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Estação Medicina – Capítulo 07 – Falsa Amante

ESTAÇÃO MEDICINA 

CAPÍTULO 07

FALSA AMANTE

FADE IN

CENA 01/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ ENFERMARIA DE NEUROLOGIA/ NOITE

Themise larga o ursinho e caixa de bombom, Goram desperta do beijo e percebe ao vê-la deixando o quarto. Outras pessoas observam a jovem. Heloísa olha para trás.

HELOÍSA – O Que aconteceu? Havia alguém aqui?

Goram nega.

GORAM – Ani porã. Acho que não.

E eles voltaram a se beijar. A garota ficou ao seu lado e eles se beijaram apaixonados, ela riu.

HELOÍSA – Você beija muito bem, sabia? Estava com saudades do seu beijo.

GORAM – Ah é? Você estava com saudades do beijo de Goram? Pois xê também estava com exa’nga’u do seu.

CORTAR PARA:

CENA 02/ SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ CONSULTÓRIO DE NEUROCLÍNICA/ NOITE

 

Rita entra trazendo Suzy pelo braço, fechando a porta logo em seguida.

RITA – Agora a senhorita pode me explicar o motivo pelo qual estava invadindo o meu armário e fazendo uso do meu jaleco? E sua amiga, irmã, que não está aqui, também?

Suzy confessa.

SUZY – Eu não queria, nós não queríamos roubar nada de ninguém, apenas queríamos entrar no hospital para acompanhar um caso clínico, mas não temos permissão, somos ainda do primeiro semestre.

RITA – Do primeiro semestre?

Rita se compadeceu. Era notável o comportamento de vergonha da jovem. A médica, humana do jeito que era, abaixou-se diante dela.

RITA – Não seja por isso, não precisavam ter feito, eu adoro alunos curiosos e engajados, costumam ser os melhores. Eu costumo ser o portão de entrada de muitos primeiranistas aqui no hospital.

Os olhinhos de Suzy brilharam

SUZY – Ah é?

RITA – Sim, sim. Sempre aparece algum ou outro aluno querendo isso e por sorte a maioria deles devem me encontrar.

SUZY – A senhora tá certa, nós deveríamos ter procurado a senhora. Nossa! Imagina se não tivéssemos roubado o Seu jaleco e fosse outro médico.

RITA – Sim, seria um problema. Mas deu tudo certo. E agora o que acha de darmos um tour no hospital e você acompanhar-me em alguns atendimentos?

SUZY – A Senhora  não tá falando sério? Jura? Que massa! Eu super aceito, vou até chamar minha amiga que está na enfermaria de neuro.

RITA – Claro. Ela será muito bem-vinda também.

Close no sorriso maternal da drag queen.

 CENA 03/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ EXTERNO/ NOITE

INSTRUMENTAL DRAMÁTICO. Themise corre freneticamente sobre o luar, seus olhos estavam encharcados.

THEMISE(V.O.) – O que está acontecendo comigo? Por que aquele beijo me incomodou tanto, porque doeu, eu já tinha visto antes, não foi uma novidade. Eu deveria ficar por ele.

Para de correr. Abaixa a cabeça. PONGLÉE. Observa seu reflexo no iluminado azul de uma fonte de água que havia no campus universitário.

THEMISE (V.O.) – Eu sei, no fundo eu sei, estou gostando dele. Mas ele nunca vai olhar para mim, nunca com mesmos olhos, eu sou apenas uma prima, uma prima da família de criação dele, uma indígena como outra, que sempre perde lugar para uma jovem branca. E além do mais ela faz medicina e eu ainda não estou cursando, isso mexe, mexe demais com o status social dele, é muito mais bonito namorarem um casal de médico do que um médico e uma jovem ainda sem futuro e desempregada.

BIG CLOSE-UP. SOFRIMENTO.

CENA 04/SÃO PAULO/ JD AMÉRICA/ INT.MANSÃO DOS MOÇA/ QUARTO DE MATEUS/ NOITE

 

TAIL-AWAY. Bernardo sai do banheiro sem camisa, enxugando-se com a toalha. PLANO DE COSTAS e deita ao lado de Mateus o abraçando por trás. Instrumental explosivo. Matheus escancara os olhos. Big-Close-up no rosto maquiavélico de Mateus.

CENA 05/SÃO PAULO/ TATUAPÉ/ INT.HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ ENFERMARIA DE NEUROLOGIA/ NOITE

Rita e Suzy chegam a enfermaria e encontram Heloísa e Goram se beijando.

