Capítulo II – En las cercanías de Alcatraz Season II

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En las cercanías de Alcatraz
Capítulo II – Trajetórias Opostas

Residência da Família Sanchez – Banheiro

Escuta-se o barulho da água quente do chuveiro caindo dentro do box de vidro. O recinto está todo envolto em uma brisa esfumaçada. Carmen, enrolada em uma toalha felpuda, está parada diante do espelho do balcão da pia. Ela parece estar em transe encarando seu reflexo no vidro embaçado do espelho com as mãos apoiadas na pia.
Batidas fortes são ouvidas na porta.

Jairo
– Amor! Amor! Está tudo bem? O Joaquim não quer levantar pra ir à aula.

O silêncio de palavras de Carmen é atormentador.

Jairo
– Amor? Carmen?

Mais uma vez o silêncio de palavras.

Jairo
– Bom, vou tentar denovo tirar aquele moleque da cama. Quando terminar o banho vem me ajudar, por favor.

Carmen leva a mão direita em direção ao vidro do espelho e limpa o embaçado. Consegue ver melhor seu rosto através do espelho. Ela sorri para si mesma, aponta o dedo indicador na sua direção e depois, com ambas as mãos, se desfaz da toalha felpuda deixando-a cair no chão revelando seu corpo nu.

Flashback de Carmen há exatamente 1 ano atrás

Delegacia Regional de Alcatraz

Carmen Sanchez está sentada atrás de sua mesa. Altiva, segura de si, ela analisa alguns documentos com seus óculos que lhe trazem uma graça inexplicável. Três batidas suaves são ouvidas na porta. Carmen levanta a cabeça.

Carmen
– Pode entrar.

Sua secretária, uma jovem de 23 anos de idade, cabelos pretos amarrados em um coque alto e pele branca como a neve, abre a porta. Ela está acompanhada do prefeito, um homem de 50 anos de idade, baixinho e cara fechada, e de um outro sujeito de 30 anos de idade, típico “filhinho de papai” de gravata borboleta azul, que sempre teve do bom e do melhor e nunca moveu um dedo para suas próprias conquistas. Carmen se levanta tirando seus óculos.

Carmen
– Senhor prefeito.

A jovem secretária dá lado para que os dois homens entrem e se acomodem.

Secretária
– Com licença.

Carmen estende a cabeça para a jovem.

Carmen
– Obrigado Maria Clara.

Carmen estende o braço indicando duas poltronas à frente da sua mesa.

Carmen
– Por favor, senhores…

Posto de gasolina – Banheiro

Rebeca, revoltada e maltrapilha, entra às pressas no banheiro de um posto de gasolina. Um lugar pequeno e sujo, com uma pia simples e duas cabines com vasos e portas de madeira todas pichadas, assim como as paredes daquele ambiente. Rebeca empurra uma porta e entra na cabine. Se senta ao lado do vaso com as costas na porta fechada. Chora copiosamente abraçada às suas pernas.

Rebeca
– Droga! droga! droga!

Rebeca põe a mão direita no bolso de trás de sua calça. Retira os maços de dinheiro. Põe a outra mão no outro bolso e faz o mesmo. Encara todo aquele dinheiro e pensa consigo: ” preciso achar um lugar pra ficar”.

Rebeca junta todo aquele dinheiro de qualquer jeito e os guarda novamente nos bolsos. Pega a trouxa de cocaína de dentro da cintura da sua calça e abre com a boca espalhando o pó branco em cima da tampa do vaso. Tranca uma narina com o dedo e, com a outra narina, aspira aquela cocaína. Escora a cabeça na porta e adormece.

Uma hora e meia depois

Um frentista mais velho, de uniforme cinza e de boné vermelho, está diante da porta da cabine sanitária dentro do banheiro feminino. Ele bate na porta.

Frentista
– Moça? Moça? Está tudo bem?

Ele aguarda alguns segundos, mas não obtém resposta alguma. Ele bate novamente.

Frentista
– Moça, você está aí? Precisa de alguma coisa?

Um outro frentista mais jovem, com o mesmo uniforme e boné vermelho entra no banheiro.

Frentista jovem
– Eu juro que não vi ela saindo. Ela só pode tá aí sim!

Frentista velho
– Eu vou arrombar!

