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É preciso perdoar?

É PRECISO PERDOAR?

24 horas sem ele. O vi pela manhã e desde então não o vi mais, apenas em fotografias de seu corpo estirado na pista, ensanguentado. Por que será? Uma dúvida intercalava meus pensamentos, ninguém morre sem culpa. Morre? Sei que sim mas os vizinhos indagavam a índole dele à mim. Talvez, eles estão certos, pensei eu, diante de tantas indagações, era o erro crucial. Um assalto foi o mote central de sua morte, os policiais investigaram e descobriram a verdade, verdade essa que nem sabia se existia. O que mais doía em mim era a exposição do meu filho diante de tais fatos, as pessoas não tem senso, antes da confirmação de que ele era apenas mais uma vítima, julgaram-no e chegaram à afirmar que ele era um vagabundo mas eu sabia que ele era trabalhador. Ele me sustentava! Meu sustento vinha dele, praticamente. Hoje sei que ele está descansando mas minha alma clama por justiça. 

-Justiça? Ixe! Esse país nem sabe o que é isso, muié. – Disse Diva, logo após a descoberta da morte dele. Incrível é que as pessoas desacreditam da justiça mas recorrem à ela nos dias turbulentos. Eu sou a prova viva! Não considero a justiça perfeita e incorruptível mas recorri. As pessoas vivem à sombra da hipocrisia, às vezes. Às vezes! 

-Senhora, o corpo de seu filho não aguenta. Cancele o velório. Não há possibilidade. -Disse o IML numa ligação sombria. Doeu em mim! Chorei mais naquele momento do que quando descobri. Era doloroso demais! Ninguém planeja a morte mas sempre idealizamos um velório cheio, pessoas chorando, muitos pesares e nem isso ele pode. Triste não? O que ele fez para merecer isso? Não sou mentirosa, ele tem muitos defeitos, me deu um pouco de trabalho na infância, coisa de criança mas graças à Deus, ele cresceu e amadureceu mas não acho que isso fez dele o pior. Deus sabe o que faz, a frase mais ouvida na última madrugada. Confortei meu coração ao ouvi-la? Não! Mas me fortaleci. Me encorajei. Aceitar a vontade de Deus é bom, ainda que estejamos no fundo do poço. Na madrugada fria, algumas vizinhas levaram suas garrafas de café para minha casa, tão bondosas. Naquele momento as desavenças do dia-a-dia se transformaram em afeto. A inimizade se unia para fazer o bem. As crianças sem compreender o meu choro, me abraçavam. Os homens sóbrios pairavam na janela me observando ao longe. Jamais me senti tão sozinha, desolada. A casa cheia e meu coração vazio. Nada preencheria aquele vácuo, apenas meu filho. Ao pensar nisso, percebo que meu filho se transformara num nada, pois, ele não poderia preencher aquilo que eu sentia. Nunca mais!

Num rompante ouvi a sirene da polícia. Um policial se aproximou de mim com o semblante caído, simulando uma tristeza para agradar á mim.

-Meus pêsames, senhora. -Disse ele, apertando minha mão. – Nos acompanhe até a delegacia, por favor. 

Sabe quando estamos em jejum na fila do Sus à espera do exame de sangue? Era assim que me sentia. Fraca! Não havia força em mim nem para se achegar mais no sofá, tampouco, para levantar e caminhar até a viatura. Pensei em chamar a Diva para me acompanhar mas afinal, quem cuidaria da minha casa? Não havia conhecidos de confiança para fazer tal serviço mas também de que importa cuidar das coisas materiais se meu bem maior havia me deixado? Deixei tudo e levei Diva junto. Foi a viagem mais longa da minha vida. Mil e um flashbacks em minha mente, confesso que revivi toda a trajetória do meu filho e apenas as lágrimas caindo pelo meu rosto e um gemido silenciado fazia algum ruído na viatura, em silêncio. Talvez, em respeito ao meu luto. Os policiais tem ética em algumas ocasiões.

-A senhora acha que consegue olhar para o assassino de seu filho? – Disse o policial confrontando o silêncio de muitos minutos.

Ali, sensações diversas me tomaram. Dor e ousadia num elo perfeito. Será que eu consigo? Me perguntei à cada segundo. Diva percebeu meu silêncio e olhou para o policial.

-Ela vai sim, doutor. Bem que ela podia dá uma surra nesse merda também. – Disse ela, revoltada. 

-Ajeito isso, se ela quiser. – Disse o policial, desconcertando toda a minha teoria da ética policial. Apenas me virei para a janela e observei os acontecimentos soturnos daquela noite vazia. Uma chuva serena caía. Um friozinho de inverno esfriava uma madrugada de verão, desnorteando os fatores da natureza.

