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Infernum: a maldição de sentir: capítulo 20 – o final

Infernum

História 1 – A Maldição de Sentir

capítulo 20

Narrado por Lorenzo

História baseada em fatos reais.
Último capítulo. 

– Obrigado por ter me empurrado. Eu com certeza teria apertado a mão deles. – eu disse, abaixando a cabeça. – O demônio tem razão. Sou vulnerável. 

– Nada disso. Você é a pessoa mais forte que eu conheço. Você lutou contra um demônio! Não importa se eu consegui acesso à sua mente e te empurrei, mas você se mostrou determinado o suficiente pra poder encará-lo. – disse, tentando me animar. 

– Obrigado. – agradeci. Recebi um beijo na testa. – Você então realmente estava ciente de tudo? 

– Estava. Eu acho que isso é quase que um poder, sabe? – eu dei risada. – É sério. Eu consegui projetar uma ilusão que enganou você e a todos. Eu não estava em seus braços. – ele se levantou e apontou para minha testa. – eu estava aqui. 

– Como conseguiu entrar na minha mente? – perguntei. Ele não me respondeu com palavras, mas apontou para o meu pulso. 

Quando olhei para o meu pulso, percebi que o anel estava lá. Intacto, como se nada tivesse acontecido. Ele começou a brilhar de uma maneira muito chamativa e diferente do que costumava. 

– Olha lá! – Juan disse, apontando para aquela estátua de coroa que eu enxerguei em meio à bagunça antes. A coroa estava brilhando e pulsando ao mesmo tempo e ao mesmo tom que meu anel também estava. 

– Eu acho que mais coisas fazem sentido agora. – me levantei e fui em direção à coroa. – Ela de certa forma tem alguma conexão comigo. Será que era assim que eles tinham controle da minha mente? – perguntei. Juan fez aquele clássico gesto de "não sei". 

– Só sei que foi assim que consegui entrar lá. Pela sua coroa. – afirmou. 

De qualquer maneira, ele pegou a coroa e sugeriu que a gente a destruísse, e eu concordei. Ele a pegou em suas mãos e sentiu o seu peso. A partiu no meio com a força do seu joelho, e a outra metade foi entregue à mim. 

As sombras do ambiente começaram a se desfazer e delas foram formados jovens que pareciam ter vindo direto do século XX. 

As primeiras a se formarem foram uma dupla de garotas gêmeas, ambas ruivas. Elas aparentavam ser um pouco mais velhas que eu. Em seguida, um garoto de boina e aparentemente mais novo, se formou. De suas costas, surgiu um gato branco, que andava pelo seu corpo como se estivesse passeando pela rua. Por último, uma moça morena de cabelos pretos renasceu das sombras. Ela era claramente a mais velha dos quatro, e tinha uma feição familiar. 

– Obrigado. É a hora de vocês irem, eu acho. – disse o garoto, estendendo sua mão para mim. – Meu nome é Otávio. – o gato branco miou. – E o nome dele é Juca. Meu gatinho de estimação. – eu apertei a mão de Otávio, mas encarei fixamente Juca. Será que ele é o..?

– A gente falhou nessa. Mas vocês conseguiram. Não garanto a vocês que derrotaram Optiamicus, mas que por enquanto terão descanso. – ela estendeu a mão. – Prazer, Nila. – disse a garota ruiva. Sua irmã parecia um pouco maluca. – Esta é minha irmã, Hara. 

– Sou sua irmã mais cara? – perguntou Hara, confusa. Eu já entendi quem era quem. – Você tem outra irmã além de mim? – perguntou Hara confusa e indignada. Todos nós rimos. Com exceção da garota morena, que permaneceu calada o tempo inteiro e séria. 

Eu estendi a mão para ela. 

– Uma outra hora. – afirmou. Eu estranhei enquanto ela se afastava. 

– Pelo resto de suas vidas, vocês terão que proteger o nosso mundo dessas forças malignas. Vocês precisam assegurar que o mundo ficará bem. – disse o garoto. Otávio então pediu a coroa, e quando a pegou em suas mãos, a quebrou em mais pedaços. E desses pedaços, com suas mãos rápidas, moldou uma parte de um coração. Pegou uma das cordas do pescoço do gato branco e então fez um colar e me entregou. Fez novamente com outra metade do coração para Juan. – O colar de vocês brilha. Brilha quando estão muito felizes, quando estão em perigo e quando estão muito tristes. Com eles, os poderes de vocês ficam mais fortes. E caso algum de vocês não saiba que tem poderes, agora sabe. – ele disse. 

