Eterno canto: Capítulo 41 – Democracia (Último capítulo)

 

Capítulo escrito por: Charlotte Marx

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ÚLTIMO CAPÍTULO

Dalila pega um balde que estava embaixo da escada e maquinalmente caminha até o local, despejando água no corpo do pai que grita de alívio por alguns segundos, mas por ser um composto altamente reativo o fósforo branco volta a reagir com o ar, porém dessa vez numa quantidade que impossibilite explosão. Marcos se desespera ao perceber seus braços derretendo, enquanto os irmãos Carvalho contemplam a cena com prazer. Débora balbucia.

– Hoje o banquete é para você, meu pai!

Marcos implora para que a filha o ajude, mas ela não responde.

– Seus malucos, vocês vão me pagar, caro… Por isso!

Lucas retira do sofá uma corrente e chicoteia na face do ministro, arrancando-lhe sangue.

– Você não vai sair daqui vivo, seu assassino de uma figa! Você vai ter a morte que você merece, bem lenta, dolorosa e pueril. Por mais que meu pai de criação tenha tido um filho com a sua mulher, nada justifica sua atitude grosseira de esquartejá-lo. Aquela noite, ele salvaria a nação inteira dessa classe pedratória de vocês, iria instaurar o socialismo para lá na frente termos uma democracia de verdade, onde não precisaria existir mais estados, por que as pessoas se autogovernariam, sendo éticas e altruísticas umas com as outras.

Marcos ri daquele discurso.

– Você é um idiota, igual ao seu pai, palerma, burro. O ser humano é mau por natureza, sempre vai existir hierarquia, por que sempre vai existir diferenças e uma delas vão querer dominar as outras. Essa sua visão é muito romântico e idealista, igual à dele, de que adiantou peitar os mais fortes, sendo um pardal? A corda sempre tente para o lado mais fraco…

 

INICIO DO FLASHBACK…

George chega ao início do corredor e sente as bainhas de sua calça encharcarem com o transbordar daquelas pias entupidas e com torneiras ligada a todo vapor. Correu para fechá-las no sanitário dos faxineiros e um mascarado tratou-lhe de meter o machado no pescoço, decapitando sua cabeça que rolou alguns centímetros e caiu estirada no chão. O corpo desmontou-se, porém, não dando por satisfeito, o homem cortou-lhe em várias partes, tornando aquele banheiro um verdadeiro cenário de horror, um pântano de sangue e carnificina. Com um gesto rápido, para aliviar o calor, Marcos retirou a máscara e se satisfez com o feito.

– Isso é por você ter roubado a minha mulher e por defender esse comunismo de merda! O mundo não é para pessoas sonhadoras, é para pessoas práticas, sagazes e principalmente imorais.

 

FIM DO FLASHBACK…

Débora pisoteou a face do psicopata.

– Seu bandido imundo, homicida! Você nem amava a sua mulher de verdade, tanto que mandou a matar naquele elevador! Era só sede por poder, dominação. Você pôs fim a uma das pessoas mais incríveis que já existiu, um ser que não via relações verticalizadas, que enxergava todo mundo em pé de igual, que sabia amar, que não importava se iria ficar sem a roupa do corpo contanto que uma família de mendigos não morresse de frios nas ruas. Como pode fazer isso? Você…

Não deu tempo de responder, Lucas voltou com um martelo da despensa e amassou a cabeça do homem com incessantes golpes, afundando o crânio e tirando o único resquício de vida.

– Vai para o inferno, seu desgraçado! Onde você arda pela eternidade pelo meu pai, pela Fernanda e pelo Ezequiel!

Débora contém o irmão que ofegante é afastado por Dalila. A leucemia encara a face de Marcos sem vida, totalmente deformada.

***

Brasília e suas ruas estão um caos, passeatas para cá, jornalista para lá. Deputados não querendo gravar entrevista pelo golpe que Otto instalara na nação. Outros implorando para a população agir. Enquanto no interior do palácio do planalto, Otto reforçava suas alianças militares com países centrais em troca de desconto de impostos para as multinacionais. Ele então outorga uma lei de purificação nacional e extermínio às patologias como negros, população GLS, deficientes físicos e psicológicos, mendigos, esquerdopatas e mulheres emancipadas e feministas. As emissoras de apoio a sua ditadura registram o feito, manipulando a linguagem e associando a medida ao progresso.

***

Dalila e Débora o encaravam em silêncio. Lucas não gostou nem um pouco.

– O que vocês querem que eu faça? Eu não consegui me controlar, esse monstro precisava pagar! Sei que a gente combinou de só o deixar marcado, de torturá-lo, mas não deu! Querem me denunciar, pois então façam! Pelo menos agora serei preso de verdade!

O interfone toca e Dalila corre para janela, ficando surpresa com o que vê. Débora a interroga.

– Alguém está chegando aí?

Dalila sorri.

– Veja com seus próprios olhos.

Ela puxa a porta e diante de uma gritaria, Denise aparece. Lucas não entende nada.

– O que você está fazendo aqui?

A vereadora vai explicar, quando percebe o corpo de Marcos no chão.

– Que horror! Vocês mataram esse verme?

Lucas desvia o olhar dos de sua irmã.

– Foi inevitável! Não me controlei!

Denise se recupera do susto.

– Eles querem você, Lucas!

O mocinho não entende.

– Eles quem?

Denise o puxa pelos braços até lá fora.

– Eles!

Dalila, Débora e o cardiologista se surpreendem boquiabertos. Diante deles, milhares de pessoas, em que não era possível perceber o fim, pediam para Lucas, por meio de placas, cartazes e gritos que continuasse o legado de seu pai e posse um fim naquela corrupção deslavada, naquele totalitarismo de extrema direita que Otto Santiago implantara.

***

Cristiano chora ao ver no IML o corpo de sua mãe. Ele se recorda de quando discutira com ela, antes de chegar a Doce Recanto e a deixara passando mal em casa, pós seu empurrão, negligenciando socorro. Como se arrependera de não tê-la tratado bem, de ter fugido para o Espírito Santo, restabelecer sua paz interior pela morte de Lucas, fora egoísta e a deixara sofrendo por saudades. Agora ela estava morta e não havia nenhuma forma de reparar aquele dano. Sua dívida com ela seria eterna.

***

Lucas não entende em um primeiro momento, teriam despertado da alienação midiática? Denise o relata.

– O avião que o presidente Francisco Mises estava com o ministro de Relações Exteriores caiu no Mato Grosso do Sul! Morreu. Na sucessão, Otto ascendia ao poder, o que de fato veio a ocorrer, mas ele fechou o congresso com um ato constitucional e fez aliança com alguns generais, transformando nossa frágil democracia numa ditadura.

Lucas fica revoltado.

– Que absurdo! Quem esse golpista safado pensa que é?

Denise o mostra pelo celular a última lei que impôs. O protagonista e sua irmã ficam horrorizados. O médico confessa.

– Extermínio de grupos patológicos? Patológico é ele! Não acredito que mergulhamos numa onda nazista! Só pode ser um pesadelo! Esse foi o maior erro do governo anterior, ter feito aliança com essa gente, Francisco já tinha assumido o governo de forma ilegítima e agora essa consolidação feroz. Deve ter alguma forma de…

Ele se vira para multidão e entende, emociona-se com o reconhecimento de amor pela sua luta contra a burguesia e desce da escada na varanda e antes de começar a falar é levantado por dois marmanjos para que o resto da multidão possa ouvir sua declaração.

