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Com o brilho das Estrelas

 — O que é isso? — Ambrose, capitão da nave Nebulosa, olhava com curiosidade para a pequena e suja caixa preta de formato estranho, um cubo contendo um pequeno espaço acústico no centro e cinco botões na superfície superior. 

— Um equipamento analógico muito antigo, capitão.

A resposta veio do tenente Offyr, um jovem capaz de reunir na mesma proporção características que provocavam em Ambrose respeito e ao mesmo tempo irritação. Era um rapaz de inteligência sagaz, grande coragem e ousadia, cuja curiosidade e obstinação colocaram a tripulação de Nebulosa em risco ao terem permanecido tempo excessivo sobre a atmosfera de uma Terra às vésperas de sua morte.

Foi por muito pouco que conseguiram alcançar a força de aceleração necessária para zarparem da região, alguns minutos antes da explosão do núcleo superaquecido do planeta. Apesar do perigo a que foram expostos, foi também devido à teimosia do jovem tenente que conseguiram encontrar a pequena caixa preta, neste momento jogada sobre a mesa da biblioteca de Nebulosa, o último resquício das antigas civilizações que um dia habitaram a Terra.

— Fiz uns testes e creio ser possível fazê-lo funcionar. — Continuou o rapaz.

A rápida troca de olhares entre o capitão e o tenente comunicou expectativas profundas demais para serem expostas com palavras. Sequer precisaram usar de telepatia para compreenderem mutuamente o que cada um sentia.

— De quanto tempo você precisa?

— Calculo que antes de atingirmos a próxima dobra espacial, capitão.

Ambrose assentiu em silêncio antes de cada um retornar às suas respectivas obrigações. Mal conseguiam esconder a ansiedade.

***

— Capitão, o senhor não vai acreditar.

Offyr apareceu ofegante à porta da cabine de comando e o sobressalto provocado em Ambrose o fez derramar seu chá.

— Será possível que você não consegue ser menos estouvado? — Respirou fundo e contou até dez, quando sentiu ter conseguido dominar o impulso momentâneo de fazer um discurso sobre os modos desastrados do tenente. — O equipamento funcionou? 

— Perfeitamente, capitão. — Offyr ignorou a bronca de Ambrose, como sempre fazia, e continuou sua interlocução quase sem pausar entre uma palavra e outra. — Esse aparelho é um gravador de voz. Consegui fazê-lo funcionar e decodifiquei o som para podermos escutar em nosso próprio idioma.

— Isso quer dizer que…

— Finalmente temos um registro real de nossos ancestrais.

Sem delongas correram até a sala de máquinas, um amplo espaço circular onde Offyr passava a maior parte de seu tempo junto a dois assistentes. No momento a sala estava vazia, de forma que teriam paz para apreciarem a descoberta. 

Sentaram-se em duas poltronas. Offyr pegou um fone de ouvidos para si e entregou outro à Ambrose. O trabalho fora tão bem feito que o tom da voz soou exatamente igual à do áudio original – suave, musical, como jamais ouviram antes.

***

Manaus, Amazonas, 18 de outubro de 2287. Nem sei por que estou fazendo isso, gravar um diário. É uma coisa boba, mas… Eu tenho essa loucura de achar que um dia alguém escutará isso e talvez ache interessante. Olá para vocês que estão me ouvindo neste momento, do passado para o seu presente. Como é a vida de vocês aí no futuro? A minha é boa, realmente muito boa. Espero que a de vocês também seja. 

Relato do dia: continuo minhas aventuras pelas ruínas do passado. Cavernas, penhascos, rios e oceano. O céu é o limite. Ou talvez não. Minha curiosidade é imensa e não faço a mínima questão de controlar. Tenho ânsia de saber cada vez mais sobre as pessoas que um dia habitaram a Terra. Cada peça, cada ferramenta, cada pedaço de metal… Tudo tem a sua história e, para mim, vale mais que o ouro já valeu para os povos antigos.

A Terra já foi um planeta muito diferente. Como é que sei disso? Se eu contar para vocês que tenho uma caverna, irão acreditar? Pois eu tenho esse lugar secreto e muito especial onde guardo meus tesouros: livros muito antigos, peças mecânicas, peças eletrônicas, peças rasgadas de roupas, objetos pessoais, uma câmera fotográfica e máquinas que os antigos chamavam de computadores, dentre vários outros. 

Graças ao meu pai, que me ensinou a ler em dois idiomas diferentes desde garotinha, aprendi através da leitura dos meus achados sobre cada um deles. A maioria dos livros está faltando páginas, no entanto consegui filtrar um pouco de conhecimento de cada um deles, e foi suficiente para me ajudar a descobrir uma forma de consertar dois computadores.

