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Felicity

 

Já era noite alta, pois há muito já passara da meia-noite na boa e velha Paris que, embora modernizada, afinal, estávamos em pleno século 21, ainda era um dos lugares favoritos do mundialmente famoso tenor Alexis Blonsky. Apesar da hora, a Cidade Luz permanecia bem viva e agitada. “ Pulsante, como uma criatura viva.”, como ele gostava de pensar. Claro que muitas vezes ele se cansava do glamour e agitação das noites parisienses e se refugiava em sua acolhedora cabana nos arredores de Versalhes, como os reis de outrora. “Quanta pretensão…”, também pensava. Ele era um nobre também, na verdade, um príncipe (afinal, seu pai fora príncipe da Valáquia, região sul da agora Romênia), mas nesse mundo moderno, esses títulos lhe pareciam extremamente ultrapassados e mesmo nas altas rodas onde era obrigado a freqüentar à contragosto e onde isso parecia ter tanta importância, preferia não ser tratado dessa maneira, mas sabia que assim se referiam a ele nas conversas paralelas. O misterioso e excêntrico “Príncipe Solitàire” ou “Príncipe da Noite” …

Alexis parou e riu de si mesmo a esse pensamento. Ele estava ao piano, executando a “Moonlight”, sonata n0 14 de Bethoven, como costumava fazer após as apresentações para relaxar.

Gostava de se isolar em sua biblioteca, que fazia as vezes de estúdio, quando precisava estudar alguma peça importante ou ensaiar. Aquele era seu refúgio favorito, especialmente hoje…

Realmente, ele merecia aquele apelido que já o perseguia há mais de cem anos. Chegava a ser engraçado, como por mais que “morresse” de vez em quando e reaparecesse com uma nova identidade, mas sempre como um cantor de ópera, pois essa era sua grande paixão e seu consolo (afinal não poderia explicar o fato de ser um imortal), o apelido permanecesse inalterado. Mas ele era mesmo assim, solitário, sem amigos, embora fosse considerado uma pessoa amável e cativante, mas gostava de ficar afastado, o que não era fácil para alguém conhecido como ele, e especialmente de relacionamentos amorosos, pois não queria compartilhar sua maldição com ninguém. O que igualmente não era fácil, pois sua aparência atraía as mulheres ( e alguns homens também) como moscas, o que ele não conseguia entender. “O que viam num cara pálido e frio como um cadáver? Afinal é isso mesmo que sou…”, pensava ele sempre. Mas todos diziam que ele parecia um anjo…

– “Anjo…” – sorriu mais uma vez com amargura. – “Um demônio, é isso que sou. Belo, pode até ser, mas Lucífer também não dizem que foi o mais belo dos anjos? Sim, sou um demônio e o pior de todos, pois sou o verdugo de minha própria espécie…”

Seus olhos então bateram na pintura de uma linda menina loira de cerca de 7 anos no máximo, de olhos tristes e piedosos e sorriso radioso. Aquele quadro que só naquela data em especial, ele mandava vir de seu quarto secreto, coberto, pois nem mesmo a seu prestimoso Igor, o servo que herdara de seu pai (na verdade, estava mais pra uma babá do que um empregado, de tão solícito e cuidadoso era com Alexis desde que nascera), permitia contemplar.

25 de dezembro de 1904…Desde aquele dia, ou melhor, aquela noite, em que ele havia desistido de sua miserável existência e aquele verdadeiro anjo entrara em sua vida e lhe dera uma nova razão para continuar, ele repetia esse mesmo ritual.  Ela morrera, alguns dias depois de terem se conhecido, mas a chama que ela acendera dentro daquela alma torturada jamais iria se apagar…

Felicity…esse era o nome de seu anjo salvador. Uma encantadora criança que não tivera medo do terrível monstro que ele era…

Há  mais de cem anos, pouco tempo antes de “morrer” em uma de suas últimas identidades, ele vagava pelos becos desertos de Paris, depois de uma de suas apresentações num dos grandes teatros, tomado da abominável Sede. Torturado por ela, essa era a verdade, pois desde muito jovem decidira que não caçaria humanos como os outros. Saciava sua necessidade de sangue com transfusões constantes, pois o sangue de animais não o satisfazia…Mas isso não queria dizer que nunca havia matado ninguém. Não…Já matara muitos. Vítimas sem conta, mas sempre criminosos, humanos que não tinham o mínimo respeito pela vida de seus semelhantes e Alexis havia jurado a si mesmo e a Deus proteger os humanos a quem amava profundamente. Sabia que isso não justificava pois não importa o quão maus eles fossem, também era seres humanos. E era isso o que mais o angustiava. Invejava, de certa forma, vampiros que não tinham esses escrúpulos e se compraziam em se banquetear com os humanos. Talvez eles fossem mais felizes pois não eram atormentados por qualquer espécie de culpa…Será que era isso que ele não conseguia suportar? Afinal, quem ele pensava que era para se arvorar em justiceiro? Não passava de mais um Condenado…Só que um que temia a Deus e o amava acima de tudo e era por isso que cantava com toda sua alma ( se é que possuía uma) especialmente músicas sacras, para pedir perdão por seus crimes…

Há horas ele errava sem rumo pelas ruas, dividido entre a premência de sua natureza, o irresistível cheiro de sangue que o enlouquecia de desejo e o horror que aquilo lhe causava. Sabia que não resistiria muito tempo. Seu prestimoso Igor tentara lhe conseguir um pouco de sangue para mais uma dolorosa transfusão, mas naquela noite fora impossível, devido a algum grande acidente ou coisa assim. Sentia-se fraco pela falta de alimento (ele tendia muitas vezes a só tomar sangue quando sua vida dependia disso, como agora) e Igor lhe avisara para não sair daquele jeito, mas mais uma vez não lhe dera ouvidos. No momento, acalentava em seu íntimo a ideia de resistir bravamente e se deixar cair de inanição em qualquer lugar…bastava então deixar que o sol fizesse o seu trabalho e a brisa matinal espalhasse suas cinzas…até já retirara de seu dedo anelar direito o Anel do Dragão, presente de seu pai, o qual o protegia dos raios mortíferos do sol, permitindo andar livremente a qualquer hora entre seus amados mortais. Poderia ser finalmente livre então, quem sabe até poderia renascer como uma pessoa comum, como dizia a nova doutrina que se espalhava rapidamente pela França e restante do mundo? Mas ela também dizia, assim como também os padres, que o suicídio não resolvia nada, que era um grande crime aos olhos de Deus e era somente isso que o segurara, pelo menos até agora…

No entanto, ele não conseguia mais suportar o fardo de uma vida sem sentido e tão estranha. Qual era seu objetivo neste mundo? Por que nascera um vampiro? Por que existiam vampiros?!, ele se perguntava diariamente.

Foi então que ouvira próximo de onde estava, numa viela escondida há poucos metros, uma estranha comoção. Alguém estava sendo atacado e precisava de ajuda!

