinar corretamente Lucy! Essa onda anti-vacinação está provocando mais a volta de doenças estatisticamente erradicadas! Vacinas possuem efeitos colaterais. Contudo isso não é motivo para essa negligência!
  • Pode deixar minha filha, pode deixar! 

***

Marina está lendo um livro sobre o fantástico mundo dos bebês, achando graça e descobre que eles se comunica entre si com poucos sons. Quando vai acariciar o barrigão, escuta um barulho peculiar, avista o tapete do quarto e constata: a bolsa estourou. Grita pelo nome de Hector que estava tomando banho.

  • O que foi, Amor? Aconteceu alguma coisa? 

Ela revela. 

  • A bolsa amniótica estourou! Vai nascer! Hector!

Ele se desespera de nervoso.

  • Eu vou ser pai!

Ela confirma. Ele a beija. Mas ela logo começa a sentir as contrações.

  • Liga logo para o Doutor Pernetta! 

***

Letícia entra maquinalmente no hospital, empurrando a porta de emergência e  trajando seu jaleco médico. Caminha descompassadamente ansiosa até a sala de cirurgia na qual Marina já estava em trabalho de parto normal, fazendo força.

Os olhos esverdeados da serpente reluzem perante a cena, ela encontra os de Hector assim que afasta os fios loiros da testa pondo dentro da touca e ele estranhamente os despista. Olhou para o eletrocardiógrafo e pensou em desassistir aquela desgraçada, deixá-la vulnerável a pré-eclampsias e quem sabe um infarto letal. Sentiu-se mal ao presenciar toda aquela atenção que sua amiguinha de anos recebia. Era para ela estar naquela cama, tendo o dia mais feliz de sua vida e não aquele alienígena!

Marina apertou forte a lateral da cama e fazendo forças, urrou uma, duas, três…

Pernetta se preocupou.

  • Se demorar muito! Temos que partir para cesária! 

A mocinha bravejou.

  • Nem pensar! Doutor! Nem que eu morra nessa cama! Mas minha filha vai nascer de parto normal com todos os benefícios que esse método tem a oferecer! 

E pegando as mãos de Hector, gritou fazendo força e a criança começou a descer pelo colo do útero e canal vaginal até começar a chorar. Ela escancarou um sorriso de encantamento no rosto. Hector foi ao pranto e Letícia não gostou nenhum pouco.

De repente, Marina começou a tremer e a se sentir zonza. Os enfermeiros alertaram o médico que a pressão havia caído muito. Sentiu uma exaustão profunda e desmaiou para uma satisfação imensurável de Letícia. A cena se apagou. 

***

Doutor Pernetta entrou na companhia da Nutricionista na manhã seguinte, enquanto a jovem se espreguiçava na cama. 

  • Minha filha! Você está melhor? 

Marina confirma.

  • Estou sim! Por que o senhor está perguntando isso?

Ele explica revelando portar o manômetro hospitalar.

  • Vamos medir essa pressão! Teve uma queda brusca ontem no parto! 

Hector se levanta da poltrona. Marina exige saber.

  • Onde está a Duda? Está tudo bem com ela? Leve-me até ela!

Letícia está contemplando a bebezinha pelo vidro do lado de fora do berçário.

  • Ai Dudinha! Não sabe como esperei por esse momento tão sublime! E pensar que estamos a poucos dias de você ser minha…
  • Como assim, Lê? Como assim a poucos dias ela será sua?

A megera leva um baita susto com a chegada da rival. Troca olhares com Hector que novamente os despista. No entanto, consegue contornar a situação.

  • Ué, amiga. Daqui alguns dias ela sairá daqui e poderei pegar minha afilhada no colo.

Marina a abraça e vestindo uma roupa apropriada se adentra na sala. Letícia bufa de raiva. Olhou para uma funcionária da limpeza limpando as escadas e imaginou jogando Marina degraus abaixo.

