En las cercanías de Alcatraz – Capítulo 8

Capítulo Oito – Calmaria e Tempestade

Dois meses se passaram

Delegacia Regional de Alcatraz

A nova delegacia de polícia de Alcatraz está instalada em um pavilhão antigo da cidade que estava desabilitado. As paredes de concreto e as salas com divisórias provisórias mostram que o local ainda não está 100%.

Em uma sala de 40 metros quadrados uma equipe técnica faz os últimos ajustes da instalação de linha telefônica e internet. Gaitán e Carmen estão sentados frente à frente em poltronas novas, que se contradizem com o lugar, divididos por uma mesa de mármore que os separa e que também se contradiz com o restante do local ainda sendo reformado. Em cima da mesa uma pilha de retratos de Rebeca em folha A4.

Carmen
– Vamos espalhar pelas cidades vizinhas também.

Gaitán
– Porra!

Gaitán bate com o punho cerrado sobre a mesa.

Gaitán
– Impossível que ninguém tenha visto essa menina por aí!

Carmen
– E o pior que as cobranças estão cada vez maiores.

Gaitán
– Eu sei, eu sei. É Olavo e sua esposa, é a imprensa, é a população achando que nunca fizemos nosso trabalho…

Carmen
– Temos que reconhecer que deixamos à desejar…nem o maldito encontramos.

Gaitán sorri enquanto se levanta dando lugar para um dos técnicos passar um fio de linha telefônica.

Gaitán
– E nada me faz pensar que este desgraçado não tenha algo a ver com o sumiço de Rebeca.

Carmen
– Mas ela fugiu de livre e espontânea vontade. Vimos pelas câmeras.

Gaitán
– Detetive Carmen…ok, fugiu de casa por vontade própria, mas dali um, dois, três dias no máximo seria encontrada. Impossível uma menina de dez anos desaparecer assim sem ter tido a ajuda de alguém.

Carmen fica pensativa. Gaitán pega a carteira de cigarro do bolso do paletó e retira um.

Gaitán

– E ainda tem o corpo do policial Demétrius encontrado em uma vala na beira da rodovia.

Carmen
– E o fato do seu companheiro Armando não conseguir ter uma explicação plausível para o ocorrido e hoje estar internado como um louco.

Gaitán acende o cigarro, dá uma tragada expelindo a fumaça pela sala.

Gaitán
– Pois é detetive. Me sinto com pés e mãos atadas.

Carmen
– Eu lhe disse. Lá no fundo a imprensa e a população estão no seu direito de cobrar. Estamos falhando.

Gaitán observa os técnicos fazerem os últimos ajustes nos cabos. Seu celular no bolso da calça toca uma, duas, três vezes. Ele larga o cigarro no cinzeiro em cima da mesa e o atende.

Gaitán
– Pronto!

Após alguns segundos.

Gaitán
– Delegado Monteiro…quanto tempo…só um minuto delegado.

Gaitán tira o celular do ouvido.

Gaitán
– Detetive, preciso atender o delegado Monteiro. Acho que teremos uma pequena ajuda nos nossos casos.

Gaitán retira-se da sala enquanto Carmen fica observando o serviço dos técnicos.

Mais tarde…

…em algum quarto de hotel barato

Gaitán, de cuecas e sem camisa, fuma um cigarro sentado com as costas apoiadas na cabeceira da cama. Lençóis bagunçados, roupas jogadas pelo chão e o barulho da água caindo do chuveiro no banheiro logo em frente.

O chuveiro é desligado e, em questão de segundos, Bia aparece saindo do banheiro enrolada em uma toalha. Cabelos molhados e olhar sacana para Gaitán, que fica a lhe observar.

Bia vai até a janela e abre as cortinas deixando a luz tímida do sol da manhã entrar. Ela suspira olhando as flores de umas árvores em frente à janela.

Bia
– Adoro a primavera…

Bia abre a janela, fecha os olhos e um sorriso toma conta do seu rosto.

