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Entropia

Acordara quase que de supetão naquele cômodo escuro. Sua cabeça latejava e ela não sabia o motivo. Teria bebido? Não se lembrava! Uma brisa gélida estremeceu sua nuca. Onde estaria? Um ritmo estranho parecia dedilhar o telhado, lembrava um cauda-longa de uma de suas tias apaixonada por música, olhou para trás e descobriu o motivo: uma leve garoa caía lá fora! Ainda estava claro! Perdera por completo a noção do tempo. Aproximou-se da janela e reconheceu o jardim de sua universidade, recordou-se instantaneamente das disciplinas que tivera naquele dia. Era uma quinta-feira de Setembro. Logicamente teria farmacologia nas duas primeiras aulas da manhã, depois estudos de casos clínicos! Sim e estivera na aula! Lembrou-se de professora Maura incitando indiretamente os alunos tímidos a falarem seu diagnóstico e assentá-los em artigos científicos. Ela como sempre não queria ter que passar por isso! Não é que não achasse que não fosse uma boa estudante de medicina ou não tivesse bons argumentos, era simplesmente porque morria de medo de errar e ser repreendida por isso! Muitos vinham com aquele papo de auto-ajuda que o importante era você estar bem com você, mas isso na prática não fazia o menor sentido! Todos no fundo gostavam do espetáculo de Debord! Gostavam de consumir, possuir e aparecer! Nem que para isso tivessem que manter a fachada desapegada, falsamente madura de um alheamento narcísico

Ah sim! Onde estava? Precisava descobrir como fora parar no chão! Onde estaria o interruptor de luz daquele aposento? Depois de esclarecer que pela tarde teve aula de histologia, escorregou-se em uma coisa grudenta e caiu com estrépito no chão batendo a bacia! Tomara que seu nervo isquiático não fora seccionado! Se bem que poderia ser também no glúteo superior! Ai Daniele! Francamente! Não pira com seus resumos para prova prática de neuroanatomia! Sem hiperatividade, lembra-se? Precisa ser uma menina comum! Sem excessos! Sem bizarrice! Já não bastasse sua paixão peculiar por besouros e joaninhas! Desse jeito nenhuma garota vai te querer! Ou melhor nem mesmos seus pais vão te bancar quando você provar ao mundo que é uma fracassada! Uma despreparada! Você sabe que fica defendendo esses ideais comunistas, porém, no fundo é apenas uma desculpa para não ser a primeira da classe, uma boa jogadora na atlética, um ser humano comum! Aquilo que Heloísa Nestor, a sua inimiga de colegial lhe falou uma vez fazia todo sentido! Era uma sapa-boi nojenta e não passaria de uma anfíbia! Lágrimas escorreram pelo canto dos olhos.

Daniele era vítima de seus próprios pensamentos!

Não conseguia controlá-los e os deixava afetá-la, o mais triste era o que fazia consigo mesmo quando se trancava no quarto e pegava o canivete que roubara da casa de sua tia médica Alerquina há alguns anos, rasgava a própria pele…tampou os olhos com as palmas das mãos e tentou limpá-los…o sangue escorria em seu braço, no próprio quarto perante aquele machucado que provocava, ardia, queimava-a tanto por dentro quanto por fora, era uma maneira de externalizar, todavia era necessário, uma vez que expressava os sentimentos ruins que pareciam ficar preso em seu peito-tireoide tal como Munch pintava em seus quadros, observava-o, ele era tão vermelho, tão vivo que parecia…

Real! Oi? Sujara-se com alguma coisa grudenta! Não sabia o que era! Mas aquilo lhe deu uma aflição! Estava parada ali e só agora percebera! Levantou-se repentinamente e tateou a parede! Foi então que se deu conta que a porta do local estava aberta e um corredor parcialmente escuro se revelara por ela. Conseguiu essa proeza de identificá-lo dado a réstia de iluminação pelo entardecer cujos raios entravam pelas janelas no alto. Olhou em volta e avistou do outro lado a indicação de torre 2, meio translúcida, próximo a escada que subia para o segundo andar. Estava próxima do laboratório de citologia? Certificou-se de ir até o final daquele corredor, acompanhando a sua sombra muito maior que caminhava pela parede até se aproximar do letreiro que indicava ser ali o tal laboratório, ouviu uma doce melodia. Seria uma gaita? A porta estava entreaberta e sua curiosidade só aumentava. Adentrou-se. Estranhamente o relógio de pêndulo próximo a entrada estava derretido. As janelas ao fundo eram maiores, os galhos se batiam violentamente lá fora dado a ventania, o que passava a impressão que os vidros estavam furiosos de fome e estavam prestes a devorá-la.

