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Capítulo I – En las cercanías de Alcatraz Season II

En las cercanías de Alcatraz
Capítulo I – O tempo passa

Prólogo

A noite nas redondezas de Alcatraz traz consigo um cheiro de incertezas pelo ar. O tempo passa. As pessoas amadurecem ou não. As dúvidas são esclarecidas ou não. Mas, o que nunca sairá de cena é a capacidade daquela pequena e singela cidade em ser cenário de intrigas e mistérios.

Devido à acontecimentos dos últimos anos, nenhum ser humano se tornou capaz de percorrer sozinho as escuras rodovias que cercam toda aquela região. Os boatos se espalham rapidamente, principalmente se forem considerados ruins ou perigosos.

A rodovia deserta e cheia de curvas sinuosas está totalmente na penumbra. Já passa da meia noite quando um golf de cor prata surge em uma curva daquela estrada e junto dele o som de um rock à todo volume. Aisha, uma jovem de aproximadamente 22 anos de idade, de pele clara e cabelos lisos platinados, está no volante e, ao seu lado, uma jovem negra de cabelos Black Power e batom vermelho, Rihanne, de aproximadamente 20 anos de idade. Ambas cantam juntas à música da rádio.

Rihanne
– Ok, Aisha. Acho que acabamos de entrar na parte da estrada de que todos falam.

Aisha
– Não acredito que você acha que essas histórias são verdadeiras, Rihanne!

Rihanne
– Eu só não quero ter nenhuma surpresa!

Aisha
– Relaxa e curte este momento, minha amiga!

Aisha aumenta o volume do rádio do carro e pisa fundo no acelerador quando avista uma grande reta à sua frente. Rihanne segura-se com ambas as mãos embaixo do banco e arregala os olhos castanhos enquanto a amiga ao lado sorri aquele seu sorriso largo e fácil.

Há exatamente 1 KM à frente, luzes de sirenes de ambulância, bombeiros e viaturas policiais claream a rodovia. Os bombeiros colocam cavaletes na estrada, paramédicos de luvas e máscaras descem rapidamente da ambulância e três policiais conversam atônitos tentando entender o que poderia ter acontecido.

Rihanne avista as luzes antes de Aisha e avisa a amiga, que quando vê pisa fundo no freio fazendo o golf prata derrapar deixando marcas na pista molhada do sereno da noite. O carro não aguenta e bate derrubando alguns cavaletes amarelos e só pára ao bater de frente com uma árvore.

Rihanne
– Droga!

Aisha
– Merda!

A buzina acionada toca sem parar dando som àquela rodovia. Um dos policiais, branco, alto e forte, se aproxima rapidamente sendo seguido dos seus companheiros. Averiguam se não há ninguém machucado e se sentem aliviados ao verem que as duas amigas estão em bom estado, exceto por um pequeno corte na testa de Rihanne, que faz escorrer um sangue pelo seu rosto, mas nada de se preocupar. O policial aponta sua lanterna para o interior do veículo.

Policial
– Vocês estão bem?

Aisha, um pouco desconcertada, olha para a amiga ao seu lado.

Aisha
– Droga, Rihanne. Você está sangrando! Você está bem?

Rihanne passa a mão na testa apavorada.

Rihanne
– Sim. Só um corte.

Policial
– Estava um pouco acima da velocidade permitida por aqui, não acha? E não viu os cavaletes, as sirenes?

Aisha fica constrangida.

Aisha
– Eu…policial…me desc…

Policial
– Carteira de habilitação e documentos do veículo, por favor!

Aisha encara Rihanne assustada e começa a mexer no tapa-sol, dentro do porta-luvas…

Rihanne
– Não me diga que…

Aisha
– Ferrou amiga!

Ouve-se os paramédicos conversando mais atrás. Eles colocam um corpo em um saco preto.

Policial
– Para fora do carro, as duas.

10 minutos depois

O policial termina as anotações em seu bloco com as duas moças algemadas diante do golf prata.

Aisha
– Vocês vão nos prender?

Policial
– Apenas levá-las para a delegacia para dar esclarecimentos. Afinal, estavam acima da velocidade permitida, sem carteira de habilitação, sem documentos do carro, com bebidas no veículo e ainda infringiram em outra investigação…acho que seus pais não vão gostar de ter que levantar de madrugada para irem até a delegacia soltar vocês.

