Minha Doce Patroa: Negociando com Espíritos – Capítulo 02

obra escrita por
YAGO TADEU

A

PRIMEIRAS IMPRESSÕES

A

E se a sombra dessa árvore
Pudesse me devorar?
Temo e permaneço mármore
Uma estátua a chorar.

— Vamos, Ítalo. – Dérick decidiu contrariar sua intuição e chamou Ítalo – Eu vou ajudá-lo a descer.

Dérick levantou o filho o colocando de pé no barco. Sorriu para o garoto que era leve como um boneco.

— Sente garoto. – pediu o barqueiro á Ítalo.

Dérick auxiliou Priscila á descer. Ela apoiou o pé sentindo firmeza no espaçoso barco e sentou em seguida. Ítalo foi pra perto dela.

— Não corre risco de afundar?- questionou Dérick cismado ao embarcar com as malas.

— Nunca afundou. – respondeu apenas.

O barqueiro tirou o cachecol listrado de preto e branco sentindo o calor aumentar. Revelou seus cabelos loiros quase grisalhos de tão brancos. Usava um blusão branco neve e uma calça preta que alongava ainda mais suas pernas. Priscila e Dérick notaram a estranheza de sua pele pálida. Ítalo olhou entre ás árvores buscando qualquer sombra de seu cachorro.

— São lindas rosas. – Priscila observou referindo-se ás rosas nos morros.

— São as mais belas de SweetVillage. – contou o barqueiro começando a remar.

Dérick sentia-se ainda apreensivo pelos últimos acontecimentos. Suas mãos suavam em alguns momentos e ele chegava á imaginar que o barco poderia virar pelo peso e o número de passageiros nele. Mas, devia ser apenas uma tola cisma em função do nervosismo sofrido anteriormente.

— Minha esposa veio trabalhar para uma senhora de meia-idade e mãe de dois filhos. – contou Dérick tentando se familiarizar.

— A conheço. – o barqueiro falou logo com o rosto voltado aos morros – Ficarão por muito tempo?

— Quinze dias. – respondeu Dérick quando o barco dava a volta no morro.

— Então, vocês vieram praticamente á passeio. – concluiu o barqueiro ainda sem olhar em seu rosto. Parecia evitar o contato de olhares.

— Pode-se dizer que sim. – concordou enquanto o velho fitava Priscila fuzilando seu corpo com o olhar.

— Meu nome é Edgar. – o barqueiro se apresentou enfim olhando para Dérick.

Dérick aproveitou o momento e estendeu a mão para cumprimentá-lo.

— Desculpe não tê-lo cumprimentando antes, é que acontecimentos na estrada nos deixaram desorientados.- o homem tocou sua mão e ele sentiu o frio de seus dedos – Prazer, sou Dérick Rafael, essa é minha esposa Priscila e meu filho Ítalo. – o barqueiro balançou a cabeça positivamente. Priscila e Ítalo o cumprimentaram sem apertos de mão. O velho observou a cena em silêncio, mascava algo.

O barco deu uma volta em mais um morro. Priscila começava a apreciar o cheiro da natureza e a calmaria do lugar. Como queria um buquê daquelas belas flores, as desejou no momento. Quem sabe seu casamento tomaria um rumo após aquela viagem. Seu breve receio começava á passar, estava aberta á uma nova etapa da vida, uma que lhe trouxesse mais paz e tranquilidade.

— Estamos perto de chegar?- Priscila perguntou ao barqueiro.

— Já chegamos. – disse ele quando o barco encostou nas margens com uma batida.

O velho foi o primeiro a levantar pulando nas margens e balançando o barco, agora livre de seu peso.

— Obrigado senhor Edgar, quanto foi a viagem?- Dérick buscou a carteira.

— Não cobramos passagem nessa vila. – recusou o barqueiro – Nunca cobramos.

— Agradecemos muito. – Dérick decidiu não insistir.

— Vocês descem essa estrada de terra. – o barqueiro apontou para a subida –Quando descerem e subirem aquela outra subida avistarão a única casa entre as árvores.

