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Café, Bolo e Pimenta

Décimo dia de primavera. As folhas das árvores que ficam em frente ao prédio da editora onde trabalho como revisor farfalhavam embaladas por uma brisa fresca que marcava o fim de mais um tempo de inverno – algo que, pelo menos para mim, era bem melhor do que aturar esse ar gélido provido pelo sistema de ar condicionado central. Pela janela da minha sala eu podia ver os primeiros movimentos dos cidadãos sem aqueles casacos pesados, gorros ou qualquer outra peça de roupa que visava protegê-los de um frio congelante e mortal que assolava a cidade desde o final de dezembro.

Para ser sincero, não vejo o motivo pelo qual meu chefe me chamou para participar da última reunião antes da publicação de um romance jurídico para o qual eu havia sido escalado. Provavelmente queriam me dar os parabéns por mais um trabalho bem feito, ou talvez me apresentar ao autor para que eu os recebesse pessoalmente (se bem que eu devo parte dos louros ao Colton por ter me aturado por várias noites no Skype para corrigir algum termo ou expressão latina usada no texto). Como muitos dos outros membros da equipe, eu queria estar batendo o meu ponto lá na recepção e sair para aproveitar o calor brando do sol de mais um dia do final de março. Tudo que eu mais pensava era sair daquele escritório gelado, voltar para casa e assistir a um documentário qualquer na televisão. Mas meus planos mudaram quando meu celular, o qual estava apoiado em cima da mesa, começou a vibrar.

Quando desbloqueei a tela do aparelho, eu vi que a Julie, uma escritora que conheci há alguns meses no pub no qual a Nalu trabalhava, havia me deixado uma mensagem. Antes de abri-la, eu imaginei que seria algum pedido urgente para que eu revisasse mais algum capítulo de um de seus vários projetos de contos sobrenaturais. Mas eu não esperava uma mensagem de feliz aniversário, com direito a uma imagem de um bolo todo enfeitado, além de um convite para sairmos após o trabalho para aproveitarmos um fim de tarde juntos, tomando um café (bem típico de uma viciada em cafeína) e jogando conversa fora. Daquela asiática fofa poderia se esperar tudo, menos isso.

Em uma troca rápida de mensagens antes da reunião começar, nós combinamos de nos encontrar uma hora depois na recepção para irmos ao Huffney’s comemorar o meu aniversário. Eu admito que, apesar de ter me tornado um lobo solitário depois daquele incidente, um pouco de companhia do sexo oposto não seria tão ruim assim, principalmente de minhas novas amigas de Mission Hill.

Após quase uma hora de reunião, que foi, em sua maior parte, um clima de rasgação de seda por parte de nossos clientes, eu fui pegar minhas coisas na minha sala e encontrar minha anfitriã. Quando cheguei no térreo para bater o ponto após um longo dia de trabalho, ela estava sentada em uma das poltronas ao lado do balcão de informações, mexendo em seu celular, provavelmente mandando uma mensagem para a Nalu avisando do que havia combinado comigo, ou mandando mais algum stalker chato àquele lugar. Tem vezes que ser uma às de copas não é sinônimo de uma vida fácil, tanto no mundo real quanto no virtual.

Eu estava trajado formalmente (um terno e camisa social pretos, além de uma gravata prata que Nalu havia me dado de presente) por razões óbvias. Mas eu não poderia esperar tanto requinte e perfeição de minha anfitriã. Apesar de ser apenas um encontro entre amigos, ela estava vestida como se fôssemos sair para um jantar de gala ou algo parecido. Julie estava a usar uma camisa branca sem mangas além de uma saia pregueada rosa bebê (a qual ia até um pouco abaixo dos seus joelhos), que combinava com sua bolsa de colo recheada de pins e bottons de temática geek, além de um par de sapatos brancos de salto baixo. Como um toque pessoal para seu pescoço, ela usava uma gargantilha com um pequenino pingente no formato de um chocobo[1]. Na hora que ela levantou sua cabeça, pude perceber que ela usava pouquíssima maquiagem, mas o suficiente para tornar aquele rostinho de japonesa uma tela impecável, como se sua face fosse pintada por algum renascentista do século XV. Em resumo, ela estava muito bonita.

