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Estação Medicina – Capítulo 04 – No pulo do gato

Estação Medicina

Capítulo 04:  No pulo do gato

 

CENA 01/TARDE/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ DIRETORIA DA MEDICINA

DIRETOR – Temos que tratar imediatamente de contatar os investidores de Harvard e Lanchester para conhecê-lo. 

MATEUS – Farei melhor! Vou chamar todos para um café na mansão! Você aceita o convite, não é meu rapaz? 

Os olhares de Goram brilham de expectativas para seu plano de vingança 

GORAM – Não é cuia! Com certeza! 

MATEUS (ri) – Você fala engraçado! Cuia?

VITOR – É gíria nortista! Professor Reitor! Significa claro que sim! 

MATEUS – É Vossa Magnificência para você, mero aluno. Então está acertado! Daqui alguns dias iremos entregar as medalhas numa pequena cerimônia no auditório Anchieta! Não se esqueça querido.

GORAM – Claro! Claro! 

DIRETOR – Então agora vocês podem voltar para suas atividades. Vamos nos falando Goram.

O índigena abaixa a cabeça num falso tom de gratidão. Quando estão saindo da sala com Vitor. Mateus o chama

MATEUS – Goram! 

O rapaz se volta para seu oponente.

MATEUS – Muito obrigado por nos ter dado esse título. Era-nos muito importante! 

Goram se aproxima dele num gesto robotizado e profere lentamente

GORAM – Eu que agradeço essa saudação, Vossa Magnificência. Não faço mais que a minha obrigação quanto a temi mbo’e! 

MATEUS – Você faz mais, é um ponto fora da curva, tenha certeza disso. E para você, é Doutor Mateus. 

GORAM (cínico)- Combinado. Se depender de mim, nde nunca se decepcionará com Goram. 

Profere irônico e se vai. Mateus gosta do puxa-saquismo do rapaz.

DIRETOR – Esse aí vai longe! Tem feeling.

MATEUS – Com certeza! 

CORTAR PARA: 

CENA 02/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ ANFITEATRO DE MICROBIOLOGIA E BIOLOGIA CELULAR/TARDE

Goram entra na sala acompanhado de alguns colegas de sala : Suzy, Gustavo, Heloísa e Fabiana

GUTO – Mano! Tu é um gênio! Como assim velho você consegue medalha de ouro sem ter nenhuma matéria?

GORAM – Égua, parem com isso! Eu sou um aluno como vocês! Não gosto desse endeusamento. Paha esse assunto por Maíra! 

SUZY – E além de tudo, ele é humilde. Pode ser mais perfeito assim? Gente! 

Goram olha com uma cara de tédio para Suzy e acaba trocando olhares de Heloísa. Ela que estava em silêncio, avermelha-se por completo. Ele ri baixinho achando graça.

FABIANA – Nossa gente! Vocês viram a grade? São quatro horas ininterruptas dessa matéria. Espero que o professor tenha didática 

DANDARA – Ouvi dizer por uma amiga do terceiro ano, que é um velho machista para caralho. Diz que ele dá em cima das alunas e não vai com muita cara de garoto Um verdadeiro nojo! 

FABIANA – Nossa!!!

GUTO – Bora sentar rapaziada. O careca chegou! 

Os alunos se acomodam. Goram contempla Heloísa a alguns lugares dele. A garota percebe, mas disfarça. 

ANTONIO – Bom dia, crianças! Meu nome é Antonio Carlos Peixoto! 

Eles espera alguns alunos pararem de conversa 

ANTONIO – Terminaram? Só para avisar, da próxima vez é para fora da sala! Se tem uma coisa que odeio é aluno falante. Tanto conversando quanto tirando dúvida fora de hora! Arg…

Ele bate com a régua num papel colado em cima da lousa. 

ANTONIO – Leiam! Proibido celular nessa instituição. Se eu pegar é para fora na hora. E eu marco tá gente? Depois se a nota não arredondar para cima não reclamem! 

Os alunos se entreolham passados. Era um escroto.

ANTONIO – Bom, hoje vamos começar hoje por Organelas Citoplasmáticas! 

André deixa escapar um bafo de cansaço. Era um assunto muito batido em cursinhos pré-vestibulares. Antonio em silêncio vai até o rapaz.

ANTONIO – Você tá achando que essa matéria é absurdamente fácil? 

André gela. Marcela fica com dó do rapaz. Eliane acha gosto. Antonio provoca batendo na mesa do rapaz.

ANTONIO – De perto, percebe-se que é mais um desses filhinhos que acabaram de desgarrar da saia da mãe! Já que se acha o sabichão, responde para mim o que é tumefação mitocondrial? 

DANDARA(cochicha) – Mas que absurdo…

Alguns riem. André arregala os olhos com temor. Goram que sabia a resposta achou de muita maldade perguntar isso.  Close em sua expressão de contra senso. 

ANTONIO – Que foi o gato comeu sua língua? Anda, a sala está aguardando sua resposta! 

Dandara fica indignada com aquela situação. 

