En las cercanías de Alcatraz 10

Capítulo Dez – Tudo tem o seu fim

Pavilhão Abandonado

A detetive Carmen Sanchez acorda e se assusta arregalando os olhos. Se senta sobre o colchão caindo aos pedaços que passara esta noite difícil e sacode Jairo ao seu lado acordando-o.

Carmen
– Jairo…Jairo. Acorda amor!

Ele vai abrindo os olhos devagar. Cansado, ainda sente ferroadas na nuca. Passa a mão pra ver se não está mais sangrando.

Jairo
– O que foi, amor?

Carmen
– Eu vi alguém espiando a gente. Tinha uma menina nos olhando…

Carmen aponta o dedo para uma janela de vidros quebrados.

Carmen
– …ela tava parada ali.

Jairo senta-se com bastante dificuldade. Ainda sente as pancadas do acidente da noite anterior. Olha para onde Carmen diz que viu a menina, mas não há ninguém ali.

Jairo
– Não há nada ali, meu amor…deve ter sido a batida na cabeça. Você pode estar delirando… nós precisamos voltar pra cidade o quanto antes.

Escuta-se o barulho de algo caindo e se espatifando do lado de fora. Carmen se assusta e se agarra ao braço do marido.

Carmen
– Te disse que tinha alguma coisa…

Jairo afasta as mãos de Carmen do seu braço.

Jairo
– Pssss! Fica quieta aqui…eu vou verificar.

Jairo se levanta devagar e com dificuldade. Seu corpo todo ainda dói.

Carmen
– Cuidado!

Jairo, se apoiando no que vê pela frente, caminha lentamente até a janela. Quando chega na mesma é surpreendido por um novo estrondo.

Ele cai para trás sentado no chão e olha atento para a janela na espera de que algo ou alguém iria aparecer. Mais atrás, Carmen está intacta e apavorada. Sua voz sai com dificuldade.

Carmen
– Jairo…meu amor…

O silêncio volta à ser soberano no pavilhão. Jairo está sentado naquele chão imundo, com o olhar fixo na janela vazia. Carmen soluça e começa chorar baixinho.

Ouve-se batidas de palmas de alguém entrando pela porta grande do pavilhão. Carmen e Jairo se viram assustados.

O dono das batidas firmes e secas é João Acácio. Ele se aproxima sorrindo ironicamente.

João Acácio
– Detetive Carmen Sanchez…finalmente nos encontramos novamente.

Carmen Sanchez olha perplexa para aquela figura que ressurgia à sua frente. Por mais que ela não quisesse, ela sabia que uma hora ou outra ele poderia aparecer para cumprir o que ele prometeu aquela vez na prisão.

Carmen
– João… Acácio.

João Acácio se agacha perto da detetive. Ela sente um ar gélido subir pela sua espinha. Fica imóvel, olhando com os olhos arregalados aquela figura diante dela. João estende o braço e, com a ponta dos dedos sujos, toca os cabelos loiros da detetive. Jairo tenta se levantar.

Jairo
– Desgraçado! Não toca nela!

Jairo fica parado feito uma estátua ao ver uma doce menina parada diante da porta de entrada do pavilhão com uma flecha em um arco apontada para ele.

Carmen vira o olhar para onde os olhos de Jairo indicam. Ela se espanta ao ver a pequena Rebeca.

Carmen
– Rebeca?

João Acácio sorri se levantando.

João Acácio
– Então, detetive. Já conhece minha doce filha Rebeca pelo jeito…

João olha para a menina.

João Acácio
– Mantenha ele na mira, igual fez com aquela caça, lembra? E qualquer movimento…

João faz um gesto de atirar a flecha.

Rebeca
– Eu sei…atiro sem dó.

Carmen se levanta indignada e é contida por João que segura seu braço e a empurra de volta ao chão.

Carmen
– Que você tá fazendo seu monstro?

João Acácio põe o dedo indicador sobre os lábios.

João Acácio
– Quieta, detetive. Porque agora quem tá no comando sou eu…

João pára ao lado de Rebeca colocando a mão sobre o ombro da menina.

João Acácio
– …e minha doce filha Rebeca.

Carmen Sanchez encara a pequena Rebeca.

Carmen
– Rebeca, o que está acontecendo menina?

Rebeca, em um ato de impulso, aponta seu arco para Carmen. João Acácio coloca a sua mão sobre o arco de Rebeca sorrindo.

João Acácio
– Calma, minha menina. Calma. Cuida daquele ali. Deixa que o papai cuida do detetive aqui.

A pequena Rebeca volta à ter Jairo na sua mira. João Acácio se aproxima e ergue a detetive pelo braço.

Carmen
– Você é louco! Vamos conversar João. Eu posso facilitar as coisas pra você. Vamos usar tua doença à nosso favor.

