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Caminhando pelo Vale das Sombras

O despertador a cima da mesinha de cabeceira pisca silencioso me informando que já é hora de levantar da cama para mais um dia de trabalho, revirando os olhos, suspiro em busca de forças para uma ação tao simples e corriqueira como aquela, mas que para mim torna-se uma tortura sem fim.
Levantar-se da cama

“É hora de levantar!” dou a ordem mental ao meu corpo, mas ele teima em não obedecer, rolando para o lado oposto aquela luzinha irritante, abraçando o travesseiro tentando desesperadamente esquecer de tudo e voltar dormir, fechar os olhos não é o suficiente. Minha mente trabalha a cada segundo bombardeando meu subconsciente com todas as coisas que eu preciso fazer a partir daquele momento em diante, me dizendo a cada instante que eu preciso começar bem meu dia.
Como posso fazer isso se a noite anterior ainda não terminou, pelos meus cálculos dormi menos de três horas, noite passada, o cansaço agora toma conta de mim. Os sons noturnos são irritantes, e mesmo no silêncio do meu quarto, dormir se torna impossível devido ao turbilhão de emoções que tomam conta de mim a todo momento. Dou uma rápida checada no celular, as redes sociais piscam a todo momento informando que novas coisas estão acontecendo naquele momento em outro lugar, coisas interessantes para uns e outros, para mim, é apenas mais do mesmo.

Amigos se divertindo noitada a fora, conversando, rindo, brincando, “curtindo a vida adoidado”. Um convite recusado, pelo simples fato de ter de sair de casa, encontrar pessoas que eu não quero. Mas, porque eu não quero?

Ninguém nunca me fez esta pergunta, eles apenas me enchem de palavras motivacionais, como se dependesse de só de mim dar a volta por cima. Eles não conseguem ver que sozinho eu não consigo. “Você precisa sair; se divertir, ficar em casa não vai resolver o seu problema!” Ouvir essas coisas me irritam.

Qual é mesmo o meu problema?

Frescura? Falta de Deus? Talvez eu esteja querendo apenas chamar a atenção das pessoas a minha volta? Sinceramente eu não sei dizer, só sei que há um vazio em meu peito que cresce a cada segundo que se passa, dias e noites demoram incontáveis horas para acabar.

Ha um peso em meus ombros que me impedem de fazer qualquer coisa, eu me sinto cansado. A vida tornou-se um tormento sem fim, pessoas se metendo a todo instante me dizendo o que fazer, como fazer e quando fazer.
“Você pode… você é capaz… você consegue” — Forço um sorriso enquanto ouço encorajamentos vazios de pessoas que não sabem o que estou passando. Por que eu não me sinto assim?
Sinto apenas a dor em meu peito, ela me consome cada vez mais rápido, enquanto mascaro essa dor com um sorriso em meus lábios. As pessoas que se dizem próximas não notam meu desespero, estou sozinho.

Quero que essa dor vá embora! mas ela teima em ficar. Vivo em uma montanha-russa, em picos de felicidade e agonia que teimam em se repetir ao longo dos dias, pensamentos invadem meu cérebro, aumentando ainda mais meu desespero.
Eu não posso mais ficar aqui, preciso levantar para trabalhar.
Tomo coragem para abrir os olhos, e apenas este ato torna-se para mim algo angustiante, a pouca luz revela os resquícios de várias noites mal dormidas, roupas espalhadas pelo quarto, objetos jogados por todos os lados, estou tomado pelo acumulo de coisas que deixei para depois, mas o depois nunca chega. Estou sem forças.

Meus músculos não se movem, as ordens dadas pelo meu cérebro são ignoradas pelo meu corpo, em um esforço descomunal me envolvo novamente nas cobertas, como em um casulo protetor. Uma onda de desespero toma conta de todo o meu corpo, um aperto no peito me diz que eu não sou forte o suficiente para seguir adiante, tento segurar, mas não sou capaz, lagrimas rolam pelo meu rosto, minha mente está repleta de pensamentos que se repetem todos os dias. Isso me dói tanto!
Eu só quero que pare, mas a dor não para, os pensamentos não param, a vontade de ficar na cama não para, deixo o desespero tomar conta de mim, toda a alegria, todas as coisas boas em minha vida se foram, resta apenas a dor e o sofrimento. Todos a minha volta se foram. Estou sozinho mesmo rodeado de pessoas, eles não me entendem.

