Eterno canto: Capítulo 33 – Cerrar de cordas

 

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

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Delegado os convida para sentar e fechou a porta, depois sentou-se em sua mesa e diante do vilão acenou para o escrivão, voltando-se para o jovem.

– Pode começar a falar!

Sam esboçou um sorriso maquiavélico para os amigos e declarou ao profissional.

– Muito obrigado. A situação é a seguinte…

***

A sirene da ambulância continua a ressoar, quando a equipe de enfermeiros abrem a garupa e dela retiram uma maca com Lucas retorcendo-se em dores pelo veneno inalado no banheiro. Ezequiel que recebera a notícia pelo celular de Robson, abandonando a reunião com Michel, sai do carro e vai ao encontro do amigo juntamente com o flautista, porém, em certo momento, a segurança impede a passagem dos dois.

– Como isso foi acontecer? Como Luquinhas se intoxicou, cara?

Robson dispara em lágrimas.

– Foi aquele demônio que um dia eu chamei de namorado: Sam Van Gogh, ele entrou no apartamento do Lucas e deu um jeito de jogar VX para ele respirar, vim na ambulância conversando com paramédico, em poucas horas, se eles não conseguirem reverter, ele vai morrer!

E chorando, agarrou-se em Ezequiel, o abraçando forte que petrificado com a crueldade, apenas conseguiu retribuir o gesto.

***

Laila abraça Mãe Joaquina que chora ao reencontrar sua antiga filha de criação, a qual assim como Lucas e Débora havia vindo do Reformatório de sua irmã.

– Olha isso! Uma mulher feita! Nem parece a baixinha que eu conheci outro dia desses! Minha filha como você ficou bonita.

A jovem sorriu, um brilho de nostalgia resplandeceu em seu olhar.

– A senhora também, Mãe. Parece que o tempo a deixou intacta!

 

Não demorou muito para a freira-diretora a convidar para comer um delicioso bolo de cenoura feito por Gertrudes, a qual pulou de alegrias quando a viu. As três passaram o resto daquela tarde a conversar, trocar experiência e reviver o passado. Já era quase quatro horas da tarde quando sentaram em um jardim, totalmente trabalhado em labirintos e a rapariga perguntou sobre os irmãos Carvalho, a freira deixou escapar.

– Débora está na luta contra leucemia em São Paulo, enquanto Lucas, forjou a própria morte para investigar a morte de seu pai.

A moça ficou boquiaberta, Gertrudes deu uma cotovelada na anciã que sorriu sem graça de volta por ter revelado a verdade.

***

Chega horário do almoço e Fernanda é levada novamente para o Refeitório, ali, ela avista uma cena bárbara no fim do corredor: uma enfermeira irritada com um paciente deficiente mental já idoso, que não consegui comer por sonda, despeja a travessa de papa em cima dele, sujando-o por completo. Totalmente perturbada a matriarca senta-se em uma mesa afastada, não querendo se misturar com o pessoal, quando uma interna decidi fazer companhia.

– Posso me sentar?

Contrariando sua vontade, a mulher esboça um sorriso simpático afirmativo. A outra se acomoda e pergunta seu nome, Fernanda mente dizendo chamar-se Catarina, afinal não sabia da periculosidade que a doente mental apresentava, começar a falar de família, relações de afeto, quando foi questionada sobre seu maior sonho e disparou sem pestanejar.

– Eu quero é sair daqui!

Para sua surpresa, Raimunda respondeu.

– Pois isso é fácil, já escapei milhares de vezes daqui, conheço todas as saídas possíveis. Se quiser te ajudo a fugir hoje de madrugada.

Os olhos de Fernanda faiscaram.

***

Denise chega ao hospital acompanhado de uns amigos revolucionários que estava ouvindo na câmara até que avista Robson que acena para ela, a vereadora corre para abraçá-lo, Ezequiel espuma de raiva, falando sozinho.

– Quando eu puser a mão naqueles mauricinho psicopata, não vai sobrar um olho azul para ele sair por aí se gabando e contando histórias. Riquinho folgado, assassino!

Não agüentando segurar seus nervos, ele dispara a sair do local, para desespero de Robson que sabia exatamente o que ele iria fazer .