João Acácio sorri e assobia enquanto puxa a detetive pelo braço. Sua intenção é trancafia-la em um cubículo que há nos fundos do pavilhão. Um lugar nojento cheirando à podre e onde os ratos já tomaram conta.

João Acácio
– Já disse, detetive. Você perdeu a voz de comando. Agora vai conhecer o outro lado.

Jairo está parado sem reação. Não consegue acreditar que está sendo refém de uma menina de dez anos de idade.

Jairo
– Ei menina…vamos acabar com isso. Você não precisa fazer o que este louco manda.

Rebeca
– Ele é meu pai. E ele disse que posso atirar se tu não ficar quieto.

Escuta-se o estrondo de uma porta se fechando nos fundos do pavilhão.

Carmen
– Naaaao! Me larga! Seu desgraçado!

Jairo
– Droga, menina! Me deixa ir salvar a detetive!

Rebeca segura firme o arco e flecha.

Rebeca
– Se tu se mexer ou falar mais uma vez, eu juro que atiro.

Carmen
– Jairo! Socorro!

Jairo se desespera. E ele não acredita que aquela doce criança terá coragem o suficiente para fazer o que acaba de falar.

Jairo solta um grito de raiva. Se joga atrás de um pilar de concreto. Rebeca o segue mantendo-o na mira, embora agora o pilar a atrapalhe.

Jairo
– Faz o que tu quiser, sua pirralha desgraçada! Mas eu vou lá salvar ela!

Jairo está ofegante. A cabeça ainda dói. O corpo todos ainda sente as pancadas do acidente. Ao fundo se escuta os gritos desesperados de Carmen Sanchez.

Jairo
– Merda!

Ele põe as mãos na cabeça.

Jairo
– Coragem, Jairo. Coragem.

Em um ato impulsivo e de bravura, Jairo se levanta e corre na direção dos fundos do pavilhão. Rebeca fica parada mantendo-o na sua mira, embora ele se distancie com a corrida. Ela fecha os olhos e lembra as palavras do pai: “se concentra! cuida a respiração! mantenha o alvo na mira! nao feche os olhos!”

Rebeca abre os olhos e atira. A flecha dança pelo ar ganhando velocidade e atinge a parte superior da escápula esquerda de Jairo, que grita de dor, cambaleia e cai de joelhos para, em seguida, se espatifar de cara no chão.

Ruas de Alcatraz

A camionete com vidros fumês dá a partida virando à direita logo que o sinal abre. Ela entra em uma rua longa de grandes casas de ambos os lados da rua. É a camionete de Olavo Azir. Ela segue reta naquela rua onde só se escuta o uivo do vento misturando-se ao  ronco do seu motor.

Voz de Olavo
– Às vezes ouço o vento passar, e só de ouvir o vento passar, vale a pena ter nascido, minha cara…nascemos, crescemos e passamos a vida sem muitas vezes perceber que tudo, absolutamente tudo, é tão passageiro..

A camionete pára no sinal vermelho em um cruzamento. Um outro carro cruza na rua paralela. Mesmo com o sinal fechado, a camionete, lentamente, segue o seu trajeto.

Voz de Olavo
– …nossa passagem por aqui é efêmera. Muitos de nós demoram muito, ou talvez nunca se dão conta disso. Muitos vivem como se nunca fossem morrer, outros morrem como se nunca tivessem vivido. Tudo o que temos, temos agora. Tudo o que somos, somos agora…o amanhã pode nunca chegar.

A camionete estaciona em frente à uma casa grande de alvenaria, com uma cerca baixa de ferro na frente, o que é costume na região. Ninguém sai do veículo. O silêncio perpetua e o uivo do vento faz algumas folhas secas voarem pelo capô e vidro frontal da camionete.

Voz de Olavo
– Tenha a certeza que você está fazendo a coisa certa, minha jovem. Sua alma vai celebrar, seu espírito vai agradecer e a sua luz vai brilhar tanto, que todos a sua volta serão iluminados.

No interior da camionete quem está ao lado de Olavo é a jovem Bia, recuperada do dia anterior. Ela tem as mãos cruzadas sobre as pernas e a cabeça baixa.

Olavo, calmamente, pega um pacote do console da porta, desembrulhando-o e revela um dispositivo acoplado em uma pequena caixa. Ele pega uma alça, também do console da porta, prende-se na caixa e larga sobre o colo da jovem. Olha para Bia.

Olavo
– Quanto tempo você quer?

Bia encara a caixa com o dispositivo no seu colo. Coloca a alça em volta de seu abdômen certificando-se que está bem firme e bem preso. Olha para Olavo. Está apreensiva.

Bia
– Acho que não preciso de muito tempo. Quanto mais rápido, melhor.

Olavo abre o porta-luvas e pega outro embrulho. Abre e separa três grandes imãs, entregando-as para a jovem ao seu lado.