O frentista mais velho está preocupado. Ele se afasta um pouco da porta para pegar impulso e chutá-la. De repente se escuta o barulho da chave do lado de dentro e a fechadura se mexer. A porta se abre e Rebeca aparece com seus cabelos vermelhos todos desgrenhados, com a cara toda inchada e a roupa toda suja e amassada.

Frentista velho
– Moça! Você tá bem?

O frentista mais jovem dá lado para Rebeca, que passa pelos dois sem dar atenção à eles e sai do banheiro. O frentista mais velho faz menção de ir atrás mas é interrompido pela mão aberta do seu colega.

Frentista jovem
– Deixa ir.

Ele aponta com o dedo para dentro da cabine sanitária.

Frentista jovem
– Mais uma destas drogadas. Olha ali, tava trancada cheirando pó.

O frentista mais velho está apavorado e desamparado com o que acaba de ver.

Frentista velho
– Mas ela é uma criança.

O frentista jovem sorri.

Frentista jovem
– Criança?

Ele olha para Rebeca cambaleando se afastando.

Frentista jovem
– Garanto que sabe mais da vida nas ruas do que nós dois juntos.

O frentista mais velho fecha a porta da cabine.

Frentista velho
– Vou pedir pra Inês dar uma geral neste banheiro.

Frentista jovem
– Malditos vermes! Alcatraz tá cheia deles…são como uma praga que se alastra rapidamente pelas plantações, sabe?

Os dois se retiram do banheiro e avistam Rebeca atravessando a rua caminhando com muita dificuldade.

Frentista velho
– E o governo não faz nada!

Frentista jovem
– Aí tu tá pedindo demais, meu amigo. Há um ano que as coisas só pioram…

Carro de Carmen

Carmen Sanchez estaciona na beira da calçada onde há um alvoroço de crianças. Lê-se na placa grande de metal: Escola de Educação Infantil D. Pedro I.

Carmen puxa o freio de mão e olha para o banco de trás. Maquiada, olhos brilhantes e sorriso largo.

Carmen
– Pronto garoto! Está entregue.

Ela olha para fora onde o zelador já está se preparando para fechar o portão.

Carmen
– Beijo na mamãe e, corre que o tio Zeca já vai fechar.

Joaquim se inclina para frente e dá um beijo na mãe.

Carmen sorri. Acaricia os cabelos do menino.

Carmen
– Boa aula!

Joaquim abre a porta e sai todo contente ao encontrar um colega que já está na calçada. Carmen os observa sorrindo. Ela olha para os lados e dá a partida seguindo seu caminho.

Apesar dos problemas que a vida lhe apresentou nos últimos anos, Carmen dirige feliz por estar voltando às suas atividades em prol da segurança de Alcatraz e região. Ela tinha plena convicção de que o seu apreço e dedicação pelo trabalho fizeram e podem fazer muita diferença na vida de cada morador.

Carmen diminui a velocidade e entra numa rua à direita. Ela respira fundo, está chegando na delegacia que fica no final desta rua. Seu carro vai vagando solitário por aquela rua estreita até chegar na frente da delegacia. Carmen entra à esquerda no estacionamento, onde na frente há uma padaria. A padaria do seu Rodrigues, onde todos os policiais costumam comer o seu famoso pastel de queijo.

Rua dos Marechais

Um grupo de cinco adolescentes se encontra em uma rodinha. São eles: Dedé, Renier, Bocão, Cassini e Bianca. Eles dão risadas enquanto um cachimbo passa de boca em boca. Rebeca surge na esquina desolada. Ela observa os jovens e cambaleia ao encontro deles.

Dedé
– Olha quem resolveu aparecer!

Todos os outros olham na direção que Dedé aponta.

Bocão
– É a Rebequinha?

Renier
– É ela!

Cassini
– Ihh, olha lá. Tá acabada!

Os quatro dão risadas enquanto Bianca os encara de cara feia.

Bianca
– Vocês já se olharam no espelho hoje?

Bianca sai da rodinha e vai de encontro à Rebeca. Ao se aproximar, ela precisa amparar a jovem de cabelos vermelhos, que tonta, cai quase se espatifando no chão. Os quatro que davam risadas, notam a complexidade da situação e silenciam. Bocão ajuda Bianca a carregar Rebeca até um banco de madeira.

