Infernum, a maldição de sentir: capítulo 12 – memórias de mamãe

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Infernum

História 1 – A Maldição de Sentir

capítulo 12

Narrado por Lorenzo

História baseada em fatos reais.

Acredito mais na segunda alternativa. Eu não estava na minha imaginação: eu podia sentir os objetos que tocava. Mas de certa forma, minha mãe não me via.

Ela se levantou da cama e aparentemente estava um pouco abatida. Se olhou no espelho e sorriu. Talvez tenha se achado bonita.

O quarto não é muito diferente do que é hoje em dia. Só a cor.. eu sempre achei que o quarto da minha mãe fosse bege, mas na verdade era roxo. Os móveis hoje estão um pouco velhos de aparência e nessa época eram tão bonitos e ilustrados..

O seu alarme relógio tocou.

– É o encontro… – ela disse, ainda receosa. Parece que não estava afim de ir. – Será que eu vou ou não? – ela perguntou a si mesma no espelho. – Eu sinceramente preciso ir. Eu não posso me deixar abater por isso, não é? Sempre há uma nova chance para recomeçar.. – ela dizia para si mesma no espelho, semelhante ao que faço.

“Sobre o que ela está falando?”, me perguntei no vácuo da minha mente. De repente tomo um grande susto: um barulho estrondoso se aproxima e se revela ser apenas o Amigo.

– Cê tá louco? – perguntei, indignado. – Ela poderia ter ouvido! – dei-lhe o sermão.
– Fique tranquilo, ela realmente poderia. Mas não pode. – ele disse, zombando. – Eu te trouxe aqui porque quero que entenda certas coisas antes de sair falando besteiras por aí. É o primeiro passo para entender o porquê que os outros são do jeito que são: descobrir o motivo. Sua mãe nem sempre foi adulta. Ela foi criança e adolescente também. Ela não é assim desse jeito porque é. Vamos tentar entender o que a transformou no que ela é hoje. – ele disse, esperando que eu tivesse alguma reação. – Ou melhor, como ela será no futuro. – corrigiu-se, e mesmo assim continuei na minha.

Fiquei observando. Minha mãe saiu do quarto e quando voltou estava completamente arrumada. Parecia que o Amigo havia acelerado o tempo. Veio, passou batom em frente ao espelho.. era um batom bem fraquinho. Ela não queria causar muito e parecia estar desiludida com o encontro.

– Por que ela está tão para baixo se tem um encontro marcado? – perguntei. Ele olhou para o meu rosto e estalou os dedos.

De repente estávamos em frente ao restaurante The Good Food, que era um local muito visitado antigamente. Ele fechou quando eu tinha uns 10 anos.

Minha mãe estava sentada com um garoto, um garoto com aparência familiar. Eu já saquei quem era. Eles se beijaram e começaram a conversar sobre assuntos da época deles. O flerte era tão esquisito..

Pelo menos o garoto parecia estar sendo verdadeiro. Ele estava realmente gostando de estar com ela.. eu só precisava saber seu nome.

– Hélio, eu estou amando estar aqui com sua companhia..! – ela disse, me surpreendendo. Era o meu pai! Como não reconheci? Eu achei que era o Júlio, o padeiro da padaria da Tânia que foi demitido porque foi flagrado fazendo um tráfico de pães!

– Lógico, olha a nossa química. Você é perfeita. – disse. Não consigo imaginar meu pai sendo romântico. Aliás não consigo imaginar meu pai sendo jovem!

Enquanto eles conversavam, um casal homossexual se aproximava. Um deles se sentou e o outro disse que ia buscar o cardápio. Eles se beijaram na bochecha e isso chamou a atenção de muitas pessoas. Inclusive as dos meus pais.

Cândida e Hélio ficaram encarando o moço que ficara sentado, e ele nitidamente ficou envergonhado. Eles não ficaram ali por muito tempo. Logo saíram.. será que foram expulsos ou inventaram a desculpa de que não teria mais vaga?

