Eterno canto: Capítulo 32 – Obsessão

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

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Sam desvia o olhar para o lado, não agüentava encarar seu amado depois do que ele acabara de te dizer.

– Como foi que disse, Robson?

Roberto (Lucas) fez um sinal afirmativo com a cabeça e o flautista repetiu.

– Eu sinto muito Sam, não queria te magoar, mas não dá mais para mim, eu e Roberto nos amamos.

O vilão pega um vaso em cima da mesa da sala e joga contra parede, estilhaçando-o.

– Isso não pode estar acontecendo! Eu prometi a mim mesmo que jamais permitiria passar por isso de novo e aqui estou eu, sendo enjeitado pelo homem que eu escolhi para minha vida.

Ele levanta a face encarando-o em meio a lágrimas.

– Que palhaçada é essa em dizer que não queria me magoar, é óbvio que me magoou. Robson, você não conhece essa taturana há um dia, como pode me dizer que o ama?

Robson tenta explicar.

– É complicado justificar os sentimentos, Sam. Nós apenas sentimo-los sem alguma razão para tal. Não controlamos nossas emoções.

Sam enxuga as lágrimas pelos braços.

– É… Você está certo, tanto não controlamos nossas emoções, que eu vou acabar com a raça dessa besta quadrada! Ladra de homens!

E pula em cima de Roberto (Lucas) o derrubando no chão, ele o estapeia com vigor.

– Eu te odeio sua serpente peçonhenta, sua polva de tentáculos esmagadores de tenras relações, bicha eqüina agourenta!

Roberto tentou se desvencilhar. Sam começa a bater a cabeça do rival incessantemente na parede.

– Chegou o teu fim, seu queimadinho de sol!

Referindo-se ao bronzeado artificial que Lucas adotara para reforçar sua nova identidade. Robson empurrou o canibal para longe, mas Roberto fez questão de devolver-lhe os tapas.

– Desgraçado! A gente aqui tentando ser civilizado e você abaixa o nível desse jeito! Eu não te dei o direito de me tocar, tá ouvindo?

Sam gritava.

– Você está dentro da minha casa, sua ratazana! Eu faço o que eu quiser aqui dentro!

Robson tenta afastar o amado que reluta e dá uma ajoelhada na cabeça do vilão.

– Pois a mim você não faz o que bem quiser, coisa nenhuma!

O mauricinho percebe que o golpe arrancara-lhe sangue do nariz e se desespera.

– Seu selvagem! Olha o que fez com o meu lindo adorado nariz europeu! É a inveja por ter uma fossa dessas no meio da cara, não é? Pois isso não vai ficar assim! Eu vou te mostrar quem é Sam Van Gogh de verdade! Tome!

E o empurra contra um armário de pratos, as porcelanas caem sobre o mocinho e alguns cacos cortam-lhe a face, os braços. Robson se desespera, enquanto Sam gargalha de felicidade. Nesse instante, a empregada da casa que estava na cozinha chega correndo a sala, atordoada com a confusão.

– Minha nossa senhora do Perpétuo do Socorro! O que está havendo aqui, bicinho? Misericórdia! O rapaz tá sangrando. O que você fez Sam?  Tu não presta mesmo, né, sua peste malcriada? Se sua mãe não está aqui para te dar modos, eu estou!

Sam fica embasbacado com a audácia da empregada que avança para cima dele.

– Mas o que significa isso? Sua baiana de beira de estrada! Onde pensa que está para ir me agredindo desse jeito? No circo da tua casa? Olha que eu faço com você!

E torce o braço da mulher que urra de dor. Sam se felicita.

– Vou rodá-la la bayana! Até quebrar seus ossos de tanto distender!

Dalila desce as escadas correndo.

– Larga a Filomena! Ela não te fez nada!

Sam se enfurece.

– Então você estava ouvindo a conversa atrás da porta, não é sua enxerida?! Pois eu não sei por que eu não pego um caco de vidro no chão e corto toda essa sua cara de mexeriqueira. Leva essa sua empregadinha com você! Desaparece com ela daqui!

