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Incontro a Venezia

Stazione Ferroviaria

(*Estação Ferroviária)

Catherine, 35 anos, permanece sentada em seu lugar mesmo após o trem ter entrado cuidadosamente na plataforma da estação de Santa Lucia. Ela abre sua bolsa sobre o colo, pega o estojo de maquiagem, se admira no pequeno espelho, passa uma nova camada de um batom rosa em seus lábios, joga os cabelos pretos e lisos para trás e, sem pressa, guarda seus pertences. Olha as horas em seu relógio dourado no seu pulso esquerdo. Levanta-se desamarrotando a saia de um tom bege claro que se contradiz com o seu casaco marrom. Enrola a manta negra em seu pescoço e segue pelo corredor até a porta de saída puxando sua mala marrom de rodinhas.

Ao desembarcar na estação um amontoado de turistas já se deslumbram com as primeiras impressões sobre aquela cidade. Catherine não se incomoda com o vento gelado que vinha da laguna. Uma conhecida produtora musical nascida no sul do Brasil e que vive atualmente na gélida Londres não poderia se intimidar com este clima. Ela sorri e respira fundo. Uns dias em Veneza, longe da correria do seu trabalho e, quem sabe, ele até viria, pois não tinha deixado isso muito claro na última conversa por telefone.

Catherine olha para os lados e segue pela direita na direção dos táxis. Agora precisava se concentrar, pois se perder nas ruelas de Veneza não era nada difícil. Um músico de rua, de trajes maltrapilhos e sorriso cativante em seu rosto, agarrado em seu violão canta uma canção romântica. A jovem interrompe sua caminhada e fica admirando-o alguns instantes. Põe a mão no bolso do casaco e pega algumas notas largando-as gentilmente na caixa de papelão em frente ao músico.

“È stato tanto grande e ormai
Non sa morire
Per questo canto e canto te
La solitudine che tu mi hai regalato
Io la coltivo come una fiore”

(*Era tão grande e agora
Ele não pode morrer
Por isso eu canto e canto você
A solidão que você me deu
Eu cresço como uma flor)

Região da Toscana

A neve lá fora começa a cair. Primeiro alguns flocos, em um céu cinzento de um final de tarde comum, depois volteios e redemoinhos que são impelidos pelo vento ao redor da varanda frontal. Luca Costa, 40 anos, um escritor brasileiro em busca de inspiração, se pára na janela observando as rajadas abruptas da neve rodopiarem e caírem no chão. Com um casaco pesado de lã, ele bebe uma xícara de café, onde a fumaça se espalha pelo ar. Em todas as casas ao redor acendem-se as luzes e os galhos das árvores embranquecem.

Luca vira as costas, larga a xícara sobre a mesa de canto, pega algumas toras e coloca sobre a grelha da lareira. Senta-se sobre a poltrona de acento apeluciado e estende as pernas sobre o puf à frente. Ele fica a observar o saltitar das chamas azulentas e hipnóticas enquanto pela janela se observa a noite chegando. O celular no bolso de suas calças toca uma, duas, três vezes antes de olhar a chamada. Sorri, mas não atende. Na tela está escrito o nome Catherine. Ele a admira demais, mas ainda está relutante quanto à um segundo encontro. As memórias afetivas de seu relacionamento com Victória Franchi, uma renomada atriz do cinema italiano, ainda estão bastante vivas dentro do seu coração. Luca larga o aparelho celular em cima de sua perna e continua encarando a lareira. Uma mensagem de texto entra. Luca pega o telefone e a lê:

“Posso aspettarti domani?”Ele sorri. O italiano dela estava cada vez melhor e isso ele tinha que admitir. Pega o celular e digita.

(*Posso esperar você amanhã?)

Residenza Ca ‘Brighella’

Catherine, usando uma saia preta justa até a altura dos joelhos e uma blusa branca com um casaco de malha azul escuro, desce as escadas até o saguão do hotel. Com seu sorriso simpático ela cumprimenta o recepcionista e vai em direção ao bar daquele aconchegante lugar.

Ao cruzar a porta de vidro ela logo avista Luca sentado em uma mesa de canto. Um atendente se aproxima parando em sua frente.

-Buongiorno…un tavolo per te? – pergunta ele.

(*Bom dia…uma mesa para você?)