ANTONIO – RESPONDE CARALHO! 

O jovem dá um pulinho assustado. Antonio ri

ANTONIO – Não é homem o suficiente! Garotinha!

Alguns caras gargalham. Dandara pensa em agir. Mas Fabiana  a impede.

ANTONIO – Tumefação mitocondrial, meus caros, é uma resposta celular a um estresse sofrido pela célula, geralmente hipóxia, ou seja, falta de oxigênio. Acontece em necrose quando a célula está morrendo. A célula rompe suas membranas por se inundar de líquido intersticial, o tal do líquido que banha as células e faz contato delas com vasos sanguíneos. Primeiro vemos neste slide (ele liga de repente a aula) a celular com microfissuras e depois, nesta outra imagem a mitocondrial, diminuindo atividade fosforilativa e produção de ATP, enfraquecendo ainda mais a danada da célula.

André controla o choro.

CORTAR PARA: 

CENA 03/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/INT PRÉDIO ADMINISTRATIVO/ REITORIA

Mateus gira sua cadeira, terminando de falar com um dos investidores. FELICIDADE.

MATEUS – Eu falo que aqui só tem crânio! Vocês não acreditam. Mas vê sim durante a semana Doutor Solon um horário para tomarmos um chá e falarmos do nosso menino lá em minha propriedade. Obrigado, outro para você. Até mais. 

Secretária Albânia, 41 anos, acima do peso, branca, chega na sala toda atrapalhada e derruba um pouco de café na mesa de Mateus.

MATEUS – Mas será possível…Você é cega? Como que você derruba café aqui em cima? E se tivesse papéis importantes aqui em cima? Delicadeza mandou lembranças, né? 

Ela fica muda. Ele prova o café e cospe nela. 

MATEUS – Mas será possível, além de extremamente forte, esse café tá horrível de gelado. Qual é o seu problema? Ah quer saber, não me interessa, você está na rua da amargura a partir de agora. 

A mulher se joga a seus pés.

ALBÂNIA – Por favor, senhor Mateus, não me demita, está tão difícil conseguir emprego pela crise, eu não tenho…(arrota)

MATEUS (nojo) – Ai! Pai amado! 

Daniela, vice-reitora, pede licença e avisa.

DANIELA – Desculpa interromper…(Ela para um instante, surpresa). Doutor Mateus está acontecendo uma grande manifestação na frente do prédio administrativo contra o senhor.

Mateus se levanta incrédulo.

MATEUS – Contra mim?

DANIELA – Organizado pela Doutora Rita devido as demissões dos funcionários de limpeza, a grande imprensa está cobrindo tudo.

Fechar no rosto dele se transformando de preocupação.

CORTAR PARA: 

CENA 04/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/PRÉDIO ADMINISTRATIVO/ EXTERIOR

Rita, alguns alunos, médicos, professores, outros profissionais da área da saúde e a maioria dos funcionários de limpeza estão com plaquinhas, cartazes, exigindo a volta ao trabalho.

Mateus aparece saindo do prédio. Flashes rápidos de câmeras fotográficas em seu rosto. 

MATEUS – Mas que balbúrdia é essa? 

RITA – Balbúrdia nada, trabalhadores honestos exigindo seus direitos básicos. 

MATEUS – Que direitos? Sua comunista bêbada! Por favor, não liguem para o que essa desvairada está dizendo. 

RITA – Alto lá, desvairada uma ova! Sã, completamente sã! Mais sã do que muitos neoliberais desumanos como você. Eu quero que você se justifique publicamente o porquê das demissões em massa dos trabalhadores de limpeza? Sendo que é uma atividade essencial para higiene do hospital, das áreas externas do campus e principalmente das salas de aula! 

MATEUS – Escuta aqui, sua drag queen maldita! (Close na face de Rita profundamente abalada com a pejoração a sua condição). Eu demito quem eu quiser, na hora que eu quiser, eu mando nessa universidade, é uma herança que meus pais me deixaram. Estamos enfrentando efeitos da crise, temos que rever nossos orçamentos, não foi uma vontade minha inicialmente, mas tivemos que fazer pela manutenção do nosso lucro.

Rita explodiu.

RITA – Lucro? Que lucro a mais vocês querem? É uma iniciativa privada gratuita, porque vocês recebem isenção fiscal, mamata do governo, investimentos internacionais, investimentos das grandes indústrias farmacêuticas em que muitos dos alunos que vocês formam agora se tornaram mão de obra barata para elas. Mas mesmo assim, vocês já pensaram em cobrar a mensalidade. Você não manda aqui, Mateus, que eu saiba é uma sociedade, há outras pessoas que são acionistas, inclusive eu sou. E você não vai me ferir, zombando da minha condição, eu tenho muito orgulho de ser uma drag queen, de ter identidade de gênero fluída. E tudo isso está sendo televisionado para mostrar ao mundo o facínora que você é. A Universidade sempre está em superávit, acompanho isso e mesmo se estivesse sendo afetada pela crise, há outras alternativas,menos danosas aos trabalhadores como o excesso de cargos administrativos e a corrupção deslavada que vocês e seus amiguinhos fazem.