— Não é uma vila?- questionou Priscila.

— A vila fica um pouco afastada da casa dessa senhora. – o barqueiro desviou o olhar novamente – A casa dela é isolada.

— Agradecemos muito. – Dérick deu um fraco sorriso – Adeus!

— Adeus!- despediu-se Priscila e Ítalo permaneceu calado.

— Adeus. – o barqueiro respondeu com a voz entristecida se voltando para o lago e embarcando novamente.

A estrada de terra lembrava a cidade do interior que Priscila nascera. Pedras nas margens da estrada, relva alta e uma grande subida pela frente, uma subida quase reta.

— Fique calmo Dérick. – pediu a esposa notando sua apreensão – Foi apenas um susto.

— Fiquei realmente bastante em choque, mas agora estou mais calmo. – o pai colocou o braço em cima do ombro do filho. A mala na outra mão – Difícilmente o Amanhã estará vivo, mas prometo comprar outro cachorro ou mesmo um gato pra você quando voltarmos pra casa.

— Até uma Arara? – brincou o filho buscando esquecer.

— Até uma Arara. – sorriu o pai tentando animá-lo. As cigarras começavam a cantar. Clima sertanejo.

— Fiquem tranquilos, nós viemos passear, relaxar e se divertir. – Priscila bateu nas costas dos dois – E isso que nós vamos fazer.

O pai foi o primeiro a chegar ao fim da subida. Ajeitou a mala nas costas e avistou a casa quando o sol começava a se pôr.

— Chegamos. – disse Dérick os apressando para alcançar o topo da subida – Parece uma casa confortável. – colocou a mão na cintura um pouco ofegante.

Priscila visualizou a casa e no mesmo instante deu um sorriso empolgado.

— Eu já sonhei com essa casa. – recordou-se surpresa com a própria lembrança. Não sabia se era um sonho realmente, ou se já estivera naquele lugar.

— O que mãe?- perguntou Ítalo e Dérick a fitou.

— Eu já sonhei com essa casa e vivi bons momentos aqui.

— Então… Vamos?- interrompeu Dérick ansioso.

Um garoto surgiu na janela da casa. Ítalo o notou ao longe, mas ao se aproximar junto dos pais ele não estava mais lá. Priscila bateu palmas e esperou ser recebida. Dérick notou o modelo antigo da casa. Janelas grandes e uma espaçosa varanda. Arbustos de formatos diferentes e naturais na entrada e um tronco á frente da casa como decoração. Uma casa muito antiga, mas a pintura recente disfarça bem.

— Talvez não estejam em casa. – disse Dérick limpando o suor da testa com as mãos.

— Estão sim. – Ítalo apontou para a casa – Eu vi um menino na janela.

— Um menino?- indagou Priscila batendo palmas novamente.

A porta da casa rangeu se abrindo lentamente. Ninguém apareceu. Ninguém.

— Talvez estejam nos fundos da casa. – Priscila olhou para Dérick e ele esboçou no olhar que desejava entrar logo na casa mesmo sem permissão.

— Quem são vocês?- O pequeno garoto surgiu na porta com uma espingarda em mãos – O que estão fazendo aqui?

— Calma aí garoto, queremos falar com sua mãe. – disse Dérick quando o garoto fechou a expressão e mirou a espingarda para ele – Garoto, abaixa essa arma.

— Eu sou a nova empregada da sua mãe. – Priscila explicou rapidamente – Vim com minha família e já combinei tudo com sua mãe por telefone.

— Você É… Priscila?- com o tom de voz mais suave o garoto indagou abaixando a arma.

— Sim, sou eu. – Priscila buscou sorrir – Calma Dérick, é apenas uma criança. – Dérick ignorou sua repreensão e o garoto os convidou para entrar.

— Entrem, por favor. – o garoto os deixou no sofá da sala –Meu nome é Andy e essa é minha irmã mais velha Anne.- apresentou a garota de cabelos longos e negros que apareceu logo atrás do irmão.

