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Carpe Diem

 

CARPE DIEM

Vai, porra. Você faz melhor que isso! – Disse eufórica, quase sem ar. Uma boa transa vale a pena nos dias mais frios, fui acalentada por um estranho e gostei. Foi legal! Uma experiência deliciosa, confesso. Mas o que aconteceu depois? Ah ele me deixou…Um traste, podes deduzir mas não…eu que permiti, estava cansado dele. E o amor? Que se dane! Ele foi meu companheiro por um tempinho aí desde os tempos da rodovia mas se foi em boa hora. Ainda sinto o perfume dele na estante…Na verdade, o frasco ainda está aqui em casa exatamente na estante do meu quarto. Posso parecer confusa mas é a pura verdade. Eu o amei. Amei mais do que minha tia avó e olha que ela descolava uns cigarros pra mim na adolescência, pena que morreu de cirrose, maldita pinga! Aconselhei ela à não frequentar o boteco da esquina mas fazer o que, né? Era a única distração dela! Marcelo Oliveira. Sonhei com ele uns dias depois…Ele estava correndo numa esteira, suado, a cara dele mesmo. Suar e correr…O mais estranho é que logo após a degustação, chorei bastante…senti falta dele! Me senti muito mal…rezei até. A alma dele estava bem resguardada, espero eu. Congelei a carne por uns meses no refrigerador e fui sobrevivendo com o que tinha mas quando acabou, eu precisei, doutora, eu precisei ir atrás de carne nova. Não por maldade, não é isso, é necessidade, sabe, tipo, defecar… é uma necessidade incontrolável! Perdi os sentidos e voltei para a estrada, fiz programa com uns caminhoneiros e depois os levei para o matadouro. Matadouro, no caso, minha cama. Meu aconchego! Fiz amor e depois das preliminares, consumei a relação. Esse durou bem mais que o último, era robusto, a barriga só o álcool. O fígado nem prestava mas degustei bem. Tá vendo? Antes de exterminá-los, eu dou amor, doutora. Amor e prazer! Tenho humanidade também poxa. Os repórteres dizem que sou psicopata, psicopata não tem sentimento, porra, eu tenho. Sou mais inteligente que esses cara da mídia. Só eu sei o que sofri e o tanto que sinto pelo que fiz mas não me arrependo tanto. Esse é o meu maior pecado! Não me arrependo tanto. Ás vezes vem um pouquinho de arrependimento mas descarto logo. Já fiz mesmo! O passado ficou pra trás, o importante é o futuro, né, doutora? Mas, sabe de uma coisa? Eu me apaixonei pelo Ricardo Reis. É sério! Esse eu matei por loucura, só pode. Lindo, dono de fazenda, dorsos rosados…um charme aqueles dorsos. Eu sinto tanto por ele. Que Deus o tenha! Mas, perdi…Reconheço que perdi. A justiça foi eficiente, eficiente mesmo. Posso parecer sarcástica mas é pura ironia. Não sou! Detesto! A verdade é que perdi exatamente no momento em que estou numa fase de restauração, estava descolando até um casamento, um pedreiro me pediu em casamento à uns dias aí, só não tinha aceitado ainda pra não parecer fácil demais. Sim, oras. Não é por que fui garota de programa que sou fácil. Sou muito da difícil. Mais difícil que essas menininha que andam nesses baile funk. Eu devo ser condenada à prisão perpétua, acho que nem a doutora vai poder me ajudar nessa, então, meu último pedido é terminar de arrancar o dedão. É sério, doutora. Não me machuquei à toa. Olha o que eles fizeram comigo, me privaram da única coisa que me satisfaz, isso sim é caso de Direitos Humanos. Como pode? Devorar os outros até entendo a negativa mas é o meu próprio corpo, porra. Quem manda no meu corpo, sou eu. Mania do governo de controlar a vida dos outros, eu sempre soube que esse negócio de Partido de trabalhadores ia dar ruim. Já leu história? Já viu? O comunismo é uma ditadura. Nos oprimem! Me sinto oprimida! Tem um cigarro aí, doutora?

       

       DEPOIMENTO DE CAROLINA PEREIRA, 39 ANOS, RESISTRADO NA DELEGACIA DE HOMICIDIOS DO RIO DE JANEIRO, 28/01/2008.

POSTADO POR

Samuel Brito

Samuel Brito

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