***

Débora está chorando em seu quarto pela traição de Paçoca, quando Jesus entra vestido de palhaço com alguns amigos dos Doutores da Alegria, a menina se encanta e cai na risada quando seu oncologista ousa em fazer cócegas.

– Para Jesus! Eu sei que não mereço tudo isso!

O profissional senta na beira da cama e retirando o nariz vermelho encaixa no dela, fazendo se surpreender.

– Você merece o mundo, minha linda.

Aquelas palavras de alguma forma mexeram com ela, contudo, ela não sabia discernir muito bem o que era. Virou-se a face para a janela.

– Não mereço não! Eu trai sua confiança, fiz você pensar que meu irmão havia morrido!

Ele puxa a face dela de volta pelo queixo, olhando-a no fundo dos olhos.

– Quem não erra nessa vida! Reconheço que fiquei muito puto, até pensei em revelar tudo a seus pais, mas percebi que se eu fizesse isso, eu me revelaria um traidor, se Lucas fez o que fez, é por que ele tinha os motivos dele e eu precisava entender isso.

Débora sorriu com aquele discurso e o abraçou, manchando seu rosto de tinta, ele entrou na brincadeira e passou mais guache na face da jovem que ficou chocada e deu uma mordidinha de leve em seu dedo indicador, suas faces ficaram próximas e por um triz não se beijaram. Recompondo-se com a chegada de uma enfermeira, o médico proferiu antes de sair.

– Só me promete uma coisa. Nunca deixe ninguém apagar ou destruir esse ser humano incrível que você é. Ele não te merece, Débora Carvalho. Lembra-se sempre disso antes de derramar uma lágrima.

E abaixou a cabeça. Sozinha, ela apalpou a face e sujou a ponta dos dedos com a tinta, achando graça.

***

Sam chega em casa exausto depois de prestar depoimentos na delegacia e se joga no sofá.

– Depois de um dia cansativo desses! Acho que o melhor a se fazer é matar aula, depois eu recupero, gabarito aquela espelunca brincando!

Fátima se aproxima do jovem.

– Não acha que é uma boa hora de visitar sua mãe em Vitória, na clínica psiquiátrica?

O vilão esbugalhou os olhos, incrédulo com o que acabara de ouvir.

– Você ficou maluca, Fátima? Um granfino como eu se misturar com a arraia psicótica? Eu hein? Mocreia! Não posso ficar me sujeitando a fazer caridade para as pessoas com minha presença ilustre, tenho uma imagem a zelar, bebê!

A jovem-adulta rebateu.

– Mas ela é sua mãe, Sam!

– E daí? Ninguém mandou ela resolver dar uma chilique de histeria! Aposto que meu pai ousou cortar cartão de crédito dela e ela entrou em parafusos, aquela lá é viciada em compras, precisa ver!

Ele está subindo para o quarto, quando a campainha toca. O mauricinho estranha.

– Por que o interfone não tocou? Que incomodo é esse?

Dalila apareceu no alto da escada, assustando todos.

– Eu autorizei!

Sam desejou quebrar a cara da irmãzinha ali mesmo.

– Quem te deu ordem para isso, sua fedelha? Agora você achou que nossa casa é zona de prostíbulo para você ficar trazendo seus pé de chinelos para cá? Tenha santa paciência, Dalila!

A campainha tocava incessantemente. O esnobe perdeu a paciência e dirigiu-se para a porta.

– Mas que saco! Não tem nenhuma empregada decente para ao menos atender a porta.

Ele mal consegue abrir quando é esmurrado, caindo no chão. Ao voltar para cima, choca-se com Ezequiel mirando uma arma para ele. Segundos depois, Robson entra alvoroçado atrás.

– Larga essa arma, parceiro!

Mas o bandido está colérico.

– Eu vou ensinar essa bicha fascista o que é bom para tosse!

Closet no rosto desesperado do vilão.

***

Fernanda está em seu quarto, contanto os minutos para o jantar ser anunciado e ela acertar os últimos detalhes do plano de fuga com Raimunda. Só de pensar na possibilidade de estar livre ainda aquela noite já a deixava exasperada, não pensaria duas vezes, madrugaria em frente a uma emissora de televisão famosa e entregaria a cabeça daquele sociopata, pedófilo nojento da própria filha em rede nacional para que todos pudessem conhecer de verdade quem era o ministro da república : Marcos Van Gogh!

