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Bem vinda aos Stanley’s de Leicester

O verde das campinas deu lugar para o cinza do outono da cidade de Leicester. A fumaça saindo das chaminés das fábricas impregnava o ar. Grupos de jovens com seus trajes impecáveis caminhavam pelas calçadas sujas da cidade com cigarros e bebidas, parecendo que o tempo não fazia a menor diferença. Mas, o tempo fazia diferença sim…

…tudo escureceu quando o trem entrou em um pequeno túnel. Mas logo ouvi murmurinhos de pessoas e quando olhei pela janela vi a estação lotada. Fiquei abismada. Aquela não era nem de longe a mesma estação de 1914, antes da maldita guerra eclodir. Senti um aperto no peito. Baixei a cabeça e encarei o diário sobre minhas pernas. Fechei-o. Aquelas páginas já gastas continham muita história, algumas tristes, outras alegres e, muitas delas, vividas ali, pelas ruas daquela cidade. Guardei-o na minha nécessaire, pois logo já tinha que descer.

Sentada no banco gasto desse trem, meu destino é incerto. Perdi tudo que me prendia ao lugar que vivi por 10 anos e agora, sozinha retorno para minha cidade. Desde que tomei esta decisão, minha mente esteve presa por diversas questões: o que farei para sobreviver? será que meus amigos ainda moram no mesmo lugar? o que será de mim, jovem e sozinha na Inglaterra? Tentei dormir inúmeras vezes durante esta viagem, mas a excitação, a ansiedade e o medo da nova vida me atormentaram à cada instante.

O trem parou na estação já era tarde da noite. As ruas estavam quase vazias e havia pouca iluminação. Eu vestia um casaco de cor vinho que ia até minha panturrilha, um vestido azul forte e botas pretas até o joelho. Enrolei melhor meu echarpe de cor preta ao pescoço quando senti o vento frio do outono bater. Joguei meus cabelos loiros para trás e respirei fundo. Sim, eu estava de volta. Luvas sempre achei um exagero, mas confesso que elas fizeram falta. Aquele vento estava congelando meus dedos. Peguei minha única mala de mão e caminhei para além da estação até chegar nas ruas. Olhei para os lados e tudo estava muito diferente. O lugar parecia ainda sofrer as consequências da grande guerra. Me bateu um medo neste momento.

As ruas estavam quase sem iluminação e já não havia ninguém fora de suas casas. Olhei no meu relógio de bolso e estava perto da meia noite. Provavelmente seria difícil encontrar alguma pousada ou pensão que pudesse me abrigar aquele horário. Sentindo a frustração querer tomar conta de mim, entrei desesperadamente no primeiro bar que vi. Sempre considerei o álcool sinônimo de problema, mas ele também me acalmava quando sensações ruins tentavam me domar.

Fui até o balcão e pedi um whisky. O homem do outro lado me encarou com uma expressão surpresa, mas me serviu assim que mostrei que tinha dinheiro. Sentei em uma bancada e fiquei ali mesma, com meus pensamentos e o meu whisky, só observando pelo espelho o pouco movimento daquele pub aquela hora da noite. Talvez não fosse a noite de badalação do lugar, pois era meio de semana e só se via alguns bêbados ao redor das mesas de madeira e algumas mulheres da vida se oferecendo para alguns poucos jovens. De repente um homem de sobretudo escuro se aproximou apoiando o cotovelo sobre o balcão ao meu lado. Ele ficou à me observar, percorrendo o meu corpo com um sorriso no rosto. Fingi não vê-lo, mas ele tossiu secamente para chamar minha atenção. Terminei meu whisky e pedi mais uma dose, prontamente atendida pelo homem entediado do outro lado do balcão. Pensei comigo: ” vamos brincar e ver até onde esse aí vai”. Encarei o cafajeste ao meu lado e seu sorriso ficou maior.

– O que uma moça tão linda faz sozinha à essas horas em um bar? Aqui não é lugar para damas. – disse ele mostrando as mulheres que ali se faziam presentes.

– Vai ver eu não seja uma dama. – respondi cruzando as pernas deixando-as a mostra e exibindo a fenda lateral do meu vestido.

