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Minha Doce Patroa: Negociando com Espíritos – Capítulo 17

obra escrita por
YAGO TADEU

A

ÁGUA E FOGO EM SWEETVILLAGE

Se essa dor que me possuí
Dói como o castigo dos salafrários
Mesma ferida que me inquieta
Quando ouço o som que produz seus lábios.

A

Não acreditava, não, não podia crer. Mas sim, era real! Restava-lhe por fim à uma desgraça chamada vida. O destino foi cruel como um justiceiro impiedoso.

Priscila?- Senhor Edgar abriu a porta e percebeu tudo ao vê-la ajoelhada como quem reza no chão. A furiosa levantou-se bufando de ódio.

Não chegue nunca mais… Perto de mim!- as mechas dos cabelos repicados no rosto de Priscila ainda permitiam transparecer o desgosto que sentia no momento – A não ser, que você me mate. Então me mate!

Não fale uma coisa dessas.- Edgar rebateu com os olhos amarelos molhados – Você tem que perdoar á mim e á sua mãe.- Edgar aproximou-se dela que recuou de todas as maneiras. Ele percebeu nojo no olhar. Isso o machucou.

Você matou meu filho!- gritou sem medo. As lágrimas não queria sair, pois a revolta era mais dominante e devastadora.

Foi um acidente, devia ter parado pra ajudar. Mas tinha acabado de discutir com a minha irmã. – seu camisão branco estava molhado com a garoa.

Você matou meu filho. Você matou meu filho!- Priscila berrou já que não podia feri-lo – Você matou o meu filho e eu não vou perdoar você nunca.- Edgar sentiu como uma facada – Nem em vida e nem em morte. Nunca!

Não posso fazer nada.- ele lamentou abaixando cabeça.

Os sepultados não podem fazer nada. – ela deu um sorriso provocativo e amargo. As andorinhas balançavam como nunca em suas orelhas – Mas eu ainda posso fazer, e eu vou fazer a única coisa que pode gerar prazer… Ainda em vida. – Priscila andou até a porta. Abriu-a e bateu sem mais uma palavra. Edgar abaixou a cabeça enquanto a chuva molhava tudo entrando pelos buracos no telhado. Seus cabelos curtos e louros também úmidos e desbotados. O que faria Priscila? O que faria a mulher que amava inexplicávelmente?

Onde está o vale que chove vida? Onde ele está? Ele existe? Há pouca coisa entre as duas passagens. Porque eu não posso simplesmente voltar ao útero da minha mãe e morrer lá dentro? Dentro do cobertor materno. O único cobertor quente o suficiente da existência, assim seria uma porta só. Tanto a porta de ida quanto a de volta seriam a mesma.

O caixão é uma roupa tão miserável para mim. A elegância fúnebre que os vivos pensam que os recém-mortos merecem ter e que os mortos prefeririam dispensar. A placa é o registro da morte, identificação inútil para o morto que não necessita mais disso.

Tem horas que eu chego a acreditar que a verdadeira vida é a morte, porque os mortos parecem livres e os vivos parecem presos. Porque o limite da vida é a morte e para a morte não há limite. Vida depois da morte? Vida depois da vida? Não, não, sei. Não sei.

O lago estava á sua frente. O antigo lago de Reis.

Rostos surgiram entre as árvores, nos arredores do lago. Observavam a viva. A viva á beira do lago era o centro das atenções. Uma atração. A vida era um espetáculo que muitos vivos se recusavam admirar.

Podem assistir, eu quero que vocês vejam.- Priscila gritou para eles enquanto ouvia risadas abafadas. Desde que vestira o vestido antigo de casamento e depois o uniforme sua pele tornava-se cada vez mais flácida e seus cabelos em queda constantes, além da fraqueza no corpo e as manchas repentinas na pele. Ela molhou o pé na água gelada, deu o primeiro passo – Vocês não vão ter o trabalho de tirar minha vida… eu vou me matar!- seus cabelos repicados e fracos com a queda adentraram junto do corpo no gelo das águas.

