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Eu, Kadu: diário de bordo – parte 1

– Gay!- Matheus dispara de repente, calmo, portando uma placidez invejável – Gay. Você é gay, Kadu, e daí? Não vou negar que fiquei chocado assim que descobri, mas depois, na boa, nada mudou. Até porque não tinha nada pra mudar.

Inspiro e expiro enquanto sinto uma crise de histeria começa a tomar conta de mim. A subir como um raio dos pulmões para o cérebro…

– Eu tentei Kadu. Juro que eu tentei te falar que já sabia, mas você, cara, você não me permitiu… Você…

– Vá se fuder, Matheus – reajo, mas agora tomado de um sentimento de cólera quase incontrolável – Você é igualzinho aos seus coleguinhas do CGAM. Tão hipócrita quanto cada um deles. Você, Matheus, vai ser mais um que vai arranjar um casamento de fachada para satisfazer a sociedade. Será um pai exemplar, um marido ideal, mas por trás do pano vai buscar aventuras com outros homens ao mesmo tempo que apontará o dedo para todos os outros que não terão medo de se assumir.

Matheus me puxa forte pelo braço. Sinto sua respiração ofegante. Meus óculos voltam a ficar desnivelados.

– Por favor, Kadu, quando nós vamos parar de fingir?

Um instante de silêncio, frágil, incômodo, desmorona sobre nós dois, como se estivesse demarcando o campo de batalha de dois inimigos tomados pelo cansaço, pela melancolia e pelo orgulho. Por fim, Matheus me solta e em seguida se afasta até se sentar nos últimos degraus de descida da porta de incêndio, ao passo que tira a mochila das costas para depositá-la ao seu lado.

– Esse teatrinho, essa sua postura ingênua, achando que o mundo à sua volta é o que você quer que ele seja já cansou, Kadu. Por que não começa a viver uma vida de verdade além daquela proporcionada pelo ar que sai dos seus pulmões?

Respiro fundo, bem fundo ao tempo que empurro os óculos até ajeitá-los sobre o rosto e ato contínuo caminho até onde Matheus está sentado,

– Não ouse me julgar – disparo entre os dentes – Nem você e nem ninguém tem esse direito, ouviu bem? – remato em alto e bom som.

Depositando toda a determinação que possuo sobre as engrenagens do meu corpo, me preparo para saltar o degrau que Matheus está ocupando, contudo, ao iniciar meu propósito, sou impedido por sua mão, que segura forte, firme, o meu braço esquerdo.

– Sai da minha frente, porque se não sair eu te atropelo – ameaço sem pestanejar, não deixando de encarar Matheus um instante sequer enquanto ele se levanta tão rápido quanto pode, porém, sem soltar o meu braço, chegando a me puxar um pouco para frente.

Apesar da minha intimidação, Matheus se mostra calmo, por sinal mais calmo do que nunca, o que me deixa ainda mais irritadiço.

– O que foi esse beijo que você meu deu, Kadu?

Não vou deixar Matheus sair vitorioso dessa batalha. Não mesmo.

– Já te disse que foi uma ação impensada. Estou cansado, confuso, preocupado… Melhor – pontuo sarcástico – Vou usar o mesmo argumento que você usou lá na sala das carteiras quebradas quando me confessou que tinha ficado com um carinha: foi para satisfazer uma curiosidade e não vi nada demais.

– Eu desisto.

Matheus anuncia após liberar o meu braço, deixando seus ombros caírem enquanto se afasta, ficando de costas para mim.

– Se você, depois disso tudo que conversamos, ainda prefere continuar mergulhado nesse mundo de Alice, meu amigo, não posso fazer nada.

Ele se volta e a expressão do seu olhar, transbordando indulgência me parte ao meio e eu o odeio ainda mais por isso. Por que está agindo dessa maneira, tão complacente? Por que está conseguindo colocar o valor da nossa amizade acima de tudo? Acima de todos os preconceitos que ele deveria carregar, senão pela influência mórbida dos seus amiguinhos Neandertais, ao menos por sua condição heterossexual?

