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Círculo de Vidas: Almas Gêmeas – Capítulo 19

Lampiões a gás, clareia a rua deserta. Custódio para e acende um charuto. Roberto chega e juntos seguem o caminho.

Roberto Lacerda (usa barba e bigode. Como também Custódio) — Não comprei seu presente de casamento. Nem sei o que lhe dar. Você tem de tudo. Quero lhe dar algo que vai usar. Nada que fique esquecido em um canto qualquer, depois, na sua casa. Tem que ser algo especial. Afinal, você é mais que um amigo. Jamais devo esquecer o que fez à mim. Meu pai jamais faria o mesmo.

Custódio — Se eu tivesse conhecido seu pai antes de lhe dar a grana para comprar a casa, não teria lhe dado. Tenha certeza disso!

Roberto — Está do lado do velho?

Custódio — Da razão! Seu pai gosta das coisas certas, como meu pai gostava e eu também. O amor na família deve estar acima de tudo na vida de uma pessoa. Ame seu próximo como a ti mesmo.

Roberto também acende um charuto.

Custódio para, fixa a fumaça que se mistura com a neblina. — Eu, não amo a mim.

Roberto gargalha.

Custódio — Falo sério — Se eu amasse, não estaria essa hora da noite andando debaixo da neblina fria com um charuto na mão, depois de encher a cara, em uma casa de perdição. Que amor é esse que tenho a meu respeito? Seu pai é um exemplo. Onde está ele neste momento?

Roberto — Dormindo ao lado da esposa.

Custódio — Durante os anos, em que vivi com meu pai, ele sempre dizia: a noite foi feita para descansar e o corpo estará bem disposto para o trabalho no outro dia.

Roberto — Tenho motivos para não seguir os conselhos do meu velho.

Custódio — Quando ele não estiver mais aqui para lhe dar puxões de orelhas irá sentir falta, e será tarde o arrependimento. Eu sempre procurei seguir os ensinamentos que recebi do meu pai, e sinto saudade dele.

Roberto brinca, em deboche — Vou pedir aos céus, para morrer antes, assim, não sentirei falta do senhor Afonso.

Naquele momento, uma estrela risca o céu.

Custódio — Alguém, lá em cima, assinou a sua sentença de morte. Atendeu ao seu pedido.

Roberto, com os braços abertos, olha para o alto. — Obrigado, meu Deus, em aceitar o meu desejo. Morrerei feliz quando chegar a minha hora.

Custódio — Não deveria brincar com coisa séria.

Roberto — Não tenho medo da morte, já falei isso para o meu pai, quando me acusou de filho ingrato. Ele chegou a me dizer que joguei a minha alma no fogo do inferno, com as escolhas erradas que fiz. Infelizmente, meu caro amigo, não sou um homem perfeito como é meu pai. Como era o seu e muito menos serei como você, que tem orgulho dos exemplos que recebeu. — O aponta: — Vou lhe dar um recado. Melhor ir se preparando, desde já. Você se tornará inimigo número um do senhor Afonso, no dia em que ele descobrir que me ajudou comprar aquela casa. Vou adiantar as palavras dele: Você ajudou meu filho abrir as portas do inferno e será queimado junto com ele.

Custódio o encara sério.

Roberto pega-o pelos ombros: — Não precisa me olhar assim, assustado. Se depender de mim, meu pai nunca saberá a verdade. Nem depois da minha morte, e poderá se consolar nos seus braços, caso chorar pela minha morte. Você também poderá aliviar a dor que existe em seu peito a falta que lhe faz o seu pai. Seu Afonso sempre desejou um filho correto. Você será o filho perfeito, onde vão aliviar a dor um do outro. Não concorda comigo?

Custódio — Falei que sinto saudades do meu pai e não falta! São diferentes as duas coisas.

Roberto — Para mim tudo é igual! Que diferença faz sentir saudade ou falta de alguém que já se foi. Após a morte, nada se tem volta. O que eu queria era ser aceito com as minhas escolhas, sem que meu pai me comparasse a outra pessoa, mesmo que seja ele. Eu não tenho culpa de ser diferente daquilo que meu pai deseja. Quero o amor dele. Quero que ele me aceite como eu sou, e não como ele quer que eu seja.

