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Eterno canto: Capítulo 37 – Furacão (última Semana)

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

Classificação indicativa: 

 

EMOÇÕES DA ÚLTIMA SEMANA

 

Lucas se enfurece e parte para cima da sua mãe-adotiva.

– O que você pensa que está fazendo? Sua infeliz! Como pode inventar uma mentira dessas? Impedindo-me de revelar a essas pessoas o que realmente está acontecendo no país em que elas vivem!

Elvira mostra seu talento em atuação, enquanto os amigos de Lucas o seguram para ele não agredi-la mais. A matriarca grita diante das câmeras.

– Vejam! Como um ser desses pode ser normal? Um ser que bate na própria mãe que o acolheu e o criou como filho? Um ser que mentiu, enganou a família e muitos amigos fazendo-se passar por morto por causa de uma vingança idiota do passado. Ele está completamente fora de si, precisa de tratamento diferenciado.

Ela vira-se para o jovem forjando choro.

– Eu só quero te ajudar, querido. Nem sei onde estava com a cabeça quanto te deixei sozinho, vem, vamos para casa, vou cuidar de você.

O mocinho já fora de si, não percebeu que naquele exato momento, seria melhor ter usado a razão e não a emoção, para entrar no jogo, no cenário que ela estava montando para que o discurso dele caísse no grande vazio. A raiva era tanta que acabou tendo um efeito contrário, virou-se contra seu próprio falante, tornando Lucas diante dos telespectadores, uma pessoa desequilibrada e que agredia pessoas já próximas da terceira idade.

Rogério tentou convencê-lo a se acalmar, mas cada vez que eles o seguravam, mais intenso o sentimento de ira ficava, a ponto dele conseguir escapar e estapear Elvira. A audiência para a emissora foi nas alturas, o povo indignado assistia ao espetáculo. Foi a vez de Laila implorar.

– Lucas, se controle! Você vai tudo a perder!

Mas o heroíno gritava.

– Essa mulher tem que pagar por ter se bandeado para o lado deles, ela tem que ter um corretivo! Ela não pode compactuar com a elite, principalmente o Sam Van Gogh, aquela criatura horrorosa que defende o fechamento de nosso congresso.

Uma equipe de enfermeiros robustos invadiu a sala, tudo sendo gravado no ar, o jornal tornou-se um dramalhão, explodindo em share. Ele tentou se rebelar, os amigos tentaram defendê-lo, mas foi inevitável, foi amarrado a uma casa de força e sedado e sendo obrigado a ir para um sanatório.

***

Cristiano entra para tomar banho, enquanto sua mãe: Gumercinda resolve como de costume ligar a televisão para assistir às notícias do Brasil e do Mundo em seu jornal favorito: Novilíngua. Todavia, choca-se ao ver, nesta edição, o seu ex-genro gritando para todo povo brasileiro ouvir suas críticas a governabilidade do congresso brasileiro. Depois sua mãe adotiva aparece, desbancando-o, mas o crucial para a anciã veio um pouco antes dos enfermeiros se adentrarem no estúdio, foi o último pronunciamento de Lucas atingindo Sam Van Gogh. Aquele nome a fezela recordar-se de um comentário do filho, algumas horas atrás, ousou mexer nos pertences do rapaz até encontrar na sua chamada o telefone e confirmou: Era o tal do menino que morava na frente. Olhou pela janela e sorriu.

– Toda gente rica tem segredo! Cabe apenas a relis mortais como eu descobri-lo e usar a serviço próprio!

***

Em um hospital em Manaus, depois do atentado que sofreu finalmente Joaquina retoma a consciência, percebendo que Paçoca e Irmã Cassandra estão ao redor de sua cama, preocupados.

– Malva, Malva está viva!

Cassandra confessa.

– Nós já sabemos, Gumercinda a viu na propriedade! Eu sinto muito, sei que ela é a sua irmã e deveria estar feliz por estar viva, mas ela não demorou em mostrar a que veio! Nós não podemos permitir Mãe Joaquina que ela se aproxime da senhora, a idade não te permite mais forte emoções.

A freira ri.

– Como se eu pudesse, Cassandra, escolher a paz. Ela confessou-me, na minha cara, que trocou meu filho na maternidade por outro bebê debilitado e me fez crer, por mais de vinte e cinco anos que o destino havia me pregado uma peça pela segunda vez, tendo levado meu filho. Cheguei a criticar Deus, senti-me por muito tempo como Jó do antigo Testamento, mas agora vejo que isso passou de todos os limites, eu não posso mais cometer o erro que tentei tapar durante todo tempo em que ela aquela bruxa estava perto de mim.

