O assassino dos meus sonhos – Episódio 03

“Uma coisa é certa: não existem serial killers que tenham vindo de um lar saudável e feliz. Todos eles são produtos de ambientes nitidamente disfuncionais”

FADE IN BLACK:

CARACTERES EM SOBREPOSIÇÃO: 2005

EXT. PRAÇA DA CIDADE – FIM DE TARDE

Um grupo de adolescentes estão reunidos na praça da cidade próximo à pista de skate.
Um adolescente de cabelos compridos até à altura dos ombros e usando camiseta larga e bermuda faz uma manobra na pista e se desequilibra. Seu skate rola até perto do grupo onde estão os outros jovens.

JOVEM 1
Chega aí Jony!

O jovem pega o skate e o pára na roda de amigos.
O adolescente de cabelos compridos é Jony Stela, com 15 anos de idade. Ele aproxima-se do grupo. Ao chegar perto dos demais ele nota que os amigos estão com cigarro de maconha.

JOVEM 2 (oferecendo um cigarro para Jony)
Toma aí Jony!

Jony, timidamente, recusa tornando-se chacota dos demais.

JOVEM 2 (cont.)
Ahhh, o filhinho da mamãe vai recusar dar uma pitada!

JOVEM 3
Tá com medinho do papai “tira” descobrir.

Todos dão risadas. Jony pisa no skate o erguendo e o segura debaixo dos braços.

JONY
Me dá esta merda aqui. Já fumei dentro do quarto, porque vou recusar aqui.

Jony Stela pega o cigarro de maconha e o leva à boca quando SIRENES POLICIAIS são OUVIDAS passando na rua em frente à praça. Todos saem CORRENDO para se esconder.
Jony APAGA o “beque” e o esconde no bolso da bermuda e sai correndo para trás de uma árvore. A viatura policial passa lentamente pela rua com o policial no banco do caroneiro olhando atentamente em direção à praça.

INT. QUARTO DE JONY – NOITE

O quarto antes cheio de brinquedos e com o guarda roupa envelopado com figuras do Batman, agora dá lugar a pôsteres de bandas pelas paredes e um guarda roupa todo colado com personagens de jogos de videogame.
Jony Stela está sentado em sua cama jogando algum jogo de tiro no videogame enquanto o SOM ALTO de seu rádio toca um rock’roll pesado.
CLOSE na TELA da televisão onde seu personagem leva um tiro e as palavras “GAME OVER” aparecem.

JONY
Droga!

Jony joga o controle na cama. Ele mexe no bolso da bermuda e encontra o baseado que escondeu na praça.
Jony levanta. Verifica pela janela que o carro do pai não está em frente à casa. Fecha a cortina.
Jony ABRE a gaveta do seu criado-mudo, revira entre vários papéis e encontra um isqueiro.
Jony senta-se na cama com o baseado numa mão e o isqueiro na outra. Acende o cigarro e o fuma. Sua expressão é de alívio. Ele SORRI para si mesmo. Dá várias pitadas antes de se deitar na sua cama.
O SOM ALTO do ROCK”ROLL continua a tocar.

CORTA PARA:

INT. DEPARTAMENTO DA DELEGACIA – DIA

Todos os policiais estão concentrados em seus serviços quando Jony Stela sai da sala da Dra. Karen Telles, com raiva, batendo a porta.
SURGEM OS CARACTERES: DIAS ATUAIS

COLEGA 1
Jony? Que houve?

COLEGA
Calma parceiro! Que aconteceu?

Jony passa pela sua mesa, pega uma pasta e passa reto sem dar explicação para ninguém. O delegado Walter observa pela sua janela de vidro enquanto saboreia uma xícara de café.
Todos se entreolham ficando sem entender a atitude de Jony, que vai em direção à porta de saída.

EXT. EM FRENTE À DELEGACIA – DIA

Jony desce as escadas que levam até a rua e ENTRA em um carro preto que está estacionado.

INT. CARRO PRETO – DIA

Jony põe a chave na ignição e dá a partida sem cuidar o trânsito.
Uma camionete BUZINA quando passa, pois quase colide com o carro que Jony está. O motorista põe a cabeça para fora.

MOTORISTA
Barbeiro! Cuida por onde anda!

Jony FREIA BRUSCAMENTE. BATE com as mãos no volante com raiva. ESBRAVEJA.

JONY
Merda!

