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Círculo de Vidas: Almas Gêmeas – Capítulo 3

Neto chega próximo à entrada do rancho. Tudo abandonado. Empurra a porta de sapé, fechada. Fica alívio ao ver o avô, debruçado na ponta da mesa. Caio levanta a cabeça, quando Neto lhe fala: — Vô, estou de volta.

O velho o abraça com ternura. — Eu já sabia que voltava, meu neto. Mas a sua batalha vai continuar aqui. — Neto balança a cabeça, sem entender. Caio pega de cima da mesa um diário e lhe estende. — Pediram para te entregar isso — Enquanto Neto folheia, o avô explica: — O homem que trouxe disse ser a última coisa que pertenceu a ela, e que agora pertence a você. Também me falou do acidente; que talvez Glorinha não sentiu dor. Aconteceu no dia em que ela soube que a guerra chegava ao fim e que você estava voltando para casa. Glorinha morreu faz alguns dias.

Neto, indignado — Mentira! O senhor está inventando isso porque sempre odiou o pai dela. Nunca me aceitou ver perto dele e de…

Caio — Não estou mentindo. É a pura verdade. Juro por Deus que eu também queria que não fosse verdade.

Neto — Diga que Glorinha conheceu outro, que está feliz, casada, e não se lembra mais de mim. Foi isso que aconteceu, não foi? Pode me dizer, eu vou entender.

Caio — Sim. Ela se casou com outro, um ano depois que você foi embora. O esposo dela quem esteve aqui e me contou tudo o que aconteceu. Eu também não acreditei. Fui lá. Os escravos confirmaram. O homem com quem ela se casou disse que tudo fez para que ela esquecesse você, mas não conseguiu. Por amor a ela, ele a deixaria livre para ser feliz com quem ela escolheu, mas Deus preferiu levá-la para junto dele. Deus sabe o que faz.

Neto, revoltado, segura o pulso do avô: — Como o senhor pode dizer que Deus sabe o que faz? Se eu encontrasse Glorinha com outro tudo seria mais fácil, e ela já estava casada, então por que Deus a levou? Eu poderia entender o motivo do senhor nunca querer me ver perto dela, mas Deus? Por que Ele a levaria sem deixar uma explicação? Diga? Porque Deus seria contra isso também?

Caio — Não posso dizer. Fiz um juramento, no túmulo da sua mãe, e não vou quebrar.

Neto — O que minha mãe tem a ver com isso?

Caio pega o diário e estende a ele: — Vá fazer essa pergunta ao coronel. Ele é o único que pode dizer a verdade. Aquele maldito não devia ter trazido a filha de volta. Quando pedi a ele que levasse a menina embora daqui, foi porque eu não queria ver vocês dois sofrendo por culpa dele. O coronel é o único responsável por tudo de errado que aconteceu também com a sua mãe. E dele que você deve cobrar a verdade, e não de mim.

Neto pega o diário e sai apressado. Quando chega no casarão bate, várias vezes à porta da frente. Como ninguém atende, dá a volta pelo jardim e invade a cozinha. Francisca, uma jovem escrava, atenta às panelas, preparando a refeição, se assusta com a presença dele.

Neto — Onde ele está? Preciso falar com o pai de Glorinha.

Francisca faz sinal com a cabeça em direção à sala: — Me acompanhe. O coronel está bem ali.

Na sala, sentado ao chão, bêbado, José Carlos tem ao lado uma garrafa de cachaça.

Neto — Meu avô disse que o senhor é o único que pode dizer o motivo da morte de Glorinha.

O homem chora, e a voz quase não sai: — Perdoe-me. Meu filho!

Neto franze o cenho: — Por que disse “meu filho”?

Carlos — Você é meu filho e de Helena. Glorinha era sua meia-irmã.

Neto sente desespero, tanto que se deixa cair de joelhos ao chão: — Minha irmã? Glorinha era minha irmã? Por que não me contou isso antes? O senhor teve chances.

Carlos — Eu não queria que vocês dois sofressem por minha causa.

Neto pega-o pelo colarinho. — E o senhor acha que não estou sofrendo agora, sabendo que ela morreu esperando por mim?

Carlos — Eu sei o quanto errei. Perdoe-me, filho.