– Sei que muitos não vão conseguir me ouvir, por que não tenho microfone. Mas me sinto honrado de desejarem que eu os represente, por mais que eu ache que nunca estarei aos pés de suas virtudes, de suas vontades. Entretanto, vivemos uma era árdua, indissolúvel com o ápice dos anseios capitalistas que jamais respeitou plenamente o conceito básico de democracia e é diante dessa realidade, afirmada nessa conjuntura totalitária e sem escrúpulos que Otto Santiago quer implantar de todas as maneiras, mas o que ele não considerou, é que somos milhares, milhões perto da centena de homens que ele possui e se unirmos proletários, nós vamos conseguir derrubá-lo e digo mais vamos fazer história.

Todos aplaudiram esperançosos e dispostos a darem o sangue para arrancar o parasitismo de Otto e de todos seus aliados da política brasileira.

 

NO OUTRO DIA…

Pedro acorda e percebe que Elvira está chorando aos pés da cama.

– O que foi? Meu bem! Por que está assim?

A matriarca é direta.

– Olha que fizemos da nossa vida, Pedro? Ameaçados por um tirano que agora tomou as rédeas do país, nosso filho que é homossexual corre perigo de vida! Todos os direitos das mulheres serão achatados! Por que fomos nos envolver novamente com Otto! Pedro? Nem sei como um dia eu pude chamar esse cara de amigo!

Pedro a abraça.

– Nosso menino escolheu o caminho dele! Agora terá que arcar com as conseqüências, não pode se culpar por isso e pense pelo lado positivo, Vira, os negócios vão melhorar, por que ele limitou e reforçou velhas alianças com os países centrais, adotou o nacionalismo como medida econômica, as indústrias brasileiras conseguiram melhor se desenvolver! Nosso lacticínio vai bombar!

A mulher sai dentre seus braços.

– Como pode pensar em lucro empresarial numa hora como essas? A vida de nossos filhos estão em risco! Você é feito de quê? De gelo?

Pedro satiriza.

– Olha só quem fala! Você topou fazer aliança com Otto e todo mundo sabe disso, apareceu até na televisão com aquele laudo fajuto que o Doutor Laurindo nos concedeu por suborno! Teve a audácia de ir ao vivo e declarar para o país inteiro que seu filho era doente mental. Pior! Para o país inteiro, para o mundo inteiro, já que vivemos numa era globalizada. Você é tão mal, quanto eu! E não vem cantando de galo, não? Sou eu que pago as suas contas, o seu cartão de crédito, o que você come, o que você veste, então abaixa essa bola e ponha-se no seu lugar de esposa.

Elvira não acredita no que seu marido de anos estava lhe falando, quanto patriarcalismo escroto e vestindo rapidamente seu casaco, mesmo de camisola por baixo, abandonou o flat, depois de proferir.

– Pode ficar com as minhas roupas, só vou sair com essa e depois mando devolver! A mim, você não me toca nunca mais!

SEMANAS MAIS TARDES…

Otto mantém o supremo tribunal federal com alguns profissionais e consegue negociar com os juízes a liberdade em regime aberto de Sam Van Gogh. O que sai de penitenciária masculina sobre vaia dos detentos e sobre escolta militar de segurança. Ele arruma seu cabelo e mostra o dedo do meio para uma das filmadoras que registravam a cena.

– Você não conseguiu realizar o seu intento, Lucas Carvalho. E agora estou voltando para acabar com a sua espécie! Aguarde-me! Bebê!

Entrando na limusine negra de vidro fumê.

***

Lucas empurra a porta de aço para cima e se alegra ao ver o espaço que uma milícia de baixa patente concedeu para ser um dos pontos de treinamento secreto e de reunião das guerrilhas que pretendia montar, afinal Otto estava armado e para lutar precisava treinar o povo. Nesse instante Débora chega ao antigo estabelecimento comercial ofegante.

– Otto não mostrou suas garrinhas contra nós, até hoje de manhã quando Sam foi solto e este prometeu se vingar de você! Precisa se esconder o quanto antes!

Closet no rosto do mocinho enfurecido.

***

Sam chega de primeira classe a Brasília num jatinho particular e é recebido por Otto e seus compatriotas.

– Seja bem vindo, meu rapaz! Sua mesa está garantida! Alto escalão!

O mauricinho se enche de altivez e resolve fazer uma pergunta.

– Presidente, por acaso o senhor não poderia me conceder a honra de liberar o meu boy magia, necessito de um bom Equidae para repor as energias perdidas naquele cárcere pulguento!

A resposta do ancião é um tapa em seu rosto.

– Ai!

O vilão leva a mão ao rosto, surpreso. O ditador deixa claro alguns pontos.

– Escute aqui, se pensa que só por que vai ter um cargo de soberania já vai poder fugir da constituição, está muito enganado. Está proibido nesse país relações homo afetivas e promíscuas, governo para a família brasileira, portanto trate de se comportar, se não serei obrigado a exilá-lo dessa pátria!

E sai com seus homens, deixando o jovem pasmado.

***

Jesus leva de carro Cristiano até o esconderijo que Débora e alguns amigos arrumaram para Lucas: o porão de um velho armazém em Resende, cidade do interior do Rio de Janeiro que faz divisa com São Paulo.

– Puxa a vida cara, deve estar sendo difícil para você ficar aqui!

O advogado beija-lhe carinhosamente, o cardiologista desabafa.

– Nem sabe como! Detesto ter que partir para isso, mostra que sou covarde e não quero que Sam pense assim!

– Eu sei, mas pensa no futuro, quando a equipe vai estar preparada para lutar contra o exército nacional! E além do mais as suas recomendações serão gravadas por áudio e criptografadas, assim todos poderão te ouvir e reproduzir sua estratégia.

Lucas o abraça.

– Você é um cara incrível, com poucas palavras consegue me acalmar. E é por se importar comigo que preciso te confessar uma coisa.

Cristiano fica confuso.

– Há segredos entre nós?

Lucas hesita em responder e fala.

– Na verdade sim! Apenas um! Desde que fui internado naquele sanatório pelos meus pais, os quais prefiro chamar de família Magro, eu tive contato com outra forma de enxergar a minha sexualidade ou melhor o meu gênero. Eu conheci uma transexual mais velha que a gente e agreguei um pouco de referência que ela me passou. Eu nem sei como te dizer isso, por que talvez doa e muito aí dentro, mas aquilo me despertou para algo tão forte, tão aquém da minha condição humana, eu me vi na frente do espelho por diversas vezes com seios, com um corpo acinturado, com traços mais sutis, mais delicados, nada europeus, por favor, eugenismo passa longe de mim, você sabe. Refiro-me a vontade de amamentar, de sentir que posso gerar uma criança, mesmo que essa possibilitada ainda seja remota pela ciência, de poder pôr um vestido, usar maquiagem sem ser julgado pela sociedade, claro que eu vou sofrer um pouco de discriminação no início, mas a minha insistência vai ser aceita. Eu me descobri ser uma mulher, Cristian! E quero muito, quando essa turbulência política passar; por que creio, ela vai passar; operar!

Seu namorado não consegue conter as lágrimas.

– Como foi que disse? Você é uma mulher!

Lucas abaixou a cabeça envergonhado, não conseguiu olhar para ele.

– Sim… Sou! Eu sinto muito por isso!

E virou as costas, pois não queria ver seu amado sofrer. Cristiano percebeu a impossibilidade de refutar aquele desejo e saiu em silêncio do local. O mocinho se virou e fechando a porta, não agüentando de tristeza, deslizando pelo amadeirado e sentando no chão em soluços incomensuráveis por ter que escolher entre ele e seu amor. Só esperava ter feito a escolha certo.