E joga com um safanão a mulher para cima da irmã. Mal dá tempo dele se virar, quando Roberto (Lucas) se recupera do susto e parte para cima dele, pegando pelos cabelos.

– Eu vou te mostrar! Seu filho da mãe! Uma lição que a madame aí, jamais você vai esquecer na sua vida!

– Para onde você está me levando? Seu esquerdopata de quinta! Me larga sua fêmea proletária! Suburbano cheira-cola!

– Sou sim de esquerda com muito orgulho, prefiro defender essa bandeira, a ser um riquinho metido a besta que só olhar para o próprio umbigo e não está nem aí com a felicidade do próprio homem que diz amar. Onde é a lavanderia dessa casa? – Berra.

– Para que você quer me levar lá? Me larga! Eu estou mandando!

Ele acaba chegando ao quintal e avista a máquina de lavar num puxadinho ao canto. Ele arremessa o rapaz no chão e o prende com o pé, enquanto abre à lavadora e joga a caixa inteira de sabão em pó, depois molha com água e amaciante as gavetas. Robson o alcança e pergunta.

– O que vai fazer?

O cardiologista é sucinto.

– Já, você vai saber!

Ele termina de preparar o equipamento e se vira para Sam, o qual tenta livrar-se de seu pé.

– Vamos a um tour para limpar essa sua alma suja? Veja como quero seu bem apesar de tudo!

Sam se desespera.

– Nem pense em fazer uma coisa! Não! Socorro!

O vilão tenta se agarrar na porta, mas Roberto o joga lá dentro e trava por fora. O mocinho liga a Brastemp. O vilão grita ao ser centrifugado em meio às bolhas. Robson começa a rir, o mocinho limpa as mãos.

– Bem feito! É para lavar sua alma, coisa ruim. Quem mandou mexer com pessoas de caráter?Aproveite o banho, querido! Fica por conta da casa!

E enganchou no seu amado.

– Agora, por favor, vamos embora!

O Flautista concorda segurando para não rir. Minutos depois, Dalila e Filomena ficam com pena do rapaz e abrem a trava, o garoto sai desesperado e acaba tombando com a máquina no chão, engasgado de tanto sabão que engoliu.

– Tsc tsc. Ordinária! Mas ela me paga! Aquela Roberta me pagaaaaaaaaaaaaaaaaa!

As duas tampam os ouvidos com os gritos de Sam que esmurra o chão inundado de sabão, balançando as pernas encharcadas pelos ares.

***

Mãe Joaquina começa a lacrimejar e Irmã Cassandra se desculpa.

– Eu não deveria ter insistido, me perdoe Mãezinha!

Ela fecha o álbum, mas Joaquina o abre, ambas já sentadas na cama.

– Não! Tudo bem! Foi bom você perguntar, assim consigo dividir essa mágoa com alguém!

– Olha, por favor, eu não quero forçar você a falar nada.

– Imagina, minha filha! Sou eu que quero falar!

Irmã Cassandra pega em suas mãos.

– Pois pode contar comigo, para o que precisar!

– Nunca duvidei da sua confiança, minha querida. Essa história mexe muito comigo, sabe. Aos quarenta e cinco anos tive a sorte de engravidar de Carlos novamente. André para mim havia morrido e não me via mais sendo mãe até que essa surpresa veio por Deus e aqueles nove meses resgataram em mim a esperança em continuar vivendo, sabe. A continuar a lutar pelos meus objetivos. Mas o que adiantou? O perdi no parto, uma enfermeira me relatou que ele havia nascido com atrofia nos pulmões, não resistiu nem mesmo a incubadora. Até hoje quando me lembro desse episódio, algo aqui dentro me corrói,sabe. Como eu queria ter tido a chance de criá-lo.

Cassandra a abraça.

