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Estação Medicina – Capítulo 06 – Meu Primeiro Amor

ESTAÇÃO MEDICINA

CAPÍTULO 6 – MEU PRIMEIRO AMOR

 

FADE IN

CENA 01/SÃO PAULO/TATUAPÉ/INT.REPÚBLICA DOS ESTUDANTES/TERREO/MANHÃ

Instrumental dramático

Bernardo abraça a irmã que ainda está surpresa com sua presença.

HELOÍSA – Eu não te vejo há muito tempo, desde daquele almoço de páscoa há uns 5 anos, lá na casa da mãe em Poço de Caldas.

BERNARDO – Você sabe que eu casei, maninha. Meu marido não é muito sociável

HELOÍSA – Até parece que não ouço falar da ausência de Doutor Mateus Moça nos grandes eventos médicos, sempre tem mandado representantes e marcar reuniões com ele sempre é muito difícil, até estranhei quando ele nos deu aquela palestra depois da matrícula presencial.

BERNARDO – Aí neste caso não teria jeito, né? Mas tentam vocês estudantes marcarem uma reunião com ele para ver, vão tomar um chá de cadeira.

Heloísa riu.

HELOÍSA – Pensei que não tivesse conhecimento que passei na Olímpius.

BERNARDO – Uma hora você ia conseguir, não é mesmo? Crânio do jeito que é. Sempre que eu ligava para mãe e queria falar contigo, ela falava que estava no quarto estudando. Mas eu tenho um ritual, todo início de ano, olho a lista dos aprovados e acompanho a lista de espera. Fiquei muito feliz de ver seu nome desta vez lá.

Heloísa acha fofo.

HELOÍSA – Eu tenho saudade das nossas conversas. Não quer subir? Tenho algumas frutas, leite, faço uma vitamina para você.

BERNARDO – Aquela vitamina de maçã que você arrasa e eu adoro?

HELOÍSA – Essa mesmo!

BERNARDO – Eu adoraria, mas preciso ir, vim mais para te dar um abraço, te dar os parabéns por ter passado e te desejar sorte, medicina é um curso difícil, mas sei que vai dar conta.

HELOÍSA – Puxa…precisa ir mesmo?

BERNARDO – Sim. Mas eu volto outro hora para gente bater um papo com mais calma, daqui a pouco começa suas aulas, não quero te atrapalhar.

HELOÍSA – Minhas aulas começam mais tarde, tenho janela agora, mas tudo bem, foi muito bom te rever.

E o abraça carinhosamente, ele beija sua testa.

BERNARDO – Foi muito bom te rever também, maninha. Te amo demais.

HELOÍSA – Eu também, manão! (rindo)

BERNARDO – Se cuida. Nossa, já ia me esquecendo, deixa eu te deixar meu novo número de celular. Salva aí.

A Nerd liga a tela do celular e desliza.

HELOÍSA – Como me encontrou aqui? Confesso que fiquei muito surpresa.

BERNARDO – Eu sabia que provavelmente os pais não teriam condições de te pagar um apartamento para ficar sozinha e dividindo rep também iria ficar difícil, resolvi arriscar.

HELOÍSA – Entendi. Bom, tá anotado. Vou te mandar mensagem sempre que puder.

BERNARDO – Essa é a intenção, fique bem.

HELOÍSA – Você também!

Ela acompanha o rapaz até a entrada. Mostrar: Dona Noz-Moscada de seu apartamento observa tudo em silêncio.

CORTAR PARA:

EXTERIOR

Bernardo entra em seu carro, mini couple, acena para ela e vai embora.

FIM DO INSTRUMENTAL DRAMÁTICO. INSTRUMENTAL EXPLOSIVO. Goram chega quase que instantemente de bicicleta de seu tio. Heloísa sorri e vai em sua direção.

GORAM – Imä, mas cheguei. Espero não te ter feito esperar muito, porã.

HELOÍSA(Corada) – Imagina, eu estava na presença de meu irmão, nem vi o tempo passar.

GORAM (percebe ela corada e se cora também) – Égua, foi a ‘e que estava saindo naquele mini couple?

HELOÍSA – Ele mesmo.

GORAM – Pai d’egua!

HELOÍSA (mexe no celular) – Eu tô vendo que temos uma yellow há duas quadras daqui.

GORAM – Beleza. Pode subir na garupa, Goram te leva até lá.

Ela ficou meio sem jeito e aceitou. Ele a entregou seu capacete. Ela aceitou sem contestar. TÍMIDA. Deu um zarpar na bicicleta, ela quase caiu.

GORAM – Ops…Acho melhor endé se apoiar em mim.

Ela ficou extremamente vermelha. MOVIMENTOS RÍGIDOS. Apoiou nele. Goram não conseguiu esconder um sorriso, corou-se.

GORAM (V.O.) – Aquelas uaiequês doces agora firmavam em seu peito, que curuminha, pareciam pétalas dedilhando sua pele por cima da blusa e aquele perfume. CALAFRIO.

Zarpou.

CENA 02/SÃO PAULO/BEXIGA /INT.APARTAMENTO DE JOSÉ SALA/MANHÃ NUBLADA

Larissa entra acompanhada de Marcela e José. Face da jovem extremamente abalada, tremia de frio.

MARCELA – Acho melhor você tomar um banho quente, o tempo esfriou. Depois conversamos

Larissa concordou, sorrindo tristemente a ela.

INSTRUMENTAL MELODRAMÁTICO.

PLANO DETALHE. Boca de Larissa se mexe.

LARISSA (sofrimento) –…Ele queria colocar um rato na minha vagina.

ZOOM-OUT LENTO. Mostrar face cansada, cabelos molhados dela. Plano aberto. Ela sozinha naquele canto da sala.