Rihanne
– Merda, Aisha. Olha no que você nos meteu!

Aisha se vira para o policial.

Aisha
– O que houve aqui? De quem era aquele corpo?

O policial não dá atenção para a pergunta da jovem de cabelos platinados.

Rihanne
– E eu disse que não queria nenhuma surpresa, lembra?

Uma semana depois

Cemitério Municipal de Alcatraz

O céu carregado indica que a qualquer momento a chuva vai cair sem dar tréguas. Ouve-se um trovão cortar o céu escuro e dois coveiros se apressam para abrir uma cova em um canto mais isolado do cemitério sob observação de um policial e de um médico legista do IML. Mais ao lado está o caixão com o corpo daquele homem encontrado na rodovia há uma semana atrás.

Policial
– Não é possível. Fizemos de tudo pra encontrar algum familiar e nada.

Legista
– É triste ter que enterrar alguém assim como indigente.

Policial
– Mas te digo meu amigo. Isso é mais comum por estas redondezas do que você imagina.

Os coveiros finalizam o serviço, pegam o caixão e jogam naquele buraco. A chuva começa lentamente enquanto eles ainda fecham a cova. O policial e o médico legista se retiram do local sem mais nenhuma palavra. Ali, debaixo daquela chuva, naquele singelo cemitério, termina a história daquele ser. Sem identificação, sem familiar, sem dores de perda, sem choros, sem nada…

Quando os coveiros se retiram pela entrada principal do cemitério avistam uma figura estranha atrás de uma árvore, usando calça preta e um moleton com o capuz bem puxado escondendo o rosto. Mas eles não dão atenção, pois só querem sair daquela chuva.

No dia seguinte

A chuva dera uma trégua para aquela região, mas o tempo ainda está nublado. A mesma figura estranha, de capuz escondendo o rosto, pula o muro lateral do cemitério olhando para ambos os lados verificando que ninguém havia lhe visto, e caminha entre os túmulos. Quando chega em frente ao local onde no dia anterior foi enterrado aquele homem, a figura de capuz se ajoelha e retira debaixo do seu moleton uma pequena cruz de madeira. Finca-a na terra diante do local e, com uma pedra, começa escrever na cruz.

Um gato preto mia assustando e fazendo aquela figura se virar rapidamente para trás revelando um rosto pálido e nariz arrebitado de uma mulher. O gato se aproxima e fica se esfregando na mulher, que acaricia-o e depois pega ele no colo se afastando entre os túmulos. Na cruz de madeira que ela finca diante daquele túmulo está escrito o nome “João Acácio de la Rocha”.

Capítulo Um

Alguns anos depois

Rebeca, uma adolescente de 17 anos de idade, pele clara e cabelos tingidos de vermelho, usando calça preta de couro colada e uma mini blusa preta com uma caveira prateada na frente perambula pelas ruas escuras de uma Alcatraz jogada às traças, completamente abandonada pelo atual governo e sem proteção policial nas ruas. Ela se aproxima de um grupo de drogados em uma esquina. Um jovem negro de cabelos com tranças, magro e sem camisa se levanta entregando seu cachimbo de crack para outro jovem e vai de encontro a Rebeca.

Jovem negro
– Qual é Rebeca, achei que tinha voltado pra clínica.

Rebeca
– Jamais volto pra aquele lugar, ladrão.

O jovem negro sorri um sorriso amarelado e enferrujado e abre os braços, para os quais Rebeca se joga. Os dois já conhecem há algum tempo e o jovem negro, Mathias, é quem sempre consegue as drogas para Rebeca sempre que ela quer ou necessita.

Mathias
– Tá precisando de alguma coisa?

Rebeca
– Tô limpa já faz uns dias e não tô aguentando. Tem uma pedra aí?

Mathias olha para os demais drogados atirados pela calçada.

Mathias
– Alguém tem uma pedra aí?

Ninguém lhe dá bola.

Mathias
– Malditos craquentos! Nunca se controlam. Vem comigo. Vamos até o Catarina.

Mathias chuta um outro rapaz atirado na sua frente e, junto de Rebeca segue pela rua deserta em direção à escadaria do beco, onde funciona o principal ponto de tráfico e venda da região comandado por Catarina, um homem negro, gordo e mal encarado, de 50 anos de idade, bastante respeitado por todos por ali.