E sem conseguir esconder a tristeza, chora.

Custódio – Ei, pare com isso! Nunca pensei que um dia fosse vê-lo chorar.

Roberto ainda chora. Os dedos foram colocados em direção ao amigo: — Falo sério também! Se eu morrer primeiro que você e meu pai, quero que consolam um ao outro. Não quero ver meu velho chorar a minha morte. Apesar de tudo, eu o amo muito, de coração. Quando chegar a minha hora, não quero sentir medo da morte. Estou preparado. Ela pode vir ao meu encontro quando quiser. Ninguém fica para semente mesmo.

Custódio — Você está bêbado, falando besteiras. Duvido que não terá medo da morte quando ela aparecer na sua frente. Com certeza, irá morrer de medo! — Os dois gargalham.

Roberto torna perguntar do presente. — Ainda não me falou o que pretende ganhar. Tenho que ver isso amanhã, sem falta. Ou, será que posso lhe dar depois, mas aí, corre o risco de não ganhar nada. Vou ficar com a grana em vez de gastar com um presente tolo, que não irá lhe dar serventia.

Custódio — Que tal algumas aulas de como agir com minha virgem esposa, depois do meu casamento?

Roberto, dessa vez, não ri. Encara o amigo com olhos arregalados. Custódio acena e segue outro caminho, enquanto fala: — Nos veremos depois de amanhã, no meu casamento. Não esqueça que é meu padrinho. Nada de presente. Sua presença será fundamental.

Na igreja, Custódio vê Giza, usando roupa escandalosa. Blusa decotada, mostrando parte dos seios e saia curta. A imagem vira a de Raquel, no quarto, usando espartilho.

Custódio se vê na porta da igreja, falando aos ouvidos de Beto. — Vá embora daqui e leve a moça com você.

E no quarto, no hotel, dormindo ao lado de Giza, Custódio acorda. Do lado de fora a neve cai sem cessar. Ele observa a esposa, senta, na ponta da cama. Suspira passando os dedos entre os cabelos. Ele se olha no espelho. Está barbudo, como no sonho. Lembra-se do momento em que envolveu Raquel, em seus braços, e a levou para a cama, entre caricias e desejos.

Custódio deixa as lembranças, vendo através do espelho Giza se mexer na cama. Ele coloca um casaco, e ameaça deixar o quarto.

Giza: — Aonde vai?

Custódio — Dar uma volta.

Ela lhe estendeu a mão. — Vem deitar comigo. Está frio lá fora. E desculpe dormir e deixar você acordado. Ando dormindo de mais. Acho que é o frio.

Custódio — Quer voltar para casa? No Brasil é quente.

Giza recorda de Raquel. Ao colocar a mão na cama pede: — Fica aqui pertinho de mim. Me sinto tão bem, perto de você. E depois, acabamos de chegar. A viagem foi muito cansativa. Prometo que amanhã vou estar ótima.

Custódio tira o casaco, e, na cama, aconchega-a.

Giza ao se lembrar de Raquel, fecha os olhos, e solta o ar, como se estivesse pesado.

Custódio percebe: — O que foi?

Giza fixa ele nos olhos. — Amo tanto você! — Abraça-o. — Seu calor me faz tão bem.

Cristovam surge, no quarto, observa os dois. Giza, agarrada em Custódio procura se aquecer. Ele pensamento distante. Cristovam sussurra aos ouvidos dele. — É hora de voltar para casa, filho. Lá é o seu lugar.

Custódio observa Giza, percebe que ela está acordada. – Vamos arrumar nossa malas e voltar para casa.

Em uma casa. Roberto Lacerda (com 60 anos). Aponta a menina de um ano, no colo de Francisca. — Você tem duas escolhas. Ficar comigo que sou seu pai, ou, com essa sua filha bastarda. Se for comigo, mande-a para longe. Não quero uma escrava me chamando de avô. Vende-a, ela vale uma boa fortuna.

Eduardo Lacerda — O senhor me pede para vender minha própria filha?

Roberto Lacerda — Estou mandando você fazer uma escolha. — Ele pega Francisca pelo braço, e a conduz, em direção a porta. — Sai da minha casa, negra. Não quero vocês duas debaixo do meu teto.