– Você viu o olhar deles? – perguntei ao Amigo.
– Olha… Recomendo não insistir muito. Não adianta você correr em direção ao limbo se já sabe que em sua frente há um limbo. – ele disse.

Ele estalou os dedos e de repente estávamos no quarto dela. As luzes agora estavam apagadas mas a televisão estava ligada. Estava passando um programa típico dos anos noventa e o sinal não estava muito bom. Minha mãe estava no canto da cama chorando, insegura. Todos os objetos ao seu redor estavam sem cor. Percebi que quando as lágrimas dela começam a parar de cair, o sinal da televisão melhora. Quando caem novamente, começa a chiar.

Suas emoções não passam só para o ambiente, mas também para os objetos que ali habitam.

– Sua mãe sofreu uma grande decepção amorosa com Luiz, o seu então namorado. – fiquei confuso. Achei que o namorado dela fosse meu pai. – Certo, esqueci de notificar. Luiz era o namorado de sua mãe antes de conhecer Hélio. Luiz a traiu com sua então amiga Flávia. Não eram íntimas, mas eram boas conhecidas. Tudo nessa vida acontece por um propósito, Lorenzo. E a história entre Flávia e Cândida não acabou. – disse o misterioso homem.

Minha mãe segurava um colar brilhante em suas mãos, e nesse colar havia uma foto delas duas. Elas me pareciam ser melhores amigas que tinham vergonha de assumir que eram melhores amigas. Ou que não se consideravam tal. Mas elas agiam como se fosse..

Quando minha mãe colocou o colar de volta em seu pescoço, eu o reconheci. É o mesmo colar da estante da sala! Mas ele não tem mais a foto.

– Eu sei o que é. Ela ainda o guarda. Mas agora não tem mais a foto.. ela deve ter tirado e deixado só o colar. No lugar ela colocou uma foto de praia e me deu quando eu era pequeno dizendo que os surfistas o usavam.. isso porque teve uma época da minha infância que eu sonhava em ser surfista.. – eu então parei de falar para poder ouvir o que ela dizia.

– Nunca vou ser amada de novo.. eu nunca vou ser amada. Eu odeio sentir isso. Por que logo eu fui traída? – ela se perguntava.

– Isso foi logo depois que ela descobriu a traição. E algumas semanas depois: voilà! Ela conheceu Hélio e viveu feliz para sempre com ele até hoje. Não estou lhe afirmando que sempre depois de uma tristeza vem a vitória, mas sim que depois de várias tristeza que vem a vitória. E ela vem bastante forte, dependendo do nível de tristeza. – disse o Amigo. – Por isso ela se perguntou em frente ao espelho se deveria continuar ou não. Ela não queria entrar em um relacionamento para sair da mesma forma mais tarde. Mas mesmo assim, ela foi. Foi um tiro no escuro. É de adrenalina, sabe? Adrenalina que deixa as coisas mais.. emocionantes. São tiros nos escuro que às vezes decidem os melhores caminhos. – ele continuou. Não sei se concordo com ele ou discordo, mas talvez ele tenha razão. – Vamos passear por momentos rápidos agora.

Ao estalar os dedos, nos encontramos em um cenário diferente. Estávamos em uma casa de aluguel, alugada pelos pais para morar por seus primeiros anos juntos. Eles saíram da casa dos pais apenas alguns anos antes.. minha mãe, já tinha o Nael como filho.

– Uma briga. – disse o misterioso. – Sua mãe sempre foi mais coruja. Ela tentou defender todos os seus três filhos enquanto Hélio sempre colocava a culpa em vocês. – essa fala dele me fez lembrar de outra briga, a qual minha mãe me defendeu de acusações do meu pai.

Nael foi acusado de ter pego o brinquedo de um colega dele e ter escondido. Meu pai, alertava para que ele não se tornasse um ladrão no futuro. Minha mãe, achava que Nael era inocente. Apesar de ele estar certo, Cândida tentou defender ele o máximo possível até descobrir que Nael realmente vinha a se tornar um mal feitor no futuro.