CLOSE-UP olhos coléricos de Marcela ouvindo.

MARCELA – A vontade que eu tinha se eu estivesse lá era agredi-lo tanto, despejar o meu nojo pela sua tara e o pior é que aquela velha maldita sabia de tudo, esses clientes sempre avisam de seus gostos e mesmo ela sabendo que você não compactua com isso, ela te entregou de bandeja.

PLANO AMERICANO em José

JOSÉ – Ele tentou te forçar a fazer mais alguma coisa, Larissa?

PLANO GERAL. Ela confessou com dificuldade.

LARISSA – Queria colocar o braço…

INTERRUPÇÃO. MEIO PRIMEIRO PLANO. Marcela levantou expressando seu asco por meio de ruídos. PLANO DETALHES nos olhos avermelhados de Larissa olhando em silêncio para Marcela. SOFRIMENTO.

MARCELA – Para, Lari! Para! Eu não aguento mais essa história.

A ex-prostituta vai até a Lavanderia. Chuta um balde vazio. RAIVA. Retorna a sala.

JOSÉ – Como conseguiu escapar, minha flor?

Larissa suspira.

LARISSA – Eu enganei ele, havia um rodo na suíte do banheiro. Disse que queria tomar banho com ele e que queria fazer uma massagem, quando ele virou as costas o atingi com um golpe.

MARCELA – Fez muito bem.

Andava de um lado para o outro.

MARCELA – Isso não pode ficar assim!

JOSÉ – O que você está pensando em fazer?

MARCELA – Você verá. Fico pronta num minuto, aquela velha vai pagar caro por isso.

E entra que nem um furação em seu quarto, batendo a porta. PLANO DE CONJUNTO. Larissa chora alto, José se aproxima e a abraça.

JOSÉ – Vai ficar tudo bem.

Ela se perde em seus braços. TRAUMA.

CENA 03/SÃO PAULO/JD.AMÉRICA/INT. MANSÃO DOS MOÇA/SALA DE ESTAR/ MANHÃ

 

Bernardo entra, desligando pelo controle, ao longe, seu carro. Ele fecha a porta e se encaminha para o interior

BERNARDO – CATARINA?

INSTRUMENTAL EXPLOSIVO. De um canto escuro, atrás de uma pilastra jônica, vemos a face séria de Mateus se revelar.

MATEUS – Onde você passou a noite?! Posso saber?

SUSTO. Bernardo se vira. Plano médio. Vemos que Mateus está com Cecília (naja) em seu ombro. TOM AMEAÇADOR.

CENA 04/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/EXTERIOR/MANHÃ NUBLADA

 

Eliane se encaminha para o prédio principal, quando derrubam seus cadernos no chão com um tapa. Close na face dela preocupada.

ELIANE – Por que vocês fizeram isso?

Ela se abaixa para recolhê-los. CONTRA-PLONGÉE:  Samuel ria juntamente com Margarida, Pedro, Escova e mais alguns veteranos trotistas. Ao longe, Viviane percebeu e parou para assistir, insegura em se aproximar muito.

SAMUEL – Que foi, bixete, não gostou?

Eliane engoliu seco. CALADA.

MARGARIDA (FIRME) – Acho que ela entendeu quem manda nessa parada toda, não é? Que existe uma hierarquia entre nós. Não é princesa?

Ela olhou para cima e concordou.

SAMUEL (SATISFEITO) – Essa é das nossas. Vai ter um churras na chácaras do Pedro hoje, é presença obrigatória para você, ouviu?

Ela não respondeu.

PEDRO – Mas não se preocupe, teremos bixos da sua thurma, sabe como é, né? Precisamos de pessoas para limpar a chácara depois e como somos veteranos…

ESCOVA – Temos direito de curtir mais que vocês, afinal um dia fomos bixos.

MARGARIDA – Igual a vocês.

Samuel pega um dos cadernos dela e o apoia nas costas de Escova.

SAMUEL – Aqui tá o endereço e o meu número, me chama até lá!

Eliane concordou. Pedro acariciou sua cabeça igual a um cachorro.

PEDRO – Boa garota!

Saíram rindo. Viviane se aproximou.

VIVIANE – Eu vi tudo de longe. Como que você permitiu que te tratassem dessa forma?

Eliane já com os cadernos na mão.

ELIANE – Eu vou precisar passar por isso até ser respeitada por eles e poder exercer a influência deles sobre a calourada que for entrar. Esse ano será complicado, mas depois…depois será minha glória. Serei poderosa como sempre quis. É a vida Vivi ou você se adapta ou ela engole você.

E saiu deixando Viviane reflexiva para trás.

CORTAR PARA:

CENA 05/SÃO PAULO/IBIRAPUERA /PARQUE IBIRAPUERA/MANHÃ NUBLADA

 

Música Trevo de Ana Vilela. Rodas passam pela ciclovia. TRAVELLING da bicicleta de Goram: mostrar Heloísa de olhos fechados, sorrindo, com os cabelos esvoaçando pelo vento em sua bicicleta alugada. Copas de árvores no alto. Tempo vai se abrindo com aquela paixão. TRAVELLING da bicicleta de Heloísa : mostrar Goram a olhando encantado. Voltar para ela agora com os olhos abertos, sorrindo para ele sem jeito.

“A…Eu só quero o leve da vida para te levar e o tempo para”

Eles escutam um sabiá.

HELOÍSA – Um canto!

GORAM – Maíra, Macunaíma! Lembrei agora de um poema da Cecília Meirelles com esse nome.

HELOÍSA – Ah é? Se chama canto?

GORAM – Hahan.

HELOÍSA – E Como é?