– Julianne! Aqui, Julie – exclamei enquanto entregava o cartão de ponto à Sra. Maverick no balcão. Ela demorou um pouco para perceber minha presença, mas fui recebido com um longo e apertado abraço. – Nossa, você está deslumbrante, anjinho. Eu achava que você viria um pouco mais despojada, igual a sua colega de quarto.

– É certo que essa não é a melhor ocasião para se vestir isso – concordou Julie. – Mas as vezes é bom fazer um agradinho para alguém. – Não sei se vocês têm a mesma impressão que eu… Quando estamos juntos é como se o dia ficasse milhões de vezes melhor. Aquela baixinha tinha o poder de contagiar a todos com sua alegria e vivacidade.

– E o senhor, Birthday Boy, quem diria! Mudou até de penteado e nem me avisou – comentou ela, apontando para o meu corte de cabelo. – Combina mais contigo do que aquele cabelo curto todo arrepiado. Para ser sincera, lembra um pouco aquele pirata do jogo Assassin’s Creed.

– Um pouco de mudança faz bem, apesar desse cabelo longo ser um porre para pentear – comentei. – É como se essa coisa ganhasse vida própria, se é que você me entende…

– Eu entendo sim, Nicky – confirmou Julie, fazendo algum esforço para não rir do meu comentário. – Então, a Huffney’s fica a algumas quadras daqui. Nós podemos ir a pé, bater mais um papo, tomar um solzinho e fazer um pouco de fotossíntese, se é que você me entende.

– Você tem razão. Vamos embora logo? – indaguei, esfregando as mãos numa tentativa de me aquecer. – Porque esse ar de câmara frigorífera vai me deixar gripado a qualquer segundo. A brisa lá fora está bem mais agradável.

E pior que eu tinha razão. Se comparássemos as temperaturas, deveria ter, no mínimo, uns dez graus centígrados de diferença entre a temperatura ambiente e a da “câmara fria” que eu chamava de escritório. Sejamos francos, só o fato de caminhar pela rua e sentir os raios de sol batendo em meu rosto já me dava uma grande sensação de alívio.

– Tem tempo que a gente não se vê, não é, Julianne?

– Eu digo o mesmo, Nicky. O que tem feito da vida?

– Olha, Julie, antigamente, a vida estava bem corrida com a quantidade de coisas que eu tinha que resolver lá no trabalho. Mas agora que o processo daquele romance jurídico acabou, a rotina está bem mais cômoda, tanto que dá até para sair do prédio para comer alguma coisa decente no horário de almoço.

– Eu já não posso dizer a mesma coisa, Nick. Principalmente nesses últimos quinze dias. Eu literalmente não saí de casa porque tinha um novo livro para terminar – retrucou Julie. – Se bobear, eu devo ter ganhado uns quilinhos graças ao fato de ter me entupido só de delivery – ela comentou, apontando para o seu quadril. De fato, ela estava com um pouco de peso extra, mas não tanto quanto ela imaginava.

– E sobre o que é esse seu novo projeto? – indaguei, um tanto curioso.

– Resolvi criar uma aventura solo para um dos meus personagens.

– Só a título de curiosidade, o protagonista não é algum daqueles bonequinhos que estão na estante de seu Home Office, é? – brinquei.

– Mais respeito com a Shay e o Adrien, seu malvado – ralhou ela, dando-me uma cutucada no braço em resposta. – E não, eles são do livro de uma autora que eu amo de paixão.

– Está bom… está bom, já entendi. Não está mais aqui quem falou. – Tentei conter as risadas. – Deixa eu só dar um pulo rápido nessa banca para comprar um jornal – avisei, pegando minha carteira do bolso interno do blazer.

– Alguma notícia importante em mente? – perguntou Julie, demonstrando interesse no assunto o qual me levou a comprar uma edição do dia do Washington Post.

