Eterno canto: Capítulo 28 – Renascer

 

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

Classificação indicativa

 

 

Cristiano sai correndo do consultório.

– Socorro! Socorro! Alguém chama a ambulância! Lucas está morrendo!

Os seguranças se desesperam e pedem o resgate, enquanto o advogado volta para sala e tenta reanimar o amado.

– Por favor, volta, fica comigo! Você não pode ir, não pode!

Lembrou-se de quando se conheceram há cinco anos naquele carrossel em um parque temático em Igaratá. Lucas, com um chapeuzinho moderno fotografando suas amigas. Posso ver as imagens? Tenho certeza que ficaram belas! Lucas respondeu que sim e acabaram se engraçando e indo comer pipoca, depois começou a chover e eles correram para uma casa de vidro para não se molharem, onde encurralados pelo temporal, acabaram ficando. Amor a primeira vista? Talvez. Não passou duas semanas para engatarem namoro. E agora nenhum batimento cardíaco audível, um suspiro sequer, ele tinha ido embora, embora para sempre.

A cena escurece com a chegada dos enfermeiros ao redor do corpo.

***

Sam chega a um pub com o namorado, eles pedem bebidas no balcão e enquanto aguardam resolvem se beijar. Em dado momento, porém, Robson revela sua vontade em dançar, Sam diz que não quer e acaba deixando o outro vulnerável a paqueras, principalmente de certa mulher: Luana. Mas o mauricinho nada percebe, pois o ambiente está lotado.

***

Débora está preocupada com o irmão quando Jesus chega acompanhado do cabeleireiro que ela escolheu no catálogo.

– Pronta, mocinha, para se desfazer de suas madeixas?

Ela sorri tortamente.

– Prontíssima!

***

Elvira está terminando de folhear sua revista de moda na cama, quando o telefone do quarto toca. Pedro que se barbeava sem camisa no banheiro precipita para atender, mas ela é mais rápida.

– Pode deixar que eu atendo, meu amor!

Cristiano a revela a trágica notícia.

– Acabaram de confirmar, sogra, nosso Lucas teve uma parada cardíaca e não resistiu.

A mulher solta um grito horrorizada e desmaia. Pedro se desespera e recupera o telefone.

– Vira, Vira! Alô? Quem está falando? Cristiano o que aconteceu? O Quê?! Não pode ser, cara, ele nunca teve problema com nada, isso não pode ser verdade, meu filho, meu filho tá morto, é isso?

***

Paçoca chega a um hotel simples e paga a semana adiantado, recebe a chave de seu quarto no primeiro andar e fecha a porta. De frente para janela, ele observa o orfanato da cidade do outro lado da rua.

– É diacho de prédio velho! Amanhã vamos descobrir o que você fez com minha garota!

E puxa um cigarro, fumando.

***

Sam bate na mesa do balcão totalmente embriagado.

– Põe mais tequila, que eu estou mandando! Bota! Porra! Isso mesmo! Enche até o bocal! Bom garoto!

Hector e Fátima chegam ao pub e no meio da multidão que está dançando, eles avistam Luana engatada no pescoço de Robson que embriagado parece deixar se levar pelas carícias da menina. Hector comenta com Fátima.

– Sam não vai gostar nada de saber disso!

Fátima estranha.

– Com certeza. Mas onde é que ele está? Não deixaria seu boy magia solto por aí, é ciumento demais para isso. Ah lá, ele lá!

Eles se esgueiram até o balcão e o vilão não para de rir pedindo mais e mais bebida. Fátima o impede, retirando seu copo.

– Chega né? Parou! Você nunca foi de beber tanto assim, o que aconteceu bicha?

Sam dispara beberrão.

– A culpa disso tudo… é da…quele… Ingrato do meu namorado me deixou plant… ado aqui, mas deixa estar, vou fazer greve de sexo, quero…. só ver!

Hector o segura quando o vilão joga o corpo no chão.

– Que exemplo, hein? Van Gogh! Quando você está bebendo todas, o seu futuro marido está te traindo com a vaquinha da prima dele.

Sam abre os olhos.

– O quê? Mas eu mato aque… la desgraçada,eu ma…to!

Ele tenta sair, mas novamente cai no chão. Os dois o devolvem para o banco. Fátima é dura com ele.