Ao menos morrerei após praticar uma boa ação.” – pensou e correu para o local.

Quando chegou, discreto e silencioso como de costume, conseguiu vislumbrar num instante do que se tratava: um casal jovem e uma senhora idosa, que protegia freneticamente com o próprio corpo uma criança envolvida em agasalhos pesados estavam sendo atacados por um grupo de bandidos. E eles não pareciam interessados só no dinheiro de suas vítimas, havia vampiros entre eles, Alexis percebera num simples olhar, embora ainda não tivessem manifestado suas presas. Isso era muito estranho, mas não tinha tempo pra pensar nisso agora. As intenções dos humanos também eram as mais abjetas possíveis, pois enquanto dois brutamontes, às gargalhadas, seguravam o homem, imobilizando-o para que ele apenas presenciasse o que iria ser feito, outros três haviam derrubado a pobre mulher, que lutava desesperadamente, e principiavam a rasgar suas roupas. A indefesa senhora, apavorada e indefesa, se encolhia num canto, protegendo a criança, enquanto dois vampiros as mantinham imobilizadas para que não fugissem e pedissem ajuda. Eles já se regozijavam antecipadamente pelo festim que iriam ter em instantes…

Não se eu puder evitar, seus miseráveis!” – pensou Alexis, furioso. Suas forças renovadas pelo fluxo de adrenalina que principiava a correr por suas veias.

Tudo aconteceu muito rápido. Ele surgiu diante do bando como uma aparição vingadora, surpreendendo até mesmo os de sua espécie, que de tão entretidos nem haviam percebido sua aproximação. Eles recuaram, surpresos, e Alexis os avisou para que saíssem dali se desejassem permanecer inteiros, acrescendo seu apelo com sua energia, a qual reconheceram assustados, que era muito superior a deles, identificando-o como um vampiro de elevada hierarquia. Mas também sentiram que sua energia parecia vacilante e como estavam em dois resolveram enfrentá-lo. Alexis os avisou pela segunda vez para irem embora, que não o subestimassem, mas novamente se recusaram a abandonar suas vítimas. Alexis suspirou, sacudindo a cabeça. No instante seguinte, aqueles miseráveis já abandonavam suas miseráveis existências, suas cabeças rolando pelo calçamento num único golpe de sua afiadíssima katana (Alexis tem verdadeiro fascínio por espadas antigas, especialmente aquela espada japonesa, uma verdadeira raridade).

Fracos demais. Deviam ser novatos..”

Os homens se detiveram imediatamente, estáticos e apavorados, sem saber como reagir. Mas isso durou pouco. Alexis logo se viu cercado pelos cinco humanos, alguns armados de facas e canivetes. Ele os olhou quase displicente, enquanto limpava tranquilamente o sangue de suas katana.

– Saiam daqui. – falou sem erguer os olhos do que fazia. – Devem saber que não sou qualquer um pelo que fiz com seus amigos vampiros, portanto, vocês não terão a mínima chance. Fujam enquanto é tempo, estou avisando.

– Quem é você e por que se mete onde não é chamado, lourinho? – perguntou um sujeito robusto de cicatriz no rosto e voz rouca, que parecia ser o chefe do bando. Era o que estava prestes a estuprar a mulher.

Alexis ergueu o olhar pela ousadia com que lhe falavam e encarou o sujeito:

– Meu nome não importa a humanos da sua laia. – disse com profundo desprezo. – E eu não costumo perdoar a miseráveis como vocês que além de tomar dinheiro dos mais fracos, ainda abusam de mulheres indefesas.

O bandido riu, cinicamente.

– Huh…Parece que temos um justiceiro aqui…Você pode ser muito bom com essa coisa, embora eu não consiga imaginar que tipo de louco você seja para andar com isso nos dias de hoje, mas não escapará de nós cinco. Você está morto, cara!

Alexis sorriu, mas um sorriso repleto de amargura. Os olhos brilhando agora como se fossem duas bolas de fogo azul.

– Sim, de fato…E é por isso que vocês não têm nenhuma chance. – e voltando-se para as pobres vítimas dos bandidos que tremiam a um canto. – Vocês aí, saiam daqui agora, enquanto eu cuido desses vermes.

– Mas… – balbuciou o homem, que passava o paletó por sua esposa, tentando recompô-la. – São muitos e você está só…

– Ei!! – gritou o chefe. – Vocês não vão a lugar algum. – e mandou aos dois brutamontes que os detivessem.

– Aonde vocês pensam que vão? – com um olhar Alexis os manteve paralisados onde estavam. Os outros tentaram acudir os companheiros, mas também não podiam se mover. Ele voltou a se dirigir ao casal, agora em tom imperioso. – Já disse para irem embora! Não se preocupem comigo! Ninguém deve ver o que se vai passar aqui. Saiam!

Apavorado, o homem arrastou sua esposa, juntamente com a governanta e a criança, balbuciando algo sobre chamar a polícia.

Assim que se viu só com os bandidos, Alexis permitiu que se movessem.

– Quem…Quem é você? – repetiu o chefe, agora com os olhos arregalados e um suor frio principiando a escorrer pelo rosto.

Alexis respondeu, muito sério, com voz sibilante e fria:

– Haviam dois da minha espécie entre vocês e ainda não sabe o que sou? Pois então eu vou mostrar…

Seus olhos mudaram totalmente de cor, tornando-se vermelhos e brilhantes como fogo e de sua boca agora, aberta num sorriso feroz e faminto, dois enormes caninos sobressaíam.

– Um monstro!! – gritaram alguns. – Ele…ele é… é um…

– Vampiro. – completou Alexis. – Sim, e a chance de irem embora daqui com vida acabou. Preparem-se!

O que se passou em seguida permanecia na mente de Alexis como um misto de caos e câmara lenta, nada era muito claro. Os bandidos, alguns atacando desesperadamente como presas acuadas, enquanto outros tentavam fugir daquele inferno, mas era inútil ninguém escapava de seu poder, era todos como ratos cercados pelo gato. Um amontoado de cenas de sangue e violência numa seqüência caótica. Tudo que podia se lembrar era que a Sede, somada ao instinto de sobrevivência, o dominara novamente e ele se convertera numa fera incontrolável, todos os escrúpulos e remorsos momentaneamente esquecidos. Tudo então ficou em silêncio. A luta terminara. À medida que se saciava do sangue de um após o outro, sentia-se mais e mais forte e sabe-se lá que mais teria feito se algo totalmente inesperado não o interrompesse.

Uma voz infantil quebrou o silêncio lúgubre daquele beco.

– Se… Senhor Blonsky?!

Aquela voz perplexa e apavorada o atingiu como um raio, devolvendo-lhe novamente a lucidez da maneira mais cruel possível. Ele lentamente olhou para trás, para a menina loura e pálida que o observava, trêmula de pavor, com os olhinhos azuis enormes, desmesuradamente abertos de surpresa e terror.

