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Círculo de Vidas: Almas Gêmeas – Capítulo 23

Afonso e o filho chegam no escritório da fábrica.

Dudu — Perdemos a hora, Luiz. Fui dormir as três da manhã, e meus pais também. Quando acordamos o sol estava alto. Ainda bem que a chave ficou com você ontem.

Luiz — Vim as quatro da manhã, aproveitei para colocar o salário do pessoal em dia. Falta só fazer o pagamento. Mas, o que aconteceu, porque foram dormir tão tarde? Bom, — se refere a Dudu — Você saiu correndo, muito preocupado.

Afonso rindo — Devo admitir que tenho um filho muito atrevido, ele colocou fogo… Vamos esquecer esse assunto.

Luiz surpreso — Na casa que pegou fogo ontem à noite?

Dudu — Não coloquei fogo na casa, só em alguns pertences e…, espere aí, como você sabe disso?

Luz — Alguns operários chegaram aqui comentando de uma casa que pegou fogo. Que era uma casa de mulheres. Deu um trabalhão para os bombeiros, que passaram a noite inteira apagando o fogo. Acharam estranhos não ter vítimas, porque era uma casa muito movimentada e estava vazia.

Eduardo, boquiaberto, se dirige ao pai. ¬— Eu juro que não coloquei fogo na casa. Confesso que tive vontade, mas… Eu estou indo lá.

Afonso — Vou com você… Luiz, faz o pagamento do pessoal você.

Logo depois, em meio aos entroços, um bombeiro explica, mostrando em cinzas, onde, a escada de madeira dava passagem secreta. – O fogo pegou na porta de madeira, subiu pela escada e atingiu o telhado.

Dudu desapontado — Não vi a porta. Estava escuro do lado de fora.

Bombeiro — Então, foi o senhor que começou o incêndio?

Dudu — Deixei dentro da casa o que não consegui carregar. Esqueci das cortinas.

Bombeiro — Está explicado o fogo se alastrar rapidamente, pelas cortinas.

Afonso — Graças a Deus não ouve nenhuma vítima.

Na fábrica, Luiz entrega o pacote de dinheiro para Moreira, que insulta Geraldo.

Moreira — Não é que o pirralho se tornou puxa saco do patrão, igualzinho o sujeito do pai dele.

Luiz finge não ouvir. Geraldo, rindo, retruca. — E tem outro sujeito que está borrando a calça de inveja.

Luiz — Pai, deixa o Moreira falar o que quiser.

Geraldo — Ele está com inveja, por não ter um filho homem como eu tenho, e trabalhar ao lado do patrão. O que a filha dele pode fazer?

Moreira aponta Geraldo — Não mexe com a minha filha.

Geraldo — Então, não mexe com o meu filho também. Ele, eu sei que está aqui, e a sua filha onde está? Quem garante que ela não está por aí se encontrando com um…

Moreira não espera ele terminar, lhe dando um soco no meio da cara. Geraldo revida. Luiz e outros separam a briga.

Geraldo — Isso não vai ficar assim.

Moreira — Não vai mesmo, no dia, em que falar da minha filha de novo, eu mato você.

Luiz bravo — O senhor viu que fez, pai?

Geraldo — Foi ele quem começou.

Luiz — O senhor devia ter ficado quieto, e não ter falado da filha dele como falou.

Geraldo — Você está defendendo a filha dele?

Moreira — Ninguém precisa defender minha filha, ela tem pai para fazer isso.

Luiz — Concordo com o senhor, seu Moreira. Quando terminar o expediente, o senhor quebra a cara do meu pai, lá fora. Aqui dentro não. Aqui é local de trabalho.

Moreira — E não é que o moleque tá falando igual o patrão.

Luiz — Meu salário vem do meu trabalho, senhor Moreira. Do senhor e do meu pai também. Agora me de licença, estou voltando para o meu setor, já terminei o que vim fazer aqui. — vira-se para o pai — Nunca pensei que o senhor seria esse tipo de pessoa. Falar, sem motivos de uma pessoa inocente. Tem razão do Moreira sempre lhe atacar.