Neto — Perdão? Como pode me pedir perdão e me chamar de filho? Eu nunca fui seu filho. Tanto que desejou a minha morte, e quase morri para cumprir o seu desejo. Posso também me lembrar das palavras de Glorinha: “Se Neto não voltar vivo, eu jamais vou perdoar o senhor, está me ouvindo, papai?” Pois essas também são as minhas palavras. Jamais vou te perdoar pela morte dela.

Carlos, com profunda angústia — Perdoe-me. Preciso do seu perdão. Meu erro maior foi amar sua mãe como amei. Helena foi a única mulher que amei de verdade. Por amor a ela eu errei, menti. Por amá-la tanto, cometi loucuras.

— Por ter amado minha mãe, acha que merece meu perdão? E os meus sentimentos, como ficam? Porque eu também amo. E, o senhor pode ter amado uma única mulher, eu amei duas, e o amor de uma só me bastava, porque eu voltaria para ela. Quanto à outra eu também a amaria como minha verdadeira irmã. E, assim, estaríamos unidos para sempre. Ela, vivendo com outro; e eu, ao lado da mulher que amo. Em vez de desejar a minha morte, por que não falou a verdade? Eu não teria voltado para ela. E Glorinha não me esperaria, como esperou.

Carlos — Deus me puniu pelo que fiz, levando também sua irmã de mim. Eu a amava muito mais que um pai possa amar uma filha.

Neto, intrigado, fica de pé: — Como assim, amava Glorinha muito mais que amor de pai?

Carlos —­ Não sei o que estou dizendo, perdoe-me. — agarra-o pelas pernas, impedindo de sair: — Espere, filho. Não vá embora. Fique comigo. Quem sabe assim, sua irmã e sua mãe, onde quer que estejam, possam também perdoar os meus pecados.

Neto com ódio — Quero que o senhor morra e vá para o inferno, se lá for um lugar digno de recebê-lo — puxa o corpo, se livrando dele. Com desprezo, ele também aponta o avô que, de pé na soleira, assiste a tudo. — A mesma coisa eu também lhe digo. Foram vocês que mataram Glorinha. Jamais vou perdoar os dois por isso — e sai. Sente as pernas bambas. Chegando à lápide de Glorinha e de joelhos ao chão, chora muito. Desnorteado, segui a estrada deserta. Tinha os olhos parados, como também na proa do navio em destino ao do Rio de Janeiro. Quando chega à frente do quartel, sem forças para prosseguir, cai de joelhos ao chão, desiludido. Um soldado, que vigiava a entrada, aproxima: — Precisa de ajuda, soldado? Você não está bem? — Neto chora. — O que é isso, soldado? Nós ganhamos a batalha. Deveria estar alegre. — Pega-o pelo braço: — Venha, vamos entrar? Eu ajudo você.

Neto segura-o pela camisa — Você sabe ler? Bem e de verdade?

Soldado — Sim. Mais ou menos. Bom, não sei muito bem. Apenas conheço algumas letras. Por que quer saber?

Neto — Você conhece alguém que sabe? Que possa me ensinar a ler?

Soldado — O coronel ou o general. Eles sabem ler muito bem.

Neto levanta e entra na frente do soldado. Na sala, o general lhe pergunta: — Por que quer aprender a ler?

Neto tira o diário junto ao corpo. — Preciso saber o que está escrito aqui.

General estende a mão na tentativa de pegar.

Neto — Desculpe. Quero ler, eu mesmo, o que está escrito aqui, se o general não se importar.

General — Tudo certo. Pode começar no início da semana que vem. Lembre-me disso.

Neto faz continência — Obrigado, senhor. Serei eternamente grato.

No navio. Neto fala com Adalberto – Eu ainda não entendo como uma filha podia odiar tanto um pai, como Glorinha odiava. Nem mesmo como um pai podia ter pela filha muito mais que amor de pai. – mexe os ombros – Bom, não sei como é isso, então não posso dizer que tipo de amor é esse, eu não tenho filhos.

Adalberto, quase sem voz – O, o senhor nunca mais viu o vosso pai e o nem o vosso avô?

Neto – Não voltei à fazenda, mas acredito que estejam mortos. Faz muitos anos que tudo aconteceu. Quanto a sua tia, se quer saber se voltei a vê-la novamente, deve se lembrar, estava com ela naquele dia. Eu também guardo em minha memória o que aconteceu. Acredito que também levarei comigo, após a minha morte, gravado em minha alma, o que aconteceu naquele dia, em que perdi definitivamente toda a minha esperança. Sua tia não entendeu o que aconteceu. Nem mesmo eu ainda entendo.