“Quem era aquela menina? Como o reconhecera?”, eram pensamentos que passavam por sua mente confusa.

Alexis olhou para os quatro homens caídos à sua volta, exangues; o quinto, o chefe do bando ainda em seus braços, com a garganta rasgada por suas presas…Presas! Ele olhou pra si próprio coberto de sangue e se viu também através dos olhos daquela inocente criança, provavelmente, a filha daquele casal que salvara. Um monstro horrível, de pele branca como a de um cadáver e dentes longos e rubros do sangue que escorria abundante de seus lábios.

O ódio, a vergonha que sentia de si mesmo não tiveram precedentes, todo o seu corpo começou a tremer.

– Saia… – ele sibilou, tentando esconder o rosto. – Saia daqui…

– Mas…Eu…eu…

Ele se ergueu num repente, os olhos arregalados, em chamas.

– SAIA DAQUI, JÁ DISSE!!! SAIA!!! SAIA!!! – gritou, fora de si.

Apavorada, a menina obedeceu, saindo correndo dali.

Ele se viu novamente só com suas vítimas, arfando, olhando em volta, como se percebesse pela primeira vez o que fizera ou como se procurasse apoio. Soltando um grito inumano de puro desespero, caiu, então, em pranto convulsivo pelo que pareceram horas a fio, seu rosto banhado por lágrimas de sangue.

Sirenes se fizeram ouvir, um vestígio tênue de instinto de conservação o fez se abrigar em um lugar mais isolado, longe dali.

Alexis nem percebeu, mas perto dali, oculto nas sombras, um sujeito alto e sinistro, de longos cabelos escuros, vestindo um sobretudo negro o observava. A palidez de sua pele e os longos caninos mostrando o que realmente era. Ele parecia furioso, pelo menos, era o que indicava o brilho sanguíneo dos seus olhos, mas sua expressão era da mais absoluta frieza. Ele rodeou o macabro cenário, detendo-se perto dos corpos, os quais observou com profundo desprezo, irritação e um certo toque de curiosidade.

“Tolos… Fracos inúteis!” – sua face fria e desagradável, torceu-se num ricto de asco.” – Afinal, quem é esse sujeito? É melhor ficar de olho nele…Mas, por enquanto, deixa estar…”

********

Um torpor dominou Alexis, prostrando-o. Sua decisão de morrer incinerado pelo sol estava tomada, o anel que o salvaria, selado em seu bolso interno.

O amanhecer daquele dia teria sido o seu último, se o infalível Igor não o tivesse milagrosamente encontrado em seu esconderijo improvisado. O antigo servo de seu pai o arrastara de volta para casa bem a tempo, tendo o cuidado de recolocar o Anel do Dragão em seu dedo e de limpá-lo, deixando-o razoavelmente apresentável para que ninguém desconfiasse de nada. Alexis não ofereceu resistência. Até que quando chegaram em sua cobertura e Igor o deitou em sua cama de dossel negro. Então ele pareceu dar conta de si.

– Igor…Igor, meu impertinente criado…Por que tinha… que me salvar? – ele murmurou, totalmente exausto. Fez uma grande pausa, fechando os olhos, novamente azuis e em seguida continuou, com um meio sorriso, pleno de amargura. – Meu amigo fiel…Ouça-me com atenção e jure que irá me obedecer em tudo o que eu disser.

– Si…Sim, meu amo… farei tudo que me pedir…Sempre o fiz…O senhor sabe…

– Sei. – o vampiro tornou a sorrir. – Então ouça e faça como digo: quando sair sele este quarto.

– C-Como disse, mestre?!!

– O que ouviu. Sele este quarto para sempre e avise à imprensa que o tenor Alexis Blonsky faleceu de sua misteriosa doença no sangue.

– Mas…Mas, por que isso agora? Das outras vezes, o jovem mestre “vivia” por 15 ou 20 anos até “morrer” jovem e depois ressurgir como um filho desconhecido ou um parente distante e retomar sua carreira!

– Eu fui visto, meu caro Igor. Uma criança, cujos pais salvei de um grupo de malfeitores, me viu como realmente sou. Parece pouco provável que, nos dias de hoje, ainda acreditem em vampiros e dêem ouvidos a ela, mas… – Não posso mais, meu dedicado amigo. Não consigo mais viver assim, odiando a mim mesmo…odiando o que sou… Já estava decidido antes e estou agora mais que nunca.

– Não! Então dessa vez…

– Sim. – ele não o deixou terminar. – Será real. Vá, Igor! Deixe-me morrer em paz. Se não for assim, juro que sairei agora daqui para me expôr ao sol que nasce. Vá! Sele este aposento e depois do “enterro”, volte para a Romênia e diga a meus pais o que fiz e por que.

O velho chorava desconsolado. Aquilo o comoveu, mas sua decisão estava tomada e não voltaria atrás. Assim que ele saísse, pediria ao Anel que o matasse. Era um privilégio que tinha e que usaria agora.

Se acalmando um pouco, Igor tentou argumentar: E seus compromissos? E os inúmeros concertos de fim de ano? Das outras vezes, muito responsável, ele sempre esperava o final das turnês…

– Eu sei que está tentando ganhar tempo para que eu mude de idéia, mas é inútil. Obedeça-me! Você jurou, lembra-se?

– Mas… – seria uma idéia repentina e possivelmente salvadora que acorria à mente do velho criado aquele estranho brilho em seu olhar? – E o concerto de Natal na Catedral de Notre-Dame? Aquele em benefício do orfanato de crianças doentes? Nem mesmo esse irá fazer? É só daqui há seis dias…

– Orfanato?! – exclamou Alexis.

O olhar dele se tornou fixo. Lembrou-se novamente do incidente de horas antes e, principalmente do rosto daquela adorável criança. Sim…gostaria de ajudá-las, ao menos mais uma vez… Se bem que bastava fazer um testamento deixando sua imensa fortuna para elas, mas não seria bom vê-las felizes com sua arte, nem que fosse pela última vez? Poderia ser uma espécie de pedido de desculpas simbólico por ter assustado tanto aquela menina…

Alexis ficou pensativo em silêncio por um longo tempo.

Fraco!” – uma voz clamava em sua mente. – ” Só está arranjando outra desculpa para permanecer vivo!”

Ele não deu ouvidos a essa voz. Tomara outra decisão. Faria o concerto. E seria sua melhor apresentação. Se despediria do mundo em grande estilo.

– Muito bem, Igor. Farei essa apresentação, mas cancele todos os compromissos anteriores. Deixe apenas esse e não me incomode pelos próximos seis dias. Quero guardar minhas forças.

– Mas, senhor, certamente precisará se alimentar ou não suportará… Não conseguirá se apresentar!! Estará fraco demais!!