Bia
– …sente este cheirinho de flores, hummmm.

Gaitán larga o cigarro no cinzeiro sobre o criado – mudo e calmamente levanta e vai na direção de Bia. Coloca ambas as mãos em volta de sua cintura e a abraça cheirando seu pescoço.

Bia, com o mesmo sorriso nos lábios, se vira ficando de frente para ele, com o rosto bem colado no seu olhando em seus olhos.

Bia
– Por mim ficaria aqui o resto do dia.

Gaitán sorri enquanto acaricia seus cabelos úmidos do banho.

Bia
– Claro né meu bem. Eu tô lhe pagando.

Bia muda sua expressão. Se afasta de Gaitán e cruza os braços fazendo cara de braba.

Bia
– Você realmente não acredita em mim né? Acha que só sou uma vadia e que não tenho sentimentos?

Gaitán
– Ora Bia. Tantos meses e você ainda trabalha na mesma rua, atendendo sei lá quantos por noite…

Bia
– Isso porque você não quer me assumir.

Gaitán ri das palavras da jovem. Se vira e vai pegar novamente seu cigarro. Bia o puxa pelo braço. Torna-se carinhosa e sensual novamente.

Bia
– Já te disse Gaitán. Me assume para todos e eu largo essa vida.

Gaitán cede à aproximação de Bia. À puxa para bem perto de si. Olha aquela mulher bem ali na sua frente, aquele corpo, aquela rosto angelical, aquele sorriso sacana, aquela boca sensual, e a beija fervorosamente.

Após um longo beijo quente, Gaitán afasta sua boca da dela e fica olhando em seus olhos.

Bia
– Isso foi um sim?

Gaitán sorri. Coloca sua mão pelo pescoço dela até atrás e a puxa pelos cabelos.

Gaitán
– Já disse que tu não presta né?

Bia gosta da atitude de Gaitán. Sorri com aquele seu olhar sacana. Ele a puxa pelo cabelo e a empurra para a cama. Ela deita e se desfaz da toalha que cobre seu corpo e o chama fazendo sinal com o dedo indicador enquanto mordisca seus lábios. Gaitán cede àquele chamado e vai para cama ao mesmo tempo em que um pássaro pousa no galho da árvore do lado de fora cantando e testemunhando aquela cena.

Residência da família Sanchez – quarto

A detetive Carmen Sanchez, de camisola transparente, desperta com a cabeça deitada no peito nú de Jairo. Sorriso nos lábios, ela inclina a cabeça para lhe olhar. Ele ainda dorme, então, com cuidado, ela acaricia seu rosto e pensa consigo mesma: “que sorte a minha tê-lo ao meu lado”. Afinal, depois de ter lhe contado toda a verdade, a relação melhorou muito. Jairo ainda tem o sonho de ter um filho, mas agora entende o lado de Carmen e a conforta e entende.

Jairo abre os olhos e a primeira imagem que vê é o sorriso de Carmen ali lhe encarando. Sente o toque sutil de sua mão lhe acariciando o rosto e fecha os olhos eternizando aquele momento.

Carmen
– Bom dia meu amor!

Jairo

– Bom dia…

Ele coloca sua mão sobre a mão dela que está em sua face.

Jairo
– …faz tempo que está acordada me olhando?

Carmen
– Não muito.

Carmen inclina um pouco mais a cabeça e da um selinho em seu marido.

Carmen
– Estava lhe admirando. E pensando o quanto tenho sorte em ter você do meu lado. Acho que não fosse teu apoio eu já teria enlouquecido.

Jairo
– Eu prometi que sempre estaria ao seu lado. Só estou fazendo o que prometi lá atrás.

Carmen
– Eu sei…

Carmen baixa a cabeça. Passa o dedo sobre o peito nú do marido.

Carmen
– …mas e o teu sonho de ter um filho? Você vai procurar outra para isso?

Jairo
– De onde você tirou essa ideia?