Priscila? Priscila! Priscila… Não!- o grito de desespero de Senhor Edgar ecoou ao vê-la entrar nas águas. Observou o corpo da amada afundar no lago de Reis.

Distantes deles Ted observava pasmado atrás de uma grande árvore. Segurou firme a espingarda na mão direita. Seus olhos estavam atentos á qualquer vulto. O que é esse lugar? O que são eles?

Olhou pelo retrovisor da caminhonete. Trilhas de terra vazias. Á beira da entrada de SweetVillage. O caçador lhe desejava sorte mesmo duvidando de sua teoria.

Deus me projeta.- Dérick olhou de relance para o céu. A garoa caía em câmera lenta – Deus nos proteja.

Toras de madeira e um grande vidro de álcool. Fogo era a solução. Dérick entrou em SweetVillage, cruzando a linha que delimitava o lugar. É tudo ou nada. Acelerou a caminhonete até entrar na vila. Começou pela primeira casa na saída de SweetVillage. Um alvo fácil para seu teste. Fogo! Tacou uma tora de madeira incendiando a casa. Sim, eles agonizavam. Ouviu os gritos deles. Ouviu os ardentes gritos deles. Mais uma e Fogo! Deixariam SweetVillage á força. Em poucos minutos a vila estava em chamas. Moradias derrocadas, cenário incadescente. Aquele mundo irreal estava caindo aos poucos, e caindo diante dos olhos de Dérick.

Do fogo vocês vieram, ao fogo vocês vão retornar. – Dérick sorriu apreensivo para as chamas. Seu sorriso refletia a emoção pela descoberta da salvação.

Deu uma rápida volta com a caminhonete vermelha. Saiu da vila antes que pudessem o ver. Viam alguns se esfumaçarem como faíscas flamejantes. Seguiu para a trilha de terra e em seguida virou na mata. Uma casa? Uma cabana? Dérick avistou uma moradia em meio á mata. Ouviu gritos vindos da área do lago, desconfiado iria incendiar a tora para jogar na cabana. Ignorou os gritos e seu olhar se fixou ao enxergar o brilho da andorinha caída na beira da velha porta de madeira. Desistiu de queimá-la por hora.

Priscila?- Dérick pegou a andorinha brilhante. Priscila esteve aqui. Ele abriu a porta da cabana. As garrafas de vidro quebradas. Cacos sobre os manuscritos chamaram sua atenção. Dérick estava perto da verdade, quando abaixou-se naquele mundo obscuro aprofundando-se nas linhas de letras de mão caprichadas e negras como as revelações.

Dérick os leu em pé, abaixou-se e pegou os papéis. Priscila…? Senhor Edgar…o barqueiro? Amor? Amor?! Os olhos de Dérick fixaram-se na verdade, estava diante de uma bomba. Mateus? Mateus? Edgar? Priscila? Mateus? Priscila!- Leu as linhas, leu os versos, leu os segredos antes imersos.

Amaldiçoada! Eu te odeio! – rasgou os manuscritos em mil pedaços ferozmente como um cão maltratado. Ajoelhou-se sobre os cacos. Aquela cabana seria destruída em poucos minutos. Estava com nojo do dia em que conheceu Priscila Telles.

Risadas insuportáveis a cercavam. O grito de “Junte-se a nós!” “Junte-se a nós!” “Junte se a nós!” “Junte se a Nós!” Ouvia numa sintonia como um coral mal-assombrado.

Eu vou ser uma de vocês agora. Vou ser uma maldita. – a lágrima dolorida escorreu pelos olhos agora rígidos. Era uma outra Priscila, nada do que antes era, ou talvez sempre foi amarga e má, seus olhos severos e impiedosos talvez estivessem escondidos dentro de falsos olhos. Não tinha mais nada de doce, a felicidade já não morava nela. Já não era uma mocinha aventureira, talvez nunca fora uma mocinha aventureira. Talvez fosse ruim e fria, apenas ruim e fria sem pretextos ou contextos.