Geraldo — Você vai ficar do lado dele? Defendeu a filha, agora defende o pai?

Luiz — Estou defendendo a razão. Se o senhor tivesse eu ficaria do seu lado.

Moreira — O moleque?

Luiz que saia, retorna.

Moreira — Também não preciso que me defenda. No dia em que o seu pai falar da filha de novo, eu arrebento ele. O recado foi dado.

Luiz observa o pai e depois Moreira. Geraldo funga e volta ao trabalho. Moreira sai em outra direção.

No escritório, sentado ao lado da mesa, Luiz fala aos patrões. — Por mim, podem demitir o meu pai.

Afonso ri — Essa briga já estava demorando acontecer.

Dudu, sentando ao lado da mesa dele — Para encontrar o diabo não precisamos ir longe.

Afonso e Luiz olham espantado para ele. Dudu abre a boca para dizer algo, mas se cala, com a freira entrando.

Isabel ¬— Boa tarde eu… — e disfarça se dirigindo a Dudu — O senhor falou da doação, e a madre superior me pediu que viesse. Fizemos as contas, e vai faltar uma pouco para o orçamento que fizemos para o berçário.

Dudu — Claro!

Ele vai até o cofre. A freira volta olhar Luiz, que cabisbaixo, pensativo, não percebe. Afonso percebe, franze o cenho. Dudu lhe entrega a ela uma boa quantia em dinheiro.

Dudu – Espero que dê para fechar o orçamento.

Isabel — Creio que sim! Deus irá recompensá-lo, com muitas bênçãos. É um homem iluminado.

Dudu — Eu acompanho a senhora.

Isabel se despede de Afonso e Luiz, que pensativo, segue-os com o olhar.

Afonso — Luiz, você conhece a freira?

Luiz — Sim!

Afonso — Percebi que ela ficou tensa, quando lhe viu.

Dudu chega ouvindo a conversa.

Luiz — Ela é o meu anjo da guarda.

Afonso ri — Como assim, seu anjo da guarda.

Dudu — Que história é essa?

Luiz — Eu era bem garoto ainda, quando vi a freira pela primeira vez. Tinha um pouco mais de seis anos. Estava garoando, e minha mãe precisava entregar encomendas. Ia ter uma casamento, naquele dia, e ela foi entregar vestidos de algumas madrinhas.

Enquanto Luiz fala, pode-se colocar uma cena.

Luiz — Dona Mirtes pediu que eu ficasse no quarto brincando. O tempo começou escurecer e fiquei com medo. Decidi, então, ir atrás dela. Como a porta estava trancada pulei a janela do meu quarto. Não imaginei que seria tão alto. Tem um aterro de aproximadamente dois metros, e meus pés não alcançaram o chão. Fiquei pendurado. Lembro que tentei voltar e não consegui.

Afonso — Posso imaginar o que aconteceu.

Luiz — A queda poderia ser fatal. Tinha muitas pedras, tijolos. Meu pai, havia resolvido aumentar a casa. Fazer um cômodo bem grande, o lugar onde minha mãe tem a oficina.

Dudu — E, onde entra a freira nisso?

Luiz — Ela se colocou com o corpo para me proteger, no momento em que cai. Tive apenas luxação nos pés. De vez em quando ainda dói. Basta eu forçar um pouco.

Dudu — Ela ficou surpresa em vê-lo aqui. Isso com certeza. Percebi.

Afonso — Falei isso ao Luiz. Eu também percebi.

Luiz — O que não entendo, na época, ela me pedir para nada dizer aos meus pais. E, de vez em quando a vejo, sempre em algum lugar. Nunca mais conversamos. Aliás, ela não conversou comigo. Minha mãe havia chegado e como não me viu no quarto, me chamou, a freira fez sinal para que eu ficasse calado, e fugiu, talvez, por causa do temporal que estava se formando. Quando minha mãe me encontrou, do outro lado, sentado no chão, sem conseguir andar, ela disse: Graças a Deus, seu anjo da guarda lhe protegeu e não deixou acontecer o pior. Desde então, eu a vejo como meu anjo da guarda. Fiquei alguns anos sem ver ela, e não faz muito tempo que voltei vê-la.