Carmen
– Eu só achei…

Jairo acalenta a esposa com um afago em seu cabelo.

Jairo
– Então pare de achar coisas…

Ele ergue a cabeça de Carmen colocando seu dedo sobre o queixo dela.

Jairo
– Olha pra mim. Sabe agora que tem todo meu apoio. Que vamos achar uma solução pra tudo. Nossos problemas, os teus problemas no trabalho…tudo se resolverá…ok?

Carmen Sanchez sorri encarando a lealdade do seu marido. Mais uma vez sente o quanto é amada e o quanto pode ter o apoio que necessita ali naqueles braços, naquele olhar, naquelas palavras.

Carmen
– O trabalho também está sendo complicado. Estamos falhando. Eu falhei, meu amor…eu não podia falhar.

Jairo
– Calma, você vai dar um jeito.

Carmen
– Eu não sei…como disse o Gaitán: estamos de pés e mãos atadas…

Carmen ameaça chorar e é confortada por Jairo que a abraça forte.

Carmen
– …aquela pobre criança…não fomos capazes de encontrar. Será que ela tá viva?

Jairo
– Tenha fé meu amor. As coisas vão se ajeitar. É só uma fase ruim.

Jairo à mantém em seus braços. Carmen desanda à chorar.

Final da tarde

Já passavam das 17h30min quando a detetive Carmen Sanchez desce as escadas para dirigir-se até o seu carro estacionado em frente ao pavilhão da delegacia. Ela é surpreendida por um chamado ofegante de um homem de meia idade, abrigo embarrado e blusa rasgada.

Homem
– Moça, moça!

Em um primeiro momento Carmen achou se tratar de um mendigo qualquer, mas quando viu seu rosto assustado, notou que seria algo de maior relevância.

O homem se aproxima de Carmen.

Homem

– Desculpa se te assustei, moça.

O homem respira fundo recuperando o ar.

Carmen, mesmo assustada, nota que não há maldade.

Carmen
– Tudo bem…se acalme…e aí me conta o que houve.

Carmen o ajuda à sentar-se no degrau da escada.

Homem
– Obrigado moça.

Carmen
– Ok…quer me contar o que houve? Quer entrar pra gente conversar?

O homem olha para trás e vê a placa indicando delegacia.

Homem
– Você trabalha na delegacia?

Carmen estende a mão.

Carmen
– Detetive Carmen Sanchez.

O homem receia por alguns segundos e depois estende a mão para a detetive.

Homem
– Arturo Ribeiro… acho que esbarrei na pessoa certa.

Carmen
– Ok Arturo. Vamos entrar que acho que é melhor do que ficar conversando aqui na rua.

Carmen o ajuda à levantar. Ela dá uma olhada na rua ao redor e o encaminha para dentro da delegacia.

Sala de Interrogatório da Nova Delegacia de Alcatraz

Carmen Sanchez abre a porta de ferro e se depara com uma sala de 25 metros quadrados, quase claustrofóbica. Nem ela tinha se dado conta o quanto aquela sala era ruim de ficar. Ela faz uma cara de nojo ao entrar. Pára do lado de dentro e faz sinal para Arturo entrar e se acomodar. Nota que ele também se sente mal ali dentro e tenta amenizar a situação com um sorriso simpático no rosto.

Carmen
– Nos desculpe o lugar desajeitado pra essas coisas, mas ainda estamos nos reorganizando por aqui.

Arturo apenas consente que sim com a cabeça. Ainda está apavorado com o que quer que tenha presenciado há algumas horas.

Carmen
– Pode se sentar.

Arturo observa mais uma vez mais o lugar e caminha para a cadeira de ferro com estofado azul em frente à uma mesa de mármore escura, que Carmen lhe indicou. A detetive fecha a porta da sala e já se dirigia para o outro lado da mesa, quando volta para deixar a porta entreaberta, ou nem ela ia aguentar ficar ali. “Precisava de uma janela, ou no mínimo pôr um ar condicionado aqui”, pensa ela enquanto vai para a cadeira do outro lado.