***

Alguns dias depois, Marina finalmente tem alta e se recupera em casa. Letícia e Hector se encontram com Charles no sobrado do rapaz. 

  • Certeza, né? Que sua familinha foi para um temporada para casa dos extremistas na Arábia Saudita, né? Andar de camelo e nadar em Oásis no deserto, né? 

Charles confirmou. Ela se felicitou.

  • Perfeito! Então podemos pôr nosso plano em ação! Chamou a governanta?

O homem acenou que sim e ao chamá-la, ela veio da cozinha. Letícia a cumprimentou.

  • Tirou a sorte grande, minha filha! Trezentos mil dólares na sua conta para apenas uma ceninha que você terá que ensaiar em um diazinho de sua vida! 

***

Marina terminava de amamentar a filha, quando recebeu um torpedo de celular, já era noite. 

“ Sequestrei a sua amiga” 

Ela se desesperou. Que brincadeira de mal gosto era aquela?

“ Vai para janela se quiser que ela sobreviva”

Ela correu desesperada e constatou ser Charles, desesperando-se. Segundos depois a foto de Letícia amarrada surgiu no seu visor. 

***

Letícia sorriu quando viu no visor os prints que Charles a havia mandado das mensagens com Marina. Pegou uma escova e pôs a pentear sombriamente seus cabelos na frente de um espelho oval naquele corredor do segundo andar. Hector recebera o chamado para cuidar de Duda e Marina disse para ele não se preocupar. 

Apagou as luzes no disjuntor e aguardou peconhentamente o irmão trazer a vítima. Instantes depois, sentada na escada, ouviu o desligar do motor do carro e passos em direção a porta, correu para cima.

Marina chegou ao local perdida.

  • Onde está minha amiga, seu patife estuprador? Me fala! Me fala se não tem acordo! 

Charles riu. 

  • Você achou mesmo que eu queria apenas uma quantia gorda na minha conta? Você e sua familinha me deve muito, garota! 

Ela não entendeu.

  • O que você quer dizer com eu e minha família te devemos muito? 

Ele fechou a porta e do alto da escada portando uma lamparina a velas, Letícia se revelou com um roupão manchado de sangue.

  • Que bom que você veio, querida. Eu estava morrendo de saudades! 

Marina estranhou. Por que ela estava vestida daquela maneira? Por que se dirigia a ela naquele tom?

  • Sabe que eu nunca gostei de você! Eu estava farta de fingir todo esse teatro, quando o que eu queria mesmo era te dar um bote! 

Marina estava petrificada perante aqueles dizeres. O que sucedendo naquela casa? Estaria sonhando? Tendo um pesadelo? 

Foi quando com um toque no interruptor, apenas uma luz se acendeu no centro da sala e para o desespero de Marina, havia uma mulher ensanguentada.

  • Elisabeth! Você a conheceu quando esteve na casa de meu irmão! Pobrezinha… não suportou o baque! Teve que ser morta para que a justiça finalmente viesse à tona.

Marina se virou enojada com aquela cena.

  • Então é isso, mesmo, Letícia? Você foi capaz de montar tudo isso para me pegar? 

Letícia gargalhou alto. Desfez-se maldita.

  • Gênia, não sou? Nota dez em criatividade, eu diria! E você só tá pagando pelo que fez a minha família e muitas famílias quando aquela empresinha de merda de fumo faliu e deixou todo mundo chupando o dedo. A minha mãe não teve direito a se aposentar! E hoje sua desgraçada ela está entrevada numa cama, surda de tanta poluição sonora que teve que suportar naquelas condições de trabalho insalubres! 

Marina se emocionou.

  • E por que você nunca pediu a mim, os direitos trabalhistas que dela pertencia? Sou filha única, herdei tudo, mas você sempre soube que eu pensei diferente de tudo isso. 

Letícia gargalhou.