Eu não sabia qual era o meu poder. Mas mesmo assim não liguei muito para isso. Eu percebi que havia uma parte faltando do coração: a do meio. Me perguntei quem usaria o terceiro colar, mas nada foi falado sobre. Então permiti-me ficar em silêncio. 

– Lorenzo, toque na parede desta casa e respire. Feche os olhos e respire. Sinta-se leve. – ordenou Nila. Eu então fui, mesmo que sem entender nada. Toquei na parte mais áspera da parede, fechei os olhos e respirei fundo. Comecei a sentir uma leveza, senti que a parte áspera havia saído. 

Quando abri os olhos novamente, vi que havia revitalizado a casa. 

– Você pode curar as coisas machucadas. E tem mais ainda. Olha, de uma casa queimada e destruída, para esta bela casa viva e arrumada. – continuou Nila. 

– Vocês dois, a partir de hoje, fazem parte do nosso esquadrão. Juntos? – Otávio então segurou a mão de Nila, que por sua vez segurou a da irmã. Hara segurou a mão da moça morena que então segurou a minha. A pele, a sensação de ter segurado a mão daquela moça era familiar. Foi aí que vi o anel que ela tinha. Era a minha avó. Rejuvenescida. Eu sorri para ela e ela devolveu. Segurei a mão de Juan e então todos nós sentimos uma forte energia, que percorria nosso corpo em uma velocidade indescritível. 

– Sejam bem-vindos. – disse Nila. – Vocês agora são parte de nós. E não podem contar sobre essa experiência para ninguém. Não podem botar tudo isso no lixo, tudo bem? Tentamos salvar o mundo antes e não conseguimos. Ficamos presos nas sombras durante todo esse tempo. Agora livres, precisamos assegurar que tudo ficará em segredo. Combinado? 

– É, garotos. Não vamos apagar a memória de vocês, a contragosto do Juca, porque confiamos em vocês. 

– Vamos levar vocês de volta para casa. Em alguns segundos. – disse Nila. Olhei para Juan e então disse: 

– Te encontro no baile da escola. – falei, ele sorriu timidamente. 

– Em 3, 2, 1… – Nila então estalou os dedos. E de repente me encontrei não mais na casa de Yasmin, mas sim na minha. 

Será que tudo foi um sonho? 

Eu estava vestindo meu pijama, a cama armada com os cobertores e o travesseiro, ventilador ligado.. tudo indica que eu estava apenas dormindo. Levantei da cama e me olhei no espelho. Estava muito quente, então decidi tirar o pijama. Quando fui tirá-lo, percebi que havia um arranhão em meu braço, aquele que Optiamicus havia feito. 

– Não foi sonho. Não foi não. – eu garanti. Olhei o relógio e vi que já eram dez da manhã. 

Quando eu saí do quarto, fui interrogado pelos meus pais sobre como tinha sido passar os dias na casa da minha avó. 

– Vamos, filho. Quando vai contar? Chegou ontem da casa de sua avó Pietra e foi direto dormir. Hoje acorda e não quer falar nada? – perguntou minha mãe Cândida. Avó Pietra? 

– Mas mãe, eu passei os dias na casa da Venância. Não da Pietra. – eu disse em tom de incerteza. – Não é? 

– Está bem? Esqueceu que sua avó morreu seis anos antes de você nascer? – perguntou minha mãe. Fiquei bem pensativo. O que então teria acontecido? Minha avó foi apagada dos acontecimentos? – Afinal de tudo filho.. – continuou. – Tenho coisa séria pra falar com você. – disse. 

Fiquei me perguntando o que o Lorenzo do passado responderia. Ele com certeza diria que estava com medo do que viria e que não queria conversa. Mas eu não preciso ter medo dos meus pais. 

– Pois pode falar. Estou a ouvidos. – afirmei. Minha coragem impressionou minha mãe. Ela se virou de costas para mim e começou a fingir que estava lavando louça. 