SUZY – Pelo visto encontrou seu boy?

Heloísa levanta-se corada. Goram perde os sentidos. Rita fica levemente incomodada com o beijo.

HELOÍSA – Suzy! Imagina! Somos apenas amigos.

SUZY (Ri) – Claro! Amigos que se beijam.

Eles se coram novamente. Rita cumprimenta Heloísa num tom levemente falso.

RITA – Sua amiga me contou que vocês estavam investigando um caso clínico e por isso roubaram meus jalecos.

Heloísa na hora entende quem era aquela médica estranha.

HELOÍSA – Meu Deus! A senhora me desculpe por isso, jamais foi minha intenção te roubar, eu até disse a Suzy…

RITA – Não se importe com isso, vocês tiveram boas intenções e eu gosto de alunos assim.

SUZY – Ela me levou para conhecer alguns pacientes no pronto socorro, foi muito legal!

Heloísa sorriu. Goram a cumprimentou.

GORAM (Sentiu algo estranho) – Há, professora Rita.

RITA (olhar poético) – Olá Goram. Como você está?

Heloísa percebeu um tom adocicado na voz dela. ESTRANHAMENTO.

SUZY – Vocês se conhecem?

GORAM – A Professora me ajudou quando cheguei na cidade, Kiôkin me salvou…

SUZY – Ah é? Conta como foi essa história?

Heloísa ficou um pouco enciumada.

GORAM – Xe não conhecia nada da capital e i me ajudou numa delegacia em que eu quase fui preso.

SUZY – Você quase foi preso?

Rita riu. Heloísa se incomodou.

RITA – Sim, ele e o… André? Né?

SUZY – O André quase foi preso?

GORAM – Sim e por puro racismo, cariós armaram para gente no metrô e colocaram droga nas nossas mochilas, Ê Caroço.

SUZY – Que absurdo!

GORAM – Sim. E i chegou a ser encarcerado, foi repugante, mas deu tudo certo e a professora Rita nos deu carona no aé.

RITA – Eu estava naquela delegacia dando palestra para presidiários sobre uso de preservativos.

SUZY – Gente, que coisa de novela, o destino uniu vocês.

GORAM (corado) – Sim.

E ele se perde em olhar poético com Rita. Heloísa intervém.

HELOÍSA – Gente, que história. Ainda bem que você e o André ficaram bem. Doutora Rita, a propósito, queria que nossa ajudassem com o caso que estamos investigando, é um caso da Professora Sara.

RITA – Profissional excelente. Ajudou-me a começar a dar aulas quando vim para Olímpius. Mas do que se trata?

HELOÍSA – Eu tô bem perdida e a minha amiga de república também, será que a senhora pode nos ajudar, pelo que pude ouvir o nome do paciente é Danilo Souza.

RITA – Vamos olhar agora no prontuário, dele, ajudo sim.

SUZY – Eba!

Rita se aproxima de Goram se despedindo. CAM SUBJETIVA em Goram, HEAD-ON de Rita. Plano geral, ela beija sua testa.

RITA – Boa noite, querido. Amanhã cedo venho para ver como você está.

GORAM – Para a yara também. Para vocês também.

Heloísa olha a cena meio contrariada, Suzy percebe risonha. A oriental dá um beijinho no rosto do rapaz e Heloísa volta e rouba um beijo na boca dele, deixando-o surpreso com a ousadia.

HELOÍSA – Depois continuamos…

Ele fica perdido, com olhos extasiados.

SUZY – Marcando território, né safada?

Heloísa dá um tapa no ombro da amiga.

Elas saem

CORTAR PARA:

CENA 06/MAUÁ/CHACARÁ DE PEDRO/EXTERNO/NOITE

 

Vitor puxa Pedro que cambaleia meio risonho.

PEDRO – Ah não, esse cara aqui!

Vitor é ágil e o leva para um canto.

VITOR – Calma, irmão. Calma, só quero trocar um lero contigo.

PEDRO – Eu não tenho nada para falar com você!

VITOR – Tem sim!

Um estudante chega oferecendo mais LSD e Vitor pega.

VITOR – Aqui, como eu me importo com você, usa mais um pouquinho.

Pedro sorri e aceita. Vitor avista um calouro servindo vodka para os convidados e o chama.

VITOR – AMIGO, AQUI!

Pedro começa a rir. Cores múltiplas brincam em movimentos elípticos em sua frente, ele escuta o gelo caindo de copos um pouco distantes. Vitor ri.