Tive que lançar mão da minha teimosia para persistir ante os primeiros fracassos. Fui testando fios e pecinhas eletrônicas até acertar aquelas que fossem compatíveis para cada uma das máquinas. Ainda bem que naquela época a tecnologia havia evoluído ao ponto de terem feito baterias capazes de resistir ao tempo e às mudanças ocorridas na Terra, e de absorverem energia solar. Encontrei diversas delas nas ruínas dos prédios da zona proibida.

Quando elas funcionaram… Chego até a me arrepiar! Em cada máquina descobri várias e incríveis surpresas. Não reparem na minha voz chorosa, estou emocionada.

Querem saber o que havia nas máquinas? Bom, encontrei mais livros. Sim! Livros que não são de papel. E também… Música! E vídeos! Nossa, é incrível! Posso assistir a filmes, dançar, cantar, enfim, sonhar! É realmente uma pena que tudo isso, toda essa riqueza tenha se perdido. Como eu gostaria de poder compartilhar essas descobertas com as pessoas da aldeia!

Como se eles já não me achassem louca o bastante! Eles acham que remoer o passado traz má sorte. 

A Terra e seus habitantes já foram muito diferentes. Melhores? Piores? Quem poderia dizer isso já partiu há muito tempo e seus descendentes não fazem a menor ideia do que significa viver num planeta que alcançou o ápice da tecnologia e da inovação. Querem que eu conte como tudo aconteceu? Tudo bem, contarei o que eu sei.

Do pouco que sei, aprendi pelos relatos que são passados de pais para filhos na aldeia. A partir desses relatos confirmei posteriormente alguns fatos pelos documentos encontrados nos computadores.

No passado os humanos possuíam uma necessidade mórbida de tentarem prever o seu fim. Houve diversas previsões, premonições, profecias, ou seja lá qual for a denominação mais adequada. O fato relevante é que não puderam prever quando de fato aconteceu. Um cometa foi detectado por cientistas e não apresentava risco, uma vez que todos os cálculos indicavam que sua rota passaria longe da Terra. Não poderiam contar com o fator surpresa, uma força misteriosa que causou a alteração de seu curso e o aumento de sua velocidade. Não houve tempo e nem tecnologia que pudesse evitar o impacto. 

O meteoro caiu no litoral nordeste do Brasil e muito do que um dia foi considerado vida se tornou trevas. 

A morte veio com o brilho das estrelas. Para muitos. Para outros, foi a vida. Para alguns a morte foi imediata. Para outros ocorreu lentamente pela falta de alimentos, de água, de ar puro, de esperança…, e pela Doença. Um vírus desconhecido presente na rocha espacial que eles chamaram genericamente de Doença se alastrou numa velocidade assustadora. Não houve fronteira capaz de detê-lo. Todas as nações foram comprometidas. Sobreviveram somente alguns humanos que misteriosamente eram imunes ao vírus. Sobreviveram ao vírus também…, eles – os Cavaleiros.

Eles, sete criaturas aladas que vieram das estrelas, caíram na cratera do meteoro, no fundo do mar, poucos dias após a colisão. O aspecto exótico de suas peles cor de prata, olhos de cor azul-fluorescente, cabelos cor de lama, rostos triangulares e asas com envergadura de três metros, fez com que fossem denominados pelos humanos sobreviventes “Os Cavaleiros do Apocalipse”. 

Eles, os Cavaleiros, vieram de um planeta semelhante à Terra, localizado numa galáxia vizinha destruída há mais de 1000 anos. Vagavam desacordados pelo espaço desde quando perderam seu lar. Suas caixas metálicas, por eles chamadas de cápsulas do tempo, foram programadas para localizarem o planeta mais próximo que reunisse as condições necessárias à sobrevivência dos sete, os últimos de sua espécie. Estavam desacordados, preservados em criogenia, e somente seriam despertados quando suas respectivas cápsulas atingissem a atmosfera do planeta. 

Foram as cápsulas as causadoras da mudança de curso do meteoro. Foram as cápsulas que trouxeram a Doença. Foram as cápsulas as responsáveis pela morte de tantos humanos. Mas também foram as cápsulas as determinantes para a restauração da biodiversidade da Terra. A Doença teve efeito devastador sobre a raça humana, contudo provocou um efeito acelerado de fertilidade das plantas através do enriquecimento do solo. Em 100 anos a biodiversidade da flora e da fauna transformou a Terra num paraíso natural como há centenas de anos não ocorria. 

Aqui no Brasil, os sobreviventes constituíram vilas e têm procurado conviver em harmonia com a natureza. Os Cavaleiros, por sua vez, encontraram seu lugar na Terra numa coexistência pacífica com os humanos sobreviventes e a biodiversidade. Por 100 anos eles têm estado entre nós. Por 100 anos temos vivido em paz. 

