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Gostosuras ou Travessuras

ESPECIAL HALLOWEEN CYBER TV

 

Reza a lenda que no dia 31 de outubro, o mundo dos espíritos e o mundo dos homens está tão próximo um do outro que coisas inexplicáveis acontecem, contam os mais velhos histórias assustadoras de fantasmas, bruxas e outros seres repugnantes que vem para o nosso mundo neste único dia, apenas para brincar com os mortais.

Em mitos lugares hoje é o dia que as crianças saem por ai fantasiadas pelos bairros da vizinhança em busca de doces ou sustos, ou como dizem por aqui: gostosuras ou travessuras. Como todos, eu havia me fantasiado e andado pelas ruas do bairro em busca de doces, apenas em uma casa do bairro nos era considerado o susto, e nenhum de nós tinha a coragem de ir lá. ― A casa das garotas Pacheco. – Todos sabíamos, pelo jeito que ela se vestia que tanto ela quanto a mãe eram bruxas, e se algum de nós fosse lá algo aconteceria, então evitávamos aquela casa sempre que podíamos.

Era por volta das nove horas quando voltei para casa, feliz pelos doces que havia ganhado, mamãe me recebeu na porta sorrindo, pois era a primeira vez que eu saia de casa sozinho para pedir doces, eu havia respeitado o toque de recolher que ela havia me imposto ― se bem que para mim este não era o real motivo pelo qual ela estava tão feliz. – Ela me abraçou, me beijou e fomos para dentro contar os ganhos da noite.

Ficamos por mais uma hora na sala, comendo os doces que ganhei e conversando sobre a minha noite, quantas casas eu havia visitado, quais eram as decorações das casas e qual havia me dado mais medo. As dez horas, mamãe me colocou na cama, contou uma de suas histórias de ninar, deu-me um beijo caloroso no rosto e após me dizer “boa noite” apagou a luz e me deixou sozinho no escuro de meu quarto.

Apesar de ter apenas oito anos, eu nunca tive medo do escuro, ou de fantasma, monstros ou bruxas… pelo menos não até aquela noite.

A luz do corredor anda estava acesa, dava para ver pelo buraco da fechadura e por debaixo da porta, a luz amarelada que atravessava as suas brechas deixando o cômodo com uma penumbra a qual meus olhos se acostumaram rapidamente.

Sem sono, me permiti andar um pouco pelo quarto tentando não fazer barulho para não chamar a atenção da minha mãe que ainda estava na sala assistindo tv. Caminhei até a janela, e fiquei sentado frente a ela observando o movimento da rua. Os garotos mais velhos ainda corriam para lá e para cá procurando as casas as quais ainda não haviam batido na busca por doces, outros procuravam as casas dos desavisados para as famosas travessuras de dia das bruxas. Os meninos carregavam latas de tinta, cola e rolos e mais rolos de papel higiênico, sujando a rua e as casas daqueles que se recusavam a cooperar com a caçada, num dos mais caricatos estilos holiwoodianos.

Meus olhos pesados me fizeram cochilar.

O brilho da lua cheia era imponente e único num céu tingido de negro, a não ser pelas manchas cinzas se mexendo ao sabor do vento noturno. Bem ao longe ouvi o piar de uma coruja, o bater de suas asas me fez acordar daquele momento num susto involuntário.

Decidido a finalmente dormir, retornei à minha cama, me cobri e ainda observando a janela aberta fechei os olhos. Num segundo depois, um estranho riso vindo da janela, chamou minha atenção.

―  Qual o seu nome garoto? ― Disse-me uma voz abafada.

Olhei mais atentamente em direção a janela, e pude notar a silhueta de um homenzinho sentado, me observando nas sombras.

― Meu nome é M’icellus. ― Eu disse em resposta. ― Quem está ai?

Aquele serzinho com cerca de doze centímetros deu um salto para o chão, num estalo abafado depois continuou caminhando em direção a minha cama. Pude ouvir o pisar de seus sapatos no chão de madeira do meu quarto. Pouco tempo depois, eu senti um leve puxão nos lenções.

Diante de mim estava o que parecia ser um boneco antigo feito pelas vovós de antigamente, de orelhas pontudas, olhinhos apertados envoltos em um óculos redondo pousado na ponta de seu nariz cumprido, os cabelos vermelhos apresentavam grandes tufos ao redor da cabeça onde um grande chapéu repousava, suas roupinhas limpas e bem alinhadas lhe davam um ar místico enquanto se aproximava.