VITOR – Tá doidão, né? Pedrão? Isso aí, é assim que veterano faz mesmo. Bota a calourada para escravidão (diz esses dizeres com náusea). Agora me fala mais sobre o que vocês fizeram contra o Vitor.

Pedro não o reconhecia mais.

PEDRO – Vitor? Ah, sim, o neguinho babaca do time de vôlei.

Instrumental explosivo. Close atrás da blusa: Vitor colocava para gravar o celular.

CORTAR PARA:

CENA 07/SÃO PAULO/BROOKLIN/APARTAMENTO DE UMBERTO/QUARTO DE DANDARA/NOITE

 

Imagem aérea, zoom-on, entrar pelo quarto de Dandara. Instrumental dramático. Tudo escuro numa primeira vista, mas ainda é possível observar os contornos das cômodas, do guarda-roupa, da cama. Sentada no chão, abraçando os joelhos estava Dandara com a cabeça escondida.

A luz da lua ilumina sua face. Ela levanta a cabeça. FRIO. Seu rosto estava inchado. Colocou a mão na barriga, apertando forte. Alguém esmurrou a porta rindo, ela se assustou.

UMBERTO – Falei para você que não me escapava. Deve ter gostado, né filinha? Tá vendo como o papai apesar de todas as traquinagens que você faz, te ama?

E a voz ecoou pelo quarto escuro, ela desesperada colocou as mãos no ouvido, tentando não ouvir a risada de seu pai. BIG-CLOSE-UP Olhos atordoados.

CORTAR PARA:

CENA 08/MAUÁ/CHACARÁ DE PEDRO/EXTERNO/NOITE

Escova flagra a cena de Vitor num canto com Pedro aparentemente alucinado.

ESCOVA – Vitor, aqui? Mas o que esse sujeitinho quer, boa coisa não é.

Ele desaparece no interior da casa. Focar em Vitor e Pedro.

VITOR – Então Pedro? Conta mais o que aconteceu no último jogo?

Pedro começa a rir loucamente.

PEDRO – Demos uma lição, uma lição nele. Nossa que batuque, maneiro, caralho.

Eram os efeitos da droga. Vitor sorriu esperançoso. CLOSE.

VITOR (força risada) – Que lição? Agora que você me deixou curioso, o que vocês fizeram com ele.

PEDRO – Implantamos um mochila no armário dele.

Vitor sorri. Alguém o puxa por trás. Era Samuel, Margarida e Escova.

SAMUEL – O que você está fazendo aqui, caralho?

E esmurra Vitor, o celular voa longe de sua mão. Enquanto luta com Samuel, observa Margarida encontrando seu celular e pisando nele com seu salto. Ele tenta gritar, mas mais caras começam a soca-lo, ele cospe sangue e tenta enfrenta-los, mas não é pálio para muitos, acaba não conseguindo e levando um soco forte de Samuel que provoca seu desmaio.

Margarida chuta o celular do rapaz para dentro da piscina.

MARGARIDA – PROBLEMA RESOLVIDO POR AQUI!

SAMUEL – Ótimo! Agora esse viado vai ter o que merece! Duvido que ele não vai entender o recado, perdeu o vôlei e agora vai perder a vergonha também.

CONTRA-PONGLÉE. Ele e os rapazes rindo feito hiena.

CÂMERA DESCONTINUA. TEMPO DEPOIS.

Os veteranos levam os calouros para uma bacia, onde Escova termina de urinar e Samuel termina de escarrar. Outros veteranos haviam ejaculado, defecado. MISTURA NOJENTA BRANCA-AMARELADA.

Eliane cansada ainda com um avental preto que lhe deram para servir os convidados era levada para a bacia.

MARGARIDA – Isso. Tragam essa merda aqui!

Muitos estavam embriagados. Viviane gritava já imunda.

VIVIANE – É muito nojento, velho. AAAAAAAAA.

Samuel lhe deu um tapa. Ela se calou com certo medo.

SAMUEL – Para de histeria! Famosa piscininha, todo calouro passa!

ELIANE – Eu tô exausta, não quero passar por isso!

MARGARIDA – Tarde demais para desistir, você decidiu vir aqui, bixete.

Eliane sentou meio assustada numa cadeira quando mexiam a papa na bacia. Outras calouras, inclusive Viviane, observavam ela com uma certa piedade, mas estavam mal também. Alguns veteranos, nus do abdômen para baixo apareciam com a camiseta atleticana e levavam algumas novatas para um canto.

