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Estação Medicina – Capítulo 05 – Visita inesperada

Estação Medicina

Capítulo 05:  Visita inesperada

FADE IN

CENA 01/MANHÃ/SÃO PAULO/ JD AMÉRICA/ MANSÃO DOS MOÇA/EXTERIOR/ CALÇADA

Goram fica meio sem jeito. Tenta dar uma desculpa esfarrapada para o casal que voltava de uma caminhada matinal. 

GORAM – Uma páko mora aqui algumas quadras daqui! Fiquei sabendo que morava aqui perto, resolvi passar para conhecer sua mansão, realmente é hesakã! 

Focar em Bernardo. DESCONFIADO. Mas Mateus movido pelo puxa-saquismo de sempre do mocinho, acaba se convencendo e se empolgando

MATEUS – Encantador é você meu rapaz! Não quer tomar um café conosco? 

Bernardo o puxa para um canto. Estão de costas para Goram, desfocar neles num momento e mostrar expressão de estranhamento de Goram. Voltar para eles. 

BERNARDO(Cochicha) – Você ficou maluco? Vai convidar um estranho para sentar à mesa conosco? 

Goram percebeu que teria que pisar em ovos com o cúmplice de Mateus. Mostrar sua expressão arqueada, tentando ouvir. 

GORAM(V.O.) – O Hape não será tão fácil. Mas Goram iria se esforçar para descobrir o fraco daqueles dois assassinos malditos! 

MATEUS (cochicha) – Esse cara vai levar o nosso nome para o mundo! Ele é o tal do índigena que mencionei que antes mesmo de entrar na faculdade foi o primeiro colocado no país na Olimpíada. Não vê que se eu tratá-lo com mimo, trago ele para defender os ideais que quero?

Ele se voltou ao protagonista, sorrindo. 

MATEUS – E então aceita?

Goram que não iria perder essa oportunidade para ficar mais próximo do xeque-mate.

GORAM(Vociferou cinicamente) – Eu fico meio sem jeito em aceitar. Mas já que jepypy, é uma honra, professor Doutor Mateus! 

Mateus sorriu. Bernardo o encarou de cima a baixo desconfiado. Ao Entrar na mansão, Goram sente um calafrio. Ele para um instante. Ligar instrumental melancólico. Ficar uns minutos mostrando a expressão de sofrimento do rapaz. 

CORTAR PARA: 

CENA 02/ MANHÃ/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/ QUARTO 12

Heloísa se frustra e deposita o celular em cima do móvel de cabeceira.

HELOÍSA – Ele se esqueceu do nosso encontro! 

Suzy que terminava de se arrumar no banheiro com a porta aberta.

SUZY – Nem sabia que você tinha o número dele 

HELOÍSA – Ele me passou no dia que ficamos no bar do Esteto. 

Suzy percebe a tristeza da amiga já no quarto.

SUZY – Que cara é essa? Ele desmarcou o encontro? 

HELOÍSA – Pior amiga! Ele nem me deu uma resposta! Eu te avisei que sair logo de cara tava apressando as coisas. Tinha que ter recusado o encontro. Isso quebraria as expectativas dele e manteria o interesse! 

Suzy discorda e se senta perto da amiga, pegando às suas mãos.

SUZY – Não! Isso seria um joguinho besta. De pisa e gruda. Relações saudáveis não precisam disso! Algo deve ter acontecido para ele desaparecer. Espere hoje na aula. Tenho certeza que ele deve ter uma boa explicação para te dar e se não tiver, bom, antes só de que mal acompanhada. 

Ela se emociona e enxuga o lacrimejar dos olhos.

HELOÍSA – Ai Su! Você não existe! A gente não se conhece não faz nem um mês e já me sinto amiga sua de anos! 

Ela repara que a amiga está portando uma pulseira nova multicolorida. Encanta-se.

HELOÍSA – Nossa que pulseira linda! Deixe-me ver! 

Instrumental explosivo. Ela a puxa para surpresa de Suzy e expõe o punho talhado de navalha da carioca. Heloísa fica assustada. Suzy pega de volta a pulseira e recobre as cicatrizes.

HELOÍSA – Meu deus! O que aconteceu com seu punho? 

Suzy disfarça

SUZY – Tá feio, né? Foi um gato que encontrei esses dias nas ruas. Tava passando embaixo de uma árvore, ele caiu em cima de mim, arranhou-me.

HELOÍSA – Nossa! Mas você não falou nada! Gato de rua precisa tomar soro anti-rábico. Você tomou?

SUZY – Sim. Sim. Vamos para faculdade, você está pronta?  

HELOÍSA – Vou só pegar meus cadernos e separar minhas frutinhas. 

Quando ela vai para cozinha. Suzy arruma a pulseira preocupada.

CORTAR PARA: 

CENA 03/ MANHÃ/ SÃO PAULO/ CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ INT. QUADRA 1/SALÃO

O Jogo termina e o treinador se dá conta que sua mochila sumiu.

TREINADOR – Já para ducha moçada! Terminamos por hoje! Que vocês ainda tem aula hoje!

Os garotos vão para o banheiro. Alguns já tinham roupa na mala como era o caso de Vitor e outros vão para o vestiário pegar suas roupas.

Treinador se aproxima do balcão e percebe que sua mochila não está por lá. SURPRESA. Olha para os lados, procurando. DESESPERO.

CORTAR PARA : 

CENA 04/ MANHÃ/ SÃO PAULO/ CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ INT. QUADRA 1/BANHEIRO MASCULINO.

Miguel, muito amigo de Vitor, 25 anos, quintanista, joga o sabonete no box de Vitor, o jovem tomava banho no lado. 

VITOR – Hey mano! Se tá louco?

Miguel ria alto. Vitor quebrou sua seriedade e jogou o sabonete de volta. 

MIGUEL – Desgraçado! 

A brincadeira foi interrompida pela voz do TREINADOR.

TREINADOR – Rapaziada, terminem logo o banho de vocês, preciso conversar com vocês em dez minutos!