Repórteres vão para cima de Mateus que fica sem reação. Ele acaba entrando no prédio, desesperado. Manifestantes vão para cima, Rita sorri. Ele profere antes de entrar.

MATEUS – Você vai pagar caro por calúnia e difamação, aguarde de pé. Outra hora continuo com vocês, não estou muito bem.

E fecha as portas. Rita diz para um funcionário de limpeza.

RITA – Ele não tem argumentos! Vive de ameaças. Pressionando, a gente vai conseguir mudar esse jogo, ele que aguarde de pé. 

Mas depois pensa no que acabou de acontecer e nas consequências que isso terá para sua carreira. Agora estava exposto para o mundo suas questões de gênero. 

CORTAR PARA : 

CENA 05/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ INT. ANFITEATRO DE MICROBIOLOGIA E BIOLOGIA CELULAR/NOITE

Mostrar Suzy e Heloísa saindo com o pessoal. Embaixo da cadeira de Suzy, focar numa carteira que ela esqueceu. 

CORTAR PARA: 

CENA 06/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ ÁREA EXTERNA/NOITE

SUZY –  Eu nunca copiei tanto na minha vida em uma única aula! 

DANDARA – Velho Maldito! É uma absurdo o que aconteceu! Hey, André, você está bem? 

André balança a cabeça.

FABIANA – Gente, acho que estão pegando muito pesado. Ele errou feio! Mas é idoso! 

Dandara rebate.

DANDARA – E daí que seja idoso? Isso lá é justificativa para tratar os outros dessa maneira desprezível e machista? Se for assim então vamos passar panos quentes em cima do Michel Temer então que golpeou uma presidente legitimamente eleita para usurpar sua cadeira por ele ser idoso.

FABIANA – Não misture as estações, menina! O que eu quis dizer e você não entendeu é que devemos ter um pouco de paciência com ele. Sem contar que dependemos dele nesse semestre para conseguir nota! 

GUTO – Concordo com a Fabiana! Dependemos dele! Ele é um cara escroto! Mas ensina muito bem!

MARCELA – Há divergências quanto a isso. Eu tive dificuldade na aula dele! 

DANDARA – Isso não importa. Temos que procurar a secretaria e fazer a denúncia e se não mandarem ele embora, chamamos a polícia e quem sabe a imprensa. Eles vão ter que tomar uma providência! 

SUZY – Nossa fia! Se acalma! É uma atitude muito radical! Tivemos apenas uma aula com ele. 

DANDARA – O Suficiente para percebermos que essa situação é inaceitável. Vamos lá, menino, denunciar! 

ANDRÉ – Deixa para lá! Vai dar confusão! Da próxima vez eu sento mais para trás! 

DANDARA – Mas essa sua fala é totalmente injusta com você mesmo. Você tem o direito de sentar onde quiser! 

Diminuir a voz de Dandara e focar em Goram que se aproxima de Heloísa que está quieta ao lado de Suzy

Ligar música Trevo de Ana Vilela

GORAM – Nossa Mborahy seu vestido. Amo Girassóis! 

Ela se corou. Não conseguiu encará-lo nos olhos.

HELOÍSA – Ah! Obrigada! 

Continuou o silêncio e Goram se arriscou mais uma vez.

GORAM – Mitã Kunã, gosta de andar de bicicleta? Estou pensando em ir no Ibirapuera amanhã antes da aula! Conhecer! Tenho duas janelas sãso! Minhas aulas só começam às 10h! 

Heloísa ri.

HELOÍSA – As minhas também

GORAM – Pai d’egua ! Então topa? 

A menina fica em silêncio. Mas Suzy que ouvia tudo dá uma cotovelada no braço da amiga. Heloísa entende o recado.

HELOÍSA – Ah.. Pode ser! (meio gaguejando)

GORAM – Então fechou! Onde você óga? Podemos ir juntos.

HELOÍSA – Na República dos Estudantes! Sabe onde é?

GORAM – Ani! Mas eu jogo no Waze no celular. É da própria faculdade não é?

HELOÍSA – Sim! 

Ele chega na cabine para pegar o metrô

GORAM – Bom! A gente se vê Koero! 

HELOÍSA (diz encantada) – Amanhã?. Sim. A gente se vê! 

Eles se abraçam meio sem jeito. Assim que ele some na escada rolante da entrada para o metrô. Suzy dá tapinhas nas costas da amiga.

SUZY – Hummm! Marvada! De santa com essa carinha de nerd tu não tem nada. Foi logo engatando o índio.

Heloísa fica meio brava.

HELOÍSA – Cala boca Suzy! Você não sabe de nada! 

SUZY – Vou fingir que não vi tá? Aquele beijaço no Bar do Esteto depois do trote no semáforo. Vou fingir que não vi! SUA PEGADORA! 

E sai correndo rindo alto. Heloísa vai atrás passada.