Bocão
– Vamos deitar ela ali!

Cassini
– Situação dela parece bem pior que a nossa!

Dedé
– É claro que é…

Bianca logo aparece com um copo de água e e alcança para Bocão…Renier ajuda Rebeca a ficar sentada para tomar a água.

Rebeca, com as mãos trêmulas, pega o copo de água da mão de Bocão e toma um pouco se derramando pelo queixo e escorrendo pelo pescoço. Ela encara os jovens ao seu redor, todos com cara de preocupado.

Rebeca
– Alguém tem uma pedra aí pra mim?

Os jovens trocam olhares divididos. Todos tem pedras de crack consigo, mas ninguém quer se desfazer delas. Renier se irrita, mete a mão no bolso da calça jeans toda suja e rasgada, e pega uma pedra enrolada em um papelote de jornal.

Renier
– Bocão, me passa um dos ‘teu’ cachimbo.

Bocão, à contragosto, abre uma polchete preta que carrega na cintura e retira um cachimbo velho, alcançando-o para Rebeca. Bocão lhe entrega a pedra.

Rebeca, com as pontas dos dedos visivelmente já queimadas de tanto fumar em latas improvisadas, pega o cachimbo velho, coloca a pedra de crack e acende dando uma longa tragada. Seus olhos reviram de imediato, ela se escora no muro pichado e se deixa deslizar até cair sentada. Os outros jovens se afastam e a deixam sozinha.

A degradação acontece em uma velocidade incontrolável. Em pouco tempo o fumante deixa de ser um ingênuo calouro em busca de novas sensações para se tornar usuário contumaz, viciado e entregue aos efeitos devastadores da droga. Rebeca já estava entregue à estes efeitos e as alucinações martelavam em sua mente à cada tragada que ela dava, à cada aspirada de pó, à cada injetada…ela fecha os olhos e o cachimbo vai caindo de sua mão. Seu pensamento está longe…

Flashback de Rebeca

Caminho de pedras

…Rebeca, com 10 anos de idade, corre por uma estradinha de pedras. Ouve-se o canto de pássaros misturado ao som doce de sua inocente gargalhada.

Voz masculina
– Rebeca! Rebeca!

A voz torna-se mais alta na medida em que Rebeca, correndo, vai se aproximando de uma porteira branca.

Voz masculina
– Rebeca, minha filha!

O dono da voz é quem abre a porteira. É João Acácio, bem arrumado de calça jeans e camisa social xadrez por dentro das calças. Ele usa um chapéu bege na cabeça. Sorri ao ver a menina toda contente chegar. Ela se joga em seus braços. Isso é algo que não se sabe exatamente se aconteceu ou se é apenas fruto da imaginação da jovem Rebeca.

De volta às ruas

Rebeca está apagada escorada naquele muro pichado. Escuta-se ao longe sons de sirenes se aproximando, que se misturam aos chamados dos outros jovens tentando acordar a jovem de cabelos vermelhos.

Bocão
– Rebeca! Rebeca! Acorda!

Renier
– Acho que é os ‘home’!

Cassini
– Difícil. A polícia já largou Alcatraz de vez!

Bianca
– É melhor correr!

Dedé
– E Rebeca?

Cassini
– Deixa ela aí! Não vão dar bola pra uma craquenta atirada aí!

Os cinco jovens saem correndo e pulam uma cerca atravessando por um terreno baldio em direção ao matagal do outro lado.

O som das sirenes se aproximando se torna mais evidente. Rebeca vai despertando devagar quando vê as luzes e um caminhão de bombeiros passar à toda velocidade. Ela olha para os lados e não vê mais os cinco jovens. Vê o cachimbo caído no chão. Junta-o, mas não tem mais com o que acender. Joga-o longe.

Rebeca
– Merda!

Padaria do seu Rodrigues

Três policiais, cabo Marinho, soldado Reis e capitão Soares, jogam conversa fora sentado nas banquetas em frente ao balcão da padaria. Os três saboreiam uma xícara de café com o famoso pastel de queijo do lugar. Seu Rodrigues, dono da padaria, senhor de 60 anos, bigode grosso e barriga saliente está do outro lado com um pano sobre o ombro.

Cabo Marinho
– E então, seu Rodrigues. Já soube da novidade?