Afonso — Estranho, ela lhe pedir segredo.

Dudu — Acontece tanta coisa estranha. Ainda estou perplexo pelo que aconteceu na casa do Roberto. Eu sai de lá, depois que o fogo estava bem baixo. Não tinha como pegar fogo na casa inteira. Tão rapidamente como pegou.

Afonso, pensativo — E aonde será que Beto deve estar andando? As vezes, tenho pressentimento que alguém vai chegar e me dizer: Seu filho Roberto foi encontrado morto.

Dudu bate na madeira da mesa ¬— Isola seus maus pensamentos, pai. O senhor…

Afonso toma a frente — Já sei o que vai falar. Não se preocupe com ele. Mas, eu sou pai. Um dia você também vai ser, e você também Luiz, e vão entender a preocupação de um pai, quando ama sua cria de verdade.

Dudu – Luiz, qual foi mesmo a frase que você disse, que meu irmão falou para a Maria, no sonho que ela teve com ele?

Luiz — Até que enfim eu a encontrei. Vou levá-la de volta para o meu amigo.

Dudu — Já sei onde meu irmão foi.

Afonso — Como assim? O que tem o sonho da Maria com o seu irmão?

Dudu — Beto foi atrás de Raquel.

Luiz rindo — Que bom não ser da Maria. Quem é essa Raquel?

Afonso — Você está falando da moça que acompanhou ele no casamento do Custódio?

Dudu — Sim! Uma das moças ajudou Raquel sair da casa. Ela fugiu sem o Beto soubesse.

Afonso desapontado — O Beto levou uma…

Ele olha para Luiz que entende a conversa — Vou deixar os dois conversarem sozinhos.

Dudu — Obrigado, Luiz.

Luiz — Há, enquanto isso posso avisar a Maria que não fui no colégio hoje. Assim, ela evita sair para me esperar, depois.

Afonso — Luiz, seu pai e o Moreira se atarracaram faz poucas horas, lá no barracão, não sei como eles não sabem ainda que você e a Maria estão namorando.

Luiz — Eu e a Maria já combinamos, quando eles descobrirem e serem contras, vamos fugir, sem deixar notícias.

Dudu — Preciso arrumar uma noiva logo, daqui a pouco você e a Maria casam primeiro que eu. Bom, levo minha irmã Taina como madrinha. Pode ser?

Luiz — Vou ver a Maria e já volto, enquanto vocês dois conversam. Pode ser?

Dudu – Pode voltar à tarde, no seu horário.

Luiz — Vou ganhar o dia como extra?

Afonso — Como sempre diz o Moreira a respeito do seu pai. Você é bem atrevido.

Os 3 riem.

Logo depois, do lado de fora, Luiz joga pedrinhas na janela. No quarto, Dora guarda roupas no armário. Luiz se esconde, quando ela abre a janela.

Mirtes, passando na rua vê o filho e Dora na janela. Maria chega no quarto. — O que foi, mãe?

Dora — Tive impressão de ouvir alguma coisa batendo na janela.

Maria se aproxima e olha para fora, enquanto Dora volta ao trabalho. Mirtes, ainda parada do outro lado da rua, vê Luiz dá sinal para a mocinha. Maria sorri, vendo-o. Luiz se afasta, e paralisa vendo a mãe. Maria sai na rua, e também fica amarela, vendo Mirtes. Ela suspira, percebe não ter ninguém na rua, não ser os três e pede:

Mirtes — Os dois vem comigo, vamos ter uma boa conversa lá dentro de casa.

Maria não se manifesta, Mirtes insiste: — Anda logo, Maria. Vai esperar a sua mãe sair aqui na rua?

Luiz pega-a, pela mão – Vamos lá, Maria, já que a dona Mirtes descobriu nosso namoro.

Mirtes — Namoro? E olha como fala comigo, garoto. Sou sua mãe.