Eduardo Lacerda, com muita calma pede: — Espere? Eu mesmo tiro as duas daqui. — pega a menina, que alegre envolve os bracinhos ao redor do pescoço do pai. — Estou saindo com as duas. Vamos voltar para a fazenda, Francisca.

Roberto Lacerda, grita — Vê bem o que está fazendo? Se sair por aquela porta. Vai se arrepender pelo resto da sua vida.

Dudu é despertado pelo pai. Robson entra no escritório falando com ele: — Você vai passar a hora do seu almoço fechado aqui dentro, escrevendo o seu livro? Você tem duas escolhas. Continuar escrevendo ou ir almoçar comigo?

Eduardo solta um sorriso maroto. — Aceito a segunda escolha. — Vira-se para Luiz, que na outra mesa, separava alguns documentos. — Quero que você seja o primeiro ler o meu manuscrito.

Luiz fica surpreso — Por que eu?

Afonso quem explica: — Ele botou na cabeça que você é o avô dele reencarnado. — E se refere ao filho, que colocava um casaco. — Você já devia ter dito isso ao Luiz.

Luiz — Talvez, essa é a explicação, eu estar aqui, ocupando o lugar do meu irmão.

Afonso — Gostei da sua resposta, Luiz.

Dudu — E sinto muito em dizer mau do Beto, mas, o que ele levou dois anos para aprender, você levou três meses.

Luiz — Vou ler o manuscrito com muita atenção.

Dudu — Quero sua opinião depois. — chama o pai. — Vamos almoçar, estou com uma fome danada.

Luiz — Posso ler agora? Ou, levo para ler em casa depois?

Dudu — Você escolhe. — Pai e filho saem. Luiz desfolha os papéis, lendo.

Custódio e Giza retornam da viagem. Ba, alegre recebe-os na sala. — Pensei que ficariam mais tempo viajando.

Custódio — Resolvemos voltar.

Ba — Seu pai quem vai ficar feliz. Seu pai adotivo é claro! Seu Afonso sempre passa aqui para saber se o doutor mandou notícias.

Custódio — Agi mal, saindo sem falar com ele, que deve estar magoado comigo, e com toda razão.

Ba — Seu Afonso tem um coração de anjo, ele nem vai lhe perguntar o motivo. Sua volta será alegria para ele e para o seu irmão Eduardo. Eu o encontrei outro dia, ele me falou que tinha o pressentimento que o doutor não voltaria mais para o Brasil. Vai ser uma surpresa para ele, quando ver que está de volta.

Giza — Estou cansada. Quero deitar e dormir um pouco.

Ba acompanha ela. Custódio fica na sala, pensativo. Pega na mala, uma garrafa de vinho e sai. No quarto, Adalgisa deita na cama, volta a reclamar.

Giza — Estou tão cansada, acho que vou dormir meses, sem acordar.

Ba — Nunca vi uma pessoa se cansar tanto assim, fazendo uma viagem.

Giza — Depois de um bom sono, estarei pronta para viver.

Ba — Se precisar de alguma coisa chama. Agora vou ver se o doutor precisa de alguma coisa.

Giza — Pede a ele para vir aqui.

Ba — Sim, senhora!

Não encontrando Custódio, volta no quarto. — O doutor saiu. Ele deve ter ido ver o pai e os irmãos. Não deve demorar.

Giza fecha os olhos apertadamente, sente arrepios pelo corpo.

Ba percebe — A senhora não está bem?

Giza — Sinto calafrios pelo meu corpo. Começou quando vi aquela moça na igreja. Toda vez que penso nela, sinto arrepios.

Ba — Que moça a madame está falando?

Giza — Estou falando bobagens! Estou com frio. Muito frio.

Ba — O tempo está quente. — pousa, as costas das mãos, na fonte de Giza — Febre não tem. Está gelada. Vou buscar cobertores. — sai e logo volta e cobre-a.

Giza se encolhe tremendo.

Ba — A senhora está ficando pior? Quer que eu mande alguém atrás do doutor? Ele só pode ter ido ver o pai.