Paçoca se surpreende com a revelação e ousa perguntar, ainda desatento.

– Que erro, Mãe Joaquina?

Ela dispara.

– De não tê-la entregue para a polícia. Mas de hoje, ela não escapa!

Closet em seu rosto decisivo.

***

Sam termina de assistir pela décima vez o replay da internação de Lucas em rede nacional e brinda com Robson o feito daquela armação.

– A bicha proletária finalmente saiu do meu caminho! Aquela ameba ambulante vai passar o resto da vida babando numa clínica psiquiátrica com a popularidade na lama. Adoro o cheiro de status quo no ar, de ordem e progresso, de pacificação. Nem te contei amor, mas Otto prometeu-me o cargo de presidente da Câmara assim que ele conseguir derrubar aquela pinguela. Já até estou pensando no meu primeiro projeto de lei que pretendo propor para referendo, o senado com certeza vai aprovar quando perceber a relevância da minha idéia.

Robson o puxa para seu colo e o beija de língua.

– Posso saber, o que a minha putinha maléfica está arquitetando?

Sam arqueia a sobrancelha, pegando o batom na cabeceira, contornando os seus lábios de forma macabra.

– Claro que pode. A população LGBT vai me agradecer! Todos os seres afeminados que se julgam gays, principalmente aqueles que se dizem românticos não vão poder autofirmar essa identidade, sobre pena de desrespeito, violência simbólica aos machos alfas que irei defender até o fim. E terão que seguir um padrão de beleza também, nada de pão com ovo ou bizarrices, seguirão o darwinismo social a risca, o automatismo das academias. Autorizarei até os de olhos claros como eu casarem com seus respectivos capachos- alfas, escravos dotados de rola, óbvio!  Na igreja católica apostólica romana.

Robson acha graça.

– Mas a autoridade papal não vai…

Sam não o deixa terminar.

– Azar é o dele. Cada macaco no seu galho. Ele cuida do Vaticano e eu do Breyzil!

Robson o envolve com seus braços de pederastia.

– Sabe que você ficando assim até lembrar uma mulherzinha ardilosa e eu adoro comer uma…

Ezequiel invade o quarto do vilão ofegante. O mauricinho levanta-se assustado.

– Mas o que significa isso? É a invasão do sem-teto e eu não estou sabendo?

Ezequiel se irrita.

– Cala boca, sua jararaca de franja!

E o esmurra, fazendo-o voar pela janela e cair sobre o gramado do jardim pasmo. Robson, ainda, dentro do quarto, o enfrenta.

– Quem você pensa que é marmanjo para entrar no nosso quarto e fazer isso com minha bicha?

O bandido não responde e o joga sobre um criado, dando-lhe joelhadas incessantemente, enquanto os produtos de beleza estilhaçam pelo chão. Sam se levanta apressado, disposto a interfonar para a segurança, mas Dalila aparece de braços cruzados na porta.

– Você não vai a lugar nenhum!

O vilão ri com a ameaça.

– Francamente, você acha que vai conseguir me deter, sua esquila de electra! Se enxerga, olha para você, não passa de ridícula esculpida a estrume.

A garota rebate.

– Pois é essa ridícula esculpida a estrume que vai entregar o nosso pai a polícia! Eu o gravei confessando que matou a nossa mãe, seu verme insolente.

E devolve-lhe o murro que ele a dera no carro, dizendo-a que era mentirosa. Ele fica petrificado ao ouvir o áudio e descobrir que a subestimou.

 

Mais tarde…

As olheiras de sono são evidentes naquela face sedenta por justiça. Débora chega até uma agência de banco e saca uma boa quantia de dinheiro de sua conta. Depois pega um metrô até o aeroporto de Congonhas e compra uma passagem para Vitória. Enquanto espera pelo vôo vai até uma lanchonete e se choca ao ver uma reportagem de televisão narrar um incidente envolvendo seu irmão, ao vivo, em um estúdio, onde sua própria mãe se revelara uma Judas, desbancando a notoriedade de seu menino e o entregando a internação.