– Eu entendo como deve ser a sua dor! Nunca tive filhos, mas sempre fui ligada muito a minha família que são vocês aqui do Colégio dos Sonhos. O mundo pode ter te tirado dois filhos, mãe Joaquina, mas lhe deram outros e eu tenho orgulho de ter sido criada e crescido aqui, de ser um deles.

– Oh, minha querida! – Joaquina retribui o carinho, enquanto a outra enxuga suas lágrimas.

***

Roberto (Lucas) chega com Robson e Ezequiel até a câmara.

– Obrigado amigo por ter nos emprestado o carro!

Ezequiel sorri para o mocinho.

– Não há de quê!

Denise chega correndo ao encontro deles.

– Me atrasei? Tava terminando de digitalizar alguns abaixo-assinados!

Ezequiel se despede de todos.

– Bom, me deixa ir que daqui a pouco o Michel come meu coro! Bom dia para vocês!

A líder sindicalista percebe os ferimentos no rosto do rapaz e se assusta.

– O que fizeram com você, Roberto?

– Foi apenas uma cadela no cio, uma vira-lata de rua!

– Nossa! Que perigo, verificou se ela tomou a vacina anti-rábica? Você precisa tomar soro se não tem certeza!

Roberto (Lucas) apresenta o flautista à nova amiga.

– Não se preocupe amiga. Ao menos isso tenho certeza. Esse é Robson, Denise! O amor da minha vida!

Ela se encanta.

– Vocês formam um belo casal! A gente percebe no ato que são alma gêmea!

Os dois riem se entreolhando. Robson abre a porta.

– Bom! Não temos tempo a perder! Queiram entrar senhoritas!

Roberto (Lucas) abre a boca, o empurrando para o lado.

– Não há nenhumas senhoritas aqui, apesar de que você faz o tipo! E… Pode deixar que eu dirijo!

O ladrão de livros lançou-lhe um olhar mortífero. O mocinho fingiu que não viu em meio aos risos.

***

Betina repassa os detalhes do plano quando Elvira entrega a primeira parte da quantia num envelope azulado.

– Então tenho que agarrá-lo na frente da sua filha? Quando ele for visitá-la?

Elvira confirma.

– Exatamente! Depois que eu constatar que Débora não quer mais nada com ele, acerto a outra parte contigo! Agora pode ir, ainda tenho muito o que fazer!

A enfermeira concorda e a matriarca liga ao marido contando o sucesso do combinado.

***

Sam termina de passar hidratante no rosto.

– Olha o que essa bicha desgraçada fez com minha imagem?! Minha pele está descamando toda por causa daquele sabão em pó de quinta que a bruaca da Filomena compra no varejo!

Fátima tenta acalmar o amigo.

– Você está muito estressado, amigo. Relaxa! Veja pelo lado bom, aproveita o incidente para trocar e renovar de pele, vai ficar novinho em folha, pode apostar. Os bofes vão tudo ficar em cima!

– Eu não quero bofe nenhum! Eu quero o meu Robson de volta! Aquela sanguessuga dos infernos, me paga! Ai, ai, se eles querem reviver ares de 2017, pois tá aí uma bela de inspiração para o que eu pretendo fazer! Nunca me esquecerei daquela noite na sala quando vi minha mãe assistindo a notícia da morte do líder coreano naquele shopping! (gargalha). Tá na hora de copiar a tevê, bebê!

Hector se desespera.

– O que você quis dizer com isso?

Sam arqueia as sobrancelhas

– Já, já! Vocês saberão.

O vilão pega o telefone e procura no contato, o número de Miriam Nakamura.

– Alô, bebê! Yo nakasakimuro, chibambam, lolonaximmm, vam vam pero benrnizóide, vivi, zinauoto, fumerã perni, bamburenox vanksoioioi, bandilopep, achanoro suraiã, hihihi, no naybebe miraram, to nyshowaer, zangiiiii!

Ele atira o celular na cama, seus amigos ficam pasmos. Fátima vai atrás.

– Não sabia que falava norte coreano!

Sam pega o delineador.

