Incognoscível 2 | Episódio 2×8 – Propósito

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Aquele dia estava vibrante. O sol parecia mais vivo do que o normal. A grama estava tão verde que respirava com o vento. Os pássaros dançavam um baile alegre no céu azulado. As flores sorriam ardentes exalando seus perfumes. E a estrada que levava para a fazenda de Licurgo parecia cantarolar uma música country. Era tudo muito mágico.

A camionete de Licurgo estava parada no acostamento. Ela tinha um vermelho vivo, mas que estava com tons de marrom devido à lama da chuva recente. Na carroceria, várias caixas com roupas de frio. Licurgo havia arrecadado as roupas em Vale Verde, para distribuir para as crianças. Ele estava tão contente com tudo aquilo.

Enquanto Licurgo retirava o pneu dianteiro que havia furado, Elen, uma garotinha de 15 anos que o acompanhava, cantarolava uma música desconhecida para ele. Ela tinha um rostinho redondo, usava tranças bem amarradas e estava sempre com aquele vestido marrom quadriculado. As sandálias estavam gastas, mas ela adorava usar aquilo.

Licurgo lhe encarou desconfiado: – Que música é essa? – ele perguntou, dando um descanso.

– É Shakira! – ela respondeu faceira.

– Chá de quê? – enxugando o suor na ponta da manga.

Ela sorriu com a ignorância do tutor.

– Ai tio Licurgo, você é uma graça.

– Eu que não sei qual é a graça?

Ele levantou e entrou na cabine do carro, retirou algo do porta luvas e fez cara de suspense.

– Eu ia te dar lá na fazenda, mas não consigo controlar minha ansiedade – ele disse, escondendo as mãos.

– O que foi? É presente?

– Adivinha?

– Mostra logo! – dando três pulinhos de empolgação.

Ele revelou uma cestinha recheada de uvas roxas.

– Aiiiiiii! Eu amo!

– Eu sei.

Elen abraçou Licurgo e ia lhe dar um beijo na face, mas se afastou de repente.

– Ecaaa, não vou te beijar, você tá todo melequento do suor!

– Quer dizer que eu te dou um presente e você nem pra me dar um beijinho? – ele brinca.

– Não agora! Você precisa de um bom banho.

Ele voltou para o pneu, mas sem antes observar com satisfação, o rostinho de Elen comendo as uvas.

– Por que você faz isso, tio Licurgo?

Ele estranhou a pergunta.

– Isso o quê?

– Isso – ela disse apontando para as uvas, e depois para as roupas. – Por que você se importa tanto com a gente?

Ele olhou para ela como nunca havia olhado. Ele enxergou propósito e sentido.

– Eu amo fazer isso. Isso me enche de alegria. É como se eu não precisasse de mais nada, a não ser cuidar bem de vocês, da fazenda, dos bichos. Sei lá, parece que Deus me fez pra isso. Pra cuidar de vocês. E, eu tô tentando fazer isso da melhor maneira que eu posso. Espero que eu consiga.

– Acho que Deus tá satisfeito com seu trabalho. Você é um pai pra todos nós. Eu realmente queria ter um pai como você, sabe!

– Mas eu sou seu pai, Elen! Pode crer que eu sou seu pai sim.

– Eu sei, mas não é nesse sentido. Se todos nós que estamos naquela fazenda, tivéssemos um pai como você, nós não teríamos sofrido tanto na vida. Eu agradeço muito o que você faz por nós. Toda a sua dedicação e sacrifício, mas é que o natural era o que os nossos pais biológicos ficassem sempre ao nosso lado. Que estivessem por perto nos ajudando, entendeu? Eu só queria que as famílias fossem normais. Pais com seus filhos. Filhos com seus pais. E tudo tão bonito de se ver.

Ele levantou mais uma vez e abraçou a garota.

– Você é muito amada, Elen. Você é muito especial, e eu nunca vou esquecer de você. O que eu puder fazer para o seu bem, eu irei fazer, tá ouvindo. Não esquece que pode contar comigo – beijando a cabeça da garota. E, ela devolveu um beijinho no rosto suado de Licurgo.

– Ah, e o nojinho do suor? – ele brincou.

– Esquece. Isso nunca mais vai acontecer. Eca!

 

EPISÓDIO: PROPÓSITO

 

 

Após deixar as roupas na fazenda, Licurgo retornou sozinho para Vale Verde. Pois assim que ele descarregou as roupas, recebeu uma ligação da delegada da cidade, pedindo que ele a encontrasse em uma pousada.

Ao chegar à pousada de Vale Verde, era assim o nome do lugar; Licurgo ficou surpreso com a quantidade de viaturas e policiais que cercavam o perímetro.

Ele andou desconfiado e falou com um dos policiais. Disse que a delegada o havia chamado. Em poucos minutos, uma mulher negra, com cabelos cacheados presos acima da cabeça, andar firme, e botas de couro, apareceu diante dele. Ela tinha uma expressão séria de urgência, como se não pudesse perder mais um minuto sem fazer o que estava fazendo.