– Olha, filho. O tempo que você passou na casa de sua avó foi muito bom. Foi suficiente para a gente pensar melhor no seu caso e… – ela parou por alguns segundos. – Tudo bem você ser quem quer virar quando você ficar maior de idade, sabe? – eu então abaixei a cabeça para ouvi-la. – Fora do portão de casa… Aqui dentro eu ainda quero você assim, normal. Então finge que eu não sei e finge que você não é. 

– Obrigado mãe. Eu agradeço por ter entendido. – eu disse. 

– Não o entendo. Eu sei que isso é perfeitamente alterável, mas você quem sabe o que quer da vida. Não estou te aceitando. Estou deixando de me importar com o que acontece com você. – ela se virou para mim novamente. – Eu prefiro que me chame de Cândida. Por favor. – ela falou. Isso caiu como um peso nos meus ombros, mas eu já passei por sentimentos piores. 

– Tudo bem. Sem nenhum problema, dona Cândida. – eu falei. Fiquei bastante pensativo, fui até o quarto de Raquel para me distrair mas só tinham coisas para piorar. As lembranças de Raquel ainda eram frescas na mente. A polícia levou o celular dela e outros objetos para poder averiguar a causa do suicídio. 

– Quando vamos finalmente saber o que se passava na sua cabeça? – perguntei a mim mesmo. Me abaixei e vi que embaixo da cama ainda estava o desenho que ela havia feito. O mesmo que Rangel havia rasgado antes. O registro da gata demoníaca pelo que parece foi apagado da história. 

Mas havia algo diferente. Havia outra coisa na parte da trás da carta. "Eu não sou da família.", escrito com uma carinha triste em seguida. Ela provavelmente deve ter feito isso quando descobriu a adoção. 

– Você é sim, minha irmã. – eu disse, abraçando o desenho. – Eu sinto sua falta. – falei. Ouvi passos se aproximarem. 

– Eu também. – era meu pai, se aproximando. O resultado, o porquê que ela se matou foi descoberto dois dias atrás. Tentamos ligar para você mas as ligações caíam na caixa-postal. 

– Então o que foi? 

– Sua irmã teve envolvimento com o namorado da Emília. Ela teve as fotos vazadas como chantagem e então fez o que fez. Tava tudo no celular dela. – meu pai disse. Ele se agachou no quarto e com os olhos lacrimejando, abriu o guarda-roupa dela, vendo todas as suas roupas de criança ainda guardadas. Então eu agachei também e tentei o consolar. 

Tinha que ir novamente até o espelho do meu quarto para conversar. Depois de consolar meu pai, fui falar com meu fiel amigo. Eu mesmo. 

– Oi, espelho. – eu disse. Me encarei por alguns segundos até perceber que a ideia de fingir que tem outra pessoa do outro lado ia soar estranha. – Tudo bem.  Eu só queria dizer que.. – olhei para o meu colar. – Eu não quero me esquecer do passado. Eu quero que todas as minhas memórias agora, independente de serem ruins ou não, são minhas recordações. – afirmei. Então peguei o coração do colar, e o beijei. 

É claro que aquela visitinha na casa de Juan não poderia faltar. Logo depois disso, peguei minha bicicleta e fui até a casa dele. 

No caminho, me encontrei com a antiga casa de Yasmin. E adivinha? Curiosamente a casa está à venda. Porém, continua linda e alta como era antes. Ou até mais. 

Isso me deu a ideia de ir até a lanchonete e ver como as coisas estavam. Me surpreendi muito quando cheguei lá. 

– Por quanto tempo eu dormi? – perguntei. A lanchonete continuou ali, mas desmoronada. As árvores e a vegetação local já estavam dominando a área. Isso abriu espaço para a abertura de uma praça, onde um senhor estava sentado. 

Fui até ele perguntar sobre a lanchonete, se ele conhecia a lenda e se sabia desde quando ela estava abandonada desta maneira. 

– Lógico que conheço. É uma linda lenda, meu jovem. Era sobre duas moças que foram castigadas por forças divinas e que foram salvas por um garoto muito corajoso. – ele disse. Eu sorri, pois sabia que o garoto era eu. Então, olhei para a lanchonete e vi pela janela que a luz de repente se acendeu e apagou novamente. Eu ia comentar com o senhor, mas estava quase certo de que ele não tinha visto. Então não comentei nada, mesmo achando tudo aquilo muito esquisito. 