ALUNA (O.S) – EU NÃO QUERO!

VETERANO (O.S) – CALA BOCA, VAI DAR PARA MIM SIM!

Eliane sentiu-se mal, mas nada fez quando mergulharam sua cabeça aos risos na bacia com o conteúdo escatológico.

CORTAR PARA:

CENA 09/SÃO PAULO/CENTRO/DELEGACIA DE PROTEÇÃO AO IDOSO/PRESÍDIO/NOITE

 

Marcela está esperando a comida, quando a carcereira chega trazendo o prato da noite: macarrão com salsicha. A Ex-prostituta receba faminta, mas uma colega de cela chamada Valentina, anciã a retira.

MARCELA – Hey, é minha comida!

VALENTINA – Era, querida!

MARCELA – Como? Era? Devolve por gentileza!

Valentina ri com as outras presas na cela.

VALENTINA – Seguinte, boneca, Valentina aqui falou, tá falado, eu mando nessa parada toda, entendeu. E se eu te falei que vou ficar com duas marmitas, eu vou, sendo que uma delas é a sua!

MARCELA – Não manda nada, imagina se uma velha como você vai mandar em mim, nem meus pais depois de uma certa idade mandaram, porque você mandaria? Se você não quer me devolver a marmita por bem, eu vou pegá-la.

Ela tenta puxar de Valentina, mas as outras presidiárias a seguram.

MARCELA – Me soltem! Meu papo é com ela!

VALENTINA – Mexeu com Valentina, mexeu com todas, essa é a regra por aqui, agora você vai ficar quietinha se não quiser problemas.

MARCELA – Até parece que eu tenho medo de você!

VALENTINA – Ah não tem? Mostrem a elas meninas, porque ela deve me temer.

E num instante, as colegas de cela começaram a socar Marcela que tentava lutar, mas era em vão, enquanto isso, Valentina irônica, olhava sarcástica para ela enquanto comia a marmita de ex-prostituta.

FADE OUT

CENA 10 / IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/MANHÃ

FADE IN

Imagens aéreas da cidade de São Paulo : Ponte Estaiada. Prédios. Mercadão Municipal. Terminal Rodoviário Portuguesa-Tietê. Conveniências na Liberdade são mostrados.  Amanhece ao som de The Feeling de The Chainsmokers.

CENA 11/SÃO PAULO/MORUMBI/CASA DE ÚRSULA/SALA DE ESTAR/MANHÃ

Cacau entra atrasada e Úrsula não perdoa.

ÚRSULA – MAS NÃO SERÁ POSSÍVEL. Eu te pago uma fortuna para chegar vinte minutos atrasada?

CACAU – Perdoe-me Dona Úrsula, mas o ônibus quebrou no meio do caminho, por isso demorei para chegar, até trocar, ficamos esperando…

Úrsula a interrompe.

ÚRSULA Chega dessas suas desculpinhas esfarrapadas e mesmo que o ônibus quebrasse, era só você sair mais cedo, afinal saindo mais cedo de casa já considerando eventuais contratempos, garante que eu não fique desassistida.

Cacau abaixa a cabeça.

ÚRSULA Ande! Comece pela cozinha, quero vê-la um brinco de brilhante. Está me ouvindo?

CACAU Sim, senhora.

E abaixa para cozinha. Eliane desce as escadas.

ÚRSULA – Filha, como que você demora desse jeito? Está atrasadas para a faculdade!

ELIANE- Ai, mãe. Eu tô ainda de ressacada de ontem. Cheguei três da manhã.

ÚRSULA – Quem mandou a senhora ficar na gandaia até essa hora, agora tá sofrendo as consequências.

ELIANE – Pior que hoje tenho aula de neuroanatomia, dizem que é muito difícil.

ÚRSULA – Pois se sabia disso, deveria ter pensado melhor. Vamos.

E puxando a filha, elas saem. Cacau recebe uma mensagem no celular de Guilherme.

“Preciso te ver e contar uma coisa”.

BIG-CLOSE-UP na face de Cacau.

CENA 12/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL UNIVERSITÁRIO ORLANDO MOÇA/ ENFERMARIA NEUROLOGIA/MANHÃ

Goram está com a cabeça encostada na parede. PENSATIVO.

FLASHBACK: Goram vê olhar suspeito entre Bernardo e Pâmela momentos antes da discussão da ex-serviçal com Mateus.