No ponto de tráfico

Um homem de cabelos curtos e bigode, usando regata e calça jeans e segurando uma AK 47, faz a guarda na subida da escadaria. Ele fica na frente de Mathias e Rebeca com uma cara de mal.

Mathias
– Qual é bandido…já me conhece!

O homem faz sinal com a cabeça na direção de Rebeca.

Mathias
– Rebeca. Minha parceira, tá comigo. Precisando de uma pedra. Tudo suave lá em cima? Catarina tá aí?

Homem
– Tá tudo nos trinks. Acabou de chegar uma remessa. Tão fazendo o esquema. Mas pode subir. Catarina tá lá sim.

O homem dá um assobio dirigido ao final da escadaria, de onde um outro mal encarado, faz sinal com a mão mostrando que o caminho está liberado.

Rebeca baixa a cabeça e sobe as escadas ao lado de Mathias.

No barraco do tráfico

Mathias entra na frente. Rebeca entra logo depois. Catarina, de calça social, camisa branca de mangas dobradas, correntes e anéis de ouro está atrás de uma mesa recheada de trouxinhas de cocaína e pedras de crack. Ele se levanta de braços abertos ao ver Mathias.

Catarina
– Mathias, meu velho e bom amigo. Há quanto tempo.

Mathias se aproxima e é recebido por um abraço apertado do traficante gordo.

Mathias
– Mas a culpa é sua, ladrão. Tu que tava fora da cidade.

Catarina se desprende do abraço com um sorriso de orelha a orelha.

Catarina
– Trabalho, meu amigo. Trabalho pra manter o vício destes merdas. E claro, ganhar uma boa grana.

Catarina se vira voltando para seu lugar atrás da mesa.

Catarina
– Mas o que te traz aqui esta hora? Acabou tua remessa?

Mathias
– A remessa acabou sim. Mas quanto à isso, ia esperar tu mandar mais.

Mathias olha para Rebeca parada de cabeça baixa ao lado da porta.

Mathias
– Minha parceira, Rebeca. Lembra que te falei dela? Fugiu da clínica há um tempo atrás. Gente boa. Tá precisando de uma pedrinha pra espairecer.

Catarina
– Veio ao lugar certo e na hora certa então moça!

Catarina estende a cabeça e cochicha para Mathias.

Catarina
– E ela tem pra pagar? Ou vai ser por tua conta?

Rebeca levanta a cabeça. Por mais que Catarina falasse baixinho, ela acabou ouvindo.

Rebeca
– Pode deixar, Mathias. Eu pago…do meu jeito.

Mathias sorri e dá de ombros.

Mathias
– Bom, já apresentei vocês. Vou descer e cuidar das ruas.

Mathias contorna a mesa, dá mais um abraço em Catarina.

Mathias
– Bom te ver, irmão.

Mathias passa por Rebeca e fala baixinho enquanto dá um abraço na jovem de cabelos vermelhos.

Mathias
– É o que tô pensando? Não precisa me responder. Só faz bem feito.

Restaurante Don Ruiz

O grande salão do restaurante está com todas as suas mesas ocupadas naquela noite. Casais e famílias jantam felizes saboreando os deliciosos pratos elaborados pelo grande chef Ruiz Sabino, um espanhol de 49 anos, que sempre que o seu restaurante lota faz questão de passar de mesa em mesa conversando com os clientes verificando se está tudo dentro dos conformes.
Um menino de 07 anos de idade, cabelos castanhos curtos e olhos alegres, corre entre as mesas da lateral leste do salão.

Menino
– Mamãe, mamãe!

Ele se aproxima de uma mesa onde está sua mãe, a detetive Carmen Sanchez, sete anos mais velha e mais experiente, agora de cabelos curtos e olhar um pouco cansado. À sua frente está seu marido Jairo, bem mais magro, olhar distante e os cabelos antes Black Power, agora dão lugar a uma cabeça toda raspada, resultado de dois anos de tratamento em função de um tumor intestinal.

Carmen
– Joaquim. Agora fica quietinho aqui que já vão trazer nossa janta.

Joaquim acomoda-se na cadeira entre Carmen e Jairo. O chef e proprietário do restaurante, Ruiz Sabino, aproxima-se sorrindo da mesa em que os três estão.