GORAM – Não te fies do tempo nem da eternidade, que as nuvens me puxam pelos vestidos
que os ventos me arrastam contra o meu desejo! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã morro e não te vejo!

Heloísa fecha os olhos

GORAM – Não demores tão longe, em lugar tão secreto, nácar de silêncio que o mar comprime, o lábio, limite do instante absoluto! Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te escuto! Aparece-me agora, que ainda reconheço
a anêmona aberta na tua face
e em redor dos muros o vento inimigo…
Apressa-te, amor, que amanhã eu morro, que amanhã eu morro e não te digo…

SILÊNCIO.

HELOÍSA – Nossa, que profundo.

GORAM – Acho meio desesperador a ideia de apressar o amor, porque sentimento a gente não apura, iandê deixa acontecer e se surpreende.

HELOÍSA – Sim. Mas não deixe de ser bonito o poema e você recita muito bem.

GORAM – Há’evete!(Obrigado)

Silêncio. Ouve-se apenas o vento e o barulho do pedal. Eles contemplam um ao outro. Eles se aproximam de um trecho mais estreito.

HELOÍSA – Acho que não vou conseguir passar junto contigo, vou parar de pedalar.

GORAM – Ê Caroço, a gente consegue, só vir mais para cá.

HELOÍSA – Estou com medo de cair.

GORAM – Não vai, confia em Goram!

O Indígena estendeu a mão. Heloísa hesitou, mas aceitou. Foi puxada para mais perto dele, passaram tranquilamente, mas quem disse que depois largaram a mão.

Desligar música Trevo de Ana Vilela.

CENA 06/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/NEURORRADIOLOGIA/MANHÃ

Rita terminava de analisar uma ressonância magnética com um colega de profissão, quando uma enfermeira segurando o riso veio em sua direção.

ENFERMEIRA – Doutor…quer dizer Doutora Rita, Doutora Meira e Doutor Caio estão te aguardando em sua sala.

Rita enfrentou.

RITA – Por que você está rindo? Por algum acaso tem um palhaço na sua frente?

E saiu deixando a enfermeira sem palavras, a profissional trocou olhares com o outro médico.

CORTAR PARA:

SALA DE RITA

RITA – Aconteceu alguma coisa, queridos?

Meire a olhava preocupada. Caio mexia no celular.

MEIRE – Acho melhor você mesmo ver, professora.

RITA – Nossa, você me assusta falando assim, parece que é algo sério.

MEIRE – E é!

Caio a entrega seu celular e clica no play. Rita num primeiro momento não entende.

RITA – É vlog de vocês, não é Meire? Não vejo nada demais aqui.

MEIRE – Olha no fundo da imagem.

Rita aproxima do visor e amplia a imagem. Olhos esbugalham.

RITA – Mas esse é o meu armário!

MEIRE – Sim, professora, essas duas alunas roubaram seus jalecos.

RITA – Mas isso não confere, estava tudo normal hoje cedo quando cheguei.

CAIO – Então elas devolveram, mas chegaram a pegar sem sua permissão. Acho que deveria localizar essas meninas e questionar essa atitude.

RITA – É exatamente isso que vou fazer hoje a noite quando terminar o consultório.

Close-up no rosto decidido de Rita.

CORTAR PARA:

CENA 07/SÃO PAULO/JD.AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA /SALA DE ESTAR/MANHÃ

MATEUS – E então Bernardo eu estou esperando uma resposta!

BERNARDO – Você tá maluco? O que está fazendo com a Cecília nas costas? Ela pode te picar e você ir parar no hospital.

MATEUS – Deixe de rodeios, não mude de assunto! Uma maneira muito sem noção por sinal, Cecília é dá família, conhece-me há anos, jamais teria a audácia de me picar.

BERNARDO – Até parece que cobra cria memória, se ela se sentir ameaçada, ela pode te atacar.

MATEUS – Eu sou ofídioglota! Somos amigos, não é fofinha do pai (faz uns ruídos estranhos como se tivesse se comunicando com a naja, depois a coloca lentamente no viveiro de acrílico)

BERNARDO – Às vezes, você me assusta, amor.

MATEUS – Quem me assusta é você, com esse sumiço. O que aconteceu Bernardo? Eu tive que dormir num hotel de luxo perto da universidade, sabe que não consigo ficar de noite nesta residência.

BERNARDO – Perdão amor, eu passei a noite num cassino.

Mateus fica surpreso.

MATEUS – Num cassino? Você voltou a jogar?

BERNARDO (fingindo vergonha) – Sim.

MATEUS – Ah não, eu não vou te deixar perder uma dinheirama nesses lugares.

BERNARDO(ardiloso) – Somos milionários!

MATEUS – E daí? Isso é motivo para você torrar nossas economias?

BERNARDO – Me perdoa! Eu tive uma recaída e acabei voltando.

MATEUS(bravo)- Quanto tempo você voltou para essa vida?

Bernardo pensou um instante.

BERNARDO (fingindo culpa) – Há algumas semanas, ontem foi a primeira madrugada que passei jogando depois de anos afastado. Me perdoa, fiquei com tanta vergonha de admitir isso, me sinto um fraco, um impotente.

Bernardo abaixa a cabeça, encenando. Mateus se compadece de seu cúmplice.

MATEUS – Impotente onde? Quem me ajuda a planejar um duplo homicídio e ainda um sequestro seguido de homicídio, onde tudo sai perfeito, nenhuma investigação consegue ser capaz de descobrir, consegue homens de confiança para nos ajudar em tudo isso, tem que ser no mínimo um gênio, não acha?

Instrumental crescente. Slow Motion. Bernardo levanta a cabeça num tom de discreta felicidade.