HELOÍSA – VOLTE AQUI! Suzy! No apartamento você não me escapa!

Fim da música Trevo de Merlim

CORTAR PARA: 

CENA 07/IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/ NOITE

Imagens aéreas da cidade de São Paulo : Estação da Luz com sua igreja são mostradas. Pizzarias na Mooca são abertas. O bar do Bexiga lota com a juventude. 

CENA 08/NOITE/SÃO PAULO/TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ INT. QUADRA FECHADA 3

Fabiana está no último quarto do jogo do basquete.

IVANA(treinadora profissional, branca, 33 anos, cabelo ruivo) (O.S) – Lara, lara. A Eliane lá na frente,tá livre, vocês estão muito dispersas hoje.

Mostrar Eliane rindo com bola. Fabiana era do time rival e não demorou muito para roubar a bola, deixando a patricinha chocada com sua agilidade. 

Mostrar outro treinador.

LUCA(Homem trans, quintanista,treinador do time de Fabiana, cabelo curto, malhadinho, tatuado) – Sai da área restritiva, Pietra. Vai levar falta. Não vê que Carla está com a bola? 

Mostrar o jogo novamente. Geralda do time de Eliane rouba a bola de Carla. Carla e Bernarda, ambas do mesmo time tentam encurralar Geralda. Árbitro apita.

LUCA – Porra, meu. Estão prendendo a bola, velho. Nara marca a Viviane lá na frente, não vê que… tá vendo ela pegou a bola, tá aberto o jogo, fecha.

Mostrar o jogo. Voltar a câmera para Ivana.

IVANA – Isso, Viviane, finta na Judith, isso, vai, corre para linha. 

Mostrar com a câmera. Um segundo árbitro apita. Luca comemora. Viviane batera na bola com as duas mãos. Judith pega a bola, ziguezagueia. Eliane frustrada. Passa para Fabiana, ela corre, vai para linha de três pontos e faz o arremesso.

LUCA(sorri) – Bandejaaaaaa! 

Ivana se desespera. Close. Eliane também. Close. Suspense. Segundos. Arremesso de Fabiana. Ela acerta.

O terceiro árbitro apita anunciando fim do jogo. As meninas do time de Luca abraça Fabiana e a carregam até o vestiário feminino. Ivana fica desapontada. Eliane bufa de raiva e desabafa com Viviane.

ELIANE – Essa azeda entrou agora e já está conquistando o coração das pessoas! Mas isso não vai ficar assim. Onde já se viu uma macaca ganhar mais visibilidade que uma humana? 

CENA 09/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ ANFITEATRO DE MICROBIOLOGIA E BIOLOGIA CELULAR/ NOITE

HELOÍSA – Suzy, não precisa me puxar desse jeito. Calma! A universidade é segura. Tem segurança! 

SUZY – Que é bem duvidável, por sinal. Tudo aberto lá na frente, não posso ficar sem minha carteira, eu saquei uma boa grana que minha mãe me mandou, se eu ficar sem ela, vou passar aperto até o fim do mês! 

Elas chegam ao local e não acham.

SUZY (Preocupada) – A porta da sala apenas fechada, entraram aqui fácil e me roubaram. E agora o que será de mim? 

HELOÍSA – Nem tudo está perdido, temos uma oportunidade ainda. Vamos procurar nos achados e perdidos, vai que algum funcionário da limpeza achou e levou para lá! 

Close no rosto esperançoso de Suzy. 

CENA 10/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ INT. BAR DO ESTETO/ NOITE

Goram termina de tomar uma breja com Vítor e uma galera de veteranos comemorando seu resultado na Olimpíada. 

VITOR – Cara, você foi muito fera, sério, chegou chegando nessa universidade. Você dobrou o reitor, velho. Ele é que estava te paparicando.  

NARA (bebe um gole)  – Você está ligado, né? Vai se tornar o novo garoto propaganda da Olímpius.

GORAM – Garoto propaganda ? Mba’eichapa? 

GEORGE(com a camiseta preta escrito : Eu apoio os faxineiros) – Vai representar a universidade junto com investidores importantes, no exterior.

GORAM – Égua! No exterior? Mas não sei ne’e em inglês! 

NARA (deixa a cerveja no balcão vazia e pede outra) – É…temos um pequeno problema aí. Mas não que você não resolva logo.  Chico, vê outra para mim! 

VITOR – Sim. Não acredito que Mateus seja tão mão de vaca a ponto de te negar um curso de inglês.

GEORGE – Cara, você se esqueceu que ele demitiu os faxineiros, né? Alegando déficit nas contas da universidade? Os caras mal ganhavam um salário, mano. Ele é muito mão de vaca! 

VITOR – Mas com Goram é diferente, ele representa a Olímpius.

Focar na porta de entrada. Samuel e seus amigos trotistas. André que estava na roda, esconde-se atrás de Nara. 

SAMUEL – Ora, ora, ora. Se os pombinhos não estão comemorando a ascensão indígena na Universidade? Vocês deveriam estar chorando por esse cara estar representando todos nós. 