Por mais que Cristiano o amasse e fizesse de tudo para poder tê-lo, aquela condição extrapolava tudo, por que atingia a própria essência do advogado que era ser homossexual. Atravessou a linha do trem sem olhar, quando cortou caminho para o centro da cidade e acabou morrendo atropelado por uma Maria fumaça. A cena se apagou.

***

A morte de Cristiano mexeu muito com Lucas. O corpo fora encontrado por moradores próximos a notícia chegou a Jesus que avisou aos outros. Sentiu-se culpado, pois provocou o desnorteio do advogado. Sam ficou sabendo pela internet e se alegrou do destino ter se vingado por ele do encosto, como dizia. O ódio que propagava aos homossexuais, mesmo muitos sabendo da sua orientação, era tida com repúdio, com asco, pela população LGBT, que fazia memes e satirizavam o rapaz. Desviava dinheiro para melhorar as condições de Elton, já que não podia libertá-lo e implementava cada vez mais novas medidas de condicionamento a um homossexual- padrão, o qual não podia  ter a beleza européia, pois isso era coisa de bicha e essa raça deveria ser extinta para sobrar mais homem no mercado, tinha que ser macho e fazer academia com altas doses de termogênicos e suplementos protéicos, além de ser discreto e a favor do seu governo e de Otto, o que infelizmente contava com um pouco mais de 10% da população, em números : 20 milhões de pessoas a mais como resistência aos ideais democráticos. Passaram-se dias, semanas, meses, as ruas tornaram-se verdadeiros cemitérios, campos de concentrações, onde se podiam ver corpos de opositores jogados aqui e ali por algum crime a nação como Otto afirmava. Massivamente a população genuinamente de origem africana era a que disparava entre todos.

Lucas ao passo que preparava com instruções a guerrilha marxista de milhões de pessoas, contando com a ajuda, logicamente, em outros esconderijos, de seus velhos amigos e de alguns novos, iria passando pelo processo de metamorfose, transformando aos poucos pela maneira de se comportar, de se vestir e principalmente de aceitar seu gênero até num momento cômico na companhia da irmã decidindo se chamar Diana. Rogério que acompanhava tudo percebia que seu sentimento pelo rapaz não mudara nada com aquela decisão, pelo contrário, só aumentava, por que não se importava com a aparência, só queria estar perto da pessoa que amava.

Quando tudo parecia caminhar para o grande dia D, eis que uma fatalidade aconteceu. Um traidor no meio da guerrilha entrega a organização e o esconderijo de Lucas, deixando Sam e Otto surpresos com a armação do rapaz.

 

Débora invade correndo o armazém acompanhada de Laila e chegando ao porão avisa o irmão que a existência do grupo fora descoberta, inclusive, da sua participação na liderança e para tanto estariam vindo contê-lo com tanques de guerra, deixando-o boquiaberto.

***

Sofia anda de um lado para o outro em sua casa, nervosa, sem saber o que fazer, quando seu filho Guto chega do trabalho.

– Pelo amor de Deus, Guto, eu não sei o que faço, filho. Estou desesperada!

O homem não entende.

– O que foi, mãe? O que houve?

Ela revela.

Antes de morrer, George me confidenciou uma cópia dos documentos, pré-acabados, contudo, muito bem construídos da maneira que ele pretendia tomar o poder. Eu não sei o que faço, acabou de sair na televisão que o esconderijo de Lucas foi descoberto. Eu entrego ou não os papeis a ele?

Guto grita irritado.

– Claro, mãe! Você deve isso pelo pai dele! Se for uma forma de destruir esse autoritarismo, pois que o faça como cidadã.

Ela o olhou decisiva.

***

Os tanques invadiram a cidade de Resende. Porém, os irmãos Carvalho já estavam a quilômetro de distância aguardando a chegada dos manifestantes e dos membros da guerrilha. Diante daquele apartamento que dava vista para o palácio do planalto, disfarçado com a mesma tecnologia que usara quando forjara sua morte, Lucas encarava os prédios políticos contando segundos para finalmente poder agir. A campainha toca e Jesus acha melhor ele atender, para não dar bandeira. Os irmãos se escondem e percebem se tratar de Sofia.

– Suponho que Lucas esteja por aqui?

Débora sai irritada do local.

– O que você está fazendo aqui? Quem foi que te dedurou onde nós estávamos?

A bibliotecária explica.

– Um conhecido do meu filho participa da guerrilha, consegui o número dele e ele obteve essa informação, mas não se preocupe ninguém desconfia de mim e tive muito cuidado para sair de casa. Acho que devo isso a você, Débora!

E a entrega uma pasta vermelha carcomida nas beiradas.

– O que tem aqui dentro?

– São Xerox dos documentos que seu pai escreveu para a tomada do poder! É um plano que ele arquitetou, acho melhor você e seu irmão lerem antes de partirem para ação.

Débora sorri agradecida. Sofia se precipita para sair, mas se vira.

– Pede perdão ao Lucas em meu nome! Sei que não mereço, mas diz que eu estive aqui… Eu aceitei um suborno da família Van Gogh para passar as digitais dele que estavam em uma faca que ele utilizou em minha casa quando descobriu o meu envolvimento com o seu pai.

Débora fica surpresa com a sujeição da mulher. Lucas não consegue conter as lágrimas, limpando-a pelo pulso.

– Até ela, aquele trio comprou. O ser humano está totalmente coisificado, tornou-se mercadoria da pior espécie. Empresta essa pasta, me deixa ver o que tem aqui dentro.

Ele abre e se choca ao ler os papeis, esquecera da regra mais importante de uma batalha: O Antídoto! Para deter o inimigo, nada melhor do que ser um ex-amigo.

Débora que lia tem o mesmo feeling que ele.

***

Sam chega a uma academia e cumprimenta o proprietário, analisando o esforço dos seus clientes em puxar o ferro. Um sanitarista o acompanha.

– Hélio! Qualquer anormalidade você registra para exterminarmos. Aqui tem que ter homem de verdade, uma biba identificada, já sabe! Holocausto!

– Pode deixar, Ministro Sam Alves.

– Acho bom!

O vilão já de cabelos crescidos, joga-os de um lado do ombro e retoca o pó de arroz. É quando ele vê colocando um homem parrudo colocando um halter no chão, ele o chama, mas o homem finge que não escuta achando ser mais uma pessoa qualquer, ele desce as escadas de um segundo cômodo e vai encontro de um rapaz mais magro cheio de trejeitos, revelando com um beijo ser seu namorado. Os olhos de Sam se escancaram de revolta. Além de o homem deixá-lo no vácuo, o trocou por uma bicha louca, anã e mais albina que ele? Não suportou e retirou do bolso um revólver, mirando e disparando naquele rapaizinho, cinco vezes. O homem mais velho ficou horrorizado, o vilão berrou.

– Cala a sua boca, se não quiser morrer, seu frouxo imundo, ativo babaca, sujeitando aos prazeres de um frangote como esse enquanto pessoas como eu você despreza! Pois saiba que eu sou autoridade ministerial e você está detido para uma instituição educacional para aprender a amar quem merece de verdade! Nem pense em fugir por que eu disparo.

O homem começou a chorar imóvel.

 

NAQUELA NOITE…

A emissora Novilíngua transmitia em seu processo de dominação das massas depoimentos de Sam Alves e Pedro Magro para dar credibilidade à idéia de terrorismo que Lucas queria implantar no país com a formação de suas guerrilhas. Mas após ler os documentos de seu pai, o protagonista não tinha como não segui-los, assim sendo entregou-se no Palácio para os chefes militares de Otto.