MATEUS – Você tá muito inseguro, mor. Vem cá, quer um dengo, né?

E o abraça, por entre seu ombro, Bernardo esboça um sorriso de alívio.

CENA 08/ SÃO PAULO/IBIRAPUERA/PARQUE IBIRAPUERA/MANHÃ

Goram para a bicicleta em frente ao Pavilhão Padre Manoel da Nóbrega.

GORAM – Uaatê visitar o museu Afro Brasil?

HELOÍSA – Vou adorar.

CORTAR PARA:

Instrumental africano. Tambores. Mostrar eles andando pelos corredores do museu, vendo máscaras africanas feitas pelos ecóis, guedelés. Mapas do continente africano, gravuras. Litografias de Debret e Rugendas revelando a escravidão negreira em seus momentos mais violentos como o castigo, torturas. Obras de Alípio Dutra e Antônio Parreiras mostrando lideranças de resistência como Zumbi e José Patrocínio.

 

CENA 09/SÃO PAULO/CENTRO/BORDEL BOVARY/ SALÃO PRINCIPAL/ TARDE

CLIENTE – Ela fugiu, bateu com o rodo na minha cabeça, eu deveria te processar Bovary, processar essa merda do seu bordel. Será que é muito um homem pedir uma noite de amor em paz?

BOVARY – Imagina, não é para tanto!

CLIENTE – Como não é para tanto? Eu poderia ter morrido com aquela pancada!

BOVARY – Eu errei, fui mandar logo a mais tinhosa para você, a mais bonita, mas a mais tinhosa, a que me dá mais trabalho, depois que aquela…Graças a Deus, aquela vaca picou a mula dela daqui. Eu deixo grátis o próximo programa e ainda vou te dar a mais novinha, menor de idade, 16 aninhos. (Profere num tom malicioso)

CLIENTE- Oba, novinha. Mas eu só aceito em consideração a você, a nossa velha amizade.

BOVARY (asquerosa) – Claro, claro. Vou chama-la. TIFFANY!!!

A jovem que estava terminando de limpar a cozinha, aparece cansada com um balde e pano na mão.

TIFFANY – Chamou, Madame Bovary?

BOVARY – Vai trocar de roupa, já arrumei um cliente para você!

TIFFANY (assustada) – Um cliente? Mas o combinado não era que até os dezoito anos eu não sairia com ninguém?

BOVARY – Mudança de planos, meu doce. Larga esse balde e vai se arrumar, essa noite você tá dispensada dos serviços domésticos.

Tiffany larga o balde, mas se aproxima dela, emociona.

TIFFANY (desesperada) – Por favor, madame Bovary! Não faz isso comigo, eu ainda não estou pronta, eu não conheço nada sobre esse mundo, o que os clientes gostam, se a senhora quiser eu posso assumir por um mês a limpeza da casa, eu…

BOVARY – Deixa de churumela, garota. Você acha que aqui é o quê? Uma casa de caridade? Um albergue? É se vira nos trinta, minha filha. Ganhar o pão de cada dia, minha mãe sempre me ensinou isso. Se não quiser, pode pegar suas tralhas e ir para rua, que é lá, sabe que eu tô achando que lá é o seu lugar mesmo…

Tiffany se ajoelha ao pé da cafetina.

TIFFANY (chorando) – Por favor, não faz isso comigo, eu não quero passar fome de novo…

BOVARY – Pois então está esperando o quê? Vai se trocar!

Cliente fica com dó e passa mão no rosto dela.

CLIENTE – Fica assim não, papai garante que não vai doer nada, ouviu? Será bem devagarinho!

Ele desce a mão para as nádegas dela e ela grita.

TIFFANY (Irada) – Tira a mão de mim!

Nesse instante, Marcela entra pela porta de entrada com Larissa e José.

MARCELA – Tira a mão dela, seu animal!

Bovary retorce os olhos, abrindo seu leque escuro.

BOVARY – Chegou quem estava faltando, a mulher-maravilha, o caminhoneiro veio pançudo amante dela e a desnaturada. Fiquei sabendo, viu Larissa? Da sua desobediência! Vai ter uma refeição a menos por dia durante um mês para aprender o que é bom para tosse!

Marcela explode com Bovary, gruda em sua face, apertando seu queixo e prensando contra a parede.

MARCELA – CALA ESSA BOCA, SUA BOCA DE BUEIRO!

Larissa berra.

LARISSA – É ele, Marcela! É ele que tentou fazer aquelas coisas horríveis comigo.

JOSÉ – Ah, é esse FILHA DA PUTA AQUI!

E esmurra o homem que cambaleia para o lado, depois volta medindo forças com eles.

TIFFANY – MA, ELA TENTOU ME FAZER SAIR COM ESSE SAPO NOJENTO! MESMO EU IMPLORANDO PARA NÃO SAIR!

Larissa acode a irmã de profissão.

MARCELA – MALDITA VELHA! Eu falei para você deixar as meninas em paz, para você não arrumar esse lixo de programa para elas e principalmente para não abusar das mais novas. Mas você não aprende mesmo, é uma pedófila, uma parasita que vive sugando a todas que estão em situações vulneráveis para superexplorar, para aceitar migalhas em troca do seu negocinho sujo. Mas agora você vai aprender uma lição, a maior lição da sua vida! DESGRAÇADA!

E a joga em cima de uma mesa com violência.

MARCELA – VAGABUNDA, ORDINÁRIA!

As meninas, que estavam no interior, surgem para assistir, seja no alto na escada, no corredor aos fundos.

MARCELA – EU VOU MANDAR VOCÊ PARA O INFERNO, SUA MISERÁVEL!

As meninas gritavam. MARCELA! MARCELA!