– Desse jeito, você não vai chegar a lugar nenhum! Acha mesmo que terá forças para impedir a vadia?Agir de impulsividade só vai servir de motivo de chacota, está praticamente o colégio inteiro aqui.

Sam chora fora de controle.

– Mas você…quer que…eu faça o quê? Para de ser… má…comigo!

Hector continua.

– Engole esse choro! Você tem uma reputação a zelar, não pode entregar tudo de mão beijada para a ariranha! Tenta ficar calmo. Vem se apóie em mim, vamos te levar para a casa.

Sam rebate.

– Mas… não posso…deixá-lo…aqui…com aquela…baranga!

Fátima explica.

– Hector vai te levar para a casa e eu prometo que vou dar uma bronca em Robson! Agora vai!

Hector troca olhares maledicentes com ela. Quem ela acha que é para ficar com a melhor parte? Carregou o vilão para fora do estabelecimento, enquanto ela já com seu refresco nas mãos, solta o rabo de cavalo.

– Que avisar que nada! Acabar com a festa? Nem pensar! Eu vou é curtir.

E vai para a pista, traindo a proposta de ajudar o amigo.

***

Pedro chega ao necrotério totalmente transtornado com aquela notícia e encontra Cristiano na recepção, eles se abraçam.

– Eu sinto muito, seu Pedro, eu fiz de tudo, eles fizeram de tudo para rever a situação, mas já era tarde, ele morreu em meus braços, eu vi o seu último olhar.

Pedro ainda não entende.

– Como isso foi acontecer, meu Deus? Ele tinha uma saúde de ferro! Como nossa vida é pequena, cara. Basta estarmos vivos para morrermos. E que morte idiota, uma mísera bradicardia levou meu filho! Ainda não dá para acreditar!

Cristiano voltou a abraçá-lo.

– Não podemos escolher tudo no nosso destino. Ele havia terminado comigo horas antes, lá na casa do senhor, quando fui repreendê-lo pelo tapa na mãe e não tive chance de reverter essa situação, a dor de ser rejeitado, de não poder lutar por ele, vai para sempre me incomodar. Onde está dona Elvira?

Pedro explica.

– Ela ficou chocada com a revelação, não estava preparada para essa notícia, acabou desmaiando, mas quando saí de casa, ela já tinha voltado a si, deixe-as com os empregados e com a equipe do doutor Jacob, nosso médico de família.

Cristiano se sente culpado.

– Me perdoa, eu não queria…

Pedro o tranqüiliza.

– Não se preocupe, meu rapaz, sei que não foi sua intenção, bom, se não se incomoda, vou entrar para assinar os papéis da liberação do corpo e pagar um bom tanatopraxista para dar-lhe um banho, mas antes queria tanto ver meu filho.

Um funcionário do IML o acompanha até a sala dos corpos, o odor de formol ressaca suas narinas, o cenário é mais gélido do que a própria solidão. Caminha por entre as macas dos cadáveres tampadas com lençóis brancos até ver o profissional parar em frente uma e puxar o tecido. Assustou-se quando o viu.

***

NA MANHÃ SEGUINTE…

 

Fernanda Van Gogh sai cedo de casa para o salão e seu filho do meio: Sam, ainda encontra-se dormindo profundo após a bebedeira da noite anterior. Sua caçula, porém não, ela observa a mãe bater a porta da sala, no alto da escada e verifica se o quarto de seu irmão está trancado, ela retira sua blusa e fica apenas de sutiã, empurrando a porta do quarto de seu pai: Marcos, o qual ainda está recuperando as energias no último sono, depois de voltar de Brasília, após uma reunião com o presidente da república, afinal ele era um de seus ministros. Ela terminou de tirar a parte de baixo e se adentrou por entre as cobertas, onde só foi possível sentir aquelas mãos peludas a envolvendo e o abraço de conchinha que seu pai lhe dera. Ele cochichou abrindo os olhos de leve.

– Achei que não vinha mais… Demorou tanto!

Ela retrucou, arrepiada, quando ele fungou em sua orelha.

– Jamais eu te deixaria papai. Não é por que agora tenho 21 anos que vou te deixar! Nossa história é de anos adentro! Vivemos tanta coisa, você me fez descobrir um lado meu antes desconhecido, um lado mais selvagem.

O cinqüentão ri e vira para cima dela, beijando-a com gosto.