Olavo
– Programe para cinco minutos depois que sair do carro. Tempo suficiente para instalar os três imãs separados e bater à porta. Fazer tudo como o combinado.

Bia
– E depois?

Olavo sente no olhar da jovem o quanto ela encontra-se apreensiva.

Olavo
– Depois acabou… Alá vai lhe receber de braços abertos.

Aquela caixa com aquele dispositivo é o que chamam de “bomba suicida”. Ela só pode ser acionada quando estiver localizada entre os três imãs catalisadores. E não há tempo para escapar. O seu acionamento precisa ser feito manualmente e, sendo assim, a pessoa que o fizer, está fadada à explodir junto. Os imãs catalisadores, como o próprio nome diz, puxa a energia da caixa acionada pelo dispositivo e libera o material responsável pelas explosões. O impacto é grande. O estrago é majestoso. E sobreviver não está nos planos.

Bia respira fundo e desce da camionete, fechando a porta em seguida. Os passos até chegar próxima à residência em questão parecem uma eternidade. Ela contorna a casa pelo lado direito para começar à instalar os imãs catalisadores.

À cada imã instalado estrategicamente, Bia sente um arrepio pelo seu corpo. Ela olha para o dispositivo e o tempo passa rápido demais. São seus últimos minutos. Ela sabe que logo sua alma se encontrará em outro plano, ou melhor, isso é o que Olavo lhe convenceu à acreditar.

Ela instala o último imã, contorna a casa e volta à sua frente se parando na frente da porta. Ela se vira e olha para Olavo, no carro do outro lado da rua observando tudo. Ele sorri para ela. Deixa o carro em ponto morto e anda um pouco mais para frente, de onde fica com Bia e a casa no retrovisor. Olha as horas no relógio do painel.

Olavo
– Vamos menina, o tempo está passando.

Na porta da casa Bia está parada. Fecha os olhos. Respira fundo. Olha novamente para o dispositivo: 2min45seg e diminuindo. Ela cria coragem e bate à porta.

Alguns segundos se passam até que a porta é aberta. E alguns segundos, por menos que sejam, são muito importantes na missão de Bia.

Gaitán se surpreende ao ver a jovem na sua porta.

Gaitán
– Você?

Ele encara Bia de cima à baixo.

Gaitán
– Como sabia que eu moro aqui? Você andou me seguindo sua vadia?

Ao ouvir as palavras de baixo calão do delegado Gaitán, a jovem Bia tem a certeza do que precisa fazer.

Bia
– Se fosse você me tratava melhor, delegado…

Bia coloca a mão direita sobre o abdômen, onde está posicionada a caixa com o dispositivo em contagem regressiva. Gaitán é um homem esperto, experiente e nota que tem algo estranho acontecendo.

Gaitán
– O que você tem aí?

Gaitán se aproxima e tenta ver o que Bia esconde. Ela se protege evitando que ele veja.

Bia
– Droga, me larga! Eu só vim aqui pra ter certeza. Achei que você poderia ter mudado de ideia…mas pelo visto não mudou…

Gaitán nota uma luz vermelha piscando.

Gaitán
– Droga, sua piranha. Eu não acredito que…

Bia sorri. Ela já viu que Gaitán já sabe do que se trata. Chegou a hora do adeus.

Bia
– É, delegado. Conhece o ditado sobre quem ri por último? Eu estou de bem com tudo isso…

Bia ergue a blusa revelando a caixa com o dispositivo que já marca menos de 40 segundos. Gaitán se apavora.

Gaitán
– Merda, merda, merda. Desativa isso aí! Tu vai morrer junto!

Bia fecha os olhos.

Bia
– Que Alá me receba de braços abertos.

Bia aperta o botão e o tictac rápido do dispositivo começa tocar. Gaitán empurra a jovem para o lado e se joga no pátio à sua frente.

Através da visão de Olavo, dentro do carro, do outro lado da rua, a casa toda vai pelos ares. A fumaça preta toma conta de tudo.

Olavo
– Adeus delegado Gaitán. Obrigado por nada…adeus jovem Bia, que Alá te receba.

Olavo está satisfeito. Aprecia aquele desastre com um sorriso no rosto, até o momento que vê Gaitán sair tossindo e cambaleando em meio à fumaça.

Olavo
– Não é possível!

Olavo pega uma arma de trás do seu banco. Uma AK 47. Ele desce da camionete engatilhando a arma.

Olavo
– Não…não…não…você não vai sair dessa.

Olavo pára na calçada, esperando a aproximação de Gaitán, que está passando mal por causa da fumaça.

Olavo aponta a AK 47 para Gaitán, que pára e cai de joelhos enquanto tosse.