Adalberto – Como assim?

Revolução de 1837 – Bahia. No acampamento, Neto passa instruções. Um soldado se aproxima e fala aos ouvidos dele. Neto passa o posto para o soldado, e, na entrada do acampamento, ele e Dalva entreolham tensos.

Dalva – Como vai, capitão?

Neto – Bem! Obrigado! – dá pausa – Como sabia que eu estava aqui?

Dalva – Eu soube que soldados do exército do Rio de Janeiro estavam acampados aqui. Imaginei que estaria entre eles. Esqueceu que sei o seu nome completo? – sorri – Estou esquecendo de lhe apresentar meu sobrinho, Adalberto.

Adalberto – Puxa! O senhor tem uma farda muito bonita. Um dia eu também vou ser capitão. Já falei a respeito disso com o meu pai. Minha mãe não gostou muito da ideia, de ver um filho no meio da guerra.

Neto faz continências – Desde já, seja bem-vindo ao nosso meio, capitão. – faz chamego no alto da cabeça de Adalberto – Diga a sua mãe que a nossa luta é de paz. Lutamos para manter a ordem e a justiça no nosso país.

Adalberto, orgulhoso – Vou explicar isso a ela.

Dalva – E a sua esposa, capitão? Ela lhe deu filhos? – Neto fica pálido. Dalva insiste – Como ela está?

Neto, muito tenso – Você ainda mora no mesmo lugar?

Dalva – Sim!

Neto – Podemos conversar lá, mais tarde? No anoitecer?

Dalva – Sim! Vou esperá-lo. – Vira para o menino – Vamos embora, Adalberto. Não podemos atrapalhar o capitão. Até mais tarde, capitão. – e saem. Neto parado no mesmo lugar acompanha-os com o olhar. Abaixa os olhos e suspira.

Dalva abre a porta. Ela e Neto em silêncio se entreolham. Ele imagina indo até ela, e puxando-a para os seus braços se beijam apaixonadamente. Mas Dalva na porta intacta dá passagem a ele. Neto entra, olha tudo em volta.

Dalva indo ao fogão – Fiz café, ainda está fresco. – e serve os dois. Sentados em volta da mesa, Dalva, cabisbaixa, ouve em silêncio, o relato dito.

Neto – Quando cheguei na fazenda Glorinha estava morta.

Dalva em desespero aperta as mãos dele, que estão sobre a mesa – Por que não voltou para mim? Você sabia que eu estava esperando.

Neto – Ela também esperava. Morreu esperando por mim.

Dalva em prantos – Mas eu estava aqui, viva, com um… – Breca as palavras e chora. Depois acrescenta – Mesmo se não tivesse acontecido com ela o que aconteceu, vocês dois não poderiam ficar juntos, sendo ela sua irmã.

Neto – Tudo seria mais fácil com ela viva. Eu teria voltado para você, enquanto ela viveria com outro.

Dalva – Eu odiei! Você não imagina como eu a odiei! Cada momento em minha vida imaginando você feliz nos braços dela, com seus filhos, enquanto eu vivia aqui, tentando esquecer tudo o que aconteceu entre nós. – com prantos maior, levanta e pede – Por favor, vá embora, preciso ficar só. – o olha novamente – Antes de sair me responda. O capitão teria vindo aqui, e me contado tudo o que aconteceu se eu não tivesse ido ao acampamento? Eu não posso acreditar que o amor que ainda sente por ela seja mais forte do que aconteceu entre nós. – Neto ameaça dizer algo – Não! Por favor, não responda! Prefiro continuar acreditando que estão juntos, felizes, cheios de amores um pelo outro. Entre nós, foi apenas uma aventura, de sua parte, claro. Eu quem imaginei que poderia ser diferente, e tudo não passou de um engano. Enquanto eu vivia aqui, sozinha, desejando a sua volta, você vive a dor de perder alguém que morreu.

Adalberto empurra a porta entrando – Tia Dalva! Posso entrar?

Dalva fixa ao capitão, que também não se manifestava – Sim, Adalberto! O capitão está de saída. Pedi que você viesse porque não queria correr o risco de ficar a sós com ele novamente. Passar bem, capitão. Peço que vá embora, e não volte. Não, enquanto não ter certeza que ela não está mais dentro do seu coração.