***

Paçoca chega ao orfanato de Santa Helena e procura obter informações sobre o paradeiro dos irmãos Carvalho, a atendente é enfática.

– Infelizmente, nós não podemos fornecer dados sobre nossos clientes antigos. Aqui é uma instituição pública, é nosso dever garantir sigilo! Sinto muito, mas não poderei ajudá-lo.

O ex-presidiário, no entanto, não deixa estar, usa seus truques de malandro e galanteia a coitada, dando-lhe uns pegas despercebidos, a mulher se entrega de corpo e alma, fazia tempo que não era cantada. Passado alguns minutos, ele retoma a pergunta.

– E aí? Vai poder me ajudar agora?

Ela o encara meio sem jeito.

– Não que eu deva fazer isso, mas depois do que me proporcionou, não sou mulher de deixar os homens que me servem na mão. Sabe o nome dos dois completos?

Paçoca agradece.

– Sei. Lucas Gabriel Carvalho e Débora Melindra Carvalho.

A moça procura nos arquivos antigos, mas nada encontra.

– Não! Tem certeza que são esses nome? Por que não há nada no sistema que conste isso!

Paçoca se frusta.

– Tenho certeza sim! Talvez isso te ajude: foi no dia 21 de Fevereiro de 2017 que Matilde, a babá que roubou a herança da tia deles deveria ter deixado-os aqui.

A atendente novamente procura no banco de dados e nada encontra.

– Ao que me consta nesse dia, nossa instituição estava com superlotação, quando isso acontece, não haveria como eles ficarem aqui, suspeito que ela deve tê-los levado para outro orfanato.

Bruno Paçoca a questiona.

– E você não tem idéia onde possa ser essa outra instituição? Algo que a levasse a partir daqui, sei lá, a tomar essa atitude?

A mulher nega. Ele a agradece e sai, repondo o boné no cabelo. O sol de rachar queima seu pescoço, triste, ele caminha pelas ruas da cidadezinha.

***

Cristiano chega em casa melancólico e Gumercinda aparece com uma travessa de lasanha que acabara de assar.

– Fiz para você, meu menino. Levanta esse astral, pelo amor de Deus, deveria levantar as mãos para o céu pelo que aconteceu!  Comemorar!

O homem fica incrédulo com o que acabara de ouvir.

– Comemorar? Eu ouvi direito, a senhora disse comemorar?

Ela fica amedrontada com a reação do rapaz e evita revidar. Ele, no entanto, não volta atrás.

– Eu não estou acreditando numa coisa dessas. Como a senhora pode-se dizer uma crente exemplar e dizer uma barbaridade dessas?! O fato da senhora nunca ter gostado dele não te dá o direito de tripudiar de um momento tão delicado como esse. Eu, Dona Elvira, Seu Pedro, a essa altura a Débora já deve estar sabendo, todos nós estamos sofrendo muito pela sua morte, ele era uma pessoa, por mais obcecado que fosse, honesta, justa, carinhosa, dedicada a tudo que faz. Como pode ser tão mesquinha e até nessas horas não nos respeitar?!

Gumercinda fica nervosa, uma veia realça em sua cabeça.

– Que jeito é esse de falar comigo?  Eu sou sua mãe! Eu nunca escondi que detestava aquele garoto, um demônio em pessoa, nunca serviu para você, álias eu nunca achei que algum homem fosse servir! Você tinha experimentar uma mulher, fazer dela sua bonequinha, sua mulherzinha! E não se bandear com um monte de viado hemorrágico e infestado de Aids! Inclusive, acho melhor você fazer um exame, estou muito preocupada com a sua saúde!

Cristiano a empurra no sofá, explodindo.

– Você ficou maluca? É? Como se atreve a falar disso de mim e do Lucas. Ele era uma pessoa diferente desses homossexuais que só pensam em sexo, ele queria construir uma família, adotar, nunca ouse compará-lo com essa escória! Eu já disse milhões de vezes para a senhora, eu gosto de homem, nasci assim, caralho. Eu tenho 27 anos, já sei muito bem o que quero da minha vida!

A velhaca rebate.

– Sabe nada! Não passa de um garoto mimado! Eu confesso, meu filho, eu errei e muito na sua educação, deveria ter sido mais severa e te posto para trabalhar desde os 14 anos, hoje em dia, pensaria duas vezes antes de ter essas escolhas erradas. Eu aceitei com muita relutância a sua opção, eu deveria ter te posto para fora da minha casa quando soube, mas meu coração de mãe falou mais alto. Agora você trate de me respeitar, garoto, se hoje chegou aonde chegou é por que eu batalhei muito.