– Talvez esse seja o motivo dela não ser mais tão defensora hoje quanto antes.. – eu soltei.
– O quê? – perguntou, confuso.
– Ela se decepcionou por estar errada quase em todas as vezes que nos defendeu. – conclui.

O Amigo estalou os dedos de novo. O som dos estalos ficava na minha cabeça como se eu os escutasse a cada cinco segundos.

Eu estava sozinho desta vez. E eu estava em frente a um horrível incêndio. Eu tenho muito medo de chamas, fogarel. Minha mãe corria desesperada para apagar, e meu pai não estava.

As pessoas corriam com baldes de água e com eletrodomésticos nas costas. Tentavam apagar o incêndio e correr com o que restava das casas. Haviam muitos animais feridos ou mortos passando. Não consegui ver os gatos queimados serem carregados. Eram cenas fortes demais para mim.

O incêndio era próximo àquela casa de aluguel que eu havia falado. Eram várias casas que iam para o ar. Algumas pessoas eram carregadas já sem vida.

Minha mãe, logo quando viu que o incêndio começara, correu para ajudar. Mas já era um pouco tarde, o estrago foi rápido. Ela gritava e gritava, até que ela tomou coragem para entrar na vila e tentar socorrer algo ou alguém. Como eu estava de penetra e não era afetado pelo ambiente, eu a segui. Fechei os olhos e fui, enganando minha própria mente dizendo que tudo aquilo era irreal.

Eu nunca ia imaginar o que eu veria.

Minha mãe seguiu até a segunda casa da vila, que estava quase tomada em chamas. Uma criança estava chorando muito alto, nitidamente desesperada. Os pais provavelmente haviam saído para ajudar mas não voltaram mais. Minha mãe pegou a criança pelos braços e a agarrou. Elas duas saíram de lá ilesas, mas não se sabe até hoje o que aconteceu com os seus pais.

A criança, aparentemente de um ano, era ruiva e soltou um lindo sorriso quando minha mãe a salvou. Agora eu entendi tudo. Essa criança viria a se chamar Raquel no futuro, e seria a minha irmã. Raquel é adotada.. e é adorada.

Mas as coisas não paravam por aí. Como contei a você, meu maior medo são as chamas. E eu estava lá. Agora eu sei desde quando eu tenho medo do fogo.

Minha mãe deixara a porta aberta e eu então fui ver o que era aquela grande coisa laranja quente que estava dominando tudo. Eu também era uma criança de aparentemente um ano.

Estava paralisado. Amedrontado. Eu era uma simples criança indefesa que estava chorando porque nunca viu as chamas da altura que estavam.

Alguém desconhecido me pegou no colo e na correria, me trouxe de volta para casa.

Me encontrei com o Amigo depois, quando seus dedos novamente estalaram.

– O que viu? Gostou do que viu? – ele perguntou.
– Eu sei que você sabe o que eu vi. Eu não sei se gostei ou não. Foi.. esquisito. Não acho que eu estava preparado para saber de onde Raquel veio..
– Uma hora ou outra ia descobrir. Mas nosso passeio ainda não acabou.
– Eu acho que está bom.. chega por hoje, ok? – eu disse, tentando finalizar as aventuras pelo tempo.
– Tem uma última coisa que quero que veja. – e lá vem ele estalando os dedos de novo.

Eu agora estava na minha casa atual. Mas ela estava um pouco diferente, os móveis estavam em outras localizações. Mas tudo ainda, no fundo, era a minha casa.

Eu estava no quintal, brincando de pega-pega com meu amigo Pedro, quando de repente ele e eu fomos para debaixo da mesa. Ficamos lá por algum tempo conversando sobre nada. Até que ele começou a chegar mais perto de mim. Quando vi, estávamos tão pertos um do outro que ele me deu um selinho. Foi muito rápido. Mas foi durante esse selinho que minha mãe descobriu tudo. Ela nos flagrou juntos embaixo da mesa.