Priscila mergulhou de costas na água, mergulhou na morte com a confiança e determinação para partir. Reconhecia… Era o fim do final, os créditos do fim.

Seja bem vinda morte. Seja bem vinda sobre a vida que finda, sou forte ainda pra que domine, domine minha alma por inteira… Domine esse corpo já morto que foi instrumento de medo e sofrimento. O mover das águas em câmera lenta. Já não se ouvia som, já não se ouvia um ruído, apenas o silêncio tranquilo de segundos perto do grande encontro, o encontro com a morte. Já via uma luz mentalmente, o sereno silêncio das sombras. Estava próxima de águas, mas não de águas desse lago, de um rio maior com correnteza e corredeiras. Estou morta, acabou? Acabou o sofrimento? Olhou para o céu. Este não era o céu de SweetVillage, era um céu conhecido. Já estivera naquele lugar. Abaixou-se para tocar as águas, um rio de interior e um aroma de terra. Tocava a água e estava tentada para entrar no rio. Sentiu a melhor das sensações quando as duas pequenas mãos tapou seus olhos.

Adivinha quem é. – Priscila ouviu a esperta voz e virou-se no mesmo instante. A imagem embasada como um sonho era vivaz como a realidade.

Mateus… – Ela não acreditava. O garoto de cabelos loiros e lisos estava bem á sua frente. Seus olhos pequenos e brilhantes, suas mãos educadamente para trás e o cachecol como o irmão mais novo, sempre o cachecol entrelaçando a branca pele como um comportado boneco de neve.

Mãe… Eu disse pra você adivinhar, você tem mania de estragar a brincadeira. – sorriu o lindo sorriso. Sorriu o menino feliz.

Mateus!- ela abraçou o filho com toda força que podia. O apertou como se fosse de pelúcia. Era tão real quanto a chuva inesperada da madrugada.

Mãe… Eu disse que voltava antes de amanhecer, não disse?- o sorriso tão pequeno quanto os olhos, a expressão encantadoramente doce.

Eu te amo. Eu te amo. Eu te amo. – Priscila disse três vezes antes que ele fosse.

Mãe você não precisa dizer que me ama, eu ouvi todas as suas orações, se eu fosse contar quantas vezes você disse eu te amo, eu precisaria da metade das pedras do paraíso.- ele limpou suas lágrimas – Você está chorando?- o vento sacudia suas mechas e seu terno branco – Mas porque chora? É cedo ainda, você precisa voltar, diga á eles toda a verdade.- ele a deixou de pé sobre a relva – Volte agora mesmo.- ela não conseguia dizer uma só palavra, ouvia os filhos hipnotizada. Ele colocou a mão dela em seu coração. Ele batia, ele batia suavemente como passos minuciosos.

Meu coração bate, ele bate você sabia? Na verdade eu já previa.- disse isso e sua imagem se apagou como se o vento a levasse.

Priscila se ergueu saindo lentamente do lago, voltando á superfície como quem renasce. Ela tossia descontroladamente. Encharcada olhou para o mundo ao seu redor. As faces sombrias a encaravam descontentes quando ela correu batendo o pé como uma jovem e espalhando água, saiu do lago veloz.

Priscila!- Senhor Edgar estendeu a mão para alcançá-la mas ela passou por ele, desvencilhou-se de todos á caminho da trilha. Pelo menos desistiu de se matar. Passou pelo celeiro e pelo parque, marcando o caminho com água que saíam de suas narinas, que saíam de seus olhos, de sua boca, de seu corpo inteiro de volta á vida. Havia algo dentro de seu olhar, disposta á ser a mais viva de SweetVillage.

Lágrimas de mãe. O cadáver choro de Helenita juntava as dores da vida com o fato de não ter rumo para a própria alma. As gotas pingavam no chão, ruídos como de uma torneira deixada aberta. Sinistra vida. Sinistra. Que entre a morte benquista. A minha alma conquista. Lembrou-se do seu poema preferido que escutara o amigo barqueiro ler na cabana. Helenita também morava em uma cabana em meio á mata, longe da vila como o barqueiro. Distanciou-se dos Villages.