– Há coisas que vocês dois nem imaginam que eu possa saber. Sou uma diva inteligente e poliglota. Sei falar mais de vinte línguas diferentes! Uma característica que vocês não passam, nem perto!

Hector sente-se curioso.

– Posso saber o que falou com a sua amiguinha oriental?

Sam sorri.

– Mas claro! Fiz uma encomenda que dentro de algumas horas chegará em minhas mãos!

***

Paçoca está terminando de guardar suas roupas na gaveta daquela pousada quando encontra entre seus pertences a foto da turma das ruas de Santa Helena, emociona-se ao avistar o velho amigo que morreu naquela missão de assalto a mansão: Bento Sapato. Bons tempos de juventude!

***

Roberto (Lucas), Robson e Denise chegam à antiga casa dos Carvalho e o mocinho precipita-se para apertar a campainha. Uma mulher de feições solares que trabalhava no jardim aos fundos os atende. Seu nome era Tereza Spinoza.

– Bom dia! Em que posso ajudá-los?

O protagonista é direto.

– Não queremos incomodar, mas se puder nos ajudar. Essa residência há quinze anos pertencia a uma proprietária chamada Ivette Bolonha, ela alugou a casa para a família dos Carvalho, porém, estou investigando a morte de um professor, integrante desse núcleo e tive informações de que o porão dessa residência pode conter um túnel que facilite na descoberta desse assassinato. Atrapalharia se a gente desse uma olhada? Pode ir conosco se quiser!

A mulher hesitou por um momento, mas balançou a cabeça assertivamente.

Ela acendeu a luz do cômodo, após descer o último degrau.

– Sinceramente! Nunca ouvi falar de túnel nenhum aqui! Se realmente existe, por onde ele passaria?

Robson relatou do jeitinho que Lucas o contara na noite anterior.

– Ao que parece esse professor sabia da existência desse túmulo e era algo que o deixava muito preocupado.

Denise analisa cada detalhe do cômodo.

– Bom… Visível ele não é! Deve estar escondido atrás de alguma coisa!

A emoção de estar naquela casa depois de anos nostalgizava o mocinho, nada parecia ter mudado, exceto os móveis que a compunham, todos que passaram ali depois deles haviam deixado o legado de mantê-la intacta, como sempre foi.

Robson percebeu que a composição de tijolos brancos na parede ia até certo ponto, seguindo certo padrão, onde por um pequeno sobressalto, um deles estava mais ao plano da frente do que os demais, limpou as teias e ousou puxá-lo, uma porta giratória se abriu, revelando um túnel. A anfitriã ficou impressionada.

– Minha nossa! E não é que o túnel existia mesmo!

Roberto (Lucas) beijou o rosto do amado.

– Senhor Ladrão de livros, és um gênio!

Eles agradeceram Tereza e se adentraram na escuridão.

***

Cristiano está trocando de roupa em seu quarto quando percebe pela janela que Sam está saindo da mansão com seus amigos. O advogado cria coragem e assovia charmoso para ele, numa espécie de cantada. O vilão o avista e fica vermelho. Aquele corpo moreno e sarado de Cristiano era irresistível, mas logo caiu em si e pôs seu orgulho de fora, arrebitando seu nariz. Fátima e Hector seguraram para não rirem. O mauricinho torceu a chave de seu conversível rosa – veneno e pisou no acelerador, deixando o ex-viúvo amarradão na dele.

***

Paçoca chega ao quarto de Débora com um buquê de flores, já que a menina saíra da UTI. No entanto, não a encontra por lá, o que vê é apenas uma enfermeira terminando de entrar renovar as bolsas de soro. Era Betina.

– Bom dia! Você deve ser o Bruno, namorado dela?

Ele confirma

– Sou sim!

Ela revela.

– Olha! Ela foi passear no jardim, não deve demorar!

– Pode deixar que vou até lá! Muito Obrigado!