Ruiz
– Boa noite. E então, meus amigos, tudo em ordem por aqui? Já fizeram os pedidos? Foram bem atendidos até o momento?

Carmen sorri.

Jairo
– Tudo na perfeita ordem.

Ruiz Sabino coloca as mãos sobre os ombros de Carmen e Jairo.

Ruiz
– Um ótimo jantar à família.

Ruiz afasta-se e vai para outra mesa.

Carmen
– Muito hospitaleiro ele.

Jairo
– Não é a toa que seu restaurante está sempre lotado.

Carmen
– Não teria lugar melhor para virmos esta noite. Comemorar meu retorno ao trabalho e a sua melhora.

Jairo
– É. Mas infelizmente, não é minha melhora definitiva. Você também ouviu o que o médico disse. O câncer pode voltar à qualquer momento.

Carmen
– Mas, no momento está curado. E temos que nos prender somente ao nosso presente. Viver um dia de cada vez.

Carmen olha para Joaquim brincando com os talheres distraído.

Carmen
– Por ele.

Jairo suspira fundo, encara o menino. Com certeza um filme passou pela sua cabeça desde o dia em que adotaram Joaquim naquele orfanato.

Jairo
– Ok Carmen, ok. Por ele.

Carmen estende o braço na mesa fazendo sua mão delicada de unhas vermelhas alcançarem a mão de Jairo que está sobre a mesa.

Carmen
– E por nós.

O garçom, um jovem alto e magro de sorriso simpático, chega com o pedido dos três largando-os na mesa, na frente de cada um.

Garçom
– Boa janta. Qualquer coisa é só chamar.

Jairo encara Carmen na sua frente.

Jairo
– Mas me conta minha querida. Ansiosa para sua volta amanhã?

Carmen
– Um ano afastada…

Jairo
– Um ano afastada por minha culpa, pra ter que cuidar de mim.

Carmen
– Culpa não. Lembra que prometemos sempre cuidar um do outro? Só fiz e estou fazendo minha parte quando foi necessário.

Jairo sorri e os três começam comer suas refeições.

Carmen havia pedido afastamento do seu cargo para se dedicar somente aos cuidados de seu marido Jairo, que estava há um ano tratando de um tumor intestinal e no último ano a doença se agravou exigindo internação e tratamento intensivo. Além disso, Joaquim estava enfrentando problemas de aprendizado na escola, o que tomava um bom tempo do cuidado e atenção de Carmen.

Desde o seu afastamento, a segurança de Alcatraz foi deixada de lado fazendo com que a criminalidade a qual Carmen havia conseguido estabilizar, voltasse com força total. Além disso, as eleições colocaram um governante que não queria nada com nada, e dia após dia, deixou a situação tornar-se um grande caos, algo completamente impossível de se reverter.

Carmen
– Sabe que foram anos intensos pra mim. E ficar este último ano longe de tudo, embora por um motivo tão triste, me fez bem…mas agora é hora de retornar.

Jairo
– Você amadureceu muito nos últimos anos meu amor.

Carmen
– Eu sei. E concordo contigo. A direção da penitenciária foram anos difíceis, mas consegui manter e pôr mais ordem ainda naquele lugar. E depois um ano como delegada de Alcatraz, me fez querer buscar muito mais…embora a morte do Miranda ainda seja algo que não consigo engolir.

Jairo
– Pobre Miranda. O jeito que foi encontrado morto. Aquilo foi encomendado, só pode.

Carmen
– Mas aí tive que me afastar e colocaram aquela ameba do sobrinho do prefeito no meu lugar, e agora Alcatraz tá como está. Não se pode nem sair nas ruas depois das 10:00 horas da noite que se corre o risco de ser assaltado, ser morto.

O menino Joaquim pede mais suco. Carmen o serve.

Carmen
– Mas agora chega de falar do meu trabalho, que amanhã quando chegar na delegacia já terei muito serviço pra pôr em ordem.

Carmen encara o marido comendo na sua frente. Sente que, apesar de pouco parecer, ele está mais feliz, mais disposto a viver a vida um dia de cada vez e esperar o que o destino o reserva.

Carmen
– Você também tem um trabalho pra comemorar. Afinal, neste fim de semana suas últimas pinturas serão expostas na galeria do Aldo Jr.

Carmen levanta o copo de suco. Jairo timidamente faz o mesmo e ambos sorriem com Joaquim erguendo seu copo também.