– Por isso preciso dormir, para poupar o que me resta de energia para o Gran Finale… Como numa ópera, o artista principal sairá de cena no final…Só espero ter forças para não morrer em pleno palco, embora fosse uma morte gloriosa…mas não quero assustar as crianças. – ele deu sorriso amargo.

– Então não mudou de idéia mesmo? – perguntou Igor, desconsolado.

– Não. E não adianta tentar fazer uma transfusão, eu recusarei a vida que o sangue me passaria.

Igor suspirou, sentindo-se vencido.

“Garoto teimoso!” – pensou.

– Eu ouvi isso, Igor. Já deixei de ser um garoto há muito tempo.

– Sim, mestre. Perdoe-me. – suspirou, resignado. – Farei conforme ordena.

Ele o deixou só, então, saindo para providenciar tudo.

Só mais uma vez…pelas crianças…Por ela.” – e caiu num sono sem sonhos.

*********

Seis dias se passaram. Era noite da véspera de Natal. Alexis despertou sozinho assim que o sol se pôs. Estava de robe, sentado à sua escrivaninha de mogno antiga, estudando o programa daquela noite, quando Igor adentrou o quarto para ajudá-lo a se vestir.

O velho criado parou a alguma distância, observando-o, mortificado. Sua aparência era ainda mais pálida do que de costume. Era como se fosse uma aparição que a qualquer momento fosse se desfazer no ar…Igor o conhecia muito bem. Será que ele conseguiria cumprir aquilo a que se dispusera?

Meu menino…” – Igor fazia força para não chorar. Controlando-se com esforço, ele pigarreou para chamar a atenção de Alexis.

Alexis virou-se languidamente, olhou para ele e sorriu.

– Está na hora?

– Sim, mestre.

– Está bem, então. Estou pronto.

Ele se posicionou para ser vestido por Igor com seu elegante fraque. Essa atitude alarmou Igor mais ainda, pois normalmente Alexis protestava veementemente de que já era capaz de se vestir sozinho há quase um século. Dessa vez ele acedeu docilmente aos seus cuidados.

– Mestre, desculpe se insisto…Mas beba pelo menos um copo de sangue ou permita que eu faça uma transfusão rápida ou não suportará…

Alexis se olhava no espelho (sim, ele podia se enxergar perfeitamente nele) e então se encaminhou a passos surpreendentemente firmes para a saída do quarto. Na porta, parou e respondeu a Igor:

– Estou bem, meu bom amigo. Não precisarei mais de sangue. – ele disse muito sério e então sorriu. – Será uma noite memorável, você verá. Falarão dela por muitos e muitos anos. Agora vamos. O carro já está a espera, pois não?

– Perfeitamente, senhor. – o velho suspirou, resignado.

– Ótimo.

*******

Em poucos minutos chegavam à Catedral. Tudo estava preparado para a apresentação. A iluminação feérica de Natal dando um toque de conto de fadas. As pessoas que não haviam conseguido lugar se acotovelavam do lado de fora apenas para ver o famoso e misterioso tenor. Os ingressos estavam esgotados há semanas. Toda a renda seria revertida para os órfãos portadores de doenças incuráveis, cujo orfanato era mantido pela Arquidiocese.

Não foi fácil passar por toda aquela gente e pela imprensa que normalmente o assediava, ainda mais depois dos boatos de que teria se envolvido e salvo um casal de um grupo de bandidos, os quais teriam sido mortos em circunstâncias misteriosas e macabras…

Mas passar por lugares sorrateiramente despercebido, não era novidade para ele e era uma das poucas vantagens de ser um vampíro em sua opinião. Logo estava no camarim improvisado ao lado da sacristia, aguardando a hora de subir ao palco montado próximo ao altar-mor. Querendo ficar sozinho um pouco, pedira a Igor que se retirasse e fosse tomar seu lugar na coxia.

Fazia um balanço de sua vida até agora. Esperava que sua arte, a maneira com que iria se doar por inteiro, de corpo e alma, naquela última apresentação pudesse compensar um pouco de sua culpa.

– Cinco minutos, senhor! – alertou um contra-regra, metendo a cabeça rapidamente dentro do modesto camarim.

Dando um último olhar em volta, Alexis se dirigiu ao palco. Aplausos ecoaram por toda a majestosa Catedral. Ele se curvou graciosamente agradecendo e cumprimentando a platéia e os músicos. Antes dos primeiros acordes soarem, deu uma rápida olhada na platéia seleta. Nas primeiras filas, logicamente, como pedira, estavam as crianças do orfanato. Elas pareciam radiantes e o olhavam boquiabertas, muitas acenavam alegremente para ele, que correspondeu, enternecido. Podia ouvir os pensamentos de algumas: “Um anjo!!”, pensavam. Ele sorriu, amargurado. O quão longe estavam da verdade…

De repente, quando soavam os primeiros acordes de Adeste Fidelis, Alexis fixou uma criança em especial que lhe pareceu familiar. Não podia ser… Não seria aquela menina que salvara e aos pais naquela noite? Seria possível?

Mas não teve tempo de se aprofundar nessas conjecturas. Chegara o ponto da melodia em que deveria cantar e, como de costume, embora dessa vez mais ainda, se deixou envolver pela magia da música e perdera totalmente a noção de onde estava. Cada gota de sua fugidia energia, toda a sua alma se depositava como nunca em cada nota, em cada ária que se seguia, uma após a outra.

O arrebatamento da platéia era evidente: crianças, adultos, idosos, todos sem exceção, até mesmo aqueles que não suportavam música clássica, mas que estavam ali só pelo status do evento, só para aparecer nas colunas sociais, se encontravam absolutamente hipnotizados, embevecidos inteiramente pela alma sublime daquele artista sem igual. “Nunca se havia sido presenciada uma interpretação com tanto sentimento”, diriam os críticos nos jornais do dia seguinte.

Alexis fazia um balanço de sua vida enquanto cantava e cada música era um pedido de perdão pelo ato extremo que iria cometer, ou melhor, que já estava sendo consumado, pois a falta de alimento cobrava seu tributo e ele sentia-se mais e mais fraco a cada minuto. “Só mais um pouco…“, pensava, procurando manter-se consciente.

Finalmente, após uma emocionante interpretação de Pieta,Signore, chegou o intervalo. Após a chuva de aplausos, as cortinas se fecharam e um Igor quase em pânico, teve que ajudar Alexis a praticamente se arrastar para o camarim.

– Por favor, senhor, eu imploro, desista dessa loucura! Veja seu estado! Não conseguirá ir até o final! Deixe-me cancelar tudo e buscar o aparato para a transfu…

– Não… – foi a resposta débil, porém firme, num tom que não deixava margem a dúvidas.

– Mas, senhor! Senão tomar ao menos um pouco de sangue, não irá sobreviver nem mais uma hora!