– Só uma medida polêmica do governo que foi destaque na FOX News hoje de manhã. Porém, você sabe que o departamento de jornalismo daquela emissora faz um trabalho porco e tendencioso para caramba. Por isso, eu sempre consulto outras fontes só para ver onde estão os furos.

– Ah, você vai comprar um jornal inteiro só por causa de uma manchete? – comentou minha anfitriã. – Por que você não pega o link direto na Web? É muito mais prático. Além disso, você não fica com um monte de papel inútil espalhado pela casa.

– Acontece que a parte que eu quero verificar só está disponível para assinantes, e pagar dois dólares por um único acesso à matéria é um custo exorbitantemente alto – respondi, colocando o periódico na minha maleta.

Nós chegamos ao Huffney’s depois de uma breve caminhada. Ao entrarmos na cafeteria, não esperava encontrar mais um rosto conhecido: o de Hayley, a noiva de Javier.

– Ora essa, olha só quem está aqui, o meu futuro padrinho! – disse Hayley, surpresa em me ver. – Mal você desgarrou daquela Jazzista e já está de namorico novo, senhor Casanova?

– Ledo engano, Hayley – respondi. Aparentemente, a Nalu não era a única a nos enxergar como algo além de amigos. – Essa aqui é a Julie, uma amiga minha…

– Amiga, nada. – interrompeu Julie. – Melhor amiga… Sua bestie, né, Nicky?

– Entendi. Estão sozinhos ou esperando mais alguém? – indagou Hayley. – Vocês deram sorte de chegarem antes do horário de pico começar. Eu tenho uma mesa para dois sobrando logo ali. Se puderem me acompanhar…

Hayley tinha separado para gente uma mesa próxima da porta. Após nos sentarmos, Julie e eu pedimos um espresso. Prontamente, Hayley ofereceu sugestões de doces para acompanhar a bebida. Aproveitando a gentileza, Julie pediu uma fatia de um bolo de chocolate com cobertura de creme de cereja. Eu, por outro lado, preferi ficar só curtindo a xícara de café e lendo o meu jornal. Uns cinco minutos depois, Hayley retornava com os nossos pedidos, com destaque para a solitária fatia do bolo que Julie havia pedido.

– Ué, não vai comer nada? – perguntou Julie, estranhando o fato de não ter pedido nada para acompanhar o café. – Os doces daqui são ótimos!

– Eu vou ficar só no café – confirmei. – Não quero te dar trabalho só pelo fato de ser meu aniversário.

– Nã-nã-ni-na-ni-na-não! Você vai comer algo sim – retrucou Julie, indignada com minha resposta. – Só porque te chamei para comemorar seu aniversário, não quer dizer que eu vou ficar aqui fazendo papel de trouxa. – Ela roubou o garfo que estava do meu lado da mesa, e o virou em minha direção após separar uma porção generosa de sua fatia. – Diga ‘Ah’… Olha o aviãozinho – brincou ela, fazendo uma voz mais infantil, como se estivesse falando com um bebê de um ano de idade.

– Você virou minha mãe por acaso? – comentei. – Não precisa ficar me dando comida na boca. – Um tanto contra a vontade, resolvi aceitar a prova – mesmo sendo alvo de futuras piadinhas da Hayley e do Javier em relação àquele momento. Está certo. Eu admito: aquele bolo tinha um gosto muito bom. Ao ler o meu rosto, Hayley aproveitou a deixa e trouxe mais uma fatia. Se não pode vencê-las, junte-se a elas, já dizia um certo ditado popular.

– Se me fosse possível, eu só sairia daqui com você rolando de tão gordo – comentou Julie, dando mais uma garfada no bolo. – Você parece um caniço de tão magro. Você é movido a o que? Aquele troço do tinhoso chamado uísque? Seu fígado deve estar sintetizando formol de tão bichado que está. – A minha cara de reprovação mostrou que ela deveria parar com as gracinhas. Só porque eu gosto de apreciar um bom uísque, ele não é motivo para fazer piadinhas a meu respeito. – Gomenasai (Desculpe-me)… Eu falei demais. Não queria te deixar mal.