Carmen
– Um brinde às pinturas do papai.

Na lateral oeste do salão, na última mesa do canto, um homem loiro e de barba rala, um sujeito bem apresentado, janta sozinho e toma uma garrafa de um vinho caro. Sempre de cabeça mais baixa que o normal, ele olha muito para o lado leste, mais especificamente para a mesa da família de Carmen.

Ele observa atento quando Carmen pede licença para ir até o toalete. Espera alguns segundos e levanta-se indo na mesma direção.

No corredor dos toaletes

Carmen chega primeiro e cruza com uma mulher mais velha, de vestido florido, que está saindo do toalete. Ela fica em frente à um grande espelho na parede ajeitando o cabelo antes de entrar no banheiro.

O homem alto e loiro é Arthur. Ele chega ao corredor no momento em que Carmen está entrando no toalete. Ele disfarça e entra no banheiro masculino.

Toalete feminino

Carmen Sanchez sai da cabine enquanto se escuta a descarga que foi acionada. Ela abre a bolsa sobre a pia e começa retocar a maquiagem em frente à um outro espelho. Feliz com o que vê através do reflexo do espelho, ela sorri satisfeita guardando seus pertences na bolsa.

No corredor dos toaletes

Carmen Sanchez sai pela porta principal do banheiro feminino ao mesmo tempo em que Arthur sai pela porta do masculino. Os dois se esbarram em frente ao espelho do corredor. Ele sorri. Ela se espanta.

Arthur
– Carmen, Carmen.

Carmen
– Arthur?

No barraco do tráfico

Rebeca acorda deitada em um colchão no chão ao lado do traficante gordo, Catarina. Faz uma cara de repulsa ao ver aquele homem ao seu lado, sem camisa e de cuecas. Nua, ela levanta e procura suas roupas. Veste a mini blusa, sua calça e suas botas. Catarina vira para o lado e continua dormindo.

Rebeca não acredita que fez o que fez. Olha por tudo rapidamente e vê uma trouxa de cocaína sobre uma mesinha de madeira e um envelope do lado. Sabe que aquilo não é pra ela. Repara no sono profundo de Catarina naquele colchão, vai até a gaveta da pia velha e pega uma faca enferrujada. Pensa consigo mesma: “será que deve fazer isso? Quais serão as consequências?”
Rebeca sabe que precisa tomar uma decisão antes que seja tarde demais, pois se Catarina acordar e ver ela com uma faca lhe olhando, ele não vai perdoar.

Rebeca se aproxima lentamente do colchão, se agacha ficando de joelhos diante daquele homem repulsivo e segura a faca enferrujada com ambas as mãos. Já matou antes, não seria sua primeira vez. Porém, seria a primeira vez que mataria alguém importante. Sabe que após fazer isso, terá que sair com muito cuidado. Descer as escadarias sem que ninguém perceba e sumir dali. Catarina se remexe mas não acorda. Então ela não pensa duas vezes e crava com cuidado aquela faca na jugular daquele homem. Ele se debate, arregala os olhos enquanto o sangue começa jorrar. Muito serena, Rebeca mexe a faca ali dentro e logo Catarina apaga de vez.

Escuta-se barulhos de passos do lado de fora do barraco. Rebeca assusta-se, tira a faca e deixa sobre o peito nu de Catarina. Rebeca aprendeu tudo muito bem. E não tem remorso no que fez. Levanta-se e fica de pé olhando todo aquele sangue daquele homem morto diante dela. Os passos do lado de fora se tornam mais evidentes. Rapidamente, ela pega a trouxa de cocaína e coloca por dentro da cintura da calça. Pega o envelope, abre e repara uma grande quantia em dinheiro. Joga o envelope de lado e coloca as notas de cem nos dois bolsos de trás de sua calça. Limpa as mãos em uma pano de prato sujo em cima da pia e vai em direção à porta.

Do lado de fora

Uma senhora passa em frente à entrada do barraco quando Rebeca está saindo.

Senhora
– Bom dia.

Rebeca
– Bom dia.

Rebeca fecha a porta. Um rapaz mal encarado com uma AK 47 em mãos aproxima-se.

Rebeca
– Catarina pediu pra não incomodá-lo. Pediu que eu procurasse pelo Facundo.