GORAM – Aí tem! Goram precisa descobrir o que significa esse olhar suspeito. Ité Bernardo ter çá-açi assim como uma empregada. Será que a relação entre i ultrapassava relação de patronato?

INSTRUMENTAL EXPLOSIVO. PLANO AMERICANO.

CORTAR PARA:

CENA 13/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/QUARTO DE HÓSPEDE NO FINAL DO CORREDOR/MANHÃ

Da janela do quarto, aos fundos, vemos Bernardo treinando tênis numa pequena quadra com um amigo, zoom-out, plano de costas, revelar Mateus assistindo tudo, até que é interrompido por Élder que o traz o celular de Bernardo surrupiado dos pertences que ele deixara num banco próximo a quadra.

ÉLDER – Aqui está o que o senhor me pediu.

MATEUS – Ele não percebeu nada, não é mesmo?

ÉLDER – Não senhor.

MATEUS – Ótimo. Aguarde um momento lá fora.

Élder acena positivamente. O vilão senta na cama.

Mateus entra no celular do rapaz e marca um encontro com o nickname ‘’ Minha Princesa’’ para hoje a noite na mansão. No perfil, encontra-se sem foto, o que impede do vilão descobrir quem é.

MATEUS – Agora, nós vamos descobrir quem é essa vagabunda de uma vez por todas e você terá uma grande surpresa, Bernardo. Sua princesa irá te fazer uma visita inesquecível hoje às oito da noite!

Ele mergulha o celular num pequeno aquário circular, de maneira a estragar o aparelho, abre retira o chip, depois o seca com o lençol da cama, sai do quarto. Na suíte do banheiro, Catarina que estava usando a latrina, escuta tudo. SURPRESA. CLOSE-UP nela.

CORTAR PARA:

CENA 14/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/EXTERIOR/MANHÃ

Catarina corre na direção de Bernardo no jardim labiríntico lateral da mansão.

CATARINA (Ofegante) – Ele descobriu!

Bernardo se assusta.

BERNARDO – Ele quem? Descobriu o quê, criatura de Deus? Assim você me assusta!

CATARINA – Mateus descobriu que você tem uma amante.

Instrumental explosivo. Bernardo fica sem chão.

BERNARDO – O quê? Ele descobriu? Ele mencionou o nome dela? Você ouviu?

CATARINA – Não, não ouvi, mas parece que o nome gravado no celular é… Minha Princesa.

Bernardo fica em choque.

BERNARDO – Meu Deus, será que eu não apaguei as mensagens?

Ele pega o celular, mas o mesmo não liga. Catarina revela.

CATARINA – Ele deve ter destruído seu celular. Mas acredito que não, porque marcou um encontro com ela.

BERNARDO – O quê? Ele marcou um encontro com ela?

CATARINA – Hoje às oito da noite! Acho melhor você avisá-la o quanto antes.

BERNARDO – É exatamente isso que eu vou fazer agora!

CORTAR PARA:

CENA 15/MAUÃ/RODOVIA MOVIMENTADA/MANHÃ

CAM FICA DESEMBAÇADA. CONTRA PONGLEÉ.GRAMA. Levanta.  Percebe-se que alguns carros buzinam rindo. Começa a andar até perceber que está nu.

CAM REVELA. PLANO GERAL. VITOR ESTÁ NU NO MEIO DE UM RODOVIA MOVIMENTADA.

CEN 16/SÃO PAULO/TATUAPÉ/UNIVERSIDADE OLÍMPIUS/INSTITUTO DE FISIOTERAPIA/NEUROLOGIA/ MANHÃ

Uma professora com nanismo entra na sala, trazendo alguns livros, ela sobe em cima da mesa. Todos ficam em silêncio.

MIRIAM – Bom dia, calourada da quebrada, tudo bem com vocês?

A quebra de expectativa foi grande. Viviane ousou.

VIVIANE – Tudo bem sim professora e com a senhora?

MIRIAM – Maravilhosamente bem, exceto por aquele episódio de Black Mirror que a mulher é perseguida na rua e depois mostram que ela é culpada pelo assassinato de uma criança com requintes de crueldade e ela tá sendo julgada como se tivesse em um purgatório. Eu achei bem estruturada.

FABIANA – Foi muito bom! Trataram essa questão do poder paralelo, né? Do fazer justiça com as próprias mãos.

Guto entra na sala, voltava da academia.

GUTO – Você é a professora?

A Sala riu. Miriam fez uma dancinha em cima da mesa.

MIRIAM – O que você acha? Te choca uma professora anã?