– Vocês me queriam! Pois aqui estou eu! Entrego-me a Otto! Porém, quero como o meu último desejo falar com ele.

Os militares se entreolharam, estranhando a atitude do rapaz e o levaram sobre escolta até o interior. Débora e seus amigos terminavam de avisar o resto da equipe a fim de darem legitimidade ao teatro do mocinho que começaria em breve a destruir o império do empresário, de dentro para fora.

Um clarão ascendeu na face de Otto quando Lucas entrou em seu gabinete, Sam achou aquilo uma péssima idéia.

– Como pode permitir que uma criatura dessas tenha o privilégio de vir aqui conversar conosco depois de tudo que nos fez? Ele tem que ser é exterminado numa câmara de gás, antes que seus genes semeiem pela terra, formando novas fêmeas marxistas!

Otto o acalma.

– Acha que eu nasci ontem? Dispenso seus conselhos, Ministro Sam Alves, álias, o senhor ainda tem que me entregar aquele relatório da fiscalização das academias. Pois o que está esperando para terminá-los? Um chupapo na orelha?

Sam fica irritado com o sorriso sarcástico que surge no rosto de Lucas e braveja ao sair.

– Você ainda me paga, sua coisa insignificante da arraia miúda!

Lucas é cínico.

– Estou morrendo de medo!

Sam volta e segura em seus braços. Lucas o enfrenta.

– O que é? Vai me matar como você fez a Luana e com a Gumercinda, é? Enquanto você ainda usa britadeira, eu já estou no canhão! É tiro e queda! Abre o olho que eu não sou otário como as duas!

Sam se enfurece.

– Você está me ameaçando, sua moela de pombo-correio?

Lucas completa.

Estou! Por quê? O que o escaravelho caucasiano pretende fazer comigo? Mandar-me para China para trabalhar numa plantação de arroz com condições análogas a escravidão? Ou me jogar do Coliseu? Pior! Vai me fazer comer carne com papelão e depois me trancar num cômodo com uma televisão de sinal não analógico e postar milhões de fotos dizendo que foi sem querer, afinal abaixo a regulamentação, por mais que ela esteja na constituição, produzo carne como se fosse para minha família? O anacronismo da sua mentalidade chega a me dar arrepios! Por que não resolve fazer uma viagem sem volta para o século XVI, seu reacionário podre!

– CHEGA! – Otto berra do outro lado da sala.

Sam sai de fininho e o tirano pede para sua equipe verificar se o não está sobre posse de armas, de qualquer espécie e pede para deixá-los a sós. O estrondo da porta confirma a grande oportunidade para o mocinho dar o xeque mate. O homem é direto, abre a gaveta e oferece-lhe um charuto.

– Não, obrigado! Eu não fumo!

O usurpador é irônico.

– Olha lá, hein? Será a última chance antes de bater as botas! Não quer aproveitar?

Lucas fingiu choro.

– Antes de ir a minha sina, queria muito te dizer, por isso pedi para falar com o senhor, que te admiro muito.

Otto gargalhou.

– Acha que vou cair no conto do vigário? Meu rapaz! Estou percebendo que está tentando me passar a perna, puxando o meu saco! Que foi, percebeu que não podia contar comigo, né? Tenho um forte exército, fala a verdade!

E puxando um charuto virou-se para janela, contemplando a lua cheia. Lucas o encarava pelas costas com nojo.

– Na verdade não! Nem me importo em morrer! Isso é o de menos para mim, se realmente fui longe demais, eu mereço pagar! Mas quero que saiba que por mais que não acredite meus planos jamais era te derrubar!

Otto se vira olhando em seus olhos.

– Para de mentir! Vazou a notícia para o mundo inteiro ouvir, você estava criando uma guerrilha de caráter comunista, queria implantar sua ditadura contra a família brasileira, contra nossa ordem, pureza, hierarquia, superioridade de nosso povo.

Lucas continuou a manipulação.

– Sim, eu fiz isso mesmo, para parecer que eu estava contra você, para depois, eu mostrar a minha intenção desde o começo. Acha mesmo que minha equipe sozinha vai convencer a grande massa que apoia o meu movimento de continuar lutando por isso? Eles não possuem a popularidade, a retórica necessária, são cultos demais, rebuscados, obtusos, herméticos, não sabem dialogar com a simplicidade. Essa hora devem achar que estou a minutos de favorecer a tomada do Palácio, porém, o que desejo mesmo, é te ajudar a permanecer nesse seu governo muito inteligente que propôs para o país.

Otto o encara com desconfiança.

– Está blefando! Por que me diria tudo isso agora?

– Por que eu nunca fui marxista de verdade, eu sempre achei que esse país precisava de coesão, de ordem. Presidente Otto, eu jamais iria te retirar do poder, pelo contrário, eu queria trazer a grande massa para seu império realmente ganhar legimitidade. Essas emissoras que você contrata para fazer propaganda, não estão com nada. Precisa seguir o exemplo de Vargas, precisa chegar até as massas, promover mais empregos, ter a flexibilidade de negociar com a burguesia, inclusive que detém oligopólio político. Fechar o congresso não foi uma boa escolha. Você precisa tanto dos capitalistas quando dos proletários para desenvolver a nação. Eu só queria te ajudar, ser o seu conselheiro, posso muito bem tentar convencer a massa do quanto suas idéias são excelentes e aos poucos eles vão entender esse sistema personalista maravilhoso que está querendo construir na nossa nação, aquela do futebol menino!

E diz esses últimos dizeres com um falso sorriso de alienação.

Otto dá-lhe as costas.

– É impressionante a sua capacidade de manipulação. Eu não acredito em nenhuma palavra que saia dessa sua boca!

Lucas percebe o tom melancólico da voz do idoso e compra a idéia.

– Bom… Se você prefere assim, então não me resta mais nada, senão me entregar para o meu destino. Com licença! Nobre Presidente!

E bate a porta, deixando Otto perturbado. O mocinho caminha com a guarda até o estacionamento frontal das torres, sobre comoção nacional, ele é obrigado a retirar as roupas para servir de exemplo a humanidade como um inimigo do governo pode se dar mal. De frente para os drones das emissoras que sobrevoam o local para captar imagens aéreas, ele é amarrado em uma enorme chapa de aço, ao longe se escuta o grito da multidão implorando para aquela injustiça não acontecer. Débora percebe a burrada que fez em seguir os planos do pai e começa a passar mal, Jesus e Laila a acodem. Rogério deixa o prédio e avança contra as pessoas até a cerca para registrar a última imagem do amado. Dez militares rodeiam em vários ângulos o rapaz, posto no centro deles. Os soldados miram o canhão de suas espingardas para nosso herói, enquanto em sua sala, no segundo andar, Sam assiste a cena de camarote comendo pipoca.

As armas são destravadas. É possível ouvir o batimento cardíaco de Débora aumentar. A nação inteira se paralisa para ver a cena, quando a vida de Lucas estava por um triz, Otto aparece aos berros no estacionamento.

– Parem! Parem!

Todos se surpreendem com a atitude do ditador que se irrita com a monotonia deles.

– Eu já mandei abaixar as armas! Sou eu que mando nesse país e decido que esse jovem vai ter mais uma chance de me provar se merece viver! Vestem-no e o levem para dentro!

Rogério sorriu. Débora desmaiou para virada de mestre. Laila olhou esperançosa. Jesus riu. Sam se descabelou. Joaquina quase quebrou a imagem de nossa senhora aparecida quando viu tudo pela televisão. Paçoca comemorava o feito junto com a freira, tomando breja. O cenário esmoreceu.