– Você que é o Licurgo? – ela perguntou incisiva, com certeza não era casada e não tinha namorado. Era daquele tipo de mulher que botava medo em qualquer marmanjo, ele pensou.

– Sou eu sim senhora – respondeu meio ressabiado.

– Me acompanha, por favor!

Licurgo seguiu os passos da mulher até uma van que estava encostada à lateral da pousada.

Mesmo com um dia lindo, chegar até aquele ambiente tornou-se um prenuncio de uma tempestade ruidosa. Algo pesado estava suspenso acima de todos. Uma nuvem incômoda que só era perceptível àqueles que observavam as expressões. E Licurgo observava todos ali, com rostos sombrios e misteriosos. Olhares soturnos que escondiam algo. Estava começando a ficar com medo.

Entrou na van com a delegada e mais uns dois policiais que pareciam técnicos em informática. Sentou-se numa cadeira de praia ao lado da mulher e observou um vídeo diante de um monitor supermoderno.

Nas imagens, era possível notar o hall de entrada da pousada. Um balcão simples com algumas revistas empilhadas ao lado. Alguns folhetos de divulgação. Um sino pra chamar a atendente, que no caso era uma senhora simpática de cabelos brancos. Ela usava óculos com cordinha e sempre segurava um terço em sua mão.

Licurgo viu quando a senhora estava ajoelhada – devia estar rezando ou algo do tipo – levantou-se de repente, parecendo assustada. Ela deu alguns passos vacilantes em direção à escada que dava aos quartos no primeiro andar, mas voltou com medo. A senhora então ajoelhou-se e um homem gigante se aproximou com uma arma. Ele apontou a arma e atirou na cabeça dela.

Licurgo virou o rosto sem querer ver a cena.

– Que coisa horrível – ele suspirou.

– Você conhece esse homem?

– Não. Nunca vi na minha vida.

– Ok, continue assistindo.

Nas imagens, o homem volta a descer as escadas novamente. Dessa vez ele vem com um bebe de colo. Ele desaparece das imagens, mas alguns segundos depois voltar a subir os degraus novamente. Alguns minutos depois, que foram adiantados pelo policial técnico, o homem reaparece carregando uma mulher nos braços. Ela parece estar desacordada.

O policial pausa o vídeo novamente e aproxima a imagem no rosto da mulher.

– Você reconhece essa mulher? – pergunta a delegada, observando com atenção todas as micro expressões de Licurgo.

Mesmo com a baixa resolução da imagem, e com os cabelos loiros cobrindo parcialmente seu rosto, Licurgo consegue reconhecer Jade.

– Conheço sim senhora. Eu conheço a mulher do vídeo – ele fala com segurança.

**

Algumas horas depois, e com o sol mais enfraquecido, a frente da pousada já estava deserta.

Licurgo havia ficado conversando com a delegada e ela lhe contou como conseguiu chegar até ele.

– O casal tem três dias que desapareceu. A mãe do Lucas estava desesperada e contratou um monte de investigadores. Eles conseguiram pegar o rastreador do carro, alguns extratos do cartão de crédito e vieram parar aqui em Vale Verde. Souberam então da sua relação com a Jade no passado e pediram pra contatar você. Inicialmente você era um suspeito, até a gente ver essas imagens. Acho que nem o suspeito sabia dessa câmera escondida.

– O que eles estavam fazendo aqui?

– Segundo o advogado, eles estavam fugindo, inicialmente. Depois descobriram que não eram suspeitos, mas parece que continuaram viajando.

– Acho que estavam indo para a minha fazenda.

– Eles falaram com você?

– Eu falei com a Jade. Disse que queria a ajuda dela pra fazer uns vídeos pedindo ajuda pra fazenda.

– Que vídeos?

– Ela queria se candidatar à vereadora, e estava começando a ficar famosa em Recife. Eu queria que ela produzisse alguns vídeos falando do projeto Esperança. É um orfanato que eu tenho na minha fazenda. Estamos passando um aperto financeiro, o banco tá pedindo a propriedade e eu tô sem conseguir pagar as parcelas. Então, os vídeos seriam pra apresentar o projeto e pedir ajuda de empresários.

– Ela aceitou fazer os vídeos?

– Ela me disse que estava com agenda lotada e não iria conseguir fazer isso.

– Há a possibilidade deles estarem indo à sua fazenda. Mas esse cara entrou no meio do caminho. Ou melhor, bem perto do destino. Eu preciso saber quem é esse cara? Nós estamos fazendo o reconhecimento facial, mas ainda não identificamos.

– Bem, no que eu puder ajudar, estarei à disposição.

– Estou com seu contato. Qualquer coisa eu te chamo.

A delegada entrou na viatura e quando deu partida no carro, o motor morreu. Ela espancou o volante, chateada.

– Posso dar uma olhada? – Licurgo perguntou. – Tô com umas ferramentas na camionete.

– Vai em frente!

Ele abriu o capô e se debruçou sobre o carro. Alguns minutos depois ele deu partida fazendo o carro funcionar novamente.

– Você tem que trocar o carburador – ele aconselhou.