Os dez jovens que ainda tomavam banho pararam. Os que já estavam se enxugando nada entenderam. Close no rosto preocupado de Vitor. 

CENA 05/ MANHÃ/ SÃO PAULO/ JD AMÉRICA/MANSÃO/INTERIOR/ SALA DE ESTAR

Goram segura para não se emocionar ao ver um quadro de seus pais no alto da lareira. 

 

GORAM(V.O.) – Como Mateus se atrevia a tripudiar da imagem de seus próprios ru que ele mesmo tratou de matar? Era muito cínico. A tembipota dele era de vomitar neles, de pular em cima e macetar suas cabeças igual ordenaram para que fizessem contra seus pais!

Um bote daquela naja na jaula de acrílico o assusta. Instrumental explosivo. DESPERTA DO TRANSE. Mateus percebe e ri, estava sentado do outro lado, há uns 2 metros, em outro sofá, acompanhado de Bernardo.

MATEUS – Ela é boazinha, só pica quem eu quiser. Né? Cecilinha do meu coraçãozinho?  Então, desde pequeno, seu sonho era cursar medicina?

GORAM – Sim! Eu via os amiguinhos na aldeia hasy(doentes). O Pajé cuidando deles com algumas ervas. Goram achava um máximo! 

Mateus ri alto.

MATEUS – Não se preocupe! Tudo que precisar saber sobre a arte de curar, saberá. No entanto, creio que será por um método um pouco diferente que esse Pajé fazia! 

Pamela, uma serviçal mulata, 21 anos, aparece trazendo café em xícaras de porcelana. Mateus se irrita.

MATEUS – As xícaras brasileiras? Não! Sua anta! Era para ter servido nas islandesas que possuem um adorno verde-esmeralda! Eu te avisei que quando temos visitas especiais, é para servir nelas. 

O estômago de Goram se revira de asco.

PAMELA (envergonhada) – Me desculpe, senhor! Isso não vai mais acontecer! 

MATEUS – Espero mesmo! Perdoe-me Goram em te servir assim! Espero que não se sinta menos especial.

Goram sentiu vontade de gritar com ele. Mas se conteve. Mostrar seu estado de cólera.

GORAM – Neimo’ã! Não ligo para essas coisas! 

Pamela foi servir o índigena e Mateus dá um berro histérico. 

MATEUS – Mas será possível! Primeiro aquela secretária com o nome de país do Leste Europeu no meu gabinete no prédio administrativo, totalmente uma toupeira. Agora você. É PELA DIREITA, SUA AVANTESMA! Eu nem digo mais nada, isso que dá confiar em pessoas da sua cor! 

Goram se coçou para não chamá-lo de racista, mas não precisou. Pamela tomou as rédeas, voltou-se a Mateus.

PAMELA – O que o senhor falou, seu Mateus?

Bernardo olhou-a profundamente. Goram sacou um clima suspeito entre os dois. Mas Pamela não se calou.

PAMELA – REPETE O QUE O SENHOR FALOU, SEU MATEUS? 

MATEUS – Com muito prazer! (E se levanta). Que eu nem digo mais nada, isso que dá confiar em pessoas da sua cor! 

Antes que ele terminasse a frase, ela o jogou uma xícara de café quente na cara. Instrumental explosivo. Goram sorriu discretamente.

MATEUS – COMO SE ATREVE, SUA CRIOLLA MALDITA? SAIBA QUE ESTÁ…

Pamela enfrentou.

PAMELA – QUE ESTOU O QUÊ? DEMITIDA? POIS É COM MUITO PRAZER QUE PEÇO MINHAS CONTAS. PREFIRO MIL VEZES ESTAR DESEMPREGADA A ESTAR SOFRENDO ESSAS HUMILHAÇÕES! Com licença (se dirige a Goram)

Ela sai para a cozinha. Bernardo se levanta para ir atrás, mas Mateus o puxa pelo braço.

MATEUS – Nem pense em ir atrás dessa sujeita! Não quero ela nem mais um instante na minha residência! CATARINAAAA!!!

A governanta aparece

MATEUS – Faça-me o favor! Mande essa infeliz dessa serviçal de codinome Pamela para o quinto dos infernos? 

Catarina troca olhares com Bernardo.

CATARINA – Não entendi seu pedido, Doutor Mateus?

MATEUS – Até parece que você não me conhece Catarina! Exijo que você expulse essa mulher daqui! Imediatamente!

CATARINA – Sim, senhor! Mateus! 

E saiu assustada. Mateus se desculpa.

MATEUS – Eu sinto muito Goram pela situação! Maldita! Ordinária! 

Goram dá com a cabeça para ele não se importar, estava segurando para não rir. Mateus o acompanha até o portão

MATEUS – Espero que não fique com uma má impressão de mim, meu rapaz. 

GORAM – Leseira Balé, Professor! Formalidades a parte. O Amandajé foi muito bom. Fico aguardando a reunião com os investidores! Essa oportunidade vai mudar a minha babacutaia! 

MATEUS – Tenho certeza que irá. Você é muito educado, rapaz! Obrigado por ter aceitado meu convite. 

Goram se despede. Bernardo o observa com desdém. 

MANSÃO/EXTERIOR.

Assim que vira a esquina, Goram começa a rir descontroladamente. 

CENA 06/TARDE/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ EXTERIOR/PÁTIO CENTRAL

Fabiana entra na Universidade e se aproxima de um grupo de quartanistas da liga de infectologia, eles estão com folders e murais de exposição na entrada para o prédio principal, instruindo os alunos sobre o Coronavírus. 

THIAGO – O Coronavírus é um tipo de vírus muito comum no dia-a-dia. Esses resfriados que contraímos, muitas vezes, são causados por ele. No entanto, essa pandemia que está atingindo muitos países no mundo é uma cepa específica cuja natureza provoca Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS)

MARCELA – E esse vírus veio do morcego? 