Luiz — Desculpa.

Mirtes — Vamos entrar, antes que aparece alguém. Vamos ter uma conversa séria, nós três.

Dentro da casa.

Luiz — Eu e a Maria estamos namorando já faz mais de um ano.

Mirtes — Os dois tem ideia de como vai ser quando… Não, eu não quero pensar. Eu me nego a pensar no que poderá acontecer.

Luiz — Eu e a Maria nos amamos.

Mirtes, observa os dois, fixos um no outro, de mãos dadas. — Ok! Tá bom. Não vou ser contra o namoro dos dois. Tenho certeza que Dora também não vai ser. — Sorri — Só não pensei que isso fosse acontecer tão depressa. Vocês ainda são tão crianças, imaturos. Eu vou chamar ela e…

Maria — Não, dona Mirtes, por favor. Prefiro que a minha mãe não fique sabendo, por enquanto.

Mirtes — Quanto tempo acham que vão continuar escondendo o namoro?

Luiz — Meu pai e senhor Moreira se atarracaram lá na fábrica hoje, por minha causa e da Maria.

Mirtes — Então, eles já estão sabendo?

Luiz — Não! Eles não fazem ideia.

Mirtes — Os dois vão se matar. Simplesmente isso.

Luiz — Que se matem.

Maria ri — Isso mesmo, que se matem.

Mirtes — Não estou acreditando no que estou ouvindo. ¬— Na mesa, ela pega um jarro e despeja água no copo, toma um gole. Volta olhar os dois, calados fixos a ela, que senta, pensa e pede para sentarem. ¬— ¬Vou contar para os dois o que aconteceu quando você nasceu Maria.

Luiz — Já conhecemos essa história, mãe. Meu pai e seu Moreira brigaram…

Mirtes — Não é nada disso! Bom, enquanto os dois brigavam lá na fábrica, aconteceu outra coisa aqui. Naquele dia, Luiz, você acordou muito agitado. Chorava o tempo todo e apontava o dedinho para o lado da porta. Eu, então, sai levando você pra rua, e sabe onde você me levou?

Luiz — Não tenho menor ideia.

Mirtes – Na porta da casa da Dora, e sorriu quando ouviu o choro da Maria. Ela não parava de chorar, então, eu bati na porta. ¬— Mirtes lembra os fatos.

Dora, com a bebê no colo, dando de mamar. – Ela não para de chorar. Parece sentir dor. O Moreira foi trabalhar preocupado. Quando acordei, ele, muito espantado segurava a neném. Disse que ela estava tão quietinha quando ele acordou. Ficou aliviado quando ela começou a chorar. Ele me disse que pensou que ela estava morta.

Mirtes – Loucura o que vocês dois fizeram, colocando uma criança deste tamanho no meio de dois marmanjos. Vocês podiam ter sufocado a menina.

Luiz, alegre, mostra a neném com o dedinho. Mirtes brinca com ele, colocando-o bem perto da recém-nascida. — Você queria conhecer ela. Que lindinha ela é.

Dora – Luiz também era tão pequeno, quando vocês vieram morar aqui perto, nem parece que ele já fez um ano.

Mirtes – O tempo passa rápido. Daqui a pouco sua filha que está andando. Dando trabalho dobrado. Luizinho não para um minuto, só quando está dormindo. Tudo ele mostra, como se me perguntasse todo o tempo. O que é isso? O que é aquilo? – as duas riem com ele apontando novamente o dedinho em direção a neném que dormia tranquila.

Dora estranha — Acho que ela gostou da visita.

Mirtes – E ele quem me trouxe aqui.

E deixando as lembranças de lado, Mirtes acrescenta: — Devido ao que aconteceu, entre vocês dois, naquele dia, decidimos não nos impor na briga que acontece entre Geraldo e Moreira.

Luiz, aperta as mãos de Maria, sentada ao lado da mesa, de frente a ele. — Isso significa que já nascemos se amando.

Mirtes — Os dois tem minha permissão de namorar aqui dentro de casa, assim, não correm o risco do Moreira querer matar você filho, caso pegar os dois juntos, por aí, se encontrando as escondidas.