Goram o enfrenta.

GORAM – Telesé.  Chorando por quê? Posso saber?

Samuel ri com os meninos. André se sente mal ao ver Romeu junto com eles. 

SAMUEL – O Indiozinho tá bravo, hoje. Mas não adianta jogar arco e flecha na gente, muita gente aqui pratica artes marciais. 

NARA- Que preconceito asqueroso. Nem todo indígena utiliza essas ferramentas de subsistência, estão atualizados, assim como nós. 

SAMUEL – Falou a cantora ao fim de carreira. Você canta muito mal, viu? 

NARA – Cala essa boca! 

VITOR – Vai embora, cara. Você não é bem-vindo aqui! 

SAMUEL – Que eu saiba o Bar do Esteto é um bar público e mesmo se fosse privado, a minha turma teria condições de pagar, uma vez que somos ricos.

VITOR (ri) – Você é um bosta, mesmo. E o pior que não tem argumento e nem força física, perde feio na briga para mim! 

Samuel perde a paciência e esmurra ele, os dois entram numa briga no bar. Chico berra do balcão.

CHICO – NO MEU BAR! CONFUSÃO NÃO! 

Vitor dá uns bons murros na fuça de Samuel. Nara briga com uma jovem trotista. George briga com Pedro, um trotista barbudo. Goram pula para ajudar Vítor e em determinado Romeu pula em cima dele para defender Samuel e Goram grita pedindo ajuda de André contra Romeu. 

GORAM – Angiru, me ajude, André! 

Mas o jovem negro não consegue agredir Romeu, ele sai correndo do bar. Goram estranha. Escova, outro trotista de cabelos encaracolados ruivos percebe uma incoerência. 

Chico chega com seus seguranças e apartam a briga. Expulsam a galera envolvida naquela noite dali, retomando com música com o resto do pessoal. 

EXTERIOR BAR DO ESTETO

Samuel com o rosto quebrado, jura vingança enquanto entra no carro dos amigos.

SAMUEL – Vocês me pagam, principalmente você Vitor! 

VITOR – Pode latir o quanto quiser, chiuaua! Você não pode comigo! 

Goram comenta com os pessoal quando os jovens partem. 

GORAM – Égua! Vocês entenderam, por que o André fugiu correndo daquele jeito? 

Vitor, Nara e George dão de ombros. 

CENA 11/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ACHADOS E PERDIDOS/ NOITE

FUNCIONÁRIO RESPONSÁVEL – Um momento…

Elas se olham esperançosa.

FUNCIONÁRIO RESPONSÁVEL – Não, aqui não está nada.

SUZY (Emocionada) – Puxa vida, roubaram-me 200 pilas! 

Heloísa a abraça. Funcionário intervém.

FUNCIONÁRIO RESPONSÁVEL – Vou ligar para o vigia do corredor dos anfiteatros! 

ESPERANÇA. Ele disca o ramal. Câmera Descontínua. 

FUNCIONÁRIO RESPONSÁVEL – Isso! Borboletas na borda. Está aí com você? Perfeito! 

As meninas se felicitam.

CENA 12/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/CORREDOR ANFITEATROS/ NOITE

Suzy abraça o segurança ao abrir a carteira e constatar que tudo estava intacta.

SUZY – O senhor é um anjo, nem sei como agradecer.

SEGURANÇA – Magina, só estou fazendo o meu trabalho! 

Ao fundo, uma professora médica indonésia Sara, de 58 anos, magra, jaleco branco passa falando ao telefone.

SARA – Como assim?  Paciente de quinze anos sem histórico de desnutrição, apresentando osteoporose periarticular. Dosaram Vitamina D? O quê? Normal? Estou indo agora para ortopedia!  

Aquilo chamou a atenção de Heloísa e Suzy que se entreolharam.  Assim que a médica passa, elas se despedem do segurança.

SUZY – Obrigada.

HELOÍSA – Muito obrigada.

SEGURANÇA – Imagina, se precisarem, estou a disposição.

Elas saem correndo seguindo a professora. 

CENA 13/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/SAGUÃO DE ENTRADA

Sara passa pela catraca e Heloísa fica frustrada. Suzy aponta para o vestiário no fim do local, à esquerda. O segurança encontrava-se ocupado dando uma informação.

HELOÍSA – Não me diga que você tá pensando…

Suzy acena que sim com  a cabeça. CÂMERA DESCONTÍNUA

Elas aparecem com jalecos brancos momentaneamente roubados a fim de enganar a segurança. Detalhe, os Jalecos eram extremamente grandes para elas, pareciam vestidos. 

SUZY – Hey colega, você pode abrir aqui para gente ? Esquecemos o crachá!

Heloísa segura o riso. O Homem faz sinal positivo, nem se dera conta que não eram profissionais ou veteranos. 

HELOÍSA(cochicha rindo) – Não acredito que estamos fazendo isso…

CORTAR PARA : 

CENA 14/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ORTOPEDIA/NOITE

Sara terminava de discutir o caso com seus residentes e internos.