Neto pega a boina sobre a mesa, levanta e sai sem dizer nada, passando por Adalberto.

No navio… Adalberto tem no olhar o mesmo brilho de dúvidas.

Neto – Sua tia não entendeu a dor que ainda carrego em meu peito. É algo que não encontro explicação, nem mesmo o amor que Glorinha sentia por mim. Era um amor pelo qual ela seria capaz de morrer, como se existisse entre nós um sentimento que nem mesmo o tempo é capaz de destruir. Um amor que nasceu para a eternidade. Talvez, um amor de irmandade. Creio que você entende o que falo, sei que tem irmãos, e existe entre ambos um amor que permanecerá unidos para sempre, mesmo que se separem. Esse é o amor que me une a Glorinha. Imagino ela como minha única irmã, que teve a vida destruída por uma mentira. E ainda me pergunto: como posso ser feliz ao lado de outra, se minha irmã não teve essa chance? Fico também imaginando o sofrimento de um esposo que a teria deixado livre, para ficar comigo, em troca do filho que não vingou. Glorinha estava no sexto mês de gestação, quando morreu.

Adalberto – Se ela esperava pelo senhor, porque se casou com outro?

Neto – Para continuar morando na fazenda. O pai havia perdido as terras com dívidas, e não encontrou outra saída não ser entregar ao novo dono. E sinto um vazio por dentro, todas as vezes que penso em tudo o que aconteceu com ela. Que nossas vidas se acabaram, porque não existe mais ninguém além de mim, e depois de mim, não existirá ninguém da minha família para continuar a minha existência. Não deixarei nenhuma semente para continuar a minha geração. O que meu avô temia, aconteceu. Nossas raízes terão fim depois da minha morte.

Adalberto engole fortemente a saliva. Solta um sorriso forçado – O General ainda pode se casar com uma mulher jovem. Ter filhos. Não é tão velho assim para recomeçar a vida, caso ainda queira deixar um descendente.

Neto o palmeia aos ombros – Não, meu jovem. Amei duas mulheres, mas queria apenas uma como minha companheira. E compreendo a decisão dela, de não entender a dor que ainda carrego em meu peito, pela morte da minha irmã. Agora vamos deixar essa conversa de lado. Não me faça mais pergunta, não vou responder. – sorri – Não tenho mais nada a dizer. – vê soldados em alto mar, acenando em pequenas embarcações – Vamos voltar à realidade, soldado. Nossa realidade é essa guerra que está acontecendo. – Adalberto também vê os barcos.

Ano 1851 – Fronteira, Brasil e Uruguai. Meses depois. Neto chega no acampamento onde está Adalberto, e outros soldados – Como estão todos?

Velho soldado, sentado com Adalberto, em volta da fogueira – Tudo tranquilo hoje, General.

Neto se junta a eles, pega uma dose de cachaça. Adalberto olha por baixo, vendo em meio às roupas do capitão a ponta do diário. Neto fala com os companheiros – Esta guerra está demorando acabar, não concordam comigo?

Velho soldado – Estamos aqui há tanto tempo, que nem sei se vou saber fazer amor com a minha mulher quando chegar em casa. – Todos ri, menos Adalberto cabisbaixo pensativo. Todos percebem.

Neto – Você não está bem, soldado? – Adalberto vira a garrafa de cachaça. Neto pede – Melhor ir devagar. Não quero ver ninguém bêbado, principalmente você.

Adalberto joga fora a bebida que colocou na boca e se afasta.

Outro soldado – Esse soldado não está nada bem. Desde quando chegamos fica calado, não quer prosa com ninguém, cada dia fica pior.

Velho soldado – Efeitos de marinheiro de primeira viagem, na segunda batalha ele será um profissional.

Neto vê a espingarda de Adalberto no chão, pega – Vou ter uma prosa com ele.

Soldados inimigos vêm na mesma direção. Adalberto, não muito longe do acampamento lembra quando Neto deixou a casa de Dalva. Ela corre fechando a porta e chora. Adalberto nada entende – Por que minha tia está chorando assim? O que aconteceu? Foi o capitão quem fez algum mal?