Cristiano chorou.

– Como você é difícil! Eu vim para cá achando que teria um ombro amigo, um colo de mãe que me garantisse proteção num momento tão triste como esse e assim que você me recebe? Não tem problema, vou pegar as últimas peças de roupas que ainda me prendem a essa casa, estou indo embora.

Gumercinda vai atrás,tentando impedi-lo de passar.

– Mas não vai mesmo!

Ele a empurra com desprezo no chão, ela bate a cabeça na parede e começa a sofrer com sua pressão alta, mas ele não liga, frio quando contrariado, o advogado recolhe seus trajes e a deixa a sós, enquanto ela passa mal, balançando sua mão manchada de sol e queimada de sabão em pó, junto ao corpo suado.

 

MAIS TARDE…

 

Fátima limpa o excesso de protetor na face do amigo.

– Pronto para entrar em ação?

Ele devolve com sorriso aos dois. Diz pausadamente.

– Mas Claro! – Arqueando a sobrancelha.

E se vira magistralmente, apertando o botão da campainha da casa de Marília, a senhora que adotou Luana e Robson.

– Você tem certeza, né Fátima? Que o meu príncipe não está em casa! Por que se tiver, eu torço seu pescoço!

Ela confirma.

– Certeza absoluta! Queridinho! Se não acredita, veja com seus próprios olhos.

Luana atende a contragosto.

– Sam? Fátima? Hector? Vocês por aqui? Que milagre, hein! Se vieram buscar Robson, ele não está!

O vilão se vira, bufando de raiva para seus amigos que fazem sinal para ele continuar com o plano. Ele se volta para a menina, esboçando um sorriso e engrossando a voz.

– Na verdade o que me trouxe aqui hoje é você, Luana!

Ela desconfia.

– Eu?

Ele confirma.

– Quero te revelar algo que há muito tempo está travado aqui na minha garganta!

Luana se irrita.

– Olha aqui, Sam Van Merda! Se você veio aqui para tentar me dizer para eu me afastar de…

Sam a abraça.

– Não é isso, gatinha. Quero-te falar sobre outra coisa! Posso entrar?

Ela fica surpreendida por aquele gesto e abre a porta.

– Tudo bem! Podem entrar!

O vilão sorri.

– Ah, eles não vão entrar! Por mais que saibam do assunto, eu não quero envolvê-los em algo tão íntimo.

Luana engole seco. Do que ele estaria falando? Preocupou-se por um momento, mas depois voltou atrás, deveria ser algo importante. Fechou a porta com sua passagem.

***

Paçoca está caminhando pela rua, quando chega a sua antiga moradia: debaixo de uma ponte. Ele se lembra dos bons momentos que passara ali e sobe a plataforma, surpreendendo ao ver que muitos de seus pertences ainda foram mantidos.

– Posso saber man, o que você quer aqui no nosso terreno?

Ele se vira assustado e reconhece a dupla armada na hora, eram respectivamente: Juca, Danilo, seus antigos comparsas do tráfico.

– Não estão me reconhecendo?

Eles olharam um segundo tentando identificar.

– Sou eu, amigos, Bruno Paçoca!

A expressão dos dois caiu em uma alegre nostalgia, correram para abraçá-lo, até Danilo que fazia a pose de durão, não conseguiu conter as lágrimas.

Já estavam em uma rodinha há meia-hora proseando quando Paçoca perguntou.

– Vocês saberiam me dizer onde aquela diaba que nos denunciou mora?

Juca questionou.

– Da Família Bolonha?

Paçoca negou.

– A outra!

Danilo

– Acho que sabemos sim. Matilde, o nome da vadia, não é? Se for quem eu estou pensando herdou a casa da Dorotéia, morta pela mãe dos meninos, álias por onde eles andam?

Paçoca

– É isso que eu quero descobrir, cabra. Reencontrar minha princesa!

Juca riu.

– Nunca esqueceu Débora, não é?

Bruno completou.

– Nunca esqueci e nunca vou esquecer. É por isso que quero descobrir onde ela está, tenho certeza que ainda nos amamos.

Danilo desconfia.