Carmen se acomoda na cadeira de frente para Arturo.

Carmen
– Então Arturo…

Arturo levanta a mão interrompendo-a.

Carmen
– …diga.

Arturo
– Teria um copo d’água, por favor?

Carmen
– Claro…claro. Já vou ligar pedindo que tragam.

Carmen observa o telefone em cima da mesa. Olha os fios e nota que está tudo em ordem. Aos poucos o lugar vai se adequando as necessidades. Retira o fone do gancho e disca.

Carmen
– Policial James? Poderia trazer um copo d’água aqui na sala de Interrogatório, por favor…ou melhor, dois. Dois copos d’água.

Carmen desliga o telefone.

Carmen
– Pronto. Já vão trazer!

Arturo ainda está muito assustado. Se não tomar uma água não conseguirá abrir a boca e contar tudo o que precisa. Ele fica em silêncio. Carmen o observa.

Carmen
– Precisa de uma água pra se acalmar né?

Arturo assente que sim com a cabeça.

Carmen põe a mão no telefone para ligar novamente quando o policial James, um homem loiro de 30 e poucos anos, entra trazendo os dois copos d’água pedidos.

James larga os copos sobre a mesa e se retira.

Carmen
– Obrigada policial.

Arturo, com a mão ainda um pouco trêmula, pega o copo sobre a mesa e toma um gole grande da sua água. Larga-o novamente na mesa.

Carmen
– Mais calmo agora?

Carmen pega seu copo, toma um gole e larga-o novamente.

Carmen
– Aqui estás seguro. Pode me falar tudo o que tem pra falar.

Arturo fica pensativo por alguns instantes, talvez imaginando como começar.

Arturo
– Eu saí pra correr na floresta como sempre faço no mínimo três vezes na semana…

Carmen
– Correr na floresta?

Arturo
– Sim. Adoro correr. Eu faço o percurso do caminho de terra. Dá uns 12, 13 km até o riacho…

Carmen
– Certo…e?

Arturo
– Só que desta vez não foi como das outras vezes.

Carmen
– Aconteceu algo contigo na floresta? Sempre esta maldita floresta! Tudo o que acontece em Alcatraz, a floresta tá no meio…

Arturo
– Nossa floresta sempre foi um lugar seguro, detetive…

Carmen ergue o crachá pendurado no pescoço com o seu nome.

Carmen
– Carmen. Detetive Carmen Sanchez.

Arturo
– Certo. Como ia dizendo, nossa floresta sempre foi um lugar seguro, detetive Carmen. Quando eu era criança costumava ir brincar lá com meus irmãos…

Carmen
– Os tempos mudam não é mesmo?

Arturo
– Mudam, detetive Carmen. E se tornam sombrios.

Carmen
– Segue Arturo.

Arturo toma mais um gole de água. Nitidamente está mais calmo.

Arturo
– Eu corri e como ainda estava com fôlego, fui um pouco mais do que costumava ir, seguindo sempre pelo caminho de terra. Aí me deparei com um cabana. Uma cabana que nunca tinha visto. Acho que quando criança nunca tinha ido até aquele ponto, ou ela foi construída depois.

Carmen fica surpresa com a informação. Se inclina sobre a mesa.

Carmen
– Uma cabana? Que tipo de cabana?

Arturo
– Uma cabana de tábuas largas. Duas janelas grandes na frente com a porta no meio. Mas tudo caindo aos pedaços.

Carmen
– E acredito que esteja abandonada, esta cabana?

Arturo
– Eu não confiaria muito nisso não detetive. Por fora tá caindo aos pedaços…mas dentro parecia habitável.

Carmen se recosta para trás.

Carmen
– Por dentro? Você entrou?