– Ahhhh, entendi! – respondeu-me se aproximando e pondo a mão sobre minha coxa apertando-a.

– O que pensa estar fazendo? – perguntei em um tom mais alterado e ele riu.

Ele segurou meu pulso com força e me puxou em direção à uma porta dos fundos. Eu não aceitaria aquilo de maneira alguma, podia ser qualquer coisa, menos aquilo que ele pensou que eu fosse. Lhe acertei um forte chute no meio das pernas e ele caiu de joelhos à minha frente. Soltou meu braço e, gemendo de dor, levou as duas mãos aonde eu acertei.

– Sua vagabunda! – ele berrou aos quatro cantos e todos os presentes já estavam atentos para nós.

Cuspi ao lado do desgraçado e dei as costas para ele pegando minha mala que estava no chão apoiada ao balcão. O homem do bar observava tudo. Sorriu para mim parecendo aprovar minha atitude. Perguntei sobre alguma pensão ali perto e ele, imediatamente, anotou um endereço em um pedaço de papel me entregando. Indo em direção à saída do bar, o homem que me atormentava ainda teve a audácia de agarrar meu casaco me impedindo de seguir. Lancei um olhar de indiferença, coloquei a mão por dentro da minha nécessaire e logo lhe dei um soco no nariz fazendo-o sangrar e gritar de dor.

– Sua desgraçada! Quebrou meu nariz! – ele berrava e ninguém se importava.

Olhei ao redor, guardei meu soco inglês novamente e segui meu caminho.

Stanley’s PubHouse estava escrito em uma placa com luzes amareladas. Parecia estar fechado, então bati a aldraba três vezes e aguardei. A porta se abriu e uma mulher de pele clara e cabelos cacheados presos em um coque alto, apareceu. Olhou para ambos os lados da rua deserta e me encarou de cima a baixo.

– Ainda tem quartos para alugar? – perguntei à ela.

– Depende. Entre rápido, o frio tá de congelar. – ela respondeu.

Fiz o que ela pediu e só então notei que devia ter lhe acordado. Ela usava uma camisola de tom claro e estava tremendo de frio. Reparei no local, móveis e decorações nada muito luxuoso, mas bastante aconchegante.

– Gostou? – ela perguntou acendendo um cigarro.

– Sim. – respondi firme e a encarando.

– Muito bem. Já tá tarde… – ela encarou o relógio grande na parede.

Fiquei um pouco envergonhada e ela continuou.

– … só preciso que responda algumas perguntas, pode ser? – ela pediu se dirigindo para trás de um balcão de madeira.

– Sem problemas. – respondi.

– Usa algum tipo de droga? – começou ela.

– Não senhora. A não ser que cigarro e bebidas alcoólicas estejam na sua lista. – respondi.

– Trabalha com algum tipo de prazer? – continuou ela, sempre dando uma tragada entre uma pergunta e outra.

– Não. – respondi franzindo a testa.

– Ótimo. – ela finalizou pegando algo debaixo do balcão.

Era uma chave pequena e dourada presa à um chaveiro de metal com o número quatro. Ela me entregou e, em seguida, me alcançou um documento. Passei os olhos e notei ser um simples contrato.

– Assine aqui. – falou ela colocando o dedo indicador de unha vermelha sobre uma linha no final da página.

Peguei a caneta, preenchi o documento e assinei, notando que aquela mulher não tirava os olhos de mim.

– O pagamento é semanal. Pode me pagar no final desta semana. – disse ela.

Entreguei a caneta em mãos para a mulher atrás do balcão. Virou a página para si conferindo os dados no documento.

– Temos três regras. – falou-me em tom seco. – o que acontece aqui, permanece aqui. Não interfira nos assuntos que não são da sua conta e a mais importante…

Ela encarou-me com os seus olhos castanhos e grandes.

– …meus sobrinhos e meu filho estão aqui quase sempre. Então, fique longe deles, pro seu próprio bem. – ela me falou e sorriu no final. – faça isso e nos daremos muito bem.

Apenas concordei com a cabeça.

– Então senhorita… – ela olhou para o documento checando o meu nome. – … Alisson Parker, seja bem vinda. A propósito, pode me chamar de Val. Valquiria Stanley.