– E se ela estiver com outro e se não querer mais nada contigo?

Paçoca estremece.

– Nem fale uma porcaria dessas! Ela há de querer ficar comigo, sou o homem dela. Agora deixem de lero-lero e me passem o endereço.

Os outros riram, o traficante continuava o marrento de sempre!

***

Sam senta-se no sofá todo despojado. Luana volta da cozinha trazendo suco e biscoitos.

– Temos nossas diferenças! Mas fui muito bem educada!

Ele agradece e acaba pegando em sua mão, constata a carência da menina, seu plano seria perfeito.

– Desculpe, eu não…

Luana fica sem graça.

– Tudo bem! Esquece.

Sam dispara, sem muita paciência.

– Acho melhor não esquecermos. Eu não sei por quanto tempo vou controlar minhas emoções. O que me trouxe aqui Luana foi uma revelação.

A menina estranha sentando no sofá.

– Mas que tipo de revelação?

Ele conta.

– Uma revelação que vai mudar as ideais que tem sobre mim e torço muito para que isso aconteça.

– Não estou te entendendo, Sam!

– Eu explico. Nesse tempo que namorei o Robson, eu nunca estava satisfeito, para te falar a verdade com nenhum homem, eu nunca senti (em suas costas, ele cruza os dedos), só que quando eu te vi algo brilhou de mim, tanto que todas as vezes que te destratei foi uma tentativa de afastar esse sentimento, de negá-lo, mas infelizmente ele foi maior, maior que tudo e é por isso, minha linda que hoje venho aqui dizer que sou completamente apaixonado por você.

Luana fica mexida com aqueles dizeres. Ele aproveita e rouba-lhe um beijo.

***

Paçoca é recebido por Macabeia que o leva até a sala de visitas. No caminho ele percebe muitos quadros na parede e em quase todos um menino, depois um jovem e agora um homem se encontra. Quando ela fecha a saleta, ele questiona.

– Desculpe a intromissão, mas quem era aquele menino nas fotos?

Macabeia sorri.

– Meu filho de criação. Iago por assim dizer.

Paçoca continua.

– Ele não é da senhora? Digo propriamente do seu ventre!

Ela nega aos risos.

– Eu o peguei para criar, depois que Dorotéia morreu e Matilde sumiu no mundo! Não podia deixar um menino de seis anos largado pelos cantos e o orfanato da cidade tem métodos muito rígidos para educar. Decidi entrar com a guarda e consegui adotá-lo.

– Ficou com a casa também?

– Na época ele era muito criança, alguém precisava administrar, depois que cresceu, resolveu me doar de próprio punho a residência. Hoje está fora do país, faz relações exteriores.

– Maneiro! Maneiro!  Bom desculpa as perguntas, eu te disse que vinha para cá por outro motivo.

Ela se senta oferecendo-o café, mas ele agradece.

– Pois então, o que quer saber sobre os irmãos Carvalho?

Ele revela.

– Quero saber para onde eles foram levados!

Macabeia fica curiosa.

– É algum parente, meio-irmão deles?

Paçoca nega.

– Eu fui namoradinho de infância de Débora!

A ex-empregada se felicita.

– Compreendo. E se separaram por quê?

Ele relata tudo o que aconteceu, a mulher fica horrorizada com a perversidade de Matilde.

– Nunca gostei dessa taturana destrambelhada! Sabia que estava metido em algum rolo! Ao que sei, eles foram levados para um reformatório em Manaus, mas o que eu pude perceber há alguns anos, em uma pesquisa pela internet, quando Iago perguntou sobre seus primos é que não existe mais, o colégio ao lado conhecido por Sonhos, adquiriu a outra propriedade e tornaram uma instituição única.

Paçoca se esperançou.

– Poderia me passar o endereço?

Ela sorriu.

– Mas Claro, suba comigo até o corredor do segundo andar, vou ligar o computador.

 

TRÊS DIAS MAIS TARDES…

 

Chega o grande dia do enterro de Lucas. Elvira, de óculos escuros devido às olheiras de sofrimento, caminha amparada pelo marido, o qual não consegue olhar para o caixão sendo carregado, estava totalmente apático.

– Você se lembra Pedro, se lembra quando ele nos viu pela primeira vez?

O empresário de laticínio confirma.

– Como poderia esquecer, Vira? Aquele olhar tímido, sofrido, que implorava por uma nova família.