THIAGO – Acredita-se que sim! Mas não infectaram diretamente os humanos. Em 2002 quando houve o surto mundial que matou quase 1.000 pessoas, desenvolveram uma hipótese de que teria provindo de morcegos que entraram em contato com gatos-da-algália e estes contrabandeados entraram em contato com humanos. Se bem que a China notificou casos em Wuhan a partir do contato de frequentadores do mercado de peixe e mariscos, desta vez. 

MARCELA – Tomara que esse vírus não chegue no Brasil. Se não, estamos lascados! 

NARA – Pois é, imagina o impacto econômico que isso poderá trazer. Indústrias e Comércios fechados e falindo! 

GEORGE – E social também, né? Ou você acha que a doença afetará igual pobres e ricos? Se a doença chegar aqui predominantemente morrerá pessoas pobres e negras. 

VIVIANE(chega) – Sim. Isso é muito real. 

NARA – E quais são os sinais e sintomas para procurarmos a unidade de saúde caso o coronavírus chegue ao país? 

MARCELA – Vire essa boca para lá! 

THIAGO – Bom… vou falar o que os países que estão enfrentando a doença estão sugerindo. Se você tiver só coriza, fique em casa, não vale a pena se expor ao risco de contaminação. Caso tenha febre, fique em estado de alerta, mas continue em casa, porque pode ser de uma gripe comum. Se tiver tosse em conjunto a esses sintomas, procure um posto de saúde e se tiver falta de ar acentuada procure um pronto-socorro. 

FABIANA – E como se prevenir?

Thiago se vira e se encanta com a beleza da afrodescente.

THIAGO –  Bom…ainda não temos uma vacina para essa nova variação. Então segue as recomendações de sempre para infecções respiratórias : higienizar sempre a mão, andar sempre com um frasco de álcool-gel na bolsa, evitar aglomerações e/ou lugares fechados, tapar a boca e o nariz quando for espirrar ou tossir com lenço ou braço, nunca com as mãos. Usar máscaras fora de casa. Evitar o contato com pessoas contaminadas e em caso de suspeita sempre ligar para o centro de contato, evitar serviços de saúde gerais.

Nesse instante, Gustavo aparece com seu jeitão de sempre: maloqueiro.

GUTO – Seguinte sangue bom, acho que todo mundo entendeu seu recado, não é thurma? Pois você dá uma licença agora que vou falar com essa mina aqui.

Macaco velho que era, ele havia percebido de longe a olhadela que Thiago havia dado em Fabiana.

FABIANA – Tudo bem, guto! Como você está?

Ela estava desconcertada.

GUTO – Comigo tudo certo, gatinha e com você?

Fabiana estava meio sem jeito. Ele estava com regata e transpirando um pouco, havia acabado de voltar da academia. Aquelas tatuagem no corpo. A corrente no pescoço. Aquilo mexia demais com ela.  Traduzir isso como VERGONHA E FALTA DE AR em Fabiana.

FABIANA – Tudo certo também! 

GUTO – Bacana, bacana. Vem cá, tu não quer tomar um gorozinho hoje mais tarde no bar do Esteto? A gente se conhece melhor, troca umas ideias.

Ela fica extremamente nervosa. Até que acaba respondendo meio tinhosa.

FABIANA – Eu não sou mulher de gorozinho e além do mais tenho muito que estudar! 

E sai de nariz em pé. Guto tira o boné sem nada entender.

GUTO – Eita! Mulher braba! Mas ainda tu há de ser minha! Você vai ver só! 

Viviane bate em seu ombro, assustando-o.

VIVIANE- Sorte! Pai! 

Na outro lado, na rua, quando Úrsula deixou a filha. Eliane observa tudo com muita INVEJA.

E se adentra na universidade ao ressoar do sinal.

CORTAR PARA: 

NOS BANCOS ADIANTE…

DANDARA – Quem você pensa que é para me tratar desse jeito? Eu não sei se o senhor sabe, mas já estão autorizando a maconha para uso medicinal!

UMBERTO – Mas a maconha para uso medicinal é o cannabis  pura e não a porcaria do cigarro que você estava fumando. Eu sou toxologista, estudo sobre drogas, existem milhões de substâncias tóxicas nessa merda que causam perda de memória, além da quantidade de THC não controlada, levando você a crises psicóticas sem precedentes.

DANDARA – O Cigarro que você já fumou é mil vezes pior e não precisa você se gabar por ser toxologista, eu sei bem, é dono de uma das indústria farmacêutica mais desumanas do país, não só em matéria de superexploração de trabalhadoras mulheres, mas também da comercialização de fármacos que estão ainda em fase de testes. 

Toca o sinal. André se levanta.

ANDRÉ – Vamos Dandara! Vai começar a aula!

UMBERTO – Eu ainda não terminei, neguinho. Agora dá para entender porque minha filha tá usando droga.

André se sente mal. Dandara o enfrenta.

DANDARA – Isso é injúria racial! 

UMBERTO (sarcástico) – Chamá-lo de neguinho? Isso é um fato.

ANDRÉ – Eu vou para aula de Anato teórica, Dandara. Dá licença!

E sai. Umberto o segue pelo olhar. 

DANDARA – Mas você é babaca mesmo. 

Dandara vai atrás do jovem. Umberto tenta puxar o braço da filha, mas ela consegue escapar. 

UMBERTO (fala alto) – Nós vamos continuar essa conversa  em casa, ouviu? Você sabe que comigo não termina assim.

Ela para estacada. MEDO. Ele ri se afastando. 

CENA 07/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ QUADRA 1/ SALÃO/ MANHÃ

Vitor chega ao longe com os outros caras. Treinador aguardava apoiado no balcão.

VITOR – E então, treinador? Queria falar conosco? 

TREINADOR – Sim. Vou mandar logo a real, que não sou de enrolação. Seguinte…sumiu minha mochila, eu já procurei em cada canto do salão, lá no nosso depósito dos materiais do treino e nada. Eu queria saber se alguém tem algo a dizer respeito? Se viu algo? Ou se pegou por algum motivo?