“Você precisa se levantar!” repito para mim mesmo num suspiro. Os quinze minutos passados me denunciam “você está atrasado,” uma onda de desespero percorre meu corpo, tento me levantar, mas me faltam forças para isso. Meu corpo pede para que eu fique ali, parado, quase imóvel, quetinho protegido entre as cobertas. Lagrimas teimam em rolar pelo meu rosto mais uma vez, meu coração acelera, eu não consigo respirar, um peso angustiante toma conta do meu peito.

“Tudo seria tão mais fácil se…” — Um pensamento recorrente vem a minha mente mais uma vez, com mais convicção e força que a anterior. Cada vez mais atraente. “… se eu não existisse.”

Mais uma vez a morte me parece tão convidativa. Depois da minha partida ninguém mais se lembraria de mim, ninguém mais me cobraria nada, eu não precisaria fingir que estou bem, quando não estou. Toda a dor iria embora em questão de segundos e todos seguiriam suas vidas felizes para sempre. Mais uma vez afasto o pensamento recorrente da minha mente, “essa não é a hora!”

Eu preciso me levantar.

Caminho ate o banheiro, ligo o chuveiro e vejo a água cair. Tiro minhas roupas sem pressa, entro no box e me deixando ser tocado pela água fria. Perco incontáveis minutos deixando a água levar os sentimentos ruins, sentimentos que consomem minha alma, a dor se torna cada vez mais forte e sou tomado pelo sentimento de impotência novamente e mais uma vez deixo as lagrimas rolarem tomado pela energia negativa dentro de mim.
Sou tocado pelo vazio, ha um buraco cada vez mais profundo em meu peito, que parece ser incapaz de cicatrizar. Chorar não adianta, eu sei. Não encontro forças para isso. Sei que preciso tentar dar a volta por cima, como todos dizem.

Eu preciso lutar, mas será que vale mesmo a pena?
O mundo é cruel demais, a sociedade cobra coisas demais: PENSE, PARE, COMPRE, BEBA, LEIA, ESTUDE, TRABALHE, seja o melhor, vocÊ tem de ganhar a qualquer custo ou não sera aceito. Se mate fazendo isso, para que EU desfruite do que você conquistou.

O que eu conquistei? Para quem eu conquistei?
Minha vida não tem nenhum sentido, eu sou apenas mais um entre as muitas maquinas descartaveis de uma sociedade medíocre, apenas um produto do meio em que vivo.

Uma onda de desespero me atinge em cheio a boca do estomago, o desconforto de animais rastejando em meu interior me fazem acordar do pesadelo.

“Um segundo. é tudo o que eu preciso”

Será rápido! – A voz em minha mente me encoraja a seguir em frente

Temo não ser forte o suficiente para isso.
– A dor vai embora! – ela rebate tentando me convencer a continuar. – Só assim você sera livre.

FAÇA! – Dou a ordem mental ao meu corpo, repetidas vezes ate que ele me obedeça.

Em um estado de semi consciência me entrego a essa vontade e deixo meu corpo ser guiado pelo desejo incontrolável: ACABE LOGO COM ISSO!

Saio do banho, continuo andando ate a cozinha sem me preocupar em molhar toda a casa no trajeto, abro a gaveta onde são guardadas as facas de corte mais afiado, escolho a maior delas, brinco com ela por um tempo, passando de uma mão para a outra, passando a navalha afiada entre os braços, levo-a ate o pescoço.
Tudo seria tão diferente.

Um simples gesto e tudo acabaria ali, talvez alguém me encontrasse, talvez nem dessem pela minha falta e so descobrissem meses depois que meu corpo estivesse decomposto e mal cheiroso. Por vezes a morte te parece tao convidativa…
Sim! Morrer é tudo que me resta.

Entrego me a este desejo obscuro, uma figura encapuzada vem ao meu encontro. Ela me abraça, tocando em meu rosto como uma velha amiga, enquanto guia minhas mãos ao golpe final.

Fecho os olhos e deixo que ela me guie.

– Um simples beijo e tudo estará acabado. Em um segundo você se encontrará “Caminhando pelo vale das sombras.

POSTADO POR

Apollo Souza

Apollo Souza

Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudônimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal— RN. Formou— se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú no ano de 2012 na cidade de Santo Antônio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias histórias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância. Decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.

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