– Dessa vez eu deixo passar – repreendi, voltando os olhos ao jornal.

– Mudando de assunto, sobre o que é a matéria que você estava interessado?

– Era sobre um aumento nos impostos de importação que o Trump editou essa semana – respondi, colocando o jornal em cima da mesa. – É um tanto complicado explicar isso para você de uma maneira rápida e objetiva. – Entreguei-lhe o jornal, separado na página da tal matéria. – Aqui, dá uma olhada.

Logo após colocar o jornal em suas mãos, eu pude notar que ela forçava um pouco a vista – algo um tanto estranho para mim, porque nunca a vi usando óculos.

– Ah, droga… Eu sabia que tinha algo de muito errado – lamentou ela. – Saí tão afobada de casa que eu me esqueci de pôr minhas lentes de contato. – Ela retirou o estojo das lentes de sua bolsa. – Você pode tomar conta dela enquanto vou colocar minhas lentes? É rapidinho. Não vou demorar. – Ela chamou Hayley para saber onde ficava o sanitário feminino, se dirigindo a ele logo em seguida. Depois de ver aquela cena, perguntei-me como é que ela conseguia enxergar alguma coisa durante nossa caminhada até a cafeteria. Vendo que era uma pergunta que somente ela poderia responder, decidi puxar a bolsa dela para mais perto de mim e voltar a me entreter com a leitura da matéria enquanto a esperava. O que será que o homem laranja aprontou dessa vez?

A leitura estava tão interessante que não percebi que uma outra pessoa estava a se dirigir à mesa onde eu estava. A estranha se sentou no lugar da Julie e debruçou-se sobre a mesa. A vibração dos seus cotovelos sobre o tampo fez com que eu pensasse que minha amiga estivesse de volta depois de uma ida rápida ao banheiro feminino para colocar suas lentes de contato e um possível retoque na maquiagem.

– Caramba, não pensei que você fosse resolver aquilo tão rápido – disse eu enquanto dobrava o jornal e o apoiava sobre a mesa. – Agora me conta como é que você conseguia ver alguma coisa sem suas… – Somente quando levantei minha cabeça para ver quem estava a minha frente, eu pude perceber que era uma pessoa completamente diferente de quem eu esperava. A estranha era uma mulher de longos cabelos loiros com uma mecha trançada pintada de roxo e usava uma jaqueta de couro preta com várias rosas vermelhas bordadas. Voltando a atenção para o seu rosto, os destaques eram seus olhos – de um azulado profundo – por trás de seus óculos Ray-Ban Aviator, seus lábios – coloridos por um batom vermelho-sangue -, além da sua pele bronzeada.

O seu olhar era a marca registrada das moças espanholas: penetrante, sedutor, selvagem e com o mesmo poder inebriante de um Bourbon bem envelhecido. Movendo meu tronco para um pouco fora da mesa, e aumentando ainda mais minha desconfiança, eu pude notar que ela usava um Jeans bem escuro e colado às suas pernas torneadas, como se tal peça de roupa fosse um mero aditivo para enaltecer suas curvas. Tinha algo de muito errado naquela cena. Por qual motivo, razão ou circunstância, aquela garota, que devia estar na flor dos seus vinte anos, estaria naquele lugar?

– Eu sabia que você era bonito de longe – disse ela. O seu rosto estava tão colado ao meu que eu podia sentir cada baforada de ar que saía de sua boca. Ela abaixou os seus óculos para poder me observar melhor. – Mas assim de pertinho, cara a cara, você é um bilhete de primeiríssima classe para o pecado.

– É… com licença, senhorita… Posso saber o motivo de você estar falando comigo? – perguntei meio sem jeito, numa tentativa de me desvencilhar daquela mulher. – Não vês que esse lugar está ocupado?