Luca se levanta sorrindo. Catherine aponta discretamente na sua direção e o atendente, muito cavalheiro, lhe acompanha até a mesa. Luca puxa a cadeira para ela sentar e vai para o seu lugar.

– Un succo d’uva, per favore. – diz Catherine.

(*Um suco de uva, por favor.)

Luca aprecia a beleza daquela mulher à sua frente. Ela se intimida com o seu olhar e baixa a cabeça mexendo com a mão nos cabelos.

– Que tanto me olhas? – pergunta Catherine.

Luca toma um gole do suco de laranja que já havia pedido.

– És linda demais!

Catherine, cabeça baixa, sorriso tímido e olhando de relance, responde:

– Tu achas é? Mas você que estava com receio deste segundo encontro.

– Non si trata di paura. – responde Luca com sua voz suave e conquistadora, que o deixa mais sensual ainda quando fala em italiano.

(*Não se trata de medo.)

Sua resposta deixa o clima leve e a conversa gostosa. O garçom chega com o pedido de Catherine. Entre todos os presentes, todos os casais no local, Luca e Catherine se mostram ser o mais compatível embora ainda não mantenham uma relação mais duradoura. O amor no seu início é algo estranhamente natural. Você perde o sono, perde a fome, você vai às nuvens e sente a vida virar de ponta cabeça. Tanto ela quanto ele já tiveram outras relações no passado, ele inclusive ainda sente uma atração incontrolável por Victória. Mas quando estão juntos é como se voltassem à ser dois adolescentes e o mundo ao redor não tem mais importância alguma. Somente eles. Somente aquela sensação. Somente aquela troca de olhares importava.

– Incredibile! – diz Catherine.

(*Incrível)

Luca ama o jeitinho dela quando fala em italiano. Estende a sua mão até alcançar a mão dela sobre a mesa. Lhe olha no fundo dos olhos.

– Grazie! Por insistir que eu viesse te ver novamente.

(*Obrigado!)

– Nós merecemos. – responde Catherine.

Luca faz sinal chamando o garçom, que prontamente lhe atende.

– Não precisa acertar nada Luca. Eles colocam na conta do quarto. Acerto tudo no final. – diz Catherine.

– Faço questão. – retruca Luca.

Olhares se cruzam. Um se interessa pelo outro. Alguém toma a iniciativa. Antes mesmo de abrirem a boca, seus corpos já começaram a se comunicar. Sabe quando as pessoas dizem que “bateu uma coisa de pele”? Pois é, isso realmente existe…

Ponte dei Sospiri – più tardi

(*Ponte dos Suspiros – mais tarde)

Luca e Catherine surgem de uma ruela, felizes e de mãos dadas. Ele acelera o passo e a puxa em meio aos turistas para chegar rápido até a Ponte dos Suspiros. Eles se debruçam sobre a soleira de uma das janelinhas.

Ponte dei Sospiri é uma das pontes mais importantes de Veneza, feita de rocha calcária branca e com janelas com barras de pedras. Abaixo dela as águas geladas do Rio di Palazzo conectam a “nova prisão” com as salas de interrogatório do Palácio Ducal.

– “Este é o caminho que todos temos que tomar. Sobre a Ponte dos Suspiros para a eternidade” – fala Luca admirando as águas lá embaixo.

– Sei que engana-se que aqui se trata de um lugar romântico, não é mesmo? – questiona Catherine.

Ao redor do casal vários flashes de pessoas tirando fotos. Luca se vira para Catherine e coloca as mãos sobre os seus ombros. Aponta com o dedo indicador por cima do ombro dela para o prédio do lado esquerdo.

– De um lado temos a antiga prisão…

Ele se vira para o outro lado.

– …do outro temos o prédio que funcionava o tribunal.

Os olhos de Catherine brilham vendo aquele homem à sua frente.

– Hummm. Temos um professor de história aqui!

Ambos sorriem. Ela deita a cabeça em seu ombro.

– Os condenados que passavam por aqui, suspiravam pela última vez vendo a luz do sol, a paisagem de Veneza e o mundo exterior… – explica Luca.

– Não um professor, apenas um apaixonado por este lugar.

Catherine levanta levemente o olhar admirando aquele homem apaixonado diante dela. Ele acaricia seus cabelos.

– Mas aqui também pode se dar um suspiro apaixonado… – diz Catherine.