Numa pensão, Beto, dormindo, sonha, com Custódio lhe entregando um maço de dinheiro e o bracelete de diamante e esmeralda.
Custódio — Acredito que está bem pago. Quero a joia de volta se não encontrar a moça. Estamos combinados?

Roberto Lacerda examina a peça. — Quanto vale?

Custódio — O dobro do valor desta sua casa, com tudo que tem dentro e ainda sobra uma boa quantidade.

Roberto Lacerda beija os dedos cruzados. — Juro pelo paizinho do Céu, — aponta para o alto. — Que essa joia volta para as suas mãos se eu não trouxer a moça. Vou encontrá-la onde estiver, palavra de irmão. Você não me daria uma joia tão cara a troco de nada, simplesmente por encontrar alguém. Quem é ela de verdade? Não vai dizer que é o que estou pensando?

Beto se agita na cama, ele se vê chegando em uma casa, muito pobre, no meio da mata. Empurra a porta, e entra olhando tudo ao redor. Numa cama, vê Maria estirada. Ela se assusta vendo-o.

Roberto Lacerda sorri: — Até que enfim encontrei você. Vou levá-la de volta para o meu amigo.

Naquele instante, Roberto ouve barulho, ele olha pela fresta da parede e vê Geraldo na companhia de um rapaz. Ele escuta barulho de objetos caindo, corre, para segurar Maria, mas ela passa o corte da tesoura no pulso.

Roberto segura ela pelos cabelos. — Maldita, olha o que você fez? – Sem alternativa ele pula pelo vão da janela. Anda rápido, olhando para trás, e quando sai em um corredor, em meio a mata, vê o cavalo sair em disparada. Ele se vira ouvindo ruído e um onça salta em sua direção. Beto pula na cama, acordando.

Beto olha ao redor, ao lado, vê um papel, e nele um rascunho feito de carvão. Ele pega e termina de desenhar a foto de Raquel. Junta-a, com as fotos dos pais dela, e murmura: — Não importo quanto tempo vai demorar, vou encontrar você Raquel. Esteja, onde estiver.

Pega uma arma, verifica se está carregada.

Em São Paulo, Dudu entra pela porta da frente, e fica surpreso com as visitas na sala. O pai se refere ao garçom.

Afonso — O garçom veio com os pais e as irmãs pedir Tainá em casamento.

Eduardo, com gentilidade cumprimenta todos, por último a irmã mais velha do rapaz. — Acho que me lembro de você. Eu quase a atropelei.

Taina — Meu irmão pensou que vocês eram casados.

Francine — Sua irmã falou de você. Estou me lembrando, do quase acidente também.

Dudu ao garçom — Teria deixado você viúvo para se casar com a minha irmã, caso fossem casados e eu acidentasse ela. — todos riem. — Seja bem-vindo a minha família. — volta olhar a moça — Você tem uma irmã muito bonita. Quando pretende se casar com a minha irmã?

Afonso — Não é melhor fazer uma pergunta de cada vez? – Todos voltam a rir. — Eu estava aqui dizendo a eles, melhor esperarem um pouco mais, antes de marcar a data, pelo que aconteceu com a nossa família. Custódio com a esposa no hospital e Roberto sem dar notícias.

Dudu volta olhar Francine. A moça também olha ele seriamente. — Eu vim do hospital. — disfarça referindo-se ao rapaz. — Desculpe, tomar suas palavras pai, eu não concordo que os dois precisam esperar tempo para se casar. Quanto tempo vão ter que esperar? Minha cunhada está em coma faz três meses, e não sabemos quando vai acordar, e se vai acordar. Quanto ao Roberto, nem vou questionar. Ele deve estar pouco preocupado em nos dar notícias. Resumindo: A vida continua. Tenho certeza que Custódio vai entender. O rapaz quer casar com a minha irmã, e se ela concorda, então que se casem.