  • Você achou mesmo que iria me enrolar nesse papo do vigário? Conheço gente feito você! Não tem coração! É oca! Seca por dentro!

Marina a surpreendeu.

  • Ou será que se deve a um motivo mais genético e hormonal? Será que é porque você não pode ter filhos e quer roubar a minha filha? 

Letícia se amedrontou com aquele disparate e olhou atordoada para o irmão, o qual sem delongas a agarrou pelos braços.

  • Charles! O que você pensa que está fazendo? Você disse a ela do nosso plano?

Marina se dirigiu ao disjuntor e acendeu todas as luzes. Hector se adentrou, trazendo Duda nos braços.

  • Você é muito otária, mesmo, né? Achou que fosse bolar tudo isso e eu não fosse sacar? Hector me contou tudo depois que você pediu para o seu irmãozinho querido me estuprar e me seguir até o starbucks. E fez isso sem grana, porque ao contrário do que você pensa, ele me ama de verdade! 

Letícia olhou sem acreditar para Hector, quem a encarou séria. Marina continuou.

  • Depois não foi difícil trazer o maníaco para o nosso lado. Comprei o silêncio e a lealdade dele! Encenei na sua frente quando você gastava seu tempo encenando para mim! 

Letícia se irritou.

  • Eu não estou acreditando! Seus traíras! Vocês passaram para o lado dela? Dessa demônia?

Marina completou.

  • Calma querida! Permita-me te levar ao prato principal dessa noite!

Retirando uma arma da calça, destravou e sobre as luvas que portava, apontou para a megera.

  • Tá com medo de morrer, Letícia?  

A outra pediatra agora esmorecia de medo. Num gesto repentino, virou para a governanta envolvida numa tramóia de falsa de morte e disparou incessantemente cinco tiros nas costas da farsante sobre os berros de Letícia. Marina voltou rindo para a sua melhor amiga.

  • Agora sim! Para tornar mais realista a sua trama! Morreu de verdade!

Letícia se desesperou.

  • Meu Deus! Você é uma assassina! 

Marina deu de ombros.

  • Eu? Assassina? Nananinanão! Hahahaha! A assassina aqui é você!

E num gesto brusco, Charles dopou a própria irmã que relutava esperneante. Ao observá-la desacordada, pôs a arma entre suas mãos e sentou contemplativa no braço do sofá. 

  • Agora sim! Cada um no seu devido lugar! 

Pegou o dinheiro num saco pardo na bolsa de Hector e pagou Charles.

  • Não quero ver mais você na minha frente! Desaparece! E nem pense em me chantagear com essa história, porque eu revelo tudo que você e sua irmã fizeram e tentaram fazer para mim! E nem pense em exigir os direitos de pai dessa criança, porque ela é minha! 
  • Pode deixar, Madame! A senhora nunca mais me virá em sua frente! 
  • Assim espero! Energúmeno! 

E saiu com sua filhinha no colo. Dirigiu com o advogado para o aeroporto. No caminho ele a questionou.

  • Você matou mesmo a governanta? 

Marina se irritou.

  • Olha para mim, amor! Aquilo era bala de borracha! Dobrei a proposta que aquela víbora fez a ela, a todo pessoal do IML e do cemitério. Meu espetáculo vai ser muito melhor pode escrever. O dramazinho foi para ela não ter um surto, pedir para exumar o corpo e constatar que o caixão está vazio!

Hector riu de nervoso

  • Sabe que por um momento pensei que jamais me perdoaria por eu ter entrado nessa! Ter te enganado por tanto tempo! 

Marina arqueia as sobrancelhas num tom soturno

  • Mas quem disse que eu esqueci?

Ela saca uma faca na bolsa e o aponta eufórica.  Ele se borra de medo, estacado. Ela retira um celular das vestes e bate uma foto não se aguentando de tanto rir.