Floresta na região de Alcatraz

Arturo, com fones no ouvido, abrigo de moletom e blusa térmica, corre pelo caminho de terra no meio da floresta. Distraído, ele quase não vê onde está e quando se dá conta, pára espantado diante daquela cabana. Ele sempre correu por aquela floresta, mas nunca tinha chegado naquele lugar. Nunca tinha visto aquela cabana. Ele tira os fones do ouvido largando-os sobre os ombros.

Arturo olha para os lados. Tudo está em total silêncio. Nem canto de pássaros, nem barulho do vento, nem barulho da correnteza do riacho mais adiante… absolutamente nada. Ele, à passos lentos e cuidadosos, caminha na direção da cabana.

Sala de Interrogatório da Nova Delegacia de Alcatraz

Arturo
– Então encontrei a porta daquela cabana aberta…e entrei…e me deparei com cabeças de animais decepados, correias enferrujadas e…

A detetive Carmen Sanchez lhe empurra o copo d’água na sua direção. Arturo, novamente com a mão trêmula, pega o copo e toma mais um gole de água.

Arturo
– …eu juro que vi a cabeça de uma mulher pendurada na parede no meio das cabeças de dois veados…

Carmen está espantada.

Carmen

  – A cabeça de uma mulher, Arturo? Tem certeza? Não estava apenas muito admirado com tudo?

Arturo
– Eu sei o que eu vi…era uma mulher…

Carmen pega uma caneta do bolso do seu casaco e um pedaço de papel em uma gaveta da mesa.

Carmen
– E como era essa mulher, Arturo?

Floresta na região de Alcatraz – cabana

Arturo está parado no meio da cabana olhando espantado para a cabeça daquela mulher pendurada na parede no meio das cabeças de dois veados. Uma mulher loira de cabelos cacheados manchados de sangue, olhos arregalados e esverdeados olhando na sua direção, lábios carnudos e com um pequeno corte no canto e nariz levemente arrebitado e deslocado para a esquerda, provavelmente quebrado. Sua pele pálida denota de vários dias já ali.

Escuta-se um barulho de passos no lado de fora e duas vozes distintas. A primeira mais grossa e de poucas palavras, bem provável que à de João Acácio e a outra suave e aguda, a voz da pequena Rebeca. Mas Arturo não teve tempo de distinguir estas vozes. Ao ouvi-las, ele olha assustado para a porta aberta, olha para uma pequena janela fechada na lateral e corre até ela. Ele faz força para abrir o vidro que tranca na metade devido às madeiras tortas. Ele se contorce e salta para o lado de fora e fica agachado para não fazer barulho, pois João e Rebeca acabam de entrar na cabana.

Sala de Interrogatório da Nova Delegacia de Alcatraz

Arturo
– E eu fiquei ali sem dar nenhum pio, porque eles estavam ali. Eu não consegui vê-los, mas tive a clareza de que era uma voz masculina e uma voz feminina mais nova.

Carmen
– Voz feminina mais nova…como de uma criança? E o que eles disseram?

Arturo
– Eu não sei. Estava assustado demais…ele perguntou se ela tinha deixado a porta aberta. Ela disse que não lembrava, então ele a xingou. Mas aí eles foram pro fundo, acho que pro quarto e eu fugi…

A detetive Carmen Sanchez observa Arturo na sua frente. Faz sinal para ele tomar mais uma água. Nota sua blusa rasgada na lateral e no ombro.

Carmen
– Como rasgou a blusa?

Arturo toma um gole de água. Larga o copo.

Arturo
– Eu não voltei pelo caminho de terra. Corri no meio da floresta, me enrosquei  nos galhos. Só notei que tinha rasgado quando cheguei na cidade.

Carmen não fala nada. Fica lhe observando. Depois olha suas anotações no rascunho.

Carmen
– Tem para onde ir? Mora aqui perto Arturo?

Arturo
– Na rua 15 detetive.

Carmen
– Longe daqui…vou pedir pra organizarem uma cela e você pode dormir aqui esta noite. Vai ser mais seguro.

Carmen tira o telefone do gancho e disca. Em poucos segundos é atendida.

