Há Vida no Sertão?

leia em 3 min


HÁ VIDA NO SERTÃO?

Até que ponto é possível se envolver na vida de alguém? Existe várias respostas para uma mísera indagação. Pobres latino-americanos! Especialistas na criação de suposições e historinhas ficcionais. Mas voltando ao ponto de partida, eu penei muito para chegar onde cheguei. Onde já se viu uma doutora em Piauí? Formada em mestrado e doutorado, não é para qualquer um. Minha mãe é muito orgulhosa de minha pessoa! Ainda é e morrerá tendo orgulho porque o que fiz foi justificável. Só quem vivenciou a fome e a seca do sertão tem aptidão para julgar o que fiz. Deus é o juiz maior, então, a justiça brasileira não vale de nada para mim. Corrupta e insignificante! 

-Oh dôtora, tô com uma dor da moléstia. – Disse um menino, certa feita. Ele vomitava verme de tanto barro que ingeria em sua tapera. Ah! Mas comer barro é exagero, só acontece na África. É ruim, hein, aqui no sertão tem vários nessa situação deplorável e a mídia calada.

Pra quê permitir que um individuo pobre nasça se seus pais não terão condição de criá-lo? E foi assim que tudo começou…Duma premissa boa e honesta surgiu a difamação, as críticas, os zói grande, as fofoqueiras de plantão bizoiando tudo e anotando na mente para denegrir a imagem de uma mulher séria e boa, como eu. Na verdade eu queria ser deputada futuramente, tinha bons planos para esse pessoal todo mas enfim, decidiram pegar a corda e empurrar na minha guela, só faltou expor meus pedaços na praça pública. Me senti nos tempos da guilhotina. 

Ah! Já faltou agulha para furar os diabéticos, tive que improvisar com grampos e alfinetes. É mas ninguém reconhece isso! Já fiquei dois meses sem receber salário, nem de cheiro e o que fiz? Parei de atender o povão? Eu não! Arregacei as mangas e trabalhei igual uma desvairada. Que povo é esse que não reconhece os meus benfeitos? Vocês me pagam, miseráveis. Miserável é uma palavra muito dura, né? Vou chamar de infelizes e pronto, cai melhor nessa situação. 

Nesse tempo que eu vivi aqui já vi pais de família saírem de casa, fugirem mesmo, para não verem seus filhos morrerem. É triste? É. É de partir o coração. Ah! Já chorei tanto com essas coisas, sabe. Meu pai também fugiu de casa mas no caso dele era safadeza mesmo, fugiu com uma quenga na caminhonete. Só Deus sabe onde ele está. Não quero nem meia. Eu vivenciei a fome, a vontade de comer um pedaço de pão velho e encontrar apenas água e cominho no fogão de lenha. Era o que tinha e acabou. Já peguei passarinho no mato para misturar na comida. Eu vivi! É muito fácil insinuar, julgar mas viver é outra coisa. É ainda mais triste. Eu venci a fome, venci a pobreza, apenas venci mas foi tão difícil. Árduo.

E assim foi…crianças nascendo e morrendo, uma atrás da outra. As que tinham condição viviam, as mais humildes eram livres do sofrimento. Essa é a lógica! Se não consegue vencer o sofrimento, livre-se dele. Foi o que fiz durante uns anos. Sete ou oito, não sou boa com datas. As mães sofriam com as perdas, claro mas era melhor chorar antes do que depois. O que é pior ver o bebê morto ou um moleque chorando com fome e não ter o que comer? Não é uma pergunta retórica, apenas uma reflexão. Sofria junto! Era necessário haver uma reação plausível, aprendi isso com Newton.  

Mas eu já estava desolada sem dinheiro. O meu marido segurava as pontas contudo era preciso a renda da maternidade e aí? Na hora do “vamo ver´´ não havia recursos e o que fazer numa situação dessas? Nem eu, nem ele sabíamos. 

-Sua boa ação poderia render uma grana provisória. – Disse ele, sóbrio. Eu me espantei. Ele tinha uma conduta tão fiel, jamais imaginaria isso e quando resplandeceu a ideia na minha mente, decidi segui em frente. Foi difícil!  Já não era uma boa ação, era apenas um serviço pago. Mais um desses serviços pagos! Detesto fugi da autenticidade, sou assim desde os tempos da universidade. 

-Dona Maria, meu amor, acho que consigo resolver esse probleminha para a senhora. Custa só uns sessenta conto. 

De sessenta em sessenta consegui a façanha de receber quase três mil por mês, muito mais do que eu ganhava. Era uma renda boa! Excelente! Me senti agraciada por Deus por ter me dado tanto amor pelos mais necessitados e pela oportunidade de lutar por eles. 

Algumas mães preferiram manter o problema, porém, eram visionárias, visavam o bolsa família e a ajuda do governo. Uma bobagem! Até parece que o governo ajudava tanto assim. Vi, inclusive, uma dessas trocando voto por comida na eleição passada. Um horror! O que custa mais? A dignidade ou a ascensão? Não se sabe…Eu fico com a ascensão. O único digno que pisou nessa terra foi crucificado, eu é que não quero passar por tais maus bocados. Sou ser-humano, tenho minhas falhas, muitas, inclusive. 

Ganhei dinheiro! O necessário para construir minha casa e comprar um carro. Mas como nem tudo são flores e lembrando que sou do sertão, então, nem existe essa hipótese…fui descoberta! 

-Acabou, senhora. -Disse um policial otimista.

Enquanto houver vida em mim, haverá esperança. A premissa foi tão boa quanto a do feminismo, porém, se perdeu pelo caminho, reconheço. O que me deixa em paz comigo mesma é o tanto de sofrimento que poupei e ainda que eu seja julgada à prisão pérpetua ou à trocentos anos de xilindró, minha alma está sossegada. Eu fiz o bem… à minha maneira mas fiz o bem, isso ninguém pode negar.

                 RELATÓRIO DE JUCILENE PEREIRA DO SANTOS, PENITENCIÁRIA FEMININA DO PIAUÍ, 2005


Gostou? Compartilhe com seus amigos!

Samuel Brito

  • Uau!! Incrível seus contos Samuel e trazem uma visão sobre um tema e ao fim sempre somos surpreendidos por uma nova visão anexada. Parabéns por expor a difícil vida do Sertão em sua escrita maravilhosa s2

  • >
    Criar conteúdo
    Enquete
    Votação para tomar decisões ou determinar opiniões
    Cyber Editor
    Publique ou agende capítulos e chamadas de divulgação de sua História