Sinistra vida, sinistra. Que entre a sombra benquista. A minha alma conquista.- Helenita fechava e abria os olhos dentro da pequena casa de teto baixo. Sentada numa cadeira de madeira quase se rompendo, chorava a revolta da filha. Como esperou por aquele momento para ela reagir de tal maneira. Helenita fechou o sobretudo velho e marrom. Olhou para as paredes putreficadas. Manchas gigantescas formavam rostos perto da cama. Levantou da cadeira que rangeu como sempre quase quebrando. Se voltou para a porta ao ouvir o chacoalhar da maçaneta. Era sua assassina.

Helenita! Helenita!- a porta foi esmurrada pela voz feminina – Vamos abra, Helenita!

Helenita abriu a porta antes que Lisbela entrasse por outras maneiras.

Onde está Priscila?- Lisbela olhou até para o teto, fazendo uma varredura no local. Carregava um lampião. Ao mesmo tempo que o fogo era o único modo de feri-la, Lisbela diferente de outros Villages dispensava luzes e lanternas preferindo o inimigo. Já que por um lado o fogo a livrara de ter que se casar em vida com o cruel Valentino. O fogo tinha uma relação de amor e ódio com Lisbela.

Minha filha não está aqui.- Helenita puxou a cadeira e sentou novamente com desdém á Lisbela – Saia Lisbela.

Onde está Priscila? Responda-me maldita.- Lisbela olhou atrás das portas, mas nada.

Não sei onde minha filha está!- Helenita praticamente gritou socando a mesa – Se você encostar um dedo nela…

Eu mando nessa vila, minha família mandava nessa vila. Não há ninguém que possa me impedir de fazer o que eu quero.- ela deu um sorriso de poder – Muito menos uma rélis morta.

Lisbela, você também está… Morta.- Helenita não temia olhar em seus olhos, mas temia que ela descontasse a raiva de não tê-la sobre controle em sua filha – Você e os outros insistem em fingir que o tempo parou e o tempo não parou, vocês não estão em 1942, vocês ficaram presos no passado. Vocês todos estão no esquecimento.- Lisbela olhou para o piso de cera, sentiu a verdade cuspida em sua cara. 1942: Eles estacionaram no tempo.

Então porque não vai embora? Então porque não arrisca sair de SweetVillage, Helenita?- Lisbela provocou.

Assim que Priscila se salvar eu me entrego ao destino, seja qual ele for.

Priscila está á um passo da morte. Não queira me confrontar Helenita, não queira impedir o inevitável. Nem ouse interferir, senão muita gente vai passar da morte pra pior.- Lisbela deu as costas para ela.

Helenita jogou os copos de barro da mesa espatifando um a um próximos do pé de Lisbela.

Sai da minha casa! Perturbada! Monstro!- a porta bateu.

Ela colocou as mãos na cabeça e as lágrimas desciam incontroláveis. A maldita iria lhe ferir tirando a vida da filha? Até mesmo depois de morta sofreria?

Ela vagava desconsolada entre as árvores. Os cabelos desarrumados, destruída arrastava-se passando pelo parque. Mas onde estaria indo? Para onde rastejava? Érika agachou-se sentando na grama ao redor do celeiro. Encostou na porta do celeiro e, ali pôde lamentar com alguns minutos de paz, a morte de sua mãe Maristela. Sua vida transformou-se em ruínas em poucas horas, desde que chegou á SweetVillage tudo desmoronou em pouco tempo. Fugiria? Procuraria o irmão Dérick? O que faria? Visualizou o sol aberto no horizonte, brilhava no úmido céu de SweetVillage. Encolheu-se quando ouviu ruídos nos arbustos das árvores á frente do celeiro. Eles vão me pegar! Eles vão me pegar! Diminuiu em busca de se esconder. O arbusto mexeu. Folhas se espalharam, quando algo saiu de lá. Veio correndo velozmente, ágil e pequeno chegou até ela. O esquilo paralisado balançou a cauda fitando as reações de Érika.