Ninguém responde. Vitor se sente pressionado, não gosta.

TREINADOR – Bom, o único lugar que não procurei foram os armários de vocês. Agora que todos estão aqui, vamos abrir um por um.

Close no rosto de Miguel sem nada entender. Vitor continua achando ruim. Instrumental crescente. Ao longe, focar na face de Samuel assistindo tudo satisfeito.

CORTAR PARA : 

VESTIÁRIO

Treinador termina de olhar no armário de Joel, não encontra nada. 

TREINADOR – Desculpe Joel por isso! 

Depois é a vez do armário de Miguel. Ele portava um molho de chave com cada um deles. Miguel retira seus pertences. NADA.

TREINADOR – Desculpe por isso Miguel! 

MIGUEL – Foi nada, treinador. 

Mas, notava-se que ele estava incomodado. Vitor é o próximo. Treinador abre o armário e dá de cara sua mochila. Instrumental explosivo. Ele retira. Vitor se choca.

TREINADOR – Você pode me dizer o que se trata disso? Vitor?

Todos ficam surpresos. 

VITOR – Eu não sei, não sei como foi parar aí. Não fui eu.

TREINADOR – Ah não? Então a mochila entrou aí sozinha? 

VITOR – Eu não vim para cá depois do treino! 

Miguel ajuda o amigo.

MIGUEL – É verdade, senhor. Ele trouxe roupa de casa.

Treinador terminava de ver o conteúdo da bolsa.

TREINADOR – A sua sorte é que você não pegou nada, se não seria caso de polícia. Nem preciso dizer que você está expulso do time.

VITOR (desesperado) – O quê? 

TREINADOR – A Atlética de medicina Olimpius é uma família, mas temos regras muito bem estabelecidas e uma delas é de respeito entre nós. Você está aqui há tempo tempo,  burlou isso e não foi de uma forma que poderia ter sido relevada. Você me roubou Vitor! 

VITOR – Eu não te roubei! Eu juro! Sou inocente! 

TREINADOR – Poupe a mim e a seus colegas disso. Agradeça-me por não te denunciar. 

VITOR – Não! O senhor precisa me ouvir! Eu não fiz nada! 

Mas o homem o ignora. Seus colegas o encaram decepcionados. Miguel é o único que fica do seu lado e o abraça.

MIGUEL – Mano, eu acredito em você. Armaram para ti. 

Vitor ajoelha no chão irritado.

VITOR – Caralho, meu, eu saí da atlética! Entendeu isso? Fui expulso do time do Vôlei por um furto que eu nem fiz! Quem quis me ferrar desse jeito, deve me odiar muito, só pode, eu…

Ele para um instante. Lembra-se.

VITOR – Foi ele! 

MIGUEL – Ele quem, parça? 

VITOR – Foi o Samuel! 

CORTAR PARA :

CENA 08/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/CAMPUS UNIVERSITÁRIO/ QUADRA 1/ EXTERIOR/ MANHÃ

Samuel ri ao saber pelo whats que Vitor foi expulso. Sua turminha comemora.

PEDRO – Isso aí, mano, deu uma lição naquele bosta! 

SAMUEL – Africano de merda! Se ferrou! Quem mandou cruzar o meu caminho? Agora chora, chora muito.  

CENA 09/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/ PRONTO SOCORRO/ SALA 1/ MANHÃ

Clima de tensão. Paciente gritando de dor ao fundo de um lado. Menina bem ictérica dormindo do outro. Uma idosa tremendo mais a frente na esquerda. Um bócio tireoidiano num homem à direita. 

RITA (0.S.) – Esse paciente está politraumatizado, está nítido na tomografia extremamente opaca. Precisa ir para mesa de cirúrgia agora. Hematoma subdural, intraventricular e intraparenquimatoso, alta chance de trombolisar, mas não podemos ainda entrar com AAS. Aumento da pressão intracraniana, administração de hipotensivos com cautela.

CORREDOR PRINCIPAL DO HOSPITAL

Ela dita para um aluno quando corre com maca até a ala de Neurocirurgia.

NÚCLEO DE NEUROCIRURGIA

Doutor Kelvin faz sinal para ela segurando o riso. MAL-ESTAR. Ela respira fundo e vai para lanchonete do hospital. 

LANCHONETE DO HOSPITAL 

Ela puxa um salgado de palmito do balcão e percebe que algumas pessoas estão rindo. Ela se vira.

MÉDICO 1 – Não sabia que a senhora era um homem, Doutora Rita.

MÉDICO 2 – Para uma, como é mesmo? Drag…Enfim, para um traveco a senhora até que engana bem.

RITA – Eu não sou travesti, sou drag queen! 

MÉDICA 1 – Que se dane, é tudo a mesma coisa. Tudo fraude. 

RITA – Fraude? 

FREIRA – Que pecado, meu Deus. Perdoe essa filha que subverteu a sua criação em homem e mulher. Faça ela retomar o caminho, ó pai. 

Eles saem, os médicos rindo,  a freira em transe de oração. DOR.

Rita que sentaria ali, percebe que a atendente da lanchonete está de risinho com um paciente num canto e pegando o salgado e a bebida vai para área externa do hospital, num local sem muita circulação de pessoas. 

CENA 10/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/EXTERIOR/ MANHÃ

Rita chora sofrendo. Meire e Caio aparecem. Era um casal de residentes em obstetrícia.

MEIRE – Professora! Eu sinto pelo que está acontecendo com a senhora

Ela senta e a abraça. Caio desaba.

CAIO – Eu não entendo o que as pessoas tem haver com a sua vida pessoal.? Deveriam te julgar sim pela sua capacidade enquanto médica.

MEIRE – Mas como não tem nada para falar dela que é uma excelente neurologista e possui um lado humano indescritível, pegam essa situação para atingi-la. 

Rita desaba a confessar. 