Giza procura relaxar o corpo. Solta um sorriso forçado, e repete as palavras de Ba. — Sim! O doutor só pode ter ido ver o senhor Afonso.

Ba — Não preparei o jantar ainda. Não imaginava que chegariam hoje. Prometo não demorar, se estiver com fome, posso adiantar alguma coisa. Um chá, talvez? Fiz um bolo de maça, está fresquinho.

Giza — Jantamos em um restaurante, antes de chegarmos aqui. O doutor pensou que você poderia não estar aqui quando chegássemos. Que podia estar na casa de parentes, para não ficar sozinha.

Ba – Passei o dia com a minha irmã e meus sobrinhos. Cheguei faz poucas horas. Agora vou deixá-la descansar, e chama, caso precisar de alguma coisa. – e se afasta fechando a porta.

Giza sente novos calafrios, ao voltar recordar d Raquel, e repete aflita — Quem é esta mulher? Quem é esta mulher, meu Deus? Por que ela me causa pânico? Por que me sinto tão mal quando penso nela? Por que ela não me sai da cabeça?

Chorando, confirma os pensamentos: — Custódio vai me trocar por ela. Eu pressinto isso, dentro de mim. Ele não foi ver o pai. Teria me dito, antes de sair. Ele foi atrás dela. Foi procurá-la. Eu sei que foi! — esfrega o peito sentindo dor no coração – Há, meu Deus! O que fiz de errado para merecer essa angustia — e chora apertando o peito.

Ezequiel surge ao lado dela e a observa, depois diz: — Todos, colhem o fruto que plantar ao decorrer da vida. Se a árvore da vida for bem regada, cultivada com carinho, amor e perseverança, colherá dela os melhores frutos. O cultivo com injúria, perversidade, ódio e tudo que destrua a vida, recebe da natureza o próprio remédio para curar as feridas da alma. Todos são livres para escolher os caminhos oferecidos pela natureza e mesmo, as leis criadas pelo homem, não impede o ser humano fazer certo ou errado. A vida é um livre-arbítrio, e de onde se seguem as consequências são cobradas.

Giza sorri, sem animo, seca as lágrimas e lamenta: — Com certeza, devo merecer a dor que estou sentindo.

Ezequiel — Descanse, já que têm consciência dos próprios erros. Um novo ciclo de vida irá recomeçar em breve, para lhe dar a chance de curar as feridas da alma.

Giza fecha os olhos e adormece

Na casa de Beto, ele, apoiado ao balcão, como sempre, conta dinheiro ganho pelas meninas, empalidece vendo Custódio chegar. — Meu querido irmão doutor. Sinto felicidade em vê-lo. — coloca a mão no peito. — Estou feliz de verdade. Acredita em mim! Você acabou de tirar um peso da minha alma. Eu jurava que você não voltaria. Como foi a viagem? Minha cunhada está bem?

Custódio apoia no balcão: — A viagem foi ótima. Adalgisa está em casa, dormindo.

Beto ri — E como sempre faz um bom homem, para não dormir cedo com a esposa, vem se divertir com outra. Esse é o motivo, o qual abri essa casa. Não deixar os bons homens sem diversão.

Custódio — Raquel. Posso falar com ela?

Beto – Vejo que trouxe um vinho francês para tomar com ela. Comigo, tenho certeza que não é. — Solta gargalho — Quando o senhor Afonso souber disso, não sei se vai brigar mais comigo ou com você.

Custódio — Ele sempre tratou todos os filhos iguais.

Beto ainda ria — É! Isso é verdade. A mesma surra que eu levar, você também vai. Porque ele é um homem fiel. Garanto que se ficar pelado debaixo da água, com uma dúzia de mulheres lindas, não trairia nossa mãe, cumprindo o juramento que fez perante Deus. Amar e ser fiel até que a morte os separe. Como fez você, jurando amor e fidelidade a sua esposa. E, estou lhe dizendo tudo isso por que…

Beto se cala, separando o pacote de dinheiro, em duas partes, enquanto Custódio cabisbaixo nada responde.

Cristovam surgi ao lado dos dois, ouvindo a conversa.

Beto coloca uma parte do dinheiro no bolso, e volta falar sério com o irmão. — Infelizmente, Raquel não está aqui. Foi embora, desde aquele dia. Não voltou mais. Não tenho a menor ideia onde ela possa estar morando.