O rapaz mal encarado fica lhe encarando e aponta com o dedo indicador em direção à uma casa amarela do outro lado da rua, depois da escadaria.

Rebeca
– Ahh, obrigado.

Rebeca baixa a cabeça e começa descer a escadaria enquanto o rapaz fica parado do lado de fora do barraco fazendo a guarda do lugar.

Ponto do tráfico

Ao ver Rebeca chegando na rua, Mathias se aproxima.

Mathias
– Noite longa? Tudo certo por lá?

Rebeca fala no ouvido do jovem negro.

Rebeca
– Minha parte tá feita. E bem feita.

Ela põe a mão no bolso de trás da calça retirando algumas notas e entregando para Mathias com cuidado para não serem vistos.

Rebeca
– Tá aqui tua parte. Agora o resto é contigo. Tenho que dar o fora daqui antes que descubram o que aconteceu lá em cima.

Mathias pega o dinheiro e dá um abraço em Rebeca.

Mathias
– Toma cuidado, bandida. Vou fazer o possível, mas “os cara” não vão perdoar, não.

Mais tarde

A noite traz um vento gelado de cortar até a alma. Rebeca perambula pelas ruas sem destino. Encolhida, abraçada em si própria, ela sente frio. Está passando em frente ao cemitério municipal, tudo está em silêncio assustador. Nenhum carro, nenhuma alma viva por perto. Ela resolve entrar e achar um lugar para passar a noite.

As luzes dos faróis de um carro se aproximando iluminam a rua deserta. Seu som assusta Rebeca, que se esconde rápido entre os túmulos. No carro estão três capangas de Catarina. Três moleques barra pesada, Geleia, Cleison e Davi.

Geleia
– Puta que pariu Davi! Vai mais devagar senão a gente não consegue vê se a piranha tá por aí ainda.

Geleia é um negro magrelo de cabelos amarelos. Ele olha pela janela do caroneiro com uma AK 47 nas mãos. Atrás, também na janela, sentado atrás do motorista, está Cleison, outro negro magrelo careca. E dirigindo está Davi, um negro gordo de cabelo ralo.

Cleison
– Pera! pera! Pára o carro aí!

Geleia olha para trás.

Geleia
– Tá maluco, ladrão?

Cleison
– Se liga, Geleia. Bora roubar o ouro das sepulturas. Afinal, nem chefe temos mais.

Geleia olha para Cleison e para Davi, que gosta da ideia e vai estacionando na frente da entrada do cemitério.

Os três descem do carro e entram no cemitério. Rebeca, atrás de uma sepultura, observa e reconhece que são os capangas de Catarina lhe procurando. Os três arrancam sem piedade as cruzes e os adereços de alguns túmulos.

Ao ver Geleia se aproximando de onde ela está, Rebeca se assusta e tenta se esconder em outro lugar, mas derruba um vaso de flor que se espatifa no chão chamando a atenção dos garotos. Geleia a reconhece.

Geleia
– Olha quem tá aqui…

Os dois ficam se encarando em uma distância de mais ou menos 6 metros. Rebeca está com a respiração pesada.

Geleia
– Então a piranha achou que ia matar nosso chefe e escapar assim, tão fácil?

Rebeca está imóvel. Geleia, à passos lentos com cuidado, vai se aproximando dela desviando dos túmulos. Rebeca olha para o chão, para os pedaços do vaso espatifado.

Geleia
– Fim da linha, vadia.

Rebeca tenta correr, mas é surpreendida por Davi que aparece por trás e a segura. Ela se debate, mas sem sucesso. Cleison puxa uma faca da cintura e se aproxima dela, colocando a arma branca no seu pescoço. Geleia, sorrindo, também se aproxima e dá um tapa no rosto de Rebeca.

Cleison
– E então Geleia? Ela vai ter o mesmo fim do Catarina?

Geleia olha de cima à baixo a jovem se debatendo nos braços de Davi.

Geleia
– Na na na não! Acho que podemos aproveitar de outra forma.

Rebeca entende o que ele quis dizer. Sabe que tem dia da caça e dia do caçador. Sente que agora ela seria a caça e não teria como escapar daqueles três garotos bandidos, sequestradores, ladrões de carro e…estupradores. Ela começa a desferir chutes no ar e esbravejar.

Geleia
– Ajuda segurar ela Cleison. Quero ser o primeiro.