RITA – Eu não sei como ele descobriu! Não sei como aquele rato descobriu que eu não era uma mulher, isso que eu não entendo. Eu sempre usei meu nome social. Eu nunca me senti uma mulher, eu transito entre me expressar como masculino, andrógino e feminino, denomino-me gênero fluído, porque apesar de expressão e identidade de gênero serem âmbitos distintos, para mim o significado é muito próximo. Mas socialmente, sempre me senti mais confortável por me apresentar como mulher, apenas alguns amigos íntimos sabem que não sou, mas eles jamais me trairiam, só pode ter sido gente da minha família. 

MEIRE – Você nunca fala muito deles, professora. 

RITA – Eu não quero me lembrar. Desde pequeno, nunca me entenderam, sempre me discriminaram e não falo mais com eles, eles devem estar lá ainda no meio do sertão do nordeste.

CAIO – A Senhora é nordestina, professora? Não parece, não tem sotaque.

RITA – De origem, sou. Mas faz anos que estou aqui, então acabei perdendo o sotaque mesmo. 

MEIRE – Mas olha, apesar de LGBTFOBIA ainda não ser crime tipificado, o que estão fazendo com você no hospital, é discriminação. 

RITA (olhos encharcados) – Os meus colegas de equipe que sempre me trataram super bem, estão extremamente me rejeitando, rindo. Doutor Kelvin, sempre fomos amigos, ele rindo de canto de boca. Na lanchonete agora até uma freira veio me julgar. Eu nunca pensei que pudesse ser usado uma arma dessas contra mim.

Meire troca olhares com o namorado.

MEIRE – Professora, a gente tem uma surpresa para senhora.

Rita levanta a cabeça sem entender.  

CORTAR PARA : 

CENA 11/ SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/PEDIATRIA/ SALINHA DESOCUPADA/ MANHÃ

Refrão Owl City de Carly Jepsen. Meire retira a mão dos olhos de Rita que os abre. Ela se felicita e se emociona :

RITA – Não…vocês não fizeram isso! 

Diante dela,  dezenas de estudantes de jaleco branco com cartazes :“ LGBTFOBIA aqui não” “ Respeito é um dever de todos” “ Eu estou com Rita” “Menos preconceito, mais amor”. “ Mais liberdade”

MEIRE – Tá vendo como nós te amamos? 

Rita não conseguia dizer nada. Professor e Doutor Boina, 58 anos, pneumologista saiu do movimento dos alunos.

BOINA – Tá vendo, camarada, existirá muita resistência contra o que estão fazendo com você. Vamos varrer os preconceituosos para longe de você, se precisar. Nossos jovens são o futuro. Não se sinta mal, tenha orgulho de ser quem é, uma líder importante da classe trabalhadora. Você é demais! 

Rita o abraçou. 

RITA – Vocês é que são demais. Eu tô sem palavras! Ai gente, isso precisa ser registrado. Bora se juntar. 

Os alunos rindo se reúnem em torno dela, ela bate uma selfie emocionada com eles e depois muitas outras fazendo careta ao som da música. 

CENA 12/TARDE/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLIMPIUS/ INTERIOR/LABORATÓRIO DE ANATOMIA

Goram chega atrasado na aula de anatomia, percebemos muitos ossos dos membros inferiores, alguns marcados com indicações, outros não. Ao fundo, vemos vidros educativos com quadro de ossos de várias mãos e pés e uma caveira bem na entrada, assustando o protagonista. Os ossos nas bancadas variam entre fêmur, tíbia, fíbula, patela, dispostos em nove bancadas. Rogério, o professor bonitão que encanta qualquer aluna, é gentil, estava de frente para o quadro negro. 

ROGÉRIO – Entra aí cara! Ainda estou começando.

Ele deixa a mochila no armário e se aproxima de uma bancada onde estava Heloísa e Suzy.

ROGÉRIO – Como eu estava falando, eu por mim não me importo galera de vocês não usarem jaleco, até porque nesse semestre vamos ficar boa parte primeiro vendo esqueleto ósseo, mais para o finalzinho que fomos ver músculos, ele será necessário. Mas repito, são normas do laboratório, assim como calça comprida, sapato fechado e cabelo preso. Então tem que seguir! Não esqueçam nas próximas aula, já encomendem o de vocês!  

A voz dele fica em off e Goram cochicha para Heloísa.

GORAM – Você me desculpa por ange?

Heloísa estava um pouco sentida. Suzy dera uma cotovelada na menina. 

HELOÍSA – Ah…tudo bem! Essas coisas acontecem! 

Goram inventa. 

GORAM – Eu tive um imprevisto! A tia na qual estou morando de favor passou mal, tive que acompanhá-la até o hospital, não havia ninguém. Ela ñenenta de doença celíaca! 

Suzy se compadece. Heloísa compreende.

HELOÍSA – Fica tranquilo! Espero que ela esteja melhor! 

GORAM – Está sim! Apyteso’o!

Heloísa sorri.

GORAM – Goram tava pensando da gente remarcar para amanhã nossa ida ao Ibirapuera! O que je’e?

Heloísa troca olhares com Suzy que faz um sinal para ela “ o que está esperando”

HELOÍSA – O que eu digo disso né? Eu ainda me perco um pouco no tupi. Pode ser! 

Suzy vibra do outro lado. Goram percebe e acha graça pela torcida. Ele pega na mão de Heloísa 

GORAM – Pai d’égua! Prometo que o que aconteceu hoje ahániri vai mais acontecer! 

Heloísa se arrisca em acariciar sua mão. Os bigodinhos do mocinho se ouriçam. 

ENQUADRAMENTO EM ROGÉRIO

ROGÉRIO – As principais fontes de Anatomia são,sem sombra de dúvidas, Anatomia Orientada para Clínica de Moore e Anatomia Humana de Dangelo e Fattini. Não vale usar o Wikipedia, pessoal! Quanto a atlas de anatomia, temos Sobotta e Netter! São os melhores! 