  • Olha só sua cara! Você tá branco, mor. Até que eu daria uma ótima vilã,  não é mesmo? Mas relaxa! Você provou que me ama no dia que me contou toda essa tramóia  louca daquela mulher!

Hector fica aliviado

  • Que susto me deu! Piradinha! Achei que por um momento você realmente fosse me esfaquear! Eu me arrependo muito do cara que fui. Eu já te amava Marina! Amava sem saber e depois que você  começou a gerar a Dudinha, tudo que eu fizesse contra você seria dar um tiro no próprio pé ! Um tiro na mãe da minha filha! 

Marina se emociona e cerra os lábios dele com o indicador

  • Cala boca e me beija logo! 

Ele a ergue no ar e a beija apaixonado. Começa a tocar Maria Maria de Elis Regina

***

Aterrissou no Brasil algumas horas depois e teve a confirmação em seu celular por Charles que a polícia invadiu a casa e prendera Letícia com a arma na mão, em flagrante. Agora aquela ordinária iria passar o resto da vida atrás das grades! Como merecia! 

***

Uma chuva serena e tranquila caía sobre aquele entardecer alaranjado naquela praça. Promete que não vai crescer distante, promete que vai ser para sempre assim, promete esse sorriso radiante todas as vezes que você pensar em mim. Marina ajudava Duda já com três anos a escalar uma barra de macaco. Promete cuidar bem dos seus cachinhos e sempre me abraçar quando chegar. Promete sorrir sempre com os olhinhos e cantar cantigas na sala de estar. Ela desceu junto com Duda entre as pernas o escorregador. Que eu prometo ser para sempre o seu…porto seguro! Prometo dar-te eternamente o meu amor. Girava a filha no gira-gira. Quando Hector apareceu com a mão rodeada de três cachorros-quentes. Duda saiu correndo em sua direção.

  • Papai!

Ele a abraçou, encostando-a em suas pernas.

  • Para você, meu amor! 

Marina o beijou e devolveu o carinho.

  • Eu também te amo, meu amor!

Promete ser para sempre o meu menino, me deixar cantar para te fazer dormir, que eu prometo que vou te contar para sempre, eu te amo infinito, meu guru. 

Por fim, Marina empurra sua pequena no balanço que pende para o alto e avante.

 

 

 

FIM

 

Depoimento final de Charlotte Marx:

A motivação para escrever esse web filme surgiu quando desejei retratar a biografia de uma transsexual que possuia o sonho de ser mãe. Longe de mim, querer ousar e denunciar a transfobia! Creio que careço de bagagem necessária para tamanha responsabilidade! Ainda mais porque não tenho lugar de fala nessa questão! O que eu pretendia fazer era contribuir! Mas como? Naturalizando! Retirando esteriótipos que empregam a esse grupo social. Assim, Marina Belmont poderia ser perfeitamente uma mulher cis! Mas é trans. Quis humanizar a personagem, não reduzí-la a um atributo de identidade de gênero, que é, sem sombra de dúvida importante, mas não mais que o seu todo. Espero que tenham gostado! 

 

COMPARTILHE COM SEUS AMIGOS

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on google
Google+
Share on tumblr
Tumblr
  • Amei! O início é tranquilo e poético, com os versos de sucessos da MPB. Mas do meio pro final é eita atrás de eita. Hahahha
    São muitas surpresas e reviravoltas. Fiquei chocado com a descoberta de que o bebê foi fruto da violência que ela sofreu. Mais chocado ainda com esse final.
    Parabéns por conseguir naturalizar a personagem, que podeira até, ser uma Helena de Manoel Carlos. Marina poderia ter, como já te disse, uma novela inteira pra chamar de sua. É uma personagem muito interessante e que rende muita história.
    Linda a cena do casal cantando Wave. Essa música me dá uma profunda nostalgia e saudades da minha infância, por ser tema de abertura de Páginas da vida.
    Parabéns pelo filme! Estou ansioso para Estação Medicina!