— Eu sou Dérick, essa é minha esposa e nova empregada de vocês Priscila e esse é nosso filho Ítalo. – Anne deu um sorriso galante para Ítalo que retribuiu bem.

— Minha mãe foi até a vila comprar umas maçãs. – o garoto encarou Ítalo por um momento – Mas, ela já volta. Vocês querem conhecer o quarto?

— Queremos sim. – sorriu Priscila se levantando do sofá. Crianças gentis.

Andy os levou até o quarto da empregada passando por um corredor e pelo quarto maior.

— Vocês vão ficar aqui. – o garoto pequeno de cabelos pretos e curtos abriu a porta.

Priscila percebeu a antiga e grande cama de madeira forte. Dérick levou a mala até o outro lado da cama passando a mão no empoeirado móvel ao lado da cama. Casa grande de sítio, onde escondem-se os interruptores e as lâmpadas?

— Obrigado Andy. – agradeceu notando que sua irmã não o acompanhava mais.

— Venha ver Ítalo. – chamou Priscila apontando através da janela. Ítalo encostou na janela do quarto e olhou para o grande portão fechado por uma grossa corrente.

— O que é? – indagou Ítalo curioso. Os grandes portões o fizeram lembrar de filmes antigos.

— Uma fábrica abandonada. – disse Andy na porta do quarto – Se quiser pode conhecer o resto da casa.

— Quero sim. – respondeu Priscila fechando as cortinas creme.

— Onde vai? – Dérick perguntou sentado á cama.

— Conhecer o resto da casa. – sorriu Priscila saindo do quarto. Parecia tranquila.

— Vou deitar um pouco. – Dérick se esticou na cama – Vamos deitar Ítalo, antes que a dona patroa não chegue. – Ítalo deu um leve sorriso para o pai e voltou a afastar as cortinas observando pela janela.

Priscila caminhou pelo corredor analisando os porta-retratos que antes não havia notado. Passou a mão pela parede notando marcas semelhantes á de um incêndio. Seus olhos focaram na porta fechada pelo qual passara anteriormente. Girou a maçaneta e abriu. Um quarto aparentemente normal, flores numa escrivaninha, lençol branco bem esticado na cama de madeira. Priscila se aproximou da grossa toalha de mesa que cobria algo. Havia um lindo bordado de crianças se divertindo no parque. Ela tocou acariciando o bordado e deslizando seus dedos até a barra do tecido. Se minha avó estivesse aqui, ela diria que alguém realmente com talento a bordou. Priscila segurou o tecido e puxou descobrindo o que a tolha ocultava. Seu coração acelerou, ela levou um susto ao deparar-se com o reflexo no descoberto espelho.

— Não foi nada fácil bordá-lo. – Lisbela surgiu por trás dela.

Priscila se virou para ela conseguindo sorrir após o susto.

— Desculpe a invasão, seu filho Andy nos permitiu entrar.

— Tive que ir á vila, mas tudo bem… já a esperava. – Lisbela contemplou seu rosto e sua pele sem marcas.

— Prazer, como já nos falamos por telefone meu nome é Priscila Telles.

— Sim, me lembro. – sorriu Lisbela bem agradável – O meu é Lisbela Reis. Sua família veio?

— Sim, como avisei trouxe meu filho e meu marido. – Roupas de camponesa.

— Vamos conhecê-los. – a chamou para fora do quarto.

Dérick se levantou rápido da cama ao deparar-se com a dona da casa na porta do quarto.

— Olá . – Lisbela deu um fraco sorriso com os olhos autoritários. Priscila silenciosamente riu do marido .

— Boa tarde senhora.- Dérick a cumprimentou sem graça.

— Lisbela Reis. – ela se apresentou apertando rapidamente sua mão.

— Dérick Rafael. Esse é nosso filho Ítalo. – Ítalo apertou a mão de Lisbela com receio – Nós agradecemos imensamente a hospedagem em sua casa.