Carmen
– Policial James, organiza uma cama numa cela. Deixa travesseiro e coberta…e chama o doutor Gaitán aqui por favor. E, depois me traga o relatório das pessoas desaparecidas da região nos últimos dois anos.

Carmen desliga o telefone. Na sua frente, Arturo termina de tomar sua água. Claramente, necessita de um banho e uma noite tranquila de sono.

Carmen
– Vai ficar tudo bem Arturo. Aqui é seguro.

Floresta na região de Alcatraz

Um porco selvagem sai de trás de uma moita. Ele parece assustado. Desconfiado, olha para os lados até fixar o olhar em uma única direção.

João Acácio, camisa flanelada, calças jeans rasgada, botas de cano alto e seu chapéu, se posiciona atrás da pequena Rebeca, que também está usando um chapéu e segura um arco direcionado para aquele animal. João se inclina próximo da menina.

João Acácio
– Se concentra. Estica a corda do arco. Faz a mira.

Ele nota a tensão da menina que está tremendo.

João Acácio
– Se continuar esta tremedeira o tiro vai sair pela culatra.

Com suas mãos enrugadas e sujas, ele ajuda Rebeca à posicionar melhor o arco.

João Acácio
– A primeira vez não é fácil. Mas depois você se acostuma.

Rebeca vira o rosto para João.

Rebeca

– Mas ele é só…

João Acácio põe seu dedo indicador sobre a boca da menina.

João Acácio
– Shiiiiiii!

Ele retira o dedo da boca dela e volta a ajeitar o arco.

João Acácio
– Silêncio absoluto pra ele não escapar.

João Acácio ergue seu corpo, cruza os braços e fica observando a concentração de Rebeca.

João Acácio
– Concentra…concentra. Mira com cuidado…Mira com precisão…Trabalha a respiração.

Rebeca está assustada. Através da mira do arco ela cuida a aflição do animal lhe encarando. Ela fecha os olhos.

João Acácio
– Não feche os olhos!

Imediatamente, Rebeca abre os olhos. Em um ato de coragem, ela puxa e solta. A flecha sai certeira e só se ouve o lamento do animal.

João Acácio
– Bravo, menina! Bravo!

João Acácio retira o facão da cintura e vai aonde o porco selvagem caiu. Se ajoelha na sua frente e ergue o facão para o alto, descendo certeiro, sob olhares da pequena Rebeca.

Um pouco mais tarde…

João Acácio e sua filha Rebeca estão sentados em volta de uma fogueira, onde o animal caçado está sendo assado em um pedaço de pau pontiagudo.

João Acácio retira o pau pontiagudo de perto da fogueira. Com seu facão, corta um pedaço de carne e entrega para a menina. Corta um pedaço para si e devolve o pau pontiagudo com a carne ao fogo. Encara Rebeca, que está saboreando aquele pedaço de carne com as mãos.

João Acácio
– Carne da sua primeira caça. Tá boa?

Rebeca mastiga um pedaço e assente que a sim com a cabeça.

Rebeca
– Gostei de atirar. Gostei de matar.

João Acácio sorri aquele seu sorriso amarelado enquanto morde com vontade o seu pedaço de carne.

João Acácio
– Este é só o começo minha filha…só o começo…

Estação Rodoviária de Alcatraz – tarde da noite

O silêncio reina absoluto naquela noite agradável em Alcatraz. Os guichês da rodoviária já haviam fechado às 22h00min e agora só se faziam presentes por ali algumas pessoas que aguardam amigos e familiares que chegarão nos últimos ônibus entre 23h30min e 00h00min e alguns moradores de rua que se acolhem nos gelados bancos da estação.

Olavo Azir, com suas vestimentas muçulmanas, sobe as escadas que levam ao local de embarques e desembarques. Caminha por entre àqueles moradores de rua deitados nos bancos ou perambulando enrolados em cobertores em busca de restos de comidas pelas lixeiras, até encontrar um banco vazio em frente ao box de embarque e desembarque número 04. Senta-se e ali fica, de cabeça baixa e mãos cruzadas sobre as pernas batucando com os dedos uns nos outros, como se esperasse ansioso por algo ou alguém.