Olavo dispara vários tiros contra o delegado Gaitán…

Nova Delegacia de Alcatraz

Um policial engatilha sua arma e entra na viatura de sirenes já ligadas pelo lado do caroneiro. Ele põe a mão para fora do vidro e dá dois tapas contra a lataria da mesma, que dá a partida saindo em velocidade pelas ruas de Alcatraz.

O diretor Miranda sai pela porta da delegacia falando ao telefone.

Diretor Miranda
– Foi uma ligação ruim…ela tava cochichando, quase não conseguimos entender…conhece este pavilhão?

O diretor Miranda desce as escadas em direção à uma outra viatura já de portas abertas lhe esperando.

Diretor Miranda
– Uma viatura já saiu com Celso e o Pires. Eu tô indo agora com o Ramón.

O diretor Miranda entra na viatura desligando o celular.

Diretor Miranda
– Vamos, vamos. Detetive Carmen e seu marido correm perigo.

A viatura dirigida por Ramón dá a partida e a sirene é ligada, saindo logo em seguida.

Pavilhão abandonado

A viatura dirigida por Ramón chega ao pavilhão abandonado logo em seguida que a outra viatura estacionou. Ramón e o diretor Miranda se juntam aos outros dois policiais, todos com armas em mãos.

Diretor Miranda
– Droga! Isso aqui tá realmente largado às traças. Faz tempo que não vinha aqui. Está tudo aberto, é um local perigoso.

Miranda olha para seus policiais ao seu lado.

Diretor Miranda
– Tomem cuidado!

Miranda faz sinal com a mão para os dois policiais da viatura da frente irem um por cada lado. Ele e o outro policial caminham à passos lentos e cuidadosos em direção da porta do pavilhão.

Dentro do pavilhão

João Acácio está voltando da salinha lá dos fundos. Traz consigo um sorriso debochado no rosto e segura um facão na mão. Ao ver Jairo espatifado no chão e a flecha cravada em sua escápula, João se aproxima batendo palmas.

João Acácio
– Bravo, minha menina. Bravo!

Rebeca treme segurando o arco. Está imóvel vendo sua vítima no chão. João Acácio se agacha e retira a flecha com um só puxão, jogando-a para o lado. Levanta e vai até Rebeca. Pega o arco das mãos trêmulas da menina e afaga seus cabelos.

João Acácio
– Acabou. Logo se sentirá melhor. E sentirá orgulho do que fez.

Escuta-se o barulho de pés pisando em estilhaços de vidro do lado de fora. João põe a mão sobre a boca de Rebeca para ela ficar em silêncio. A menina arregala os olhos. João olha para ambos os lados e para a porta frontal, quando o diretor Miranda e três policiais surgem apontando suas armas para ele e Rebeca.

Diretor Miranda
– Parado!

O diretor Miranda, com a arma engatilhada e apontada, olha para os outros policiais, todos concentrados em seus afazeres. Ele faz sinal com a cabeça para um policial se aproximar de vagar de João e da menina.

João Acácio
– Nem mais um passo!

Diretor Miranda
– Solta a menina!

João Acácio sorri seu sorriso amarelado.

João Acácio
– Estratégia errada! Ela tá comigo. Tá do meu lado seu policial! Quer ver?

Calmamente, João Acácio solta Rebeca e a menina fica parada ao seu lado.

Diretor Miranda
– Rebeca? Vem pra cá vem…pode vir!

A menina levanta a cabeça olhando para João ao seu lado. Depois encara o diretor Miranda e balança a cabeça negativamente.

Diretor Miranda
– O que tu fez seu desgraçado?

João Acácio ergue ambas as mãos ao lado do corpo e sorri.

João Acácio
– Eu? Não fiz nada! Deve ser o sangue que corre nas veias dela…como é que dizem mesmo?

João Acácio faz cara pensativa olhando para o teto.

João Acácio
– Ahh, lembrei. O sangue puxa!

Miranda fica sem entender nada.

João Acácio
– A menina é minha filha, porra!

Jairo se contorce e geme de dor.

Diretor Miranda
– Deixa a gente levar ele daqui!

João Acácio olha para Jairo.

João Acácio
– Isso foi obra da minha menina!

Todos se entreolham.

João Acácio
– Tá. Pode levar esse aí.

Miranda faz sinal para um policial, que corre e se agacha perto de Jairo ajudando-o à se reerguer. Ele caminha com Jairo para fora do pavilhão.

Diretor Miranda
– E a detetive Carmen?

João Acácio
– Detetive Carmen? Que detetive?

Jairo
– Filho da puta! Ele trancou ela lá no fundo!

João Acácio firma a mão no seu facão. Rebeca toma seu arco.

João Acácio
– Ninguém se aproxima!

Ouve-se gritos e chamados de Carmen, vindo lá da salinha dos fundos.

João Acácio
– A desgraçada da detetive fica lá!

Diretor Miranda
– Ahhh, não fica!

Miranda mira sua arma na perna de João e atira.