***

Robson pediu calmamente.

– Cara, pensa bem no que você vai fazer da sua vida, nessa sala há três testemunhas, isso é considerado prova, você vai para cadeia com uma pena de 12 anos. Não vale a pena se sujar por causa de uma criatura dessas!

Sam começa a chorar e rebate gritando.

– Pois foi essa criatura que foi seu banco de esperma durante quase dez anos, foi o único que te amou e que te ama de verdade. Isso mesmo despreza aquele que daria a vida por você, aquele que é capaz de cometer atrocidades só para te ter por perto e te fazer feliz.

Robson enojava-se com cada palavra que saía daquela boca.

– Isso não é amor, você está completamente doente, precisa se tratar. Quem ama respeita, aceita a decisão do amado de escolher outra pessoa! Não faz como você que por causa de um término que já estava para acontecer há muito tempo, atenta contra a vida de uma pessoa e ainda justamente do meu amor, do jovem mais importante para minha vida.

Sam grita, ensurdecendo o ouvido de todos.

– EU SOU O JOVEM MAIS IMPORTANTE DA SUA VIDA, EU! EUZINHO!

Robson cospe na cara do ex-namorado, deixando todos surpresos. Dalila segura para não rir.

– Vamos embora, Ezequiel. Vamos entregar esse cara para a polícia.

O bandido faz mirar no vilão, mas dispara na parede, só para assustá-lo. Depois afasta com o amigo. Fátima e Hector se precipita para ajudar Sam se levantar.

– Me larguem, seus bandos de abutres que só estão comigo por causa do meu status, do meu dinheiro, da minha beleza. Estão dispensados por hoje, podem ir lavar privada!

E desata a correr para o quarto, Dalila sorri fechando a porta.

***

Robson chega, por coincidência, na mesma delegacia, onde horas antes Sam passara e revela a que veio:

– Eu vim entregar um maníaco por envenenamento de V…

Todavia, antes de terminar a frase, seu sistema nervoso central começa a pulsar de uma dor infernal, ele berra antes de perder o sentido e cair no chão se retorcendo para o terror de Ezequiel e do delegado. Ele estava tendo uma reação, pois acabou se contaminando também com a substância. A cena se apaga.

 

ANOITECE…

O relógio da cabine do vigia marcava um pouco mais de dez horas quando Fernanda chamou a enfermeira de plantão por um botão na parede de ser quarto, revelando estar com fome.

– Olha, a empresa que faz a alimentação não está no expediente, mas tem chá e bolachas de aveia na enfermaria, tudo bem para você?

– Está ótimo – Sorriu irônica.

Caminharam até a saleta quando ao fundo do corredor, Raimunda apareceu nua, gritando em surto, a balburdia poderia acordar os outros internos, pediu que Fernanda a aguardasse ali, mas a matriarca não pensou duas vezes roubou o molho de chaves na sua cintura, desatando a correr. A profissional tentou acionar a segurança, mas Raimunda, como era a forte, conseguiu contê-la, dando tempo suficiente da mulher fugir pelos fundos e passar pelo casarão da frente, onde não havia segurança, conseguindo escapar tranquilamente seguindo as ordens da nova amiga.

***

No hospital onde Roberto(Lucas) está se recuperando e Robson também, o reflexo do vilão transparece no espelho do vestiário, trajado em vestes de enfermeira, para surpresa de seus amigos que ficam passados com a criatividade de Sam.

– Achou mesmo, Criollos? Que eu havia-lhes concedido um descanso? Comigo, não há barriga nessa história, detesto lentidão! Se a foca proletária achou que ia sobreviver minimamente depois do que eu fiz, enganou-se muito! Não vou dar chance dessa camaleão criminosa voltar a viver e isso é pelo cuspe que ela fez o meu príncipe me dar! Ordinária! Pois Beatrix Kiddo de Kill Bill acabou de surgir, bebê!

E desatou a andar, Fátima trocou um olhar de preocupação com Hector.