É o que deveria acontecer. Matheus deveria se mostrar frustrado, atingido em cheio em seu orgulho ante o papel de idiota que fez ao ter mantido ao seu lado um amigo que escondera sua real natureza. Que não correspondeu à altura a confiança que permeia uma verdadeira relação de amizade, ainda mais uma amizade que já perdura por dez anos…

Como e quando alcançou essa serenidade para simplesmente deixar  tudo de lado, inclusive o apoio que dei à Brenda para tentar reatar o namoro entre eles?

Mathueus definitivamente não é assim. Onde foi parar sua eterna afronta em relação ao mundo? Seus rompantes seguidosde  palavrões homéricos? Sua rebeldia?

Essa dignidade está me deixando louco, sem chão, sem saber como reagir. Matheus, eu não posso acreditar, não é tão maduro assim. Tão centrado. Tão ponderado…

– É você quem vai terminar sozinho, Kadu…

A estabilidade de sua voz me seqüestra de forma violenta das paredes seguras de minha mente, trazendo-me de volta à realidade sob a iluminação destas lâmpadas fluorescentes no largo patamar que antecede os degraus intermediários da escadaria para o nono andar da saída de incêndio.

– Um ser humano amargurado, sempre buscando brigar com alguém para tentar, inutilmente, apaziguar a frustração que carregará dentro do seu peito, aliás, você já está fazendo isso aqui e agora.

Não aguento mais. Parto pra cima de Matheus sem pensar e com o empurrão inesperado que lhe dou, ele acaba por se desequilibrar, indo de encontro à parede atrás de si, sem qualquer chance de defesa, encarando-me com um semblante abarrotado de surpresa e desapontamento à medida que tenta manter-se de pé.

– Você ficou maluco, Kadu?

– Eu não tenho medo de você…

– Nos nunca brigamos desse jeito e hoje já é a segunda vez…

Não o deixo continuar e antes mesmo de Matheus tentar se desvencilhar do meu segundo ataque, eu já estou caindo por cima de seus ombros, fazendo com que nós dois nos desequilibremos, despencando no chão, junto com meus óculos, que voam a quilômetros de distância.

Matheus continua tentando me afastar ao passo que busca encontrar dentro dos meus olhos uma explicação para essa minha reação violenta. Eu sigo esmurrando-o com golpes incertos enquanto sinto lágrimas encharcarem o meu rosto e meus joelhos doer devido o choque contra o chão.

– Para Kadu. Para.

Matheus pede ofegante, agarrando, enfim, minhas mãos no intuito de tentar afastá-las de seu rosto, porem, minha raiva é imensa e eu, então, consigo libertá-las para cravar minhas unhas nas suas bochechas, arranhando-o e socando-o à medida que ele continua tentando me afastar até que consegue fazer com que minhas mãos voem no ar, porém volto ao ataque, e o atinjo na face com o punho fechado.

O semblante de Matheus de imediato se modifica, deixando transparecer a dor e a raiva que parecem ter explodido dentro de si como uma sequência de fogos de artifícios.

Em um exímio e inesperado geste de autodefesa, ele consegue colocar suas mãos sob o meu corpo ao mesmo tempo que projeta os meus cotovelos para fora, me empurrando, sem demora, e com força, para longe de si, fazendo-me voar até cair com costas no chão. No mesmo instante sinto um pouco de dor nas costelas, mas, ainda assim, e com o rosto crivado por essa dor, consigo vê-lo se levantar.

– Escuta Kadu – ele inicia num de voz arquejante – Eu não vou dançar essa música, ok? Somos amigos e quando você estiver mais calmo, me procura para a gente poder conversar de uma maneira civilizada.