— Vamos conversar na mesa. – decidiu Lisbela saindo do quarto.

Priscila a seguiu e Dérick ajeitou a camisa social indo atrás também.

— Suco, água, uma maçã… Querem algo pra comer?

— Á noite nos queremos jantar mas agora não, nós comemos na viagem. – sentou-se Priscila tentando se familiarizar com o local.

— Só podem deixar o carro no estacionamento perto do lago?- questionou Dérick – Vou ter que dar a volta mesmo?- reclamou Dérick sentando na cadeira.

— É a regra. – respondeu Lisbela colocando as pomposas maçãs do saco no cesto.

— Não há televisão aqui?

— Televisão? Não.

— Porque?

— Perca de tempo.

— Não há sinal de internet ou qualquer coisa parecida?

— Telefone somente na vila. – respondeu abrindo a garrafa térmica – Fale com Sidney jornaleiro. Há energia elétrica, mas só uso rádio, geladeira e chuveiro elétrico. Não ocupo a casa com inúteis lâmpadas.

O casal analisou a antiguíssima geladeira vermelha e o arcaico modelo da pia junto do decadente armário de madeira. Um museu sem título de museu. Dérick concluiu.

— Como combinamos por telefone eu vou ficar de quinze dias á um mês.

— Não combinamos nada. – Lisbela abriu a gaveta do armário e tirou um envelope pardo – É um negócio. – Dérick e Priscila a fitaram surpresos.

— Você tem um contrato para assinar. Para garantir que ficará no mínimo quinze dias.

— Um contrato, isso é necessário?- indagou Priscila – É apenas um teste.

Lisbela deixou o contrato e a caneta preta em cima da mesa de vidro.

— Acho desnecessário .- comentou Dérick limpando os óculos escuros com os dedos.

— Por favor, eu faço isso com todas. – Lisbela colocou a água no fogo.

— Tudo bem. – Priscila deu uma rápida lida no contrato – Já que prefere .- Priscila assinou o contrato sem rodeios –Nós podemos tomar um banho agora?

— Claro que sim. – sorriu Lisbela – Hoje vamos ter café e pão caseiro para o jantar.

Dérick quase esboçou uma careta disfarçando. Priscila foi até o quarto chamar o filho.

— Está dormindo. – disse Dérick observando o filho deitado em um sono tranquilo.

— Vou precisar acordá-lo. -Priscila foi até á beira da cama – Ítalo acorde, você precisa tomar banho.

Ítalo foi despertando, parecia estar bem exausto quando a mãe o acordou. O sumiço do cão o deixara menos alegre do que estaria em um clima de campo.

— Espero que a dona patroa imponha menos regras, senão não suportarei uma semana.- Priscila apenas ouviu e ignorou o marido reclamão buscando na mala a toalha de Ítalo.

Ítalo fechou a porta do banheiro. Deixou a tolha em cima da pia. O banheiro estava limpo e organizado. A torneira bem enferrujada e a janela quebrada onde o escuro do início da noite estava escancarado.

Ele ligou o chuveiro e a água fria caiu no piso. Ítalo se tremeu sentindo um arrepio como nas manhãs tão frias de Zellwéger e nem teve tempo de entrar na água. A maçaneta estremeceu como se alguém quisesse invadir o banheiro. Ítalo olhou para porta.

— Vou tomar banho.- avisou quando três batidas lentas foram dadas na porta. Ítalo desligou o chuveiro e foi até a pia pegar sua toalha.

— Tem alguém aí?- perguntou o garoto com frio. Ninguém o respondeu.

Ítalo não obteve resposta e decidiu voltar ao chuveiro. Seu rosto foi virando lentamente quando assustou-se e quase escorregou no piso ao se deparar com a menina logo atrás que mantinha os olhos fixos nele. O que ela quer?

— O que você está fazendo aqui?- temeu logo se cobrindo com a toalha.

Anne colocou o dedo indicador na boca de Ítalo pedindo silêncio com um pretensioso sorriso.