Depois de passar para tomar um sorvete, finalmente cheguei ao meu destino: a casa do Julius. Logo ao apertar a campainha, senti uma grande energia boa. Foi Flávia quem me cumprimentou. Ela estava toda feliz e alegre. 

– O almoço está na mesa. Veio na hora certa. Aceita? – perguntou. 

– Obrigado, dona Flávia. Eu não quero incomodar. – eu disse, entrando. 

– Qual é, Lorenzo. Vamos lá. – disse Emília, no sofá. 

Eu então aceitei o convite e almocei com eles, e foi bem gostoso e divertido. Mesmo com Flávia o tempo todo perguntando sobre minha família. Não sei porque, mas senti que Juan percebeu que eu fiquei incomodado, tanto que ele quem mudou de assunto. Antes de mudar, ela havia perguntado:

– Por que não me apresenta aos seus pais? – Flávia perguntou. Logo encarei Juan e ele me encarou. 

– Apresento em uma oportunidade futura. – disse, para não a deixar sem respostas. 

Depois do almoço, fui levado por ele até o seu quarto, onde ele queria conversar sobre o que havia acontecido antes. Juan contou tudo que viu, inclusive sobre a gata preta de olhos vermelhos. 

– Há muito tempo atrás, lá quando eu era um pirralhinho.. eu fui visitado por esta gata. Mas era um gato, um gato macho, sabe? Ele me ajudou muito a superar os problemas com o alcoolismo do meu pai e as agressões que minha mãe sofria. – falou, se sentando na cama. – Mas comigo, aquele gato era especial. Ele falava, sabe? Falava mesmo. Como gente! Eu seguia seus conselhos, até porque eu era uma simples criança. Mas teve um dia que eu me meti em uma confusão. Eu quase morri. – ele disse, segurando minhas mãos. – Eu escapei, mas fiquei com medo disso acontecer com você. 

– Pode ficar tranquilo. Estamos juntos. Um cuida do outro, não é? – perguntei. – Afinal, estamos juntos!? – perguntei espantado. – Que rápido! – ele então riu. 

– Sim. Mas sabe uma coisa que você não percebeu? – perguntou. – Ninguém pediu ninguém em namoro, bobo. 

– Eita, é verdade! Como a gente não.. – eu disse, sendo interrompido por ele. 

– Shhh! – disse ele, me interrompendo. Ele desceu da cama e ficou de joelhos no chão. – Não tenho anel aqui. Mas tenho esse colar. Ele pode simbolizar muita coisa para a gente. – ele então tirou o colar do pescoço e entregou em minhas mãos. – Como funciona mesmo? Eu declaro você.. meu namorado? – perguntou. Eu e ele caímos na risada. 

Então trocamos os colares, como um ato de início de namoro. Quando tivermos dinheiro, quem sabe, compraremos anéis. 

– Vamos fazer uma festa então? – perguntei, animado. Ele subiu de volta na cama e me abraçou bem forte, dando um beijo na bochecha. 

– A energia a gente guarda para hoje à noite, no baile da escola, pode ser? – perguntou. 

Ele tinha razão. Eu tinha me esquecido do baile da escola! Nem preparei a roupa para ir, com certeza teria que pedir alguma peça emprestada para o Moacyr. 

Mas para isso, precisava chegar em casa com antecedência. Então eu deixei a casa do meu namorado (nossa, que esquisito, não é?), e então fui até a casa do meu melhor amigo ver se ele tinha alguma peça para ser usada em cima da hora. Por sorte, Moacyr me emprestou seu melhor look.  

Quando cheguei em casa, fui recebido com almoço. Cândida havia preparado rocambole de carne, um dos meus favoritos. Mas eu estava cheio por conta do almoço que comi na casa da Flávia. 

– Estou com pouco apetite, mas aceito a mistura. – disse animado, me sentando. Meu pai estava aparentemente faminto e minha mãe estava um pouco decepcionada, provavelmente pela conversa que tivemos mais cedo. 

Meu pai percebeu minha animação e logo perguntou. 

– Posso saber a motivação desse sorriso todo? – perguntou. Eu então o encarei e sorri novamente. 

– Eu estou namorando. – afirmei. Minha mãe me encarou com um olhar de desprezo e meu pai ficou perplexo. 

– Com quem? Aquela garotinha da esquina? – perguntou, curioso. Eu neguei. – Com a Mara? Eu já sabia que.. – eu o interrompi. 