Simultaneamente, José ia tentando nocautear o cliente, mas o homem por ser mais rápido, acaba por dominando logo a briga e o joga contra parede o fazendo desmaiar.

Marcela estapeia, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito, nove, dez…

BOVARY – PARA! EU SOU IDOSA!

MARCELA (FORA DE SÍ) – Agora você é idosa né, sua CADELA VELHA? MAS NA HORA DE EXPLORAR, DE SUBMETER AS MENINAS A SITUAÇÕES REVOLTANTES, AÍ VOCÊ NÃO É NÉ? PIRANHA DESGRAÇADA! CAFETINA BANDIDA!

E torcendo o braço da velha a joga contra um armário de vidro que se estilhaça com a colisão. Os cacos fincam pelo corpo da anciã, sujando-a de sangue aos berros.

MARCELA – VADIA PEDÓFILA! MORRAAAAAA!

CORTAR PARA:

CENA 10/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/CIRURGIA VASCULAR/MANHÃ

CORREDOR

Vitor andava cabisbaixo desde que aconteceu o incidente no treino de vôlei. Miguel foi ao seu encontro.

SANITÁRIO MASCULINO

MIGUEL – HEY BROTHER!

Vitor olhou para trás.

VITOR – Hey parça, tudo certo? Tava onde, acabei de sair do internato de vascular.

MIGUEL – Eu tava na onco! Meu, você está assim desde o jogo de ontem, né?

VITOR – O que você acha? Minha carreira acabou.

MIGUEL – Deixe de frescura, cara. Sua carreira não depende apenas de ser um jogador de vôlei e sua iniciação que está começando em febre reumática? Seu projeto social com as crianças imunodecificentes da região?

Vitor se olha no espelho.

VITOR – Você sabe os pesos que dou as coisas, o esporte sempre foi um dos favoritos.

MIGUEL – Eu sei, mas penso que você deveria ampliar seu campo de visão.

VITOR – Olha, eu para te dizer a verdade não estou muito afim de papo, gostaria de ficar sozinho.

MIGUEL – Claro, quer ficar sozinho, vou te deixar sozinho, cara. Meu, eu tinha algo para te falar…Ah sim, vai rolar um churras numa chácara do Pedro da turminha do Samuel, hoje à noite!

VITOR – Você não está me sugerindo que eu marque presença, né? Depois de tudo que fizeram contra mim?

MIGUEL – Claro que sim!

VITOR – Se tá maluco!

MIGUEL – Cara, pensa. Geralmente os veteranos bebem que nem uns condenados, Pedro principalmente. E pessoas bêbadas geralmente são pessoas mais falantes, momento perfeito para você conseguir uma gravação.

VITOR – Que gravação?

MIGUEL – Que você deveria fazer para conseguir provar que foram obras deles a armação da mochila.

Vitor para um momento.

VITOR – Meu…não é arriscado demais? Como vou entrar nessa chácara sem perceberem?

MIGUEL – Isso é muito tranquilo, primeiro porque o endereço tá postado no grupo dos alunos da facul no face, segundo porque eles não estão aí para segurança, vai ter movimento de invasão de dinos, o pessoal recém formado da facul, sempre há, capaz de ter médico já há muito tempo também.

Vitor pensa por um momento.

VITOR – Marquei com a Themise hoje a noite de nos vermos!

MIGUEL – Eu, se fosse você, desmarcava e remarcava para outro dia, não sabemos quando ocorrerá um evento assim de novo, com esse pessoal comandando, vulneráveis, algo público, com muita gente confirmando, isso acontece só no começo do ano quando entra numa nova turma, você sabe disso!

VITOR – Sei sim.

MIGUEL – Vou deixar refletindo, vou ver se consigo pegar a fila do bandejão mais vazia. Falou.

VITOR – Falou!

Passados alguns minutos, Vitor desmarca encontro com Themise.

CENA 11/SÃO PAULO/CENTRO/BORDEL BOVARY/ SALÃO PRINCIPAL/ MANHÃ

INSTRUMENTAL ADÁGIO. Bovary tremia junto a uma poça de sangue que se estendia no chão. RESPIRAÇÃO OFEGANTE DE MARCELA. Maledicia a cafetina aos ruídos. Foi então que veio um sentimento de culpa, desproporção.

Os olhares das meninas se transformaram, agora olhavam com preocupação para Bovary. O cliente abriu a porta. Olhos de Larissa e Tiffany se escancararam.

FRANÇA – Mas então temos uma tentativa de homicídio aqui, procede?

Marcela se voltou assustada.

MARCELA – COMO?

CLIENTE – Foi ela, ela que agrediu essa senhora!

Marcela não reagiu quando a algemaram. Larissa foi a seu encontro.

LARISSA – Larguem ela, ela fez isso para nos proteger.

FRANÇA – Conversamos melhor isso na delegacia!

E Marcela se emocionou, trocando olhares com as meninas.

Fim do instrumental Adágio.

CENA 12/SÃO PAULO/IBIRAPUERA/PARQUE IBIRAPUERA/ MANHÃ

Goram estava sentando na beira de uma lagoa a sós, acompanhado de Heloísa, observavam um gaivota pousar na água para se banhar, ao longe, percebíamos as bicicletas apoiadas nas árvores.

GORAM – Como é bom estar aqui, tendo esse contato com a natureza, quanto ipocorê eu não tinha isso.

Heloísa fica feliz por ele estar se sentindo bem

HELOÍSA – Fazia muito tempo que você não tinha um momento assim? Confesso que é tudo muito calmo e sereno e está sendo muito bom mesmo, porque eu fui criada em meio a barulhos de carro, quanto mais tecnológico melhor.