– Muito obrigada. – ela disse entrando na viatura. – Olha, eu não queria te envolver tanto, mas tô indo pra delegacia, e vamos tentar identificar esse criminoso. Você quer dar uma olhada no nosso trabalho?

– Claro! Eu quero muito que vocês encontrem minha amiga – entrando no carro.

A mulher acelerou e partiu em direção à delegacia local.

**

A cobertura do San Marino Hotel era o lugar sagrado para Marieta ficar nas quintas. O lugar com colunas de ouro e teto espelhado era o reflexo do luxo e da opulência que a mulher ostentava.

Ela estava em uma mesa que tinha vista para a cidade. A noite estava só começando, mas Marieta já estava na terceira garrafa de champanhe, quando o investigador Fábio, sentou-se diante dela.

Fábio era magro e elegante. Usava uma barbicha bem aparada e óculos redondos que lhe davam ar de inteligente. Ele sempre mascava chicletes e isso não lhe tirava a elegância. Mas ele mastigava de uma forma pausada, como se não quisesse que as pessoas soubessem que ele tinha um chiclete na boca.

Ele observou a mulher e notou bolsões escuros debaixo de seus olhos. Marieta estava com cara de cansada, cabelos meio desgrenhados e um cigarro pousado entre o indicador e o dedo do meio.

– Você está péssima – ele disse com um sotaque meio francês, que falava fazendo bico.

– Quero meu filho de volta. E a mulher dele. E o meu neto. Eles são importantes para mim – ela desabafou coma voz arrastada.

Fábio deu uma última olhada no estado desgraçado em que a mulher se encontrava e disse: – O Neto está na cidadezinha de Monte Verde. Ele está tentando montar o caso com a policia local. Em pouco tempo nós teremos notícias concretas do seu filho.

Marieta se desgrudou da mesa e ficou ereta com as costas grudadas à cadeira. Seus olhos de peixe morto fitavam o chão esperando por respostas.

– E o Babenco? Qual o envolvimento daquele desgraçado com a minha nora? – ela perguntou, com a língua embolada e rastejando as palavras.

– Aparentemente, não existe nenhuma ligação do Babenco com a Jade. A única ligação direta que eles tiveram foi no presídio. Pois como você sabe, Babenco também é diretor do presídio.

– Faz um favor e descobre tudo sobre esse ser asqueroso. Não sei onde eu tava com a cabeça quando aceitei fazer sociedade com aquela bosta ambulante.

– Eu farei o meu melhor. Como sempre fiz. Deixa o telefone ligado e para de beber. Preciso de você sóbria pra ajudar com a investigação. Tá me ouvindo Marieta?

– Me deixa em paz seu fresco. Vai fazer seu trabalho! – ela bufou, dando um sorriso maroto.

– Se cuida – levantando-se e saindo do local.

Marieta ficou ali, parada, com o corpo presente, mas os pensamentos a mil por hora. “Onde será que eles estão?”, ela se questionava.

**

Após ter estrangulado o médico dentro do caminhão e atirado na cabeça do motorista, Jade pulou do carro em fuga e entrou na floresta que havia ao lado da estrada. Mesmo correndo de forma atlética, ela percebeu quando um carro estacionou atrás do caminhão, e dois homens saltaram correndo atrás dela. Não estava sozinha. Havia mais dois capangas fazendo a escolta do caminhão.

Ela estava algemada, sentindo dores no estômago e com um hematoma gigante ao redor do olho direito. Sua vista estava embaçada e as pernas não tinham tanta força pra vencer os declives e desnives do solo que ela percorria. Suando frio e sentindo os galhos afiados arranharem seu rosto e braços, ela ouviu quando o estampido de um revólver ecoou por toda a floresta. Assustada, Jade caiu de quatro e foi surpreendida quando duas mãos brutas apertaram seu antebraço e lhe seguraram com força.

Ela agarrou uma rocha pontuda que estava caída aos seus pés e tentou arremessar no homem atrás de si. Mas, ele fora mais rápido e desarmou-a, empurrando-a em seguida na terra lamacenta.

– Tu tá pirada vagabunda. Pensou mesmo que ia fazer uma bosta dessas e sair de boas. Cala a boquinha e vem com o tio aqui tá bom! – ele disse com uma voz tranquila e quase humorada. Seu tom de voz tinha ares de circo, como um palhaço fazendo piadas.

O homem carregou jade até o carro, amarrou suas mãos e pés e colocou-a no porta-malas.

– Vamo fazer o resto da viagem bem tranquilinho né neném. Quietinha que o tio vai ligar o rádio e dirigir bem suave. Tchau! – ele disse, fechando o porta-malas.

“Mas que merda é essa?”, pensou Jade, envolta em escuridão. Ele ouviu o motor do carro ligando e o rádio também. “Como é que eu faço pra sair disso?”, ela se questionava.

INCOGNOSCÍVEL

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  • Meu Deus, quando eu penso que a Jade vai ser dar bem, acontece outra desgraça com ela. Mano do céu, a mulher só se lasca, tá pior que eu na vida kkkkkkkkk. Agora sim estou em dia com a série.

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