– Eu não estou acreditando que ela foi capaz de fazer isso! Como pude chamar uma criatura dessas de mãe?! Ela é um verdadeiro monstro!

Seu olhar lacrimeja de raiva.

***

Otto participa de uma coletiva de imprensa na praça dos três poderes, ao lado dos Candangos, com outros deputados de sua coligação, negando as acusações.

– Isso é da mais alta calúnia. Ao contrário de muitos que fazem parte dessa câmara perversa e desse senado fajuto, eu sou uma autoridade de bem, sempre respeitei os direitos civis, a democracia brasileira. É uma afronta, esse jovem levantar falso testemunho sobre mim. Mas eu não sou injusto, digníssima família brasileira, ilustres telespectadores, querido povo que honro em representar, eu reconheço que muito dessa falácia é originada nessas escolas, nesses centros acadêmicos que corrompe nossos jovens, com suas doutrinações esquerdistas e sanguinárias, ele é uma vítima que deve ser resgatado o quanto antes pela moral dos bons costumes, pela moral cristã…

Após o discurso, no estacionamento do palácio, ele cumprimenta um comparsa do STF.

– O caixa-dois já foi aberto em seu nome lá nas ilhas Cayman. Mas fizemos tudo dentro do combinado, não levantei bandeira nenhuma, os laranjas são dignos de confiança, se a bomba estourar, as emissoras já fecharam com a gente vai promover a comoção sensacionalista contra o governo da herança maldita. Só preciso do seu apoio para a legitimidade no julgamento dele. Escolha muito bem quem vai levar o processo de crime de responsabilidade à risca.

O outro concordou sorridente.

– Pode deixar! Não sou de falhar quanto aos meus irmãos do mesmo time que o meu. Até o fim do ano ele deixa a cadeira para você!

Otto bateu em seu ombro.

– Sua competência é formidável! Muito bom, meu rapaz!

***

Denise termina de revirar seus papeis, Laila a ajuda, sentada na sua frente, até que a líder sindicalista perde a paciência.

– Que droga! Que droga! Quando a gente precisa do documento nós não achamos. Eu tinha certeza que eu li o nome dessa mulher aqui com aquela proposta maluca da construção do condomínio fechado no centro histórico. Laila tente dar uma olhada ali no armário, é o único lugar que ainda não olhei. Que saco! Lucas internado e traído pela própria mãe de criação, Robson com aquele boiola eugenista, eu tenho que encontrar esse assassino de George, devo isso, pelo meu…

Laila gritou eufórica.

– Achei, achei. Ivette Bolonha!

 

Não passou vinte minutos, quando a revolucionária estaciona o carro em frente uma antiga casa assobrada, conferindo o número.

– É… Parece que chegamos!

Laila troca olhares com ela.

 

***

 Totalmente sedado, Lucas é levado por dois enfermeiros até o consultório, dentro do próprio sanatório, do Psiquiatra proprietário. Assim que o mocinho se acomodou, o profissional começou.

– Muito bem, senhor Lucas Carvalho ou deveria te chamar pela sua outra personalidade Roberto Camargo?

O Marxista de sangue quente não entende aquela ironia.

– Roberto Camargo não era outra personalidade, foi a identidade que usei para poder começar as investigações da morte do meu pai, o professor George Carvalho. Meu nome oficial é Lucas Carvalho.

O velhaco soltou um risinho e fez uma anotação, voltando a encará-lo.

– Ficou claro pela sua entrevista ao canal Novilíngua, o quanto a figura de um candidato mais liberal mexe com você, inclusive chegou a cogitar que ele estaria tramando um golpe de estado contra sua própria nação que o mesmo deputado diz amar solenemente e tem dados provas disso. Minha pergunta é essa sensação de perseguição é recorrente no seu cotidiano desde a infância quando contrariado?

Lucas se fere com aquelas palavras.

– Eu não estou acreditando que estou ouvindo uma barbaridade dessas! Em primeiro lugar nunca me senti perseguido, mas percebo que o país sim, com esses parasitas plutocratas usurpadores do poder, os quais não têm legitimidade nas urnas e só ascendem por meio do rasgar da constituição. Em segundo lugar, eu me decepciono ao perceber que uma pessoa instruída como você, que só com essa unidade, onde estamos, deve lucrar uma boa quantia, não tenha tempo de se educar, de se instruir, de ler, ao invés disso, prefere repetir o que está na mídia, nas bolhas das redes sociais, no discurso de ódio, isso é lamentável.