Alexis, recostado pesadamente num divã, virou a cabeça para o lado para encarar o aflito criado e sorriu, até aquilo era um tremendo esforço…

– Igor, meu caro… se eu provar…sangue novamente não conseguirei me…controlar… – ele fez uma pausa, inspirando profundamente e fechou os olhos, buscando intimamente reunir as últimas forças para continuar até o fim da apresentação, conforme planejado. – Uma hora, você disse…É somente o que preciso…

E se levantou, estoíco.

– Estou pronto, Igor. Pode avisar o maestro. – ele se abaixou e abraçou o velho, com carinho de filho para pai. – Perdoe-me. Minha decisão não mudou. Sabe o que fazer.

– S…Sim. – ele se retirou. E daí alguns intantes a introdução de Panis Angelicus se fazia ouvir.

Alexis retornou ao palco. Sua palidez extrema era notória, mas a maioria acreditou que fosse efeito da iluminação, ainda mais quando ele iniciou a ária com voz firme e sentida. Sentia-se um clima de despedida no ar, pensavam muitos, e não eram poucos aqueles que choravam, acreditando estarem apenas emocionados com aquela belíssima apresentação de Natal.

Aquela hora se arrastou e suas forças, ao contrário, fugiam rapidamente. Ele já se apoiava ao microfone discretamente, enquanto alguns músicos e o maestro lhe lançavam olhares ansiosos. Na coxia, Igor chorava copiosamente.

Chegou, então, o encerramento, a última música, sua favorita: a Ave Maria de Gounod.

Esse será meu Canto de Cisne…Não tenho mais forças… Em breve, estarei livre…

Todos foram unânimes depois. Jamais se ouviria uma interpretação tão emocionante e intensa. Alexis parecia em êxtase, como se estivesse diante da própria mãe de Jesus, louvando-a e suplicando seu perdão.

No Amém final, ele pensou que fosse desmaiar, mas manteve-se firme. Não queria assustar as crianças. Tremendo imperceptivelmente, agradeceu inúmeras vezes aos intermináveis aplausos, mas quando a cortina se fechou, não suportou mais e foi ao chão, inerte.

“Perdão…” – foi seu último pensamento consciente.

Foi aquela correria. Produção, músicos, seguranças, padres… Todos o cercaram, tentando socorrê-lo. Alexis foi levado ao camarim e deitado no divã. Médicos foram chamados. Igor tentou impedir, para que a vontade de seu mestre fosse feita e mostrou ao profissionais que apareceram uma certidão previamente registrada em cartório onde o príncipe Alexis Blonsky, em perfeito domínio de suas faculdades mentais, atestava que era portador de uma incurável doença no sangue e que em caso extremo de agravamento de seu estado, nada deveria ser feito para trazê-lo de volta.

– Mas isso é eutanásia!! Não podemos aceitar isso! Quer mesmo que fiquemos de braços cruzados, observando-o morrer?! – protestou um jovem médico, que já o havia atendido outras vezes e não perdia uma apresentação do tenor.

– Essa é a vontade de meu senhor…– Igor cumpria seu papel, irrepreensivelmente, mas só Deus sabia a que custo… – Respeitem-no, por favor.

– Se não houvesse mais nada a fazer, mas não é o caso, senhor Igor Vladinsky!__ o Dr. Junout, o jovem médico, o empurrou para o lado enquanto ele e dois enfermeiros montavam a aparelhagem para a transfusão. O sangue fora trazido às pressas do hospital mais próximo.

A agulha foi introduzida em uma delicada veia de seu braço esquerdo e iniciou-se a transfusão. Ele aos poucos, recuperava a cor e a consciência e sob os olhos semi-cerrados olhou para o criado como se dissesse: “Eu avisei. Não adianta. Chegou minha hora de partir.”

Ele tornou a fechar os olhos e o Dr. Junout e os outros entraram em pânico, pois a pressão recomeçou a cair assustadoramente.

Tudo foi tentado, mas em vão. Após mais de uma hora de esforços, os médicos desanimaram.

– Creio que estava certo, senhor… – disse o Dr. Junout, suspirando. – Parece que seu amo quer mesmo nos deixar… – ele balançava a cabeça, sentindo-se revoltado e impotente. – É como se ele recusasse o sangue que recebe…

Igor ficou em silêncio.

“Não sabe o quão está próximo da verdade, doutor.” – pensou o desolado Igor. E falou em voz alta: – Ele pediu que, se isso acontecesse, o deixássemos sozinho, até que tudo terminasse.

– O mundo está perdendo um artista sem igual e uma excelente pessoa… – o médico tornou a suspirar. – É uma pena. – e saiu com todos, incluindo Igor.

“Adeus…meu menino…” – despediu-se o velho criado, lançando um último olhar àquele a quem sempre amara como a um filho desde que Drácula o confiara a seus cuidados há tanto tempo.

O camarim, então, ficou vazio, permanecendo apenas Alexis em sua lenta agonia.

Nisso, uma figurinha miúda esgueirou-se no camarim e aproximando-se devagar, sentou-se ao lado de Alexis.

– Eu sei que o senhor está me ouvindo, Sir. – sussurrou uma vozinha de menina, pura e melodiosa, com um suave sotaque inglês. – Meu nome é Felicity e eu sou a menina, cujos pais salvou há alguns dias atrás. Eu estava aqui para agradecer, mas… – ela fez uma pausa, passando a mãozinha delicada pelos cabelos e pela face fria de Alexis. – Bem, pra falar a verdade, eles não são mesmo meus pais, pelo menos, não ainda…É que sou uma das crianças do orfanato que o senhor ajudou hoje…

Alexis entreabriu os olhos, pesados como chumbo, e olhou para a menina, mas quase não conseguia vê-la.

– Você!…Então…era você mesmo, criança!… Por… favor… Não…deve ficar …aqui… – sussurrou num fio de voz.

Ela não pareceu ouvi-lo.

– Como disse, sou do orfanato que ajudou hoje…Portanto, isso significa que tenho um doença incurável e sei que vou morrer logo…Mas não me importo.Esse é meu destino e vivi até agora como devia…cumprindo tudo o que devia fazer, tudo o que era esperado de mim…Enquanto o senhor… – ela franziu a testa, falando num tom de repreensão. – Por que está desistindo assim?!

Alexis abriu os olhos totalmente e fitou a menina, perplexo. Ela sorriu.

– Eu sei o que é o senhor. Eu vi tudo, lembra-se? É um vampiro e está morrendo agora por que se recusa a se alimentar. – ela assumiu um ar muito sério, cruzando os bracinhos. – Não devia fazer isso, sabia? Quando eu me recuso a comer, fico de castigo, pois me dizem que isso me faz mal…Sabe, tenho um problema no coração, não sei direito o que é… – ela sorriu, como se pedisse desculpas. – De vez em quando ele não bate direito, sabe, e um dia vai parar…Mas… O senhor pode ficar bom! Por que está fazendo isso? Só precisa comer! – ela parecia indignada.

Ele olhou bem para aquela corajosa criança.

– Você não… tem… medo…de mim?