As alunas suspiram apaixonadas com a fala do professor. Rogério se encanta pelo jeito de Dandara que desvia o olhar ao perceber que ele a observa.

ROGÉRIO – Bom pessoal! Chega de papo-furado! Vamos a aula de hoje! Vamos rever os planos anatômicos que vimos hoje cedo e depois circular entre as mesas para vermos os ossos dos membros inferiores. Três planos principais : medial, como se dividisse o corpo humano ao meio, sagital, linhas paralelas a esse plano medial, como se fosse meridiano pessoal. Frontal, perpendicular, ângulo de noventa, aos planos sagitais. E transversal,perpendicular tanto aos frontais, quanto sagitais. 

EM OUTRO FOCO DA SALA MOSTRAR GUTO SE APROXIMANDO DE FABIANA

GUTO – Você entendeu o que o professor, disse? Na aula da manhã fiquei perdidinho e agora eu estou também, sabe?

Fabiana entende as intenções dele com o duplo sentido de perdidinho, segura o riso de estar sendo desejada. Nada diz.

GUTO – Não vai me ajudar com o conteúdo? 

FABIANA – Você não desiste mesmo, né?

GUTO – Não sou homem de desistir do que quero. 

Fabiana tenta negar, mas ele não deixa.

FABIANA – Só que eu não…

Eles ficam muito próximos um do outro. Respiração ofegante dela. As batidas de corações de ambos se misturam ao fundo, não dá para saber de quem é cada batida ou se trata de uma única batida forte. Eles se separam quando professor chama atenção. 

ROGÉRIO – Casal ! Presta atenção aqui! 

Ela se cora e muda de lugar, algumas fileiras a frente. Estava sentada ao lado de Marcela, cochicha para ela. Volta para trás sorrindo. Guto sorri de volta. Ao longe, Eliane observa tudo beirando as lágrimas. 

CENA 13/IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/ NOITE

Música New Rules de Dua Lipa. Imagens aéreas da cidade de São Paulo : Estação da Luz com sua igreja são mostradas. Pizzarias na Mooca são abertas. O bar do Bexiga lota com a juventude.

CENA 14/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ORTOPEDIA/NOITE

Sara continua a discussão com os alunos no quarto do enfermo.

SARA – Você tem dor, meu querido? Ela é contínua?

PACIENTE – Sim, mas não é uma dor contínua, sabe? Ela melhora após exercícios, quando eu tô muito tempo parado, dói.

SARA – Interessante. Hipóteses? (Ela se volta para os alunos)

ALUNA 1(PENSATIVA) – Espondilite anquilosante?

SARA – Muito bom! Mais alguns? 

ALUNO 1 – Fibromialgia? 

ALUNO 2 – Artrite Psoriásica?

SARA – Excelente. Todas pautadas nessa característica da dor e como fazemos o diagnóstico diferencial?

ALUNO 2  – Olha eu sei que na artrite Psoriásica, são poucas as articulações envolvidas e geralmente são as interfalangianas.

SARA – Vamos verificar se são essas, as envolvidas. Me dê a mão, querido. (Se volta ao paciente)

INSTRUMENTAL DRAMA MÉDICO. Ela se volta para o paciente que antes de responder, tem uma queda de pressão abrupta e começa a gritar de dor na barriga.

PACIENTE – AAAAAAAAI!

ALUNA 1 – O que tá acontecendo com ele???

Taquicardia. Do lado de fora da porta, Heloísa e Suzy com seus jalecos roubados, espreitam, misteriosas.

VOLTA PARA DENTRO.

SARA – Eu não sei, tá parecendo…

ALUNO 2 – Parecendo…?

Sara percebe que tem algo de estranho na planta do pé esquerdo. Close abrupto na planta do pé: manchas avermelhadas eritematosas.

Fechar a cena em Doutora Sara. Close-up seus olhos esbugalhados tentando entender o que estava em sua frente.

SARA – Não tenho minima ideia!

Fim instrumental drama médico.  

Cortar para: 

CENA 15/ SÃO PAULO/ VILA MADALENA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ QUARTO DE GORAM

O rapaz encontra-se mexendo no celular, de costas para porta, sentado na cama, vendo fotos no perfil de Heloísa. Themise que chegara do mercado, passa pelo quarto do rapaz e percebe que ele já chegou, ao empurrar a porta para chamá-lo, percebe que ele estava vendo fotos de Heloísa e se sente mal, desistindo. 

GORAM – Você é muito isote, kuñatai Heloísa. 

Ele muda de foto e percebe que acaba mudando de perfil, caindo numa foto do pessoal da administração e vê Mateus. Seu sentimento muda na hora. Ele se recorda.

LIGAR FLASHBACK.

CENA 16/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/INT. MANSÃO DOS MOÇA/ QUARTO DE GORAM/ MADRUGADA

Ele acorda assustado no meio da noite em seu quarto. 

GIOVANE (gritando) – PAPAI! PAPAI! 

Tivera um pesadelo. 

Instantes depois seu irmão bate a porta de seu quarto acompanhado de seu namorado. 

MATEUS – Cala boca! Vai dormir caralho! 

GIOVANE – Eu não consigo! Onde está o papai? 

MATEUS – Tá em plantão no hospital e mamãe foi dormir com a vovó que não anda bem, agora trate de dormir! 

Ele fecha a porta e Giovane vai atrás. 

GIOVANE – Por favor, não me deixe sozinho! Eu tenho medo de escuro! Tinha um monstro no meu quarto.

E gruda nas calças dele. Mateus perde a paciência e retira a chave da porta do quarto do rapaz que estava para dentro e tranca o quarto.

MATEUS – Agora vai dormir sozinho no chão do corredor! 

GIOVANE – NÃO! NÃO ME DEIXA AQUI! EU TENHO MEDO!

MATEUS – Me larga! 

E chuta o rapaz que cai no chão e começa a chorar, de repente Bernardo sai do quarto.