– O que foi, gatinho? Está com medinho? – indagou ela, estranhando minha postura totalmente defensiva. O tom aveludado de sua voz era muito sedutor, capaz de hipnotizar qualquer marmanjo em questão de segundos. Em outras palavras, aquela mulher era uma versão da Thelxiepia[2] no mundo real. Se fosse qualquer outro homem, já teria caído de primeira na cilada de uma mulher daquele tipo. – Pode vir, eu não mordo. – Ela piscou para mim, querendo mostrar que eu poderia confiar nela. – Eu posso te fazer muito mais feliz que sua atual namorada.

Eu não sabia se o que eu enxergava era um sonho ruim ou apenas uma alucinação. A única certeza que eu tinha era que nenhuma mulher (pelo menos as que eu conheço) agiria com um homem daquela maneira. Ela parecia louca, uma doida varrida para ser mais preciso. O que será que ela procurava? Um ficante, ou alguma alma inocente para descarregar seu desejo por sexo? Se fosse a segunda opção, eu seria feito de gato e sapato por aquela jovem. Tudo que eu menos queria hoje seria ter que lidar com uma mulher com um caso terminal de paixonite crônica.

– Escute aqui, kiddo… – Mal iniciei a frase e a desconhecida colocou o seu dedo indicador sobre meus lábios.

– Meu nome é Mileena – interrompeu ela, usando aquele tom hipnótico e aproximando ainda mais o seu rosto do meu. – Mas você pode me chamar de ‘mi linda’, meu bad boy. – Ela me roubou um beijo. – Se quiser mais um pouquinho de mim, eu sou toda sua. – Ela começou a abrir o zíper de sua jaqueta em um ritmo bem lento, revelando um pouco do decote em vê de sua camiseta vermelha, a qual realçava o seu busto, mais precisamente os seus seios fartos, aparentemente aperfeiçoados com uma prótese de silicone.

A temperatura do meu sangue começou a subir. Será que eu estava a cair no joguinho devasso daquela mulher? Eu precisava me concentrar para manter a calma e achar uma maneira de dispensá-la antes que a Julie voltasse. Sob as atuais circunstâncias, precisaria ter tanta frieza quanto Garry Kasparov e Bobby Fischer juntos.

– Bem… Olha, kiddo, digo, Mileena… – Iniciei a frase usando um tom mais grave e sério. – Eu estou aqui para uma reunião de negócios com uma escritora, e estávamos a acertar os últimos detalhes de um contrato de edição e publicação. Será que a senhorita poderia fazer o favor de se levantar e se retirar? – Prendi a respiração, rogando a todas as divindades existentes no universo para que alguma centelha de juízo acendesse na cabeça daquela desvairada.

– A quem pensa que está a enganar, meu pudinzinho? – perguntou ela, rindo baixinho da minha tentativa falha de convencê-la a não arrumar encrencas. – Tudo que eu vejo é meu crush lendo um jornal e cuidando da bolsa de uma pirralha geek. – Ela abriu mais um pouco da sua jaqueta, expondo, desta vez, um pouco mais do seu corpo digno de uma femme fatale. – Mon Amour, se eu fosse você, abandonava essa maluca e curtia mais um pouquinho de mim. – Engoli em seco, tentando manter a concentração para resolver esse caso kafkiano, enquanto ela coçava meu queixo.

“Maluca, a Julie? Quem está precisando de uma consulta urgente com um psiquiatra é você!”

Ela continuava a me seduzir, movendo seus dedos pelo meu cabelo, lambendo os seus lábios e, quando eu menos esperava, ela pegou a cereja da fatia de bolo da Julie e começou a mordiscá-la de uma maneira muito sensual. “Mas o que diabos eu faço? Essa mulher é pirada!”

Tentei me levantar para uma retirada estratégica, mas quando ia me afastar da mesa, ela segurou meu braço firmemente, forçando-me a sentar novamente. Mal apoiei as costas no encosto e senti alguma coisa roçar a minha perna direita – aquele famoso joguinho corporal de namorados, só que em um nível bem mais pervertido. Na hora em que pensei em olhar para baixo para ver o que estava acontecendo, ela pegou um pouco da cobertura da fatia de bolo da Julianne e a passou com seu dedo, marcando um xis, em um pedaço do meu pescoço. Seria essa uma nova maneira de ativar alguma zona erógena masculina? Eu não queria saber. Tudo que eu queria era acordar desse pesadelo… E rápido!