Érika estendeu a mão branca para tocá-lo. Sentiu-se menos apreensiva, tocava o esquilo quando ele correu rapidamente de volta á mata. Érika lamentou no olhar, quando sentiu um toque no seu braço. O terror voltou.

Andando pela mata menina? Não tem medo de lobo mau? – Sidney Jornaleiro fitou seus olhos com cobiça. Érika tentou escapar sem sucesso. Ele apertava seu braço com uma força que jamais escaparia.

Largue a viva Sidney Jornaleiro!- Velho Stephen surgiu com os olhos furiosos – Largue a viva!

Essa é minha Stephen! Já não basta Lisbela sapatão.- Sidney falou e Érika gritou. Com brutalidade ele tapou sua boca. Sua mão no mesmo instante tornou-se sombras negras – Se você quiser ela, creio que vamos ter que conversar.

Cobiçador barato.- o velho de barbas negras xingou e seus podres dentes de ouro brilharam.

Não tenho culpa de ser um grande cobiçador desde que nasci.- Sidney deu uma risada de escada. Seu corpo transformou-se em sombras quando ele empurrou Érika para longe. Ela escutou os sons cortantes como sussurro dos espíritos, pareciam facas atrofiando os seus ouvidos com ganidos insuportáveis. Érika engatinhou enquanto via luzes negras explodindo á sua volta. Arrastou as mãos na terra em busca de entrar na mata e fugir.

Não…não!- deu o último grito quando sentiu os dedos segurarem seu pé. Não houve tempo para mais gritos, arrastada na terra as marcas de suas unhas feriu o solo. Foi arremessada por uma força feroz e quebrou parte dos ossos com a pancada na porta do celeiro. Sangue escorria até os lábios, os olhos ainda piscavam por vários momentos. Agora ensurdecia-se como silêncio insuportável da morte. Tentou mexer o pescoço, quando foi arrastada novamente. Dentro dos timbres atrofiados, suas roupas foram despedaçadas e não restou pedaços dela para cobrir uma cova decente.

Ted corria desconfiado entre as árvores. Sempre com a espingarda em mãos, a mirava de instante em instante para os arbustos barulhentos. Sim… estavam todos mortos. O que eu li é real. Um vulto passou ao seu lado sumindo entre as árvores. Maristela? Parecia muito Maristela. Correu pela trilha, olhou para a igreja cinzenta e voltou a olhar para a vila. Mas… o que é isso? O s moradores sussurravam furiosos, carregando baldes de água e amenizando as altas chamas vermelhas que carbonizavam as casas. Um deles olhou para ele ao longe. Seu rosto transformou-se em sombras, e por impulso Ted correu até a igreja carregando a espingarda consigo. Dando passos para trás mirava com as mãos tremendo a espingarda para a entrada da igreja. Viu os rostos e os vapores negros de suas bocas marcarem as janelas antigas de vidro do templo.

Desgraçados… eu vou atirar!- esbravejou mirando para as faces nas janelas. Mas…porque eles não entram? Ah… eu sei porque não entram. Ao menos isso fazia sentido naquele lugar. Era mesmo verdade.

Respirou mais aliviado ao ver a cabisbaixa Érika entrar na igreja.

Érika?- Ted correu até ela e deu um forte abraço sentindo a gélida pele da esposa – Precisamos fugir, precisamos fugir meu amor.- ele a largou após o abraço e seu olhar se petrificou. Estava diante da face das sombras, ouviu os rangidos sair de seus lábios. Mas nada falava, nada conseguia falar.