CORTA PARA:

INT. QUARTO DE JONY – DIA

Sobre a cama bagunçada de Jony um recibo de uma Locadora de Carros. Jony se joga na cama EXAUSTO.
Sobre o criado-mudo há uma garrafa de whisky pela metade e um copo vazio do lado. Jony ajeita a cabeça no travesseiro e pega o controle remoto da tv que está sob o mesmo. TROCA constantemente de canal procurando algo para assistir.
Em algum canal qualquer de notícias algo desperta sua atenção e ele senta-se na cama.
CLOSE na repórter na televisão, onde se vê o marcador de VOLUME aumentando. Ela está em frente à uma capela, onde de um lado um grupo GRANDE de manifestantes faz barulho com cartazes em mãos e no outro lado um grupo PEQUENO de manifestantes têm suas vozes abafadas pelos GRITOS dos demais.

REPÓRTER
Estamos aqui em frente às Capelas Cristo Rei, onde está sendo velado o “suposto” assassino em série que vitimou sete pessoas nos últimos meses na região.

ATRAVÉS DA TELA se vê a repórter caminhar em direção ao grande grupo de manifestantes.

REPÓRTER
Aqui temos um grupo de pessoas revoltadas com o desfecho que esta história teve. Vamos OUVIR a opinião deste senhor.

A repórter estende o microfone para um senhor no meio da multidão. Ele segura um cartaz com os dizeres: “Polícia maldita! Onde está o direito à defesa? Onde estão os direitos humanos?”

REPÓRTER (cont.)
Senhor, qual a sua opinião sobre o desfecho desta história?

SENHOR (voz alterada)
Todo cidadão tem o direito de poder se defender. Quem nos garante que este é mesmo o assassino em série que assombrava a região? E se os crimes continuaram acontecendo? A culpa é da polícia, que não conseguiu prender e interrogar este homem antes que esta tragédia acontecesse…

A repórter afasta o microfone quando o homem se vira e incentiva a multidão à ENTOAR GRITOS contra a polícia local.
O marcador de volume da televisão diminui.

JONY
Maldita polícia! Só o que faltava este povo idiota defendendo bandido!

Jony desliga a televisão. Joga o controle sobre a cama e se deita.

FADE OUT BLACK:

INT. BANHEIRO – NOITE

A mão de Jony POUSA no interruptor da luz desligando-a.

INT. QUARTO DE JONY – NOITE

CLOSE na garrafa de whisky agora vazia.
Jony aproxima-se do roupeiro enrolado em uma toalha de banho e com os cabelos molhados. De frente para o roupeiro ele veste uma camiseta qualquer, uma calça jeans, põe um chinelo que está diante da cama e SAI do quarto deixando a luz acesa.

CORTA PARA:

EXT. RUA – NOITE

Jony PERAMBULA por uma rua escura e quase deserta. Ele carrega uma outra garrafa de whisky que vai tomando em grandes goladas enquanto alguns carros passam BUZINANDO por ele.
Jony senta-se na calçada na entrada de um beco sem saída. ASSUSTA-SE com o MIADO de um gato que pula de uma lixeira. O gato aproxima-se de Jony e começa à se esfregar em suas pernas demonstrando algum afeto ou simplesmente em busca de algo para comer.

JONY (acariciando o gato)
Pelo menos você me entende. Não vai me julgar como todos fazem!

INT. CARRO DE KAREN TELLES – NOITE

A doutora Karen Telles dirige pela rua escura após um dia cansativo de trabalho. Ela está com cara de cansada. Boceja. Esfrega os olhos. AUMENTA O VOLUME da música no rádio.

EXT. RUA – NOITE

OUVE-SE o SOM da MÚSICA ALTA do rádio do carro da doutora e, em seguida, o seu carro aproximando-se pela mesma rua que Jony perambulava.
O carro passa alguns metros pelo beco sem saída voltando logo em seguida de ré e parando diante de Jony sentado na beira da calçada.
Karen Telles desce do carro, ESPANTADA com o estado do colega. O gato SE ASSUSTA e sai correndo.
Karen Telles se aproxima e agacha-se perto de Jony que está SONOLENTO, quase apagando. Ele deixa a garrafa de whisky CAIR espatifando-se no chão.
Um carro com SOM ALTO passa em alta velocidade e os jovens GRITAM com as cabeças para fora.

CORTA PARA:

INT. APARTAMENTO DE JONY – NOITE

O apartamento está iluminado apenas por um facho de luz proveniente da luz do quarto que Jony deixou acesa ao sair.
A porta de entrada é aberta e Jony aparece em mal estado amparado por Karen, que com uma mão segura ele e com a outra segura as chaves.
Eles entram. Karen fecha a porta empurrando com o pé e conduz Jony em direção da luz do seu quarto.