João Acácio cai gritando de dor.

Rebeca, apavorada, corre e se joga em um policial derrubando-o. A menina derruba a arma do policial, que fica sem reação. Ela, sentada sobre ele, crava seus dedos miúdos nos olhos do policial que começa gritar de dor.

Diretor Miranda
– Droga!

Miranda se aproxima com a arma apontada para João, chuta o facão para longe. Um policial corre para os fundos soltar a detetive. O outro policial corre e agarra a menina tirando-a de cima do colega e segurando-a firme pelos braços.

Rebeca, em um momento de descuido do policial, morde seu braço. Ele a larga gritando de dor e o diretor Miranda, apavorado com a destreza e coragem da menina, se aproxima para ajudar seu colega.

Rebeca pega seu arco, coloca a flecha e segura-o apontando para os dois. João Acácio observa a cena e se arrasta até onde está seu facão.

Diretor Miranda
– Calma Rebeca!

João Acácio pega o facão e se levanta com dificuldade. O sangue escorre da sua perna. Ele aponta o facão para os dois quando o policial sai da sala dos fundos com Carmen aos prantos.

João Acácio
– Todo mundo quietinho ou eu corto todos!

Rebeca
– E eu atiro também!

O policial pára com Carmen. Ela está tonta e machucada, chora e se apóia nele. João Acácio se afasta de costas para a lateral do pavilhão, segurando o facão apontando para os outros. Ele pula uma janela.

Diretor Miranda
– Desgraçado! Vai fugir!

João Acácio coloca a cabeça na janela.

João Acácio
– Vem Rebeca!

Rebeca começa andar de costas para a janela com a flecha em prontidão para se precisar atirar.

João Acácio
– Merda!

João Acácio se some da janela e a menina é surpreendida pelo policial que levou Jairo para fora. Ele a agarra e joga longe o seu arco enquanto ela se debate tentando se desvencilhar.

Policial
– Fica quieta menina!

Mais tarde

Clínica Psiquiátrica Frederick Angels

Uma ambulância entra pelo portão grande de um lugar de muito verde da natureza, localizado à alguns quilômetros na saída de Alcatraz.

A ambulância sobe um pequeno morro de calçamento de pedra rodeado de várias árvores altas, todas cortadas na mesma altura. Ela segue até uma casa branca de três andares.

Enquanto estaciona em frente à casa, uma mulher mais velha vestida de roupas brancas de enfermeira, e um homem mais jovem, também de roupas brancas de enfermeiro, aparecem na porta.

Homem
– Mais um paciente?

Mulher
– Uma criança pelo que me falaram no telefone.

Um outro enfermeiro desce da ambulância, abre a porta traseira e retira a pequena Rebeca, presa à uma camisa de força e com uma mordaça na boca.

Mulher
– E uma criança que nos trará grandes problemas pelo jeito.

Mais tarde…

A pequena Rebeca está em uma sala isolada no terceiro pavimento daquela casa/clínica. Ela se encontra sentada sobre os calcanhares em cima de uma mesa localizada logo abaixo da janela trancada com grades. Rebeca observa o movimento do lado de fora, com uma expressão serena e tranquila, muito provavelmente, devido aos remédios à que foi sujeitada.

Com seus olhos pequenos e atentos ela acompanha um carro cinza que sobe o morro de calçamento de pedra rodeado de árvores altas, até chegar em frente à casa. Ela sorri. Aquela imagem lhe traz uma paz no coração. É o verde das árvores, o azul do céu, a magia e tranquilidade daquele lugar…

…mas…

…seu sorriso de paz dá lugar à uma expressão fechada e de raiva. Através dos seus pequenos olhos somos apresentados ao motivo desta mudança drástica de humor. Do carro cinza descem Olavo e Adilah e, tudo o que a pequena Rebeca pensa é: ” eles não vão me levar! Se precisar eu mato!”.

Nova Delegacia de Alcatraz

O diretor Miranda está parado atrás da mesa que era do delegado Gaitán. Ele pega um porta-retrato com a foto do amigo de cima da mesa e olha com ternura, largando-os de volta no lugar.

Diretor Miranda
– É meu amigo…chegou a hora. Mas pode ficar tranquilo que eu vou honrar o trabalho feito por ti.

O diretor Miranda ajeita o paletó, contorna a mesa, respira fundo e, à passos firmes, vai na direção da porta da sala abrindo-a.

Ele se depara com todos os policiais do departamento parados de pé lhe esperando. Ao vê-lo todos começam bater palmas. Do meio dos policiais surge a detetive Carmen Sanchez caminhando com certa dificuldade e trazendo consigo uma pequena caixa em mãos. Ela se pára na frente de Miranda e abre aquela pequena caixa revelando o seu conteúdo: um distintivo de delegado. Agora Miranda subiu do cargo de diretor de penitenciária para delegado de Alcatraz.