SARA – Possibilidades, vamos lá. 

ALUNO 1 – Hiperparatireoidismo? 

SARA – Isso seria por causa primária, os índices de Vitamina D e cálcio estariam diminuídos, além da incidência maior em mulheres. 

ALUNA 1 – Mas professora, ele fez radioterapia enquanto criança para um pequeno tumor tireoidiano, isso não poderia ter acometido parcialmente a função glândula paratireóide pela localização posterior a tireoide? 

SARA – Poder, poderia. Mas reforço, a gente teria achados no hemograma mais evidentes. 

Focar: Heloísa e Suzy entram de fininho pela sala, sem que ninguém perceba e engatinham no chão até embaixo da mesa.

HELOÍSA(Cochicha) – Meu…que surreal, o que estamos fazendo.

SUZY – Como diria os boys maduros gentis que já ficamos…relaxa e aproveita.

Heloísa riu, embora nunca tenha ficado com nenhum garoto a não ser Goram. Mostrar o quanto ela ficou sem jeito. 

CORTAR PARA : 

CENA 15/SÃO PAULO/ VILA MARIANA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ INTERIOR/SUITE DE GORAM/MADRUGADA

Goram se recorda de quando ficou com Heloísa no bar do Esteto

Ligar Flashback

Mostrar o quanto ela tentava fugir ao seu olhar, travava ao dançar com ele e até ficara meio incomodada por beber, provavelmente não tivera muito costume. 

Desligar Flashback

GORAM – Ah…Nerdzinha porã! Como tu mexeu comigo! 

Neste instante ele recebe uma mensagem no whats de Yara: 

“Sinto demais sua falta, a vida não tinha sentido sem você”. 

CULPA.

GORAM (V.O)-  Yara era uma kuña encantadora. Uma parceira de anos. Quantas vezes a ouvi quando ha’e sentira-se mal. Como lutava com ele em prol das injustiça que acontecia com seu povo, sobretudo o genocídio. Seu jeito de jeroky, sua presença sedutora. Mas ele não podia mentir para si mesmo, iludí-la com falsas promessas. Iria esfriar a cabeça e depois responderia. Aliás isso só estava acontecendo por obra de sua mãe, certeza, afinal ele mudara de número desde que perdera o celular no metrô e Tia Adelaide te dera um antigo dela. 

Tirou a roupa e pôs a se encaminhar para o chuveiro. Foi então que se recordou.

Ligar flashback. 

CORTAR PARA: 

CENA 16/ DIA/ SÃO PAULO/ JD AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/ INTERIOR/ SUITE DOS MOÇA

ELOÁ – Pronto filho! Pode vir! 

Giovane(Goram) havia aprendido há pouco tempo a andar, ainda usava fraldas, sentiu medo em tomar seu primeiro banho sozinho.

GIOVANE – Mãe! Tenho medo! 

ELOÁ – Nada vai te acontecer filho! Eu prometo! Está crescendo, é importante que consiga fazer isso sozinho! Venha! É apenas água! 

Giovane se aproximou sem jeito, se apoiando na parede e com ajuda dela entrou no boxe.

ELOÁ – Mamãe vai fechar! Mas vai ficar aqui te assistindo! Há uma bucha ali para esfregar o corpo. Seu shampoo está ali! Vamos, você consegue! Tenho certeza!

O pequeno respirou fundo. Parecia algo de muita responsabilidade. Queria muito continuar na banheira, com ajuda dela 

ELOÁ – Isso! Muito bem! Primeiro se enxague!

Aos poucos, ele foi se lembrando dos passos que ela havia te falado mais cedo e foi se entusiasmando com aquela conquista.

GIOVANE – Mãe! Estou aprendendo a tomar banho sozinho! 

Ela sorriu emocionada. 

ELOÁ – Tá vendo filho? Você é capaz de fazer tudo! Eu estou muito orgulhosa de você!

GORAM (V.O) – Eu jamais me esqueci daquele olhar. Sy.

CORTAR PARA: 

CENA 17/NOITE/SÃO PAULO/ VILA MARIANA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ INTERIOR/SUITE DE GORAM

GORAM – DESGRAÇADO! ANIMAL! 

E começou a esmurrar a parede enquanto a água caía em seu corpo. 

CORTAR PARA: 

A cena de sua mãe morta na cama, seus lábios cobertos de sangue pelas pauladas. 

VOLTAR PARA : 

GORAM – Eu vou acabar com você! EU VOU TE MATAR! COMO VOCÊ PODE MATAR A NOSSA SY?! A MULHER QUE TE DEU KOVE! 

E gritava alto em meio ao choro de soluçar. Themise que passava perto do quarto ouviu os berros e invadiu a suíte preocupada. Goram estava caído no chão do chuveiro, totalmente em transe.

THEMISE – GORAM! Meu Deus, o que aconteceu?

Ele a abraçou quando ela se agachou, não estava totalmente nu.