INT. QUARTO DE JONY – NOITE

Karen deita Jony na cama e senta-se na beirada ao seu lado.

KAREN
Isso não está certo Jony!

Jony parece não dar muita atenção para Karen.

KAREN (cont.)
Você só está se prejudicando agindo desta maneira. Onde já se viu sair perambulando pelas ruas como um mendigo, e ainda por cima bebendo? Você nunca foi disto meu amigo!

Ela repara que Jony está quase pegando no sono. Ela passa a mão tirando o cabelo da testa de Jony.

KAREN
Você precisa descansar. Toma um banho. Dorme.

Karen inclina-se e dá um beijo no rosto de Jony, que abre os olhos lhe encarando.

JONY
Você é tão linda!

Karen se recompõe sorrindo timidamente.

KAREN
E você está bêbado! Agora trate de ir pro banho e depois descansar.

Karen levanta-se. Ajeita os cabelos em frente ao espelho do roupeiro que está com as portas entre abertas. Dá uma última olhada em Jony, que já encontra-se com os olhos quase fechados e sai ajeitando sua blusa.

CORTA PARA:

INT. BANHEIRO – NOITE

ATRAVÉS do espelho do banheiro se vê Jony sem camisa escorado com ambas as mãos na pia.
Jony ABRE o armário do espelho revelando novamente os diversos frascos de remédios. Jony pega um frasco, abre e vira três comprimidos sobre a outra mão. Devolve o frasco para o armário, onde se lê: “TOMAR 1
COMPRIMIDO POR NOITE”.
O armário é fechado e, ATRAVÉS do espelho, se vê Jony pôr os três comprimidos de uma vez na boca.

CORTA PARA:

INT. QUARTO DE KAREN – NOITE

Karen, com uma escova de cabelo em mãos e usando uma camisola preta que deixa suas pernas à mostra, aproxima-se da cama e se senta escovando os cabelos calmamente por alguns segundos.
Karen larga a escova de cabelos na cama e pega o seu diário que está sobre o travesseiro. Ela tira uma caneta do espiral, abre em uma página em branco e começa à escrever.

KAREN (em off)
“Hoje o dia foi bastante conturbado. Senti um aperto no peito desde que Walter me chamou na sala dele. Eu sabia que algo bom não seria…nunca é fácil ter que afastar um policial do seu trabalho. O tirar das ruas, por mais problemática que esteja sua situação, é sempre algo que vai lhe machucar. É como tirar a mãe de um recém nascido. A criança vai sofrer. E os policiais sofrem também. Jony está sofrendo. Eu vi isso. E eu me sinto um pouco culpada por isso…”

Karen pára de escrever. Fecha o diário. Fica imóvel olhando para o nada.
OUVE-SE uma MÚSICA suave tocando baixinho.

CORTA PARA:

INT. QUARTO DE JONY – NOITE

Jony está deitado em sua cama, sem camisa e de calça jeans. Enfim, conseguiu pegar no sono após três comprimidos.

EXT. PRAÇA – NOITE

A praça de Nova Vicenza do Sul é um lugar bonito, com muitas árvores ao redor. As luminárias no estilo barroco dividem a iluminação com a luz do luar. É uma noite fria e bonita.
Jony está sentado em um banco, cabisbaixo e com as mãos cruzadas sobre as pernas.

Um HOMEM (+-40 anos), usando um sobretudo preto senta ao seu lado. Jony nem desvia o olhar para ver
quem é.

HOMEM
Sim. Eu posso dizer que me arrependo de tudo o que fiz…mas será que agora vale a pena todo este arrependimento? Será que existe este Deus que perdoa? Minha vida já se foi…eu não sei ao certo o que me levava à matar. Eu perdia a consciência e só me dava conta do que havia acontecido depois que estava com a mão direita daquela vítima ensanguentada…

O homem dá uma GARGALHADA ASSUSTADORA. Mas nada desperta a atenção de Jony que permanece imóvel no banco.

HOMEM (cont.)
…e eu enviava aquela mão para a família da vítima. E eu queria ser uma mosquinha pra ver a reação dos familiares quando abriam aquela caixinha… Jony? Sabia que vozes me mandavam matar? Mas eu vou te mostrar onde estão cada um dos corpos. Sim, eu os escondi. E agora me arrependi. E eu vou te ajudar.

CORTA PARA:

INT. QUARTO DE JONY – NOITE

Jony, deitado em sua cama, ARREGALA os olhos.

FADE OUT:

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padrao


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