Pensou em voltar, mas sua mente desejava encontrar a origem daquele som metálico. Caminhando mais ao fundo, sentiu estilhaços no chão, pelas nesgas de luz externa, tratavam-se de lâminas de vidro quebradas, eram muitas. Seus olhos focalizaram o assoalho na busca por alguma pista, afinal o responsável por aquilo poderia se esconder no mundo macroscópico, mas não escaparia pelo microscópico. Era perfeitamente possível determinar de qual altura aquilo fora jogado! Foi então que se deu conta que os dois armários de registros estavam revirados, papéis jogados no chão. Um deles instruía a como colorir as lâminas com pigmentos específicos. Um dos microscópios não estava na bancada e por coincidência era o que geralmente ela escolhia para usar nas aulas. Quem havia feito isso essa bagunça?  O que motivara alguém a desorganizar o laboratório de histologia? Percebeu vultos laranjas passando pelo jardim no lado de fora e escondeu para não ser vista, ainda que pusera a escutar a conversa.

  • Essa universidade já foi melhor! Capixaba! Tiraram os geradores dos prédios! Veja só! Com tudo escuro em plena segunda! As aulas tiveram que ser canceladas!
  • Não sei, Portuleno! Essa foi a segunda vez que caiu a energia este ano! Eles fizeram certo em vender os geradores e manter só os do hospital. Mônica me contou outro dia que foi para fazer aquela nossa salinha de refeição também! Foi um bom negócio! Empregado não ter lugar para deixar comida e passar o dia inteiro trabalhando? Isso sim seria o fim do mundo!

E continuaram a caminhar. Pela tonalidade das vestimentas, deduzira que eram os faxineiros. Então a energia havia acabado? Mas por que ela não foi para sua casa? Não ficava tão longe! Porque estava naquele andar deitada no chão? Espere um momento! Com aquele falatório todo dos funcionários a melodia cessara! Será que a pessoa se assustou? Uma ideia repentina invadiu sua mente naqueles segundos que se seguiram. Teria ouvido mesmo uma melodia? Ou seria fruto da sua imaginação perturbada de sempre? Avistou a outra porta do laboratório, estava aberta, porém, diferente daquela onde acordara, estava convidativa, contemplava-a e a avidez da jovem a admirava vertiginosamente de volta. Riu de si mesma por um momento.

O quanto aquilo refletia o livro que lera na semana passada: Assim falou Zaratustra! Aquele cenário sombrio, de filmes de suspense, como aquilo traduzia o seu sujeito pensante! Era muito Revolução Copernicana de Kant! Manchava a narrativa a todo momento com suas percepções. O que Lygia Clark diria sobre isso? O que você leitor diria sobre isso?

O corredor que se revelara do outro lado da porta desembocava numa saleta. Antes de chegar nela, notou que uma luz de celular radiografava um esqueleto humano em movimento na única parede que conseguia se ver do ângulo que estava. Perpassou o arco da porta e alguém de costas, muito encurvado, debruçado sobre um microscópio com a lanterna do celular mexia alvoroçadamente nas lentes para identificar alguma coisa.  Silenciosamente se aproximou e percebeu um traço muito peculiar, a orelha direita da pessoa saltava estridente em um movimento repetitivo. Parecia que já vira isso em algum lugar! Era-lhe familiar. De sobressalto, percebeu a gaita e uma pequena bolsa numa mesinha, era de um congresso de psiquiatria, mexendo cuidadosamente, deu um berro ao ler o nome Alerquina. Lembrou-se no ato o que sucedera momentos antes. A pessoa se virou bruscamente em sua direção com a lanterna e ela comprovou, era sua tia em carne e osso! Tudo agora fazia sentido! Tudo! Tropeçou nos próprios cadarços e foi de boca ao chão, mas logo se recuperou e continuou desenfreada a correr, saindo no pequeno corredor, depois no laboratório, depois novamente no corredor. Até que as luzes voltaram!

Sentiu-se um pouco enjoada com aquela claridade repentina. Torceu para a cefaleia não lhe desencadeasse mais um episódio trágico de epilepsia. Ancorada um pouco numa coluna do primeiro andar da torre 2, recordou-se que estava próxima da sala na qual acordara. Um tremor tomou-lhe por inteira. Comprovaria sua epifania? Seu flashback? Teria sido realmente testemunha ocular de um crime?

