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Fome

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FOME

Sylvana Camello

 

“Henrique é um estudante de Direito que trabalha num banco e mora com sua mãe, Dona Eva. Depois de um dia comum de faculdade, decide dispensar o ônibus e comer um lanche de Pit Dog. Abordado por um estranho, descobrirá que dias comuns podem se transformar em um grande pesadelo. Agora Henrique sente uma fome dilacerante e um buraco no estômago … Que nome vão dar para isso, hein?”

 

Não sei se vão acreditar em mim ou não. O sanatório não acreditou, claro. E deu no que deu. Fui até lá por livre e espontânea vontade, um dia antes do meu infortúnio. O médico disse: “Você está bem, vem aqui só pela comida”. Eu realmente precisava comer. Qualquer ser humano que não come enlouquece. Eu não sei de onde vem minha loucura. O que posso dizer? Acho que enlouqueci mesmo, só que de fome.

Tudo começou numa sexta-feira quente em Goiânia. Isso não é novidade. Goiânia é uma cidade superabundantemente quente. Saí do trabalho e fui direto para a faculdade. Assisti meia dúzia de aulas chatas, com professores aporrinhantes, carregando livros pesados numa mochila que me cortava as juntas dos ombros. Subi pela Rua 10 – uma alameda íngreme – que quando no topo, sentimos o ar rarefeito. Decidi que caminhar depois das 11 horas da noite seria minha melhor opção. Bem melhor do que esperar mais de 40 minutos por um ônibus lotado de gente no toco.

Na Rua que mais parece o Pico Everest – repleta de Pit Dogs e vendedores de churrasquinhos de gato – comprei algo parecido com um espetinho de picanha. Pelo menos me disseram ser feito de picanha. Mas, na verdade, creio que seja o rabo de um gato vira-lata. Porque Goiânia é a cidade superabundantemente cheia de churrasquinhos de gato (Seu gato sumiu? Tá na capital do Goiás sendo assado e besuntado na farinha).

Engasgando com os nacos de carne que conseguia arrancar do espeto, continuei subindo a Rua com aquela mochila que me cortava as junções dos ombros. Vários vultos passavam por mim. Não dei atenção. O que mais temos nas cidades grandes são vultos que passam pela gente sem que as percebamos.

Dos vários seres humanos que falam com o hálito de cigarro; que te perguntam às horas; que querem saber dos ônibus e suas linhas; que comem e bebem até regurgitarem seus lanches; apenas um parou para ter uma prosa comigo. Logo aquele de pele morta com cor de espetinho de gato passado do ponto.

Ele se aprochegou pedindo dinheiro para comprar um naco. Não dei. Me olhou nos olhos com rosto encovado, dentes sujos e amarelados. Se aprochegou de novo me pedindo dinheiro para um naco. Não dei. Ele colocou os braços ao longo do corpo, balançando-os de forma estranha, cochichando algo para mim numa língua que não era o Goianês. Sem que eu pudesse reagir espirrou na minha cara. Ou melhor, cuspiu em mim uma gosma purulenta, sem cheiro, parecida com maionese de domingo. Tentei limpar com as mãos, sentindo nojo, fazendo com que todos os gatos que comi até hoje miassem dentro do meu sistema digestivo.

Quando consegui recuperar a visão, o vulto havia sumido. Indignei-me com a situação, claro. Peguei um guardanapo num pit dog qualquer e continuei andando. Em casa tomei banho e fui para cama. Não era a primeira vez que me acertavam com um catarro. E não seria a última.

O papagaio de minha mãe me despertou no outro dia com um sonoro “Hora de levantar, Henrique!” A mesa do café da manhã estava posta, com bolos e pão de queijo. Mamãe não tinha o sorriso das propagandas de margarina, mas se sentou para comer comigo. Comi mais que o normal, despertando o olhar indagador dela. Dona Eva não fez perguntas, apenas assou mais uma fornada de pão de queijo. Peguei o rumo da rotina, para o banco do “faz-me rir” no final do mês. Por volta das 9 horas da manhã senti um buraco no estômago, uma dor dilacerante, um arranhar nas entranhas. Que vontade louca de engolir! Fui até a copa e bebi um copo de leite. Voltei para meu caixa me sentindo bem melhor.

O dia transcorreu lento, com suor nas têmporas e uma tremedeira de drogado. Fui para casa. Tomei alguns analgésicos, Omeprazol e Dramim; nada. Continuei sentindo aquela dorzinha chata no estômago. Havia um buraco em mim que precisava ser preenchido com comida. A fome me dilacerava.

Na cozinha da mamãe botei para dentro as sobras do jantar; vários pedaços de abacaxi, doce de leite, pão com Nutella, carne cozida, tomate, frango, duas pizzas congeladas e um copo de leite nas garrafinhas da tupperware. Depois fiz miojo, comi mais tomates, pepino em conserva e café. E eu nem gosto de miojo. Pensa no desespero do rapaz aqui.

Por um tempo a dor se abrandou, me devolvendo a cor na pele. Me preparei para a escola sentindo que o fluxo do sangue voltava para o meu rosto encovado. Mamãe não fez perguntas, apenas reclamou da bagunça na cozinha. Fui para o terminal. Os cheiros das comidas dos quiosques me fazendo salivar de novo. Não acreditei que a fome estava voltando. Tinha algo estranho dentro de mim. Um troço sinistro. Parei nos pit dogs da Rua 10. Comi em todos eles, de porta em porta. “Outro X-Dogão para o cara do direito”, diziam com espanto. Deixei a comilança na madrugada, voltando para casa. O papagaio dormia e eu comia. Quando mamãe me viu debruçado nas sobras da geladeira ficou preocupada. Seu filho parecia com um zumbi de George Romero (diretor de um filme qualquer que assistira com meu pai na época em que os dinossauros habitavam a terra). Dona Eva combinou um médico comigo naquela tarde. Me levaria num CAIS pela manhã.