***

NO OUTRO DIA…

Lucas que dormira em um dos quartos no palácio do planalto dirigiu-se a sala de jantar, onde Otto e seus ministros terminavam de tomar café. Sam fez uma expressão de nojo ao vê-lo.

– Eu não acredito que esse progressista vai tomar café conosco! Foi à pior burrada que você fez deixando esse petrália vivo!

Lucas tripudia.

– Antes petrália, do que coxinha!

Sam fica boquiaberto com a audácia do rapaz.

– Veja Presidente! Os ideais desse demônio não mudaram em nada. Está esperando só a corda para enforcar todos aqui.

Otto se irrita com aquela discussão.

– Você já terminou, não foi? Ministro Sam Alves! Então pode ir!

– Mas Presidente…

Um general do exército Nacional se intromete.

– Não ouviu o Presidente, gazela? Cai fora! Circulando!

Sam encara Lucas que esboça um sorriso sutil, unindo as sobrancelhas. Ele se acomoda na primeira cadeira.

– Primeiramente, se me permite, queria te agradecer presidente Otto por ter poupado minha vida, eu…

Otto o interrompe.

– Poupei por que preciso dos seus serviços, mas não se engane, ainda não confio em você, hoje será a sua grande prova de parceria!

Lucas fica ansioso.

– Pois fale, fale logo, o tiver que fazer eu faço.

Otto disparou.

Vai ir ao meu lado da imprensa, revelando para a nação inteira, o quanto estava enganado sobre mim e revelando seu apoio ao meu governo.

Lucas se surpreende com o pedido, ela olha para um por um que estava sentado naquela mesa e percebe que todos estão olhando para ele.

***

Sem escolhas, o mocinho dentro de uma entrevista coletiva declarou para o Brasil inteiro que estava enganado sobre o caráter de Otto, o qual tinha boas intenções para o futuro do Brasil e que a partir daquele momento ele o apoiaria. Débora e seus amigos perceberam que o rapaz teve que se posicionar forçadamente e constataram o quanto de negativo aquele depoimento iria gerar para a imagem de Lucas, iria ser difamado nas ruas, como traidor, muitos ficariam sem esperança, mas os fins justificariam os meios.

O passar das semanas seguinte foi o tomar das ruas pelas manifestações, mas a polícia federal consegui conter os anseios da população com bomba de gás lacrimogêneo e spray de pimenta. A situação se agravou quando alunos de várias faculdades fecharam a Avenida Paulista, a fim de com a paralisação do trânsito pudessem transmitir a mensagem de luto que a nação mergulhara e tanques de guerra passaram por cima deles, massacrando-os como a guerra na Praça Celestial na China no final dos anos 80.

 

Por dia, centenas de negros, mendigos, feministas, homossexuais, transexuais desapareciam misteriosamente de suas rotinas e a família jamais tinha uma pista do que acontecera, exceto pelo camburão de dedetização: Nação mais limpa é nação mais evoluída que circulava sempre por perto quando isso acontecia. Lucas, no entanto, por mais que sofresse com tudo isso, não deixava se abater e usando sua lábia conseguia cada vez mais ficar íntimo dos aliados de Otto, inclusive do próprio presidente que adorava suas piadas sobre pobres.

Mas naquela noite, o auge da confiança chegaria ao extremo. Em uma discussão com Otto que descobrira o desvio de verba para ajudar Robson, Sam atentara contra a vida do tirano e o arremessara pelas escadas do Planalto, deixando agonizando de dores no chão.

– Quero que você morra seu egoísta! Meu namorado vai sair daquele lugar, eu juro!

 

Lucas presenciara a cena ao longe, assistindo a tudo, quando acordara no meio da madrugada para buscar um copo de leite na cozinha. Assim que o vilão sai, ele se aproxima do idoso, aos pés da escada e o ajuda a levanta.

– Vem, eu vou te levar para o quarto e chamar ajuda médica! Vai ficar tudo bem, eu prometo para o senhor, vossa excelência!

Otto o agradeceu.

– Agora percebo o quanto você é confiável, meu rapaz. É um vejo anjo intercessor! Muito Obrigado!

Lucas sorriu esperançoso.

Depois da recuperação, Sam tentou fugir, mas foi capturado por soldados do exército nacional e levado para a caldeira, onde Otto o esperava.

– Vou te ensinar de uma vez por todas, seu boiola fedido! Com quantos paus de faz uma canoa.

E sobre gritos de pânico, o mauricinho é atirado em água fervente, sendo fritado vivo com queimaduras de terceiro grau. Mas Otto poupa-lhe a vida, pois queria que toda vez que ele olhasse para o espelho, lembra-se do monstro que se tornara por tentar atentar contra o seu mestre! O vilão ficou irreconhecível, permanentemente desfigurado e Lucas sentiu-se vingado.

Algumas semanas mais tardes, a nação parecia ter desistido de lutar, tudo parecia estar pacificado, neutralizado, quando finalmente Lucas recebera o posto de Sam e seu primeiro salário, o qual pode fazer sua primeira encomenda sem vistoria: Cicuta!

Ele convenceu alguns cozinheiros mal tratados por Otto, reforçados por suborno a colocar aos poucos, pequenas doses nas refeições de seus aliados que freqüentavam ou habitavam o Palácio e assim foi feito.

Subornou o sanitarista e guarda-costas para quando saía para a rua e encontrava de relance com sua maninha e seus amigos, passando instruções do próximo passo do grande plano do dia D.

Dizia:

 

Não se preocupem! Estou bem e perto de virar essa ditadura de uma vez por todas!

Otto cada vez mais adquiria confiança no garoto, tanto que começou a confidenciar-lhe segredos de família que Lucas fingir ouvir, odiando o machismo presente no relato.

Mais algumas semanas se passaram e ele conseguiu receber em seu gabinete, generais do exército nacional para negociar seus futuros planos sobre forte desvio de dinheiro, o qual justificava para Otto dizendo que era necessário para manter velhas alianças. Desse modo, aos poucos conseguia destruir aos poucos a estrutura de poder do neonazismo do empresário. As melhorias nas condições de trabalho e a negociação com a burguesia, de maneira equilibrada, contribuíram para a popularidade de o usurpador aumentar e juntamente consigo Lucas iria conseguindo mais notoriedade.

Após a recuperação das queimaduras, Sam resolveu fazer uma visita de máscara a Elton na prisão e quando resolveu retira-la sobre curiosidade do presidiário, levou um fora que jamais esqueceria na vida. Pela primeira vez, o vilão que tinha um dos rostos mais bonitos do mundo, o que permitia sempre levar cantadas, pedidos de namoro e fama pelo país inteiro, ainda mais pelo fato de ser milionário, agora se perdia na rejeição e na humilhação pública, pois todos sabiam de seu histórico, de seu caráter e agora de sua aparência.

 

FOI QUANDO O GRANDE CLÍMAX DESSE DESFECHO CHEGOU…

Os efeitos do veneno acumulado no corpo logo começaram a fazer efeitos mais evidentes e as pessoas começaram a morrer a rodo, um após o outro, seqüencialmente em um intervalo pequeno de 45 dias. Otto preocupado contratou uma equipe para fazer a biópsia e se surpreendeu ao descobrir que todos, sem exceção estavam sendo contaminados com um poderoso veneno. Naquele mesmo dia, ele procurou Lucas em seu quarto para revelar a descoberta e percebera que o mocinho estava no banho, quando ele resolveu sair, notou uma caixa escondida atrás do guarda-roupa e estranhou. Puxou-a e olhou seu conteúdo ficando horrorizado: era o tal tóxico!