Afonso — Está certo, filho! — E se refere ao casal — Marcam o casamento para quando quiserem. — e fala com o rapaz — Quero que faça minha filha feliz. Isso é tudo que espero de você.

Dudu quem responde, enquanto mira, outra vez, Francine: — É comigo que ele vai acertar as contas, se não fizer minha irmã feliz. Quem sabe, a irmã dele aceite me ajudar a ficar de olho nele.

Todos se olham surpresos. Tainá e o rapaz sorriam emocionados. Francine, acanhada, nada responde. Os olhos também brilham.

Pai da moça — Você está pedindo a minha filha em casamento, entendi isso?

Dudu — Quem sabe pode ser feito dois casamentos em um único dia. — e se refere a irmã. — Você dividiria a sua alegria comigo?

Afonso — Está falando sério, filho?

Dudu — O pai dela quem decide. E o irmão dela também, se aceitar dois casamento em uma só festa. — vira-se para o homem mulato. — Repetindo o que falei ao meu futuro cunhado, o senhor tem uma filha muito bonita. Será que tem outro pretendente do vosso interesse para se casar com ela?

O homem se alegra. Coloca-se de pé e estende a mão para Afonso. — Será um orgulho unir nossa família em dose dupla?

No hospital. Custódio se vê andando na beira da praia. Ele para ao ver uma mulher, usando longo vestido preto e uma capa, cobrindo-a dos pés à cabeça, vir em sua direção. Ela também para ao se aproximar dele. Quando vai tirar o véu, na tentativa de mostrar o rosto, ele acorda, ouvindo uma buzina de carro tocar na frente do hospital.

No quarto, Estela mede a temperatura de Giza. Custódio entra. — Bom dia, doutor. Como passou a noite?

Custódio — Com pesadelos. Essa é a verdade!

Estela — Eu também tenho pesadelos de vez em quando. Sinto alivio quando acordo, e lembro que a minha vida é um pesadelo. — ri.

Custódio que conferia o termômetro, sério, a olha por baixo.

Estela — Desculpa, doutor? Preciso aprender ficar de boca fechada. Estou indo para casa. Agora é a minha vez de ter pesadelos.

Custódio acaba rindo. — Só você mesmo Estela, para me fazer rir, depois de sonhar com a morte.

Estela — Sonho não, doutor. Sonhar com a morte é pesadelo mesmo, no duro! — Vê Dudu, Tainá, o noivo e Francine chegando. — O doutor tem companhia, estou indo para o meu cantinho.

Dudu — Estela, você poderia esperar um pouco, antes de ir? Precisamos falar com o meu irmão. Prometo que não vamos demorar, sabemos que precisa descansar.

Estela — Fiquem a vontade. Permaneço o tempo que precisar.

Eduardo fala com Custódio. — Podemos tomar um café?

Custódio — Pelo jeito o assunto é sério! Podemos ir no refeitório. Você sabe que não quero sair daqui.

Dudu — Claro!

No refeitório, Eduardo explica o motivo da visita tão cedo. — Vai ser uma cerimônia simples. Apenas os parentes próximos, alguns amigos e o pessoal da fábrica. Nosso pai faz questão de convidar todos.

Custódio pensa antes de responder: — Os quatros, não precisavam vir correndo falar comigo, mas, entendo e agradeço.

Dudu — Tudo foi decidido ontem à noite. E eu que pensei em lhe dar a notícia em primeira mão.

Custódio — Então, vou dar a minha opinião. Vocês merecem um casamento normal como qualquer outro… Não se preocupem comigo…. Só não quero ser convidado para ser padrinho. Bom, quem sabe até o dia da cerimônia minha mulher se recupere. — sorri — Estou feliz por vocês. E o meu presente será a recepção. Faço questão que seja uma linda festa.

Durante os quatros meses, a festa é organizada. Na igreja, convidados e os noivos esperam a chegada das noivas. Custódio, debruçado no vão da janela, atento aos movimentos na rua, vê Estela chegar. Quando ela entra no quarto.

Custódio — O que está fazendo aqui, Estela? Porque veio tão cedo.