Lhe estendi a mão e ela repetiu o mesmo gesto. Depois, segurando minha mala, caminhei até a escada e sumi das vistas de Val.

Entrei no quarto e larguei a mala ao lado de um roupeiro de duas portas à minha direita. Tirei o casaco e pendurei em um cabideiro próximo à janela de cortinas floridas. Aproveitei e puxei a cortina espiando lá fora. A vista dava para o lago que cortava a cidade. Estava nublado demais, mas pude notar que alguns homens de ternos e chapéus ou boinas, carregavam algumas caixas suspeitas em uma embarcação que estava atracada por ali. Era visível que se tratava de algo proibido, pois um outro homem apenas orientava a ação e olhava atento para todos os lados. Fechei a cortina rapidamente, sentei-me na cama e percebi o quanto a fé estava presente naquele lugar. Havia uma bíblia aberta em cima do criado-mudo e a imagem de prata de Cristo pregado na cruz pendurada sobre a cabeceira da cama. Tirei as botas e as meias e joguei-me na cama. Adormeci sem nem ao menos trancar a porta e apagar a luz.

No dia seguinte acordei tarde com os tímidos raios do sol invadindo o quarto pelas finas cortinas floridas. Levantei relutante e, só então, percebi que havia uma cômoda em frente à cama e um espelho na parede sobre ela. Tirei meu vestido e fiquei alguns longos segundos observando o meu reflexo. Aquela cicatriz eu iria carregar pelo resto da minha vida. Toquei ela no início, acima do meu seio direito, e percorri as linhas salientes que subiam pelo ombro e finalizavam na minha escápula. Pude ouvir os gritos e o apito ensurdecedor do trem antes que o mesmo perdesse o rumo e saísse dos trilhos. Por sorte, muita sorte, eu sobrevivi. Mas aquela cicatriz me faria lembrar pra sempre que alguém me deu uma segunda chance nesta vida. Voltei para a realidade e fui pegar uma toalha na minha mala. Enrolei-me e notei que não havia banheiro no quarto. Provavelmente é um só para todos os hóspedes. Abri a porta e espiei. No fundo do corredor havia uma porta com uma placa acima escrito “Banheiro”.

Caminhei um pouco ressabiada até o banheiro e, antes que pudesse pôr a mão na maçaneta, a mesma moveu-se e a porta se abriu. Tomei um susto quando o vi. Sim, uma figura masculina, alto, com o físico forte e definido. Tinha os olhos cor de mel e estava com uma toalha felpuda enrolada na cintura. Seu cabelo caía sobre os olhos e havia gotículas de água pelo seu corpo. Ele quase esbarrou em mim, então segurou-me pelos ombros e fitou minha cicatriz. Fiquei envergonhada e ele sorriu.

– Desculpe, não vi você! – ele disse com sua voz firme e gentil.

Sorri timidamente. Mantive a cabeça baixa. Ele tirou as mãos dos meus ombros e estendeu a mão direita pra mim.

– John Stanley. – disse ele. E foi aí que percebi que tratava-se de um daqueles que Val pediu para que eu ficasse longe.

– Prazer, Alisson Parker. – respondi lhe estendendo a mão.

Ele sorriu olhando dentro dos meus olhos e ainda comentou sobre a cena inusitada de nos conhecermos enrolados em nossas toalhas em frente ao banheiro. Senti-me ficar corada naquele momento. Foi quando ouvimos passos na escada e nos viramos.

– John, vamos. Terry e Ferdinand já estão lhe aguardando. Os negócios não podem esperar. – falou Val se deparando com nós dois e me lançando um olhar que poderia me partir ao meio.

– Até mais então! – disse John se atrevendo à né beijar na bochecha neste instante.

Nem tive coragem de encarar Val novamente. Entrei depressa no banheiro e fechei a porta. Fiquei com as costas apoiadas na porta do lado de dentro e ainda escutei uma pequena discussão entre Val e o seu filho. Sim, John era o filho dela. Droga! Espero não ter me encrencado.

Depois de um banho rápido voltei ao quarto e coloquei um vestido bege simples e casual, nada extravagante. Peguei um casaco de linho preto, um chapéu claro e desci as escadas. Na recepção não havia ninguém. Ainda bem. Não queria ver Val aquela hora. Saí do lugar e senti aquele clima abafado e úmido, típico do outono de Leicester.