Assim que ele sai, ela o segue. Débora pega uma joaninha no dedo e acha graça quando o mesmo inseto levanta vôo. Paçoca aparece na porta do jardim e Betina não perde tempo, o agarra sem pudor. A mocinha se vira e desfalece em lágrimas ao flagrar a cena do beijo.

***

Sam entra no carro trazendo uma caixa e a coloca no banco do carona, Fátima se precipita pelo banco de trás para abri-la, curiosa, mas o vilão estapeia sua mão.

– Nem pense em tocar nisso se tem amor à vida!

A menina se assusta com aqueles dizeres. Passado isso, chegam à faculdade, uma faxineira que o conhece cumprimenta logo de manhã varrendo a entrada.

– Batendo ponto cedo, Van Gogh? É assim que se faz quando queremos almejar algo na vida, quem dera meu filho fosse um pouco você!

Sam pega o balde que ela limpa o pano de chão e despeja o conteúdo em cima dela. Seus amigos ficam horrorizados.

– Escuta aqui, sua morta de fome! Não me dirija à palavra, sem eu pedir. Não estou aqui para ouvir sobre sua vida, sobre seu filho, portanto fecha essa matraca hedionda e trate de trabalhar, olha só para esse chão que imundice.

Ele bate o pé saindo, seus amigos o acompanham; triste a mulher se recupera do banho que levou. Na secretária, o canibal suborna uma das secretárias e consegue a informação que precisava: o apartamento de Roberto.

***

Já estavam há um pouco mais de uma hora dentro daquele túnel úmido e cheirando a mofo com a lanterna dos celulares ligada quando finalmente o espaço terminou em ganchos na parede. Roberto (Lucas) se alegrou.

– Vejam! Um alçapão! Parece que chegamos ao fim desse mistério!

Ele empurrou-o com uma das mãos e logo sentiu um odor de cloro invadir as suas narinas, levantou-se enquanto os outros escalavam e constatou não entendo bulhufas: Era a antiga estação de tratamento de água de sua cidade. Enquanto olhava confuso para a água corrente, escutava o barulho da turbina a todo vapor.

***

Paçoca se livra da jovem com asco, percebendo que Débora vira tudo.

– Meu amor, você não pode…

A revolucionária o estapeia.

– Seu falso! Mentiroso! Bastou-me ver careca, frágil pelo tratamento quimioterápico e já se jogou para cima de qualquer uma!

A enfermeira tomou as rédeas.

– Alto lá! Sua doentinha! Conheço Paçoca há muito tempo, fui namoradinha dele da sarjeta, reencontrou-me há poucos dias nesse hospital e desde já tem me dado uns amassos, prometeu-me, jurou-me que ia terminar com você, mas pelo visto ainda está confuso!

Bruno joga a menina no chão.

– Para de mentir! Sua cobra! Eu nem sabia o seu nome. Você não pode acreditar numa coisa dessas, meu amor, não pode.

E tenta abraçá-la, mas ela se esquiva dando-lhe mais um tapa.

– Me solta! Eu não quero nunca mais olhar na tua cara, Bruno Paçoca, nunca mais! Seu galinha! Por que fez isso comigo? Por quê?

Jesus chega acompanhado de Rogério que está totalmente nervoso com a situação, a jovem corre para os braços de seu oncologista.

– Por favor, Jesus! Tira-me daqui! Eu sei que ainda está magoado comigo, mas eu nunca mais quero ver a cara desse sujeito e dessa prostituta!

A enfermeira tenta se defender, mas Rogério a põe em seu lugar.

– Eu não vou permitir que xingue uma paciente, ainda mais no estágio que Débora se encontra! Vá já para o pronto-socorro, está lotado de gente que precisa ser atendida, ainda vou pensar se não vou te mandar para o olho da rua.

Betina obedece e se dirige para o local, Débora é levada pelos dois e Paçoca chora desesperado no gramado.

***

Em seu apartamento, Roberto termina de passar o café, servindo-o aos dois. Denise quebra o silêncio.

