O Dia da Faxina – Capítulo 7

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Meses se passaram, mas a ansiedade não diminuía. Atílio acordava todos os dias com a expectativa de que o complexo carcerário já estivesse no fundo de uma cratera. Apesar de mal se aguentar, sabia esconder muito bem o desejo de destruição.

Sempre que só, especialmente em casa, assumia uma segunda personalidade, tão forte, a ponto de confrontar e suplantar a pequena porção lúcida. Vez ou outra delirava, sonhos e pesadelos que o faziam perder o parâmetro da realidade.

“Por quê? É crime matar quem não tem mais jeito? Muito pelo contrário, é um favor que se faz à sociedade. Aliás, todo mundo mata. Mata-se para viver ou simplesmente para se divertir. Matar é humano. Mas que se mate por um propósito. Até por religião se mata! O inconcebível é tirar a vida de quem se ama. Isso é imperdoável. Nem Deus deveria fazer uma coisa dessas. O problema é que Ele não está nem aí. Mata mesmo. Ou será que usa alguém para fazê-lo? Se sim, eu poderia ser um instrumento Dele. Quem sabe, às vezes, Ele usa alguém como assistente… Alguém precisa fazer o serviço sujo.”

Tais pensamentos fluíam incessantemente. Cenas da morte de Míriam não lhe saíam da cabeça. O coração não se aquietava. Todo e qualquer caso de assassinato fazia brotar nele uma revolta quase incontrolável. Corrosiva como ácido. Procurava, então, isolar-se. E na reclusão, conjecturava em voz alta:

“Os que matam para proteger os outros são cobertos de honrarias. Acredito, sem dúvidas, de que serei muito respeitado. Poderei até receber títulos importantes. Eliminar a vida de quem não presta é um serviço à humanidade. Deveria ganhar o prêmio Nobel por isso”

Um dia, enquanto pensava e as emoções se exaltavam, Atílio entrou numa espécie de crise de ansiedade, e delirou. Bem diante de seus olhos, um cenário surgiu. Parecia um teatro. Abandonado e escuro, somente uma fraca lamparina iluminava o palco. Atílio olhou para um lado, e não viu ninguém sentado ao longo da fileira de cadeiras onde se encontrava. O mesmo ao olhar para o outro lado. Ninguém à frente também. Contudo, sentiu uma presença atrás dele. Receou olhar. Um arrepio percorreu-lhe o corpo. Mas o instinto de autopreservação venceu o medo. Ao virar-se de súbito, deu de cara com Míriam. Estava machucada. Ele se levantou, segurou-a pelos ombros e disse em voz alta e ríspida:

– Onde ele está? Que desgraçado fez isso com você? Quem a trouxe aqui? – Nenhuma resposta. Ela ergueu a mão direita e ainda com o olhar fixado em outra realidade disse:

– Minha cabeça dói. Quero ser livre.

Nesse instante, Atílio notou que as mãos da esposa eram feitas de uma bruma muito sutil. E dissolveu-se no ar. Atílio voltou a si, com a ideia fixa de que Míriam sofria, pois nada havia acontecido até então. Ela, assim como ele, clamava por vingança. Contudo, não havia outra coisa a fazer senão esperar.

E desta forma, a vida de Atílio seguia: De casa para o trabalho, e vice-versa. E cada vez menos relacionava-se com as pessoas. Contudo, os delírios tornaram-se recorrentes.

Certo dia, ao ir para casa a pé, Atílio encontrou Vinícius:

– Olha quem eu tenho o prazer de encontrar! – Disse Vinícius, cheio de boas vindas inapropriadas e de braços abertos para piorar. Atílio não esboçou sequer meio sorriso e permaneceu com as mãos nos bolsos:

– Ah, é você. – Foi o máximo que sua boca conseguiu articular.

– Mesmo que não tenha perguntado digo que estou bem. Bastante atarefado. Esta cidade…

– Imagino que esteja bastante ocupado mesmo. A bandidagem prolifera que nem ratos, não é mesmo?

– É verdade. Quer um café?

– Com um meneio positivo, quase imperceptível, concordou. Dirigiram-se a um café próximo.