Luca aproxima seu rosto do rosto dela. Os lábios se tocam. Os olhos se fecham. O tão esperado beijo acontece. Debaixo da ponte um gondoleiro passa com sua gôndola levando um jovem casal apaixonado por um passeio nas lagunas da cidade.

Risos e diálogos no idioma local despertam a atenção do casal. Catherine se aconchega nos braços de Luca e é a primeira a ver um outro casal se aproximando. Felizes, o homem tira fotos da mulher que faz diferentes poses com seu xale azul bebê. Abraçado em Catherine, Luca vira o olhar na direção de onde vem os risos e conversas. Seu semblante muda de uma hora para a outra. Diante dele está Victória, transparecendo estar muito bem nos braços de outro.

– Luca? Luca? – chama Catherine ainda com os olhos fitados naquele casal.

Ela levanta a cabeça e nota que o seu amado mudou a expressão. Está sério, parece preocupado.

– Algum problema, meu bem?

Luca tenta disfarçar, mas uma atitude inesperada daquele homem que está junto de Victória lhe deixa desnorteado. Aquele homem de calça social e suspensório, de cabelos bem penteados e sorriso largo, se ajoelha diante de Victória alí mesmo no meio de vários turistas. Ele retira uma pequena caixa do bolso e a abre. Antes de se ouvir o pedido, Luca puxa Catherine pelo braço.

– Vamos…temos mais o que fazer!

Catherine estranha a atitude de Luca, mas o segue sem questionar nada.

Residenza Ca ‘Brighella’ – quarto 12

Catherine está deitada sobre os lençóis brancos daquela cama naquele quarto de hotel usando apenas uma lingerie rosa. Luca, de short curto e sem camisa surge na porta trazendo uma bandeja com uma garrafa de champanhe e duas taças. Senta-se sobre a cama, larga a bandeja sobre o criado – mudo e serve champanhe nas duas taças. Sempre sob olhares encantados da mulher ao seu lado.

Catherine sorri e se ajeita sentando na cama. Luca entrega uma taça para ela e segura a sua.

– Un brindisi a noi!

(*Um brinde à nós!)

Catherine levanta sua taça.

– Mas você ainda me deve uma explicação…que atitude foi aquela na ponte?

Luca sorri, disfarça.

– Não precisa me falar agora. Não vamos estragar este momento. – diz Catherine aproximando sua taça da dele e brindando.

Ambos tomam um gole daquela champanhe e depois Luca levanta, vai até uma cômoda, mexe no seu celular e coloca uma música. Ele volta para a cama cantarolando junto da melodia.

Catherine fica de joelhos na cama enquanto Luca chega à sua frente. Ele inclina o corpo e começa beijar ela. Aquele beijo demonstra tanta paixão, tanta ternura naquele momento. Aquele beijo é um segredo que ambos dizem na boca e não no ouvido.

“È noi due per sempre
Nasce il nostro giorno
È noi due per sempre
Basta stare nascosti qui”

(*Somos nós dois para sempre
Nosso dia nasce
Somos nós dois para sempre
Apenas fique escondido aqui)

Catherine dorme feliz e realizada sobre o peito nú de Luca. Ele a observa e sorri. Com bastante cuidado para não acordá-la, ele retira seu braço e a acomoda no travesseiro cobrindo-a com o lençol de fios egípcios.

Luca levanta-se, enrola uma toalha branca felpuda na cintura, serve-se do restante da champanhe e aproxima-se da janela entreaberta observando a lua cheia no céu escuro de Veneza. Toma um gole e seu pensamento voa longe…

Campos verdes de Toscana

Luca, tímido, admira Victória correndo livre pelos campos verdes à se perder de vista da Toscana, com seus cabelos balançando e um sorriso lindo no rosto, sob uma tarde ensolarada. Ela aproxima-se dele e o puxa convidando-o a correr com ela. Luca se faz de difícil, mas acaba cedendo àquele pedido meigo.