– Eu não entendo. Por que escavar um túnel passando pela cidade toda para desembocar numa estação de tratamento?

Robson a acompanha.

– Nem me diga, até agora estou tentando entender!

Lucas opina.

– Sabe que eu acho, talvez aquele local não tenha nada a ver com o tal segredo que meu pai descobriu.

Robson não entende.

– Como assim, amor?

– A minha intuição diz que aquilo foi só para despistar uma possível descoberta do túnel. Acredito que a simbologia tratamento de esgoto não tenha nenhuma ligação com o segredo, o local foi apenas escolhido como palco de encontro, nada mais do que isso e convenhamos um belo palco, quem poderia imaginar que dentro de um ambiente como esse o futuro da nação estaria sendo tramado por uma plutocracia escrota?!

Denise o interroga.

– Você está querendo dizer que as pessoas envolvidas já desconfiavam da possibilidade de serem descobertas? Mas isso não tem sentido, o túnel ficava muito bem escondido naquela parede!

Lucas conclui.

– Sim! Mas ele começava justamente na casa onde eu morava! Onde meu pai, um líder revolucionário habitava! Já lidavam com essa possibilidade do meu pai descobrir! Precisavam de um endereço que não entregasse de cara toda a conspiração.

Robson ainda fica perturbado.

– Amor, essa sua hipótese é incoerente demais. Por que pensa! Se os bandidos realmente tivessem se encontrando na estação de tratamento de água, por que eles fariam um túnel até o porão da casa do seu pai? Seria muita burrice, eles estariam entregando o ouro ao inimigo político deles!

Lucas ri.

– Quanta ingenuidade, meu bem. Não deve se recordar do que George Orwell diria num momento como esse. Lembra-se do livro 1984? Do termo aminimigos? É muito melhor ter nosso rival por perto, por que conhecemos melhor seus próximos passos. Talvez a real razão para aquele túnel seja nada mais, nada menos do que uma espionagem muito bem arquitetada.

Robson concorda em partes.

– Pode até ser que ele tenha sido espionado, mas justamente num túnel que revelava pela outra face o palco de encontro dos bandidos. Ah não, é muito forçado. Eles estariam ganhando informações do plano de seu pai e ao mesmo tempo correndo o risco de se entregar para ele? É muito ilógico isso! Eu ainda acredito que o motivo seja outra coisa!

Denise olha no relógio de pulso.

– Meu Deus, estou atrasadíssima para uma reunião com os artistas de grafite! Tenho que correr para pegar o ônibus!

Robson se oferece.

– Que isso, Denise? Nós que te afastamos da câmara, pode deixar que te levo de volta num piscar de olhos.

 

Ela agradece.

– Faria isso? Muito Obrigada! Tchau Lucas, cuida desses ferimentos!

Ele sorri.

– Pode deixar!

Assim que saem ele fica pensativo no apartamento, tentando rascunhar possibilidades. Na recepção do prédio, Sam se esconde, virando o rosto quando Robson e Denise passam em direção à rua.

– Maldita influência que aquela gazela o ordinária o infiltrou! Agora deu para andar com vereadora guerrilheira! Mas eu mereço! Tome, aqui está à grana que prometi! É apartamento 88, certo?

O síndico corrupto acena positivamente com o polegar.

 

Lucas está terminando de organizar seus pensamentos, quando se lembra que esquecera a porta da sala aberta, com a violência do jeito que andava, mesmo sendo cidadezinha de interior, era melhor se prevenir. Contudo ao chega à sala se surpreende ao ver Sam fechando a porta.

– Mas o que você está fazendo aqui? Como descobriu que eu…

O vilão é enfático.

– Calma! Eu não quero brigar! Bebê! Vim para termos uma conversa civilizada! Em missão de paz.

Closet no rosto do mocinho desconfiado.

***

A porta do quarto de Fernanda se abre e ela sai totalmente enclausurada do banheiro.

– Posso saber o que está acontecendo?

A enfermeira é simpática.