GORAM – Faz muito tempo sim! Isso me remete a minha mitã onde vivi numa aldeia com os Guajajaras. Depois nossas tapeiras foram destruída pela invasão de garimpeiros, muitos de nós foram mortos se não por bala, por intoxicação de mercúrio nos nossos pirás

Heloísa sente compaixão.

HELOÍSA – Eu sinto muito por isso.

GORAM – Tudo bem, você não tem angaipa de nada. O homem branco que é egoísta, ganancioso, não vê que explorando a terra, derrubando a árvore, poluindo os rios, como faz, sem compensar, está mombo próprio pé, porque a natureza é que nem a gente, é finita.

HELOÍSA – Com certeza.

GORAM – O que adianta desenvolver tecnologia, máquinas que auxiliam o homem? Se a’e trazem muita dor aos outros seres e a outros yvipóra?  

Os olhos do protagonista se perdem num casal de velhinhos que está a fazer um piquenique.

GORAM – Mas também existe muito amor nessa vida, pessoas que passam prehegua juntos e o tempo só reforça o sentimento.

Heloísa percebe que ele está falando do casal, avermelha-se.

HELOÍSA – Sim. E penso que amar é todos os dias é você entender que a pessoa que está do seu lado é uma nova pessoa e cada vez mais ela está mais longe das suas expectativas, mas ainda assim, vale a pena continuar com ela, porque ela nos faz muito bem.

Goram sorriu

GORAM (V.O.) – Que nhe’engas lindas ela disse, lindas como ela.

Ele se aproximou. Lábios estavam molhados. Os olhos dela foram de encontro aos seus. Iam se beijar, quando um bola de futebol os interrompeu. Eles viraram assustados.

RAPAZ – Desculpem! Eu e meus amigos estávamos jogando uma partida de futebol. Vocês querem?

HELOÍSA – Obrigada, mas não estamos muito afim.

Goram já estava de pé.

GORAM(nervoso)– Melhor iandê irmos andando, se não vamos chegar takikuepé na aula de metodologia científica.

Heloísa olhou em seu celular.

HELOÍSA – Takikuepé? Atrasado. Sim. Vamos.

CENA 13/SÃO PAULO/CENTRO/DELEGACIA DA POLÍCIA DE PROTEÇÃO AO IDOSO/MANHÃ

Marcela é colocada de frente para a delegada idosa do local.

FRANÇA – Recebi a denúncia, estava investigando uma operação contra tráfico de drogas, acabei por receber uma denúncia deste caso, encaminhei-me de prender a acusada em flagrante.

DELEGADA – Pois fez muito bem. Maus tratos e agressões a idosos é crime. A senhora é uma covarde por lutar contra pessoas que possuem uma força física mais frágil que a senhora.

Marcela estava atônita, ela havia passado dos limites, porque agora não tinha mais armas.

Larissa entra correndo com Tiffany.

LARISSA – Ela fez isso para nos proteger! Não podem prendê-la!

DELEGADA – Do que você está falando, mocinha?

MARCELA – É mentira! Ela está dizendo isso apenas para me proteger!

Tiffany não entende nada.

TIFFANY – O QUÊ?

DELEGADA- Levem essa mulher lá para dentro, foi presa em flagrante.

LARISSA – Por que está deixando isso acontecer com você? Temos que denunciar.

MARCELA(cochichou)- Por vocês, se ela for presa, não terão onde ficar, vão para rua. Poderão entrar em situação de miséria. Até eu conseguir algo estável para vocês, não podemos entrega-la.

LARISSA- Mas…

O policial leva Marcela lá para dentro. Close nas faces das meninas. Close final: Marcela encarcerada.

CENA 14/SÃO PAULO/IBIRAPUERA/EXT. PQ IBIRAPUERA/MANHÃ

Goram preparava para montar na bicicleta, quando avistou uma sorveteria do outro lado da rua. Foi então que uma lembrança da infância invadiu sua mente.

Ligar Flashback

CENA 15/SÃO PAULO/IBIRAPUERA/SORVETE IBIRAPUERA/ TARDE ENSOLARADA

Eloá chega trazendo o filho de mãos dadas ainda com uniforme do vermelhinho. Ela para em frente a sorveteria.

ELOÁ – Mamãe tem uma surpresa para você!

GIOVANE – Vamos tomar sorvete, mamãe?

ELOÁ – Isso eu não posso contar, que tal você descobrir, corre lá em cima, vai e abra a porta.

O pequeno correu pelos degraus e ao puxar a porta para os dois lados, percebeu que se tratava de uma festa de aniversário, primos, amiguinhos da escolinha e familiares estavam com chapeuzinhos triangulares vermelhos, bexigas salsichas coloridas.

Orlando o pegou no colo

ORLANDO – Esse é meu meninão, gente. Quantos anos você está fazendo, mostra para eles com a mão!

Giovani ingênuo mostrou

GIOVANE – Cinco!

ORLANDO – Tá ficando velho, hein? Quase me alcançando!

Vovó materna Cláudia, magra, cabelos branquinhos em coque, apareceu mexendo naquelas filmadoras grandes antigas no ombro apontando para ele.

CLÁUDIA – Sorria para vovó, querido. Meu Deus, o menino é sua cara Orlando.

Orlando sorriu balançando Giovane nos braços.

CORTAR PARA:

MOMENTO DO PARABÉNS. TODOS CANTANDO.

ELOÁ – Faça um pedido e assopre as velinhas.

Giovane pensa um pouco com seu jeitinho todo fofinho assopra feliz.

Orlando diz.

ORLANDO – Se depender de mim, todos os seus desejos serão realizados, filho.