– Ô, amigo, um café pra nós dois aqui.

– O atendente, já familiarizado com os pedidos do coronel, incluiu a costumeira torta de limão.Traz uma para o meu amigo também. – Completou Vinícius.

– Não, não. Obrigado. Só o café.

– Só o café, então!

Houve uma pequena latência na conversa entre os dois, só quebrada pelo atendente ao trazer o pedido.

– Rapaz, essa torta de limão é a melhor da cidade. Tem certeza que não quer?

– Não. Aproveite. Bem, preciso ir…

– Não, fique. E aí? O que tem feito?

– Só trabalho. Vários projetos…

– Esta cidade não para de crescer. Prédios aparecem de repente que nem capim. Aonde isso vai dar, hein? Vocês tinham que inventar um jeito de humanizar o centro. Quem sabe mais verde, mais parques.

– Mais parques! Pra quê? Pra virar um antro de viciados? Um ponto de encontro pra bandidos?

– Não exatamente. Seria um jeito de atrair a população boa para cá. Além disso, um bom policiamento…

– Era só o que faltava. Você falar em bom policiamento. Somos a minoria, coronel. Não se deu conta disso ainda?

– Acho que deveria provar essa torta. Pelo menos adoçaria suas palavras.

– Prefiro ser mais azedo do que o próprio limão do qual ela é feita. Pelo menos falo a verdade. Só quem sentiu o problema na pele sabe o que é.

– Vai ficar assim até quando?

– Até o dia que alguém fizer alguma coisa pra parar esses caras. Vocês não enxergam que estamos cada vez mais acuados?

– Claro que enxergamos, Atílio. E uma coisa eu lhe digo: Todos os esforços são feitos para conter a violência, mas…

– Mas vocês não dão conta. Gente de todas as classes sociais está sob a ameaça de uma força muito bem organizada. Alguém tinha que aterrorizá-los da mesma forma como fazem conosco.

– Não é assim que funciona. Tudo deve ser estrategicamente planejado. Por isso é que existe o centro de inteligência da polícia.

– Inteligência? Huh!

– Vamos mudar de assunto, Atílio.

– É assim que as coisas funcionam nesse país. Quando não se sabe o que fazer, simplesmente muda-se o assunto, e tudo dá na mesma. Quer saber? A sujeira da política é como uma infiltração de água. Quando descoberta, já é tarde demais. – Atílio se levantou, tirou o dinheiro do bolso e lançou sobre o balcão. Deu as costas deixando Vinícius bastante constrangido.

Ao chegar à casa, isso por volta das oito da noite, a primeira coisa que fez foi tirar os sapatos. Em seguida, jogou-se na cama. Desligou a luz e pensou: “A escuridão infelizmente não é a morte, é só um tipo de desligamento dessa realidade sacal na qual eu vivo.” – E adormeceu. Por volta das cinco horas da manhã, nem havia amanhecido ainda, o celular tocou. Atílio vasculhou o bolso esquerdo da calça, tirou o aparelho e deu uma olhada para ver quem poderia ser àquela hora. Era Lívio. Imediatamente atendeu:

– Lívio?

– Venha para a construtora urgente.

– Algum problema?

– Eu te falo assim que chegar.

Sem se despedir Lívio desligou. Atílio saltou da cama, nem trocou de roupa. Apenas lavou o rosto e saiu apressado. Ao chegar, Lívio e Cássio já o esperavam na recepção.

– Para a sala de reunião. – Disse Lívio com uma expressão preocupada.

Mas o que está acontecendo?

– Daqui a pouco saberá – Disse Cássio.

Já na sala, os três se sentaram ao redor da mesa. Lívio tamborilava os dedos impacientemente e disse:

– Recebi uma ligação há algumas horas da engenharia da prefeitura. Eles foram alertados pelos bombeiros sobre um acidente gigantesco que aconteceu. Vocês não vão acreditar. Ligue a TV.