Carmen
– Acho que o cargo não poderia ficar em melhores mãos.

Ela coloca o distintivo sobre o paletó de Miranda, que baixa a cabeça para olhar.

Miranda
– Ficou bom em mim?

Todos riem e batem mais palmas. Alguns policiais assobiam. O clima é de festa na nova delegacia. Miranda faz sinal para que todos se acalmem e façam silêncio e o murmurinho então, vai diminuindo até todos se calarem.

Miranda
– Só aceitei este cargo por dois motivos:

O agora, delegado Miranda, caminha entre os policiais.

Miranda
– 1) por poder substituir meu colega e grande amigo Gaitán…e talvez ter a chance de vingar o que houve com ele.

Miranda pára no meio de todos e ergue o dedo.

Miranda
– Porque pode ter certeza que vamos descobrir e vamos prender o desgraçado!

Há o começo de uma nova algazarra dos policiais comemorando. Miranda pede silêncio novamente.

Miranda
– 2) eu não poderia largar a direção da penitenciária Araújo Sardinha, modelo no nosso estado, sem ter a certeza que iria deixar alguém capacitado para me substituir…

Miranda se vira para onde está a detetive Carmen Sanchez, concentrada ouvindo suas palavras.

Miranda
– …e numa conversa séria com o governador, decidimos que a direção da penitenciária Araújo Sardinha realmente ficará em boas mãos…

Miranda aponta o dedo para Carmen.

Miranda
– …detetive Carmen Sanchez, você acaba de ser promovida a diretora Carmen Sanchez, responsável por manter e elevar o nível da Penitenciária Araújo Sardinha.

Todos olham aprovando a decisão, pois sabem da real capacidade da detetive.

Carmen
– Lisonjeada estou meu delegado.

Miranda se aproxima de Carmen lhe abraçando e parabenizando pela promoção.

Miranda
– Policial James, este momento merece uma foto.

Miranda se coloca ao lado de Carmen. Sorriso nos rostos. Carmen, embora feliz, ainda debilitada pelos últimos eventos ocorrido. James pega o celular, liga a câmera e tira a foto. Todos querem cumprimentar o novo delegado e a nova diretora. O clima é agradável. Pode ser o início de uma nova era de justiça na região.

Clínica Psiquiátrica Frederick Angels

Dentro da clínica a enfermeira chefe, a mesma mulher que recebeu Rebeca na clínica, conversa com Olavo e Adilah escorados no balcão da recepção, onde a atendente encontra-se ao telefone.

O casal escuta atento às palavras da enfermeira chefe e Adilah cai aos prantos nos braços de Olavo.

Adilah
– Mas ela é nossa filha…digo, não de sangue…mas é nossa pequena…

Adilah encara o marido.

Adilah

– …explica pra ela Olavo. Rebeca não pode ficar aqui neste lugar…

Olavo abraça a esposa.

Enfermeira chefe
– Não há o que fazer. Não podemos contrariar a vontade dela. E ela…ela não quer ver vocês.

O policial James, acompanhado de um outro policial mais novo, entram na clínica chamando atenção de todos que estão por ali. James coloca a mão sobre a arma na cintura e se aproxima da enfermeira chefe e do casal. O outro policial fica parado na porta, também com a mão na arma.

James
– Senhor Olavo Azir?

Olavo se vira com cara de assustado para o policial. Adilah, agarrada ao braço do marido, olha perplexa.

Olavo
– Sim?

James
– O senhor está preso pelo assassinato do delegado Gaitán…

Adilah se desespera.

Adilah
– Não…o que você tá falando policial? Meu marido não fez nada!

Olavo tenta acalmar a esposa. Ele sabe que não há o que fazer. Sabe que tem culpa. Sabe que cedo ou tarde seria pego.

Olavo
– Calma Adilah…

Olavo afasta a esposa de perto. Estende os braços juntos para a frente. O policial James tira as algemas do cinto e as coloca nos pulsos de Olavo.

Adilah fica sem reação e começa à chorar. A enfermeira chefe notando seu estado, lhe ajuda à sentar-se, enquanto o policial James conduz Olavo para fora da clínica.

No dia seguinte

Aeroporto internacional Afonso Pena – Grande Curitiba

Adilah Azir, toda elegante em um longo traje muçulmano, está de pé diante da janela de vidro olhando as aeronaves que decolam e aterrissam na pista. Ao seu lado estão suas duas malas. Uma voz de criança chama sua atenção e ela se vira rapidamente vendo um pai sendo puxado pela mão por uma menina de cabelos cacheados, que aparenta a mesma idade de Rebeca.

Menina
– Olha, pai. Olha o tamanho do avião!

Lágrimas brotam nos olhos de Adilah. Ela sorri para a menina, que lhe devolve um olhar encabulado.