– Deixe-me tirar uma casquinha sua, neném… Deixa, vai… – Ela me puxou para mais perto dela, usando a minha gravata como uma coleira, para lamber a cobertura no local marcado. Meu cérebro quase entrou em curto-circuito no momento em que ela passava sua língua próximo do meu rosto. Ela poderia ter parado por ali, mas em um jogo de corpo mais rápido do que meus sentidos conseguiam detectar, ela subiu para meu rosto e roubou-me um beijo de língua.

Meu cérebro estava prestes a ceder e meu sangue estava quase em ponto de ebulição. Como um último esforço para me desvencilhar daquela doida, eu a empurrei com as duas mãos usando toda força que eu tinha. Por uma fração de segundo, eu achei que estava salvo e que Mileena finalmente entenderia que eu não queria nada com ela. Só não imaginava que aquilo atiçaria ainda mais o fogo que estava em seu coração, tanto que, alguns segundos depois, com o dobro ou talvez o triplo de excitação, ela me envolveu em seus braços, juntando ainda mais nossos corpos, e sussurrou as seguintes palavras antes de me dar uma nova dose de seu veneno mortal:

– Eu quero mais, honey… Muito mais… – E roubou-me mais um beijo – desta vez de maneira mais feroz, violenta, e passional.

No exato instante que nossos lábios se encostaram, eu entrei em parafuso. Meu cérebro havia se tornado o palco de uma batalha de emoções tão destrutiva e avassaladora quanto a energia do presto do Verão de Vivaldi. Minha metade carnal dizia para deixá-la me dominar e sucumbir ao desejo fugaz daquela criatura demoníaca. Minha mente, por outro lado, usando tudo que restava em um último lampejo de sanidade, me dizia para resistir e tentar me afastar daquilo que muitos julgam ser a raiz de todo o mal existente no mundo. Eu podia sentir minha racionalidade e lógica se esvaírem aos poucos. Será que aquele era meu fim? Acabar como um joguete de uma mulher sedenta de amor? O vírus que corrompera meu ser há dois anos voltou a me atormentar, mais forte e arrebatador do que nunca.

Minha racionalidade estava a um passo de ser desligada completamente quando Julie saía do banheiro da cafeteria cantarolando a canção do seu bichinho favorito de seus jogos de RPG.

– Oi, Nicky! Tô de volta – disse ela antes de ver Mileena me beijando em público – algo que a deixou com muito nojo. – Você pode até tentar, mas você não é a ex dele… – Quando ia terminar a frase sobre a minha experiência de vida com a Hannah, ela notou que tinha alguma coisa faltando do seu bolo, o que fez com que sua personalidade mudasse ao simples toque de um botão. Só a visão do seu doce esfacelado por aquela loira depravada foi o suficiente para que toda aquela alegria fosse substituída por uma alma raivosa, sanguinolenta, sedenta por vingança. “Essa mulher… Essa lambisgóia… Essa meretriz… Essa vaca… ESSA VADIA COMEU O MEU BOLO!!” Aquela mulher vai pagar, nem que seja com o seu próprio sangue, e alguns ossos quebrados como juros e correção monetária.

Sorrateiramente, como um lobo atrás de sua próxima refeição, a escritora se aproximou da mesa, empunhou um dos garfos que estava sobre ela, e se posicionou atrás de Mileena, a qual estava ocupada demais para prestar atenção no que acontecia ao seu redor. Com sua mão esquerda, ela agarrou o ombro esquerdo de minha algoz, com o seu próximo movimento sendo uma pancada cirurgicamente precisa na traqueia usando o cabo do garfo, o que interrompeu a respiração dela. Aquilo foi o suficiente para soltar-me do abraço daquela pessoa viperina. Ainda segurando firmemente o corpo da loira, Julie acertou um soco no plexo solar, fazendo com que sua adversária caísse dura no chão.