– Sua mãe chorou muito depois. Ela tinha medo de que você fosse gay. Ela dizia pro Hélio que não queria que você sofresse agressão ou fosse reprimido… Veja com seus próprios olhos. – e o Amigo me mostrou a cena que minha mãe conversava com meu pai.

– Eles são apenas crianças! – dizia Cândida.
– Mas é daí que se começa. Se você bater neles agora, é uma chance para aprenderem. Se não… – ele disse, em tom de ameaça.
– Se não o quê? – ela perguntou, furiosa.
– Se não não vai ter essa oportunidade de novo. – ele finalizou, saindo da sala.

O amigo então estalou os dedos e me levou para um quarto branco, onde tinha apenas eu e ele.

Eu me sentei na larga cama que ali havia. Fiquei observando o Amigo falar sobre as lições que eu havia aprendido hoje.

– Qual a maior lição que você aprendeu hoje? – ele perguntou.
– Não sei. – confessei. Fiquei mais impressionado com o que vi do que preocupado para saber o que estou aprendendo.
– Bom, de tudo isso, já que não prestou a devida atenção.. tire uma lição: não desista. Faça igual sua mãe. E não seja tão duro com seus pais. – não entendi o que ele quis dizer com essa última parte. Pelo que até onde sei, não fiz nada demais a eles. – Se quiser que eles entendam, vai levar tempo. Mas pode ser que eles não te aceitem também. Você vai ter que conviver com isso. Não quebre sua cabeça atoa. É aquele ditado, não dê o mar para quem não te dá um copo de água.

De repente, eu estava novamente na realidade. Era noite ainda, aparentemente o mesmo dia que eu bati no guarda-roupa e berrei feito um animal.

Eu estava mais calmo e tranquilo. “Acho que ver o passado das coisas me fez entender melhor o presente.” disse para mim mesmo.

Eu então fui tentar conversar com minha mãe, que estava jantando mais tarde que o habitual. Durante a conversa, ela se mostrou bastante paciente. Mas estava decidida a me mandar para a casa de minha avó, a dona Josefa.

– Para que isso? – perguntei, esperando respostas.
– Acho que você precisa e eu também preciso de um tempo. Um tempo separados. Vai ser bom. Vai ser o melhor para você também. Quem sabe volta mais decidido. – ela disse. Eu entendi o que quis dizer com decidido. – Aliás esses dias não foram fáceis para mim. Está sendo muito difícil. Você está judiando de mim com suas decisões. – ela disse. Eu abaixei a cabeça e assenti. – Tem quase dezoito anos. Eu não posso mais controlar tudo que faz. Eu só não quero que traga homens para dentro de casa. De resto, eu abro mão. Eu estou cansada. – ela disse. Depois pediu para ficar sozinha e então a deixei tomando seu café quente.

Fiquei com dó da minha mãe. Parece que ela e meu pai não conseguem achar um consenso a meu respeito. Tudo bem que eles me bateram, reprimiram e tudo mais, mas ver minha mãe naquela situação triste era um pouco doloroso para mim.

– O Amigo me pediu para que eu não desistisse. Né? Não vou não. Acho que estou me dando mais uma chance para ver se eu consigo gostar de meninas. Não só para mim. Mas para Yasmin também. – eu disse, me olhando em frente ao espelho do quarto. – Vamos ver se amanhã, sábado, o tão esperado dia que vamos finalizar esse trabalho, eu consigo fazer alguma coisa a mais. Eu prometo, que vai ser a última tentativa minha. Se eu não gostar.. eu me aceito de uma vez por todas.

POSTADO POR

All Andrey

All Andrey

Hey, carinha! Sou All Andrey, tudo joia? Eu vim do Wattpad, e aqui na CyberTV eu já publiquei "Quatro Perdões Para Melissa" e "Infernum: A Maldição de Sentir". Curto escrever histórias com finais mais realistas, sem aquele exagero de felicidade ou de que tudo vai ficar bem no final. AMO misturar coisas lúdicas com coisas reais.

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