– Não é com a Mara, nem com nenhuma outra menina do bairro. – interrompi. 

– Então é com uma garota de fora do bairro? – perguntou. Eu neguei. 

– Tenta de novo, pai. Não é com uma garota. – ele se chocou. – Eu estou namorando com Juan, um amigo meu de escola. Eu amo ele. – meu pai logo se levantou e se preparou para me dar uma surra, mas minha mãe o segurou. 

– Eu estou cansada de ver a mesma cena, Hélio. – ela disse, cabisbaixa. Meu pai abaixou o braço e então começou a amolecer. 

– Estou de novo decepcionado. – disse meu pai. Ele bateu as mãos na mesa, fazendo um barulho e se virou de costas. Os dois iam indo, quando eu levantei da mesa e resolvi falar o que queria ter dito na conversa com minha mãe mais cedo. 

– Eu tenho mais para oferecer. – eu disse, fazendo com que meu pai pare de andar e que minha mãe preste atenção em mim. – Eu só agora reconheci que eu sou forte e que as atitudes de vocês, mesmo que tenham me afundado antes, agora vão ser usadas como motivação para eu me levantar no futuro e ver tudo que já passei. – afirmei, fazendo com que meu pai virasse para mim novamente. – Eu não tenho mais medo de vocês. E nem do mundo. A minha fase triste e descolorida, abatida e com medo do mundo morreu. Não faz mais parte da minha realidade. – Acredite em mim, mãe e pai. Eu sou muito mais do que uma simples sexualidade, um simples rótulo. Eu tenho gostos, medos, sonhos e objetivos. Assim como eu era antes de vocês descobrirem o que eu já sou. E eu não vou mudar por causa disso. Sou o mesmo, o mesmo Enzinho que vocês protegiam quando eu era pequeno. Só que agora, mais responsável e maduro. – afirmei. Minha mãe fechou os olhos e seguiu seu curso, com os olhos cheios de lágrimas. Meu pai, permaneceu calado, me encarando. 

Não me deixei ser muito afetado pelo ambiente. Permaneci pleno durante todo o resto dia. Até porque, precisava estar bem para arrasar nesta noite. Eu passei o resto da tarde inteira experimentando a roupa que Moacyr me emprestou. Foi só quando eu fui tirar a roupa para lavar, que vi que minha avó Venância não tinha só colocado o mapa no meu bolso. Mas também um recado: 

Obrigado, querido. Você conseguiu me salvar e conseguiu também salvar toda a humanidade da perdição. Ele provavelmente não vai dormir por muito tempo. Então fique forte. Você é muito corajoso e um tremendo homem. Nos falamos uma outra hora. Beijos da vovó Venância.

Quando o horário bateu, meu coração até começou a bater mais forte. Era o primeiro baile da escola.. no caso, o meu. Meu primeiro baile… Já que todos os outros eu não tinha ido por não ter um par. Desta vez eu tenho. 

Logo ao entrar na escola, fiquei impressionado. Estava tudo muito bem decorado, desde as portas, luzes, corredores e etc. Não havia nada que não estava preparado para o Baile de Fim de Ano. 

– Cuidado por onde anda. – era Ismael, que havia esbarrado em mim. Fiquei feliz em ver que ele estava com companhia. 

Logo fui até a mesa de bebidas para poder desfrutar de uma até Juan chegar. Fiquei ali no canto tomando uma taça de vinho quando Aylla chegou. 

– Olha que lindo! – disse ela, toda animada. – Nunca duvidei de você. Sempre soube que você ia ficar com o Juan. – disse. 

– Aylla. – eu falei, sério. – Você e Mayara foram as primeiras a me tacarem pedras quando eu mencionava essa possibilidade. 

– Passado é passado, amigo! – disse ela. – Estou tão bem hoje. Obrigada por perguntar. – mas eu nem perguntei nadam – E aliás, adivinha com quem eu e Emília viemos hoje pro baile? 

– Não sei… Vocês estão com alguma companhia? – perguntei. 

– Óbvio que não! Cê acha mesmo que eu e ela iríamos mesmo dar bola para esses machos da escola? Que me livrem! – ela falou, dando risada. – No meu caso, falo dos garotos da escola. Já Emília.. até me falou que homem não presta. Acho que ela deve estar… – eu a interrompi. 