― Olá! ― Saldou-me ele cordialmente.

― Olá senhor duende! ― Respondi num sorriso.

– Sou um Leprechaun garoto, não me confunda com aqueles anões de jardim. Me chamo Fingal Flyn. ― Disse ele com um estranho sorriso, enquanto seus olhos assumiam um brilho esverdeado. ― você gostaria de brincar?

― Muito prazer senhor. ― Respondi educadamente em um sorriso sincero. ― Mamãe não me deixa sair para brincar a essa hora.

Apontei para o relógio ao lado, em cima da minha mesinha de cabeceira. O relógio marcava dez minutos para a meia noite.

― Ela não vai nem notar que saímos. ― O homenzinho deu um salto, como fizera a pouco na janela. Abrindo a porta um pouquinho para que eu pudesse ver o lado de fora. ― veja, sua mãe está dormindo feito um anjo. Prometo que voltamos antes dela acordar.

― Eu não sei… ― Respondi.

― Venha, vai ser divertido. Eu prometo.

Os olhos do leprechaun brilharam mais uma vez. Por uma fração de segundos, seu rosto pareceu mudar de forma. Eu não podia ver as pupilas de seus olhos, apenas o brilho esverdeado me chamando para fora da cama.

― Vamos brincar! ― Ele me chamou com uma voz estranhamente rouca.

Suas roupas tornaram-se sujas e esfarrapadas, seu corpo curvara-se para frente, os músculos atrofiaram de uma vez, sua pele assumira um tom acinzentado evidenciando os ossos de seu corpo cadavérico, os olhos eram apenas orbitas esverdeadas e vazias.

Eu tive medo!

Um arrepio invadiu-me a espinha, meu coração acelerou, o suor frio, a boca seca. Eu queria gritar, mas as palavras não saiam.eu quis correr para longe, mas minhas pernas não me obedeciam. Ele estendeu a mão para mim. Eu não queria obedece-lo mas meu corpo o seguia contra minha própria vontade.

― Vamos brincar! ― As palavras saiam sem aviso.

Aquela coisa havia tomado o controle. Agora eu era meramente um boneco em suas mãos, um fantoche que seguia suas ordens. Ele me pegou pela mão, os dedos finos eram frios e ásperos como a morte. Levando-me até a janela, forçou-me a pular revelando-me um sorriso macabro.

Tudo ficou escuro e naquele instante eu tive certeza de que jamais voltaria para casa.

― Gostosuras ou travessuras? ― O homenzinho me perguntou quando chegamos ao nosso destino.

Diante de mim estava uma floresta repleta de arvores tão altas que não se podia ver o céu. Aquele ser grotesco segurava aninhado em seus braços um gato negro, seus olhos amarelos, passeavam de mim para o ser que o segurava.

― Gostosuras ou travessuras? ― ele perguntou mais uma vez.

Naquele momento eu pude perceber alguma coisa se movendo em meio a floresta, o som dos passos vinham de todas as direções, mas eu não conseguia enxergar o que era, e pela terceira vez o homem perguntou:

― Gostosuras ou travessuras?

― Gostosuras! ― Respondi sem pensar.

― Muito bem… muito bem.

Ele amarrou um laço de fita branca ao redor do pescoço do gato antes de colocá-lo no chão, para só então solta-lo rumo a floresta.

― Você deve fechar os olhos e contar até dez. Depois disso encontre o gato de laço branco, não olhe para traz e não volte, ou você jamais encontrará o caminho de volta. Encontre o animal e ele lhe mostrara o caminho. Siga as regras e você voltará para casa. Não peça ou aceite ajuda de ninguém, um erro e se perderá para sempre. Esse é o único modo de sair daqui vivo. NÃO ME DESAPONTE.

Sem muitas opções a não ser a de obedecer, virei-me, fechei os olhos e contei até dez, ao me virar novamente o leprechaun não estava mais lá. O vento frio percorreu-me a espinha mais uma vez. Ele havia me deixado sozinho naquele lugar. O cheiro de podre invadia minhas narinas, Só então percebi que não era para mim que ele fizera aquela pergunta, mas par a as várias crianças que corriam por aquele lugar.

 Elas não estavam ali antes. Risinhos ecoavam por todos os lados, as crianças corriam a procura do gato, todos pareciam desesperados procurando por ele.