Rodrigues
– Ora pois, rapaiz! Não fiquei sabendo de nada, não.

Soldado Reis toma um gole do seu café.

Soldado Reis
– Teu ‘amiguinho’, delegado substituto, nem vem mais hoje.

Rodrigues dá uma gargalhada debochada e joga o pano sobre o balcão.

Rodrigues
– Ora ora. Amiguinho que nada…

Os três policiais riem.

Rodrigues
– …e se isso é verdade, já ganhei meu dia.

Capitão Soares
– Pois então comemore, meu amigo.

Soares levanta a xícara de café em direção de Rodrigues.

Cabo Marinho
– Já era sem tempo.

Rodrigues
– Mas pera um pouco…se ele não vem mais, quem vai assumir a delegacia?

Carmen Sanchez, calça social preta, terninho preto com uma camisa branca por baixo e um colar discreto de ouro, surge toda sorridente na porta da padaria.

Carmen
– Ora pois…

Todos se entreolham. Reconhecem aquela voz. Olham para a porta.

Carmen
– … será que posso ter meu cargo de volta?

Rodrigues bate com ambas as mãos no balcão.

Rodrigues
– É aí que eu me refiro!

Os policiais se levantam em sinal de respeito.

Capitão Soares
– Bom dia, delegada Carmen. Seja bem vinda de volta.

Cabo Marinho
– Bom dia, delegada.

Soldado Reis
– Bom dia.

Seu Rodrigues atravessa a porta vai e vem do lado do balcão e vai de encontro à Carmen. Fica na sua frente.

Rodrigues
– Delegada…

Rodrigues abre os braços.

Rodrigues
– …posso lhe dar um abraço?

Carmen Sanchez sorri. É bom estar de volta neste ambiente. Entre amigos. Entre pessoas que à respeitam e têm carinho por ela.

Carmen
– Mas é claro, meu amigo.

Carmen abre os braços e vai ao encontro do abraço de seu Rodrigues.

Carmen
– Mas sabe, meu amigo, do que tô com muita saudade?

Rodrigues estende o braço para Carmen seguir até o balcão.

Rodrigues
– Deixa eu adivinhar.

Rodrigues indica a banqueta para Carmen em meio aos policiais e segue pela porta vai e vem para o seu lado do balcão.

Rodrigues
– De um pastel de queijo quentinho e uma boa xícara de café com leite, acertei?

Carmen senta. Os policiais ocupam novamente seus lugares.

Cabo Marinho
– Pela cara da nossa delegada, tu acertou em cheio portuga!

Carmen
– Sem dúvidas.

Rodrigues
– Saindo pra já!

Rodrigues retira-se para a cozinha. Carmen fica entre os policiais, todos contentes com a sua volta.

Capitão Soares
– Muito bom tê-la de volta, delegada. Sabe como está nossa querida Alcatraz né? Tentamos dar o nosso máximo, mas aquele almofadinha que ‘tava’ no seu lugar não sabia o que fazer.

Cabo Marinho
– Muitas vezes ficávamos de mãos atadas, delegada.

Carmen baixa a cabeça preocupada com a situação. Aprendeu amar tanto aquele lugar que não se conforma com o fato de alguém não dar o seu máximo para proteger aquela região, aquele povo.

Carmen
– Eu realmente sinto muito, mas eu precisei…

Capitão Soares
– Você não tem culpa Carmen. Você teve seus motivos pra se afastar, e foram bons motivos. Família em primeiro lugar. O culpado é o prefeito, que fez à todo custo a gente engolir aquela ameba do sobrinho dele.

Soldado Reis
– Por falar em família, como está Jairo?

Carmen sorri. Gosta de estar entre estes policiais. Os considera uma segunda família.

Carmen
– Se recuperando dos tratamentos, que não são fáceis. Totalmente curado não está, mas estamos na luta e estamos confiantes.

Cabo Marinho
– Vai dar tudo certo, delegada.

Rodrigues volta da cozinha com uma bandeja.

Rodrigues
– Cafezinho quentinho pra nossa delegada e um pastel de queijo feito na hora.

Rodovia Ferreira Gomes – saída de Alcatraz

Uma rodovia bastante movimentada por onde circulam muitos carros e também muitos caminhões de carga, pois é caminho para as cidades metropolitanas. Neste trajeto há uma passarela de pedestres que liga os dois lados de Alcatraz.