– Maluca? – perguntei, interrompendo-a. 

– Completamente certa! – ela completou. – Oras, onde um homem presta? – caímos em risadas juntos desta vez.
– Ah, mas eu presto. – era Juan se aproximando. Ele estava lindo. Suas roupas combinavam com seu estilo e com a cor do seu cabelo e dos seus olhos. Ele estava perfeito. – Vamos dançar? – ele perguntou.
– Vou deixar o casal a sós. – disse Aylla, se afastando. 

Logo em seguida um dos nossos professores subiu no palco para anunciar uma notícia interessante. 

– Boa noite, estudantes. Seja bem-vindos ao baile de encerramento do ano. – disse. Todos começaram a bater palmas. – A gente preparou essa festa com bastante carinho, com bastante cuidado. Cada detalhe foi pensado com muita delicadeza. Tudo isso é um presente que o nosso antigo diretor deixa para vocês. Anuncio que a partir de hoje, dona Marisa vai assumir a direção da escola. – ele então abriu espaço para a nova diretora entrar. 

Ela era mais séria, menos espontânea e mais real. De nada tinha a ver com o antigo, que era caricato e esquisito. 

Me perguntei onde o antigo diretor deve estar agora. Apesar de tudo, tenho minhas certezas de que ele é o Juca, gato do Otávio. 

– Terra chamando Lorenzo, terra chamando Lorenzo.. – era Juan, me chamando para a vida real. Passei alguns minutos viajando na tese de que Juca era o antigo diretor. 

A noite estava muito divertida. Juan era encantador e eu estava tão próximo dele.. Dançamos coladinhos um no outro sem medo do que os outros poderiam pensar. E por mais que eu fosse desajeitado, ele não ligou. 

– Você aceita ficar comigo pelo resto da minha vida, não é? – ele perguntou.
– É lógico que sim, idiota. – respondi.
– Mesmo com meus defeitos? – perguntou.
– Mesmo com seus defeitos. E espero que você comigo também. – respondi.
– Ah, se é assim. Então vai ser perfeita nossa união. Eu mesmo não consigo ver nenhum defeito seu. Só qualidade. – ele soltou um sorriso sensual, partindo direto para o beijo. 

Foi um beijo quente.. intenso, mas ao mesmo tempo calmo. O beijo dele é confortante. 

Mas de repente as luzes da escola se apagaram. Todas as pessoas começaram a gritar. Mesmo que com pouca luz, consegui ver o reflexo de algumas meninas correndo. 

– O que aconteceu? – perguntei, nervoso. Juan segurou na minha mão e me puxou.
– Vem comigo. – ele disse, seguindo em direção ao nada, já que estava tudo escuro.
– Juan, fica. – eu o impedi de continuar. Eu percebi que ele estava seguindo a multidão. Repentinamente as luzes novamente acenderam. 

Todos estavam assustados e algumas pessoas estavam com restos de sangue nas roupas. Alguma coisa ruim havia acontecido. E eu precisava saber o que era. 

– Me espera aqui. – eu disse, pedindo para que Juan continuasse no lugar que estava. 

Fui até às salas, ao refeitório, à direção.. e nada. Não consegui obter informações. Até que quando voltei ao pátio e fui ao banheiro, percebi que o banheiro feminino tinha mais gente que o normal. 

Quando lá entrei, vi uma cena que jamais esperava ver. Nicolle e Yuri estavam mortos, provavelmente assassinados no banheiro e completamente despidos. Tentei me aproximar, mas as meninas me bloquearam. Emília estava lá também, completamente imóvel e ensanguentada. 

Por mais que eu a conhecesse e acreditasse que ela não teria culpa, os outros poderiam considerar o possível fato de ela ser a assassina. Todos sabem que desde pequenas, as duas não se batem. Logo, vê-la ensanguentada, assustada e tremendo em plena cena do crime é uma hipótese dada de mão beijada para a polícia.

Fim

POSTADO POR

All Andrey

All Andrey

Hey, carinha! Sou All Andrey, tudo joia? Eu vim do Wattpad, e aqui na CyberTV eu já publiquei "Quatro Perdões Para Melissa" e "Infernum: A Maldição de Sentir". Curto escrever histórias com finais mais realistas, sem aquele exagero de felicidade ou de que tudo vai ficar bem no final. AMO misturar coisas lúdicas com coisas reais.

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