O protagonista saía do banheiro tranquilamente com o roupão no corpo quando levou o maior susto de sua vida: Otto estava sentado em sua cama, fervilhando de ódio com uma bazuca apontada para ele! Jogados sobre a colcha estava as dezenas de pacotes do veneno que ele usara para desestabilizar os aliados do facínora, levando-os ao óbito.

– Seu desgraçado! Você nunca esteve do meu lado, só queria vir aqui para dar seqüência ao seu plano hediondo de implantar o comunismo no país! Pois de nada adiantou, eu descobri há tempo e você morreu na praia!

Ele dispara contra o mocinho que se abaixa rapidamente, conseguindo se desviar e fugir pelos corredores, escondendo em um dos cômodos do Palácio. Pela fresta da porta, esperou Otto desviar para outro caminho e voltou ao seu quarto, pegando seu celular e avisando a irmã.

– Ele descobriu tudo. É agora ou nunca! A segurança está do nosso lado! Avisam todos depressa! Hoje esse pesadelo termina!

– Eu se fosse você não teria tanta certeza disso!

Lucas se vira e mal dá tempo de reagir, é atingido no peito. Ele não agüenta de dor e perde o equilíbrio, caindo no chão, de frente para o sociopata.

– Eu poupei sua vida certa vez, mas vejo que foi um erro. Aqueles que nascem perdedores, sempre são perdedores!

Ele mira com êxtase no jovem e quando vai atirar é atingido nas costas por uma arma. O idoso cambaleia e cai ao chão, Lucas o chuta com o pé e se apodera da bazuca. Ele olha para a porta e se choca ao perceber que quem o ajudou foi Sam.

O vilão deixa sua arma sobre a mesa e ajuda Lucas a se levantar.

– Vou te ajudar a sair daqui! Vem, vamos comigo.

O protagonista não entende.

– Por que você fez isso? Nunca nos demos bem!

Sam é franco.

– Alguém tinha que parar esse sujeito e agora entendo na pele, literalmente, o quanto esse sistema é injusto com aqueles que não nascem com as características culturais padronizadas como a beleza física. Isso precisa mudar e não tem alguém melhor a fazer isso senão você!

Lucas não acredita naquela palavra, enquanto caminham para fora do palácio.

– Você desenvolveu senso de empatia, Sam? Pela primeira vez na sua vida?

O mauricinho não responde, apenas começa a chorar. Ao chegarem à fachada, Débora e a guerrilha se aproxima com um número quantitativo de manifestantes, os quais aos poucos aumentam com a chega de mais e mais pessoas. Ela se desespera ao perceber que Lucas está sangrando, pula em cima de Sam.

– O que você fez com meu irmão, seu crápula!

Lucas o defende.

– Maninha, não! Se não fosse Sam ter atirado em Otto, eu poderia estar morto a essa hora, ele salvou a minha vida.

Ela olha para o vilão sem graça e Denise se enfurece com a audácia do tirano.

– Esse impostor tem que morrer em praça pública como pior exemplo de humanidade. Avante equipe! A guilhotina já está posta na praça dos três poderes, vamos executá-lo!

Centenas de pessoas passam pelos irmãos quando Sam revela onde o deixou. Ela se levanta para levar o irmão para fora, quando Otto surge por um atalho que conseguiu escapar e destrava uma pistola apontando para os dois, é questão de Sam perceber e pular na frente, tomando o tiro pelos Carvalho.

Jesus salta irado sobre o idoso e consegue imobilizá-lo.

– Você não vai fazer mal a mais ninguém, seu fascista!

Débora grita e o oncologista se vira, Sam morria nos braços dela. Lucas tentou impedir.

– Fica com a gente, Sam. Agüenta firme, cara!

Mas o vilão não resistiu e faleceu sobre o silêncio de todos. Tudo se apagou.

***

Lucas se recuperava do tiro e no hospital acompanhava pelo notebook, ao vivo o guilhotinar da cabeça de Otto em praça pública e a posse de Débora, a qual após a morte declarou tão benevolente para quem pudesse ouvir com um microfone em alto e bom tom.

– Hoje viramos uma página na história desse país! Estamos curados da fonte parasitária instalada desde época colonial: a divisão internacional do trabalho. Usaremos de inspiração para os primeiros anos os trechos proto-socialistas da República de Platão, em que o filósofo idealista cria uma sociedade baseada na aptidão dos indivíduos e no bem estar coletivo. Todavia descartaremos a sua classificação em melhores e piores, será apenas uma divisão para nos organizarmos inicialmente nesses anos de socialismo marxista, mas atenção eu e meu irmão, por mais que nos idolatrem, somos como vocês e queremos ser como vocês, afinal somos humanos e não há nenhuma, absolutamente nenhuma distinção biológica que nos elevem perante vocês . Por isso proletários, uni-vos, por que chegou o grande momento da justiça secular, tomem os latifúndios as fábricas, tomem os comércios e expulsem esses burgueses ordinários que durante anos trataram nós todos como escravos! Ensinando-nos a sermos competitivos, a tratar nossas relações afetivas com efemeridade e excluir as pessoas fora de nossos mundinhos, nossas bolhas de eugenia. Assim, sendo, a fortificação do aparato estatal será necessário para nos levar ao comunismo, daqui alguns anos por meio da reeducação cultural, onde em um estado de maioridade intelectual, nossas gerações altruístas construíram um mundo mais harmônico e ecológico onde as individualidades serão respeitadas e a meritocracia realmente irá existir. Liberdade, igualdade e fraternidade Jacobinos! Assino aqui nosso primeiro dever: Reforma Agrária a todos camponeses! Decreto o fim da propriedade privada, todas as terras pertencem a partir de agora a união!

O discurso emocionou a platéia naquele pôr-do-sol reluzente e para sempre nostálgico, Lucas olhou para a janela e ao ver um canário sentiu que o animal o observava.

– Pai, é o senhor?

A ave sobrevoou o quarto até pousar no leito e dar bicadinhas de carícia no jovem. O protagonista sorriu de felicidade.

– Hoje podemos dizer com muito orgulho! Demos a luz a nossa democracia verdadeiramente, seqüência a sua vontade, ao seu eterno canto, a destruição da sociedade de classes, o amor venceu a ambição! Venceu as notas de papel! Foi vingado e da melhor maneira possível!

O pássaro começou a cantar melodicamente até o mocinho constatar que um som de flauta doce misturava-se no ar. Rogério apareceu no quarto de posse do instrumento.

– O que está fazendo aqui, seu bobo?

– Vim aqui te pedir em casamento!

– Como é?

Os olhos do mocinho faíscam de surpresa. Nas últimas semanas enquanto estivera incomunicável no Palácio do Planalto, sentira tanta falta de Rogério, mas o que sabia é que ele era assexuado, como então podia desejá-lo?

O homem confessou.

– Você me fez descobrir um lado em mim que jamais pensei que fosse existir nunca me senti tão atraído por pessoa, mas isso mudou nesses últimos tempos acompanhando sua história de luta e sacrifício para salvar o país dessa recessão histórica de exploração! Você é admirável Lucas Carvalho!

O mocinho chorou.

– Como se você também não fosse! Eu também senti um forte desejo de compartilhar meus dias com você, sentir esses seus lábios carnudos tocando nos meus, esse abraço quente que só você sabe dar, mas tive medo, medo de sofrer como sofri com Robson, por me rejeitar. Eu me descobri uma mulher, Roger!