— Saia por onde você veio. – Ítalo apontou para a janela.

— Silêncio . – pediu Anne aproximando-se lentamente dele. Ítalo deu dois passos para trás.

— Vou chamar minha mãe. – ameaçou Ítalo com os lábios nervosos. Anne deu um estridente grito. O lampião embaixo da pia piscou duas vezes após o sonoro berro da garota.

Ítalo assombrou-se com o grito e em poucos segundos Lisbela já batia na porta do banheiro. Anne passou pelo menino e girou a chave abrindo a porta.

— O que está acontecendo aqui?- indagou Lisbela. No olhar o seu ímpeto de mãe.

— Eu usava o banheiro quando ele entrou e ficou apenas de toalha. – contou a garota.

— Mentira. – disse Dérick vindo logo atrás. Priscila apertou a mão do marido como quem pede silêncio.

— Mais cuidado com seus atos garoto.- repreendeu ela puxando a mão de Anne e a levando dali. Dérick não engoliu aquela injustiça.

— Eu não fiz…- Ítalo jurou para a mãe.

— Eu sei que não fez. – confiou a mãe – Mas deixe, a filha dela mentiu e eu acreditaria se fosse ela.

— Eu não deixaria pra lá. – insistiu Dérick com um olhar incomodado – Ítalo não tem que passar por esse tipo de coisa, é um menino tranquilo e honesto diferente dos filhos dela.

— Deixe isso pra lá Dérick, pode tomar banho em paz filho. – ela tentou acalmá-lo – Acabamos de chegar, não estamos na nossa casa Dérick.

— Venham tomar café. – Lisbela chamou da cozinha. Dérick fechou a expressão para Priscila.

Havia café na garrafa térmica vermelha. Haviam pães caseiros e rosquinhas de polvilho.

— A senhora sabe cozinhar bem?-indagou Dérick sentando á mesa.

— Vai saber quando comer. – respondeu buscando xícaras no armário. Dérick sorriu para Priscila e cortou um pedaço de pão. A esposa balançou a cabeça.

— Aqui está o café. – Lisbela colocou a garrafa térmica em cima da mesa e seus filhos sentaram.

— Ítalo não vai comer?- perguntou Lisbela puxando a cadeira.

— Ele comeu tantos lanches, e também sobrou dois da viagem, então o deixei comendo lá no quarto.

— Porque ele não come com gente?- questionou Lisbela a deixando sem saída.

— Porque ele está com medo de seus filhos. – Dérick ousou dizer já cansado dos olhares provocativos dela.

— Dérick!- repreendeu Priscila. Está agindo como uma criança.

— Medo dos meus filhos?- deu um irônico sorriso amarelado – Meus filhos são crianças criadas em sítio e restritos ao mundo, não queira me convencer de que seu filho é mais puro que os meus. – fez um impertinente olhar.

— No início você me pareceu gentil, mas repentinamente você começou a nos incomodar. – Dérick retrucou.

— Por favor. – Priscila preocupada chamou a atenção de Dérick.

— O seu filho é um malicioso. – Lisbela disse o encarando. Os dois começavam definitivamente com o pé esquerdo.

— Chega, vou me deitar.- Dérick deixou a colher na xícara e se levantou – Pra evitar maiores discussões.

— Dérick!- repreendeu Priscila quando o marido empurrou a cadeira.

— Boa noite. – ele disse sem ouvir resposta.

— Desculpe-o, ele está cansado. – Priscila tentou sorrir bebendo um gole do café –Vamos lavar as louças hoje?- a resposta tardou.

Lisbela se levantou e colocou o pano de prato em cima da mesa.

— Vamos lavar, secar e guardar.- respondeu secamente guardando os pães no armário.