Guto fica sem saber o que responder, mas consegue.

GUTO – É que a gente não vê todo dia, né, Fessora? Não é tão comum para mim. Uma pena.

MIRIAM – Garoto esperto! Entra e se senta, não começamos ainda.

Sala riu. Guto entrou, alguns garotos zoaram ele. Eliane o fitou com o olhar encantada com seu gingado, sua maleabilidade, Fabiana corou-se. Eliane ficou achando que ele fosse sentar ao seu lado, num lugar vago, mas ele se sentou ao lado de Fabiana, instrumental crescente. Close na face de Eliane invejosa.

GUTO – Tá fugindo de mim, gatinha?

FABIANA – Quem tá afirmando isso, é você, não sou eu.

GUTO – Marrentinha como sempre.

MIRIAM – Sem mais delongas, vamos começar nossa aula, definindo neurônio. O que é um neurônio?

HELOÍSA – São células responsáveis pela transmissão de impulsos nervosos.

MIRIAM – Por enquanto está bom. Como são essas células?

Heloísa espera para ver se mais alguém responde. Ela então interrompe o silêncio.

HELOÍSA – Possuem três estruturas básicas: corpo celular, dendríto e axônio.

MIRIAM – Perfeito, teremos 3 aulas para estudar cada uma dessas características, não é a toa que vocês possuem 4 horas-aula da minha matéria.

Eliane e Viviane bufam entediadas.

MIRIAM – Vou escrever isso na lousa

Ela desce da mesa, sobe na cadeira de rodas e começa a escrever no quadro negro.

MIRIAM – Bom. Lembrando que esta semana ainda não vamos de tarde para o laboratório de neuroanato, só semana que vem. Vamos começar então falando dos três tipos de neurônio: Bipolar, Pseudounipolar e Multipolar. Alguém sabe me definir os três?

Ela se vira para os outros e finge não ver a mão de Heloísa levantada para ver se mais alguém sabe, quando não encontra, pisca meigamente para Heloísa que começa a falar.

CORTAR PARA:

CEN 17/SÃO PAULO/SANTO AMARO/BURACO QUENTE/CASA DE PÂMELA/MANHÃ

Bernardo estaciona seu conversível. Ângela percebe um movimentação estranha e constata ser Bernardo.

ÂNGELA – Parou um carrão em frente casa!

PAMELA – Ele aqui? Mas não combinamos de nos encontrarmos na mansão?

ÂNGELA – Mansão?

Pâmela abriu a porta para Bernardo que entrou.

BERNARDO – Olá.

Ele cumprimentou timidamente Ângela.

PAMELA – Essa é minha, mãe. Ângela.

BERNARDO – Prazer, Bernardo.

ÂNGELA – Quem é esse cara, PÂMELA DE JESUS?

PAMELA – Um amigo, vamos para o meu quarto, a gente tem mais privacidade.

BERNARDO – Por favor, com licença, dona Ângela.

E eles entraram no quarto dela. Ângela ficou na porta do lado de fora a escutar.

QUARTO DE PÂMELA

PAMELA – Pensei que tínhamos marcado na mansão!

BERNARDO – Eu não marquei nada com você, Mateus roubou meu celular, ele queria marcar um encontro com você para descobrir quem era o nickname: Minha Princesa.

PAMELA – Então é assim que estou salva no seu celular?

BERNARDO – Sim.

Ela o rouba um beijo molhado.

PAMELA – Bom saber disso. Espero que assuma a sua paternidade também como prova de amor daqui há alguns meses.

BERNARDO – Nós já conversamos sobre isso, não tem jeito. Posso te ajudar financeiramente.

PAMELA(incisiva)– Com quanto?

BERNARDO – Um salário!

PAMELA – UM SALÁRIO?

Do lado de fora, Ângela fica revoltada. Big-close-up.

CENA 16/IMAGENS AÉREAS DE SÃO PAULO/TARDE

Imagens de prédios de São Paulo. Avenidas Principais. Indicando que entardeceu.

CENA 17/MAUÃ/RODOVIA MOVIMENTADA/TARDE

Vitor sofre atrás de uma moita num canteiro, consegue esconder a parte da frente, mas alguns carros que passam atrás buzinam ridicularizando ele.

VITOR – Malditos! Desgraçados! Como vou para casa assim?

Ele estava com hematomas pelo corpo. Um casal de velhinhos que passavam se compadece e para o carro.

IDOSA – Hey, menino.

Vitor se vira esperançoso.

VITOR – Oi!

