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IXV – A Escudeira de Gudwangen

Kapittel fjorten

XXVII – Thórin, um Earl além do seu tempo

Ouviu-se gritos alarmados de um povo louco por um combate. Faziam um círculo ao redor de uma trincheira e gritavam com as mãos para o alto…uns quantos em defesa de Thórin e uns poucos ainda em defesa de Sigmund, serpente negra. Suas mulheres, ambas apreensivas, estavam uma de cada lado atrás de seus maridos guerreiros e trocavam olhares nada amigáveis.

Thórin jogou sua capa acinzentada para trás e, antes dela cair no chão, sua mulher Freya a pegou. Ele sacou sua espada e encarava o Earl do outro lado com os olhos fervendo. Sigmund sorriu debochando do nórdico que o desafiava. Virou-se para Syggia e ela lhe entregou a espada. Há alguns metros para trás, Britanyum observava a cena. Sigmund o encarou e sorriu.

– Veja como é que se faz, meu jovem. – disse Sigmund.

E então, o Earl se virou para Thórin.

– Tem certeza que quer isso, Thórin?

Thórin o encarou com seu olhar sanguinário.

– Nunca estive tão certo de algo na minha vida. – ele respondeu.

Sigmund gritou de raiva e deu passos largos em direção à Thórin. O golpe certeiro acertaria o ombro direito do guerreiro, que foi rápido o suficiente para desviar da lâmina afiada. Sigmund não se deu por vencido e, com um trançar de pernas, aproximou-se golpeando várias vezes com a sua espada. Thórin apenas se defendia usando a lâmina da sua.

Os gritos fervorosos continuavam ao redor da trincheira e dos dois bravos nórdicos que já demonstravam algum cansaço. Com o ombro esquerdo sangrando e a perna direita no mesmo estado, Thórin deu por conta que não seria nada fácil derrotar aquele Earl. Parou com a espada posicionada em diagonal à frente do seu corpo e aguardou a vinda tenebrosa de Sigmund para o seu lado. O Earl golpeou com força. Faíscas soltaram de ambas as lâminas. Com sua arma, Thórin desviou e derrubou a espada de Sigmund, que caiu de joelhos aos seus pés. Nestas horas não há perdão. Não há misericórdia alguma. Os deuses desejam o sangue. Desejam que haja um vencedor. Thórin não pensou duas vezes e aproveitou o momento. Deu um grito que silenciou todos ao redor e cravou sua espada no peito do Earl Sigmund, serpente negra.

Tudo ficou em absoluto silêncio. Syggia tentou manter-se forte, mas as lágrimas escorrendo pelo seu rosto mostraram o seu real sentimento. Ela correu para junto do marido morto, assim como fez Freya e Kaira para ajudarem Thórin, que caiu para trás exausto após matar seu oponente.

– Acabou, acabou. – disse Freya acalentando o seu guerreiro.

– Pai, você está bem? – perguntou Kaira.

Thórin colocou a mão sobre o ferimento no seu ombro. As mulheres da sua vida o ajudaram à se levantar. Quando se reergueu, observou os rostos incrédulos daquele povo que acompanhava o combate. Um senhor se aproximou e fez uma reverência à Thórin.

– Salve Earl Thórin! – disse o senhor.

As palavras daquele senhor surpreenderam o guerreiro ferido que ficou sem palavras. Freya sorriu lembrando das palavras do oráculo. Tudo estava se concretizando. Quando Thórin ergueu o olhar novamente o povo começava a clamar pelo seu nome.

– Salve Earl Thórin! Salve Earl Thórin! Salve rei Thórin!

O povo acabava de eleger o seu novo Earl. A profecia iria se concretizar. Gudwangen poderia estar voltando a viver uma nova época.

Há quem diga que são nestes momentos que se mostra a bravura de um homem. Mas esquecem que também é neste momento que se mostra a gentileza deste homem. Mesmo ferido, Thórin fez questão de organizar todo o funeral de Sigmund, serpente negra. Ia também oferecer todo amparo necessário para Syggia, mas foi impedido de o fazer por sua mulher, Freya.

No dia seguinte ao funeral de Sigmund, Freya apareceu nas terras do antigo Earl. Syggia, a viúva, estava parada olhando os falcões dançarem no céu escuro.

– Thórin queria lhe oferecer todo o amparo necessário. – disse Freya se aproximando.

– Você tem sorte de ter um bom homem. – respondeu Syggia.

Freya sorriu e chegou bem próxima de Syggia. Sacou sua adaga e colocou a ponta da mesma sobre o abdômen da viúva.

– Mas o novo Earl sabe dar voz à sua mulher. E talvez este fosse o fim que você gostaria. Pegue o seu fazendeiro maldito e suma daqui! Ou…

Freya guardou a sua adaga e segurou com força os cabelos de Syggia.

– …o povo de Gudwangen irá saber quem é a verdadeira Syggia. – completou ela.

Syggia tentava manter a sua pose.

– Não sei onde ele está. Mas quando ver ele, diga que Freya, filha de Lur, a esposa do novo Earl, quer ele e você bem longe daqui. – disse Freya virando as costas em seguida e se retirando.