FIM DO FLASHBACK

CORTAR PARA:

CENA 16/SÃO PAULO/IBIRAPUERA/EXTERIOR PQ. IBIPRAPUERA/MANHÃ

Instrumental dramático. Goram em lágrimas. Heloísa se vira e percebe que cambaleando ele caminha em direção a sorveteria.

CORTAR PARA:

CENA 17/SÃO PAULO/JD.AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/QUARTO DO CASAL/ NOITE CHUVOSA

FLASHBACK: Imagem da cama com seus pais mortos ensanguentados depois de serem macetados e os assassinos antes mascarados, retirando as máscaras, um de cada lado da cama, simetricamente.

CORTAR PARA:

CENA 18/SÃO PAULO/IBIRAPUERA/EXTERIOR PQ. IBIPRAPUERA/MANHÃ

Num cambaleio, Goram se deixa cair no meio da rua de joelhos.

HELOÍSA (sem entender) – Goram?

Goram chorava de soluçar.

GORAM – Voltem! Por tupã!

Ele olhava para os céus desespero.

GORAM- VOLTEEEEEM!

E Chorava profundo.

Heloísa vê alguma coisa se aproximando, seu rosto se transformando.

HELOÍSA – GORAM SAI DA RUA!

Ele chorava alto, algumas pessoas pararam para observar.

HELOÍSA – GORAAAAAAAM!!!!

Close: uma sombra se aproxima repentinamente. Close escutam freios. Close na face de Heloísa estava horrorizada. Close corpo de Goram cai estatelado no asfalto, havia sido atropelado.

SILÊNCIO. HEAD-ON COM SLOW MOTION. Heloísa se aproxima do corpo (câmera)

FADE OUT

CENA 18/IMAGENS AÉREAS SÃO PAULO

FADE IN

REFRÃO SOMETHING JUST LIKE THIS DA COLDPLAY. Pinacoteca apagando as luzes. Mercadão Municipal fechado as portas. Girafas fechando os olhos no Zoológico de São Paulo. Casais chegando no bar Itália e vislumbrando a capital inteira por cima. Anoiteceu.

CENA 19/SÃO PAULO/TATUAPÉ/ UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/EXTERIOR/NOITE

André passa pelo portão, preocupado. Vemos em seu celular aberto no bate-papo no facebook de Dandara. PÉSSIMO PRESSENTIMENTO.

Ele passa por Eliane que confirma presença no evento.

ELIANE – Pronto, agora é ir para casa e me aprontar para festa.

Ela aguarda a mãe vir busca-la, quando Viviane a alcança.

VIVIANE – Hey! Você vai para festa de Pedro?

ELIANE – Obviamente que sim, afinal, eu me amo.

VIVIANE – Estive pensando, posso ir com você?

ELIANE – Mudou de ideia, né? Viu que passar trote agora, significar estar por cima da carne seca no futuro, né?

Viviane não respondeu.

ELIANE – Te deixo na sua casa e quando estiver saindo da minha, te aviso.

Os olhos de Viviane brilharam

CORTAR PARA:

CENA 20/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/RECEPÇÃO PRONTO SOCORRO/NOITE

Heloísa anda de um lado para o outro. TENSA. Ela se encaminha para recepcionista.

HELOÍSA – Já faz um tempo que o levaram Goram Guajajara lá para dentro, estou sem notícias!

RECEPCIONISTA – Sinto muito, vai ter que esperar.

Suzy chega.

SUZY – Eu vi sua mensagem, vi correndo para cá. Goram está bem.

HELOÍSA(Emocionada) – Eu não sei, só sei que não aguento mais esperar.

SUZY – Já sei como termos notícias.

HELOISA – COMO??

SUZY – Do jeito que temos feito para acompanhar o caso clínico.

Heloísa para de andar de um lado para o outro.

CORTAR PARA:

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/CORREDOR UTI/NOITE

As meninas aparecem de jaleco branco

HELOÍSA – Eu realmente espero que ele não esteja aí

SUZY – Não estará!

Elas chegam e Heloísa olhando pela janela de vidro, alivia-se ao perceber que ele não está lá.

HELOÍSA – Ainda bem. Onde vamos procurar agora?

Elas então percebem que Sara acabou de passar por elas.

Sara encontra seus alunos que estavam investigando o caso clínico.

SARA – O Estudo histopatológico saiu daquelas manchas na planta do pé!

ALUNA 1 – O que deu?

SARA – Deu que o achado dermatológico era hiperceratose.

ALUNO 1 – Hiperceratose?

SARA – Sim. Hipóteses?

ALUNO 2 – Eczema crônico?

SARA – Não tem nenhum histórico e não explica outros sintomas.

ALUNO 1 – Ele teve dor de barriga associada. Pensei numa infecção. Mas que cause hiperceratose? Não consigo imaginar.

ALUNA 1 – Também não consigo imaginar, hiperceratose costuma parecer no caso de HPV e geralmente na mão e no pé. Mas não causaria primariamente dor gástrica difusa.

ALUNO 1 – Foi difusa?

ALUNO 2 – Foi o que ele descreveu depois de ter acordado do choque séptico de ontem.

ALUNA 1 – Ele teve um choque séptico?

ALUNO 2 – Sim. Não? Hipotensão, taquicardia, febre.

Sara riu

SARA – Excelente

ALUNA 1 –  A senhora encenou que não sabia ontem, professora?

Sara riu.

ALUNO 2 – Pelo jeito sim, né?

SARA – São médicos, estão na residência ou quase se formando, não podem mais depender tanto assim de mim.

ALUNA 1 – Certo. Então, vamos pedir uma coprocultura e uma hemocultura para vermos se houve uma infecção intestinal que encaminhou para sepse.