– Você está numa clínica psiquiátrica, seu marido achou melhor te trazer para cá, depois do surto que teve em sua casa. Venha, vou te levar até o refeitório para tomar café!

A mulher se revolta, mas não faz escândalos, iria ser pior se demonstrasse resistência. Enquanto come a fatia de pão pensa em uma maneira de sair dali e entregar seu marido.

***

– Você acha que vou acreditar nessa sua conversinha fiada? Eu tenho cara de otário, por acaso?

Sam verifica se suas unhas estão bem feita.

– Olha não me interessa se você acredita ou não nas minhas boas intenções, eu estou com a consciência tranqüila de que estou fazendo a coisa certa.

Lucas completa.

– De boas intenções, o inferno está cheio!

Sam se dá a liberdade para sentar.

– Nossa! Sofá duro esse o seu, hein? Depois se quiser te dou uma revista de espumas adoráveis, fará até melhor para sua coluninha!

Lucas é direto.

– Dispenso. Veio aqui para dar lição do moral, se sim, perdeu a viagem! Não estou disposto!

Sam ri se levantando.

– Você é realmente osso duro de roer. Mas não se preocupe, eu sou também. Bom, o que me trouxe aqui como eu disse e você me interrompeu é que não foi muito legal da minha parte a maneira grosseira que eu te tratei!

Lucas deboche.

– Então você veio aqui pedir perdão, é isso?

Sam olha no fundo dos seus olhos.

– Mais do que isso. Eu vim aqui compartilhar com você, por meio de uma doação, algumas fotos que fizeram parte da minha trajetória com o Robson.

Lucas recusa.

– Não quero isso, não me pertence!

Sam finge se emocionar.

– Por favor, Roberto, não seja injusto comigo. Pelo pouco que pude analisar você é realmente uma pessoa de boa índole, tentou propor uma trégua que infelizmente eu não consegui aceitar de imediato, por que Robson significou e significa muito para mim. Porém, repensei e estou aqui disposto a aceitá-la, tanto que quero contar com você para me ajudar a esquecê-lo.

Lucas pensa por uns segundos, mas acaba as recebendo. Sam agradece.

– Sabia que podia contar com você! Veja que lindo! Essa foto aí, eu e Robson tínhamos acabados de nos formar no colegial!

***

Ezequiel chega ao gabinete do Prefeito Michel da Costa e Silva.

– Mandou me chamar?

O homem confessa.

– Quero que conheça essas duas figuras ilustres da nossa atual política Brasileira!

Os dois se levantam e Michel articula a apresentação.

– Esse é Marcos Van Gogh, um dos ministros do nosso presidente Francisco Mises. E esse é Otto Santiago, o presidente da câmara dos deputados.

O bandido sorri ao cumprimentar os dois, todavia, na vez de Otto, sente um tremor em sua alma, aquele homem não era uma boa pessoa.

***

Em dado momento da conversa, Sam pergunta se pode usar o banheiro, Lucas confirma e mostra-lhe o caminho, enquanto termina de se encantar com as fotografias, percebendo o crescimento daquele menino que roubara seu coração no Colégio dos Sonhos.

O vilão tranca a porta e abre sua mochila, retirando dela a pequena caixa que conseguira na encomenda. Uma pequena vasilha lacrada de vidro escuro anuncia por um adesivo a periculosidade do produto, nada menos que um gás venenoso: VX! O mauricinho veste a máscara, as luvas de proteção e segue as instruções do rótulo preparando a solução.

Passado algum tempo, ele grita do banheiro.

– Lucas, você se importa de vir aqui um minuto, não estou achando a descarga!

O mocinho deixa as fotos no sofá, indo a sua direção.

– Como não? Fica do lado da caixa d’água.

Ele entra no banheiro e pedindo licença pressiona o botão, ao se voltar para cima, entretanto, o vilão ejeta próximo a suas narinas, já de máscara, o veneno poderoso que logo é inalado pelo rapaz, o qual na mesma hora cambaleia e começa a perder o sentido.