BERNARDO – VOU TE PEGAR! AAAAAAAA! 

Giovane se assusta por nunca ter visto o rapaz, associa ao monstro do pesadelo e corre pelo corredor gritando. Mateus gargalha.

MATEUS – Vai atrás dele, já te alcanço, mor! 

SALA DE ESTAR DA MANSÃO

BERNARDO – AAAAAAA! VOU LEVAR VOCÊ PARA LONGE DOS SEUS PAIS, TE DEVORAR EM MIL PEDAÇOS.

Giovane corre apavorado e bate a cabeça na quina da mesa. DOR. Chora alto. Quando Bernardo se aproxima.

BERNARDO – VOU TE MATAR! 

E arrasta o menino pelo pé que grita apavorado tentando sair quando é acertado por uma cinta. 

A Face de Mateus aparece em meio à escuridão, meio superior, iluminada pela lua que entra pela janela.

MATEUS – Agora você para de encher o saco de uma vez por todas! 

E começa a bater maquinalmente no rapaz com a cinta. A criança chora. 

DESLIGAR FLASHBACK

CENA 17/ SÃO PAULO/ VILA MADALENA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ QUARTO DE GORAM

Goram olha com raiva para um ponto fixo, segurando seu ursinho de pelúcia sem um olho e o colar de pena azul.

Themise bate em sua porta, retirando-o de seu transe. 

THEMISE – Goram! A Janta tá pronta! 

GORAM – Obrigado Themise! Goram já está indo. 

CORTAR PARA :

CENA 18/ SÃO PAULO/ VILA MADALENA/ APARTAMENTO DE ADELAIDE/ COZINHA /NOITE

Goram termina comer um bife a parmegiana. Estava sentado à mesa assim como os outros moradores da casa, menos Laurinha. 

GORAM – Estava jarovia, tia Adelaide! 

ADELAIDE – Não fui eu quem fiz, meu rapaz, mas se quiser provar outras coisas, saiba que pode contar comigo.

THEMISE – MÃE! 

HUGO (ATRAPALHADO) – OI? QUE FOI? 

ADELAIDE – Nada! Essa garota que grita para tudo! 

THEMISE – Eu prefiro gritar a fazer o que você sabe o quê.

HUGO – Do que ela tá falando?

Laurinha se senta, trazendo um prato cheio de folhas, não havia nenhuma carne.

GORAM – Não vai ñandu esse bife maravilhoso, Laurinha?

LAURINHA – Não, eu não como carnes.

THEMISE – Ela é vegetariana! 

GORAM – Tão kupy’y assim e já é vegetariana? 

LAURINHA – Se para você, dez anos é novinha, sim. Qual o problema? 

GORAM – Problema algum, Égua de largura. No olho! 

LAURINHA – As pessoas se assustam com o movimento vegetariano, mas elas deveriam procurar saber um pouco mais sobre o consumo de carne. Não é só por amor os animais que nós somos assim, mas pelo planeta. Você tem ideia do quanto de água, um único hambúrguer vai? 

GORAM – Não! Mas jepoka que não muito, pelo tamanho pequeno.

LAURINHA – E é aí que você se engana. Um único hambúrguer vai o equivalente a um banho seu de dez minutos por dois meses.

GORAM – Que isso, égua! Você tá falando sério? 

LAURINHA(ácida) – Não. Eu estou aqui perdendo meu tempo defendendo mentiras, porque adoro contá-las.

Goram não gosta da patada. Encerra o assunto. Themise faz um cara de reprovação a irmã mais nova. 

GORAM – Tio Hugo, ko’êro vou andar de bike pela manhã com uma garota. (Themise se sente mal, sabia tinha altas chances de ser Heloísa).Eu ia jerure uma bike no yellow, mas tá meio carinho, vi que você tem uma bike na despensa, pode me emprestar? 

HUGO – Claro, moleque. Nem precisa pedir. Só passa num posto para calibrar o pneu. Você sabe?

GORAM – Sei sim. Neî!!! 

HUGO – Certo. Garota é ? Namoradinha? 

Goram ri. 

HUGO – Entregou-se. Vou te dar umas dicas.

Themise se levantou de repente ainda com o prato cheio, foi para cozinha. ESTAVA MUITO MAL. Pegou seu celular e respondeu a mensagem de Vitor que tomava no outro dia a noite, tomar um corote no bar do Esteto. 

CENA 19/ SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO MOÇA/SALA DE ESTAR /NOITE

Mateus termina de dar comida para Cecília e percebe que ela se recolhe para a fenda entre duas rochas no centro do viveiro. 

MATEUS – Já vai se recolher? Tão cedo! 

Ela não se mexe.

MATEUS – Então tá. 

Inesperadamente, ele sente a presença de um vulto que passa bem diante de si, lateralmente. MEDO. Instrumental de suspense.

Ele olha para o retrato de seu pai no alto da lareira e percebe que seu rosto está derretido.

DESPERTA. ERA UMA ALUCINAÇÃO. 

Olha de novo para o retrato, estava intacto.

MATEUS – CATARINAAAAAA!!!

A governanta surge do interior da mansão.

CATARINA – Chamou Doutor Mateus? 

MATEUS – Obviamente. Bernardo ainda não voltou da academia?

CATARINA – Não, senhor.

MATEUS – Nossa!!! Mas pelo horário (ele olha no relógio de pulso), era para já ter voltado. Faz o seguinte, avisa o Élder, em 10 minutos, vamos sair com o carro.

CATARINA – Ok. Senhor.

E se afasta. 

MATEUS – Nesta casa, eu não passo a noite sozinho.

CORTAR PARA : 

CENA 20/ SÃO PAULO/SANTO AMARO/ BURACO QUENTE/ CASA DE PÂMELA. 

OUVE-SE UMA DISCUSSÃO EM UMA RESIDÊNCIA SIMPLES, DE NÚMERO 14, SUBINDO UMA TRAVESSA. CÂMERA SUBJETIVA SLOT MOTION PELA JANELA DA COZINHA. 