Os carros e os caminhões de carga passam buzinando. De cabeça baixa, do lado da pista, muitas vezes cambaleando, Rebeca caminha. Ela sobe por uma escada de ferro na lateral, que leva até o alto da passarela. Com dificuldades, começa a subir.

Já no alto da passarela, bem no centro, Rebeca se agarra ao parapeito de ferro e observa o movimento intenso na rodovia. Entra em estado de transe…

Flashback de Rebeca

Na cabana

Rebeca com 10 anos de idade, sentada no banco de madeira do lado da mesa, observa João Acácio pendurar algo na parede. Seu corpo robusto e o chapéu impedem de ver o que é.

Rebeca
– Tu vai me ensinar fazer isso um dia?

João Acácio não interrompe o que está fazendo para responder. Permanece de costas.

João Acácio
– É claro que sim.

Rebeca
– Quando? Como vou saber que devo fazer?

Rebeca arregala os olhos na direção que está João. Em questão de segundos ele se aproxima do outro lado da mesa e sorri para a menina.

João Acácio
– Olha lá! Uma bela obra de arte, não é mesmo? Tu vai saber quando fazer. O teu instinto vai te dizer. Mas…

João Acácio puxa uma cadeira de palha e se senta apoiando os ombros sobre a mesa e encarando os olhos arregalados e curiosos da pequena Rebeca.

João Acácio
– Mas aí no fundo eu sei que tu já sabe que todos eles merecem…este sangue que corre aí…

João Acácio estende o braço direito sobre a mesa e bate com a mão esquerda no antebraço daquele membro estendido.

João Acácio
– … é o mesmo sangue que corre aqui!

Os olhinhos arregalados de Rebeca parecem dois pontos cintilantes em um céu escuro. Ela olha novamente para onde João Acácio estava.

De volta à Rodovia Ferreira Gomes

Rebeca sobe no parapeito da passarela. Se levanta devagar, se equilibra com dificuldades e fica encarando o movimento da rodovia abaixo. Sente o vento balançar seus cabelos vermelhos. Abre ambos os braços lentamente e, consequentemente, consegue ficar mais equilibrada. Fecha os olhos. Aquele pode ser o seu desfecho. Pode ser o fim desta vida desgraçada. Pode ser…

Voz rouca
– Moça!

Rebeca não dá atenção. Atrás dela surge um homem, de aproximadamente 23 anos de idade, alto, esguio, cabelos loiros e lisos na altura dos ombros, olhos esverdeados e barba por fazer. Ele carrega um violino nos ombros em sua capa de proteção. Seu nome é Jay. Ele pára há alguns metros de onde está Rebeca.

Jay
– Moça! Está tudo bem?

Ele aguarda alguns segundos e não obtém resposta. Sorri para si mesmo tirando o violino dos ombros e largando no chão, encostado nas vigas da passarela.

Jay
– Olha minha pergunta né? Não dá bola moça! Onde já se viu pedir pra alguém que está prestes a tirar o que de mais precioso ganhou, se está tudo bem.

Rebeca abre os olhos ao ouvir estas palavras. Vai fechando os braços lentamente enquanto se vira para ver quem está ali.

Um caminhão passa na rodovia e sua buzina alta assusta Rebeca, que se desequilibra e quase cai. Jay, em um ato de impulso, salta e a segura pelo braço.

Jay
– Moça, você é louca!

Rebeca encara os olhos esverdeados de Jay e sorri.

Rebeca
– Você é um anjo que veio pra me salvar?

Jay sorri seu sorriso largo e fácil e puxa Rebeca para cima da passarela.

Jay
– Longe disso moça. Apenas um músico de rua. A propósito, qual sua graça, moça?

Rebeca sorri timidamente.

Rebeca
– Rebeca.

Jay
– Muito prazer, sou Jay.

Jay estende a mão para Rebeca.

Jay
– Vamos começar direito.

Ele arranca mais um tímido sorriso da jovem, que lhe estende a mão. Quando segura a mão de Rebeca, Jay não deixa de notar as queimaduras de leve nas pontas dos dedos, as quais ele sabe muito bem do que se trata. Imediatamente, Rebeca puxa sua mão de volta.