XXVIII – Partidas e chegadas

A noite chegou e passou rápida. Dimithria aproveitou ao máximo o tempo com o seu pai. Ter ele ali, vivo diante dos seus olhos, depois de tantos dias longe, era algo especial para ela que não tinha mais nenhum familiar além dele. De volta ao casebre em que moravam, ela fez questão de cozinhar para o pai. Fez batatas com carne de porco e legumes colhidos da própria horta. Katous, sentado à mesa, a admirava na cozinha.

– E eu mereço tudo isso, Dimithria? – questionou ele.

– É claro, pai. – respondeu ela se aproximando da mesa com a panela de barro.

Ela largou a panela e sentou-se à sua frente.

– Eu vou lhe contar tudo por onde estive, minha filha. – disse Katous.

– Não. Antes vamos comer. Sirva-se. Depois o senhor me fala tudo. Afinal, tem muito o que me contar. – respondeu a jovem.

Katous acatou a decisão da filha. Serviu-se e serviu o prato de Dimithria. A comida parecia estar ótima. Se deliciaram com aquele banquete e esqueceram todos os problemas e preocupações por alguns minutos. Apenas lembraram dos bons momentos e das coisas boas que já viveram. Mal sabia Dimithria que aquela seria sua última refeição com o seu último familiar vivo. Katous já havia tomado sua decisão e, caso a filha não o seguisse, ele iria do mesmo jeito…para talvez, nunca mais retornar à Gudwangen.

Após o jantar, Katous e Dimithria deitaram no galpão e ficaram a observar as estrelas através das frestas no telhado de barro. Katous contou as histórias preferidas da filha quando criança e ela ouvia com o mesmo brilho no olhar de quando era uma frágil menininha em seus braços. Foi quando Katous notou que tudo silenciou. Virou o rosto para Dimithria e viu que a jovem adormecera ouvindo suas histórias. Sorriu, puxou o agasalho de pele de urso sobre eles e se acomodou para dormir, mas não conseguiu. Seu pensamento estava no dia seguinte, na partida para as terras virgens.

O garanhão branco galopava depressa pelos campos verdes na direção do nascer do sol. Montado nele, um homem de expressão cansada e vestes carcomidas. Debaixo de sua capa carregava algo, que deixou-se revelar quando avistou a vila de Gudwangen ao longe. Puxou as rédeas e o garanhão relinchou parando na sequência. Um choro quase imperceptível se ouviu e o homem puxou sua capa revelando um bebê recém nascido enrolado em uma manta de lã.

– Calma, meu filho. Já estamos chegando. – disse o homem acariciando a criança em seus braços.

– Vamos, Boromir. – disse o homem para o garanhão, que relinchou mais uma vez e seguiu caminho.

Freya sentiu um aperto no peito e levantou da cama com cuidado para não acordar Thórin que ainda dormia profundamente. Saiu de dentro do casebre vestindo um agasalho grosso e foi para os fundos. Atravessou as cercas de suas terras, cruzou os braços e ficou a observar os campos verdes à se perder de vista.

Lá longe Freya avistou um cavaleiro se aproximando. Assustou-se. Fez menção de retornar para dentro e acordar Thórin, mas exitou no momento em que o cavalo e cavaleiro chegavam mais perto. Esboçou um sorriso e logo lágrimas brotaram em seus olhos. Pôs a mão sobre a boca não acreditando no que seus olhos estavam vendo. À medida em que ele se aproximava ela tinha mais certeza de quem se tratava. Ele estava vivo. E ele estava ali. Cartrolous, seu irmão mais velho. Quem ela não via há muitos e muitos anos.

O garanhão parou e relinchou há alguns metros de Freya, que ainda não conseguia crer no que estava vendo. Cartrolous apeou rapidamente, mas com cuidado. Freya notou que ele carregava algo. Ele se aproximou da irmã abrindo a capa e mostrando a criança.

– Pelos deuses! – disse Freya, surpresa.

– Precisamos salvar meu filho, minha irmã! – respondeu Cartrolous.

O olhar cansado dele indicava dias de viagem. Devia estar com fome, com sede, mas para ele nada disso importava. Cartrolous só queria salvar a vida do pequeno Obarth, seu filho recém nascido, que sobreviveu à um massacre na pequena vila em que viviam.

– Ele nasceu há três dias. E há dois dias um exército cristão invadiu nossas terras à noite. – contou Cartrolous enquanto entregava Obarth nos braços de Freya.

Cartrolous começou a chorar.

– Margreet não sobreviveu. Ela morreu com ele nos braços. – complementou Cartrolous.

– Calma, meu irmão. Venha, vamos pra dentro. – disse Freya carregando o bebê e conduzindo o irmão para casa.

Naquela mesma manhã, em outra ponta de Gudwangen, na beira do mar, Dimithria chorava abraçada ao pai Katous. Quatro embarcações já se encontravam no mar. Era um bom número de seguidores. Katous havia conseguido o que precisava.

– Seja forte, minha pequena guerreira. – disse Katous afastando-se do abraço e olhando nos olhos da filha.

Dimithria enxugou as lágrimas com o dorso das mãos e esboçou um discreto sorriso. Katous se aproximou beijando sua testa. Era o destino separando pai e filha. Era Katous seguindo o chamado dos deuses. O chamado de Jord.

POSTADO POR

Marcos Vinicius Silva

Marcos Vinicius Silva

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