Balanço a cabeça em negativa ao passo que tento me levantar, mas a dor nas costelas ainda não passou. Matheus estende uma das mãos para mim e eu a renego, claro, e então ele dá de ombros e a recolhe, começando a limpar a poeira de cima de sua roupa.

– Minha mãe está coberta de razão quando diz que você não passa de um usurpador, se aproveitando de um lugar que não é seu…

Disparo sem ponderar. Preciso feri-lo de alguma maneira.

Matheus cessa o seu movimento de limpeza sobre a roupa e me encara, gélido, com uma expressão carregada de angústia, desgosto, e o pior de tudo, de piedade; a porra da piedade mesclada às lágrimas que cintilam em seus olhos…

Ele não reage e também nada responde. Apenas se mantém firme. Uma figura aparentemente inabalável enquanto eu prefiro fechar os olhos.

Merda. Merda. Merda. Eu deveria estar exultante, soltando fogos de artifícios diante da vitória que conquistei nos instantes finais dessa batalha. Mas não. Estou me sentindo o pior ser humano da face da Terra, partido ao meio, completamente arrependido com o que acabei de dizer, mas vou corrigir isso, nem que seja tão somente para equipar-me a Matheus em hombridade e nobreza…

Ouço passos, fortes, rápidos, descendo as escadas. Abro os olhos. Matheus já não está mais aqui e então, em questão de segundos, uma dor, não física, invade o meu peito, arrebentando-o, não me deixando alternativa senão a de permitir que o choro fuja de vez da minha garganta enquanto meu corpo todo estremece.

– Eu te amo, Matheus – balbucio entre soluços depois de voltar a fechar os olhos – Eu te amo. Eu sei que te amo. Perdoa-me. Eu vou conseguir deixar de ser esse idiota, esse imaturo… Eu vou conseguir…

Abro os olhos e mais uma vez tento me levantar. Preciso, mas a dor das costelas ainda incomoda.

Inspiro profundamente.

As lágrimas continuam a fazer o seu trabalho à medida que volto a me esforçar para ficar de pé, à medida que vou amargando a sensação de que estou beirando a decrepitude, que estou drenado de sentimentos… A realidade é dolorosa demais.

Um telefone está tocando e demoro alguns segundos até perceber que é o meu celular anunciando uma ligação do meu apartamento.

Tenho que atender. Tenho que atender.

Superando todas as minhas fraquezas e limites, consigo, entre trancos e barrancos, ficar em pé. As costelas permanecem reagindo à queda que levei e meu crânio parece carregar uma porção de pregos com pontas afiadas… Resgato, por fim, o telefone do bolso que não pára de berrar

– Oi? – pergunto ao tempo que corro os olhos à minha volta buscando o destino que meus óculos tomaram.

– Onde você se meteu Kadu? – é Sônia do outro lado da linha – A Maria Clara, graças ao Pai, abriu a porta do quarto e sua mãe já está infernizando a alma da pobre menina.

Um estalo.

Um gatilho.

Desligo o celular, o enfio no bolso e num salto resgato os óculos (que estão ilesos, graças aos anjos) caídos num canto do chão do largo patamar e subo as escadas, abrindo a porta de ferro como se fosse feita de papelão.

Ainda que um reflexo da dor nas minhas costelas permaneça, decido deixá-lo de lado, ignorá-lo, pois Maria Clara precisa de mim e só Deus para saber o que vou encontrar.

Atravesso o corredor, o hall de entrada do apartamento e a sala de estar como se o mundo estivesse a poucos instantes do seu fim, desprezando até mesmo a presença solícita de Sônia, até que entro pelo corredor afora e consigo alcançar a frente do quarto de Maria Clara, cuja passagem está sendo bloqueada por nossa mãe, que mantém os dois braços abertos, em cada lado da soleira, como uma fera determinada a não deixar sua presa fugir.