SARA – Certo. Pesquisem diagnósticos diferenciais com estes achados, não se esqueçam do início, ele estava com Vitamina D normal, apesar do quadro de osteoporose e o paciente é jovem.

ALUNO 2 – Espera! Estamos nos esquecendo de algo.

Sara olhou sarcástica.

SARA – Diga a eles!

ALUNO 2 – O choque séptico foi controlado, não? Provavelmente com antibioticoterapia.

Eles concordaram

ALUNO 2 – Seria muito perguntar qual a classe de antibiótico foi usado?

SARA – Tetraciclina com associação a prednisona e indometacina. Boa sacada. Eu não ia comentar, se você não tivesse percebido.

E saiu satisfeita. Os alunos ficaram curiosos a fim de descobrirem o diagnóstico. Suzy que ouvira de longe riu com Heloísa

SUZY – Essa professora é foda! Tomara que tenhamos aula com ela na clínica ou no internato.

HELOÍSA – Sim, foi uma boa distração, tava muito mal, depois vou pesquisar sobre esses achados, quero ver se chego a alguma conclusão. Mas agora vamos voltar a procurar o Goram.

Elas andam mais um pouco pelos corredores.

 

CENA 22/MAUÁ/CHACARÁ DE PEDRO/ EXTERIOR/NOITE

Eliane chega acompanhada de Viviane, Margarida e Escova às recebem já trollando elas. Minutos depois, um Uber para e dele desce Vitor. Close-up nele tirando o capuz e se infiltrando entre os jovens.

CENA 23/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ENFERMARIA NEUROLOGIA/NOITE

Rita encontra Goram entre os pacientes da enfermaria e percebe que uma enfermeira está cuidando dele. Ele está sedado.

RITA – Meu Deus, o que aconteceu com ele?

Ela pega o formulário, a enfermeira a revela.

ENFERMEIRA – Chegou com baixa saturação, foi tratado. Mas pelas radiografias teve alguns traumas leves, Doutor pediu para sedá-lo que ele estava com um pouco de dor.

RITA – Ainda bem. Vou comunicar a família dele.

Ela disca para o celular de Adelaide e não consegue se comunicar, liga então na casa de Adelaide, Themise atende.

DO OUTRO LADO DA LINHA

THEMISE – Alô, quem está falando?

RITA – É Doutora Rita! Tudo bem? Você deve ser a filha mais velha de Adelaide, a notícia que eu tenho para contar não é muito boa, mas ele já está bem. Goram sofreu um acidente, foi atropelado.

DO OUTRO DA LINHA, TÊMISE LARGA O TELEFONE FIXO.

Letreiro: Mais tarde – mostrar movimentos de carros nas avenidas.

 

CENA 24/MAUÁ/CHACARÁ PEDRO/ÁREA EXTERNA/NOITE

Vitor percebe que alguns veteranos em um canto estão usando LCD, outros zombam de alguns calouros em outro canto. Mais adiante, próximo a piscina, ele avista Pedro e avança em sua direção, recobrindo pelo capuz.

CENA 25/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ INT. HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ NOITE

HELOÍSA – Acho melhor nos dividirmos, não estamos encontrando nada. Eu vou para a ala da enfermaria de Neuro, você olha na enfermaria de ortopedia.

SUZY – Combinado.

ENFERMARIA DE NEURO

Heloísa encontra Goram, o rapaz está acordando.

HELOÍSA – Meu Deus, que susto você nos deu. Você está bem?

Goram a olha zonzo.

GORAM – Égua de largura! Helô, Acho que estou. Só com um pouco de tasy no antebraço.

ENFERMARIA DE ORTOPEDIA

Suzy chega para procurar por Goram e Rita a reconhece. Ela olha no vídeo que recebeu de Caio pelo celular e tem a certeza.

RITA – Hey, você! Paradinha aí. Posso saber o que a senhorita estava fazendo roubando o meu jaleco do armário?

Suzy gela. Close nela.

CENA 26/SÃO PAULO/JD. AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/SUITE DE MATEUS/NOITE

Bernardo está tomando banho quando seu celular toca. Mateus que já estava tentando dormir, abre os olhos.

MATEUS – Mor?

Bernardo percebe que ele está no banho, precipita-se para ver quem é e se choca ao ver que o letreiro está escrito: Minha princesa.

Close nos olhos coléricos do vilão

 

CENA 27/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ ENFERMARIA DE NEURO.

Plano geral, depois plano americano, Heloísa ri, sentada na maca de Goram.

HELOÍSA – Ai, de verdade, fico muito feliz por não ter acontecido nada. Mas eu não entendi porque você ficou parado daquele jeito no meio da rua…

GORAM (pega na mão dela, ela fica tímida)- Há muitas añeteguas que você não sabe sobre mim, mas ainda não me sinto à saso para comentar, você entende essa minha necessidade, não é?

HELOÍSA – Claro, eu peço até desculpas por…

GORAM – Ani Kotevê! Você não fez nada, agiu com curiosidade e zelo como uma pessoa empática e que gosta de Goram faria.

A jovem cora. Ele a puxa lentamente para perto de si. Começa a tocar Trevo de Ana Vilela. Mostrar sorriso nascendo nos lábios dela, depois nos lábios dele, olhos contemplativos dela, depois os dele, respiração dela misturando a dele, covinhas de felicidade, ambos corados. Ela toca sua mãos na face dele, ele segura na nuca dela. Fecham os olhos, seus lábios em chamas se tocam, depois a língua.

Instrumental crescente. Desfocar. Themise visualizara tudo, carregava numa mão o ursinho de pelúcia de Goram, na outra uma caixa de bombom. Close em sua face em lágrimas.

CONTINUA…

FADE OUT

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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