– Claro que não! – Felicity parecia achar aquilo um absurdo. – O senhor nos salvou!

Alexis fechou os olhos e sacudiu a cabeça lentamente num “não” silencioso.

– O senhor pode viver pra sempre se quiser, não é? Bem, eu tenho sete anos e não gostaria de viver pra sempre, mas se pudesse …só mais um pouquinho…Gostaria de crescer, virar moça e conhecer alguém como o senhor…tão bondoso e com uma voz tão linda, mas… – ela suspirou tristemente. – Pra mim, não tem remédio e eu viverei somente até quando o Papai do Céu quiser, mas…O senhor pode viver, por que está recusando esse dom?

Alexis tornou a abrir os olhos e sorriu debilmente.

– Dom? Ma petite, você é jovem…criança demais… pra entender…É uma meia vida…Não sou um ser humano…preciso de sangue pra viver e já matei muitos…inclusive outros…como eu…Você viu…Não agüento… mais …viver… assim.

A menina chegou mais perto.

– Senhor Alexis, o senhor não é mau. Eu sei disso. Eu vi e estou vendo. Se fosse, não estaria assim, morrendo…de culpa!! Pare com isso! Aceite o sangue que está recebendo! Aceite a sua sina e procure fazer algo de bom com ela até que Papai do Céu resolva lhe dar o descanso! Ao menos, não chegará de mãos vazias no céu! – ela alteava a voz agora, verdadeiramente indignada.

Algumas pessoas, incluindo Igor acorreram com o barulho e pararam, perplexas ao vê-la ali e fizeram menção de tirá-la de lá, mas ele as impediu. Mesmo agonizante, sabia se fazer obedecer…Em breve estavam a sós novamente. Mas afinal, quem era aquela menina que falava como uma adulta, alguém com séculos de sabedoria?

– O que… disse?

– O que ouviu! Você é bom, tem que viver! Com sua força, impediu que eu, minha babá e “Papa” e “Mamã” fossemos mortos!

– Mas… viu que… me alimentei… dos homens que os… atacaram…

– Sei que não queria…, mas afinal, é o que é. Mas aposto que nunca atacou um inocente, não é? Nunca atacou uma pessoa indefesa, ou mesmo um homem mau ou vampiro mau, sem que fosse provocado…mesmo que muitas coisas que façam sejam erradas… – ela parecia escolher as palavras. – Procure acertar também, procure fazer coisas boas em sua longa vida, com aquilo que sabe fazer. Ajude os outros como fez com a gente! Um dia, então, quem sabe Papai do Céu não o torne um ser humano normal, como tanto sonha?

– ……………………

– Não é isso que quer? Morrer pra nascer de novo, como um humano? Ou acha mesmo que irá dormir pra sempre? Quer então fugir de seu destino?

Silêncio.

– Viva, senhor Alexis, eu lhe suplico, viva para que vampiros maus sejam impedidos de atacar pessoas inocentes, viva para que bandidos se arrependam de ser maus, para que todos escutem sua música que parece vir do céu, pois tenho certeza de que até os anjos vem ouvi-lo cantar, viva…por mim…que logo estarei indo embora desse mundo, mas que sempre estarei pedindo ao Papai do Céu que olhe pelo senhor, como fez por mim aquela noite! – ela chorava agora, desconsolada, mergulhando os cachinhos loiros no peito dele.

Foi como se um véu caísse de sobre seus olhos. Lentamente, Alexis levou a mão livre até seus cabelos, como se receasse tocar algo tão puro, maculando-a.

– Eu… – ele estava desconsertado, mas parecia que as trevas em que vivia se dissipavam com a aurora, uma aurora que surgia dentro de si. – Eu…Está bem… Eu farei o que me pede… – ele ergueu e enxugou com os dedos o rostinho molhado de lágrimas. – Viverei.

Eles ficaram conversando durante quase uma hora. Pouco a pouco suas forças voltavam, conforme seu corpo absorvia o sangue, sua energia benéfica agora aceita de bom grado. Sentia como se nascesse de novo naquele momento, como se só agora soubesse para que existia…E fora uma menina de sete anos que operara esse milagre!

Quando se despediram (os responsáveis pelo orfanato vieram buscá-la, pois as outras crianças já tinham ido embora há muito tempo e não podiam esperar mais), Alexis disse que gostaria de vê-la de novo e perguntou:

– Como é mesmo o seu nome?

– Felicity. – ela sorriu e se virou, correndo alegremente para a porta, mas então voltou depressa e abraçou-se aos seus joelhos.

Surpreso e completamente desacostumado com aquele tipo de manifestação de carinho, ele se abaixou e retribuiu o abraço, cuidadoso e emocionado.

Antes de sair , ela desejou: – Feliz Natal!!

“Felicity…Sim, sim… Feliz Natal, criança.” – ele se levantou, andou até uma janela e ergueu os olhos para o céu. – “Obrigado, Deus. Vos me destes a vida e eu a viverei até quando me permitirdes. Agora eu entendi. Juro que tentarei fazer o melhor. Farei por merecer o presente que me destes… A “Felicidade” que me fizestes conhecer…”

Então viu que Igor o observava, trêmulo de emoção.

– Por que está me olhando assim? – ele sorriu. – Sim, é verdade, ainda estou vivo e assim permanecerei até quando Deus quiser. Vamos pra casa, meu amigo!

************

“Mais um Natal…” – pensou ele, voltando ao presente, mas a memória ainda perdida em lembranças doces, enquanto sorvia um gole do cálice de um antiqüíssimo vinho tinto misturado com sangue, enquanto observava de pé o precioso retrato.

“Hoje fazem exatamente cento e treze anos que a conheci…Você me ensinou muito, minha pequena Felicity, muito mais do que eu já havia aprendido em cem anos de existência e acho que nunca poderei retribuir…Pena que se foi tão cedo, menos de um mês depois daquela noite…Nunca esquecerei de como a embalei pela última vez em meus braços, enquanto cantava a Ave Maria…Você adorava essa música… Nunca se cansava de ouvi-la e me pedia para repeti-la vezes sem conta…Bem, como faço todos os anos, a cantarei de novo para você, meu anjo…”

Ele depositou o cálice numa mesinha, fechou os olhos, se concentrando, mas antes que abrisse a boca, uma súbita sensação de estar sendo observado, aquele conhecido arrepio na nuca, o velho instinto, que nunca lhe faltava, lhe avisou de que não estava mais só.

– Quem está aí e ousa me interromper? Mostre-se imediatamente ou farei com se arrependa de ter nascido!!

Uma risada lúgubre e debochada se fez ouvir, ecoando entre as paredes da espaçosa biblioteca.

– Finalmente nos encontramos, príncipe Alexis Blonsky, ou deveria dizer, Drácula? – o intruso apareceu, saindo de um canto obscuro do aposento, como se viesse do nada. Vestia um sobretudo negro antiquado, sua pele alva parecia brilhar sob a luz dos abajures. – Como pode o herdeiro de um vampiro ilustre como seu pai, se comportar de maneira tão piegas?