Comprei um jornal na banca da esquina, verifiquei vários anúncios de emprego, mas a maioria só contratavam homens, e se queriam mulheres era para serem garotas de programa. Voltei apenas no final da tarde, sem progresso e frustrada. Entrando na pousada me deparo com três homens de ternos alinhados conversando com Val, sentados confortavelmente em poltronas estofadas.

Dois dos três homens usavam ternos cinza e um usava terno preto. Eles conversavam seriamente com Val enquanto bebiam e fumavam. Reparei em Valquiria que usava um vestido branco singelo com alguns adereços floridos. Ela largou o cigarro no cinzeiro sobre a mesa e ficou me encarando quando entrei. Vi que um dos homens era John, os outros, provavelmente, seriam Terry e Ferdinand, sobrinhos de Val. John ficou me observando até que sumi nas escadas. Mas não me contive e parei escorada na parede lateral tentando escutar o que falavam. Sei que isso não é correto, mas me parecia algo muito importante. Não tive sorte. Espiei e os três homens já se levantavam se despedindo de Val. John colocou uma boina preta e os outros dois colocaram seus chapéus de cor cinza. Ela abraçou cada um deles demonstrando muito carinho e afeto por todos e entregou à cada um algo que eu não consegui identificar de onde eu estava.

Me surpreende não ter muita gente hospedada por aqui, talvez seja a época do ano ou então o lugar seja muito seletivo com os seus hóspedes. Fora eu só vi mais duas discretas mulheres e um homem mais velho. Voltei rápido para o meu quarto, peguei uma toalha, tomei mais um banho e vesti algo confortável. Desci novamente sentindo um cheiro bom pelo ar e o ouvindo barulho de pratos. Quando me avistou chegando ao pé da escada, Val, que estava arrumando as mesas do salão, me falou que as três refeições estavam inclusas no aluguel. Fiz meu prato e sentei em uma mesa de canto.

Val veio até onde eh estava com uma jarra de suco e um copo e me serviu.

– Obrigada. – agradeci e antes que ela se retirasse ainda pedi se ela poderia me dar algumas informações.

– Depende. – respondeu ela segurando a jarra com uma das mãos.

– Não é nada demais. Suponho que você more aqui faz tempo, correto?

– Incorreto não está…por que? – disse ela largando a jarra na mesa.

– Nasci e morei aqui até os 10 anos, mas parece que as coisas mudaram bastante… – eu comecei e logo tomei um gole do suco que ela me serviu.

Val olhou para os lados, para o salão vazio naquele horário e puxou uma cadeira sentando na minha frente.

– …durante todo esse tempo que estive fora, sabe me dizer onde fica este endereço? – pedi à ela pegando um pedaço de papel dentro da minha blusa e colocando-o sobre a mesa.

Val pegou o pedaço de papel e leu largando-o novamente na mesa.

– Essa rua não existe mais. Tudo lá foi demolido para a construção de uma fábrica. Você morava lá? – me perguntou ela.

– Morei por alguns anos. Obrigada pela informação. – respondi baixando a cabeça.

Fiquei um tanto triste por não existir mais o lugar que ainda recordava com tanto carinho. Comi em silêncio após Val pedir licença e se retirar. Levantei, lavei meu prato em uma pia conjunta e saí para as ruas. Caminhei sem rumo apenas tentando entender no que Leicester tinha se tornado após o fim da grande guerra. Conferi as horas no relógio grande da catedral e, já passavam das 21:00 horas quando entrei em um bar chamado “The Garage’s”.

O movimento era bastante intenso. Conversas, gargalhadas, brindes e aquele cheiro forte de bebidas e cigarros. Não dei muita importância para os olhares masculinos se dirigindo para mim e caminhei até o balcão. Sentei-me e pedi um whisky.

– É muita coincidência nos encontrarmos denovo. – uma doce voz masculina ecoou ao meu lado.

Peguei o copo cheio com uma mão e com a outra já encaixei os dedos no soco inglês no meu bolso. Viro para o lado e me surpreendi ao ver John sentando na banqueta e largando a boina preta em cima do balcão. Esboçava um sorriso encantador enquanto mordiscava um palito de dente.