Num esforço quase sobre humano, consigo, acima dos ombros de dona Marcela, estudar o semblante de minha irmã, que está completamente marcado pelas lágrimas, carregado de uma expressão nítida de sofrimento, como se sua alma tivesse sido atingida por uma comoção profunda.

– Não quero e nem tenho tempo para ouvir explicações…

Dona Marcela, ao que parece, e não me surpreende, não está nem um pouco incomodada com o estado da própria filha.

– Vai tomar um banho rápido, Maria Clara. Passar uma maquiagem nesse rosto para irmos ao ateliê provar o seu maldito vestido. Acho que não preciso informar o quão atrasada estamos.

Maria Clara busca imediatamente o meu olhar, passando a impressão de que até este momento não havia notado a minha presença.

– Não vai haver casamento – ela anuncia, de repente, com uma voz embargada e sem tirar os olhos de cima de mim.

– O que você está dizendo, garota?

Dona Marcela mal termina sua pergunta e se vira na minha direção, talvez acompanhando o olhar de Maria Clara, e ao se deparar com minha presença não consegue esconder a surpresa que toma conta de si, contudo, não me faz qualquer pergunta, tratando, depressa, em voltar sua atenção para a minha irmã.

Eu, particularmente, não sei como agir ou reagir. O que aconteceu? Não vai mais haver casamento? Como assim?

A dor sobre as minhas costelas parece que dobrou de intensidade.

– É isso mesmo que a senhora ouviu, mamãe – Maria Clara, agora fitando dona Marcela, parece buscar forças no infinito para continuar – Acabou. O casamento não vai mais acontecer.

– Escuta aqui – o nervosismo, a falta de controle, diga-se de passagem, habitual, começa a pontuar o tom de voz de dona Marcela, que continua com os braços abertos frente à porta do quarto – Se isso for alguma piada de mau gosto…

– O Gustavo me deixou.


UM MÊS DEPOIS…

Com os olhos fixos na direção do teto, ao passo que mantenho um dos braços apoiados sobre a testa, tateio com a canhota sobre o criado mudo, ao lado da cabeceira da cama, e sem grandes esforços localizo e apanho o pequeno relógio de mesa, azul, em formato de TV antiga: 5h20! Acabo por constatar o óbvio, afinal, há dez minutos eram 5h10 e antes disso, 5h04…

Devolvo o relógio ao seu lugar de origem.

Desde as 2h da manhã que estou acordado. Já cansei de rolar de um lado para o outro; contar carneirinhos; contar de 100 até zero de 3 em 3; deixar o quarto com uma temperatura próxima aos 15ºC; manter o celular o mais afastado possível; respirar pelo nariz contando mentalmente 4 segundos enquanto busco esvaziar a mente… Nada funciona! Nem sequer uma simples e rápida madorna. Um piscar de olhos. Nada!

Pelo andar da carruagem meu cérebro decidiu entrar em pane e me fazer encarar um retardatário agudo transtorno de ansiedade, colocando tudo o de ruim que vem me acontecendo nesses últimos anos dentro do mesmo balaio.

Eu não vou descer por esta estrada, longa, sinuosa e que no final das contas não me levará a lugar algum.

Merda. Merda. Merda.

Nem mesmo as madrugadas insones proporcionadas por esse amor RIDÍCULO e não correspondido por Matheus me deixou assim, tão perturbado, um quase zumbi.

Matheus… É claro.

Merda. Merda. Merda.

Dormir, nesse nessas últimas semanas, neste último mês, tem sido um verdadeiro desafio. Adormecer, manter o sono ou voltar para ele depois de acordar, definitivamente se tornou, ao menos para mim, um objeto de desejo, um luxo inalcançável. E motivos, decerto, não faltam.

Aliás, sobram.

 

D I Á R I O     DE     B O R D O

Dona Marcela

Minha mãe ficou exatos vinte e cinco dias no hospital após ser diagnosticada com um traumatismo craniano bem leve, fruto do acidente de carro que sofreu após ter saído da casa do Gustavo, depois de ter ido tomar satisfações dos motivos que o levaram a dar o fora na Maria Clara.