– Então você me conhece, embora isso não seja segredo entre os vampiros, mas ainda não me respondeu: Quem é você e o que faz aqui?

– Meu nome não importa, mas sim o que vim fazer. Vim para avisá-lo: você deve ficar longe de nosso caminho! Há muito tempo o venho observando de longe, meu caro e suas…”atividades extra-palco” cada vez mais nos preocupam. Em respeito à sua augusta linhagem o deixamos em paz até agora, mas esse é o primeiro e único aviso: ou você passa a cuidar única e exclusivamente de seus negócios e de sua vidinha medíocre de cantor ou seremos forçados a eliminá-lo…assim como fez com aqueles dois pobres inúteis do Beco Dellacroix. Lembra-se?

Alexis arregalou os olhos, atônito. Ele esteve lá!!

Recuperando rapidamente a serenidade habitual, Alexis replicou:

– Se você realmente sabe quem sou… – sua voz sibilou, ameaçadoramente, enquanto ele se colocava em guarda. – …deve saber que não tenho medo de ameaças…Identifique-se logo e diga a quem se refere quando diz “nós”! Não estou com paciência para charadas!! – ordenou em um tom de quem não admitia ser desobedecido.

O intruso quedou-se paralisado por instantes, sua mente confusa e atordoada, totalmente propensa a responder, mas logo conseguiu controlar-se…Afinal, não era um qualquer, também era um vampiro experiente, com pleno domínio de seus poderes.

Tornou a rir, mas em seguida, seu rosto se contorceu numa carranca furiosa.

– Não ouse usar a Voz de Comando comigo, garoto!! Sou muito mais velho que você e não é um truque primário como esse que vai me dominar! Se bem que devo admitir que você é bom nisso. Afinal, o que decide? Vai se manter na linha ou não?

– Não tenho feito nada que minha consciência condene e não obedeço ordens de ninguém, está me ouvindo? Principalmente quando me vêm com ameaças tolas!

– Ameaças tolas?! – o outro bradou, indignado. Uma aura maligna e pesada tomou conta do ambiente, um súbito vendaval começou a soprar, provocando uma incrível desordem e uma chuva de objetos que iam na direção do imperturbável Alexis, que se desviava, indolentemente, com imperceptíveis movimentos. – Veremos se são ameaças tolas!! Você quer saber quem somos, não é? Pois muito bem, quanto a mim, pode me chamar de Mordred, provavelmente será o último nome que irá ouvir…Eu represento um grupo muito antigo e poderoso espalhado por todos os lugares do mundo que possa imaginar e infiltrado nas mais altas esferas do poder…Mas não lhe direi quem somos. Terá que descobrir, se quiser, mas infelizmente não lhe darei essa chance…Prepare-se para virar cinzas!!

Com apenas um olhar e o domínio de sua vontade, o pretenso Mordred direcionou sua força maligna toda sobre Alexis, que nem piscou. Com um simples olhar, fez retornar toda aquela carga sobre seu atacante, que simplesmente a fez desaparecer antes que o atingisse.

– Saia daqui agora mesmo!! Não estou a fim de lutar…Não hoje e não aqui!!

O rosto do outro era uma máscara de puro ódio.

– Maldito!! Como ousa zombar de mim?! – mas controlando-se rápido, voltou ao seu ar irônico. – Sei porque não quer lutar…É por causa de hoje ser Natal… – ele riu, desdenhoso. – e por causa dela, não é? Bem, não posso fazer nada quanto à data e só lamento que sendo um de nós, seja tão ridículo…Agora quanto a essa insípida menina, posso dar um jeito…

– O que?!! – exclamou Alexis, perplexo.

Antes que pudesse esboçar qualquer gesto ou pensamento que o impedisse, Mordred ateou fogo ao retrato. Um fogo anormalmente destruidor, o qual devorou a belíssima obra de arte em segundos, somente cinzas restavam agora e uma parede negra de fuligem.

Alexis correu para onde estivera o retrato e se ajoelhou junto às cinzas, parecendo imprudentemente esquecido da presença de seu inimigo. Seus olhos encheram-se de lágrimas, ele apanhou um bocado das cinzas e deixou que elas escorressem por seus dedos, enquanto o outro observava, divertido.

– Será que consegui sua atenção agora?

Alexis ergueu o olhar lentamente e se voltou para Mordred. Havia um brilho terrível nele, que fez até o outro recuar um passo, mas em seguida tornou a sorrir:

– Vejo que sim… Excelente…Você estava bonzinho demais pra meu gosto.

Mas o ódio que dominou Alexis só durou um instante. No instante seguinte, já era senhor de si novamente.

– Você realmente não passa de um tolo. – sua voz soou gelada e distante, mas o tom era de arrepiar… – A imagem dela está aqui e aqui… – apontou os olhos e o coração. – e não num simples retrato. Jamais esquecerei o que ela me ensinou e criaturas como você jamais poderão atingi-la onde se encontra.

Ele suspirou.

– Muito bem. Se quer tanto lutar, então lutaremos e não irei segurar a minha força. Se é verdade que vem me observando, acho melhor fugir agora!

– Huh! Parece que o filhote tem presas! – Mordred abriu o sobretudo, deixando à mostra uma espada antiga, de estilo oriental. – E perder a diversão? Soube que aprecia espadas e como também gosto muito delas…Que tal um duelo como nos bons e velhos tempos, embora acrescido do estímulo extra de nossos poderes?

– Como quiser.

Alexis ergueu a mão direita e sua katana surgiu como por encanto.

– Prepare-se!

Antes que Alexis atacasse, o outro tomou a iniciativa, golpeando com um desabalado ataque perfurante. Alexis esquivou-se, dando um salto espetacular. Só que Mordred também saltou e tornou a golpear. Alexis se voltou à tempo e bloqueou o golpe com facilidade, mas perdeu o equilíbrio, sendo arremessado contra a estante às suas costas.

Uma nova onda de energia maligna veio sobre ele e dessa vez machucou-o bastante. Alexis ergueu-se, limpando o sangue que escorria da testa e de um corte nos lábios.

– Você vai morrer, seu bastardo patético! – anunciou Mordred. – E morrer de verdade!!

Um novo ataque de energia foi desferido, mas Alexis estava preparado. Não tentou bloqueá-la, mas tornou a saltar e em movimentos tão rápidos que Mordred não conseguiu acompanhar direito, partiu para um novo ataque, emanando toda a sua imensa força.

– Por todos os poderes do Inferno!! Mas o que é isso?!! – exclamou.