Jay
– Tem lugar pra ficar?

Rebeca faz sinal de negativo com a cabeça. Jay se agacha para pegar seu violino e o coloca no ombro.

Jay
– Se não se importar pode vir comigo. Tenho uma humilde casa ali adiante. Preparo algo pra você comer e aí me conta o que se passa nesta cabeça, à ponto de quase fazer o que você iria fazer.

Rebeca
– Não vou te atrapalhar?

Jay
– De maneira alguma. Inclusive preciso conversar com alguém…

Jay segue caminhando pela passarela. Rebeca olha aquele homem à sua frente, dúvidas surgem na sua cabeça, mas ela sente que estará protegida, porém sabe que não pode revelar os seus feitos, ou então, pode pôr tudo à perder.

Rebeca
– Espera!

Rebeca acelera o passo e segue ao lado de Jay.

Rebeca
– Me conta…o que você toca com este violino aí?

Padaria do seu Rodrigues

Os policiais e o seu Rodrigues estão contando os feitos atrapalhados do sobrinho do prefeito, que foi sucessor de Carmen enquanto ela estava fora. Gargalhadas são ouvidas.

Cabo Marinho
– E então, o tal de Curió deu um salto pra frente em direção à mesa do almofadinha, que tenho certeza que ele se borrou todo. Eu tava na sala, queria rir, mas me segurei.

Rodrigues
– Depois o tal delegado medroso chega aqui branco feito leite me pedindo uma água com gás. Olha bem, água com gás.

Na televisão ligada dá a vinheta do plantão. Todos encaram o aparelho.

Capitão Soares
– Dá volume portuga.

Rodrigues pega o controle remoto debaixo do balcão e o aponta para o aparelho aumentando o volume.

Na televisão a imagem de uma repórter jovem, de cabelos cacheados e batom vermelho. A barra do volume vai subindo enquanto ela começa a falar.

Repórter
– Bom dia. Estamos aqui em Recife de Caracás, cidade vizinha à Alcatraz, onde a polícia local fez um retrato falado de uma mulher, que possivelmente, tenha assassinado o principal nome do tráfico de drogas da região, o Catarina.

A imagem foca no retrato falado em uma tela de computador. Uma jovem de cabelos vermelhos, olhos vibrantes e olhar sereno e amedrontador. Imagem que chama a atenção de Carmen. Seu semblante muda de uma hora para a outra.

Soldado Reis
– Tá tudo bem, delegada?

Carmen está pensativa.

A imagem volta a enquadrar a repórter.

Repórter
– Se alguém souber do paradeiro ou tiver visto esta jovem, por favor entrar em contato aqui com a polícia local ou em Alcatraz, com a delegada Carmen Sanchez que retorna hoje às suas atividades.

Cabo Marinho
– Olha só delegada. Já tão sabendo da tua volta e já tão te dando serviço.

Todos riem, menos Carmen, que mantém seu semblante pensativo.

Capitão Soares
– Tá tudo bem, delegada? Quer algo?

Carmen
– Não não. Está tudo ok. Só tô achando que o trabalho caiu no meu colo antes mesmo de eu entrar na minha sala.

Carmen se vira para os policiais.

Carmen
– Eu conheço a menina do retrato falado.

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  • Se fosse definir o episódio em uma só palavra seria: agradável. Como é bom viajar por Alcatraz na companhia de Carmen. Ela dá um brilho especial à história. E, em relação a Rebeca, ainda há um misto de curiosidade com pena. É triste ver a situação dela, mas ficou compreensível a motivação em usar o crack. No fundo ela sente falta do pai e com a droga consegue ter alguns vislumbres dele.
    Interessante que essas trajetórias opostas casou muito bem com o início da jornada desses personagens. Enquanto Carmen volta pra seu status quo de bem sucedida delegada de Alcatraz; Rebeca desce ladeira abaixo indo no mais profundo da decadência.
    Que episódio espetacular. Parabéns Marcos!

    • Obrigado meu amigo. Fico feliz que esteja gostando. Confesso que estava receoso com este e outros episódios, mas mantive minha escrita, não mudei nada. Vamos ver a recepção. E sim, Rebeca está indo ladeira abaixo, quando se acha que as coisas podem melhorar, algo acontece…um abraço e até o próximo episódio!

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