Digna de todo o tratamento que o dinheiro e um bom plano de saúde podem comprar, além dos contatos e conexões que meu pai inevitavelmente possui por fazer parte do mundo da medicina, a sua recuperação foi e tem sido muito elogiada pelos médicos, e, graças a Deus, não vem apresentando qualquer tipo de sequelas, apenas dores de cabeça que cada vez mais vem se tornando esporádicas.

Desde ontem ela seguiu para a chácara da nossa família, em Maricá, a fim de descansar, levando Filipa a tiracolo, evidente, e, se tudo der certo, as duas vão ficar por lá por um bom período. Ao menos a principio, isso é o que está decidido.

Ficar longe do assédio animalesco da mídia, que mesmo depois de um mês, continua tratando a notícia do fim do casamento da Maria Clara como uma novidade, esmiuçando as possíveis causas para o término do seu noivado praticamente à beira do altar, foi, talvez, o principal motivo para a viagem de dona Marcela.

Seja como for, o acidente não afetou em nada o funcionamento hiperativo e alucinado do seu cérebro.

Não houve um dia, dos quatro que ela permaneceu aqui no apartamento depois que saiu do hospital, que não criticasse e censurasse Maria Clara pelo casamento desfeito, por sua aparente passividade, sobrando até mesmo para o meu pai, que ouviu cobras e lagartos por não ter ido buscar uma satisfação de homem para homem com Gustavo.

Doutor Carlos Eduardo, a propósito, decidiu atender ao pedido encarecido da minha irmã para que não procurasse seu ex-noivo, afinal de contas, a dignidade de poder resolver essa questão cara a cara com Gustavo não lhe poderia ser tirada. Ela já havia sido humilhada demais.

Contudo, o que poderia ser feito se o ex-futuro noivo decidiu sumir do mapa? Até mesmo o Gabriel, depois daquele reencontro fatídico que tivemos quando fui apelar para que ele me colocasse em contato com o irmão, acabou por me convencer de que não sabia do paradeiro dele.

Enfim. Tentar manter um nível considerável de civilidade ao argumentar com dona Marcela é como chover no molhado, ou ainda, o equivalente à insana missão de explicar álgebra para uma criança de quatro anos de idade.

Não preciso nem dizer qual foi o resultado dessa queda de braços. Dona Marcela não está dirigindo qualquer palavra nem à Maria Clara e tampouco ao doutor Carlos Eduardo Saldanha.

Nossas preces, nesse momento, são para que a poderosa socialite possa refletir sobre todo este pandemônio enquanto estiver lá na chácara, mesmo com Filipa ao seu lado.

Na boa. Sei que estou perdendo tempo, mas fico tentando imaginar como funciona a mente da minha mãe. Como ela tem coragem de exigir que meu pai vá tomar satisfações do Gustavo, sabendo do risco dele descobrir a verdade, do envolvimento dela por trás do rompimento do casamento da Maria Clara?

No frigir dos ovos, até que dona Marcela ficou bem na foto. Fez o que toda mãe leoa deveria ter feito, e a aura de heroína que lhe foi conferida ficou ainda maior por ter quase pagado com a vida ao “defender” a honra de sua filha.

Desde que dona Marcela chegou do hospital, não tivemos, eu e ela, nenhum momento a sós. E nas atuais circunstâncias agradeço, e muito, essa falta de oportunidade. Não sei de que forma enxergá-la sem julgamentos, sem depreciar sua já comprometida referência de figura maternal depois de descobrir do que foi capaz de fazer com a Maria Clara.