– O que você… Fez?

Sam o deixa agonizando no chão do banheiro e larga o conteúdo por lá mesmo a fim de não se contaminar. Corre logo para pegar o elevador e desce para o hall de entrada do prédio. Quando está saindo, porém, esbarra em Robson que acabara de chegar.

– Você por aqui?

Sam gargalha.

– Só estava cumprindo a minha sina de levar o seu amor por um belo passeio até o inferno! Acabei de matá-lo.

Robson se desespera e desata a correr para o apartamento. Sam se satisfaz.

– É até bom que você morra também junto contaminado! Assim paga todo sofrimento que me causou desde o término! Seu ingrato!

Ele põe seus óculos de sol e desata a entrar em seu conversível, estacionado no outro quarteirão.

Robson entra correndo até o apartamento chamando pelo amado

– Lucas? Lucas?

O cardiologista grita para ele não chegar perto, enquanto se rebate em dores pelo seu sistema nervoso que começa a ser atingido.

– É VX! Se você inalar vai morrer também! Afasta-se daqui, pelo amor de Deus!

O flautista fica andando para um lado para o outro, totalmente perdido, sem saber o que fazer, até que abre todas as janelas e chama a ambulância.

– Venham depressa! Meu namorado foi intoxicado com um veneno letal!

***

Joaquina termina de cuidar de uma de suas meninas que pegou piolho quando uma lambreta com adesivos de monarca estaciona na frente do colégio. A jovem que a dirigia retira o capacete e ao invés de ir ao encontro da secretária, caminha para as duas. No momento em que chega perto, abre os braços para Mãe Joaquina abraçá-la, mas a freira não a reconhece.

– Não está se lembrando de mim, Mãezinha? Sou eu, Laila!

***

Sam chega a casa, farto da manhã turbulenta e Fátima e Hector que atacavam sua geladeira, aparece de boa cheia querendo saber novidades. A menina é mais rápida.

– E então? Deu uma surra merecida na bicha ambulante?

O vilão ri.

– Você acha mesmo que uma pessoa da minha classe, do meu nível, vai se meter com a escória? Óbvio que não me rebaixei! E também não sou de deixar para manhã aquilo que posso fazer hoje! Por isso, eu já resolvi tudo, logo mais ele estará na presença de Luana. Agora se me dão licença, estou com uma enxaqueca terrível, essas duas mortes mexeram comigo! Posso ficar uma semana sem malhar!

Fátima fica passada.

– Você o matou? Que horror!

Sam se vira, já no meio da escada, tenebroso.

– Eu falo para vocês, não estou aqui para brincadeiras!

Sozinho, ela desabafa com Hector.

– Esse menino está totalmente desequilibrado. Daqui somos nós que vamos dançar!

 

O vilão deita em sua cama e se recorda dos olhos de Roberto antes de… Espere um minuto. Eles não eram verdes como pudera ver antes da discussão que tiveram ali em baixo. E aquela cor também, ele parecia mais branco, mais pálido. O mauricinho teve a nítida impressão de já ter visto o rival em algum lugar, mas onde? Recordou-se do diálogo que Robson tivera com ele na biblioteca da faculdade na manhã anterior e uniu os fatos.

– Será? Mas por que…

Ele abriu o laptop às pressas e se chocou quando confirmou na foto da família Magro. Roberto era Lucas, o filho dado como morto.

Correu desesperado do quarto para contar a novidade aos amigos.

Já havia passado do meio-dia quando ele deu entrada naquela delegacia, o xerife veio logo os recebendo.

– Posso ajudá-los em alguma coisa?

Sam fitou os amigos sorridente e virou-se para o profissional.

– Pode sim! Vim fazer uma denuncia contra agressão física, moral e falsidade ideológica contra uma pessoa.

Fátima e Hector se entreolharam. O delegado ficou curioso. Sam estava no auge de sua vingança amorosa.

 

         CONTINUA…   -” ”>-‘.’ ”>

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