Estela — Ainda dá tempo do doutor assistir ao casamento dos seus irmãos. Eu faço companhia para a sua esposa.

Custódio não se manifesta.

Estela — O doutor vai fazer essa desfeita para os dois? E não estou falando para ir festejar, apenas dar um abraço no seu irmão e na sua irmã. Esse sim, será o melhor presente que o doutor pode dar, principalmente ao seu irmão, que vem todos os dias ver como o doutor e a esposa estão. Tenho certeza que ele não vai sair em lua de mel, antes de…

Custódio — Para de falar Estela. Não quero ouvir nada. Vá descansar que é o seu horário de fazer isso, e me deixe em paz.

Estela, desapontada — Desculpe, doutor! Esse tempo todo em que estamos juntos, cuidado da vossa mulher, acabei tomando muita liberdade. Fiz errado em vir aqui. Vou esperar meu horário de entrada. Desculpe, interferir na vida do doutor. – e sai.

Custódio esfrega as mãos no rosto. Olha Giza estirada na cama, intacta. Suspira profundo e aproxima-se dela: — Por que não acorda? Será que esta punindo a mim pelo que fiz. — e lembra-se da conversa com Eduardo no dia anterior.

Dudu — O melhor presente que vou receber será a sua presença.

Custódio — Dudu, já falamos a respeito disso, não insiste. Eu só vou sair de dentro deste hospital no dia em que a minha mulher sair junto comigo.

Dudu — Porque está querendo se punir? Nada que fizer, contra você, vai mudar o passado.

Custódio — Se a minha mulher morrer, eu não vou me perdoar nunca.

Dudu — Do que está com medo?

Custódio volta a si, ao ouvir passos. Um enfermeira passava no corredor, ele chama: – Conceição?

Enfermeira volta: — Pois não, doutor?

Custódio — Está muito ocupada agora?

Enfermeira — Levando esse prontuário para o doutor Pedro.

Custódio — Leve, e diz ao doutor Pedro que estou indo dar um abraço no meu irmão. Que ele fique atento na minha mulher, enquanto eu não voltar.

Enfermeira — Acabei de ver Estela indo para o vestuário. Posso chamá-la.

Custódio — Estela vai comigo.

Conceição segue-o com o olhar. Encolhe os ombros sem nada entender. Ela olha dentro do quarto, e fala com Giza — Acorda, bela adormecida, se continuar dormindo desse jeito vai perder o seu lindo esposo para a Estela. Além de ficarem o tempo todo do seu lado, estão indo em um casamento, então abre os olhos?

No vestuário, Estela, cabisbaixa, aborrecida tira o avental. Com ela está duas enfermeiras. Uma abre a porta, ouvindo batidas.

Custódio entra falando com Estela. – Decidi ouvir os seus conselhos, Estela. Estou indo dar um abraço no meu irmão e na minha irmã.

Estela, alegre pega o avental: — Eu fico com a sua esposa.

Custódio — Nada disso! Eu vou e você vai comigo. Não quero ir sozinho. Não mandei você ficar dando palpites na minha vida.

Estela — Não estou vestida para ir a um casamento.

Custódio — Eu também não. Agora vamos. Não é um pedido é uma ordem. Ainda dá tempo de alcançar metade da cerimônia. — pega ela pela mão, conduzindo-a pelo corredor. As enfermeiras franzem os cenhos.

Uma delas — Não sei não, se a esposa do doutor bater as botas, Estela ocupa rapidinho o lugar dela.

Na igreja, o padre termina de dar a benção final. — Eu os declaro… – e se cala ao ver Custódio e Estela entrarem na igreja, indo em direção ao altar.

Dudu, Tainá, Afonso, Noemi e Ranay sorriam emocionados. Feliz o padre termina a benção.

Dudu abraça Custódio. — Obrigado, por estar aqui, meu irmão! Estou muito feliz com a sua presença.

Custódio — Estela quem me convenceu. Ela que merece os seus agradecimentos.
Ele abraça Francine, o noivo de Tainá, e ela, que emocionada, também agradece a presença dele. Custódio cochicha aos ouvidos de Noemi, quando abraça a mãe. — Manda um pedaço de bolo pra mim, lá no hospital.