Escuta-se o ronco do motor de um ônibus entrando pela cancela de entrada da estação rodoviária. Olavo ergue a cabeça para ver melhor. Os moradores de rua já se atiçam, pois sabem que irá descer passageiros e é chance de algum deles darem alguns trocados para eles.

Olavo se levanta e fica aguardando o ônibus que se aproxima do box 04. Quando o ônibus faz a curva, seus faróis iluminam o local e pode se ver nitidamente, o mal cuidado do lugar.

O ônibus estaciona. Faróis desligados. A porta se abre e o motorista, um senhor baixinho e gordo, sai e fica recebendo os tickets de saída dos passageiros que começam à descer. Olavo está mais atrás, ansioso esperando.

Olavo Azir está inquieto. Será que quem ele espera não veio? Todas àquelas pessoas desembarcam e ainda nada de quem ele espera. Sua expressão é de apreensão. Quando, de repente, um sorriso largo toma conta do seu rosto e ele suspira aliviado. O motorista pega o ticket do último passageiro, um sujeito magro e alto, de barba rala e as mesmas vestimentas muçulmanas. O sujeito é Mohammed Mc’Allister, um irlandês de pais árabes, muito amigo de Olavo e que atualmente vive em Dublin, onde coordena uma loja de artigos muçulmanos dos seus pais e, estrategicamente, tem um armazenamento de armas bélicas, as quais distribui para diversos lugares do mundo. Ele também sorri quando vê Olavo e se aproxima dele.

Olavo
– Salaam Aleikum!

Mohammed
– Alaikum As-Salaam!

Olavo
– Quanto tempo meu amigo. Como vão as coisas em Dublin? E os negócios?

Mohammed
– Tudo em ordem. Graças à Alá!

Os dois caminham lado à lado em direção das escadas para descer ao andar inferior.

Olavo
– Meu carro está no estacionamento lá embaixo. Fica em nossa casa esta noite.

Mohammed
– Agradeço a hospitalidade meu amigo.

Os dois começam à descer as escadas.

Olavo
– E minha encomenda?

Mohammed
– Está vindo na embarcação direto do porto. Chega perto do meio dia no rio que atravessa a floresta. Eu quis vir antes pra esperar contigo.

Olavo pára no meio da escada. Põe a mão no bolso de sua roupa e retira um envelope entregando-o para Mohammed.

Olavo
– Aqui está o pagamento. Prefiro te entregar aqui. Adilah não pode saber de nada.

Mohammed
– Tem certeza do que vai fazer meu amigo?

Mohammed pega o envelope e o guarda.

Olavo
– Como te disse no e-mail…eu sei que Gaitán e sua detetive podem se doar mais no caso e encontrar minha filha. Já cobramos deles…

Os dois continuam descendo as escadas lado à lado.

Olavo
– …Adilah disse que entende que eles estão fazendo o possível, mas eu sei que não. Então, este é o motivo de Adilah não poder descobrir o que vou fazer.

Mohammed
– Mas é bastante arriscado o que vai fazer. Tem certeza que é o melhor caminho?

Olavo
– Ora, meu amigo…a última vez que cobrei deles, não senti firmeza em querer resolver o caso. E você sabe como fui criado. Se não querem me ajudar, que não me atrapalhem.

Os dois atravessam o estacionamento vazio e escuro até o carro de Olavo. Ao chegarem, Olavo olha por cima do carro para Mohammed do outro lado.

Olavo
– Sempre fui muito bom com todos meu amigo. Até mexerem com quem eu gosto. Agora vou destruir quem não quer ajudar e acha que somos um estorvo para eles aqui em Alcatraz.

Olavo desliga o alarme do veículo destrancando as portas e ambos entram no carro.

 

 

padrao


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