– Pelo jeito Leicester continua uma cidade muito pequena. – respondi e olhei ao redor onde o clima havia mudado e todos pareciam mais contidos.

Olhei para uma mesa em um canto mais reservado e obscuro e deduzi o motivo de todos estarem mais quietos. Além de John, seus primos Terry e Ferdinand também se faziam presentes junto de um grupo de chineses mal encarados.

– John, vamos! Não podemos esperar pelas tuas paqueras. – gritou Terry chamando por John.

– Acho melhor você ir. – eu lhe disse sorrindo.

John levantou-se pegando a sua boina. Passou pelas minhas costas e disse baixinho no meu ouvido para que eu aguardasse a reunião deles que ele queria falar comigo. Não lhe respondi nada. Apenas tomei em uma só vez o meu whisky e fiquei observando ele se juntar aos demais. Queria ser uma mosquinha para ouvir do que se tratava aquela reunião.

As horas passaram. Tomei mais algumas doses de whisky, fumei alguns cigarros e deletei-me com a apresentação musical de uma jovem moça no tímido palco montado no canto oposto da mesa em que se dava a reunião.

Um chinês, o mais baixinho do grupo, se levantou e Terry fez o mesmo. Ambos estenderam as mãos e se cumprimentaram. Foi só após este cumprimento que os demais se ergueram de suas cadeiras. Neste momento o ambiente já estava bem mais calmo. A moça cantava uma canção triste que falava da guerra e suas perdas enquanto os chineses se retiravam do local. Ferdinand chamou um garçom fazendo algum pedido, que logo foi atendido.

Depois que o garçom entregou o pedido feito por Ferdinand, os três brindaram e beberam seus whisky’s. John me viu olhando para a mesa deles, pegou uma garrafa, se levantou e caminhou na minha direção. Senti um frio percorrer pela minha espinha neste momento. Aquilo me foi alertado. Era uma das regras da Val. Fique longe dos meninos dela! Mas o que iria fazer, se eu era um ímã para este tipo de coisas? Ele chegou e puxou a banqueta para bem perto de mim. Sentou ao meu lado e encheu meu copo que estava vazio e o dele.

– Encontrar você sem estarmos enrolados em toalhas merece um brinde. – disse ele erguendo o seu copo.

Eu ri. Brindemos.

– Sua mãe me mata se souber que estou falando com você!

Tirei um cigarro da minha nécessaire e coloquei na boca. John acendeu para mim.

– Dona Val e suas ameaças. Garanto que se eu pedir com jeitinho ela deixa você viver!

Tomei um gole do meu whisky enquanto observei que Terry e Ferdinand não tiravam os olhos de nós.

– Seus primos não estão muito contentes em te ver aqui comigo. – disse à John.

– Eles têm medo de Val nos ver assim! – respondeu John.

– E não corre o risco dela vir ver se vocês trataram bem dos negócios? – perguntei dando uma tragada no cigarro e ansiosa por uma resposta que me levasse a deduzir o que seriam estes negócios.

John apenas me observou e acendeu um cigarro.

– Os negócios dos Stanley’s são intocáveis, cara Alisson. E, respondendo a tua pergunta, não. Não corremos esse risco. Val confia em nós. – respondeu-me ele.

John era bem seguro de si. Um tanto atrevido, mas seguro nas suas palavras. Me perguntou de onde eu vinha e eu lhe respondi que nasci e morei em Leicester até os meus dez anos de idade.

– Cresceu nestas ruas e fugiu antes da maldita guerra eclodir? – perguntou ele.

– Sim. Fomos para o litoral grego e vivemos dias felizes lá… até uma peste dizimar metade da vila e levar meus pais. – respondi à ele.

John sentiu que fiquei abalada em relembrar disto. Pediu desculpas se mostrando um homem sensível. Falei que não precisava se desculpar. Que este era o meu passado e eu precisava aprender a conviver com ele, porque o pior erro do ser humano é querer negar e esquecer o que ficou para trás. Cresça, amadureça, mas nunca esqueça o que passou. Isso te faz forte à casa dia que passa.