Suas pernas depiladas e muito bem hidratadas esgueiravam com aquele sapato de salto alto, riscando o piso frio do corredor do hospital em um estilo mexicano instrumentalizado. Empurrou lentamente a porta da UTI, Roberto(Lucas) adormecia no último leito ao canto. O vilão arrumou a toca da cruz vermelha e precipitou-se “femeamente”, enrolando a franja. Estacou aos pés da cama e esboçou um sorriso amarelo, típico de uma hiena.

– Nunca foi tão fácil acabar com você, sua pirata de homens!

E encarou bruscamente um travesseiro na cadeira ao lado. Possuindo-o com as mãos e afofando. Volta-se para o rapaz em sono profundo.

– Não achou mesmo que vou te deixar partir, sem ao menos ver um pouco de sofrimento nessa sua cara de taquara rachada, não é mesmo?

E torceu-lhe os dedos com gosto. Lucas abriu os olhos. Avistou o vilão e se desesperou quando ele apertou o travesseiro contra sua face num furor sem limites.

Nesse instante, as luzes da UTI se acenderam. Alguns policiais saíram do acortinado dos leitos. Ezequiel estava na companhia do delegado.

– Como podem ver o verdadeiro culpado é ninguém menos do que essa morsa desequilibrada!

Sam desesperou.

– Que isso gente? Não vão dar ouvidos a esse sujeitinho! Eu só estava…

O delegado é direto, pondo-lhe as algemas.

– O senhor está preso senhor Sam Alves Van Gogh por tentativa de homicídio doloso! Sabe o que é isso? É falta de surra que seu pai de deu, seu desgraçado! Mas há cela há de te ensinar! Podem levá-lo.

O vilão berrou, agarrando-se a parede, jogando-se ao chão, mas foi arrastado feito condenado, jurando vingança ao bandido. Ezequiel, por sua vez, não lhe deu ouvidos, apenas correu ao encontro de Roberto(Lucas) e o abraçou.

– Você encenou direitinho, amigo! Agora esse doente vai para o lugar que ele merece!

 

No outro dia…

Em Vitória…

Fernanda acorda e percebe que realmente não fora um sonho, a fuga da clínica havia sim se concretizado. Ela levanta-se arrumando as vestes e se felicita ao descobrir que chegou a emissora de televisão, a qual inclusive já estava aberta. Correu para a recepção.

– Por favor, por favor, eu preciso muito falar com um dos diretores do jornal da manhã! ( Ela avistou o relógio na parede). Eles precisam fazer uma edição rápida e fazerem uma entrevista breve comigo!

Uma mulher torceu os óculos.

– Minha senhora, nós temos caras de posto de atendimento? Setor de reclamação? Telemarketing? Queira se retirar, por favor, nós…

Fernanda disparou.

– Sou esposa do primeiro ministro da república Marcos Van Gogh, se dúvida pode jogar minha imagem na internet ou pedir para que algum diretor veja, eles saberão quem eu sou!

A mulher hesitou por um momento, mas sua colega, ao lado, acabara de confirmar no Google imagens. Rapidamente puxou o telefone e pediu desculpas pelo incômodo, passado alguns segundos, autorizou sua entrada.

Fernanda se aliviou, finalmente iria revelar a toda nação brasileira quem era o crápula que havia se casado, se aquele homem não perdesse o cargo e fosse linchado, ela pegaria um jatinho com seus filhos e deixaria o país ainda hoje. Beijou o crachá e entrou no elevador, apertando o botão do andar 21º. A porta se fechou. Observou sua imagem no grande espelho e ela a encarou de volta, sentiu-se uma leve vertigem e desejou por um momento ser apenas aquela imagem, afinal esta, ao menos, era feliz, já que não existia, não estava em sua pele, não vivia aquela realidade sórdida que fazia parte de sua rotina. De repente um pane a assustou. Mal alcançara o andar 19 quando ouviu um barulho feroz de cordas sendo rodadas, o elevador cambaleou e arremessando no chão, não conseguiu levantar a tempo, entrou em queda livre, despencando por mais de cinqüenta metros, caindo morta, ensangüentada, junto com o amassar da lataria no fosso do elevador.

 

CONTINUA…-” ”>-‘.’ ”>

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