Cristovam desaparece e surge ao lado de Estela, na cozinha, ajudando lavar os copos. — Avise Raquel que Custódio está aqui!

Estela dá um segundo pensativa, seca as mãos e vai saindo.

Eleonora — Estela, aonde pensa que vai? Você não terminou de lavar os copos e estamos atrasadas.

Estela — Estou ouvindo conversa na sala. Vou ver quem chegou.

Outra moça — o Beto vai lhe de dar uma bronca. Você sabe que ele odeia quando ouvimos conversa dele.

Cristovam – Anda logo, Estela. Não pode perder tempo.

Estela — Com o Beto eu me entendo depois. — e fica surpresa, vendo Custódio.

Beto dizia: — Raquel deve ter voltado para as casa dos pais, e, eu não tenho o endereço. — estende parte do dinheiro que separou. — Foi bom você aparecer. Lembra que fiquei de…

Beto se cala vendo Estela ir em direção a escada. — Estela, você não está ajudando na cozinha?

Estela — Estou indo lá em cima pegar um…

Beto — Volte para cozinha. Não sei o que deu em vocês hoje, que atrasaram o serviço. Daqui a pouco começa o movimento e aquela cozinha parece um chiqueiro.

Custódio e Estela entreolham tensos. Rapidamente ela volta para a cozinha.

Beto fala com Custódio. — Estou lhe devolvendo uma parte da grana. Vou lhe devolver em dobro o que peguei emprestado. Negócio é negócio! Amizade é amizade!

Custódio, muito tenso, fixa o dinheiro oferecido. Beto sorri. — Pega o dinheiro doutor, ele é seu. E se veio procurar Raquel, isso significa que não está mais magoado comigo. Fico feliz em saber disso. Assim, podemos continuar bons amigos. Aliás, não somos amigos. O mesmo carinho que tenho pelo Eduardo, tenho com você. Deus sabe que estou falando a verdade! Posso ter defeitos, e sei que não são poucos. Você me conhece bem, e sabe, que eu jamais enganaria meu pai. Jamais enganaria um dos meus irmão, e você é meu irmão — Bate no peito ¬— Um irmão que mora dentro do meu coração. Amo e respeito.

Ele pega o dinheiro, estende a garrafa de vinho a Beto que se alegra.

Beto — Amo esse vinho. Pena que é tão caro. Se não, seria capaz de beber uma garrafa por dia.

Custódio coloca o dinheiro no bolso, e vai saindo — Estou voltando para casa.

Raquel — Doutor?

Custódio retorna, surpreso, vendo-a na escada. Olha Beto, paralisado. — Você disse que ela não estava aqui!

Beto engole a saliva — Menti!

Raquel, alegre se aproxima de Custódio, envolve-o, pelo pescoço, falando com emoção: — Podemos terminar o que começamos aquele dia, se o doutor quiser.

Sério, sem se mover, ele a encara nos olhos. E a voz dela lhe soa, como ecos, ao acrescentar: — Se voltou aqui é porque queria me ver.

Confuso ele abaixa os olhos.

Beto também fala com ele. — Está esperando o que doutor? Por acaso, não está aqui por causa dela? Então, fique à vontade. Eu ainda lhe devo muito. Enquanto não lhe pagar tudo, essa casa lhe pertence.

Raquel — Eu não importo de ser a outra na sua vida. Não me importo de dividi-lo com a sua mulher. Eu o quero para mim.

Com emoção e desejo recíproco, ele puxa-a, pela cintura, apertando contra o seu corpo, e os lábios se unem.

Beto, com ódio, morde os lábios ao presenciar a cena.

Custódio pega Raquel em seus braços, e a leva até a escada.

Inconformado, Beto balança a cabeça negando, enquanto, fuzila os dois, subindo a escada quase correndo. Estela, no vão da porta, da cozinha, percebe os gestos dele, e se encolhe, com ele esmurrando o balcão.

Beto, com ira — Você me paga, Raquel! Você me paga, doutor! Vão me pagar muito caro por isso. Eu vou fazer a vida de vocês dois um inferno. Eu juro que vou!