Nada era o que era, afinal. Ao entrar na delegacia me deparei com uma mulher desesperada, me informei com o policial e descobri que ela era a mãe do jovem que assassinou meu filho. Confesso que a dor dela me comoveu…A dor de uma mãe é universal, independente, se estivermos com dores ou aflições, sempre nos importamos com a dor da outra, pelo menos, sou assim. Antes de entrar na salinha, o policial me olhou e firmou seu olhar. -Faça o que quiser.

Todos esperavam pelo meu ataque de nervos. Pela surra que eu daria nele, afinal, ele estava algemado na cadeira. Tudo cooperava. O sigilo era real ali. Mas quando a porta foi fechada e me vi, sozinha, com aquele menino, meu coração se abriu. O que ele merecia? A morte? As pessoas sofrem muito com a perda de um ente-querido, sofrem pelo resto da vida. Eu poderia dar uns tabefes nele, ele até merecia por ser tão desinibido mas o que eu, como mãe, sentiria se outra pessoa tocasse no meu filho ainda que estivesse com a razão? Se impor no lugar do outro traz experiências pessoais fantásticas. Diferentes! A lógica muda, as ações assumem um poder desigual. Naquele momento de silêncio, ouvi o choro estridente da mãe dele e sofri por dentro. Pude senti um pouco da dor daquela mulher.

-Ela sofre por tua causa, sabia? -Disse, interrompendo o silêncio. Ele cabisbaixo, manteve-se quieto.

-Olha pra mim, moleque. 

Ao dizer isso, as lágrimas sobressaíram meus olhos e transbordaram. Chorei como uma condenada, como diria, a Diva. O jovem levantou a cabeça e pude ver a frieza em seu semblante. – Você não me deu a chance de ver pela última vez o meu filho, então, trate de olhar nos meus olhos. Seu olhar é o reflexo do meu filho.

Fui dura, quase dissimulada. Foi uma sensação dolorosa dizer abertamente o que eu pensava, o que eu sentia mas segui em frente. Até os assassinos tem coração, não é? Eu estava disposta à vê-lo desmanchar-se mas não havia mais tempo. O policial abriu a porta e me olhou, angustiada. Eu senti a aflição das pessoas que me rodeava, o próprio cenário em que eu me encontrava trazia uma sensação ruim, preferi sair mas uma voz gritava dentro de mim e a ouvi por um instante. O policial já estava levando-o para algum lugar mas os segui e frente a frente com o jovem, cai em pranto novamente. Era difícil pra mim! Inesperadamente toquei em seu rosto e abri um sorriso singelo.

-Eu te perdoo, querido. Espero que um dia lhe vejo transformado. 

Ao dizer aquilo, me afastei. Diva boquiaberta não compreendeu bem o que aconteceu, a compreendi. Pedi para voltar à recepção com o intuito de rever a mãe daquele menino mas ela já não estava mais. 

Voltando para casa ouço no rádio da viatura um enunciado terrível, a pobre mulher havia se suicidado, pensei no que devia fazer. Talvez, visitar o jovem no presídio ou enviar-lhe cartas. Achei que era bom demais para um criminoso daquele naipe e contentei com o perdão dado. Torço para que ele vença na vida, afinal, a vida é isso… Um sopro de realidade! Um dia vivemos, no outro morremos, somos pobres, ficamos ricos, choramos, sorrimos e afinal o que nos resta à fazer é viver o amor, zelar pela vida e nada melhor do que livrar alguém de uma sentença infinita liberando o perdão. O perdão não trará meu filho de volta e sei disso mas pode mudar o caráter de uma pessoa, mudar a percepção e é isso que ele esperava de mim. É isso que a sociedade espera de mim. Uma mulher íntegra! Um ser-humano disposto à amar com todas as forças e acima de tudo, perdoar. É realmente preciso perdoar…

POSTADO POR

Samuel Brito

Samuel Brito

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  • Excelente conto meu amigo. Eu, particularmente, não perdoaria eu acho.
    Ahhhhh, adorei a ideia de que este conto pode tornar-se algo maior. Pensa na seguinte premissa?
    “Quando a mãe do assassino do seu filho comete suicídio por desgosto, uma sofrida senhora, encontra uma maneira de se comunicar semanalmente com o assassino preso hoje em uma penitenciária de segurança máxima, até o dia que ele consegue liberdade e uma reviravolta acontece em suas vidas.”

  • Adorei seu conto! Essa mãe pode ser considerada alguém com um nível espiritual muito acima de todas as outras pessoas. Sempre que um criminoso tira a vida de um inocente, todos pensam no linchamento, em trocar na mesma moeda, em fazer justiça com as próprias mãos… Mas não percebem que a morte desse criminoso, não tira a dor da família nem da mãe do inocente. E pior, causa a dor de outras mães… Você retratou isso muito bem. Claro que existem casos diferentes, mas na maioria deles, perdoar é o melhor caminho.

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