Após alguns segundos, a estranha acordou, e a primeira coisa que ela viu após recobrar a consciência foi o rosto de minha amiga, cujos olhos exibiam uma aura raivosa e intimidadora, como a de um assassino na frente de sua vítima, fazendo o sangue de Mileena gelar de tanto medo. Em uma tentativa desesperada, a loira corre em direção a Julie para desferir um soco em seu rosto, mas leva um soco na mandíbula, levando-a novamente ao solo.

Com uma boa quantidade de sangue escorrendo de sua boca e acuada de tanto medo, Mileena, cuja pele passou do bronzeado para um rosado bem pálido, rastejou em direção à parede da cafeteria implorando aos frequentadores que a ajudassem a manter Julie longe dela. O pavor e a adrenalina que corriam em seu corpo fizeram com que sua voz aveludada e sedutora virasse uma estridente e desafinada. Vendo que ninguém atendeu ao seu chamado, ela começou a chorar copiosamente, tentando despertar um pouco de compaixão na Julianne.

– Não… Não… Não… Por favor, não me machuque!! – suplicou Mileena, enquanto se encolhia contra a parede da cafeteria. – Não me mate… Não me mate, por favor… Por tudo que é mais sagrado…

A única resposta de Julianne foi uma risada tímida seguida das seguintes palavras:

– Você chama isso de implorar? – Ela andou lentamente em direção à sua vítima, a levantou, segurando pela gola da jaqueta, e ergueu seu punho direito.

– Você pode fazer algo bem melhor que isso. – disse Julie com um sorriso cínico no rosto – o que fez a loira empalidecer ainda mais e gritar de pavor. Mas antes que desferisse o golpe final, Hayley interveio apartando as duas, deixando que Mileena escapasse chorando e gritando desesperadamente. – Essa mulher é louca!

Julie somente saiu do estado hipnótico causado pelo frenesi depois de sentir alguma coisa escorrer pela sua mão direita. Apenas com uma rápida olhada, percebeu que, além de uns poucos hematomas, seu punho estava sujo com o sangue de Mileena – o que, instantaneamente, causou um misto de pavor e asco.

– Eeeeew! Eca! Que nojo! Sangue daquela biscate – gritou Julie, sacudindo vigorosamente a mão para tirar o máximo de sangue dela. – Alguém tira essa coisa de mim! – Sem hesitação, ela correu de volta para o banheiro para tentar lavar o sangue.

– Ufa! Ainda bem que essa porcaria acabou – suspirei, arqueando a cabeça em direção ao teto. – Quem diria que eu teria que passar por um aperto desses! Só faltava aquela mulher começar a tirar a roupa e fazer aquilo comigo…

– Pelo menos a sua amiga japonesa te salvou a pele – comentou Hayley, entregando-me um guardanapo de papel para que eu limpasse as manchas de batom do meu rosto e pescoço. – Eu acho que você deveria agradecê-la. – Pior que ela estava certa. Julie salvou minha vida das garras de uma garota maluca. Com certeza, eu devo uma a ela.

– Ai meus arcanjos Miguel, Gabriel e Rafael – exclamou Julie, esfregando fortemente a toalha de papel na mão que estava suja de sangue enquanto voltava para a mesa para pegar um vidro de álcool em gel que estava dentro de sua bolsa. – Se eu encontrar essa maluca na rua, eu juro que mando ela para o inferno.

– Esqueça-a, anjinho. Deixa aquela mulher para lá. – Chamei a atenção dela. – Depois daquela surra que você deu, pode ter certeza que ela estará bem distante daqui… Falando nisso, como é que você sabia todos aqueles golpes? Você parecia o Rocky enfrentando o Ivan Drago no quarto filme da saga.

– Eu fiz aulas de Krav Maga para me defender dos stalkers tarados, além, é claro, de pessoas que contaminam meu bolo – respondeu Julie, com um sorriso discreto no rosto.

– E antes que eu me esqueça, muito obrigado por me defender, Julie. – disse eu segurando sua mão direita. – Eu te devo uma.