Estela, muito assustada, volta lavar os copos na bacia. Deixa cair um, que quebra chamando a atenção das outras moças.

Eleonora — O que aconteceu, Estela? Por que está tão assustada?

Outra moça — Quem conversava com o Beto?

Estela — Doutor Custódio! E o Beto está uma fera. Espero, não sentir remorso, caso Raquel e o doutor sair prejudicados.

Moça — Como assim? O que tem você com isso?

Eleonora — Você está com cara, de quem tem culpa no cartório.

Estela ri, e disfarça: — Estou morrendo de inveja da minha amiga. Posso imaginar como os dois estão agora. Vivendo um amor de Alma. Almas Gêmeas. O amor quando é verdadeiro não existe lugar para acontecer.

Moça — Estela, o doutor é casado!

Eleonora — Eu não acredito em amor verdadeiro. Em Almas Gêmeas. O doutor pode ter voltado aqui, simplesmente por voltar. Como os homens que vem todas as noites, e acabam voltando depois, para a esposa, como se nada tivesse acontecido.

Estela — Não! O amor entre Raquel e o doutor é diferente. Tanto, que o Beto soube disso desde o primeiro momento em que colocou os olhos na Raquel. Ele tinha certeza que o doutor iria se apaixonar quando visse Raquel. Todo o tempo, o Beto sabia que o doutor ia voltar a procurar ela. Ficou esperando esse momento. Tanto que a deixou intacta, para quando o doutor voltasse, assim, teria um trunfo nas mãos. O que eu não entendi, por que o Beto ficou com tanto ódio, quando viu os dois juntos?

E lembra o momento em que Beto a convida para brindar o amor. — Não pode ser! — olha para as moças — O Beto se apaixonou de verdade pela Raquel! Só pode ser isso! Não tem outra explicação. Quando ele a pediu em casamento, já sabia dos sentimentos que tinha. Levou Raquel no casamento do doutor, para ver de perto, o comportamento dos dois. O Beto não queria perder Raquel para o irmão, como acabou de perder e vai castigar os dois por causa do amor. O amor que ele me convidou a brindar, aquele dia. Vocês se lembram disso?

Moça — Claro que sim! Pensamos que ele ia envenenar você.

Estela ¬— O Beto ouviu a minha conversa com Raquel aquele dia. Brindou comigo, acreditando eu estar do lado dele. — e murmurou bem baixinho. — Meu Deus! O Beto vai me matar, quando descobrir que avisei Raquel que o doutor estava aqui! — coloca a mão na garganta e se senti sufocada.

Eleonora rindo, aumentando o desespero da moça. — Cuidado, Estela, você pode levar a pior, ajudando Raquel e o doutor.

Estela não contém as lágrimas: — Raquel é minha amiga! E a história dela está se repetindo com a história de outra pessoa que conheci, antes de eu vir morar nesta casa. Um homem conheceu outra, um dia, por acaso, em outra casa, em outra cidade, deu a ela uma boa casa, joias e…

Moça — E o quê? Continue contando a história, Estela.

Estela — Ele ficou apenas alguns dias com ela, depois foi embora e nunca mais voltou. Ela nunca mais ouviu falar dele.

Beto, chega e fica bravo: — O que estão fazendo paradas? Já eram para estar prontas. Tem cliente chegando e olha como vocês estão!

Estela, única se manter no lugar, sem forças para se mover, seca os olhos, enquanto observa Beto. Ele, que ameaçava sair, percebendo volta. — Por que está parada e me olha desse jeito? E qual razão está chorando?

Ela solta um ar alegre, forçado, se aproxima dele e beija-o, no canto da boca. — Amo você Beto. Nunca esqueça disso. Prefiro você na minha vida como um anjo, e não como um demônio. Demônios não vão para o céu! E quando quiser ir para o céu me chama que eu vou com você. Ou, será que não podemos ganhar o paraíso? — torna beijá-lo e sai.

Beto segue-a, com o olhar. Balança a cabeça negando, enquanto ri.

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POSTADO POR

Fátima Costa Friozi

Fátima Costa Friozi

Estreia dia 19 de Outubro

Estreia dia 20 de Outubro

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