IDOSA – O que aconteceu?

VITOR – Armaram para mim, roubaram minha roupa.

IDOSA – Entra aqui, vem, te levamos até minha casa, te ajudamos.

Vitor sorri.

VITOR – Obrigado.

CORTAR PARA:

CENA 17/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/ENFERMARIA DE NEURO/TARDE

Heloísa e os outros alunos se encontram na enfermaria para visitar Goram que se recupera do atropelamento. Rita termina de avaliar a escala de coma de Glasgow.

RITA – Abertura ocular espontânea. Orientado quanto a resposta verbal. Obedece a comandos quanto a resposta motora. 14 pontos. Está perfeitamente bem.

Goram sorri para ela. Heloísa puxa assunto.

HELOÍSA – Ele poderá ter alta ainda hoje?

RITA – Vou deixa-lo em observação ainda esta noite, mas amanhã de acordo com o resultado da tomografia e sem sinais clínicos, poderá sim.

GORAM – Égua! Não sabia que vocês estavam planejando me tesá. Meu braço na Tipoia, com certeza, não seria como eu jemotará que me vissem.

RITA – Vaidoso…

GUTO – A gente não liga não, irmão, ficamos preocupados porque você não foi a aula e sentimos falta do crânio da sala.

FABIANA – Com certeza, mas a Heloísa respondeu por você, manjava tudo na aula de neuroanato.

E a jovem corou. Guto e Fabiana trocaram olhares.

SUZY – Lacrou mesmo.

GORAM – Ani, vocês já tiveram neuroanato? Goram não queria ter perdido, é uma matéria que anseio muito em ter na faculdade.

RITA (entusiasmada) – Pensa em se especializar em que área, querido, não vai me dizer que neuro também?

Ele acena positivo. Ela vibra. Heloísa se incomoda um pouco.

ANDRÉ – Vai ser um excelente neuro, igual a Doutora Rita!

RITA – Que isso, sou tudo isso não.

ANDRÉ – Não é o que falam pela facul, você tem uma linda fama.

GORAM – Égua! Nossa gente, mas estamos falando tanto de mona, vamos falar de situações mais leves, não conheço quase nada de pee, que time vocês torcem?

Rita recebe uma ligação da recepção. Instrumental de suspense.

RITA – Heloísa, seu irmão está lá fora do hospital, ele precisa falar com você.

HELOÍSA – Meu irmão? Quer falar comigo? Pera aí, gente dá licença.

Goram se surpreende com a saída repentina dela.

EXTERIOR DO HOSPITAL ORLANDO MOÇA

HELOÍSA – Que surpresa boa! Tá tudo bem? Do jeito que a recepcionista falou, parecia que estava acontecendo alguma coisa. Agora que vi a mensagem no seu celular.

BERNARDO – Aconteceu sim, vou precisar muito da sua ajuda.

CLOSE ALTERNADO. FACE DELE NECESSITADO. FACE DELA PREOCUPADA.

CENA 18/SÃO PAULO/MINHOCÃO/EDIFÍCIO MARIAN/APARTAMENTO 74/ TARDE

Guilherme abriu a porta para Cacau.

CACAU – Você me deixou preocupada em não querer adiantar o assunto pelo telefone.

GUILHERME – Eu prefiro dizer essas coisas, pessoalmente, Cacau. Voltei depois de anos no Paraguai, os negócios não deram certo por lá.

CACAU – Você também vendia bicho exótico!

GUILHERME – Isso não vem ao caso, eu não te contei toda a verdade quando nos encontramos nestes dias, mas o motivo de querer fazer as pazes com o passado, não é apenas porque me arrependi de tudo que fiz a você e o quanto ausente fui quanto pai para Fabiana, mas porque tenho pouco tempo de vida!

CLOSE-UP em Cacau. Instrumental explosivo.

CACAU – O Quê?

GUILHERME – Eu tenho câncer de cabeça de pâncreas.

CORTAR PARA:

CENA 19/SÃO PAULO/IMAGENS AÉREAS/NOITE

Imagens de carros na rodovia. Avenida Paulista de Noite. Praça Roosevelt. Holofotes em Prédios. Baterias de escola de Samba treinando nos clubes. Anoitece.

CENA 20/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/ORTOPEDIA/NOITE

Suzy estranha Heloísa não ter respondido sua mensagem. PREOCUPADA.

SARA – Suzy! Você prestou atenção no que eu falei?

SUZY – Não professora, me desculpa, tava pensando na saída repentina da minha amiga. Mas agora, voltei.