GORAM – Eu não aguento mais! Themise! Preciso compartilhar essa história! Não sou de ferro! Sou teõ! 

THEMISE – Pois me conte, Goram! Conte-me tudo que te aflige! Eu estou aqui! 

GORAM (chorando) – Goram não está em São Paulo apenas pelo vestibular de medicina. Estou aqui para um acerto de contas com meu passado! A minha história antes de ser adotado pelos Guajajaras! 

THEMISE – Como é a sua história? Que acerto de contas é esse?

GORAM – Eu sou um dos herdeiros da universidade Olímpius! 

Themise se choca. Close lento.

THEMISE – O quê? Então você é irmão daquele reitor? Mateus o nome dele não é?

GORAM – Aquele monstro não é meu Ykey ! Goram não considera! Ele assassinou nossos pais e me jogou dentro de um rio a altas correntezas com apenas 5 anos de idade! 

A jovem fica horrorizada. Close up brusco. COMPAIXÃO

CORTAR PARA: 

CENA 18/SÃO PAULO/ PARAISÓPOLIS/ CASA DOS PEREIRAS/COZINHA/MADRUGADA

Fabiana acorda em meios aos livros em cima da mesa. Havia estudado tanto que dormira em cima deles. 

Flashback rápido :  Gustavo durante a aula de Enfermagem dando umas observadas nela. 

FABIANA (O.S.) – Como ele era lindo! Tinha um jeito meio torto de enxergar a realidade! Era meio molecão! Mas era encantador! 

Lembrou-se de quando ele se aproximou no bar do Esteto com todo aquele gingado! 

Fim do Flashback.

Foi quando percebeu que a casa estava silenciosa. Levantou-se.

FABIANA – Mãe? 

Ela andou pela sala, pelos quartos e estranhou ela ter saído. Olhou no relógio.

FABIANA – Mais de dez horas! Onde será que ela foi? 

CORTAR PARA: 

CENA 19/NOITE/SÃO PAULO/ MINHOCÃO/ EDIFÍCIO MARIAN/APARTAMENTO 74/ INTERIOR

Carolina respira antes de pressionar a campainha. Um homem alto já idoso abre.

GUILHERME – Eu sabia que você viria, Cacau! 

A sessentona entra meio sem jeito. Ela observa a casa, contemplando cada cantinho. 

CACAU – Quem diria hein Guilherme! Que um dia eu ficaria frente a frente com o cara que me estuprou e é o pai da minha filha! 

Close no rosto arrependido do homem.

CENA 20/ SÃO PAULO/ IMAGENS AÉREAS/ DIA

Imagens aéreas da cidade de São Paulo são mostradas ao som de Tiê Mexeu Comigo. Metrôs lotados na Conceição. Congestionamento na Paulista. Crianças brincando em ruas da Penha. Casais LGBTQIA + saindo de baladas na Augusta, indicando que amanheceu. 

CORTAR PARA: 

CENA 21/MANHÃ/SÃO PAULO/ PARAISÓPOLIS/ CASA DOS PEREIRAS/ SALA DE ESTAR E COZINHA

Fabiana acorda no sofá com a chegada de sua mãe. Ela se espreguiça cansada.

FABIANA –Mãe? Mãe! Você tá chegando agora da rua? 

Mas Caroline não responde, vai para cozinha e puxa a leiteira para fazer café. Fabiana vai atrás dela.

FABIANA – Você vai me deixando falando sozinha? É isso mesmo? 

CACAU – Eu passei na casa de uma amiga, fiquei conversando até tarde, perdi a hora! Ué?

Fabiana desconfia.

FABIANA – Que amiga?

CACAU – AA… Fernanda! 

FABIANA- Mas você não me disse esses dias mesmo que havia perdido contato com ela, que ela estava morando no Sul?

CACAU – Ela voltou, ué? Está numa quitinete no Tucuruvi! 

FABIANA – Numa quitinete no Tucuruvi? Essa história está muito estranha! Mãe! Ela não era podre de rica? Havia casado com um banqueiro?

CACAU – Ai garota! Não me amola! Estou cansada! Não dormi essa noite! Ainda tenho que trabalhar.

E enquanto a água ferve a todo vapor no fogo. Carolina se adentra para seu quarto. Fabiana percebe que está atrasada para a faculdade e cochicha para si mesma: 

FABIANA – Dona Caroline…Dona Caroline! Mais tarde conversamos direito sobre essa história! Vou descobrir exatamente o que a senhora está me escondendo!

CORTAR PARA: 

CENA 22/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ CAMPUS UNIVERSITÁRIO OLÍMPIUS/INT. QUADRA 1/ SALÃO/MANHÃ

Mostrar Takes de Vitor treinando vôlei com o time da faculdade. Desfocar. Instrumental explosivo, uma mão rouba a  mochila do treinador compenetrado no jogo.

CORTAR PARA : 

VESTIÁRIO MASCULINO

Samuel com o rosto cheio de band-aid abre o armário de Vitor e coloca o conteúdo lá. 