* * * *

 

Maria Clara

Preciso tirar o chapéu para minha irmã. A forma como vem lidando com toda a situação após ter sido preterida pelo Gustavo, é de arrepiar. Principalmente quando precisou encarar as consequências do anúncio do seu casamento não concretizado, afinal de contas, pisar no campo minado deixado por nossa mãe depois do estrondoso alarde que promoveu em todos os meios de comunicação possíveis e imagináveis meses antes da cerimônia, foi praticamente como enfrentar, e de uma só vez, os 14 lugares naturalmente mais perigos do mundo.

De certa maneira não me surpreende a dignidade e segurança que Maria Clara vem demonstrando em suas ações.

Com a ajuda da wedding planner Patrícia Bismarck e mais uma assessora de imprensa, ela se mostrou firme e inabalável ao fazer questão de divulgar, pessoalmente, a não realização de seu tão aguardado espetacular casamento.

Não. Não foi fácil vê-la exposta, cercada de todos os lados por aqueles abutres sedentos e desesperados, buscando obter uma grande manchete com a sua infelicidade. Todavia, minha irmã não demonstrou em nenhum instante a tristeza que consumia sua alma, e eu a questionei do porquê agir com tanta cordialidade no meio de pessoas que só pretendiam chafurdar sobre a sua miséria; e de onde tirava forças para isso, ao mesmo tempo em que precisava (e talvez ainda vá precisar) colar os caquinhos de sua dignidade.

Uma imperatriz sempre anda com a cabeça erguida! Foi a resposta que recebi.

De verdade, e não me importo em parecer redundante em afirmar que Maria Clara se portou e vem se portando como uma verdadeira rainha.

* * * *

Comitê de formatura

Já estamos em maio e nenhum movimento concreto para se preparar a formatura das três turmas do ensino médio da turma da manhã do CGAM sequer havia sido cogitado, até então.

Muita conversa e comentários e opiniões desde que o ano letivo começou, mas ninguém ousou pegar o leme desse barco e colocá-lo na rota certa, até que o coordenador Jorge decidiu tomar as rédeas da situação, e com o apoio dos formandos acabou por não encontrar qualquer dificuldade em me eleger copresidente desse comitê, apesar de todos os meus esforços para tentar me desvencilhar.

Óbvio que não expus a Jorge a gama de problemas que estão orbitando ao redor do meu universo particular, mas usei o acidente de minha mãe e o episódio do casamento da Maria Clara como escudos para fugir dessa responsabilidade.

Como era de se esperar, com tato e sua inerente sabedoria, ele me deixou a vontade para decidir o que fazer, e eu, no final das contas, me senti compelido moralmente a aceitar o convite e a confiança ofertados

PS.: adivinhem quem é o outro, ou melhor, A OUTRA que está dividindo comigo a presidência desse comitê?

Seguem as quatro alternativas:

  1. A garota mais arrogante, antipática, metida e intragável do CRUEL;
  2. Um ser humano extremamente mimado, exibido, metido e elitista;
  3. Brenda
  4. Todas as alternativas anteriores

* * * *

Notas e boletim

É impossível deixar de me questionar sobre o meu desempenho escolar.

Apesar de todo esse turbilhão, ainda consigo manter notas satisfatórias em meu boletim.

Alguma entidade cósmica deve gostar muito da minha pessoa.

Só quero ver como vou me sair no ENEM. Já fiz um simulado, sem pretensão, e não fui tão mal.

Mas se as coisas continuarem como estão nessa estrada cheia de curvas, eu não sei não… A faculdade de medicina vai ter que esperar. O que seria um desgosto, um balde de água fria sobre o orgulho do doutor Carlos Eduardo Saldanha, já que decidi cursar a cadeira de cardiologia que ele tanto almejava. E para dona Marcela então? Que já espalhou para meio mundo que vai ter duas gerações de médicos na família?

  EU VOU CONSEGUIR! EU VOU CONSEGUIR! SEI QUE VOU CONSEGUIR!

* * * *

Matheus…

CONTINUA…   LEIA A SEGUNDA PARTE – Clique aqui

POSTADO POR

Francisco Siqueira

Francisco Siqueira

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