Quando leio os meus velhos livros, ou quando vejo vídeos sobre os graves conflitos que a Terra já presenciou – guerras, disputa por território, pela economia, pelo poder, e até mesmo pela liberdade de cada indivíduo – e as consequências destrutivas de tais conflitos para o meio ambiente e a espécie humana, percebo que a morte não veio com o brilho das estrelas, como os noticiários do passado costumavam expressar.

Os humanos há muito tempo vinham se destruindo, aos poucos, e através disso matavam também o planeta.

As fotos nos computadores são assustadoras. Nas regiões por onde gosto de percorrer, antes havia um cenário desértico de destruição.

Hoje tenho a possibilidade de abrir minhas asas ao máximo possível, sobre o topo da mais alta árvore da Amazônia, e me jogar sobre essa linda imensidão verde, ganhar velocidade, sentir o vento no rosto, no corpo, nas asas… O gosto da liberdade é indescritível. 

Neste exato momento em que falo com vocês, encerro um desses voos. Acabo de me aproximar do leito de um dos vários rios da região e avalio a minha imagem na superfície espelhada da água: as grandes asas escuras herdadas do meu pai, e também escura minha pele, olhos e cabelos cacheados, heranças da minha mãe humana.

Minha mãe, caros ouvintes, nunca teve medo dos Cavaleiros. Muito pelo contrário, encantava-se quando os via cortarem o céu em alta velocidade. Ela e meu pai, o mais novo dos sete, construíram uma relação especial. Até posso sentir se formar a dúvida em suas cabeças: Mas eles não chegaram há mais de 100 anos? Sim, chegaram. Mas lembrem-se de que pertencem a uma raça alienígena diferente da humana. Muito diferente. A expectativa de vida deles é maior, de forma que quando meus pais se conheceram, meu pai era jovem. Ainda é, na verdade. 

Da morte surgiu a vida, e da vida floresceu um novo mundo. Um mundo de natureza selvagem e vibrante. Eu faço parte desse mundo. Meu nome é Alfa, sou a primeira de minha espécie, uma nova espécie. 

A morte veio com o brilho das estrelas. Para muitos. Para outros, foi a vida. 

Espero não ter entediado vocês com meu falatório, queridos ouvintes. E se é que de fato vocês estão me escutando, e me entendendo, gostaria que soubessem que a vida sempre dá um jeito de recomeçar. Para cada fim, há um começo.

***

Offyr não se surpreendeu ao ver Ambrose passar a mão pelos olhos e rapidamente secá-los. O capitão retirou os fones de ouvidos e mirou a tela do computador por longo tempo absorto em pensamentos. 

— E assim descobrimos a origem de nossa espécie murmurou em tom solene. 

— Somos a combinação da extinta raça humana com a extinta raça ângelus. A conclusão veio acompanhada de um meio sorriso confuso. O que fazemos com essa informação capitão? 

Ambrose alongou as imensas asas preguiçosamente e respondeu: 

— Não creio que nosso povo esteja preparado para a verdade. Uma informação como essa poderia causar um colapso social. 

— Mas, capitão, como podemos esconder algo assim? A verdade não precisa ser dita? 

Ambrose sorriu com simpatia. Offyr era tão jovem! Passaria por muitas adversidades, muitas frustrações, para então compreender um pouco melhor como funciona o pensamento coletivo. 

— É claro que sim. No momento certo. 

— Então… Nosso povo continuará acreditando que nossa vida veio do brilho das estrelas? O jovem olhou para o rosto sorridente do capitão e lentamente se deu conta de suas próprias palavras. — O senhor tem razão. Nossa vida veio com brilho das estrelas!

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POSTADO POR

Paula Carminatti

Paula Carminatti

  • Que conto maravilhoso. Adoro este gênero, quero poder escrever algo parecido um dia. Lerei mais uma, duas vezes, com mais calma…e vou resenhar no próximo Leitornático,deste sábado! Merece. Parabéns. Ahhhh, estou com uma série em exibição: A Escudeira de Gudwangen, se puder acompanhar, serei grato!

    • Olá Dafini!!

      Muito obrigada por ter lido, e estou muito feliz por ter gostado ^^

      Essa foi a minha primeira experiência com ficção científica. Normalmente escrevo no gênero fantasia, que inclusive é o que estou trabalhando no momento. Mas a ideia de trabalhar o sci-fi é muito interessante <3

    • Ei Ricardo!!!
      Ownnn… muito obrigada pela leitura e pelo comentário!!!
      Quem sabe um dia esse conto vire um história mais longa???

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