O clínico geral nada atestou. Então voltei para casa e para a comida. Comia do pôr do sol ao raiar do dia. E o pior era que não engordava e nem cagava. Pelo contrário, a barriga funda, os olhos de um drogado. E a pele? Bem, isso vocês já sabem, né? Cor de espetinho de gato passado do ponto.

Mamãe desesperou quando me viu. Não conseguia tirar o prato da minha mão. Quanto mais eu comia, mais eu queria. Ela marcou uma consulta para mim na Casa de Eurípedes (um sanatório de Goiânia). Nem liguei para os maus modos dos loucos.  Só pensava em comer.

Um médico corpulento, de respiração apertada e sonolenta, me atendeu em seu consultório. Minha mãe explicou a situação – falou da minha ansiedade. O Dr. Asma não tirou os olhos de sua guia de receitas, me aplicando um sossega leão. Dormi o resto do dia. Acordei num quarto azul, com minha mãe do lado. Só que nada mudou. Comecei a gritar, espernear e arranhar as paredes. Disse que sentia fome, muita fome. Berrei aos quatro ventos: “Foi o catarro! Foi o catarro!”. Ninguém acreditou na história do espirro. O médico pediu para que eu explicasse os sintomas. Disse para tomar uma caixa de quetiapina que entenderia do que eu estava falando. Ele desconversou e me trouxe uma refeição. Comi como um homem das cavernas.

Retomei a vida, mas a fome ainda me dilacerava as entranhas. Continuei batendo ponto na Casa de Eurípedes, sempre acompanhado da minha mãe. No começo me davam remédios, depois passaram a me dar comida. Um dia enjoaram de mim e me deram alta. Fui embora. Tentei domar o monstro que me consumia sozinho, renegando a dor no estômago e o buraco na barriga.

Na primeira noite do meu infortúnio, Pirata, o papagaio, não parava de grunhir: “dá o pé! ”, “dá o pé! ”, “dá o pé! ”. Fiquei nervoso e chutei a gaiola. A ave continuou grunhindo sem se preocupar com meu estado mental enlouquecido de fome. Puxei-o pelo rabo. Depois o tirei da gaiola – seus olhos alaranjados como pitangas maduras; o biquinho crocante feito torresmo; a língua redonda de jabuticaba … abocanhei-o!

Mamãe gritou assustada quando me viu engolindo Pirata. Corri para fora do apartamento mastigando as suas penas, tropeçando na escada, me esborrachando do saguão. Não havia dúvidas do que estava acontecendo comigo: um tipo de loucura, um apêndice da esquizofrenia aguda. Corri para Casa de Eurípedes. O Dr. Asma me atendeu – cansaço nos olhos, uma preguiça monstro: “Você está bem, vem aqui só pela comida. É um drogado, um “craquero”. Quando bate a abstinência corre pra cá, pra torrar o meu saco. ” – na boca do médico duas salsichas; nas bochechas duas maçãs; nos braços dois salames; nos olhos dois bombons; nos dentes Tridentes … voei nele. Arranquei pedaços inteiros do Dr. Asma: da face, do tronco, da barriga. Enfiei as mãos por suas entranhas puxando tudo para fora e sugando suas vísceras como espaguete.

Um furdunço danado tomou conta do sanatório, gente correndo para socorrer a comida, eu querendo mais e mais. Se me deixassem em paz devoraria o homem até o talo, porque tudo que via nele poderia ser mastigado: a pele, os ossos, os cabelos. Um grande bolo de pasta americana regada à calda quente de morango. E o gostinho da carne? Hummmm … do croc, croc das falanges, dos nervos e juntas. Ah, se soubesse que isso me traria algum alívio, o prato do dia teria sido minha mãe e não o papagaio.

Com muito custo me tiraram de cima do médico. A polícia chegou com seus cacetes, atiçando ainda mais minha fome. Me arrastaram para dentro de um quarto. Acordei com outros como eu: olhos esbugalhados e pele cor de churrasquinho de gato passado do ponto. Estávamos amarrados na cama. Percebi que não imobilizaram minhas pernas. Conseguia levantá-las na altura dos quadris. Logo me veio a ideia de comer o meu dedão do pé. Pensar foi o mesmo que agir. Comi minha perna direita.

Não importava o que fizesse, a maldita da fome não passava.  E eu ainda tinha a perna esquerda. Me devorei até os quadris. Dava para ver minhas vísceras esparramadas no colchão. Pareciam tão suculentas e eu não conseguia alcançá-las; que merda! (desculpe o palavreado se você é religioso) Não sei se é a carne que me faz salivar ou o croc croc dos ossos. Só sei que preciso mastigar. Mandar para dentro. Enfiar o pé na jaca – Ops! Não tenho mais pés.

A fome vai e volta, como naquele brinquedo de Zic-Zac. Posso comer minha língua se quiser. Não é má ideia. Hum … o sangue também é bom, me faz lembrar chocolate quente. Croc croc croc. Não tem mais nada em mim para ser mastigado. O que sobrou não consigo alcançar. Talvez as bochechas, quem sabe? As minhas são como as do Kiko; suculentas. E o pior da história é que ainda sinto fome. Fico pensando no nome que vão dar para isso: se apendicite, diverticulite, gastrite, enterite, labirintite, rinite, blefarite, coleciste, gastroenterite, zumbizite ou frescurite? Só sei que comi minhas bochechas. Que delícia!

 

 

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Sylvana Camello

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