O diretor se abaixa e acaricia as pernas do rapaz.

– E quem disse que não quero você assim! Eu te amo de qualquer jeito, pouco me importa se vai operar ou não, quero sua presença, o privilégio de acessar as camadas mais profundas da sua alma e poder te descobrir um pouquinho todo o dia, investigando sua essência. E então aceita logo de uma vez ser minha mulher?

O jovem respondeu.

– Claro que aceito!

E puxou sua nuca, desabotoando sua camisa, beijaram-se românticos.

 

UM MÊS MAIS TARDE…

Em um dos gabinetes, Débora recebeu uma visita inesperada: sua mãe acompanhada de Betina, a enfermeira envolvida na traição de Paçoca.

– O que vocês duas estão fazendo aqui? Não tem vergonha na cara, não?

Elvira pediu-lhe um minuto.

– Antes de nos expulsar, por favor, escuta o que essa jovem tem a te dizer!

Débora se irritou.

– Eu não quero ouvir nada que saiam da boca de vocês! Caiam fora daqui, que aqui é lugar de gente honesta a partir de agora!

Betina olhou para Elvira e essa fez-lhe um sinal, ela disparou sem avisar.

– Não houve traição, Paçoca sempre foi fiel a você. Elvira pagou para eu agarrá-lo na sua frente!

Débora se escandalizou.

– Como foi que você disse?

Elvira confessou-lhe assumindo a sua culpa.

– Eu não queria que você ficasse com Bruno Paçoca e por isso comprei essa enfermeira para provocar o beijo!

Débora arremessou-lhe um vaso na cabeça, mas errou o alvo, pegou sua bolsa rápido e deixou o local. Há dias estava querendo um motivo para que tudo que se passara não fosse verdade e agora conseguira a prova.

***

Denise terminava de se aprontar para a primeira assembléia na praça dos três poderes, local que se tornara uma verdadeira ágora, quando a campainha do apartamento ressoou. Ela atendeu e percebeu que era um entregador de flores.

– Esse buquê de rosas são para mim?

O homem confirmou. Ela corou-se. Assim que ele se foi, ela desembrulhou o cartão e percebeu que Jesus a convidara para sair. Como ele era fofo.

***

Mãe Joaquina atende a porta e sorri ao ver a menina.

– Como vai, Mãe? Paçoca está aí? Preciso demais falar com ele!

O ex-menino de rua sai da cozinha, na qual preparava um delicioso bolo de chocolate.

– Aconteceu alguma coisa, Débora?

A menina o encara e começa a chorar.

– Aconteceu sim!

Joaquina não entende.

– O que foi minha filha, por que está chorando?

Débora pega nas mãos do homem, as quais tremem quando ela as toca.

– Preciso saber se ainda me ama!

A expressão séria de Paçoca aos poucos se abria, parecia uma lagarta que depois de muito tempo fechada no casulo, conseguia finalmente voar para seus sonhos.

– Por que me está perguntando isso, Debby?

Ela revelou.

– Por que eu descobri a farsa que fizeram com a gente naquele jardim do hospital! Minha mãe contratou aquela mulher para destruir as nossas vidas, porém, a mentira delas não durou a vida inteira como era para ser, a verdade veio à tona e estou aqui hoje para te pedir perdão por não ter acredito em você e pedir, sem merecer, que nós voltemos.

Joaquina olhou para menina e lembrou-se dos tempos de mocidade quando após uma confusão de família, Carlos finalmente conseguira sua mão em casamento.

– O que está esperando, Paçoca, aceite homem!

Os dois riram e ele preferiu responder com um beijo apaixonado. A freira deixou-os as sós na sala, indo cuidar do bolo na cozinha.

– Eu te amo Bruno Paçoca!

– Eu também te amo Débora Carvalho!

***

Meses se passaram e para alegria de todos, países como Estados Unidos, França, Alemanha, Inglaterra, Austrália, Canadá e até mesmo a Rússia, inspiradas pelo movimento revolucionário no Brasil, permitiram pela circularidade cultural incentivar a primavera dos pobres que se organizando conseguiram tomar o poder e transformar a era globalizada em uma era mais equânime, nova e sadia, onde as relações internacionais não concentravam riquezas, elas procuravam sempre ajudar umas as outras num grande espírito de coletividade pela internet. Não demorou muito para o Sudeste Asiático entrar nesse novo marco histórico por mais que muitos ali preferissem resistir mutuamente.

Lucas conseguiu operar e se transformar na mulher que veladamente construiu. Na pele de Diana, a jovem agora sabia o verdadeiro sentido de liberdade, o qual se mesclava com os ideais do novo modelo de sociedade. Não demorou muito para a dogmatização de muitas igrejas serem derrubadas com a ascensão de novos expoentes e o fim a perseguição ao público LGBT finalmente se consolidar. Por essa razão, Diana conseguira marcar o casamento com um padre a luz solar de um belo jardim em sua cidadezinha natal Doce Recanto. Tudo corria bem, exceto por aquele desejo de entender o passado que lhe corria aos poucos, culminando no dia em seu atraso.

As penitenciárias haviam substituídas por centros educacionais de alta tecnologia, os quais tinham como função a aculturação cidadã de indivíduos que por ventura ainda persistissem em comportamentos não éticos como homicídio que punham em risco o bem-estar da sociedade como um todo. Diana esperava ansiosa a chega de Robson, o qual parecia não ter mudado nada desde a última vez que o vira.

– O que você quer aqui? Já não está satisfeito em ter virado mulher e ter posto seu plano de governo em ação?

– Eu vou me casar dentro de alguns minutos e para isso preciso abandonar de vez o passado! Contudo tenho certa dificuldade em me desfazer de algumas coisas, por que muitas delas ficaram sem explicação e preciso entender para seguir em frente!

– O que eu tenho a ver com isso? Nunca fui nada seu!

– Como você pode ser tão frio, Robson? Nós tivemos uma história de infância lá no colégio de Mãe Joaquina! Você não se lembra que me salvou daquele trabalho compulsório que Malva instalava os alunos? E depois me esperou no apartamento que Ezequiel arrumou para mim, tomamos banhos juntos, você se declarou. Eu queria entender o que te fez mudar de lado, agora que Sam não está mais entre nós, acho que poderia confessar isso a mim.

Robson começou a rir.

– Como você é burro cara! Como não percebeu nada durante todo esse tempo?

Diana não entendeu.

– O que você está dizendo?

– Vou esclarecer uma coisa para você. Eu não sou o Robson, nunca fui o Robson. Eu sou Elton, o irmão gêmeo dele que assumiu o seu lugar aconselhado por Sam.

Diana fica surpresa.

– O que você está querendo dizer com isso? Que história é essa?

Elton revela.

– Robson soube da minha existência pouco tempo antes de te descobrir, levava-me para a casa dele, onde ele morava com AA prima de sangue dele: Luana e a mãe adotiva. Conhecemo-nos ao acaso pela internet e ele queria descobrir como fomos separados no passado, por que não crescemos juntos. Antes de ser assassinada, Luana apresentou-me a Sam e nós começamos a conversar, até dormimos juntos na noite que antecedeu o seqüestro de Robson! Sam estava muito revoltado pelo namorado ter lhe passado para trás para ficar contigo e queria ensinar-lhe uma lição definitiva!

Diana se desesperou. Isso explicava por que depois de salvá-lo do gás venoso VX, Robson se bandeou para o lado de Sam. Eram duas pessoas diferentes e ele não percebeu o que estava na sua cara. Elton continuou.