Voz no alto falante
– Atenção passageiros com destino à Roma. Embarque no portão 15 em quinze minutos.

Adilah se volta para o interior do saguão, suspira fundo, pega suas malas e se junta àquela algazarra da multidão que se aglomera. A menina de cabelos cacheados puxa o braço do pai quando Adilah se afasta.

Menina
– Porque aquela moça tava chorando?

O pai se ajoelha em frente à menina.

Pai
– As viagens acabam causando isso na gente…se chama saudade. Saudade de alguém que se foi. Saudade de alguém que recém chegou…saudade de alguém que talvez você não veja mais.

O pai abraça a menina.

Pai
– Eu sentirei saudades quando você entrar no avião com sua mãe…

Alguns dias depois

Lar de acolhimento Nova Esperança – grande Curitiba

Carmen Sanchez, agora diretora da penitenciária Araújo Sardinha, e Jairo, seu marido, desembarcam de um táxi em uma rua de calçamento de pedra. A placa na calçada indica que estão no bairro Campo de Santana em Curitiba. Jairo paga ao motorista e o táxi parte.

Carmen e Jairo atravessam a rua e param em frente à um portão verde, onde logo acima há uma placa de metal com a escrita: Lar de Acolhimento Nova Esperança. Jairo toca a campainha.

Dentro do Lar de acolhimento

Uma simpática senhora acompanha Carmen e Jairo por um longo corredor coberto que leva até o interior da casa. Ao redor, muito verde, muitas árvores e bancos coloridos. No crachá preso ao jaleco daquela senhora, o seu nome: Tereza Dias.

Tereza
– Nós somos uma associação civil, sem fins lucrativos…não temos nenhum apoio governamental para nos mantermos. Todas nossas atividades são realizadas com a participação de voluntários e de algumas empresas fixas, que é o que nos ajuda à manter o pagamento dos nossos funcionários fixos.

Os três chegam na porta de entrada da casa, de onde ia se pode ver algumas crianças em suas atividades no interior. Tereza se pára na porta dando lado ao casal.

Tereza
– Por favor, fiquem à vontade.

Os olhos do casal se enchem de lágrimas ao verem as crianças. Carmen se agarra só braço de Jairo lhe encarando e sorrindo.

Jairo
– Vocês têm crianças de que idade até que idade?

Tereza
– Hoje contamos com 40 crianças de meses de vida até 07 anos de idade…

Tereza fecha a porta e os encaminha até um sofá em uma sala de recepção. No caminho uma funcionária fica conduz uma atividade de desenhos com algumas crianças de 03 e 04 anos.

Tereza
– …mas já tivemos crianças de 10 anos de idade que, graças à Deus, lhes conseguimos um lar. Pois é uma idade que ninguém quer adotar.

Carmen e Jairo sentam no sofá de frente para uma grande janela de vidro que dá para um dos pátios, onde dois jovens identificados como voluntários fazem atividades no parquinho com um grupo de crianças de 05 à 07 anos.

Clínica Psiquiátrica Frederick Angels

Uma enfermeira gorda empurra um carrinho pesado de ferro pelo corredor na ala dos isolamentos. Ela pára em frente à porta do quarto 33. Pega um molho de chaves no não do jaleco, procura pela chave correspondente e a coloca na fechadura.

No interior do quarto está a pequena Rebeca sentada no chão, escorada em uma parede no canto e abraçada em suas pernas. Ela levanta a cabeça e fica à observar a enfermeira entrar empurrando aquele carrinho.

A enfermeira gorda pára com o carrinho no meio do quarto e começa arrumar a medicação.

Enfermeira
– Hora dos remédios, sua porca!

Rebeca lhe encara e faz cara feia.

Enfermeira
– E não adianta fazer cara feia…

A enfermeira pára de ajeitar a medicação.

Enfermeira
– …se bem que eu poderia nem te dar estes remédios e deixar você enlouquecer de vez trancada aqui…

A enfermeira gorda se vira para pegar algo no carrinho e é surpreendida por Rebeca de pé na sua frente com as duas mãos para trás. A enfermeira se assusta..

Enfermeira
– O que quer menina? Tá loca de vez, já? Senta lá no canto pra tomar estes malditos remédios!

Rebeca
– Não…

A pequena Rebeca segura uma tesoura em suas mãos. Em um golpe frio e calculado, ela crava a tesoura no abdômen da enfermeira, que se segura no carrinho derrubando todos os medicamentos.

O corte é profundo e logo começa sangrar muito, fazendo com que a enfermeira gorda caia no chão do quarto. Rebeca se deleita com a cena à sua frente. Se ajoelha ao lado daquele corpo sangrando e suplicando por ajuda, segura a tesoura com as duas mãos erguendo-as acima da cabeça, e desfere vários golpes sem dó nem piedade.