Érika?!- Ted se levantou e Érika o puxou pela mão trazendo-o para junto de seu corpo. O olhar de ira dela cingiu com os olhos de terror de Ted. Seu rosto tremia colado ao rosto dele e diante da fraqueza pela precoce morte ele foi mais veloz e correu. Fugiu em meio aos moradores, não soube como conseguiu entrar na trilha, em pânico foi mais veloz do que supunha. Atentos ao fogo dispensaram persegui-lo por hora. Ted deu sorte.

A porta da casa foi aberta. Encharcada Priscila molhou o tapete. Notou o sangue pela casa. Qual seria o próximo passo? Voltar á tentar contornar as coisas? Enfrentar e pagar pra ver? Tentar fugir novamente? O destino de Priscila era um quebra-cabeça de mil peças, poucas peças encaixadas e derradeiros acréscimos para pensar. O fato é que Priscila nunca mais pediria para morrer. Ela prometeu em pensamento. Seus pés descalços sem sandálias sujaram-se com o sangue no corredor. Olhou para cada foto no corredor. Lisbela com os filhos. Lisbela com o marido que nunca vira. Lisbela á colher maçãs e trabalhando na roça para sobreviver. Todas em preto e branco, emoldurando a vida da senhora Reis, filha do homem que fundou Sweetvillage. Abriu a porta do quarto dos filhos de Lisbela, ele estava lá. Priscila se surpreendeu. Chorava de costas vestindo uma jaqueta de couro antiga, já não brilhava tanto quanto antigamente. Mas ele pôde recordar, quando beijaram-se pela primeira vez ele usava aquela jaqueta. Era a mesma jaqueta.

Dérick?- Priscila indagou quando ele limpou as lágrimas e deu um leve sorriso. Uma leve e fingida alegria nos lábios.

Dérick não. E nem Dérick Rafael. Rafa, você me chamava de Rafa quando começamos á namorar. Achei essa jaqueta nas malas da minha mãe, sabia que minha mãe está morta e minha irmã também pode estar?- as lágrimas caíram no chão e ele disfarçou. Limpou com as costas da mão esquerda enquanto na direita segurava uma xícara. Priscila sentiu pena – Olha essa aliança, achei nos arredores da casa. Lembra que eu a joguei pela janela naquela briga após o jantar?- mostrou o dedo com a aliança de vidro. Pensava ser sua aliança, mas era a aliança que Lisbela também jogara pela janela.

O que vamos fazer Dérick?- ela queria uma luz.

Fique calma, nós não temos nada á fazer, a não ser recordar os melhores tempos.- Dérick olhou pra cima como se avistasse um magnífico futuro e sorriu. Seu estranho olhar a deixou intrigada – Lembra quando dançamos na festa de outono em plena praça de Zellwéger?- ele indagou e desconfiada ela balançou a cabeça com um fraco sorriso. Ele segurou a cabeça dela com as duas mãos. Seu sorriso fez Priscila lembrar de sua fisionomia mais jovem.

O que vamos fazer?- Priscila notou a xícara de porcelana em sua mão. Balançava como conhaque. O giro das mãos gerava expectativa.

Nós vamos nos abraçar como da primeira vez.- ele abriu os braços e ela o abraçou mesmo molhada – Já nós beijamos uma vez quando estava molhada… lembra?- aquela pergunta foi uma chuva de lembranças na mente dela.

Lembro.- ela sentiu o calor de seu corpo. O calor da vida. O abraçou com vontade. Ele tirou a andorinha do bolso da calça social e colocou com carinho na orelha dela. Priscila mal notou – Encontrei na mata.- ela forçou o maior dos sorrisos – Você nadou um rio inteiro e quando saiu dele se deparou comigo no fim, e então eu disse…

— “Como você está bonita, como você é bonita”- ela sorriu feliz ao lembrar.

Você respondeu…

— “Eu estou bonita, ou eu sou bonita?”- no mesmo momento ela fechou os olhos se entregando ao amor passado.

Minha resposta foi um beijo…- ela o esperou vir dominada pelo calor do momento. Com os lábios abertos aguardou de olhos fechados.

Me chama de Rafa…- desestabilizada Priscila cedeu ao marido.