Abriu a porta e constatou: Atila, o técnico de laboratório, responsável pela preparação das lâminas histológicas a partir do Xilol, estava envolto por uma enorme poça de sangue, fora assassinado. Havia marcado um horário com ele depois da aula de histologia, o qual iria lhe passar o conteúdo que havia perdido em um outro momento dado uma extração odontológica monitorada e problemática de um de seus sisos. Havia chegado um pouco mais cedo que ele e o aguardava naquela sala, quando lhe deu uma vontade de ir ao banheiro e utilizou um outro aposento interno dali mesmo.

Quando saíra presenciara uma discussão em baixa voz de sua tia com ele, eram amantes até que Atila descobrira que ela estava testando em humanos possíveis remédios para cura de uma neoplasia específica no trato urinário em pacientes terminais com a doença, culminando na morte de muitos deles pelos efeitos colaterais do processo. O que a motivara, Daniele bem sabia, era sua prima, filha de Alerquina de seu primeiro casamento, a garota havia contraído o tumor e padecia porque não respondia aos tratamentos quimioterápicos. Ela tinha ânsia em salvar sua menina nem que para isso tivesse que atravessar a bioética. O grande problema é que oncologia não era sua especialidade, ela lera alguns materiais sobre a temática, mas não tinha autorização para tal ação, muito menos aprovação dos profissionais no hospital, os quais repudiavam e muito a medicina alternativa, não científica.

Atila ficou escandalizado quando fez uma investigação por umas enfermeiras e descobriu a verdade. Ele pôs Alerquina contra parede e dissera que a denunciaria para a polícia e ao Conselho Regional de Medicina. Apavorada, Alerquina tomou posse do primeiro objeto que vira na frente, uma faca que dissecava peças sobre uma bancada e o esfaqueou muitas vezes até a morte. A cena foi tão pesada para Daniele que ao perceber o cadáver e os respingos nas paredes, caiu-se no chão e se revelou a sua tia, tendo um forte episódio de epilepsia, apagando-se.

Diante daquelas lembranças trágicas. Apenas algo não fazia sentido! Por que sua tia não a havia matado também? Já que ouvira a história toda e presenciara o bárbaro crime? Por que a deixara viva e próxima ao… O último lampejo de consciência veio a mente. Um detalhe revolucionário e decisivo. Derretido! O relógio de pêndulo! Os tempos não mais seguiam um padrão linear. Estavam misturados. Mas por quê? O corpo de Atila não estava mais ali. Haviam tido dois apagões. As próprias falas dos faxineiros comprovaram isso. Como pudera esquecer? O dia do primeiro apagão e do crime fora na quinta e apenas uma chuva fina despontava no telhado. E não na segunda! Ela associou livremente aquele crime com outro momento, momento que o laboratório havia sido tomado por uma fúria de uma tempestade e uma ventania tão forte que conseguiram derrubar as lâminas de vidro da bancada. E os papéis revirados? Como colorir lâminas! Mas por que tanta necessidade de se saber a última etapa do processo histológico, depois que o corte passava por álcool, xilols, parafinado e desidratado? O dia da tempestade era o dia que sua tia tocava gaita e mexera em um dos microscópios na saleta do laboratório de histologia! Alerquina lhe dissera certa vez que tocava gaita para a filha adoecida que ela gostava de ouvir. O que elementos tão diferentes: gaita, relógio surrealista, assassinato, Alerquina no microscópio, faxineiros, lâminas quebradas, o que tudo aquilo tinham em comum? Qual era a simbologia por trás?

O toc na orelha direita de Alerquina! “Tenho sempre esse toc sobrinha quando abro o congelador! Uma resposta ao frio! Não posso ficar muito tempo! ” O processo de dessecação e de lâminas histológicas passavam por algumas etapas a baixa temperatura.

A mesma gaita que tocava para sua filha era a gaita que estaria tocando para si naquele momento, um entretenimento de memória, estaria fazendo um bem para sua filha não pela terapia musical, mas pela análise de lâmina. Tinha uma cobaia!  Mas quem era dessa vez? …

Era ela, a protagonista desta história. Uma machadada para três coelhos. Queima de arquivo da única testemunha, ocultação do cadáver e mais um teste delirante para seu instinto maternal. No fim, não era Daniele que estava ali, mas sua alma desnorteada desprendida do corpo, solta por aí, nessa entropia do universo.

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POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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