SAMUEL – Agora você vai se ferrar para valer, Vitor Dos Palmares!

CORTAR PARA : 

CENA 23/MANHÃ/SÃO PAULO/ JD. AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/ INTERIOR/ QUARTO DE MATEUS

Mateus está imitando Rita de pé na cama para Bernardo que sentado nela ri alto. 

MATEUS(vozinha) – É direito dos trabalhadores, não pode demití-lo, seu desumano! Ai não tenho paciência para bicha de esquerda. 

BERNARDO – Ai, amor. Você é ótimo! 

Eles trocam um beijo bandido molhado. Mateus olha no celular e vibra.

MATEUS – EU NÃO ACREDITO!!!

E começa a socar travesseiros. Bernardo ri. 

BERNARDO – Nossa, que animação toda é essa de repente? 

MATEUS – É bom demais para ser verdade! Veja com os próprios olhos essa manchete, amor.

Na mensagem do celular : “Professora drag queen Rita Bernardes puxa movimento dos trabalhadores de limpeza da Universidade Olímpius e poderá ser processada por calúnia e difamação.

BERNARDO – Não…

MATEUS (Rindo) – SIM…Mil vezes sim! Aquela bruaca vai pagar por tudo que me fez. Feitiço virou contra feiticeira. Agora todos sabem que ela não é mulher coisa alguma. 

BERNARDO – Chocado, até eu achava que ela era uma mulher cis. Como você descobriu que era uma drag? 

MATEUS – Dei meus pulos, há tempos me irrita, precisava de uma carta na manga, apesar dela ter um nome social, nem foi tão difícil descobrir. 

CENA 24/ MANHÃ/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/ EXTERIOR

André está lendo sozinho num banco o jornal. 

Flash back rápido: mostrar a noite anterior no bar do Esteto. Goram pedindo para ele ajudá-lo, batendo em Romeu mas ele não faz e foge

Ele olha a manchete do jornal e se choca. 

ANDRÉ – Professora Rita é uma drag? 

DANDARA – Quem é drag? 

Ele leva um susto.

ANDRÉ – Uma professora que me ajudou!

DANDARA – Eu não sei o que esses caras querem imitando mulher? Mano! Querem tirar o protagonismo de nós mulheres, tirar nossa luta de ter nascido mulher e ter sofrido todas as consequências desde cedo. Transsexuais são os piores. Mas…Você tá melhor de ontem? Quando aquele machista escroto te humilhou? 

ANDRÉ – Estou sim. 

DANDARA (Puxa um papel do bolso e um saquinho do outro, enrola a faz um cigarrinho de maconha) – Você quer? 

André fica meio assustado. 

ANDRÉ – Não obrigado, eu não uso drogas! 

DANDARA – Maconha não é mais uma droga…como falam! Pode viciar, mas não faz mal a ninguém. 

De supetão, pai de Dandara aparece. Seu nome era Umberto, um homem alto, alemão, empresário, conservador.

UMBERTO – Mas o que você está fazendo? TIRA ESSA PORRA DA MÃO AGORA? EU NÃO TENHO FILHA DROGADA! 

André estremece. Dandara o encara com ódio. Close cigarro no chão. 

CENA 25/MANHÃ/SÃO PAULO/ VILA MARIANA/ CASA DE ADELAIDE/ INTERIOR/QUARTO DE GORAM

Themise bate na porta do rapaz e entra com uma bandeja. Ela não o encontra. Confusa.

Ligar Flashback. 

Mostrar. Na noite anterior havia servido um chá de camomila a Goram que tinha dificuldades para se acalmar. Ouvira-o atenciosamente e mal conseguira dormir por tudo que ele revelara. 

THEMISE (0.S) – Mateus só podia ser um psicopata!

Fim do Flashback.

THEMISE – Goram, acorde! Fiz Hihi! Embrulhei a massa de mandioca em folhas de bananeiras como pede a receita original! Espero que goste! 

Entretanto, ao chegar mais perto, percebeu que o índigena não estava embaixo das cobertas. Ouviu seu telefone vibrar na cabeceira.

THEMISE – Ué? Ele saiu e deixou o celular para trás? Onde será que ele foi? 

CORTAR PARA: 

CENA 26/MANHÃ/SÃO PAULO/ JD AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/EXTERIOR/ CALÇADA

O Protagonista desliza a mão pelo grande portão dourado da propriedade. Emociona-se. 

GORAM(V.O.) – O local parece intacto. Parado no tempo! 

Flashback rápido. Ainda podia ver ele correndo por aquele gramado brincando de pega-pega com seus pais. 

MATEUS – Goram? Que surpresa boa! O que você está fazendo aqui em frente a minha casa? 

Instrumental explosivo. Ele se vira petrificado. Estava diante de Mateus e Bernardo, seu cúmplice de anos. Congela. 

  

POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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  • Mais um excelente capítulo, pra variar hehe. A história está cada vez melhor. Tramas envolventes que prendem muito nossa leitura. Parabéns! Já estou fã demais do Goram!

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