Não conseguiu escapar da fúria de Alexis e sofreu todo o impacto do arrasador ataque. Mas o combate estava só começando…

Ataques se sucederam ininterruptamente, com esquivas, bloqueios, saltos e toda sorte de proezas acrobáticas, absolutamente impossíveis de serem acompanhadas por olhos normais. Os dois eram incansáveis e muito hábeis, quase equivalentes, o menor erro determinaria o vencedor…

Do lado de fora da porta da biblioteca, o pobre Igor tentava desesperadamente entrar e ver o que estava acontecendo a seu senhor, mas a porta estava magicamente selada e inacessível.

– Senhor Alexis!! Senhor Alexis!! Em nome de seu pai, o que está acontecendo? Deixe-me entrar!! – gritava ele, esmurrando a porta em vão.

Suando copiosamente, o pobre velho pensava, agoniado:

“Essa não!! O que farei? Alexis ainda não se alimentou…Se isso continuar por muito tempo, ele irá enfraquecer e …nem quero pensar!”

De fato, o tenor principiava a sentir os efeitos daquele estupendo dispêndio de energia e isso não escapou ao outro.

– A vitória é minha. Você não tem chances. Quem manda esquecer que é um vampiro?

Alexis se viu novamente arremessado contra as estantes. Perdia muito sangue, o que o deixava mais fraco ainda. Sua visão começou a ficar turva.

“Droga!! Parece que não tenho outra saída! Ele é muito mais forte do que pensei!”

Mordred se aproximava, julgando-o indefeso, presas à mostra. No seu olhar se via a Cobiça e a Fome.

– Tanto sangue desperdiçado…Pena que você não consegue sentir esse prazer…o medo da presa se destilando pelos poros…a antecipação do banquete, ainda mais de um sangue tão nobre… – o outro sorriu, se debruçando sobre ele, buscando a carótida. Vou sugá-lo até a última gota!

– Isso é o que você pensa, miserável!

– O quê?!

Quando Mordred se preparava para cravar-lhe as presas, Alexis encostou em sua testa o Anel do Dragão. O efeito foi imediato. Num brilho vermelho cegante, o outro se viu literalmente ser dissolvido numa explosão de luz, não restando nem mesmo as cinzas…

A porta se abriu de repente, escancarando-se. Igor entrou como um vendaval, procurando seu amo e o encontrou caído a um canto, absolutamente exausto.

– Mestre!! Mestre!! Acorde!! O senhor está bem? O que houve? Quem o atacou?

Com dificuldade, uma vez que Alexis era muito mais alto e mais pesado do que ele, Igor o ajudou a sentar-se numa das poucas cadeiras que sobrara inteira.

– Está tudo…bem…meu velho amigo… – Alexis murmurou, cansado.

– Como tudo bem?! Veja o estado em que está! Quem era ele?

– Não sei…Alguém… a mando de… uma tal organização poderosa… – Alexis tentava tomar fôlego. – Não deu pra…descobrir…muita coisa.

Subitamente, como se guiados por uma força invisível, seus olhos aguçados se fixaram num papel caído em meio da desordem em que estava a biblioteca.

– Mas o que é isso?

Ele tornou a erguer-se, meio trôpego e apanhou a folha amassada e rasgada. Havia alguns nomes escritos nela:

O primeiro nome estava envolvido por um círculo e os dois seguintes riscados com sangue. Havia o nome de dois lugares também.

“Ouricuri… e Recife, Estado de Pernambuco, Brasil.”

– O que significa, senhor? – perguntou Igor.

Pensativo e intrigado, Alexis respondeu vagamente:

– Não sei, mas parece que realmente eles tem ramos em lugares bem distantes…Brasil… – ele se calou, por instantes, então, um brilho maroto surgiu em seu olhos azuis. – Igor, arrume as malas e ligue pro meu agente. Diga que vou antecipar a turnê brasileira…Mas que faço questão que comece pelo Nordeste. Traga todo material que encontrar sobre o Brasil, preciso aprender português rápido. Eles finalmente atraíram minha atenção e se antes eu os atrapalhava inconscientemente, farei isso pra valer agora!

– Muito bem, farei como desejar, mas antes trarei sangue. Precisa se alimentar ou não conseguirá dar nem um passo!

Alexis concordou, distraído.

– Sim, sim…Mas vá depressa. Não temos tempo a perder!

Recostando-se na poltrona de espaldar alto, ele fechou os olhos, pensativo:

“Quem serão essas pessoas? Que ligação teriam com Mordred e essa pretensa organização?”

Então reparou num outro nome que pendia na parte rasgada do papel.

“Phoebe… Van Hellsing!” – ele pensou, surpreso. – Van Hellsing…

O nome do velho inimigo de sua raça e família ecoou em sua mente. Já se encontrara com um deles há uns…quanto tempo fazia mesmo? Cinqüenta, trinta anos? Talvez menos? O tempo não tinha muito sentido pra ele, às vezes. Talvez fosse o pai ou o avô dessa que era agora citada, o nome circundado por um círculo vermelho.

Lembrou-se do velho Van Hellsing. Ele o perseguia de vez em quando, principalmente querendo provar ao mundo que Alexis era um vampiro e saber sobre o paradeiro de seu pai, seu tradicional inimigo familiar. Num desses encontros, o velho caçador de vampiros, perguntou a ele, intrigado:

Você é um mistério pra mim…Um mistério que não consigo desvendar…Um vampiro, filho de vampiro, o que por si só já é impossível! E que ainda por cima, combate sua própria espécie e protege os humanos!! O que você é afinal de contas??!”

Alexis sorriu, um sorriso amargo e sem alegria, como de costume.

Quando o senhor descobrir, me avise…Agora…Se ainda quiser me matar, fique à vontade. – ele tirou o paletó e abriu a camisa branca do elegante smoking que usava, expondo o belo torso musculoso, apontando temerariamente para seu coração. Os olhos frios, sem emoção fitando o ancião. – Vá em frente. Use sua estaca…Ou caçadores modernos não usam mais esses meios antiquados? Ainda porque não adiantam mesmo, não é? – seu sorriso agora foi sarcástico. – Se fosse o senhor, cortaria minha cabeça ou usaria o fogo…mas não quero ofendê-lo, ensinando seu ofício. Só quero que saiba uma coisa: quando se decidir, estarei esperando. Não vou fugir nem me esconder. Nem poderia, não é mesmo? Afinal, a imprensa sempre sabe onde estou… e o senhor sempre saberá quem sou em cada identidade que eu assumir…Adieu.”

Nunca mais o vira desde então. Talvez não tivesse descoberto a resposta que procurava ou já estivesse morto…Não importava. O que importava agora era descobrir que “Organização” era essa e o que tinha ver com aquelas pessoas.

“Bem… Brasil, estou à caminho!”

*************

FIM?

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POSTADO POR

Andrea Bertoldo

Andrea Bertoldo

    • Melhor coisa é não ter limitação de caracteres! Aí a imaginação vai longe!^^ Obrigada, Isa!^^

      • Verdade, a gente pode explorar bem o que queremos contar, igual foi de Dama para a Antologia, mudei e acrescentei mais coisas do original.

        Aguardando mais de Alexis =)

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