O homem se ofende profundamente, mas tenta manter a cordialidade, ignorando as críticas.

– Certo. Essa impulsividade, esse desejo messiânico, de fazer justiça com as próprias mãos, muito recorrente em seu discurso, pelo que pude perceber, acredita que possa ter a ver com uma espécie de raiva ressentida por sua mãe ter abusado sexualmente de você, quanto pequeno.

O mocinho se levanta incrédulo.

– Mas isso é absurdo! Minha mãe biológica jamais teve coragem de fazer isso, descobrimos sim que ela tinha esse costume hediondo, mas jamais tocou um dedo em mim e em minha irmã com esses olhares. E o senhor está se enganado, essa vontade revolucionária de transformar a realidade, é por que eu vejo o quanto, no fundo, ainda mantemos uma estrutura arcaica, estamental e predatória, a qual anula, torna invisível, como diria o ilustre artista das ruas Eduardo Marinho, aquelas pessoas que são tão essenciais para manutenção desse sistema escroto que além de ingrato, joga a humanidade nessa selva, nessa barbárie sem limites, em que o corporativismo dantesco coisifica o que temos mais de precioso: nosso coletivo, nosso ser público,  nossa empatia, nossos sentimentos, artificializando as relações.

O psiquiatra esconde seu sorriso de que conseguiu atiçar o ponto fraco de Lucas: seu senso de altruísmo.

– Acalme-se querido, está se excedendo a toa. A consulta nem terminou. Sente-se e recupere as energias, ainda temos muitos a que conversar.

O jovem se irrita com a perversidade do outro médico.

– Não seja ridículo, seu verme! A conversa acabou. Não tenho nada a enriquecer intelectualmente, continuando nessa sua interpretação errônea e podre da realidade. Você nem se dá conta, seu idiota, que é uma própria vítima, o qual o sistema usa para propagar seus ideais reacionários. Acha que está por cima, vovô? Tenha certeza que existem pessoas muito mais remuneradas que você!

E precipitou-se para a porta, tentando abrir, mas ela estava trancada.

– Você faça o favor de abrir essa porta! Quem te autorizou a fazer isso?

O psiquiatra apertou um botão embaixo da mesa, acionando a segurança que não demorou em abrir a porta e conter Lucas, o qual sedado, não conseguiu relutar muito.

– Me soltem seus cegos! Não percebem que ajudando esse explorador, estarão contribuindo o aumento da mais valia- relativa e conseqüentemente no achatamento de seus salários comparados ao lucro dele. Parem de reproduzir esse sistema, vamos repensar, repensar numa forma mais inteligente de construir nossa sociedade.

O velho não o permitiu terminar, atirou seu livro de ética médica em cima do jovem, causando-lhe dor.

– Você não aprendeu nada, seu moleque, sobre como respeitar o trabalho de outro médico, em não maldizer a metodologia de seu colega de profissão. Realmente, essa leva, essa safra de profissionais hoje em dia, não dá para o cheiro, são muito desrespeitosos e desestabilizados emocionalmente. Fico pensando o que seria de vocês se não houvesse fortes instituições como esse sanatório que ainda mantém uma excelente estrutura psicoterápica. O que estão esperando, levem-no para a eletroterapia!

O cardiologista escancarou os olhos.

– O QUÊ? Larguem-me! Eu não quero ir! Por favor, não!

Ele foi arrastado alguns metros até o andar de baixo e jogado numa maca, o semblante do médio o encarou com superioridade.

– Sabe quando os pobres vão ter direito ao poder, a distribuição de riquezas, a inclusão social? Nunca! São tolos demais para isso!

O heroíno o enfrentou antes de levar a descarga elétrica e apagar.

– Isso é o que veremos! O amanhã é imprevisível, meu caro. E se tem uma coisa que não me falta, é esperança! Por que como já dizia Marx, a luta de classes é que move a história!

***

Marília acorda e uma epifania invadiu-lhe a alma, ela se recorda da noite anterior e tenta sair do quarto, mas percebe que está trancada, ela esmurra a porta desesperada, mas suas mãos envelhecidas impedem um esforço de arrombá-las, abre a janela e se assusta com a altura encontrada. O que ela faria? Não poderia ficar presa ali, precisava noticiar a polícia o sumiço de Luana, dar um jeito daqueles dois, nitidamente responsáveis por esse desaparecimento pagarem caro. Ao avistar um homem que passava, berrou. Do outro lado da rua, Jesus paralisou com o chamado e aproximou-se. Chocando-se ao descobrir a narrativa sobre Robson e Sam, ajudando-a descer o telhado.