PAMELA – Foi muito bom eu ter pedido demissão daquela mansão. Sabe por quê? Não ia soar nada bem para você. Por que eu não engordei como eu te falei, tô grávida de quase cinco meses e você é o pai! 

Instrumental dramático.Mostrar face de Bernardo.

BERNARDO (ri de nervoso) – Até parece que eu ia te engravidar, saímos algumas noites, apenas e sempre usei camisinha.

PAMELA – Eu furei a sua camisinha.

BERNARDO – Você fez o quê? Você tá blefando. 

PAMELA – Fiz um exame de DNA com um fio de cabelo num de nossos encontros. Tá aqui(ela retira da gaveta da cozinha um exame) Veja com os próprios olhos. 

Bernardo o recebe, trêmulo. Vagarosamente ele abre, seus olhos correm lendo o documento, até que param. Escancaram-se. Sua face se transforma. Ele volta-se a ela.

PAMELA(IRÔNICA)- Parabéns, papai! 

INSTRUMENTAL EXPLOSIVO. CLOSE EM SUA FACE.

CENA 21/SÃO PAULO/ BEXIGA/ INT. APARTAMENTO DE JOSÉ/ QUARTO DE MARCELA/MADRUGADA

A ex-prostituta acorda assustada com seu celular tocando alto. Ela olha para o relógio na cabeceira.

MARCELA – Mais de meia-noite, espero que não seja aquela velha desgraçada! 

Ela percebe no visor que se trata de um número desconhecido.

MARCELA – ALÔ! Quem está falando?

DO OUTRO DA LINHA.

LARISSA – Sou eu, a Lari. 

MARCELA – Lari, aconteceu alguma coisa? 

DO OUTRO LADO DA LINHA

LARISSA – EU FUGI! UM CLIENTE QUERIA FAZER COISAS HORRÍVEIS EM MIM. EU TE CONTO PESSOALMENTE, MAS EU NÃO SEI ONDE ESTOU, TÔ COM MEDO DE ALGUÉM ME ABORDAR, ESTOU EM ALGUMA RODOVIA, SEM DINHEIRO, SEM NADA. 

MARCELA – FICA CALMA. TEM ALGUM PONTO DE REFERÊNCIA PERTO?

DO OUTRO LADO DA LINHA

LARISSA- Tem uma igreja perto! 

MARCELA – Qual o nome dessa igreja, Lari? Me fala o nome dela! 

Do outro lado da linha, Larissa se aproxima. 

LARISSA – Nossa senhora da Conceição, eu acho. É azul. 

Marcela terminava de procurar no google.

MARCELA – Fica aí. Tem um arco dourado na frente.

DO OUTRO LADO DA LINHA.

LARISSA – Sim. 

MARCELA – Você tá no Elisa Maria. Fica aí. Já estou indo para aí.

CORTAR PARA: 

QUARTO DE JOSÉ.

Marcela o acorda. 

MARCELA – Desculpe atrapalhar seu sono Zé, mas preciso da sua ajuda. 

Close no rosto dele preocupado.

CENA 22/ IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/ DIA

Amanhece na capital paulista ao som de Faster the Light de Avicii…

CENA 23/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ INT. APARTAMENTO DE MEIRE/QUARTO DO CASAL/MANHà

Meire ainda de pijama está terminando de editar um vídeo  que gravou ontem para seu vlog em seu notebook numa escrivaninha, quando Caio ainda meio sonolento e também de pijama a dá um beijo por trás em sua nuca.

MEIRE- Bom dia, meu amor. 

CAIO(sonolento) – Bom dia.Editando o vídeo de ontem? 

MEIRE – Sim. Ficou um pouco longo, não sei se os seguidores vão gostar, mostrei a área externa e um pouco sobre o vestiário da entrada. 

CAIO – Quem gostar, vai acompanhar. Não se preocupa com isso, a gente tá se esforçando e isso que importa, queremos passar o melhor conteúdo e divulgar a faculdade.

Quando Meire chega na parte do vestiário no vídeo, ela percebe uma situação muito estranha ao fundo.

MEIRE – Meu Deus!

Caio que estava ao seu lado não percebe.

CAIO – Que foi? 

Meire mostra.

MEIRE – Enquanto eu falava, o armário da professora Rita tava sendo usado.

CAIO- Usado?

MEIRE – E ela nem tava mais no hospital. São duas jovens. Olha isso. Será que queriam uma pregar uma peça na professora por conta do que a mídia tem divulgado? Roubaram jalecos! 

Caio fica chocado. Mostrar na imagem: De frente, Meire gravando e aos fundos: Heloísa e Suzy pegando emprestado, sem pedir, os jalecos de fininho. 

CORTAR PARA: 

CENA 24/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/QUARTO 12/ SALA/MANHÃ

Heloísa termina de tomar seu solzinho na janela. Quando batem na porta. Ela para um instante. Arruma o cabelo achando que era Goram.

ABRE. FRUSTRAÇÃO. ERA DONA NOZ-MOSCADA.

DONA NOZ-MOSCADA – Tem um rapaz lá embaixo, que pela sua vestimenta não deve ser nenhuma surpresa para você!

Heloísa volta a ficar ansiosa. Respira fundo.

CORTAR PARA: 

CENA 25/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/TÉRREO 

CAM atrás do sujeito. Heloísa desce as escadas. Sua face se transforma ao vê-lo. SURPRESA.

HELOÍSA – IRMÃO? 

Ele sorri.

BERNARDO (irônico) – Quanto tempo, né maninha? Saudade de mim? 

Instrumental explosivo. Congela em seu rosto surpresa.

FADE OUT

CONTINUA…

 

 

 

 

 

 

  

 

POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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  • Temas atuais e relevantes. Está é Estação Medicina. Sensação da CyberTV. Estou adorando a experiência. Já sou fã. Nas premiações de 2021 já tenho minha favorita, e claro, vários personagens que simpatizei.

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