– Na noite que vocês saíram do hospital, ele te deixou em casa e fora se encontrar comigo, eu simulei uma espécie de depressão, com tendências suicidas, ele se apavorou e decidiu me ajudar, quando ele entrou no barraco, onde eu morava acompanhado de alguns capangas conseguimos dopá-lo, eu o levei para um cativeiro e assumi o seu posto. A grana que eu iria ganhar dos Van Gogh poderia realizar o todos os meus sonhos. Era vida que fora me roubada por direito.

Diana não conseguiu se controlar, aquilo retorcia-lhe as entranhas, era cruel demais, como Elton pudera fazer aquilo com o próprio irmão. Agora fazia sentido o discurso de Marília sobre ela flagrar Sam e Robson mancomunando dopá-la para impedir de denunciar a morte de Luana. Tornaram-se cúmplices da pior espécie. Diana o agrediu.

– Seu desgraçado! Seu traidor! Como você teve coragem de fazer isso com seu irmão? Prendê-lo num cativeiro durante todo esse tempo! Eu quero saber imediatamente onde ele está! Eu exijo saber para onde o levaram!

– Sai para lá, seu protótipo de mulher comunista.

E o jogou no chão. A protagonista chorava.

– Para onde o levou?

Respirava fundo. Elton resolveu contar.

– Ele está na farol, sempre esteve. Agora me deixa em paz!

Diana recolheu seus pertences e zarpou para o local sobre risos medonhos do psicopata.

***

No jardim, Débora percebera que pela décima vez a ligação caíra na caixa postal. Onde estaria seu maninho? Rogério já de terno aguardava ansioso a chegada de sua esposa, mas nenhum sinal dela.

***

Um raio riscou o céu na pequena cidadezinha anunciando pelo fechar de nuvens enegrecidas que um temporal iniciara. O taxi parou em frente a praia e perguntou a mulher.

– Tem certeza que quer velejar com essa chuva que vai começar? Depois pode ser que fique preso ao farol e só consiga voltar quando tudo se acalmar.

– Não tem problema, o que venho fazer aqui justifica qualquer condição climatológica! Obrigada, pela carona.

Diana sai e logo percebe o velho barco preso na areia, no desembocar da berma. O mesmo usado por sua mãe na morte de Talita, quantas pessoas, quantas almas não fizeram uso dessa ferramenta seja para o mal ou para o bem. E ainda diziam que tecnologia não era coisa de comunista, por que era do mal, como se o mundo se distinguisse em duas forças opostas ou como se o objeto não dependesse da interpretação do ser para fazer sentido. No fundo tudo era uma leitura. Viver a apreender estavam instrísticamente fundidos. Lógico que a cultura era a cola responsável nesse processo. Entrou no barco e pegou os remos, o objeto cambaleou um pouco pelo vento. Começou a remar, a remar, se afastando cada vez mais da costa até o largo das pedras que dava mão para a ilha onde estava o farol.

A chuva encharcou-lhe os fios. A água parecia esfriar a cada gota que se prosseguia, tomara que não pegasse um resfriado, Robson não poderia vê-lo naquele estado. Apesar de que seu amado nunca se importara com isso. E Rogério? Doce Rogério que aceitara seu gênero não merecia por aquela expectativa, mas o que ele poderia fazer? Só estava fazendo jus a sua virtude que era amar Robson! E salvá-lo daquele local.

Pisou nas pedras e por pouco não caiu em alto mar. Segurou-se e engatinhou até o fofar da lama que enlameava os prenúncios do farol. Escalou com dificuldade, estava muito escorregadio. Depois de alguns minutos finalmente lá estava, olhou para cima e contemplou a altura do sinalizador de barcos. Correu para a porta e percebeu que estava trancada, voltou-lhe para o largo e pegou um remo utilizando-o para ajudá-lo a esfarelar o ferro enferrujado que se estendia na barragem do local. Bateu uma, duas, dez, vinte vezes, até conseguir abri um buraco suficiente que permitisse sua passagem. Uma escada avançara para o terraço e assim a seguiu, limpando as teias que via pelo caminho. Ao chegar ao topo, porém, não vira nada, exceto a solidão que se encontrava, gritou pelo nome do amado e o universo respondeu-lhe de volta com um eco. Elton teria mentido? Realmente era Robson e não queria confessar o porquê havia mudado de lado? Uma enorme vontade de chorar o abalou e ele entrou em vagido, descendo pelos degraus até sentar-se aos pés da escada, a beira da entrada. Abaixou a cabeça e ali permaneceu olhando o chão.

Foi quando percebeu um rastro de sangue seco que se arrastava por um estreito corredor do lado direito até um cômodo no fundo, à direita. Seu coração começou a disparar, levantou-se e caminhou até local, cada vez que se aproximava mais cheiro de carniça impregnava em suas narinas. Passado a dobradiça da porta, arrepiou-se com o que viu: o corpo de Robson estava sendo comido ao centro, com vários tiros pelo corpo por urubus e corvos que de alguma maneira se adentraram no local. O estágio de decomposição também já estava bastante avançado. O que a fez reconhecê-lo, foi os olhos que ainda se mantinham vítreos para a entrada, numa espécie de doce esperança.

Diana afastou as aves com o movimento dos braços e se ajoelhou perto do corpo num choro de soluçar.

– Meu amor, o que fizeram com você? Oh, meu Deus! Eles te mataram!

A cardiologista deitou-se ao seu lado e pôs a cabeça no que sobrara de seu tronco e acolheu suas mãos dentro das suas por mais que elas já estivessem se putrefazendo. Fechou os olhos e se imaginou ainda naquela eterna pré-adolescência correndo pelos vales e pelas florestas do Colégio do Sonho, brincando de pega-pega com Robson e eles caindo e rolando no vale de dente-de-leão se declarando um pelo outro. Eu prometo para sempre cuidar de você, senhor Guimarães Junior! Lucas ria. Eu também, seu ladrão de livros! Por que eu te amo! Robson completava. Eu também te amo e um dia vamos ter nossa família! Lucas sorria. Quero muito ser, mãe! Robson finalizava. E eu muito pai, ao seu lado!

Não queria abrir os olhos, mas era inevitável estar na realidade, no presente. Cantarolou baixinho enquanto o acariciava em lágrimas.

– ♪ Enquanto nós passamos um pelo outro, você poderia ver no meu rosto que eu estava voando alto e eu não acho que o verei novamente… Mas nós compartilhamos… Um momento que durará até o fim ♫

Foi quando percebeu que sobre o outro lado do corpo, estava a arma responsável pelo crime e apesar de num primeiro momento ter hesitado, tomou posse dela e percebeu estar carregada, fechou-a e desejou atirar em alto mar, mas a dor era tanta que ele não conseguia nem ao menos se levantar, não queria se levantar por que isso significaria dizer adeus, ir embora dali e seguir em frente e isso não estava em seus planos. Quem sabe eles não tinham mais uma chance em algum universo paralelo? Por trás das estrelas? Ficar ali sem Robson seria cruel, impossível, era muito forte a ligação, eram verdadeiras alma gêmeas que só precisavam se encontrar. Sim! Só precisavam se…

Resolveu. Pôs o cano na boca e puxou o gatilho. Ao longe se ouviu o disparo.

 

FIM

 

Charlotte Marx: Obrigada a todos pelo carinho durante esses 41 capítulos. Sem vocês, leitores. Isso não seria possível! Desculpem pelo atraso nesse último capítulo, precisava construir um final coerente e radiante para vocês! Curtem o hit de desfecho de Eterno Canto… Até breve!

 

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