***

Mais tarde…

Rogério saiu do banho com a toalha enrolada no corpo e precipitou-se para o varal de roupas na varanda, percebendo que uma peça estava seca, foi inevitável não ver um casal gay passear de mãos dadas na rua. O que estava acontecendo com ele? Por que associara aquela imagem com Lucas? Estaria gostando dele? Não! Ele era assexuado por natureza, não gostava de misturar-se intimamente com humanos, achava aquilo asqueroso, mas isso não impedia de amar um. Estaria amando Lucas? Não! Isso não fazia sentido! Por mais que o conhecesse há muito tempo, ainda era pouco tempo para algo mais íntimo. Mas algo ainda o perturbava! Aquele sentimento que surgira não era momentâneo, era resultado de uma construção de anos juntos, sentia isso e isso o amedrontou, por que lembrou a definição de amor.

***

Ezequiel chegou ofegante a delegacia acompanhado de Dalila. O delegado havia sido realocado em outra cidade e um novo havia assumido o cargo em Doce Recanto. Os dois sorriram. O bandido comentou.

– Até que enfim uma notícia boa no meio desse caos!

O profissional logo os recebeu.

– Em que posso ajudar?

Ezequiel olhou para Dalila que cumpriu a promessa fazendo jus a sua vingança.

– Vim denunciar meu pai por pedofilia e pelo assassinato de minha mãe como mandante da sabotagem nas cordas do elevador! Ele confessou-me tudo nessa gravação de áudio.

E entregou trêmula a fita para o delegado.

***

Sam põe gelo na face de Robson, acariciando-o no intuito de fazê-lo se recuperar dos golpes que sofrera.

– Aquele marginal tinha que estar pesando uma cana pesada! Latino estúpido! Mas se ele pensa que vai ficar assim, está muito enganado! Quem ri por último, bebê, ri bem melhor. Segura um pouco esse gelo, mor, calma, é por pouco tempo, agüenta firme, vou avisar meu pai sobre esse plano diabólico deles.

Ele disca para Marcos, contando-lhe tudo.

– Achou que tinha bancado o machão, jogando tudo na cara dela, se ferrou. Ela te provocou para você contar tudo, otário! A essa altura já deve ter de denunciado!

 

ANOITECE…

 

Lucas acorda meio zonzo do tratamento e ao escutar o som de flauta doce se relembra de quando Robson o ensinou a tocar, guiando suas mãos por baixo das dele, ainda pequenos, no quintal do Colégio dos Sonhos. Como desejava voltou no tempo e ter parado ali, naquele instante em que pudera amar e ser amado. Naquela época que Robson ainda não era um canalha, um traidor. Abriu a porta do dormitório e um enfermeiro o convidou para participar da terapia ao vê-lo dizendo que ouvira um tocar de instrumento. Ele concordou e se emocionou ao perceber que uma transexual era a responsável pela melodia. Sentou-se e acompanhou até o final, aplaudindo como os outros. Mas o que mais o emocionou foi o discurso final, ela relatando de como a música ajudou a descobrir seu gênero. De alguma forma, sem explicar como, o mocinho sentiu uma vontade fantástica e mágica de ser uma mulher.

***

Ivette sorri a elas, perguntando se não querem mais chá. Denise é direta.

– Com todo respeito, querida, desde que chegamos aqui, você não nos disse nenhuma palavra sobre a construção daquele túnel secreto no porão da sua antiga residência!

Bolonha foi ríspida.

– Eu acredito que isso não as dizem respeito. Bom, se vocês puderem ir embora agora, eu ficaria muito grata, já que meu estoque de chá cessou.

Laila avermelhou-se, levantou-se para sair, mas Denise a puxou.

– Nem pense em ceder a essa grosseira barata!

Ela virou para a proprietária.

– Escute aqui, Ivette, você pode nos enxotar, chamar a polícia, o exército, a CIA, mas nós não vamos sair antes de sabemos à pergunta dessa resposta.

Ivette se irritou.

– Que petulância! Duas marmanjas dentro da minha casa assumindo essa postura selvagem! Pois já que pediu, vou chamar a polícia agora por invasão de propriedade e perturbação da ordem!