– Deixe-me esclarecer uma coisinha – Ela apoiou os cotovelos na mesa. – Aquilo não teve nada a ver com você. – ela discordou, apontando para a destruída fatia do bolo de chocolate a sua frente. – Aquela vagaranha destruiu o meu bolo. Nem vou comer isso. Vai que está contaminado por aquela… por aquela… coisa… – Julie colocou uma das mãos sobre a boca. – Me dá vontade de vomitar só de pensar. – Ela pediu a Hayley para trazer outra fatia livre do que ela apelidou de ‘germes de paixonite’. – Aproveitando a história da dívida, eu posso pedir qualquer coisa?

– Pode falar, Julie. Sou todo ouvidos. – Bem que eu queria que não tivesse dito isso. O olhar da minha anfitriã já me adiantou que eu poderia esperar pelos desejos mais sórdidos daquela asiática…

– Bolo por sua conta pelos próximos seis meses? – indagou ela, fazendo a cara chorosa do gato do Shrek. Eu bem que mereci. Quem mandou eu abrir essa minha boca grande… Agora, além daquela experiência indesejável, ganharei um belo de um rombo na minha conta bancária. Eu realmente só me ferro de verde e amarelo nessa vida.

– E outra… Já que você é o aniversariante, você poderia pagar um frappuccino para ela. – adicionou Hayley, querendo, propositalmente, atiçar ainda mais as coisas.

– Hayley! Você enlouqueceu!? – ralhei, irritado por ela estar do lado da Julianne, ao invés de colocar um pouco de bom senso em sua cabeça.

– Nanchatte (É brincadeira), bobinho! – As duas caíram na gargalhada. – Você deveria ter visto a sua cara. Seu coração estava prestes a sair pela boca, não estava?

– É certo que você deve a Julie por ter te salvado daquela mulher de má vida – lembrou Hayley. Ela passou a fitar Julie, imaginando como a escritora reagiria. – Mas você não seria tão baixa a ponto de pedir uma fatia de bolo todos os dias como compensação por ter salvado a pele dele, seria?

– Dependendo da pessoa, eu seria – respondeu Julie. – Mas, pensando bem, eu não faria tal sacanagem com ele, se não eu estaria a me rebaixar ao mesmo nível daquela piranha fútil, pirada e desalmada. – Ela voltara a olhar para mim e afagou minha cabeça, bagunçando o meu cabelo no processo. – Olha, Nicky, só a próxima fatia já me é o suficiente. Agora, esqueça o que aconteceu e vamos nos divertir um pouco. Joyeux Anniv’ (Feliz aniversário), meu revisor favorito.

– Merci (Obrigado), Julie – agradeci, retribuindo o carinho.

Uma lição que eu pude tirar daquele dia é que tem vezes que as emoções estão ali para te atrapalhar, mas, em outras horas, as mesmas estão lá para dar uma graça a mais na vida. Afinal, o que seria de nós se encarássemos a mesma fria e enfadonha rotina todo santo dia?

Acho que aprendi que ser um lobo solitário não significa ser um ermitão com um coração de pedra, como Neil Peart foi após perder a esposa e a filha, é sobre usar suas forças no momento certo para alcançar algo mais proveitoso a longo prazo. Imagino o quão triste e ‘chuvoso’ o meu dia seria se ela, essa nipo-americana, não tivesse me chamado para sair do meu mundo gris, respirar novos ares e levantar meu astral. Obrigado, minha pequena, por ter colocado um pouco de sua luz nesse coração de lobo e colocado minha vida nos eixos de novo.

[1]  Chocobo é uma ave fictícia da série de video game Final Fantasy . Aparece em outros jogos da Squaresoft (Atual SquareEnix), como “Legend of Mana”.

 

[2] Thelxiepia (Cantora que Enfeitiça): Em “A Odisséia”, Telxiepia ou Telxiope (do grego Θελξιέπεια, transl., Telxiepeia: “que encanta pelas palavras ou pelo canto”, e Θελξιόπη: “de aparência encantadora” ), era uma das três sereias, que viviam na ilha Anthemoessa.

 

 

POSTADO POR

Guido Scagliusi

Guido Scagliusi

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