Lar de acolhimento Nova Esperança

Carmen e Jairo estão de pé na porta da casa, junto com Tereza e um menino de 08 meses no colo.

Tereza
– Tenho certeza que o Joaquim aqui terá um belo e aconchegante lar, cheio de amor e carinho…

Carmen acaricia o menino que sorri e estende o bracinho querendo pegar o seu colar.

Tereza
– Agora, senhor Jairo, vou providenciar toda a papelada, toda a parte burocrática…e logo entramos em contato…

Jairo
– Ficamos muito agradecidos, senhora ..e torcemos para que não demore muito.

Tereza
– Não se preocupem. Nossos advogados costumam ser rápidos nos nossos casos.

Carmen sorri e se aconchega nos braços do marido.

Tereza
– Dá tchau tchau pra eles dá!

Tereza pega a não da criança no seu colo e abana, enquanto o casal segue pelo longo corredor de volta ao portão verde.

Floresta na região de Alcatraz

O sol lança seus raios que penetram através das frestas dos galhos das arvores, iluminando e facilitando o caminho para João Acácio, que mais do que nunca, perambula sem destino com seu casacão e seu chapéu.

João Acácio sente os sintomas de sua esquizofrenia se tornarem mais evidentes. Sabe que se preocupar-se demais ajuda à piorar o seu quadro. E ele está preocupado. Sabe que teve que fugir e que agora, sem sombra de dúvidas, está sendo caçado. Sabe que deixou sua filha recém reencontrada ser capturada e, sabe se lá, levada para onde.

João já está há horas perambulando, com sono, cansado e com fome. Em meio à mata fechada, ele avista movimento de pessoas, risadas e ruídos de motores. João, com cuidado e se escondendo atrás das árvores, procura se aproximar daquele movimento.

Através do seu olhar curiosos, uma grande área devastada daquela floresta, onde um circo está montado. João acha tudo aquilo estranho, mas logo repara que mais ao fundo, do outro lado, uma estrada liga aquela área desconhecida à várias cidades vizinhas.

Um homem alto, de roupa colorida, carta na cabeça e com um macaco em seu ombro, adentra na lona do circo. João levanta o olhar e vê uma grande placa colorida e florescente, onde diz: CIRCO MAXIMUS. Ele olha para os lados e espera todas aquelas pessoas se recolherem em barracas montadas ao redor, e depois cria coragem para se aproximar.

No circo

João Acácio entra debaixo da lona do circo. As arquibancadas nos dois lados e na frente estão vazias e lá no palco dois jovens trapezistas, um homem e uma mulher, ensaiam para o último espetáculo logo mais à noite. João fica maravilhado com a performance deles. Seus olhos brilham e ele senta-se na última fileira bem de frente para o palco.

Uma jovem toda sorridente de cabelos vermelhos adentra na lona do circo por trás do palco. Ela carrega alguns panfletos consigo. Avista João Acácio sentado admirando os trapezistas e resolve se aproximar.

João Acácio está tão maravilhado com o balé exibido pelos trapezistas que nem repara quando a jovem se pára ao seu lado.

Jovem de cabelos vermelhos
– Senhor? Senhor?

Ela passa a mão no ar na frente do rosto de João.

Jovem de cabelos vermelhos
– Senhor?

João Acácio então desperta para a realidade.

João Acácio
– Ahhh…desculpa…fui entrando sem pedir…

Jovem de cabelos vermelhos
– Não tem problema senhor. Estão só ensaiando, fazendo os ajustes finais para nosso último espetáculo na região hoje à noite.

A jovem estende o braço alcançando um panfleto nas mãos de João.

Jovem de cabelos vermelhos
– Toma. Veja nossas atrações. E venha prestigiar. Acho que vai gostar.

João Acácio sorri olhando o panfleto.

João Acácio
– Minha filha iria gostar…

A jovem de cabelos vermelhos sorri entusiasmada.

Jovem de cabelos vermelhos
– Então traga ela! E quando chegar, procure por Mirela…

Ela faz uma reverência para João.

Jovem de cabelos vermelhos
– …esta moça que vos fala. E lhes consigo um lugar especial.

João Acácio encara a jovem.

João Acácio
– Quem sabe…

Os trapezistas no palco, descem do trapézio. O homem olha na direção da jovem e de João.

Homem
– Mirela! Preciso da tua ajuda no camarim.

Mirela olha para trás.

Mirela
– Já vou!

Ela olha de volta para João.

Mirela
– Ohhh! Preciso ir. Último espetáculo na região. Está tudo uma correria. Espero ver o senhor e sua filha hoje à noite aqui.

João Acácio sorri. A jovem vira as costas e sai toda entusiasmada. João olha novamente o panfleto colorido, onde no topo está escrito:

CIRCO MAXIMUS
” Porque a magia nunca pode acabar”

padrao


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