– Mais algo que lhe atormenta? – perguntou John entendendo que eu não né importava em responder.

– 15 anos de idade… – comecei respondendo.

John se ajeitou na banqueta interessado na minha história. Terry e Ferdinand, cambaleando de bêbados, passaram por nós acompanhados de duas prostitutas.

– Vai ficar, John? – perguntou Terry.

– Divirtam-se! – apenas respondeu John.

Eles se retiraram e John voltou sua atenção para mim.

– 15 anos de idade… – disse ele.

Dei mais uma tragada no cigarro e bebi o resto do whisky no meu copo.

– …sofremos um terrível acidente de trem em uma viagem no sul da Itália. Fiquei entre a vida e a morte. Mas parece que alguém lá em cima achou que eu merecia mais uma chance.

John encheu o meu copo novamente.

– Sabe a cicatriz que você já viu? É a marca que carrego deste acidente. – falei para ele.

Dei a última tragada no cigarro e olhei ao redor o local já vazio.

– Posso ver novamente? – perguntou John.

Sua expressão era ilegível, mas aquele olhar podia me convencer a fazer qualquer coisa.

– Não aqui…tem algum lugar mais reservado?

Ele se levantou e me pegou pela mão me levando até uma porta ao lado do balcão. Abriu-a e deu lado para que eu entrasse primeiro.

– À vontade. – disse ele.

Entramos e John fechou a porta atrás de si não desgrudando os olhos de mim por um instante. A luz fraca e amarelada iluminava um pequeno cômodo com uma cama de casal e um roupeiro velho. Mãos ao lado havia uma outra porta. Era tudo simples, mas aconchegante aquele lugar. Virei de costas para John.

– Abre o zíper pra mim?

Ele suspirou e se aproximou. Lentamente foi abrindo o zíper do vestido, que teria caído no chão se eu não o tivesse segurando contra meu corpo. Senti suas mãos frias afastando meu cabelo e passando pelo feixe do sutiã. Relaxei e deixei o vestido cair, me virando para ele. Deixei-o tirar meu sutiã e ele, delicadamente, passeou as mãos pela minha cicatriz me causando involuntários arrepios. Que se dane o que a Val disse, pensei comigo. Ele acariciou meu rosto e me beijou.

Seis Meses Depois

Ao redor de uma mesa no salão do Stanley’s PubHouse, John, Terry e Ferdinand bebiam comemorando enquanto eu e Val estávamos de pé atrás do balcão apenas os observando.

– À John! – Terry disse erguendo o copo para cima.

– À John! – repetiu Ferdinand.

Val sorriu e me encarou. Fez sinal com a cabeça me chamando para seu escritório que ficava em uma salinha nos fundos. A segui, entramos e ela fechou a porta. John sempre dizia para mim: “se Val te chamar para o escritório, o assunto é sério!” Fiquei apreensiva, afinal tinha motivos para ser um assunto sério. John me pediu em casamento no almoço de hoje, na frente de todo mundo e eu aceitei. Val não tinha esboçado nenhum tipo de reação e agora fez este chamado. É claro que eu ficaria aflita.

O escritório era aconchegante e com um toque requintado. Uma mesa retangular com cadeiras estofadas em um tom de azul escuro, prateleiras nas laterais com livros e arquivos e na parede atrás da mesa alguns quadros, pinturas abstratas de artistas famosos.

– Sente-se. – disse Val se dirigindo para o seu lugar.

Sentei e fiquei aguardando ela começar. Ela abriu uma garrafa de run que estava em cima da mesa e serviu dois copos.

– O que você sabe fazer? – ela me perguntou empurrando o copo cheio para minha frente.

– Como assim? – retruquei sem entender direito.

– Ora, agora se casará com meu filho. Eu não posso impedir isso. Você já sabe dos nossos negócios, todas nossas fontes de rendas. Eu quero minha nora trabalhando nos negócios da família. – disse ela para minha surpresa.

– De tudo um pouco. – comecei a responder. – Sei ler e escrever. Fiz curso de primeiros socorros e pintura na Grécia. Também sou boa com números.

– Hum, tudo bem. Vai trabalhar diretamente comigo aqui na pousada. E em outros serviços também quando eu precisar. Está bom para você?