Noemi — Mando sim! Daqui a pouco.

Estela, entre os convidados espera Custódio, ainda conversando com a mãe.

Dudu vendo-a, um pouco distante, olhos baixos, pensativa, leva Francine até ela. — Obrigado, Estela, em trazer meu irmão. Ele me disse que você o convenceu. Você me deu o melhor presente. Nunca vou esquecer. Serei grato eternamente.

Estela, olhos lagrimejando — Está faltando uma pessoa. Pena que ele não está aqui.

Dudu — Sei de quem está falando. Do Beto.

Estela tenta secar as lágrimas. — Confesso que sinto muito a falta dele.

Dudu — Eu também! E seria outro presente maravilhoso, se pelo menos, soubesse, onde ele está nesse momento.

Beto, chega na porteira de um sítio. Para olhando ao redores. Vê uma mulher apodando roseiras e lentamente se aproxima, sem querer alertá-la.

Beto — Belíssima jardim a senhora tem.

Raquel se assusta, levando a tesoura para frente, batendo a ponta da ferramenta no pulso.

Beto grita em pânico – Não faça isso.

Raquel – Me machuquei sem querer. Culpa sua. O que está fazendo aqui?

Beto sorri — Demorei encontrá-la, mas encontrei, e nunca mais vou deixá-la sair da minha vida. Nem que eu morra, você vai se livrar de mim! — pega a mão dela — Deixe-me ver o seu pulso. Pensei que ia se matar.

Raquel — Como me encontrou?

Beto — Por acaso, não queria ser encontrada? E o ferimento não foi grave. Você vai sobreviver.

Raquel puxa a mão — O que quer aqui, Beto?

Beto — Não precisa me jogar pedras.

Raquel — Eu sei que fiquei lhe devendo, então…

Beto — Não estou aqui para lhe cobrar nada. Estela pagou a sua dívida comigo, e muito bem paga. Prometi a ela que não iria lhe procurar, mas mudei de ideia. – mede-a dos pés à cabeça – Você está mais linda que antes. E vim buscá-la. Quero que volte para São Paulo comigo.

Raquel — Terá que me levar dentro de um caixão.

Beto — Também não precisa tanto. E fechei a casa. Comecei montar um novo negócio, e quero esquecer o que aconteceu entre você e meu irmão que nunca vai deixar a esposa dele pra ficar com você.

Raquel — Se eu quisesse continuar na vida do seu irmão, não teria vindo para tão longe.

Beto se aproxima — E quanto a mim? — toca-a, no rosto com a palma da mão – Deixe eu fazer parte da sua vida? Aprendi muita coisa boa depois que a conheci. Uma delas foi aprender dar valor nas pessoas que me amam, e a única coisa que quero em troca da minha mudança é me casar com você. Vamos esquecer o que aconteceu entre você e meu irmão. Como eu disse, Custódio não vai deixar a esposa para ficar com você. Eu tenho certeza disso. E você sabe que não me engano com o que falo.

Raquel — Como será eu aparecer na frente dele como sua esposa, depois de tudo o que aconteceu? Não Beto! Não vai dar certo eu voltar para São Paulo. Não daria certo um casamento entre nós.

Beto percebe os pais de Raquel, ouvindo a conversa. — Pelo menos me deixa conhecer a sua casa. Não vai me oferecer um copo de água. Estou com sede e fome. Você não imagina quanta poeira engoli até chegar em você.

Laura — Eu vou buscar um copo de água para o moço.

Raquel séria — Não mãe! — todos ficam calados.

Beto — Você vai me negar um copo de água. Isso é pecado!

Raquel — Não falou que está com fome também? O almoço está pronto. Entra, enche a sua barriga, bebe água e depois vai embora.

Beto — Vou responder o que você me disse. Para me tirar daqui, só se for dentro de um caixão.

POSTADO POR

Fátima Costa Friozi

Fátima Costa Friozi

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