O casal gira rapidamente de mãos dadas , cabeças erguidas e olhos fechados. O amor nos faz crianças. O amor é capaz de nos transformar. Luca interrompe aquele giro e sua expressão fica séria enquanto encara Victória. Ele a puxa pela cintura para perto de si. Aproxima seu rosto do dela e…

Al mattino

(*Pela manhã)

A claridade do dia lança uma luz tímida pelas frestas da janela e ilumina aquela cama testemunha de uma noite quente. Enrolada aos lençóis, Catherine se contorce na cama. Se espreguiça e abre os olhos e, então, nota que que Luca não está ali. Dá uma olhada pelo quarto e não o vê. Também não há barulho de água do chuveiro. Ela levanta se enrolando nos lençóis.

– Luca! Luca?

Na cômoda ela encontra um pedaço de papel escrito à caneta. Prende a ponta do lençol para não se despir e pega em mãos aquele bilhete. Vai até a janela e abre-a deixando as fracas luzes solares tomarem conta do ambiente. Os seus olhos fixam naquele pedaço de papel…

“Dolcezza, sei la piu bella tra i fiori…grazie per avermi fornito e ravvivame in me la voglia de vivere…conosco che la vita ti darà qualcuno che so la merita.
Chi ti ammira”

Luca

(*Querida, você é a mais bela das flores … obrigada por me proporcionar e reviver em mim o desejo de viver … eu sei que a vida vai lhe dar alguém que eu sei que merece.
Quem te admira ”

Luca

Catherine leva aquele pedaço de papel contra seu peito. Dos seus olhos castanhos escorrem algumas lágrimas. Ela disfarça limpando os olhos com o dorso da mão.

Due giorno dopo

(*Dois dias depois)

Catherine sorri diante do espelho do quarto. Se admira em um longo vestido cinza e uma manta vermelha. Puxa sua mala de rodinhas e sai fechando a porta do quarto.

No saguão do hotel ela faz o checkout na recepção.

– Grazie per tutti! – finaliza ela.

(*Obrigada por tudo)

Catherine desce as escadas que levam à rua onde um táxi já a espera.

– Stazione ferroviaria, per favore!

(*Estação Ferroviária, por favor!)

O táxi toma as ruas estreitas de Veneza. O coração de Catherine ainda bate forte. Ela desembaça o vidro com a mão e cola o rosto olhando as paisagens venezianas que são deixadas para trás. No rádio do veículo, uma música começa a tocar.

“E non ci lasceremo mai
Abbiamo troppe cose insieme
Se ci arrabbiamo poi
Ci ritroviamo poi
Un corpo e un’anima
Le stesse cose che vuoi tu
Le voglio io e questo è amore
Anche stasera noi
Noi siamo più che mai
Un corpo e un’anima
E non ci lasceremo mai”

(*E nunca terminaremos
Temos muitas coisas juntos
Se ficarmos com raiva, então
Nos encontramos novamente
Um corpo e uma alma
As mesmas coisas que você quer
Eu os quero e isso é amor
Mesmo esta noite nós
Estamos mais do que nunca
Um corpo e uma alma
E nunca sairemos)

Catherine retornou para Londres, para seus trabalhos como produtora musical. Nunca mais encontrou um grande amor. Meses depois retornou até Veneza, encontrou aquele músico de rua que viu na estação ferroviária e produziu um álbum seu.

Luca Costa retornou ao galpão que havia alugado em Toscana e começou a escrever seu novo romance. Visualizado sobre um rascunho melhor, lê-se o título da obra: Una canzone per Catherine.

(*Uma canção para Catherine)

Victória, recém acabado de ser pedida em casamento, aceita de bom grado e, torna-se uma grande memória afetiva de Luca.

“Algumas pessoas amadurecem, outras apodrecem. Ás vezes nós crescemos, mais nunca mudamos. Não conseguimos. Ninguém consegue. Nós somos quem somos e isso é imutável. Não existe uma alma sequer no mundo capaz de mudar outra alma, nem mesmo a sua própria”.

POSTADO POR

Marcos Vinicius Silva

Marcos Vinicius Silva

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  • É incrível a sua capacidade nos transportar para o seu universo e de forma tão convincente. Lembro bem que quando li a trilogia do estandarte me senti naquele futuro desproporcional que você criou e agora, me vi caminhando pela Itália. Maravilhoso s2 Amigo, você é um grande autor! Me surpreendo à cada novo projeto teu. Sou seu fã viu rs

    • Ohhh meu amigo, que bom que gostou. E fico tão feliz com os elogios! Não só sei criar um caos, mas o sentimentalismo também sabe ser forte. Obg! Tbm és um grande autor!

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