– E pensar que ele nunca mais reencontrou aquele… Como ele me relatava? Senhor ladrão de livros! (riu encantada) Bateu um remorso de não tê-lo adotado também na época, era percebível, Pedro, o quanto ele estava feliz, nunca vi nosso filho tão feliz ao lado de um amor quanto naquela época. Nós arrancamos o direito dele de ser feliz, somos um carrasco!

O homem abraça mais forte a mulher.

– Nunca fizemos isso! De onde tirou essa idéia? O que poderíamos fazer? Não tínhamos condições de sustentar mais uma pessoa, na época eu nem tinha o laticínio, era supervisor de uma empreiteira daquele meu amigo, você se lembra?

– Otto Santiago, bons tempos. Não tínhamos tanto dinheiro, mas éramos muito mais felizes com pouco. Ai, Pedro, estamos a poucos metros do mausoléu de nossa família! Isso não pode estar acontecendo! É um pesadelo! Puxa a vida, ele ficou tão feliz quando nós demos aquele consultório para ele semana passada, iria ser um brilhante cardiologista! Oito anos, perdidos na vidinha dele! Eu ainda tento entender qual é a lógica das coisas serem assim!

– Já dizia Epicuro, minha cara, grande filósofo helenístico: a morte é meramente a separação dos átomos que nos compõe. Não anuncia castigos, recompensas, nada das punições infernais inventadas pela ignorância e por superstições. Eu entendo o quanto isso é difícil para nós, olhe só para Cristiano, o estado é comovente, realmente gostava muito de nosso filho, mas o que podemos fazer contra o imprevisível? Temos que estar sempre preparados para a morte é o único jeito de tentarmos entendermos tudo isso, fracionando o sofrimento para todos os dias de nossa vida! Lidando com as inseguranças, com as possíveis perdas.

– Pois eu tenho certeza que foi aquele maldito do Ezequiel, ele nunca prestou, tenho certeza que ficou incentivando nosso garoto a partir naquela loucura de investigar a morte do professor, fez-me brigar com meu filho, fê-lo me estapear e impediu-me de despedir dele. Foi ele, Pedro, ele matou o nosso menino, expondo-o a essas situações.

Ela começou a se retorcer em raiva.

– Calma Elvira, calma. Esse estresse todo não vai te fazer bem, tem diabetes! Se foi ele ou se não foi, isso não interessa. Nunca vamos ter essa resposta, a bradicardia poderia já estar lá há muito tempo. Você precisa se concentrar nos momentos bons, nas lembranças realmente importantes.

Ela limpou as lágrimas e o abraçou.

– Você está certo! Sabe que agora me lembrou de outra frase de Epicuro, ele dizendo que a amizade e a lealdade residem numa identidade de almas raramente encontrada! Nosso filho era tão bom, outro dia desses, Rogério, o diretor do hospital, veio me contar que um senhor apareceu para elogiá-lo por que ele tinha o ajudado a comprar os remédios e feito um cheque de cinqüenta mil! Quem hoje em dia faria um gesto nobre como esse? Ele não poderia ter partido, o mundo inteiro deveria ficar de luto, a sua mensagem de amor, de ternura, de igualdade vai ficar para sempre em nossos corações, pessoas que tivemos o privilégio de conhecê-lo. Por mais que eu não concordasse com seus ideais políticos, tenho que reconhecer que ele tinha uma caridade, uma humildade rara, jamais vista por aí. Eu o amo tanto, Pedro e para sempre amá-lo-ei.

Chegaram ao mausoléu da família Magro, Cristiano chorava de soluçar, todos o observavam com o coração partido. Jesus e Rogério abraçaram-se num gesto de amizade em um momento tão difícil. Ainda sem entender aquilo, Cristiano viu por um momento a alma alegre de Lucas mesclada ao ambiente, ainda de chapéu naquele parque, sorrindo para ele, a voz leve e afetiva do rapaz perecia ecoar no vazio de sua alma. Eu te amo Cristiano Altto! Aceito sim ser seu noivo! Caiu de joelhos próximo ao túmulo e o agarrou num ímpeto de desespero por perdê-lo para sempre.

– Fica comigo, Lucas! Fica comigo!

Elvira virou o rosto para o ombro do marido, não aguentava mais chorar. Jesus e Rogério tocaram no ombro do advogado.