Cleison leva alguns chutes, mas consegue segurar as pernas de Rebeca. Geleia lhe acerta mais um tapa fazendo sangrar o canto da sua boca.

Tudo escurece e só escuta-se os gemidos de Geleia e o choro de Rebeca, que vai se tornando mais fraco na medida em que o tempo passa.

O dia amanhece

Entre os túmulos estão as roupas de Rebeca. Em um canto mais isolado, deitada sobre um túmulo está a jovem nua, descabelada e com marcas pelo seu corpo. Ela se mexe com alguma dificuldade gemendo. Olha para os lados e não há ninguém.

Rebeca
– Merda!

Rebeca se vira para a cruz diante daquele túmulo e lê o nome escrito: João Acácio de la Rocha. Lágrimas escorrem pelo seu rosto. Lágrimas de dor. Lágrimas de raiva. Mas também, lágrimas de saudade. Ali está ela, diante do túmulo daquele que ensinou-a ser do jeito que ela é. Se isso é bom ou não, não se sabe. Mas de alguma forma, aquele homem ali enterrado, lhe trazia lembranças e, para qualquer um, as lembranças tendem à ser, muitas vezes, perturbadoras.

POSTADO POR

Marcos Vinicius Silva

Marcos Vinicius Silva

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  • Eu não assisti a primeira temporada, por isso, me perdi um pouco kk Mas o suspense foi predominante nesse capítulo e um suspense bem-desenvolvido aguça a curiosidade do leitor, me senti realmente aguçado aqui. Por mais, adorei a Rebeca, grande personagem, bem-delineada, enfim, há uma construção. Parabéns, amigo!!! Bela estréia.

    • Obg meu amigo. Bom te ver por aqui. Sim, entendo que possa ter se perdido um pouco, mas nunca é tarde, hehe procure lá no catálogo e veja a temporada I. Abraço!!;

  • A primeira cena é muito boa. Tem todo um clima de suspense e mistério. Uma estrada à noite, duas jovens dirigindo e por fim a polícia levando um corpo da estrada. A cena do cemitério também invoca mistério com a figura usando capuz.
    A cena da Carmen é uma apresentação, mostrando qual a posição dela. Vai voltar pra delegacia, vai enfrentar um governo negligente e uma população desprotegida, foi o que eu pude perceber. No fim, ela com o Arthur invoca todo aquele sentimento do romance ou do suposto romance que ela teve com ele.
    Mas, o episódio mesmo é da Rebeca. Toda essa brutalidade que ela causa matando o traficante e fugindo, serve pra mostrar quem é Rebeca atualmente e o que ela é capaz de fazer. No entanto, quando você afirmou no fim que aquilo não é certo ou errado, eu achei que esse aspecto moral poderia ser explorado em relação a Rebeca (lembrando que essa é minha opinião) acho que esse dubiedade entre fazer o bem ou o mal, entre estar certo ou errado tornaria a Rebeca ainda mais humana. Sei que vê-la sofrendo por ter sido abusada pelos garotos foi muito triste, mas ela consentiu em fazer sexo com o Catarina, então… Essa é minha opinião amigo. O episódio é instigante e me deixou curioso pra saber como Rebeca vai lhe dar com a ausência do João Acácio que teve tanta influência na formação dela, e se haverá consequências pela morte do Catarina, ou talvez esse arco termine nesse episódio, será? Veremos!

    • Obrigado pelo feedback meu amigo. Sim, o capítulo é todo da Rebeca, quis mostrar no que ela se tornou. E, embora, eu apresente Carmen e tudo mais que a vida lhe pregou, o foco do capítulo é na jovem Rebeca. Espero que aprecie a temporada II o quanto apreciou a temporada I. Abraços!

  • Ameeeei! Gostei do salto temporal que a história teve. A Carmem continua encantadora, agora quero saber quem é esse Arthur que apareceu no restaurante. Cara, eu tenho um relacionamento de amor e ódio pela Rebeca, não sei se desejo o mal a ela ou torço pra ela se dar bem, só sei que a bicha tá que tá kkkkkkkk.

    • Hehe simmmm. Rebeca causa isso na gente. Arthur é um antigo caso da nossa protagonista, que veio pra atazanar a vida dela (ou não) haha. Acompanhe os próximos capítulos que tá que tá!

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