Laila ficou desesperada, mas Denise mostrou a que veio e com um golpe certeiro do Jiu jitsu jogou a mulher contra a parede, prendendo seu pescoço com o antebraço.

– Escuta aqui, sua pata gorda ou você me conta por que construiu aquele túnel ou nem sei o que sou capaz de fazer!

Ivette tenta mentir.

– Eu…não sabia da existência…

– Para de me enrolar, sua bruxa. Diz logo, por que aquele túnel existia!

Ivette encurralada, confessa.

– Nós tínhamos um pacto com a mãe dos meninos!

Denise aperta o braço, deixando-a sem ar.

– Que pacto! Detalhe tudo!

– Uma espécie de chantagem que usávamos com ela para mantê-la firme nos negócios. O túnel foi construído muito antes para outros fins, a cidade vivia uma onda de fiscalização rígida, não tínhamos como traficar drogas! A maneira mais segura era utilizando as passagens que interligam muitas casas, postos de nossos traficantes a antiga estação de tratamento, que se reparou fica bem afastada do centro, justamente para não dar bandeira. Era praticamente um prédio que cumpria as funções de praxe, já que outra estação, muito mais estilizada funcionava próximo ao centro, o que barateava muito mais os custos da prefeitura. Porém, passado um tempo, já enriquecidos, conseguimos patrocinar uma melhor campanha para respectivos vereadores e prefeito e o elegemos, o que nos trouxe de volta, um abandono da burocracia e pudemos investir em outra atividade paralela que estava sendo desenvolvida: o tráfico de órgãos. Meu falecido marido, inclusive, anos mais tardes, havia conseguido o cargo executivo municipal também. Uma dos nossos integrantes era Carla. Ela traficava órgãos depois que abusava das crianças que molestava no porão da sua própria residência, enquanto seu marido sustentava a casa com aulas de história. Claro que contribuímos para ela ir a tal casa, até facilitei o pagamento das parcelas do aluguel no começo. Mas o tiro saiu pela culatra, por que o marido dela descobriu todo o esquema antes de morrer e delatou tudo a procuradoria geral do município, o que por sorte, estava malcumando conosco e por isso não deu em nada.

Laila fica chocada com tamanha artimanha tramada. Denise encara a mulher, raivosa.

– Vocês o mataram por que ele descobriu o plano de vocês?

Ivette é ainda mais enfática.

Ele decidiu exterminá-lo muito mais por um idealismo político. George foi morto por um crime de traição familiar!

Closet no rosto de Denise surpresa.

***

Um motorista desliga o motor ao parar na plataforma de uma velha rodoviária, diante os passageiros que descem do ônibus, eia que Débora aparece. Ávida, ela encara o letreiro de uma placa nas ligas do telhado: BEM VINDO A DOCE RECANTO!

***

A campainha ressoa incessantemente no apartamento do legista responsável por adulterar as informações, a mando de Robson, do assassinato de Fernanda Van Gogh. Ao abrir, ele leva um pontapé no peito e atravessa o sofá, batendo a cabeça na mesa de centro sobre o tapete da sala. Era Ezequiel.

– Seu desgraçado, ordinário! Achou que eu não descobriria onde você morava? O que foi que você fez com meu amigo, implantando as suas digitais naquela corda! Diz-me logo de uma vez, quem mandou você fazer isso foi o Robson, não foi? Ele que te passou as digitais?

De repente ouvi-se uma voz fúnebre e etérea saindo de dentro do corredor obscuro, a pia do banheiro transbordava entupida de lamas, sentiu a barra de suas calças encharcarem e da penumbra um vulto sair com uma pistola.

– Você errou! Como errou, achando que poderia nos subestimar, infiltrando seu amiguinho como vereador! Foi Sofia que entregou a cabeça do enteadinho, ela passou a faca a ele para com auxílios de Robson, poder efetuar o plano sugerido pelo meu menino. Agora se me dá licença, não tenho tempo a perder com futilidades!

E disparou dois tiros contra Ezequiel, deixando-o morto nas costas do sofá. Trocou olhares repentinos com o Legista e puxou seu isqueiro do casaco, ascendendo o cigarro e tragando. Era ninguém menos que Marcos Van Gogh: o grande assassino de George Carvalho.

 

CONTINUA…-” ”>-‘.’ ”>

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