O noticiário apresentava imagens que mais pareciam ser cenas de um bombardeio. O jornalista, bastante afetado, narrava o que via em tempo real:

“Primeiro, ouviu-se um barulho ensurdecedor que foi ouvido a quilômetros de distância. Depois levantou uma quantidade gigantesca de poeira. Houve um desabamento por volta das três e trinta desta manhã. Uma cratera se abriu e engoliu parte do presídio do Carandiru, zona norte de São Paulo. Tudo aconteceu em segundos. Bombeiros isolaram a área. A prefeitura foi contatada e o responsável alega que a demolição estava prevista para essa noite. Contudo, ninguém foi avisado sobre esta suposta demolição. A prefeitura alega que os prisioneiros foram levados para outros presídios do estado e, por medida de segurança, não poderiam ter divulgado a ação. O estranho é que a cratera é enorme, diferente dos procedimentos utilizados nas implosões de prédios. A prefeitura justifica o método com a alegação de que se trata de uma manobra segura e de baixo custo, cujo resultado apresentado mostrou-se eficiente. A cratera engoliu parte da avenida principal e o trânsito precisou ser desviado. Parentes dos detentos começam a se aglomerar para saber o destino dado a eles. O secretário de segurança afirma que logo divulgará uma lista e o local da transferência de cada um. Moradores da região estão assustados. Coronel Vinícius está no local e disse que a operação de transferência foi um sucesso. Contou com o apoio da tropa de choque.”

– Por favor, pode desligar, sim? Pediu Lívio a coçar impacientemente a testa.

– Demolição. – Disse Atílio.

– Demolição? Isso é o caos! Eles mentem. – Interveio Cássio.

– Esse tipo de fatalidade pode acontecer. Já se sabe a causa? Perguntou Atílio com o cenho iluminado.

– Não. Ainda não. Mas a prefeitura resolveu mentir para se defender. São centenas de mortos. Como farão para ocultarem os corpos? – Indagou Lívio que andava de um lado para o outro.

– O problema não é nosso. Estive lá para vistoriar. Até pedi para a prefeitura trocar parte da tubulação. – Disse Atílio.

– Eles crucificarão alguém. – Ressaltou Cássio.

– Não há ninguém para ser crucificado. A Casa de Detenção foi construída de forma irregular pelo estado. Portanto, a culpa é do governo e não nossa. Tanto é que a adutora não foi especificada na planta. Cumprimos com a nossa parte de verificar possíveis infiltrações.

– Mas o que provocou a erosão? Você esteve lá, Atílio. Não verificou nada de extraordinário?

– Nada. Apenas tubulações velhas e a bendita adutora. Provavelmente ela rompeu. Considerando o tamanho da cratera… o certo seria irmos até lá para verificar.

Cássio ergueu a cabeça e deslizou o dedo indicador pela testa.

– Resta esperar o que os peritos dirão. Por enquanto, esperaremos até obtermos o sinal verde para prosseguir com o projeto da nova prefeitura. – Disse Atílio com discreto sorriso.

– Não se preocupa com todas aquelas vidas perdidas? – Indagou Lívio.

– Algum dia eles se preocuparam com as nossas? – Retrucou Atílio.

Depois de deixarem a sala, Atílio ligou novamente a TV. Uma nova notícia de última hora, mostrou que a parte restante do complexo penitenciário também tinha sido engolido pela cratera. Enquanto o repórter noticiava a suposta demolição do complexo penitenciário, ao fundo pode se ouvir um ruidoso impacto final da estrutura de um dos pavilhões. O interessante foi que ninguém falava em mortes. Teria a imprensa sido comprada? Vinícius mais uma vez foi entrevistado. Garantiu que estava tudo bem e que a demolição fora um sucesso.

 

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POSTADO POR

Geraldo Medeiros Jr.

Geraldo Medeiros Jr.

Geraldo Medeiros Jr. Roteirista, contista, dramaturgo e romancista. Ganhador do terceiro prêmio literário SFX - 2015, promovido pelo Governo do Estado de São Paulo em conjunto com a Secretária da Cultura de São José dos Campos. Especializado em ficção e fantasia pela Universidade de Michigan.

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  • Bem contado esse capítulo. Atílio é o Justiceiro, um homem sem escrúpulos, que usa de todos os meios imagináveis para executar sua vingança.

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