Dalva o abraça pelo pescoço – Preciso lhe dizer uma coisa, Adalberto. Você precisa saber porque sempre foi meu sobrinho mais querido, mas antes, deve me fazer um juramento. Jura que nem mesmo o capitão vai saber desta nossa conversa, se por acaso, um dia, vocês se encontrarem novamente. Jura que será um segredo somente meu e seu, pelo resto de nossas vidas? Que nem mesmo seus pais vão saber dessa nossa conversa se o capitão nunca mais voltar?

Adalberto – Eu juro, tia! Eu juro que nada conto a ninguém. Agora me diz, por que está chorando tanto?

Adalberto volta a si, sentindo algo lhe tocar a cabeça. Tinha na testa o cano de uma espingarda, sendo engatilhada pelo inimigo. Ele fecha os olhos para não ver a morte. Ouve dois tiros e o corpo do soldado cai aos seus pés. Adalberto pega, no alto, a espingarda que Neto joga, antes de cair de joelhos ao chão. Adalberto grita negativamente em desespero, atirando em todas as direções, com outros soldados inimigos chegando. Os companheiros também chegam e o pequeno grupo é eliminado. Um soldado grita – Acabou! Acabou! Já estão todos mortos, parem de atirar.

Velho soldado – Ainda bem que o grupo era pequeno, por sorte não morremos todos.

Adalberto, em passos lentos, volta onde ficou Neto. Sente receio em tocá-lo. Velho soldado chega e examina o corpo – O General está morto. O tiro acertou direto o coração. Acredito que nem sentiu dor, morrendo na hora.

Adalberto puxa o corpo de Neto junto ao seu – Fale comigo, General! Fale comigo! O senhor não pode morrer. Não agora.

Velho soldado – Pare com isso, soldado. Deixe o descansar em paz.

Adalberto chora, segurando a cabeça de Neto em seu colo. – Ele não pode morrer, sem saber que tem um filho. Ele é meu pai. Eu sou filho, pai. Não morre, sem saber que sou seu filho! Eu sou seu filho, pai! Eu sou seu filho! – e chora.

Todos entreolham boquiabertos. Adalberto ameaça pegá-lo sozinho, recebe ajuda dos companheiros. Uma luz amarelada surge do alto e a alma que ficou adormecida no chão, desaparece junto com ela. No porto, Adalberto é recebido pelos pais adotivos. Ele chora de alegria e tristeza. Em uma casa, ele estende uma pequena caixa para Dalva. – Creio que minha tia gostaria de ficar com isso.

Dalva abre a caixinha. Fica sem entender – De quem são essas medalhas?

Adalberto, muito entristecido – São as medalhas do meu pai. Ele as recebeu em honra a cada batalha que esteve. – Dalva entristece. Adalberto continua – Não contei a ele quem sou, como à senhora me pediu, caso um dia o encontrasse. Meu pai morreu sem saber que tinha um filho. Morreu salvando a minha vida.

Dalva chora. Abre os braços para recebê-lo. Adalberto não se manifesta. Tira o diário junto ao corpo e coloca em cima da mesa – Isto estava com ele. É o diário da outra. Eu não li. Não fiz questão de ler porque era uma coisa dele, escrito por ela. E se caso existir vida do outro lado, eu ficaria feliz em saber que estão juntos, e se eu pudesse compartilharia com eles a alegria e tristeza que possam viver, porque tive a chance de conhecer um pouco o meu pai, e entender melhor a história deles. – vai em direção a porta, volta olhar a mãe. Abre os braços para recebê-la, e choram abraçados.

Dalva, sozinha, no quarto, esfolheia o diário, percorrendo os olhos as entrelinhas e lê a última folha – “Ao soldado Caio José Neto. Tu partiste em batalha pela liberdade do nosso país, deixando a mais bela e doce criatura, que morreu em meus braços esperando a sua volta. Assinado: Eduardo Lacerda”.

Dalva aperta o diário contra o peito e chora repetindo o nome – Eduardo Lacerda. Nós dois compartilhamos juntos o mesmo sentimento. Por anos, você odiou o homem que eu tanto amei. Por anos, eu odiei a mulher que você tanto amou. – Depois de pausa: – Queria tanto ter conhecido Glorinha e entender que tipo de amor existiu entre ela e Neto. Quem sabe, poderei encontrá-los do outro lado, em algum lugar, e tentar compreender. Só não sei se a terei como minha melhor ou pior inimiga. O que sei, é que farei o mesmo que Neto fez. Me casarei com outro, se os dois forem livres para ficarem juntos, ou, ficarei novamente sozinha, se Neto assim preferir, com a esperança de um dia, ele viver, somente para mim. – Deitada na cama, Dalva fecha os olhos e os pensamentos voltam – Eu queria que nesta noite, a minha alma repousasse ao seu lado “Meu amor” e junto dela, nós três, sem guerra, acabamos com nossas diferenças e provações. É tudo o que desejo. Morrer e viver novamente, se assim fosse possível, ao lado do meu amor, em algum lugar, sem cobranças do que ficou para trás.