    • Outro comentário incrível e de um autor que nem preciso comentar o talento né? Estou terminando de ler Divas! Me aguarde rsrsrsrs

      Eu sou apaixonada por MPB, Bossa Nova e Samba clássico. Poder enunciar as letras e as melodias desse universo em minha trama é muito gostoso de fazer. Contudo, o êxtase de tudo é poder mesclar a cronicidade dos textos do Maneco com a eletricidade dos dramas de JEC. Águas de Março, pretendia esse intento e é por isso que considero meu melhor web filme até aqui, ousei e acho que cheguei perto dessa esperada simbiose.

      Quanto a Marina ser uma Helena! Nem preciso reafirmar que devemos nos comunicar por telepatia, né? Porque foi exatamente no que eu pensei! Uma Helena trans! Doce e forte!

      Wave é perfeita, ainda mais, retratando uma cena de amor totalmente atípica para os romances nas grandes mídias tradicionais.

      Te aguardo para Estação Medicina! E para meu próximo web-filme em fase terminal de produção: Caleidoscópios.

  • Já de inicio me empolguei ao ler seu filme ao ver a sinopse que constava em um banner de divulgação no site, ao abrir o filme e ver de inicio a inspração em Manoel Carlos, um dos meus autores preferidos, só aumentou a minha animação. Seu texto é incrivel! A mesclagem no inicio da música intercalando com as cenas do Rio de Janeiro e da Marina por fim ouvindo a melodia em seu apartamento foi genial. Hector é um embuste, como foi capaz de despejar essas palavras tão duras e ainda agredir a Marina dessa forma? Cadê o amor que dizia sentir por ela? Fez bem em ir embora, já foi tarde. Linda a amizade de Leticia e Marina s2. Londres, um dos lugares que quero conhecer rsrsrs, pelo visto rolou um clima e tanto entre Marina e Charles. Passada que o Cherles se revelou um lixo!!! Também já era de se esperar, casado e dando em cima da Marina. Cena forte dela sendo violetada. E o pior, esta gravida do abusador :O sorte que o Hector mesmo tendo errado esta com ela por perto. Gente??como assim??? Leticia se mostrando ser uma falsa!!! Chocadissima!!! Hector e Leticia juntos e cumplices :O a cada linha dessa história fico chocada!!! Como se não bastasse Charles é o irmão da piranha???! Leticia bolando o plano e provou do próprio veneno kkkk. Marna gênia. Que lindo o final, finalmente ela conseguiu ter a familia que ela desejou ao ver no parque de Londres logo no inicio. Amei o filme, a escrita cheia de informaões magnificas e inteligentes, texto precioso e bem feito. Arrasou!!!

    • Primeiramente, que comentário de ouro! Sensível e lindo! Sério! Muito carinho e reconhecimento envolvido. Agradeço muito. 😊😄😅

      Acredito ter sido meu melhor web filme até aqui, justamente por isso que você retratou sobre essas nuances sendo feitas e depois desfeitas. Brinca um pouco com a identidade de cada um. Marina é uma mulher forte, doce, mas não é tão ingênua como pensam. Hector é um cara que errou, mas se arrependeu. Letícia é daquelas amigas falsas, mas que sonha em ser mãe e Charles, um ambicioso sem precedentes, que pula de galho em galho, pela melhor oportunidade,mas que ama sua família do seu jeito.

      Deixo o convite para minha web-novela, ainda sem data definida, que se chama Estação Medicina. Uma trama bem estilo malhação, retratando os desafios dos universos de ricos e pobres para cursar medicina e de centro, um temperinho de uma história de vingança de um mocinho indígena. 🤗

  • LEIA TAMBÉM

    >
    Rolar para o topo
    Suporte Cyber TV
    Precisa de ajuda?
    Olá!
    Como podemos lhe ajudar?
    Estamos sempre disponíveis.
    Powered by