Rafa…

Dérick aproximou seus lábios dos dela, a fúria estava em si. Cuspiu com ódio dentro de sua boca, cuspiu mais duas vezes como quem cospe em um animal. Priscila abriu os olhos rapidamente limpando os lábios e o rosto. Dérick jogou o líquido da xícara em seu rosto. O sangue espalhou-se por todo o seu rosto sujando o pescoço e boa parte do uniforme.

Vagabunda!- ele xingou e ela o fitava chocada – Você me traiu Priscila com um encosto?! Você me traiu Priscila?!- gritou como um estrondo que tremeu a casa. A expressão dela começou a estremecer quando percebeu que ele havia descoberto – Você não tem escrúpulos, maldita!

Dérick…- ela tentou dizer algo quando ele arremessou a xícara que estraçalhou no guarda-roupa.

Você está pagando um castigo de Deus. – ele apontou para o céu com certeza – Você ficou… Isso me dá nojo ao falar,você ficou com um encosto, o mesmo assassino do seu filho! Por culpa sua que abriu a janela e permitiu que ele saísse. Sua culpa! – ele empurrou ela com as duas mãos que caiu no chão de costas. Gemeu batendo a coluna.

Foi um acidente! Edgar o atropelou por que estava escuro e talvez…

Cala a boca! Está o defendendo?! Você está o defendendo?!- exclamou quando ela colocou a mão na boca voltando ao pesadelo que era sua vida. Iria aguentar ser humilhada de tal maneira? Iria suportar quieta ou iria explodir? Iria explodir.

Priscila levantou-se apoiando a mão no guarda-roupa. Dérick a encarava com fúria. Seu casamento desde muito tempo era uma guerra declarada.

Você é muito mais qualquer do que eu pensava. Uma infame! Traidora!

E você não foi o homem da minha vida Dérick, você é só mais um cretino frio que eu conheci. Só mais um canalha. – Dérick riu incrédulo quando ela disse isso – E se você quer saber… Eu não fui fiel á você.

Dérick fixou os olhos nela agora mais aturdidos. Ele também era uma bomba relógio muito perto de explodir.

O que você está dizendo Priscila? O que você está dizendo!?

Quando tivemos nossa primeira briga de casamento, logo nos primeiros meses. Eu fiquei com alguém por uma semana, alguém que me cortejava muito e que semanas depois descobriria ser o maior dos canalhas. Por isso eu tenho certeza, eu tenho certeza… Certeza absoluta que Mateus não era seu filho. – Dérick sentiu um forte golpe lhe atingir.

O quê?- parecia ter perdido o chão, parecia estar em outra dimensão – Mateus não era meu filho? Mateus não é meu filho!? Mateus não é meu filho desgraçada?! Ele não é ?!- ele apertou seus dois braços a chacoalhando como um fantoche – Eu vou acabar com você e sua alma vai apodrecer nesse lugar.- ele a segurou com brutalidade pelo queixo. Os dois olhares incendiados – De quem Mateus é filho infame? De quem!? De quem!?

Ele não era, não é e nunca foi seu filho! E eu não era, não sou e nunca fui fiel á você!- ela gritou diante do rosto dele. Semblantes em fúria.

Então quem é o pai de Mateus? Quem ?! Quem é?! Me diz!

Mateus é filho do Ted!- ela se libertou dos explosivos e incendiou outros – Mateus é filho do Ted! Filho do Ted, outro cretino como você!

Dérick soltou seu rosto. Deu dois passos para trás. Eletrizado parecia que em segundos iria enfartar.

Eu vou acabar com você.- sua expressão tremia e o mundo em sua volta parecia um terremoto – Eu vou acabar com você Priscila, eu vou acabar com você.- ele deu dois passos para frente e Priscila se afastou após a coragem repentina – Eu- vou- acabar- com – você! Maldita!- Dérick lançou um tapa. O rosto de Priscila virava quando a fúria de Dérick se envidraçou.

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POSTADO POR

Mateus Yago

Mateus Yago

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