SARA – Tudo bem, mas fica aqui comigo. Então o resultado do coprocultura apontou o quê?

ALUNA 1 – Estranhamente Salmonella enteridis.

ALUNO 2 – Isso casa com a tetraciclina ministrada contra a sepse.

SARA – Bingo! O que uma maionese caseira não pode causar?

ALUNO 1 – Na história clínica do paciente, na alimentação ele admitiu que comia muito fast-food em trailers perto de casa. Poderia ter se infectado num deles.

SARA – Perfeito.

ALUNA 1 – Mas algo me intriga… e a hiperceratose? Não há nenhum achado na fisiopatologia da doença que encaminhasse para isso.

SARA – E então, como vamos ligar ao fato? Suzy? Você quer falar.

SUZY – Oi gente, tudo bem? Professora Rita já foi e nem avisou, mas eu sou do primeiro semestre, então não sei de muita coisa, por favor não riem de mim, mas eu pesquisei a hiperceratose, apareceu algumas doenças autoimunes que nem sei pronunciar o nome.

ALUNO 1 – Ele teve também osteoporose.

SARA – Enquanto Suzy cita alguns nomes, vou projetar aqui na tela, um detalhe importante que deixaram de perceber.

SUZY – Ceratodermia palmoplantar, Síndrome de Papillon-Levefré, Unna-Thost,…

SARA- Suzy, temos um doença rara e reumatóide. 

Ela sorriu.

ALUNA 1 – Como assim?

SARA – Vocês se esqueceram de um detalhe muito importante. Alguém fez exame da conjuntiva ocular do paciente?

Eles negaram.

ALUNO 2 – Acho que não, professora.

SARA – Pois comparando a foto dele anteriormente com uma pessoa hígida, o que temos na imagem?

Instrumental explosivo.

ALUNA 1 – Meu Deus! Está inflamada. Como não vimos isso?

SARA – O paciente tem uma doença rara, o que comprovamos no de teste de histocompatibilidade antigênica para B-27.

ALUNO 1 – Mas B-27 não é MHC de classe 1? Então foi uma infecção viral que promoveu essa resposta?

SARA – Todas as células nucleadas possuem MHC Classe 1. Ele foi infectado pela Salmonella,  provocando a uma resposta imunológica descontrolada por ele ter essa predisposição genética, levando a hiperceratose, a psoríase, osteoporose e a inflamação da conjuntiva. 

ALUNA 2 – Ual! Que caso top!

SUZY – Mas afinal qual o nome da doença rara que ele tem?

SARA(Riu)- Ele tem Síndrome de Reiter!Atualmente chamada de artrite reativa.

CLOSE ALTERNADO NO ROSTO DOS ESTUDANTES. FECHAR EM SUZY.

CENA 21/SÃO PAULO/TATUAPÉ/HOSPITAL ORLANDO MOÇA/ESTACIONAMENTO/NOITE

Rita está encaminhando para seu carro quando três caras mascarados a abordam.

HOMEM 1 – TU É TRAVECO?

Rita olhou assustada.

HOMEM 2 – Responde, a Doutora tem um pau no meio das pernas?

RITA – ME deixe em paz, o que isso? Me larguem!

Eles a jogam no chão.

HOMEM 1 – Sabe o que a gente faz com traveco, a gente bate, bate muito, porque vocês pensam que são mulher e estragam nossas famílias

Rita começa a gritar desesperada, eles a espancam furiosamente.

CORTAR PARA:

CENA 22/SÃO PAULO/JD AMÉRICA/MANSÃO DOS MOÇA/SALA DE ESTAR/NOITE

Foco na BIG-CLOSE-UP mão de Mateus com um copo de Whisky na mão. O resto desembaça com o tintilar da campainha.

MATEUS – CATARINA! O PORTÃO!

Ela chega apressada.

CATARINA – Já estou indo, seu Mateus.

Ela some pela porta da frente, deixando-a entreaberta.

CAM SUBJETIVA. Mostrar alguém caminhando para o interior da mansão. Na escada, Mateus desce com Bernardo com uma face surpresa.

MATEUS – E então, xeque-mate nos pombinhos? Você não vai me apresentar a sua amante, amor?

Bernardo segura o riso. Close em Mateus satisfeito. Fechar na pessoa que chegou encenando a amante, era ninguém menos que Heloísa bem vestida.

FADE OUT

CONTINUA…

 

POSTADO POR

Charlotte Marx

Charlotte Marx

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