Dérick se revirava na cama sem conseguir dormir. Ítalo deitado ao seu lado parecia adormecido em sono profundo. Deve estar muito cansado. Pensou Dérick o cobrindo com o cobertor que trouxera de casa. Sem sono ele se levantou e foi atrás da esposa que ainda não havia deitado. Bocejou ao abrir a porta e o escuro corredor revelou que o lampião da cozinha ainda estava aceso. Conferiu Anne e Andy dormindo no quarto do fundo do corredor. Saiu da fresta e andou em passos mansos até o final da parede do corredor. Ouviu as primeiras palavras da discussão das duas e ali encostou na parede disposto á escutar até o final.

— Infelizmente, começamos com o pé errado.- Lisbela pediu para ela sentar. Ela a olhava de modo superior. Parecia irritada.

— Não deve levar nada que aconteceu hoje a sério. – Priscila tentou amenizar.

— Eu não consigo acreditar em nada que você fala. – Lisbela a olhou diretamente nos olhos.

— Não consegue acreditar em nada que eu falo?- ainda tentou sorrir – Porque? Como assim?

— Seja você mesma. – Lisbela a encarou como se fosse uma criança – Não sorria á toa, sorria quando estiver com vontade de sorrir.- Priscila perdeu o sorriso e olhou levemente para baixo como uma menina – Quer trabalhar pra mim?- Lisbela pegou a xícara de café da mesa.

— Sim Lisbela, claro. – se esquivou tentando fugir de precoces discussões por mais que já estivessem se desentendendo.

— Quer mesmo trabalhar pra mim?- indagou como quem pergunta pela última vez. Sem nova resposta ela soltou a xícara que estraçalhou no chão e o café se espalhou por toda a cozinha – Limpe esse chão e você começará á fazer sua vontade. O som do estilhaço deixou Priscila apreensiva.

—Você fez de propósito. – disse Priscila sem rastros de algum sorriso.

— Por favor, Priscila. – a patroa cruzou os braços. Priscila se levantou e foi até a pia em busca do pano.

— Sabe Priscila, algumas empregadas passaram por aqui. – Priscila torcia e lavava o pano antes de passá-lo no chão. Não estava nada tranquila. – E eu não tive tempo de ensiná-las como deveria, mas com você será diferente. – Lisbela abriu a última gaveta da pia e pegou algo. Priscila agachou-se.

— Priscila, não é assim. – Lisbela estendeu o uniforme para a empregada que levantou – Todo mundo sabe que antes de qualquer serviço veste-se o uniforme.- Priscila fitou o uniforme azul marinho quadriculado em sua mão – Vista. – pediu Lisbela – Estou pedindo.

Priscila pegou o uniforme de sua mão e praticamente o jogou na mesa.

— Não vou vestir uniforme algum. – respondeu em bom tom. Os olhos de Dérick estavam apreensivos e ele sentiu vontade de intervir.

— Porque não vai vestir?

— Porque desde que comecei á trabalhar nisso fui explorada e humilhada, desde nova me sujeitaram á esse tipo de ordem. – Priscila estava bem próxima á ela – Eu prometi á mim mesma, seja classe alta, média ou baixa, não vou mais ser humilhada por ninguém.- Dérick sorriu com os ouvidos bem atentos.

— Logo após a primeira impressão descobri que ela não valia nada.- continuou Lisbela –Você não parece que veio pra trabalhar comigo.

— Eu vim… – tentou falar sendo interrompida. O café espalhava-se pelas pernas da cadeira de madeira.

— Poupe-me mocinha. – Lisbela olhou em seus olhos – Pra onde você acha que estava indo quando planejou vir pra cá? Trabalhar era sua última opção. Uma pousada de férias? Uma pensão? A casa de algum parente? Ou uma casa de recuperação pros seus problemas matrimoniais?- Os olhos de Priscila lacrimejaram. Dérick sentiu seu silêncio mas deixou acontecer. – Diga me. – Lisbela alterou sua voz repentinamente – Onde você pensa que você está Priscila?

Dérick engoliu em seco e aguardou apreensivo. Priscila a encarou com as lágrimas no fundo dos olhos. Suas mãos palpitaram. Suas pestanas se agitaram, quando seu rosto se envidraçou.

padrao


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