Do lado de fora, ao longe, Ezequiel observava a multidão em volta do mausoléu.

 

MAIS TARDE…

 

Fátima e Hector abriram os olhos, quando Sam saiu de seu closet com um vestido vermelho-berrante de sua mãe, a maquiagem estava ainda mais forçada semelhante a uma boneca de porcelana.

– O que acharam? Diabólica?

E deu uma voltinha com o salto alto que também roubara. Fátima gritou.

– Divaaaaa!

Hector completou rindo.

– Megera de alto nível!

Sam ergueu seus olhos claros, num tom de metidez.

– Obrigado, amigos do meu coração. Adivinhem o motivo de toda essa comemoração? Tchan, tchan, tchan!

Fátima opinou.

– Finalmente largou o frouxo do Robson e conseguiu um marido rico!

Sam perdeu a paciência e a estapeou. Fátima pôs a mão no rosto.

– Aiiinhêeeeeee! Machucou-me, atrevida!

O vilão confirmou.

– É para machucar mesmo. Onde já se viu falar uma barbaridade dessas? Pirou na batatinha? Querida, escute uma coisa, a possibilidade de o Robson deixar a minha vida é zero porcento! Nunca abriria mão do meu bofe! Nós nos amamos de verdade! Coisa que você não deve saber, afinal nunca teve algum macho no teu cangote todas às noites, é uma virgem invejosa! (a menina começou a chorar). Engole esse choro, morsa! Isso não significa que as coisas não podem mudar? É só você ter mais brio, mais auto-estima como muá aqui! Agora sem mais delongas, vamos direto ao ponto, a celebração se dá pelo sucesso do nosso plano em afastar aquela maníaca da vida do meu namorado! Vejam as mensagens no meu whats, que a víbora mandou para mim, após o beijo e minha declaração no dia que fomos visitá-la. Além dela não comentar nada com o Rob, como suspeitávamos, ela quer me ver de novo! Pode ser mais maravilhoso?

Eles leram os recados no celular do bandido e bateram palmas. Sam fez reverências.

– Obrigado! Muito Obrigado! Nota dez em psicopatia! Vem ni mim Belzebu!

***

O cemitério já havia fechado quando Lucas abriu os olhos. O efeito do remédio realmente havia vingado. Percebeu ao tatear que se encontrava numa espécie de caixão, felicitou pelo sucesso do plano. Pôs a mão no teto, tentando abri-lo, mas não conseguiu, forçou com as duas, mas não obteve êxito. Bateu, esmurrou, nada, nada! Começou a se desesperar. A falta de ar começava a tomar conta. Cambeteou tentando abrir. Pensou consigo: Vou morrer sufocado! Socorro! Socorro!

O ar já não era mais suficiente, tossiu, fungou o resquício de oxigênio que sobrara. O nível de gás carbônico começou a se acumular no organismo, hipoventilar suas artérias. Jogou o corpo para cima, tentando arrombar a porta do caixão, mas não conseguia, estava ficando fraco, tonto. Gritou apavorado! Quando a porta foi aberta! Era Ezequiel com um pé de cabra nas mãos. Abraçou o amigo, recuperando o fôlego e jogou-se ao chão do mausoléu sentindo-se melhor.

– Onde você estava? Quase morri!

Ezequiel o mostra a nova identidade.

– Desculpe não deu para chegar antes, o coveiro estava fazendo a vistoria, próximo. E então pronto para fugir?

O menino tomou a identidade das mãos do comparsa, olhou-a ainda suado pelo momento de terror. Levantou-se cambaleante, sentou-se no túmulo.

– Quem disse que vou fugir? Lucas Carvalho está morto! A partir de agora me chamo Roberto Camargo, o homem que vai fazer justiça pela morte do próprio pai! Acabar de vez com essa doença chamada capitalismo!

Ezequiel sorriu. Congela no rosto obcecado do anti-heroíno.

 

CONTINUA…-” ”>-‘.’ ”>

clique na imagem para comprar
clique na imagem para comprar
padrao


Este conteúdo pertence ao seu respectivo autor e sua exposição está autorizada apenas para a Cyber TV.

COMPARTILHE COM SEUS AMIGOS

Share on facebook
Facebook
Share on twitter
Twitter
Share on google
Google+
Share on tumblr
Tumblr

LEIA TAMBÉM