– Está sim. – respondi.

– Vai receber conforme os serviços. Mas isso não será problema, pois agora você será uma Stanley.

Val virou seu copo de run de uma só vez e se levantou. Estendeu a mão na minha direção.

– Negócio fechado. – disse ela.

Levantei e apertamos as mãos. Nisso a porta se abre e John e seus primos adentram o escritório.

– Interrompemos as senhoritas? – falou Terry.

– De maneira alguma, Terry. Já acertamos nossos negócios. – disse Val.

John se aproximou pegando minha cintura e me dando um beijo.

– Tudo certo mesmo? – perguntou-me.

– Sim. Está tudo acertado. – respondi. – Agora vou deixá-los à sós e vou cuidar dos preparativos do nosso casamento.

Saí do escritório e deixei os quatro sozinhos. Sabia que nesta semana estava pra chegar uma frota com uma grande quantidade de armamentos vindo da Irlanda. Um negócio bastante complicado, que estava tirando o sono de John e com certeza fazendo o mesmo com sua mãe e seus primos.

Três Semanas Depois

A pequena e singela catedral de Leicester estava muito melhor do que eu imaginei nos meus sonhos adolescentes. As flores que eu mais gostava enfeitavam os bancos de madeira e a entrada da igreja. O dia estava radiante e os convidados elegantes. Cheguei no carro de John, dirigido por um motorista contratado e na companhia de Terry. Sim, ele fez questão de entrar na igreja comigo, pois eu não tinha mais ninguém. Abriu a porta do veículo e me ajudou a descer. Eu usava um longo vestido branco e um véu da mesma cor cobrindo o meu rosto. Suspirei fundo ao ouvir a minha canção favorita começar a tocar. Terry deu o braço direito para que eu enganchasse e tocou sobre a minha mão trêmula, demonstrando que ele estava ali e eu não devia me preocupar com nada.

Chegamos na porta grande da catedral e tudo que eu via era o meu John lá no altar à minha espera.

– John está nervoso. – cochichou Terry no meu ouvido.

Junto de John estava o negro padre Ismaillah, com seus cabelos rastafari presos. Ele era o homem de confiança dos Stanley’s na igreja. Quando começou tocar a introdução da minha canção favorita eu e Terry demos o primeiro passo entrando na catedral. Foi um momento único e especial para mim. Muitos ali presentes eu nunca havia visto na minha vida, eram amigos e conhecidos dos Stanley’s e muitos ali estavam por uma questão de status, eu sabia. Mas não importava. Na verdade tudo que eu via era o meu John à minha espera.

Chegamos em frente ao altar, Terry segurou meus ombros e sorriu simpático. Ele era um tanto “louco”, mas eu gostava daquela criatura. Cumprimentou John com um aperto de mão e se posicionou na primeira fileira de bancos ao lado do seu irmão Ferdinand e de sua tia Val. Valquiria Stanley que, por sinal, estava elegantérrima em um longo vestido verde musgo e um chapéu com uma flor ao lado. Ela sorriu para mim. Eu sabia que aquela era a benção que eu precisava.

A música cessou e John pôs as mãos em meus ombros. Sorriu e, delicadamente, ergueu meu véu jogando-o para trás da minha cabeça. Me deu um beijo na testa. Nos viramos para Ismaillah e retribuímos o seu sorriso sincero e amigo.

– Meus queridos irmãos e irmãs! Estamos aqui reunidos para o matrimônio deste jovem e belo casal…

Senti uma lágrima escorrer pelo meu rosto. Aquele era o dia mais feliz da minha vida. Agora eu me tornaria a srta. Parker Stanley, e este nome abriria muitas portas para mim.

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POSTADO POR

Marcos Vinicius Silva

Marcos Vinicius Silva

  • Amei o conto, pensei que o fim não seria feliz pelo que a Val falou no início para Alison não se aproximar do seu filho e dos sobrinhos rsrs.

    • Que bom que gostou. Sim, Val não é uma mulher fácil quando se trata dos filhos e dos sobrinhos, mas quando adquire confiança em alguém, se torna uma outra pessoa. Aguarde, antes do final do ano ainda lançarei mãos dois contos referentes à esta história.

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