― Ele foi por aqui! ― Disse um garoto baixinho de olhos puxados.

― Não, foi por aqui! ― Disse outro apontando em uma direção oposta.

― Siga sempre em frente. ― disse-me uma voz vinda de dentro da minha cabeça

Todas as crianças corriam em direções opostas apontando para qual direção eu deveria ir.

“Um erro e se perderá para sempre.”

02

Ele desaparecera.

Diante de meus olhos o pequeno Leprechaun desapareceu sem deixar rastros ou se despedir. Eu estava sozinho num jogo de gatos e ratos ao qual eu não queria, mas era obrigado a jogar.

Segui minha intuição por um tempo, o que me levou cada vez mais fundo para dentro da floresta. As vozes das outras crianças continuaram a me dar dicas sobre o paradeiro do bichano.

― Ele foi pra lá. ― Uma menina de olhos amendoados me disse saindo de traz de uma arvore.

― Obrigado. ― disse de modo automático.

A menina sorriu.

― Eu não quero mais brincar.

― e por que não para?

― nenhum de nós consegue mais sair. ― ela respondeu começando a chorar. ― Vá embora antes que seja tarde.

Numa arvore próxima um sino tocou e um miado abafado chamou minha atenção, sem pensar duas vezes corri ate ele e o peguei nos braços. A menina continuou parada com os olhos vidrados nos meus.

― Va embora, antes que seja tarde. ― ela me disse correndo para a próxima arvore e desaparecendo.

Foi então que eu acabei percebendo o que acontecera. Assim como o gnomo a garota havia desaparecido, e não só ela como todas as outras crianças.

Eu estava novamente sozinho.

― MICK …! ― ouvi minha mãe gritar.

― AQUI! ― eu gritei de volta correndo na direção do som.

― Mick… ― Ouvi mais uma vez.

Nos meus braços o gato miava e o sino soava como um louco. Quanto mais eu me embrenhava pela floresta, mais perdido eu ficava.

― MÃE… ― Eu gritei, olhando em volta mas ninguém respondeu de volta.

Eu estava perdido.

Sem saber o que fazer eu simplesmente larguei o gato e me sentei num tronco, e escondendo o rosto comecei a chorar. Pedindo para que Fingal aparecesse.

Se eu soubesse o que aconteceria nunca teria aceitado aquela brincadeira.

― O que aconteceu criança? ― A voz do duende invadiu a escuridão.

― Eu quero ir para casa. ― disse limpando as lagrimas.

― Basta pedir.

― Gostosura ou travessura?

― Você pode ir para casa … apenas siga o arco-íris.

O pequeno gnomo passou a mão no ar e num segundo um fio de luz multicolorida se formou revelando um novo caminho a seguir.

Eu corri como se não houvesse outra alternativa. Em pouco tempo eu estava de volta a entrada do parque, e lá estava minha mãe de pé procurando por mim.

― MAE ― eu gritei correndo até ela.

― Mick ― Ela vinha em minha direção.

Ela estava ajoelhada de braços abertos esperando por mim e eu corria para abraça-la. Minhas mãos transpassaram os braços dela e a atravessaram Num alento sombrio.

Não peça ou aceite ajuda!

Só então entendi… as lagrimas rolavam enquanto eu chamava por ela e ela por mim.

Assim como os outros eu havia me tornado um fantasma.

Gostosuras ou travessuras? Ele disse e eu me arrependi no final. Ele ainda está por ai… Se alguém te chamar para brincar a meia noite, não aceite ou você pode se arrepender no final.

 

POSTADO POR

Apollo Souza

Apollo Souza

Hélio Soares de Souza, desenhista e escritor, sob o pseudônimo de Apollo Souza, nasceu em 09 de dezembro de 1986 na cidade de Natal— RN. Formou— se em pedagogia pela Universidade Estadual Vale do Acaraú no ano de 2012 na cidade de Santo Antônio do Salto da Onça, onde mora desde os 09 anos de idade. Leitor assíduo prefere temas que envolvam mitologia, magia e desenhos animados, sempre gostou de criar suas próprias histórias e desenhar os personagens que fizeram parte de sua infância. Decidiu escrever seu primeiro romance/ ficção após ler A arma Escarlate de Renata Ventura e se apaixonar por muitos de seus personagens cativantes e incertos.

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