Dez anos depois. Em um quarto. No meio da noite, Ezequiel surge através de um luz avermelhada, e observa o casal dormindo. A mulher grávida de nove meses, acorda entre gemidos. Adalberto também acorda. – O que foi, Estela? O que está sentindo?

Estela vê a cama molhada – Está chegando à hora. O bebê está nascendo.

Adalberto pula da cama, enquanto troca o pijama pela roupa – Aguente firme. Vou correndo buscar a parteira. Tudo vai dá certo, como deu das meninas. – sorri – Dessa vez vai ser um menino. Tenho certeza que vai, e darei a ele o nome do meu pai.

Estela, entre gemidos – Está nascendo. Não vai dá tempo de chamar a parteira.

Adalberto que já saia, volta olhar a mulher que se retorce.

Ezequiel – Não fique aí parado, Adalberto. Faça você mesmo o parto do seu filho. Ele está nascendo. Isso será bom, para afastar os fantasmas do passado, entre você e o menino.

Adalberto engole a saliva, se aproxima da mulher. – Eu ajudo você.

Estela – Meu marido não vai ficar magoado se nascer outra menina?

Adalberto — Sendo menino ou menina tem que nascer. E, depois, vamos continuar fazendo outros filhos. Ou, você não vai mais fazer amor comigo?

Ezequiel também ri. A mulher geme, sentindo as dores voltar. Logo depois o menino chora, nos braços do pai. Adalberto se emociona. – É um menino, Estela. Um menino! Você acabou de dar o melhor presente que eu poderia ganhar na vida. – Levanta-o para o alto – Aqui está seu neto, meu pai. Espero por ele, desde quando o senhor se foi, e faz tanto tempo. Vou ensiná-lo a se forte. Ser igualzinho à você. E estarei ao lado dele, como o senhor esteve do meu, no dia em me fez renascer.

No outro dia. No Campo Santo, Adalberto coloca flores no túmulo de Dalva, falando com ela – Meu filho nasceu, mãe. É um lindo menino. Dei a ele o nome de Caio José de Lucas. Espero que a senhora goste do nome do seu neto. Acredito que meu pai não vai se importar eu ter colocado o seu sobrenome nele. Uma maneira que encontrei de uni-los, através do nome do meu filho. Eu também tenho outra novidade. Feciliana também teve um bebê, faz alguns dias, é um lindo menino. Se chama José Carlos. Acredito que a senhora gostaria também de conhecer o filho de minha prima-irmã, é assim que eu a imagino. Minha prima irmã. Afinal, temos o mesmo sangue, porque somos primos. Filhos de duas irmãs, e posso imaginar que tenho irmãs e irmãos, fazendo parte da minha vida, porque eles não sabem da verdade, e me consideram como irmão, assim, nossa família cresce cada ano que passa. – Pega uma medalha que está no bolso e examina – Quanto ao senhor, meu pai. Daqui alguns anos, meu filho será um moço, e também vai construir uma família. Terá filhos, como também terá as irmãs dele, e através dos meus filhos. Através dos filhos dos meus filhos, nossas raízes não vão se acabar, como o senhor imaginou que acabaria com a sua morte. – e com emoção, prossegue – Onde quer que o senhor esteja meu pai, sou grato pela minha vida. Sou grato pela família feliz que hoje tenho. Uma família que o senhor se negou a construir, por amor à outra pessoa. Um amor que eu também não consigo entender. Onde, o senhor trocou a sua felicidade, a sua vida, por um amor que seria pecado. – Coloca a medalha junto com as flores em cima do lápide. – Em nome desse amor. Em nome do amor que também sentiu pela minha mãe, meu filho será livre para escolher o amor que ele mesmo escolher. Meus filhos serão livres para escolher o amor que acharem correto. E assim, espero, serem felizes de verdade.

 

 

POSTADO POR

Fátima Costa Friozi

Fátima Costa Friozi

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